Cultivo de açaizeiro em várzea
Nas várzeas do estuário amazônico são encontradas quantidades expressivas de pequenas áreas desmatadas, pelos moradores ribeirinhos, para utilização com agricultura de subsistência, em pequena escala (cana-de-açúcar, arroz, milho, banana, pastagem), as quais são abandonadas após um curto período de utilização.
Essas áreas podem ser reflorestadas com o plantio de açaizeiro, em sistemas de produção solteiro ou consorciado com espécies frutíferas e/ou florestais.
O cultivo de açaizeiro em várzeas, por meio de plantios em áreas desflorestadas, de manejo e de enriquecimento florestal, em associação com outras espécies frutíferas e florestais, adaptadas a essas condições, é incentivado e visto como uma das opções para tornar essas áreas ribeirinhas mais produtivas e ecologicamente melhor protegidas (Nogueira & Homma, 1998).
Seleção e preparo da área
Devem ser utilizadas as áreas de várzeas desmatadas, anteriormente cultivadas com espécies de ciclo curto ou que se encontrem com a cobertura vegetal característica de capoeira rala. O preparo da área consistirá apenas de roçagem manual, a ser realizada durante o final do período chuvoso (abril/maio), quando é possível a implementação de práticas agrícolas em função do menor nível das águas das marés. Essas áreas desmatadas, geralmente, ocupam faixas de áreas de várzea alta, mas apropriadas aos cultivos de espécies anuais, semiperenes e perenes. (Fig. 1 e 2).

Fig. 1. Características da vegetação da área
de várzea sele-cionada para a implantação do sistema
de produção de açaizeiro em cultivo solteiro ou consorciado.

Fig. 2. Aspecto de área de várzea pronta para o plantio
após a eliminação da vegetação.
Plantio e tratos culturais
Nessas áreas, o plantio é realizado no início do período de estiagem (maio/junho). Nesse período, mesmo durante a estiagem na região, os solos das áreas de várzea são permanentemente úmidos, em decorrência das marés periódicas que cobrem essas áreas, com intervalos de 15 dias, com lâmina de água de aproximadamente 40 cm, impedindo que as plantas sejam submetidas a estresse hídrico.
No caso da opção pelo plantio de açaizeiro em sistema solteiro, o espaçamento a ser adotado é de 5 x 5 m entre covas, com a manutenção de 3 a 4 estipes por touceira, cuja emissão, geralmente, ocorre entre 12 e 15 meses após o plantio das mudas no campo. Durante os 2 primeiros anos, os espaços entre os açaizeiros podem ser aproveitados para o cultivo de espécies de ciclo rápido (hortaliças, arroz, milho, banana).
No sistema consorciado, as mudas de açaizeiro são plantadas em covas, obedecendo ao espaçamento de 6 x 4 m, que permite abrigar a população de 420 touceiras/hectare. Juntamente com o açaizeiro, pode ser cultivada a bananeira nas entrelinhas, guardando o mesmo espaçamento dos açaizeiros, utilizando mudas de variedades adaptadas ao ecossistema de várzea, com 420 plantas por hectare (Fig. 3). Junto com essas espécies, também podem ser cultivados o feijão caupi, maxixe e abóbora, como opções de aproveitamento das áreas limpas e de renda para o agricultor em curto prazo.

Fig. 3. Sistema consorciado de açaizeiro e bananeira em área
de várzea
O sistema também contempla o plantio de uma espécie de fruteira (cupuaçu ou cacau), no espaçamento de 6 x 4 m, com a população de 420 plantas/hectare e de uma ou mais espécies de essências florestais, no espaçamento de 12 x 8 m, que garante a população de 104 plantas/hectare. O croqui do sistema completo é apresentado na Fig. 4.
Os principais tratos culturais são os mesmos realizados nos cultivos em terra firme e constam de desbaste dos perfilhos, roçagem, coroamento e limpeza dos estipes. Não é recomenda adubação química, face as boas condições de fertilidade natural dos solos de várzea do estuário amazônico.

Fig. 4. Croqui do sistema de cultivo consorciado de açaizeiro fruteiras e essências florestais, em área de várzea.
Manejo de açaizais nativos
Dentre as possibilidades de exploração das áreas de várzeas, o açaizeiro tem se destacado como componente desse ecossistema, pela facilidade de reconstituir o revestimento florístico, além de ser importante fonte de alimento e de renda para as populações ribeirinhas.
Nas várzeas, quando há a ocorrência de cobertura florestal, é possível fazer o manejo da vegetação visando o aumento da população de açaizeiro ou o enriquecimento com o plantio de mudas dessa e de outras espécies de interesse comercial, conciliando, de modo racional e equilibrado, a proteção ambiental com o rendimento econômico.
Nas áreas destinadas para a produção de frutos, normalmente, são eliminados os estipes de açaizeiro excedentes das touceiras e, também, algumas plantas de outras espécies, com vistas à redução da concorrência por água, luz e nutrientes. Ambos os casos provocam sensíveis alterações nos fatores que afetam a produtividade dessa palmeira. No caso da exploração do palmito, são eliminadas grandes quantidades de estipes de açaizeiro em decorrência da própria atividade.
O manejo de açaizeiro tem a condição de modificar a capacidade de suporte Xc1 para a capacidade limite Xc2 , equivalente a de um plantio racional. Com isto, são alterados os custos de extração, a rentabilidade, a produtividade máxima sustentável (PMS) e o ponto ótimo econômico (Fig. 1).

Fig. 1. Modificação da capacidade de suporte decorrente
do manejo dos açaizais nativos.