A Abetarda-comum Otis tarda é uma ave da ordem dos gruiformes, da dimensão aproximada de um perú mas mais pernalta, apresentando um grande dimorfismo sexual: os machos são bastante maiores do que as fêmeas. Assim, enquanto que as fêmeas têm cerca de 80 cm de comprimento e 1,8 m de envergadura, os machos têm 1 m de comprimento e atingem os 2,3 m de uma ponta à outra das asas; as fêmeas pesam entre 4 e 5 kg, mas os machos adultos chegam a atingir os 16 kg. Possui tons creme, cinzento e branco, branco esse muito visível nas asas quando em voo; os machos adultos apresentam tufos de penas ao lado do bico que fazem lembrar bigodes, os quais só estão totalmente desenvolvidos a partir dos 6 anos. É a mais tímida das aves europeias, levantando voo a várias centenas de metros do observador. Para levantar voo necessita de tomar balanço.
Distribui-se numa vasta área norte africana, europeia e asiática, que se estende de forma descontínua do Norte de Marrocos e Península Ibérica até à Mongólia e Leste da China, entre os 35º e os 55º N de latitude. A Península Ibérica possui a maior população europeia, com a população espanhola nidificante a atingir os cerca de 14.000 indivíduos e a portuguesa a rondar as 600-800 aves. Em Portugal a Abertarda ocorre desde o sudeste da Beira Baixa até ao norte do Algarve, sendo mais comum na região do Campo Branco (Castro Verde) onde, em cerca de 885 km2 onde se efecturam 10 contagens entre 1997 e 1999 se contou um número máximo de 702 aves em Novembro de 1998.
A Abetarda é uma espécie ameaçada a nível mundial, tendo sofrido um forte declínio desde o século 18 devido sobretudo à modificação dos meios agrícolas extensivos em que ocorre, tanto por intensificação como por abandono agrícola, e à crescente pressão humana que conduziu a perdas de habitat e caça excessiva. Várias populações locais extinguiram-se neste período. Apesar de ter sofrido uma regressão importante em Portugal e Espanha, desde meados dos anos oitenta a população Ibérica de Abetardas ter-se-á mantido razoavelmente estável. Está, no entanto, largamente dependente da existência de áreas de agricultura cerealífera tradicional de sequeiro, ameaçadas pelo regadio e florestação e de manutenção economicamente dificil. Em Portugal é considerada uma espécie vulnerável, sendo englobada, em termos europeus, na categoria SPEC 1 (SPEC corresponde a Species of European Conservation Concern - espécies que suscitam preocupações de conservação a nível europeu), relativa a aves que possuem uma população globalmente ameaçada.
Originariamente a Abetarda ocorria em vastas áreas naturais cobertas por vegetação herbácea, denominadas estepes. Esta e outras espécies de aves estepárias adaptaram-se depois às pseudo-estepes criadas há muito pela agricultura extensiva. Em Portugal frequenta sobretudo vastas planícies sem árvores onde se pratica uma cerealicultura tradicional, com searas pouco densas, intercaladas com pousios e pastagens, ainda que ocorra igualmente nas orlas de montados abertos de sobro e azinho e de olivais. Tal como o Sisão, frequenta parcelas de leguminosas (por exemplo, luzerna, gão-de-bico) para se alimentar.
Consome uma variedade de grãos, folhas, frutos e talos de diversas espécies de plantas. Alimenta-se igualmente de grandes insectos e outros invertebrados, bem como de pequenos vertebrados como lagartixas e ratos do campo.
Desde o início de Março até meados de Maio, com um pico em Abril, os machos de Abetarda juntam-se em arenas de parada onde executam danças nupciais colectivas verdadeiramente espectaculares para atrair as fêmeas. No climax da parada os machos tornam-se numa bola branca ondulante de penas reviradas, uma visão impressionante. Uma vez escolhido o macho, as fêmeas aproximam-se dos locais de parada para acasalar e afastam-se de seguida. A participação do macho na reprodução da espécie termina ali. As fêmeas incubam normalmente entre 2 e 4 ovos, que são depositados num ninho situado no chão entre a erva alta, frequentemente em searas ou pousios recentes. No Alentejo começam normalmente a avistar-se os primeiros jovens do ano ( abetardotos) no início de Maio. Os recém-nascidos são nidífugos, isto é, saem do ninho e acompanham a mãe pouco depois do nascimento.
A Abetarda é essencialmente residente na Península Ibérica, ainda que efectue movimentos sazonais razoavelmente extensos e erráticos, sobretudo no Inverno. Existe ainda pouca informação sobre as deslocações que efectuam uma vez terminada a época de reprodução, mas supõe-se que diversas aves provenientes de Espanha visitem o nosso País no Inverno. Algumas populações do Centro e Este da Europa são migradoras.
O macho da Abetarda é a mais pesada ave europeia, sendo uma das mais corpolentas aves voadoras do mundo, só suplantada pela Abetarda gigante Choriotis kori da Africa do Sul.
Em Portugal, é nas planícies de cerealicultura extensiva de
Campo Branco, região de Castro Verde, que as abetardas são mais
comuns, sendo Abril um mês particularmente apropriado para a sua observação
uma vez que é nessa altura que os machos efectuam as suas espectaculares
paradas nupciais.
LEITURAS RECOMENDADAS
Alonso, J.C. e Pinto, M. (1997). Great Bustard Otis tarda. In: Hagemeijer, W.J.M. e M.J. Blair (eds) The EBCC Atlas of European Breeding Birds. Their Distribution and Abundance. T and AD Poyser, London: 244-245.
Cruz, C.M. (1996). Situação actual da população de Abetarda (Otis tarda L.) numa zona a sul de Évora. Ciência e Natureza, 2: 65-68.
Moreira, F. (1999). Relationships between vegetation structure and breeding bird densities in fallow cereal steppes in Castro Verde, Portugal. Bird Study, 46: 309-318.
Morgado, R. e Moreira, F. (1999). Aspectos da biologia reprodutora da Abetarda Otis tarda L. em Castro Verde. In: Beja, P., Catry, P. e Moreira, F. (Eds), Actas do II Congresso de Ornitologia da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. SPEA, Faro: 12-13.
Pinto, M. (1999).Abetarda-comum Otis tarda. In: Elias, G.L., Reino, L.M., Silva, T., Tomé, R. e Geraldes, P. (coords) Atlas das Aves Invernantes do Baixo Alentejo. SPEA, Lisboa: 162-163.
Rocha, P.A e Moreira, F. (1999). Censo da Abetarda no Campo Branco no período Fevereiro 97 - Março de 99. In: Beja, P., Catry, P. e Moreira, F. (Eds), Actas do II Congresso de Ornitologia da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. SPEA, Faro: 93-95.
Rufino, R. (1989). Atlas das Aves que Nidificam em Portugal Continental. SNPRCN, Lisboa.
Rui Borralho
Fonte: www.naturlink.pt
A Abetarda-comum Otis tarda é uma ave da ordem dos gruiformes, da dimensão aproximada de um perú mas mais pernalta, apresentando um grande dimorfismo sexual: os machos são bastante maiores do que as fêmeas.
É a mais tímida das aves europeias, levantando voo a várias centenas de metros do observador.
Fonte: www.tecnet.pt