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A NORMALISTA

adolfo caminha

Desta vez ia falar o alferes Coutinho, quartel mestre do batalhão, um moreno, de costeletas, cabelo penteado em pastinhas, certo ar arrogante de pelintra acostumado a todas as festas, desde os sambas do Outeiro aos bailes do Clube Iracema, magricela, olhos cavados. Nas horas d’ócio dava-se ao luxo de fabricar sonetos no gênero piegas dos últimos trovadores de salão.

Arrastava ao piano as valsas em moda e dizia-se exímio tocador de flauta.

Convidado à toda parte, não perdia ocasião de exibir-se na poesia ou na música. Tinha fama de primeiro recitador do Ceará, ninguém como ele sabia marcar um quadrilha, todo enfezado, sempre de lenço na mão, metido invariavelmente na sua farda de alferes com colete branco.

Houve um silêncio profundo. Todas as vistas caíra, de chofre sobre o militar como se de sua boca fossem sair preciosas revelações.

Era o alferes Coutinho? Oh? magnífico! Psiu! psiu!... Silêncio!...

- Meus senhores. Respeitabilíssimas senhoras... Não dispondo de dotes oratórios, tão úteis nas ocasiões solenes como esta, eu, que tenho a honra de pertencer à falange dos discípulos de Castro Alves, Casimiro de Abreu, Varela e tantos outros astros de primeira grandeza, que brilham no firmamento da poesia brasileira, eu vou ler uns versos de minha lavra, que tomei a liberdade de dedicar aos donos desta festa inolvidável...

Nem um aparte. O mesmo silêncio cauteloso e recolhido. A noiva abaixou a cabeça afetando modéstia e Loureiro fixou o olhar atrevidamente no orador. Mas o Coutinho, calmo e desembaraçado, sacou do bolso da farda um papel, e lendo:

- Noite de Núpcias é o título dos pobres versos...

- Não apoiado...

- ... que tenho a honra de oferecer a Excia. Sra. D. Lídia, uma das estrelas mais fulgurantes que ornam o céu da sociedade cearense...

Lídia estremeceu com um belo sorriso de agradecimento,

-... e ao Sr. Dias Loureiro, inteligente e zeloso guarda-livros da nossa praça, ambos, portanto, dignos um do outro e da nossa eterna amizade...

- Apoiadíssimo, confirmou Carvalho & Cia, palitando os dentes.

Sem mais preâmbulos, o alferes entrou a declamar com uma convicção admirável os tais versos de sua lavra, uma enfiada de palavrões antigos e bolorentos, que ele procurava animar com sua voz de trovão, seca e cavernosa, brandindo o papel com a mão esquerda e a direita gesticulando como se estivesse a marcar compasso de música.

Ao terminar o último verso -

“Chovam bênçãos de amor sobre os que casam!”

Uma salva de palmas forte e prolongada ecoou na pequenina sala.

- Bravo! muito bem! muito bem!

E o poeta sentou-se agradecendo com repetidos movimentos de cabeça as manifestações de que era alvo. Diversas pessoas levantaram-se e foram cumprimentá-lo de perto. Um velho calvo que se sentava a seu lado, lembrou-se de perguntar-lhe ao ouvido “Se o Sr. Alferes era cearense”.

- Não senhor, respondeu o Coutinho, voltando-se gravemente, sou guasca, nasci na cidade de Porto Alegre.

E contou quando viera para o ceará, disse a sua grande simpatia por essa província e que pretendia casar com uma cearense.

O “brinde de honra” foi feito em duas palavras por Carvalho & Cia à D. Amanda, “encarnação de todas as virtudes domésticas, senhora de incomparável brandura e sisudez”.

- Hip! hip! hip! hurrah!

Foi um delírio esse final de banquete nupcial, em que tomavam parte o exército representado pelo Alferes Coutinho, a poesia na pessoa do autor de Flores Agrestes e o comércio em grosso simbolizado no ventre obeso de Carvalho & Cia. Esgotaram-se as botelhas de vinho do Porto e de cerveja com um açoitamento de quem não bebia água há três dias e depara uma piscina abundante do precioso líquido. E, ao levantarem-se da mesa, os convidados olhavam com soberano desdém a toalha manchada de nódoas de vinho sobre a qual havia um confusão grotesca de copos e pratos em desordem, abandonados ali como restos de um festim sardanapalesco. Uma coisa tinha sido respeitada e conservava-se no mesmo lugar em que fora colocada pela mão zelosa de D. Amanda, era o paliteiro de prata representando um alcaide com chapéu de três bicos e aspecto napoleônico, de braços cruzados , numa imobilidade de objeto de luxo que se receia tocar por escrúpulo.

Os espectadores intrusos evacuaram o corredor com a mesma facilidade de ligeireza com que se tinham introduzido e depressa a sala de jantar ficou entregue à viúva e ao criado. que se ocuparam de cobrir os restos dos bolos, recolhendo-os ao guarda-comidas. O troço dos comensais, homens e senhoras, enchiam a sala de visitas, cujas cadeiras estavam todas ocupadas, e palrava agora desembaraçadamente numa atmosfera pesada de fumaça e heliotrópico, - umas abanando-se com os grandes leques de cetim, outros com os lenços , porque o calor crescia. Transpirava-se por todos os poros, o que fazia o alferes Coutinho trazer constantemente o lenço no pescoço, resguardando o colarinho, onde já havia sinal de suor. A janela estava tomada por algumas pessoas que formavam roda ao redor do Loureiro, em pé. Senhoras entravam e saíam da alcova com ar desconfiado, compondo discretamente os vestidos.

Deram dez horas no relógio da Sé, cujas badaladas faziam-se ouvir, graves e sonolentas, em todo o âmbito da cidade.

Dez horas! Carvalho & Cia. consultou o relógio. Havia uma pequena diferença de dez minutos. Safa! o tempo voava!.

E, alto, levantando-se:

- Vamos, Quininha?

- É muito cedo, acudiu a Lídia, que conversava com Maria do Carmo no sofá.

- É verdade, minha gente, saltou D. Terezinha, saindo da alcova. Os noivos precisam descansar. Dez horas!

- Estávamos tão distraídos! disse o alferes Coutinho puxando os punhos.

- Vamos, vamos, repetiram muitas vozes.

- É cedo, minha gente! implorava a Lídia muito amável, com um sorriso de irresistível faceirice.

Imediatamente todos se levantaram impulsionados pela mesma idéia, à procura dos chapéus, num reboliço crescente, aos encontrões, enfiando pela alcova e pelo corredor.

Estrondou um bocejo senil e demorado, que se propagou por ali a fora - era o velho calvo, de óculos, que se tinha encafuado a um canto da sala cochilando, e que despertara agora num espreguiçamento como se estivesse em sua própria casa.

As senhoras agasalhavam-se nos fichus, defronte do espelho.

D. Amanda, de um lado para outro, de dentro para fora da alcova, não descansava as pernas.

Começaram as despedidas.

Que de beijos estalados à queima roupa! Em pé no meio da sala, os noivos, competentemente formalizados, agradeciam reconhecidos a chuva de felicitações que caiam sobre eles à guisa de flores desfolhadas sobre suas cabeças, ao mesmo tempo que Lídia ia distribuindo a uns e outros botões de laranjeiras.

Que fossem muito felizes; que tivessem uma eterna lua-de-mel; que fossem muito unidos sempre como dois irmãos; que não esquecessem as velhas amizades...

- Olhe, minha filha, aconselhou D. Terezinha com a mão no ombro da Lídia, depois de a ter beijado. Olhe, seja sempre boa para seu maridinho, faça o que ele quiser, o que ele mandar. O homem é que faz a mulher e a mulher é que faz o homem. Adeus, ouviu?

Todos tiveram mais ou menos o que dizer aos noivos.

- Não esqueça o que lhe pedi, ouviu Lídia? recomendou de fora uma voz de mulher.

- Boa noite!

- Sejam felizes!

- Durmam bem!...

Em pouco todos tinham se retirado. Havia ainda alguns curiosos fora, na calçada. Loureiro mandou aproximar o carro que o esperava. A rua estava silenciosa e escura como se fosse alta noite. Defronte, em casa de João da Mata, fecharam-se as portas apagando-se completamente a última luz que clareava aquele trecho da rua do Trilho.

D. Amanda chamou a filha à alcova onde estiveram conversando alguns minutos, e depois, abraçando-a ternamente com os olhos úmidos:

- Deus os conduza em paz...

Lídia beijou comovida a mão da viúva e, dando o braço ao Loureiro, entrou no carro que rodou em direção de Benfica, com a sua luzinha amarela tremeluzindo no escuro.

Minutos depois D. Amanda recebia, como de costume, o Batista da Feira Nova...

X

Quando chegaria sua vez? pensava Maria do Carmo nessa noite, sem poder conciliar o sono, com um desalento profundo no coração apreensivo. Que tal , hein? O Sr. Zuza não se resolvia a pedi-la em casamento, sempre com evasivas, pretextando tolices, como se estivesse tratando com uma biraia qualquer! Porque isso? porque não se decidia logo a dizer a verdade fosse ela qual fosse?

Era sempre melhor do que estar perdendo tempo sem tomar uma resolução franca e definitiva. Quem sabe? talvez o padrinho não fizesse questão agora que a tratava tão bem, que lhe fazia todas as vontades... Uma felizarda a Lídia!... Casara com um guarda-livros, mas embora, casara...

E imediatamente vinha-lhe uma confiança ilimitada no estudante. Já estava tão acostumada com ele que nem era bom pensar em uma deslealdade. Paciência, paciência - Roma não se fez em um dia... Consolava-se ao penar nas confidências íntimas do futuro bacharel, embebidas de ingênua e tocante sinceridade, na franqueza ativa com que ele dizia todas as suas idéias e todas as suas ações, como se já fossem noivos. Zuza contava-lhe tudo com a maior simplicidade, dava-lhe conta de seus passeios, de seus planos, de suas intenções.

Pode-se mesmo dizer que não havia segredo entre os dois. Era lá possível que o Zuza, aquele Zuza tão amável, tão sincero, tão bom a esquecesse, ele que reprovava com frases repassadas de indignação o procedimento de certos indivíduos para quem a mulher outra coisa não é senão uma espécie de fruto amargo que a gente prova e deita fora? Qual! O Zuza era incapaz de descer até onde começava o rebaixamento do caráter de um homem...

Animava-se ao fazer estas considerações tão simples, tão espontâneas, saídas do mais íntimo de sua alma enamorada. Tinha momentos em que tudo afigurava-se-lhe uma comédia, cujo protagonistas - o estudante - aprazia-se em vê-la rendida a seus pés por um simples capricho de rapaz do mundo que se diverte à custa de muitas raparigas como ela, ainda não corrompidas pelos costumes modernos. Nascida no interior de uma província essencialmente católica, educada em um colégio religioso, o convívio com as suas colegas da Escola Normal não lhe apagara de todo essa bondade característica dos filhos do sertão, que se revela em uma confiança ingênua nos outros. Por isso é que ao mesmo tempo Maria não podia acreditar que o Zuza faltasse à sua palavra para com ela. Duvidava às vezes, mas não perdia de todo a confiança, porque amava deveras, e o amor transforma a pessoas ou objeto querido numa espécie de ídolo, que a gente adora como a um modelo de virtudes incomparáveis.

Quando chegaria sua vez? E a figura de João da Mata surgia-lhe aos olhos como uma visão pavorosa, que a fazia estremecer da cabeça aos pés. Sim, o padrinho não gostava que se falasse no Zuza, implicava com ele, odiava-o gratuitamente, sim, gratuitamente, porque o rapaz nunca lhe fizera o menor mal, até pelo contrário, uma vez lhe emprestara cinqüenta mil réis, e ela o sabia pela boca de D. Terezinha. Que infelicidade, a sua, que caiporismo! além do padrinho não gostar do Zuza, aquela casa parecia agora um verdadeiro inferno: era o padrinho para um lado e a madrinha para o outro, ambos de cara fechada, sem se trocarem palavras, e ela, Maria, para um canto, coitada, sem amigas, sem parentes, vivendo uma vida de criminosa...

Que maldito inferno!... Antes nunca tivesse nascido.

Onze horas... meia noite! e ela ainda velava, sem um bocadinho de sono, a matutar na vida, a pensar em frioleiras.

Entrou a parafusar no casamento da Lídia, rememorando toda a festa, tintim por tintim, com a pachorra de quem procura armar um castelo de cartas. - Assim mesmo tinha ido muita gente, sim senhora, parecia até uma festa de gente rica. Inegavelmente a Lídia estava encantadora debaixo do véu de noiva. Nunca vira a igreja de N.S. do Patrocínio tão cheia de povo! Ah! mas fora uma coisa horrorosa o escândalo provocado pelo Guedes. Que horror! Se fosse ela, Maria do Carmo, teria caído no meio da rua com um ataque...

Palpitavam-lhe a imaginação, como num sonho, os menores acidentes daquela noite, em que todos tomaram o seu cálice de vinho e só ela, irressistivelmente mordida de inveja por ver a sua maior amiga num torno de felicidade, ela somente se deixara ficar esquecida como qualquer lagalhé, na impotência da sua tristeza. Entretanto, se não fora o padrinho, ela também podia breve estar de caminho para a igreja, ao lado de seu noivo, metendo inveja às outras. Então é que a festa seria d’estrondo! O coronel Souza Nunes abriria o seu salão iluminado como um palácio real, e haveria dança e música e um banquete lauto. E iria o presidente da província e toda a gente grande do Ceará. Que bom que seria!...

Nisto adormeceu e logo tornou-lhe a aparecer em sonho o negro Romão com as calças arregaçadas e um barril na cabeça a gritar -Arre corno! cercado de garotos que lhe atiravam pedras e sacudiam-lhe punhados de farinha-do-reino na carapinha, por detrás no meio de gritos e assobios.

Depois o preto deixou cair o barril, que se derramou, inundando a calçada de imundícias, e ei-lo montado num cavalo magro, a fazer de palhaço de Circo, uivando uma porção de asneiras, que a molecagem replicava sempre com o mesmo estribilho, a uma voz: - É sim, sinhô!

Depois.... (não se lembrava o resto)

Davam duas horas no relógio do vizinho, quando acordou muito assustada e nervosa, a olhar para todos os lados, sem consciência exata do ambiente que a cercava. Teve um sobressalto ao ver sobre uma cadeira, perto da rede, o vestido com que fora ao casamento. - Credo, que susto!

A luzinha da vela de carnaúba agonizava numa poça de cera derretida.

E essa! Era a segunda vez que sonhava com o Romão, sem quê nem p’ra quê... Com certeza estava para lhe suceder alguma desgraça. Que esquisitice! hum, hum,...

A porta do quarto, que se conservava entreaberta, rangeu nas dobradiças, como se alguém a empurrasse de manso. Apoderou-se de Maria um pavor terrível; arrepiaram-se-lhe os cabelos, e uma extraordinária sensação de frio percorreu-lhe o sangue. Ficou assombrada, sem se mexer, com o ouvido alerta e os olhos fechados, numa prostração de quem está sem sentido. Pareceu-lhe ouvir chamar pelo seu nome e então subiu um ponto o terror que lhe tapava a boca como uma mordaça de ferro. Abriu os olhos para verificar se com efeito estava acordada e tornou a fechá-los mais que depressa. Instintivamente fez um esforço supremo para gritar, para chamar alguém, mas não podia abrir a boca, estarrecida.

Maria? repetiu a mesma voz, que ela julgava ouvir, uma voz fina, mas abafada, como se saísse das entranhas da terra.

E logo:

- Sou eu, Maria. É o padrinho...

De feito, João da Mata vinha-se chegando, pé ante pé, subtilmente, segurando-se à parede, equilibrando-se na ponta dos pés, como um ladrão, sem o menor ruído, com estalinhos de juntas.

Maria encolheu-se toda debaixo do lençol duvidando. Tremia como um doente de sezões, embiocada que nem caracol.

- Não grites, Maria, olha sou eu, teu padrinho, tornou João da Mata, agora quase ao ouvido da afilhada, agarrando-se ao punho da rede.

A rapariga respirou forte, como se saísse de dentro de um buraco, e pôde abrir os olhos, meio aliviada, presa ainda de uma grande comoção. Ao medo sucedera-lhe uma apreensão dolorosa, que o seu espírito repelia como impossível. Não teve tempo de associar idéias, porque o amanuense foi se sentando na rede, a seu lado. - O padrinho por ali, no quarto d’ela, àquelas horas?... Estaria sonhando?...

- Padrinho...

- Sou eu mesmo, minha flor... Olha, queres saber uma coisa?... Deixe-me descansar um bocadinho e eu te direi, ouviste?... Espera...

- Mas, padrinho!...

- Olha, não fales alto... Sou eu, estás ouvindo? eu, teu padrinho mesmo... Bico...

Maria do Carmo não compreendeu logo a presença de João da Mata ali

no seu quarto, àquela hora.

Fez-se uma confusão inextricável, caótica, no seu espírito subitamente assaltado por um turbilhão de idéias sem nexo, disparatadas; o coração pulsava-lhe forte, como se tivesse acabado de fazer um grande esforço; operava-se em seu duplo ser moral e físico um desses abalos extraordinários, que deixam a gente numa prostração invencível. Pela primeira vez na sua vida achava-se frente a frente com um homem, alta noite, no silêncio de um quarto escuro. Mal acordada do terrível pesadelo que acabava de ter, vendo ainda, esboçada na sua imaginação, a figura hedionda do negro com os bugalhos injetados, a boca abrindo-se num riso nervoso e alvar, o peito à mostra, a venta chata, ela permanecia imóvel, olhando para o escuro como uma idiota.

A luz tinha se apagado completamente. Ouvia-se a respiração asmática da criada no quarto pegado à sala de jantar. Longe, nalgum quintal, ladrava um cão. Ao calor insuportável sucedia o friozinho bom da madrugada.

João estava em ceroula, nu da cintura para cima. Desde que chegara da festa do Loureiro não fechara os olhos, a fumar no seu cachimbo curto, que preferia às vezes aos cigarros, andava-lhe na cabeça o plano há muito formado, de ir ao quarto da afilhada uma noite. Nada mais fácil: da sala de jantar, onde dormia agora, ao quarto eram dois passos; o diabo era se a menina abrisse a goela a chamar por gente, isto é que era o diabo!... Qual! ela não tinha coragem para tanto, mormente sabendo logo que era ele, o padrinho. - Mãos à obra, João; nada de pensar em asneiras. Isso a gente inventa uma história de embalar crianças, diz que a vida é esta, e ... foi um dia uma donzela. Oh! pois ela não é tua afilhada! demais, meu besta, já lhe pegaste umas tantas vezes no bico dos seios, sem que ela reagisse, a Maria, naturalmente porque sabes encampar a tua autoridade de padrinho. E depois, que diabo! Quem arrisca... Um, dois...

E, com um salto, o amanuense levantou-se, dirigindo-se ao quarto da rapariga, cosendo-se às paredes, macio, cauteloso, todo agachado, pisando devagar, no bico dos pés descalços.

A fresca da madrugada arrepiava-lhe o tronco magro e cabeludo.

Ah! como se sentia bem agora, sentado na mesma rede em que ela dormia, sozinho com ela, adivinhando, no escuro, toda a incomparável perfeição de suas formas rechonchudinhas de rapariga nova! O calor brando do corpo dela comunicava-se agora a seu corpo, infiltrando-lhe no sangue um fluído bom e vigoroso.

Sentia-se forte como um touro, ali assim a seu lado, ele, um pobre homem sem força, um magricela sem carnes.

E Maria esperava, numa aflição, o desenlace daquela trapalhada que ela não compreendia bem.

Estiveram ambos calados alguns minutos até que o amanuense, escorregando para o fundo da rede, pousou a mão sobre o ombro da afilhada, segredando-lhe - se ela estava com frio?

- Frio? ... não ...

- Pois olha, na sala de jantar, faz um frio dos demônios. Por isso eu vem para junto de ti...

Maria não disse nada.

Então o amanuense começou com uma lengalenga, um despropósito de palavras murmuradas como uma oração, numa voz que mal se ouvia, inclinado sobre a afilhada, sufocando-a com seu hálito nauseabundo, roçando-lhe no rosto a ponta da barba.

- Olha, Maria, dizia-lhe, tu não sabes quanto eu abomino o Zuza... Há muito tempo que estava para te dizer umas certas coisas, mas era preciso segredo, muito segredo... Agora, que estamos sós, deixe que te fale com franqueza... Tu amas o rapaz, não é assim? Não mintas... sei que gostas muito dele, e até já se fala, na rua, em casamento. Ainda hoje alguém afirmou-me que vocês se beijam na Escola Normal. Eu sei de tudo, minha afilhada, eu sei de tudo. Mas, olha bem o que te digo, tudo depende de ti, só de ti...

Maria estremeceu no fundo da rede, debaixo do lençol, e sentiu-se irressistivelmente presa às palavras de João da Mata. Se ele a quisesse deixar, nesse momento, ela não consentiria, tão viva era a sua curiosidade, agora que o padrinho lhe falara do Zuza; e o movimento quase imperceptível da rapariga não passou despercebido a João da Mata.

- Sim, minha cabocla, tudo depende de ti, porque eu também te quero muito bem e não consentiria nunca nesse casamento, se... Olha, deixa dizer-te ao ouvido...

E, colando a boca ao ouvido de Maria:

- ... se não fosses boa para teu padrinho.

Pouco a pouco o amanuense ia deitando ao lado da rapariga, acotovelando-a, machucando-a com o seu corpo ossudo, devagar, cautelosamente.

“-Estava bem armada a rede? Era preciso comprar outra mais larga, mais rica...”

Um grilo entrou a cantar monotonamente num canto do quarto - testemunha oculta daquela cena inacreditável.

Entretanto Maria não dava palavra, com as pálpebras pesadas de sono, respirando a custo, numa espécie de inconsciência muda, como hipnotizada. Este estado porém durou pouco; espreguiçou-se, puxando o lençol para se cobrir melhor e começou a achar certo encanto naquela intimidade secreta, ombro a ombro com o padrinho. Seu instinto de mulher nova acordara agora obscurecendo-lhe todas as outras faculdades, ao cheiro almiscarado que transudava dos sovacos de João da Mata. Coisa extraordinária! aquele fartum de suor e sarro de cachimbo produzia-lhe um efeito singular nos sentidos, como uma mistura de essências sutis e deliciosas, desconcertando-lhe as idéias. Uma coisa impelia-o para o padrinho, sem que ela compreendesse exatamente essa força oculta e misteriosa.

E quando ele, num tom paternal e amoroso, lhe falou no Zuza, Maria teve um frêmito bom, como se tivesse caído por terra o paredeiro que mediava entre ela e o estudante. Tudo dependia dela, somente dela... Ficou a pensar nestas palavras, sem atinar com o seu verdadeiro sentido, alheada, os olhos fitos, quase sem pestanejar, na telha de vidro, por onde escoava agora uma claridade tênue de alvorada;

João respirou, e, passando-lhe o braço por trás do pescoço:

- Então?...

- É quase dia, padrinho, podem nos ver assim...

- E que tem? já nos têm visto tantas vezes? Agora espera, só me vou se me deres uma boquinha...

E, sem esperar resposta, o amanuense beijou-a na face, apertando-a contra si, numa impaciência de quem não tempo a perder.

Maria repeliu-o brandamente.

- Juro-te, continuou ele, juro-te que casarás com o Zuza, mas por amor de Deus, deixa... ou não contes comigo para coisíssima alguma. Por alma de tua mãe que está no céu. Olha, sou eu quem te pede... Ninguém saberá, o próprio Zuza não poderá saber nunca... É como se não tivesse havido nada, são segredos que não aparecem, sabes? Eu te peço...

Tinha-se feito a verdade aos olhos da normalista, como um clarão que de repente iluminasse todo o quarto. ao mesmo tempo que uma luta medonha travava-se dentro de si, sem lhe dar tempo a pensar. Estava justamente em vésperas de ter o incomodo. Toda ela vibrava como uma lâmina de aço ao contato daquele homem que comunicava-lhe ao corpo um fluido misterioso, transformando-a numa criatura inconsciente atraída por um poder extraordinário como o de uma cobra sobre um rato.

As palavras do padrinho, embebidas de voluptuosidade e o nome do Zuza pronunciado naquele instante e, mais que tudo isso, a invocação feita à alma de sua mãe, confundiam-lhe os sentidos, acordando no coração de donzela o que tinha de mais delicado. teve piedade de João, como se ele fosse na verdade o mais desgraçado dos homens. Sentiu-o a seu lado, humilde como um ser desprezível que reconhece a sua baixeza, com uma tremura na voz, rendido, suplicante, e não teve coragem de o enxotar, de dar-lhe com a mão na cara e de desaparecer para sempre d’aquela casa imoral, onde ela vivia tristemente com as doces recordações de seu passado, como uma flor que vegeta num montão de ruínas. Ao contrário d’isto, a visível submissão do padrinho, doera-lhe nalma como a ponta d’uma lanceta. Sem o saber, João da Mata encontrou a afilhada numa dessas extraordinárias predisposições de corpo e alma. em que, por mais forte que seja, a mulher não tem forças para resistir às seduções de um homem astuto e audacioso. Conhecia suficientemente o gênio de Maria - nada mais, e isto lhe bastava para que a vitória fosse certa, infalível.

De resto, algumas palavras atoa murmuradas à surdina, o contato morno de um corpo viril... e Maria do Carmo aumentava o número de suas dores.

A madrugada veio encontrá-la de joelhos, mãos juntas, duas grandes lágrimas no olhar, como um anjo de sepultura, defronte da oleografia de Cristo abrindo o coração à humanidade. Nunca o doce e meigo olhar de Jesus pareceu-lhe tão meigo.

Era domingo. Cantavam galos de campina nas ateiras do quintal. E enquanto, lá fora, a cidade acordava e a vida recomeçava seu eterno poema de alegrias e dores, Maria procurava no coração de Jesus um conforto para seu doloroso arrependimento.

XI

Maria do Carmo passou uma semana inteira, oito dias consecutivos, sem ir à Escola Normal, sem pôr os pés na rua, sucumbida , mortificada, com receios de encarar os conhecidos, sem ânimo para se apresentar em público.

Se até então a vida fora-lhe um nunca acabar de desgostos e contrariedades, o que seria agora, depois de se ter comprometido levianamente para todo o resto da sua existência, entregando-se, num momento de desvario dos sentidos, aos desejos concupiscentes do padrinho?

Estava doida, não havia que ver, estava doida naquele momento, não tinha um bocadinho de juízo! Devia ter visto logo que uma mulher de certa ordem não se entrega por força alguma d’este mundo a outro homem, que não seja o seu marido, o dono de seu coração, o legítimo esposo de seu corpo e de sua alma. Que desgraçada imprudência a sua! Que vergonha, santo Deus, que vergonha! Era para isso que se tinha coração, para se deixar cair numa armadilha daquela... Se fosse uma mulher forte e resoluta, capaz de todos os escândalos, contanto que soubesse guardar a sua honra... bem, não teria sucedido nada. Mas, não : fora uma grandíssima tola, uma menina d’escola, deixando-se levar pelo coração até o ponto de compadecer-se do padrinho! Que infelicidade!...

E chorava que nem uma criança, com a cabeça no travesseiro, metida no seu quarto, dizendo-se a mais infeliz de todas as mulheres, supersticiosa ao peso de sua culpa irremediável, com grandes manchas lívidas ao redor dos olhos, inconsolável na sua dor..

Às vezes supunha estar sonhando, como que procurava iludir-se a si própria, enxugava os olhos na ponta do lençol, via-se ao espelho e experimentava um bem-estar passageiro, um conforto muito íntimo; mas punha-se logo a pensar, a fazer consigo mesma mil conjecturas, e desandava outra vez num choro silencioso, que lhe sacudia o corpo todo em estremecimentos nervosos. Não sabia bem porque chorava; uma coisa, porém, dizia-lhe que nunca mais seria feliz em sua vida, desde o momento que, por sua condescendência imperdoável, entregara seu corpo àquele homem...

À proporção que os dias passavam, sucedendo-se numa monotonia aborrecida, uniformes como os elos d’uma grande cadeia de ferro, crescia o desânimo em Maria do Carmo, cujas feições transformavam-se a olhos vistos. Tomava-lhe o rosto uma palidez de reclusa macerada pelos jejuns, cavavam-se-lhe os olhos, onde se refletia visivelmente o estado de sua alma, e os cabelos iam perdendo aquele brilho resplandecente que era o desespero do Zuza. Em uma semana sua fisionomia adquiria uma expressão iniludível de dor concentrada.

No sábado recebeu um bilhete da Lídia convidado-a para jantar com ela no dia seguinte. “Espero-te sem falta. Todas as minhas amigas tem vindo me visitar, menos tu. Creio que não te dei motivo para procederes deste modo. Por andar incomodada é que ainda não fui te ver”.

Quedou-se numa imobilidade profundamente triste, com a face na não, a olhar para a letra da amiga, escrita em papel-amizade, e ficou assim muito tempo, como num êxtase. Veio-lhe a mente o Zuza. Já não se lembrava d’ele, toda entregue à sua dor. Há uma semana que não o via, nem sequer tinha notícia dele, e agora o estudante aparecia-lhe vagamente na imaginação como a lembrança remota de uma coisa que se viu em sonho. As lágrimas começaram a cair-lhe dos olhos duas a duas, silenciosamente, sobre o bilhete de Lídia.

Uma... duas...

Duas horas da tarde. O amanuense ainda não tinha voltado da Repartição. D. Terezinha costurava na sala de jantar, cantarolando uma modinha cearense em desafio com o sabiá, que desferia seu eterno e monótono dobrado, esquecido ao sol. Havia no tépido interior d’aquela casa a calma preguiçosa d’essa hora do dia, em que se ouve o voar do moscardo impertinente e cantos do galo ao longe, nos quintais. Mariana suspirava na cozinha às voltas com as panelas, cachimbando. Sultão, esse dormia tranqüilamente o seu sono do meio-dia aos pés de D. Terezinha, orelhas murchas, deitado de banda.

Todos os dias, invariavelmente, era a mesma quietação, a mesma sonolência, o mesmo ramerrão, até que viesse o amanuense com as suas hemorróidas ou com sua cachaça dar à casa o ar de sua graça. Freqüentemente João chegava às quatro horas, demorando-se às vezes até às cinco, o que não era muito raro.

Nesse dia, porém, antes que o velho pêndulo da sala de jantar marcasse quatro horas, entrou de chapéu na cabeça, como de costume, para não constipar, e foi direto ao quarto da afilhada.

“- Como tinha passado o dia? Muito fastio ainda!” - E puxando uma cadeira sentou-se ao lado de Maria, que ainda se conservava deitada.

Ao pé da rede, sobre a esteira gasta, eternizava-se uma tigela com o resto de caldo onde flutuavam moscas. João fez um gesto de aborrecimento, e apanhando a tigela:

- Mariana!

Demônio de gente! Naquela casa ele é que fazia tudo, e, se havia uma pessoa doente, era o mesmo que nada.

- Mariana!

- Inhô!

- Não está ouvindo chamar, seu diabo!

D. Terezinha continuava a cantarolar, sem se dar por achada, por pirraça.

Mariana apareceu à porta do quarto, sem casaco, os seios moles, dentro da cabeção da camisa tisnada. pés descalços, cabelos assanhados.

João mediu-a com olhar, d’alto a baixo, e entregando-lhe a louça:

- Por que ainda não tirou isto?

- Estava cuidando do jantar...

- Cuidando no jantar, hein? Cuidando no jantar?... Burra!...

A criada, porém, deu-lhe as costas e saiu rindo com seu ar idiota.

Uma pessoa somente interessava-se pela saúde de Maria do Carmo - era ele, João da Mata, cujos cuidados para com ela redobravam dia a dia.

D. Terezinha, essa nem sequer chegava à porta do quarto, resmungando sempre, rogando pragas, dizendo indiretas, que Maria do Carmo ouvia com lágrimas nos olhos.

Nunca João fora tão bom para a afilhada como agora: Trazia-lhe mimos da rua, bons bocados, confeitos, rendas, com uma solicitude paternal, animando-a, prometendo-lhe muitas felicidades, contando-lhe tudo quanto ouvia dizer na rua, dando-lhe notícias dos conhecidos.

- Teve febre hoje? continuou ele tornando a sentar-se.

- Não sei...

- Deixe ver o pulso... Não, nem um bocadinho... Bom, não se amofine, hein, não se amofine. Amanhã, se Deus quiser, pode levantar-se. E baixo:

- Tolice... Morrendo sem quê nem para quê! Se continuas, é pior... podem até saber... Isto a gente faz cara alegre e vai para a adiante, com as outras, minha tola... Olha a tua amiga Lídia... Casou e casou bem... E assim a maior parte... Deixa de tolices.

Logo no dia seguinte à noite do seu defloramento Maria do Carmo queixou-se de fortes dores de cabeça e nos quadris, indisposição geral, e uma ausência quase absoluta de apetite. Não podia ver comida de espécie alguma nem sentir ao menos cheiro de guisados. Tudo a enjoava provocando-lhe náuseas. Cada vez que se lembrava de João vinham-lhe arrepios na pele e “agasturas na boca do estômago”.

Pungia-lhe uma espécie de remorso, que a fazia passar horas inteiras numa abatimento medonho, encafuada no quarto, sem coragem para continuar a vida como dantes. Lamentava-se como uma desgraçada: - Que vida! que vida!

Não quis almoçar e passou o dia com uma xícara de café, que a Mariana lhe levara.

D. Terezinha não se abalava: era como se Maria do Carmo não existisse. Que fosse para lá com seus faniquitos, não tinha obrigação de criar filhos de ninguém. Antes de ir para a Repartição João lhe recomendara: - Olhe: Maria amanheceu doente. Está com uma pontinha de febre, não a deixe morrer de fome , hein...

Foi como se não recomendasse, porque D. Terezinha nem sequer pôs os pés no quarto da rapariga. Limitou-se a dizer à criada: - Ouviste! Não deixes morrer de fome a mimosa.

Ah! esse desprezo, essa indiferença da madrinha doía nalma de Maria como um insulto. Lembrava-se às vezes de a mandar chamar e pedir-lhe por amor de Deus que não a tratasse assim, que não a desprezasse... Mas ao mesmo tempo achava que isto era confessar a sua culpa, porque na verdade nunca houvera ente elas causa para o mais leve rompimento, a não serem as impertinências de João da Mata. Que culpa tinha ela se o padrinho dissesse desaforos à mulher?

E assim ia passando agora, abandonada, sem uma pessoa que se interessasse verdadeiramente por sua sorte, a não ser João da Mata.

- Trataram-na bem? perguntava o amanuense ao voltar do trabalho.

- Trataram... murmurava ela.

Mas a verdade é que Maria passava uma vida miserável De manhã, enquanto João ainda estava em casa, ele mesmo ia levar-lhe o café com torradinhas de pão, mas, depois, ela ficava entregue à preguiça da criada e à indiferença da madrinha, em termos de morrer de fraqueza. Davam-lhe um caldo ao meio-dia, único alimento com que ela esperava o jantar às quatro horas, quando o padrinho viesse. Por fim quase não podia suportar aquilo, e nove dias depois, um domingo, levantou-se resolvida a ir jantar com Lídia, ao menos por desfastio, que aquela casa era um horror! Mostrou a João a carta da amiga, acrescentando que até era bom para ela passar o resto do dia fora, no Benfica, ouvir tocar piano, distrair, enfim, porque andava muito triste.

O amanuense aprovou prontamente: que sim! mas era preciso saber se já estava completamente boa, se não sentia mais nada.

- Mais nada, passei muito bem a noite.

João tomou-lhe o pulso com carinho.

- Pois bem, vista-se e vamos. Amanhã pode até ir à escola, não é assim?

E, noutro tom:

- Não vale a pena a gente se amofinar por qualquer coisa, filha. A vida é isto mesmo - andar p’ra diante sempre com a cara alegre. Vamos, vá se vestir.

Ainda não tinha dado meio dia no pêndulo. Maria foi ao quarto, abriu baús, mais consolada, escolheu o melhor de seus vestidos de cretone, um azul de riscados brancos, em pouco saiu do lado ao padrinho, traçando o fichu, sem dar palavra a D. Terezinha.

Ninguém na rua do Trilho, deserta àquela hora como uma rua d’aldeia.

Seguiram para a Praça Ferreira a tomar o bonde de Pelotas. Pouca gente na praça ensombrada por suas enormes mungubeiras. Dois sujeitos sentados um defronte do outro, jogavam silenciosamente o dominó no Café Java: Às portas da Maison Moderne famílias esperavam os bonds em pé, silenciosas, com ar de infinito aborrecimento. Dentro jogava-se bilhar. Muitas pessoas rodeavam uma das mesas para ver jogar o presidente, que, em colete, escanchado num ângulo da mesa, calculava o efeito das bolas. Maria teve um estremecimento ao vê-lo. Certo o Zuza também andava por ali... Instintivamente procurou-o com o olhar. O José Pereira tomava cerveja a um canto mais o Castrinho.

Os bonds iam chegando uns atrás dos outros , enfileirados.

Antes de subir para o de Pelotas, Maria lançou um último olhar à sala de bilhares. O José Pereira sem o Zuza! Era realmente assombroso!

Mas d’aí a pouco o bond rodava outra vez caminho do Benfica, e invadiu-lhe o coração uma melancolia sem causa, uma tristeza vaga que lhe deu vontade de estar só, de voltar à casa.

Lídia veio receber a amiga de braços abertos, muito alegre, de branco, com papelotes no cabelo e sandálias de cetim. - Ora, até que enfim! Já não a esperava mais, Sra. D. Maria. Noiva de fidalgo... pudera!

- Não diga isso, minha negra. não vim há mais tempo, porque tenha andado adoentada. Tu não imaginas...

Cobriam-se de beijos.

Lídia mandou-os entrar para a sala de visitas.

- Como vai D. Terezinha, Sr. João? perguntou maliciosamente escancarando as janelas.

- Bem, respondeu o amanuense num tom seco, pondo o chapéu sobre uma cadeira. E logo... - Homem, isto está que nem um paraíso!

- Qual paraíso! Está nos debicando?...

- Não senhora, longe de mim tal pensamento. O que digo é a verdade. O Loureiro preparou isto à fidalga.!

E ia examinando, através dos detestáveis óculos escuros, os quadros, o papel da sala, o piano, os bibelots, com uma curiosidade infantil, estendendo o olhar de vez em quando até o interior da casa, disfarçadamente.

Maria tinha-se sentado no sofá e por sua vez confirmava a admiração do amanuense: - Sim, senhora, tudo muito bem arranjadinho, muito chique...

- Vejam só, vejam só, a graça! repetia a outra, sentando-se ao lado da amiga.

- E o Sr. Loureiro como ia? inquiriu Maria.

- Bem menina, muito atarefa do com o emprego. É uma vidinha cansada, esta de guarda-livros. O Loureiro, coitado, não tem sossego de espírito. Vive na loja, e, ainda por cima, trabalha em casa. Um horror! Tu é que estás magrinha: estou te achando tão abatida, tão pálida...

- Saudades tuas...

- Saudades, eu sei de quem...

Riram.

- Agora é que reparo, continuou Lídia muito amável, tira o fichu e vamos ver a casa.

E levantando-se:

- Preciso conversar muito contigo. Já não te lembravas de mim, hein?... Sr. João tenha a bondade de esperar um pouquinho - o Loureiro não tarde: está às voltas com a papelada.

- Oh! minha senhora...

João da Mata deliciava-se a observar os quadros e as estatuetas de terracota, de mãos para trás, como se estivesse numa exposição. Depois chegou à janela por onde entrava um arzinho puro impregnado de essência de resedás. Defronte enchia a vista o verde sombrio d’uma esplêndida floresta de cajueiros onde oscilavam pequeninos pontos amarelos e vermelhos quebrando a monotonia da paisagem larga e igual, batida de sol. O palacete azul do Loureiro perdia-se num fundo de verdura. À direita, lá longe, na esquina de um grande sítio, passava a linha de bonds. E que frescura! Dava vontade à gente pecar muitas vezes por dia, como Adão no Paraíso, ali assim, naquele pedacinho do Ceará, sem seca e sem política, entretendo relações sentimentais com a natureza agreste e sincera.

- Bom para se copiar um balanço, isto aqui, costumava dizer o ingênuo guarda-livros.

João pôs-se a contemplar, com um enlevo nalma, toda essa poesia selvagem iluminada por um sol implacável.

De súbito:

- Olá, seu Mata, como vai você? Que milagre foi este?

Era o guarda-livros, em chinelos, calça branca e paletó de seda amarelo.

João voltou-se.

- Oh!... Estava admirando a grandeza do Criador... Você assim mesmo tem gosto, seu Loureiro, você é um danado, homem! Sim, senhor, isto aqui é um maná! Faz vir água à boca.

- Escolhi este local por ser muito isolado da civilização. Detesto o ruído da cidade...

- Tens também a tua veia poética, hein?

- Qual veia poética! Isso de versos não é comigo. Tenho até horror à poesia. O que eu quero é sossego, o bem estar, o conforto...

- Fazes muito bem, filho, não há nada como se viver no seu cantinho com a sua mulher e os seus filhos, comendo com o suor do seu rosto. Eu, se pudesse fazia o mesmo - deserdaria da capital, do centro da civilização, para viver comodamente, bem longe de toda essa porcaria que se chama sociedade. Fazes muito bem. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.

- E você como vai?

- Homem, assim mesmo: nem p’ra diante nem p’ra trás, remando contra a maré... Têm-me aparecido umas doresinhas do lado esquerdo...

- Por que não usa você o vinho de caju?

O guarda-livros fez a apologia do vinho de caju, citando casos de curas assombrosas produzidas pelo uso quotidiano desse depurativo. Ele mesmo, Loureiro, tinha-se curado radicalmente de um dartro na perna esquerda. Na sua opinião o vinho de caju era muitíssimo superior à salsa, ao iodureto e à quanta panacéia receita-se por aí sem resultado.

O amanuense, porém, afirmou que seu mal era no pulmão, que já tinha consultado o Dr. Melo.

- Não te fies em médicos do Ceará, que dão cabo de ti. Olha o Calado, conferente d’Alfândega: diagnosticaram-lhe lesão cardíaca e o pobre homem, coitado, estirou a canela no Rio de Janeiro com uma enfermidade nos rins. Uns ignorantes, seu João, uns magarefes da humanidade é o que eles são. Meta-se no vinho de caju, que é o grande remédio para as moléstias do sangue.

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