Propagação assexuada
Os perfilhos são emitidos na base do estipe do açaizeiro, em número variável, dependendo do genótipo e das condições ambientais. A extração de perfilhos tem uso restrito, por causa do pequeno número de plantas que podem ser obtidas por esse processo (Oliveira et al. 2000). Nesse processo de propagação, a taxa de multiplicação é baixa, quando comparada com a sexuada, sendo possível extrair de 5 a 10 perfilhos por touceira a cada ano, enquanto uma única planta pode produzir, anualmente, até 10 mil sementes.
A extração de perfilhos da planta-mãe é realizada no período mais chuvoso do ano, quando são observadas maiores taxas de sobrevivência no viveiro, porém, não ultrapassando os 60%. Os perfilhos devem ter a altura mínima de 50 cm e apresentarem, pelo menos, uma folha (flecha) ainda fechada.
Os perfilhos estão intimamente ligados à parte basal do estipe adulto e emitidos abaixo do coleto. Quando novos, os perfilhos não têm raízes em número suficientes que garantam o desenvolvimento normal das mudas. Assim, quando do desmembramento, esses são mantidos junto à planta-mãe por cerca de 60 dias, para o completo desenvolvimento do sistema radicular.
Essas mudas podem ser transplantadas para sacos de plástico preto (15 x 35 cm), contendo substrato orgânico, constituído de solo (60%) e matéria orgânica (40%), e mantidas em viveiro com interceptação de 50% da radiação solar direta, ou plantadas diretamente no campo, quando a área de cultivo estiver próxima ao campo de matrizes.
Propagação sexuada
A semente do açaizeiro é envolvida por uma camada de fibras, recoberta por fina cutícula oleosa, apresenta um embrião diminuto, com abundante tecido endospermático compacto, o perianto parcialmente fibroso, rico em sílica e pobre em lipídios (gorduras), proteínas e amido. O endocarpo é lenhoso, séssil, de forma arredondada, com diâmetro de 1 a 2 cm e peso de 0,8 a 2,3 g. O mesocarpo ou polpa tem a espessura de 1 a 2 mm e corresponde de 5% a 15% do volume do fruto (Carvalho et al. 1998; Rogez, 2000). O epicarpo corresponde à fina camada externa do fruto, com coloração que pode variar, quando maduro, de verde ( açaí branco) a violáceo ( açaí preto).
O endocarpo, estrutura utilizada na propagação sexuada do açaizeiro, representa cerca de 73% do peso do fruto.
Obtenção de sementes e preparo de mudas
A maioria dos plantios comerciais implantados no Estado do Pará foi feita, até recentemente, a partir de sementes com características desconhecidas e não-selecionadas. O açaizeiro por ser planta de fecundação cruzada (alógama) favorece a segregação de suas características morfológicas e produtivas, resultando na formação de plantios heterogêneos, com produções desuniformes e de baixo rendimento de frutos e polpa.
As sementes são obtidas de plantas-matrizes com características desejadas, com base no tipo de estipe (touceira), comprimento do entrenó (cicatriz foliar), número de cachos emitidos, produção de frutos, rendimento de frutos por cacho e de polpa por fruto. São bons parâmetros de avaliação e seleção de plantas-matrizes, para a obtenção de sementes, aquelas com produção de frutos superior a 5 latas/touceira e com o rendimento mínimo de 8 litros de polpa/lata com 14 a 15 kg de frutos.
Depois de colhidos, os frutos são submetidos ao processo de extração da polpa, com a ajuda de máquinas despolpadoras ou batedeiras de açaí. Após o despolpamento, e antes da semeadura, as sementes são lavadas com água potável. O despolpamento manual pode ser usado para pequenas quantidades de sementes e consiste da remoção, com o auxílio de um estilete, do mesocarpo e do epicarpo.
Acondicionamento de sementes
As sementes de açaizeiro perdem a viabilidade rapidamente, pois apresentam comportamento recalcitrante, não suportando a secagem nem o armazenamento a temperaturas abaixo de 15 oC. Por esse motivo, não podem ser conservadas pelos processos convencionais de armazenamento, cujos pressupostos básicos consideram a secagem e o armazenamento das sementes a baixas temperaturas. O ideal é que sejam semeadas logo após a colheita e o despolpamento, garantindo a germinação de aproximadamente 100%.
Na impossibilidade de realizar a semeadura de imediato, as sementes são estratificadas em serragem (curtida ou esterilizada em água fervente por duas horas), vermiculita ou carvão moído umedecidos previamente com água. A areia ou solo não são indicados para a estratificação das sementes do açaizeiro, por serem demasiadamente pesados, dificultando o manuseio das embalagens.
Alternativamente, as sementes de açaizeiro podem ser acondicionadas em sacos de plástico sem substrato, necessitando de tratamento prévio, por via úmida, com fungicida específico para sementes, seguido de secagem superficial mantendo o teor de umidade entre 25% e 30%. O modo prático de ser obtido esse nível de umidade é dispondo as sementes, em camada única, sobre papel jornal e mantê-las à sombra durante 24 horas.
Necessidade de sementes
A quantidade necessária de sementes para a produção de mudas, visando à implantação de 1 hectare, dependerá do espaçamento a ser adotado. Considerando que cada quilograma possui de 600 a 720 sementes e a necessidade de seleção de plântulas na sementeira e de mudas no viveiro, é recomendável a semeadura de aproximadamente 1.000 sementes (1,4 a 1,7 kg) para cada hectare a ser implantado no espaçamento 5 x 5 m (400 mudas/hectare).
Semeadura e Germinação de Sementes
A semeadura pode ser feita diretamente em sacos de plástico preto ou em sementeiras preenchidos com substrato orgânico. As sementes também podem ser colocadas para germinar em sacos de plástico, dispostas em camadas estratificadas em serragem ou ainda sem este substrato.
A emergência de plântula do açaizeiro é desuniforme, e se inicia por volta dos 22 dias após a semeadura e se estabiliza aos 48 dias. Em média, a germinação requer cerca de 30 dias e a aceleração do processo ocorre com a imersão das sementes em água morna durante 10 a 15 minutos (Carvalho et al. 1998).
As sementes germinadas são imediatamente repicadas para o viveiro. Quando a germinação das sementes é realizada em sementeira ou em sacos de plástico, com ou sem substrato, a repicagem das plântulas para o viveiro é efetuada antes da abertura do 1o par de folhas, no estádio denominado de "palito", normalmente com 5 a 7 cm de altura. Nessa condição, praticamente 100% das plântulas sobrevivem à repicagem e apresentam desenvolvimento normal. Quando necessário, é realizada a poda das raízes.
Semeadura direta em saco plástico com substrato
Este método é recomendado quando a quantidade de mudas a ser produzida é pequena, entre 500 a 1.000. A semeadura direta de 50.000 sementes, por exemplo, ocupará uma área de 500 m2 do viveiro, além disso, nem todas as sementes germinam, o que exigirá novas semeaduras. Por outro lado, a semeadura de duas ou mais sementes por saco implicará na eliminação das plântulas excedentes, onerando os custos operacionais. Os sacos de plástico devem ter dimensões mínimas de 15 cm de largura por 25 cm de altura. O substrato de enchimento dos sacos é constituído da mistura de 60% de solo, 20% de serragem e 20% de esterco curtido ou ainda da mistura de 60% de solo e 40% de cama de aviário.
É necessário umedecer o substrato antes da semeadura e depois, com ajuda com a ajuda de um bastão, são feitas pequenas covas com profundidade aproximadamente de 2 cm, onde as sementes são depositadas e cobertas por uma fina camada de substrato.
Semeadura em sementeira
Este método é indicado quando é grande a quantidade de mudas a serem produzidas, pois implica em considerável economia de mão-de-obra e possibilita a realização de criteriosa seleção de plântulas a serem transplantadas para os sacos de plástico com substrato. A área ocupada com a sementeira é bem pequena e permite o suprimento de água, em quantidade adequada, e o controle de plantas invasoras. A semeadura de 50.000 sementes ocupará somente 50 m2 na sementeira.
O substrato para o preparo da sementeira é constituído da mistura de areia lavada com serragem curtida, na proporção volumétrica de 1:1. As sementes são semeadas em sulcos distanciados de 4 cm, na profundidade de 1 cm, onde são distribuídas 40 sementes por metro linear, o que permite a concentração de 1.000 sementes por metro quadrado. A repicagem das plântulas para os sacos será efetuada, preferencialmente, no estádio "palito", antes da abertura do 1o par de folhas.
Pré-germinação de sementes estratificadas
As sementes são colocadas para germinar dentro de sacos de plástico transparentes, com dimensões compatíveis com a quantidade de sementes. A estratificação pode ser feita com serragem curtida, vermiculita ou carvão vegetal moído, previamente umedecido. Estes sacos devem ter o dobro do volume ocupado pelas sementes estratificadas mais o substrato, para que contenha oxigênio suficiente às necessidades respiratórias das sementes e serem hermeticamente fechados para evitar o dessecamento muito rápido do substrato. Os sacos são mantidos, até a germinação das sementes, protegidos da radiação solar direta e à temperatura ambiente.
Viveiro
O local para instalação do viveiro deve ser de fácil acesso e próximo de fontes de água, para a irrigação das mudas no período de menor pluviosidade. Deve ter boa drenagem e reduzida declividade, mas que permita o escoamento dos excedentes pluviométricos e, preferencialmente, estar situado próximo ao local do plantio definitivo. Esse procedimento minimiza o excesso de movimentação das mudas e diminui os custos de transporte.
A cobertura do viveiro pode ser feita com palhas de palmeiras (verdes, sadias e tratadas com mistura de inseticida e fungicida) ou sombrite (50% de interceptação da radiação solar) e com a altura mínima de 2 m. Essa cobertura é suportada por uma armação de colmos de bambu ou outro material de mais fácil obtenção no local, fixada com arame ou cordão de plástico. Os canteiros devem ter 1,5 m de largura por 20 m de comprimento, e distanciados entre si de 50 cm, para permitir a movimentação de pessoas.
Os sacos de plástico a serem utilizados devem medir 15 x 25 cm, se as mudas permanecerem no viveiro de 6 a 8 meses; ou de 17 x 27 cm, caso sejam mantidas por período superior àquele período. Esses sacos são perfurados no terço inferior para permitir a drenagem do excesso de água.
No viveiro, sempre que necessário, são realizados os seguintes tratos de manutenção: capinas manuais nos sacos (mondas), manutenção dos drenos, irrigação no período menos chuvoso, adubações (somente se o período de produção de mudas passar de 8 meses), manutenção da cobertura e seu gradual raleamento a partir do 8o mês, para permitir a adaptação das mudas à radiação direta.
As mondas periódicas são realizadas para eliminar as ervas invasoras, que exercem concorrência por água e luz. As mudas de açaizeiro necessitam de cerca de 2 litros de água por dia, assim, se as chuvas não forem suficientes (2 mm/dia), haverá a necessidade de irrigação, que deve ser realizada, preferencialmente, no início da manhã ou no final da tarde, evitando aplicar jato muito forte sobre as mudas ou substrato.
Quando o período de produção de mudas passar de 8 meses, é aplicada mensalmente, via foliar, solução de uréia a 0,5% (5 g de uréia para 1 litro de água). Para cada 100 mudas são necessários 2 litros dessa solução ou 20 mL por saco.
Antes do transporte das mudas para o plantio no campo, é realizado o toalete das mesmas, que consiste da eliminação de folhas secas e amarrio das folhas em torno da flecha.
A Comissão Estadual de Sementes e Mudas do Pará estabeleceu, para a produção de mudas fiscalizadas de açaizeiro obtidas de sementes, as seguintes normas e padrões:
Apresentar altura uniforme, aspecto vigoroso, cor e folhagem harmônicas;
Possuir, no mínimo, cinco folhas fisiologicamente ativas (maduras), pecíolos longos e as folhas mais velhas com folíolos separados. O coleto deve apresentar a espessura da base maior que a da extremidade das mudas;
Ter de 4 a 8 meses de idade, a partir da emergência das plântulas;
Apresentar altura de 40 a 60 cm, medidos a partir do colo da planta;
Apresentar sistema radicular bem desenvolvido e ter suas extremidades aparadas quando ultrapassar o torrão;
Isentas de pragas e moléstias (Regulamento da Defesa Sanitária Vegetal);
A comercialização das mudas somente será permitida em torrões, acondicionadas em sacos de plástico, sanfonados e perfurados, ou equivalentes, com, no mínimo, 15 cm de largura e 25 cm de altura.
Cultivo de açaizeiro em terra firme
O preparo da área deve contemplar a roçagem, manual ou mecanizada, e as operações de limpeza e de preparo do solo executadas durante o período da estiagem. Quando o cultivo do açaizeiro for em consorciação com culturas de ciclo curto, visando à amortização de custos, é aconselhável o preparo do solo de forma mecanizada.
Abertura de covas e plantio
As covas devem ter as dimensões de 40 x 40 x 40 cm e podem ser feitas com draga, enxadeco ou perfuratriz acoplada à tomada de força de trator. Essa operação é realizada no início do período mais chuvoso, para que as mudas se beneficiem da umidade do solo e possam ter um bom desenvolvimento inicial.
No plantio, a porção de terra da camada superior da cova (20 cm) é misturada com 200 g de superfosfato triplo e 5 litros de cama de aviário ou 10 litros de esterco de curral curtido. Essa mistura retornará à cova que, após o plantio da muda, será devidamente preenchida com o solo da camada inferior, sob pequena pressão para evitar a formação de bolhas de ar e posterior apodrecimento das raízes. No momento do plantio, a muda é retirada do saco de plástico, preservando o torrão inteiro. O coleto da muda deve ficar ao nível do solo.
Cultivo solteiro
O espaçamento entre as plantas tem influência sobre a taxa de sobrevivência, crescimento, práticas culturais ou manejo, início da produção e produtividade, com reflexos sobre o custo do processo de produção.
Para produção de frutos, o espaçamento recomendado para o açaizeiro é o de 5 x 5 m ou, alternativamente, os espaçamentos de 5 x 4 m e 6 x 4 m, com manejo de 3 a 4 estipes por touceira. Na Tabela 1, são propostos os números de plantas e de estipes por hectare, de acordo com o espaçamento e o manejo de touceiras adotados.
| Tabela 1. Número de plantas e de estipes por hectare, segundo o espaçamento e manejo adotados no plantio do açaizeiro. | ||||||||
|
||||||||
| Fonte: Embrapa Amazônia Oriental |
A adoção desses espaçamentos propicia bom desenvolvimento em diâmetro; reduz a altura das plantas, minimizando os riscos de tombamento, pela ação de ventos fortes; e facilita a operação de colheita.
Embora seja pouco utilizado, é possível arranjar as plantas de açaizeiro no espaçamento de 5 x 5 m, dispostas em forma de triângulos eqüiláteros (quincôncio), que permite a densidade de 460 plantas por hectare, mantendo de 3 a 4 estipes por touceira.
Cultivos associados e consorciados
Nos plantios com associação de culturas, há a necessidade de ser aumentado o espaçamento entre as linhas de açaizeiro, para evitar a competição entre as raízes e as copas das plantas. Nesse caso, pode ser adotado o espaçamento mínimo de 7 x 4 m (357 plantas/hectare), com o plantio de outra cultura nas entrelinhas. As linhas de plantio de açaizeiro devem ser dispostas no sentido nascente-poente.
Por outro lado, considerando que nos cultivo solteiros são recomendados os espaçamentos de 5 x 5 m, tanto para o açaizeiro como para o cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum (Willd. Ex-Spreng.) Schum.), a consorciação dessas culturas exige, para que seja mantida a luminosidade necessária, garantindo bons níveis de produção do cupuaçuzeiro (cultura de porte mais baixo), o arranjo que distribua as plantas dessas espécies nos espaçamentos de 5 x 10 m (Fig. 1). Para alguns especialistas, quando ocorre modificação dos espaçamentos das culturas envolvidas, o consórcio passa a ser uma associação de plantas. Enquanto isso, nos consórcios são preservados os espaçamentos recomendados para a cultura principal que, no caso do açaizeiro, é 5 x 5 m.
A associação ou consorciação com outras culturas anuais ou semiperenes, durante a fase de implantação e crescimento do açaizeiro, propicia renda ao produtor nos primeiros anos de estabelecimento do açaizal. Esses arranjos permitem que essa palmácea se beneficie dos tratos culturais e dos fertilizantes, químicos e orgânicos, aplicados para suprir as necessidades das culturas anuais e perenes.
Os arranjos de cultivos mistos de açaizeiro, quando duas ou mais espécies compõem o sistema agroflorestal, possibilitam situações mais vantajosas que na monocultura, notadamente quanto há diversificação e distribuição da produção, racionalização do uso de mão-de-obra e maior equilíbrio ambiental.

Croqui da associação de açaizeiro e cupuaçuzeiro.
Dentre os sistemas de associações e consorciações praticados e recomendados para a região, podem ser destacados os plantios, em terra firme, do açaizeiro com espécies anuais _ caupi (Vigna unguiculata (L.) Walp.), milho (Zea mays L.) (e mandioca ou macaxeira) _ durante o 1o ano, e semiperenes _ maracujazeiro (Passiflora edulis Sims.), bananeira (Musa spp.), mamoeiro (Carica papaya L.) e abacaxizeiro (Ananas comosus (L.) Merril) _ até o 3o ano. Essas práticas permitem a redução dos custos de implantação dos açaizais.
O açaizeiro também pode ser consorciado com espécies perenes, como o cupuaçuzeiro, cacaueiro (Theobroma cacao L.) e cafeeiro (Coffea spp.). Os arranjos espaciais das culturas consorciadas podem, ainda, permitir o plantio de 20 a 25 essências florestais por hectare, contribuindo para recuperar, preservar e valorizar o ecossistema.
Associação de açaizeiro e cupuaçuzeiro, com o maracujazeiro como cultura semiperene (Fig. 2).

Croqui da associação de açaizeiro e cupuaçuzeiro,
com o maracujazeiro como cultura semiperene.
Esse sistema possibilita, ao agricultor, dispor de receita durante o ano inteiro, com bom nível de produtividade do açaizeiro, no período de junho a fevereiro, e do cupuaçuzeiro, de novembro a maio. O aumento do espaçamento, entre as touceiras de açaizeiro, garante incidência de luz, em torno de 80%, sem nenhum prejuízo à frutificação das plantas de cupuaçuzeiro.
Associação de açaizeiro e cupuaçuzeiro, com a bananeira como cultura semiperene (Fig. 3).

Croqui da associação de açaizeiro e cupuaçuzeiro, com a bananeira
como cultura semiperene.