No caso do açaizeiro, que sofre duplo extrativismo (colheita de fruto e extração de palmito), o crescimento do mercado de fruto proporcionou à formação de populações mais homogêneas nas áreas mais próximas dos grandes centros consumidores, decorrente da redução da extração de palmito. As conseqüências da formação dessas populações homogêneas devem ser bem avaliadas em todos os seus aspectos.
O manejo tem sido enfatizado como a forma de garantir a extração sustentada dos recursos naturais. No extrativismo da madeira, pesca e caça, por exemplo, há a preocupação de serem igualadas as taxas de extrações com a capacidade de regeneração. No entanto, a taxa de extração biológica, muitas vezes, não garante a sustentabilidade econômica.
O manejo de açaizais visa o aumento da capacidade de suporte e, com isso, obter taxas de extração que assegurem maior rentabilidade à atividade. As diferentes características quanto ao manejo dos recursos naturais, recomendam, portanto, cautela para determinadas propostas que procuram induzir a adoção da "colonização extrativa" na Amazônia.
Nos últimos 10 anos, com a valorização dos frutos do açaizeiro, há a tendência de adensamento desta espécie e, como conseqüência indireta, a redução da biodiversidade de várzea, com a eliminação de plantas não-produtoras de frutos, como as palmeiras masculinas de buritizeiro (Mauritia flexuosa L.), cuja manutenção é considerada desnecessária pelos ribeirinhos, mas de importância para a produção de pólen e produção de frutos nas plantas femininas.
O fato das áreas de ocorrência de açaizeiro sofrerem inundações diárias tem restringido a pressão de uso da terra para fins agrícolas, permitindo a regeneração das populações de açaizais. Com o gradativo crescimento do mercado de frutos, é provável que grandes áreas do estuário amazônico sejam transformadas em populações homogêneas de açaizeiro ao longo das margens dos cursos d'água. Por outro lado, outras transformações antrópicas, levadas a efeito nos últimos dois séculos e meio (extração de madeira, abertura de canais, coleta de outros produtos extrativos etc.), juntamente com o processo de crescimento de populações homogêneas de açaizeiro, devem ter os seus efeitos sobre a biodiversidade melhor analisada.
Muito embora esta atividade provoque danos ambientais menores do que as atividades agrícolas, em comparação com as áreas de terra firme, se constitui um erro analisar as atividades extrativas considerando apenas do ponto de vista estático, esquecendo seu dinamismo, as transformações e as inter-relações ao longo do tempo.
O ribeirinho tem diante de si a alternativa de colher frutos ou extrair palmito do açaizeiro (Fig. 2), dependendo dos preços relativos destes dois produtos e do custo da mão-de-obra. Se o preço do fruto sobe, proporcionalmente, mais que o do palmito, a tendência da ação extrativa é de ser concentrada, com maior ênfase, na colheita de frutos (A). Por outro lado, quando o preço do fruto é menor, a tendência é de ser dada maior importância para a extração de palmito (B).

Fig. 2. Possibilidade de manejo de recursos extrativos no aumento
da fronteira de produção e de eficiência.
Nas áreas mais próximas do mercado e com facilidades de transporte, a extração dos frutos do açaizeiro tem sido mais lucrativa e vantajosa. A relação de preço mais desvantajosa para o palmito foi a principal causa que motivou a conservação dos estoques de açaizeiro, quando comparada com as políticas ambientais restritivas e que não tiveram sucesso.
Em áreas distantes do mercado e com dificuldades de transporte, a extração de palmito é mais vantajosa. Apesar da grande disponibilidade de estoques de açaizeiro, estes podem ser aumentados com a prática de manejo. O cenário futuro para a expansão do cultivo do açaizeiro está relacionado com o crescimento dos mercados de fruto e palmito, fato que pode motivar a implantação de cultivos racionais, em outras regiões do Brasil.
Para muitos produtos extrativos, tanto para aqueles que exigem o aniquilamento do recurso como apenas a coleta, a extração é efetuada da forma mais racional possível, a fim de não prejudicar a capacidade de suporte. É bom lembrar que o manejo racional não implica na permissão de sua exploração ad infinitum, uma vez que depende das relações econômicas, na qual o produto extrativo está inserido.
Os produtos extrativos que se encontram em grandes estoques, tais como madeira, castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa H.B.K.), babaçu (Orbygnia speciosa (Mart.) Barb. Rodr.) e açaí, esforços devem ser efetuados para garantir a extração o mais racional/sustentável possível. Isto asseguraria uma exploração por um período maior, bem como garantiria a sua conservação.
Para muitos produtos extrativos, tal como o açaí no Estado do Pará, o manejo da floresta, para a coleta de frutos, tem como resultado os estoques mais homogêneos e, conseqüentemente, o aumento da produtividade da terra e da mão-de-obra. Esse fato não deve ser considerado como regra geral, como nos casos em que a extração de outros produtos pode levar ao desaparecimento ou perda de recursos genéticos importantes para o ecossistema.
As populações de açaizeiro, encontradas em áreas de florestas submetidas a constantes alterações, são relativamente elevadas em comparação com a observada em regiões com reduzida densidade demográfica e, conseqüentemente, baixa intensidade de exploração dos recursos naturais.
A principal razão para que os açaizais do estuário amazônico apresentem grande concentração de plantas de açaizeiro, é o fato dessas áreas serem intensamente exploradas pelos habitantes ribeirinhos, os quais praticam a eliminação das espécies consideradas de baixo valor comercial que ocorrem naturalmente nas áreas de várzea. Com isso, o açaizeiro, por ser considerado planta pioneira, domina o ambiente, chegando a formar populações até 5 vezes maiores que aquelas observadas em áreas de várzea com a vegetação original pouco ou não-alterada, segundo alguns autores (Costa et al. 1973; Costa et al. 1974; Calzavara, 1976; Pollak et al. 1995).
As práticas de manejo desenvolvidas pelos produtores ribeirinhos para a formação de açaizais, com a finalidade de produção de frutos, apesar de provocarem mudanças consideráveis na composição florística da floresta de várzea, permitem aos açaizais manterem as características funcionais e estruturais da floresta, além de propiciar ao produtor ribeirinho a concentração de espécies de valor econômico (Brondizio et al. 1993). O inventário da vegetação de floresta de várzea não-manejada, no Município de Ponta de Pedras, possibilitou a identificação de 44 espécies, enquanto na floresta de várzea, intensamente manejada para a formação de um açaizal, a ocorrência foi de apenas 15 espécies. As práticas de manejo, aplicadas pelos ribeirinhos nas áreas de açaizais nativos, afetam as condições ambientais e, conseqüentemen-te, as plantas remanescentes.
A grande capacidade de regeneração do açaizeiro, a partir de touceiras remanescentes do corte do palmito, e de sementes que germinam espontaneamente nas áreas de várzeas, tem possibilitado a formação de açaizais com elevada concentração de plantas, mesmo em áreas onde é praticado, rotineiramente, o extrativismo do palmito. Essas populações, além de elevadas, são semelhantes quando comparadas com outras áreas com diferentes idades após o corte do palmito.
Ao contrário do que ocorre com algumas espécies de palmeiras nativas, o açaizeiro, em condições naturais, apresenta elevada taxa de germinação das sementes, cuja dispersão ocorre das mais variadas formas, dando origem a grande quantidade de plantas jovens, capazes de sobreviver sob condições de sub-bosque, a espera de luminosidade para atingirem com mais rapidez a fase adulta. Essas condicionantes conferem vantagens à espécie em se tratando de estratégia e equilíbrio demográficos da população (Bullock, 1980; Sist, 1989).
A forma de exploração sistemática dos açaizais nativos de várzea, pelos habitantes ribeirinhos, depende, fundamentalmente, da localização do açaizal em relação aos principais conglomerados urbanos, tradicionalmente consumidores do açaí, com destaque para a cidade de Belém e alguns municípios situados às suas proximidades. Mesmo com o processo de urbanização, as populações rurais que migraram para os centros urbanos, não abandonaram o hábito de consumo do açaí.
Nas áreas circunvizinhas a grandes centros urbanos, como Belém, a consciência é quase geral para a preservação dos açaizais, ou seja, destinando-os, preferencialmente, para a produção de frutos, pois, é sabido que toda a produção obtida, ao longo do período de safra, é facilmente comercializada, mesmo que a preços menores quando comparados com os alcançados durante a entressafra. Nessas áreas, a extração de palmito só ocorre quando o produtor ribeirinho necessita de capitalização imediata, quando recorre à sua "poupança", que é o estoque de palmito disponível no açaizal produtivo, pois, tem a consciência de que o mesmo estará recomposto algum tempo depois.
Nas localidades mais distantes, onde o tempo gasto com o transporte fluvial é superior a 12 horas, inviabiliza a conservação e comercialização dos frutos, os ribeirinhos exploram, na maioria das vezes, quase que exclusivamente os açaizais nativos para a produção de palmito. Por essa razão, a indústria palmiteira, inicialmente instalada às proximidades de Belém, foi deslocada, gradativamente, para as regiões onde a pressão pela coleta de frutos é ainda relativamente pequena, permanecendo apenas as "fabriquetas" que extraem, industrializam e comercializam o palmito sem qualquer forma de controle.
Modelos de manejo
É bastante enfatizada na Amazônia, a adoção de práticas de manejo sustentável de recursos naturais, como solução ecológica-econômica. Entretanto, considerando a facilidade quanto ao acesso a novos estoques de recursos naturais, o extrativismo em áreas não-manejadas tem apresentado, em curto prazo, maiores vantagens econômicas.
As florestas de várzea, em que o açaizeiro é um dos componentes mais importantes, são exploradas das mais variadas formas, principalmente, através de atividades extrativas (Anderson & Jardim, 1989; Oliveira Jr. & Nascimento, 1992; Anderson & Ioris, 1992; Brondizio et al. 1994). O diagrama da Fig. 3 representa o processo tradicional de exploração dessas florestas, com ênfase para o extrativismo do açaizeiro visando às produções de fruto e palmito.
A partir de resultados experimentais e de informações obtidas junto aos ribeirinhos, que se dedicam ao extrativismo do açaizeiro e de outras espécies; ao plantio de enriquecimento de áreas; e à coleta de frutos e extração de palmito, foram definidas algumas estratégias com vistas à melhoraria do rendimento dos sistemas de exploração das florestas de várzeas do estuário amazônico (Nogueira, 1997). Para que seja garantido o manejo de floresta, com rendimento sustentável e exploração de forma cíclica, no mínimo, deverão ser observados os aspectos de avaliação do estoque disponível, as taxas de incremento e a regeneração natural de cada espécie a ser explorada (Reis et al. 1993).

Fig. 3. Processo tradicional de uso do ecossistema de floresta de
várzeas do estuário amazônico.
Considerando a forma como os açaizais vêm sendo explorados, e algumas práticas bem sucedidas realizadas pelos ribeirinhos, é possível propor, de modo racional e equilibrado, manejo de exploração de açaizais nativos, conciliando a proteção ambiental com o rendimento econômico. O pressuposto básico deve estar voltado para o estabelecimento de florestas diversificadas de várzeas , que possam proporcionar aos ribeirinhos rentabilidade maior que a obtida com a forma atual de exploração.
Nesse contexto, deve ser considerado que o manejo e a exploração do maior número possível de espécies, constituirão em aspectos favoráveis para a manutenção da biodiversidade, evitando, com isso, o risco da formação de maciços homogêneos de açaizais (tendência atual), e também favorecer o ressurgimento de espécies vegetais nativas, que praticamente desapareceram da região.
O diagrama representado na Fig. 4, propõe o manejo e a utilização das florestas de várzeas, tendo o açaizeiro como componente principal, porém, consorciado com as espécies de ocorrência natural na própria área e com outras introduzidas, caracterizando dessa forma o enriquecimento e a manutenção da biodiversidade.
Fig. 4. Proposta de exploração do ecossistema florestal de várzea do estuário amazônico, com enriquecimento da biodiversidade na formação de florestas econômicas
O processo consiste, basicamente, na eliminação das plantas de espécies consideradas de baixo valor comercial, cujos espaços livres surgidos são ocupados com o plantio de mudas de açaizeiro e de outras espécies com importância econômica. No caso específico do açaizeiro, também podem ser utilizadas plantas jovens. com 4 a 5 folhas e altura média de 50 cm, oriundas de germinação espontânea de sementes e transplantadas de áreas próximas (Fig. 5).

Fig. 5. Planta jovem de açaizeiro, provinda de germinação
espontânea de semente, transplantada para o local de plantio .