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No País dos Ianques

Volvemos para bordo seria madrugadinha, trôpegos, cansados e sonolentos, pálpebras caídas, suplicando a frescura dum travesseiro, dentro de nossas invioláveis capas da Bretanha.

Uma noite brasileira com todos os excessos da nossa educação e do nosso caráter; saudosa noite, a primeira de minha vida em que me enfronhei numa casaca irrepreensivelmente bem-feita...

O Barroso, diluído na escuridão da noite, aproado à correnteza que descia rio abaixo cantando uma melodia de lenda, o Barroso - pedaço da pátria longínqua - acenava-nos com a sua luzinha amarela palpitando às rajadas do vento frio.

... E os bailes repetiam-se e nós vivíamos cercados da alegria comunicativa desse povo americano eternamente jovial!

Falemos ainda das mulheres de Nova Orleans.

Belas quase todas, amáveis e insinuantes, cheias duma inexcedível graça que arrebata e seduz voluptuosamente.

As créoles, ah! as créoles... ninguém as vê que não as fique desejando.

Caracteres principais: tez morena, com uns tons de rosa na face, olhos muito negros, criminosos até ao homicídio flagrante, pequenas, delicadas, flexíveis, aéreas quase, conjunto meigo e melancólico, muito sensíveis... A vaga expressão de seu olhar aveludado derrama não sei que misterioso fluido, cujos efeitos traduzem-se em voluptuosas sensações, secretos desejos de posse absoluta.

Como diferem as chamadas créoles das verdadeiras americanas!

Estas - muito rubras, cabelo cor de ouro, olhos azuis - são frias, quase indiferentes ao amor, egoístas de sua beleza de estátua, vivendo para o trabalho e para a família; aquelas - adoráveis com as suas linhas ideais, com a vaga e comunicativa melancolia de seu olhar voluptuoso - fazem lembrar um povo místico e cheio de bondade dalgum país nebuloso e desconhecido...

É curiosa a origem da população créole de Nova Orleans. Ela descende na maior parte de aventureiros canadenses e courreurs des bois - gente ousada e valente, que emigrou do norte para o sul da América setentrional, por terra, através de inóspitos desertos povoados de selvagens perigosíssimos. Esses aventureiros chegaram à Luisiana sem famílias, depois de uma viagem cheia de trabalhos e fadigas, descansando, por fim, às margens do Mississipi. A Luisiana era então colônia francesa, e o rei, apiedando-se da sorte dos infelizes imigrantes, que viviam solteiros, longe de sua pátria natal, sujeitos a uma castidade quase absoluta, quis aproveitá-los para a colonização. Nesse intuito mandou vir de Paris um carregamento de mulheres, prisioneiras da Salpetrière, que chegaram a Nova Orleans em ferros, e onde foram postas em liberdade e entregues à concupiscência da população masculina.

Isso, porém, não trazia vantagens à colônia, que precisava de gente. Os canadenses satisfaziam seus apetites carnais sem que aumentasse o número de habitantes - fato este que não passou despercebido ao diretório da Companhia da Luisiana, cujo principal interesse era a multiplicação das almas.

Nestas condições foram dadas outras providências, e, em 1728, chegou a Nova Orleans um grupo de raparigas, conhecidas na Luisiana histórica pelas filles de la cassette ou casket girls, mandadas pelo rei para o convento das Ursulinas a fim de se casarem licitamente. A experiência foi coroada de sucessos. Em breve tempo começou a crescer a colônia e os descendentes da cassette tinham orgulho em o serem.

Tal foi a origem humilde dos primeiros filhos nativos da Luisiana.

Seu sangue é uma mistura de sangue canadense e sangue francês.

A mulher americaua do Norte é geralmente bem-educada. Muitas vimos em Nova Orleans, que conheciam e falavam dois, três idiomas, além do vernáculo.

Preocupam-se pouco com bailes e modas, trajam com simplicidade e elegância, sem afetação, sem a natural coquetterie da mulher parisiense. Seu divertimento predileto é a música.

O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante. Prontas sempre a repelir com dignidade um ataque à sua honestidade, elas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com a mesma simplicidade com que o fazem às amigas. O respeito entre os dois sexos, nas classes superiores, é um dos principais caracteres do povo americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns e outros em comum desde criança, as americanas não se confundem nunca diante dos homens.

Nos Estados Unidos o belo sexo é respeitado como em parte alguma.

Os pais depositam confiança ilimitada nas filhas. Deixam, sem escrúpulo, que elas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em companhia de um amigo da casa, na certeza de que elas saberão zelar a sua castidade.

Os raptos e os defloramentos são raros, não sei se devido ao temperamento da raça ou se à inflexibilidade da Lei. O que sei é que, se um rapaz gosta de uma rapariga de família reconhecidamente honesta, não tem mais do que namorá-la escandalosamente às barbas de quem quer que seja, à vista do mundo inteiro, beijá-la sem cerimônia, como se fossem irmãos, e, daí a pouco, ei-los casadinhos de fresco, bras dessus, bras dessous.

E ai! daquele que violar os preceitos decretados pelo governo! Imediatamente vê-se dentro deste triângulo medonho: o casamento, o dote, ou a cadeia. A Lei é inexorável e a polícia exerce uma vigilância sem igual.

Informados de tais particularidades do caráter americano, nós, brasileiros, pusemos um dique ao nosso temperamento de meridionais, evitando o mais possível os compromissos amorosos, as manifestações de simpatia por essas adoráveis ladies, que, a falar verdade, infligiam-nos os maiores suplícios com o maravilhoso poder de suas qualidades físicas.

Tântalos do coração, éramos obrigados a conter os ímpetos ferozes da carne que nos aguilhoava implacavelmente no delicioso convívio das louras misses e das ternas créoles.

Estão verdes, não prestam - era a nossa divisa e destarte escapávamos sempre aos ataques de tão perigoso inimigo.

CAPÍTULO IX

O dia 14 de abril (deixem passar a precisão cronológica) estava destinado pelo comandante do Barroso para uma excursão fluvial, científica, à foz do Mississipi, onde iríamos observar de visu os importantes trabalhos hidráulicos, que aí se procediam sob a inteligente direção do notável engenheiro americano Mr. Jas. B. Eads, um velho respeitável, encanecido no serviço da engenharia, e cujo nome está ligado a muitas obras notáveis de seu país.

Às onze horas da noite a barca de passeio Keokuk largou de Nova Orleans, rio abaixo, conduzindo a turma de guardas-marinha, alguns oficiais e o comandante, com destino às Jetties.

Uma excelente embarcação a Keokuk, espécie de pequena cidade flutuante, muito larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões aos vapores da Companhia Brasileira. Três pavimentos: o superior, coberto por um grande toldo, onde os passageiros podiam fumar à vontade; o do meio formando um salão-refeitório, ao lado do qual ficavam os camarotes e o porão, para mercadorias; rodas à popa, sistema de locomoção que não conhecíamos; duas chaminés, e máquina possante. Em semelhantes condições éramos capazes de fazer a volta do mundo em oitenta dias...

Passamos a noite sobre o rio, navegando à meia força, ao sabor da correnteza.

Lá íamos outra vez para a região dos mosquitos! Preparamo-nos para dar quixotesca batalha, apesar da falta impreenchível do nosso querido companheiro, o barbeiro de Sevilha, quero dizer o barbeiro de bordo, o impagável espanhol que tanto nos divertira na caça aos mosquitos.

Pela manhã, cedinho, estávamos em Port-Eads, defronte do escritório central do respeitável engenheiro.

Café, biscoitos..., e desembarcamos.

O bom velho já nos esperava com o seu belo ar de urso doméstico, barba muito branca, de barrete e óculos, entre os seus mapas coloridos e os seus prospectos representando steamers e as jetties.

- Folgo bastante em lhes poder mostrar o plano da empresa há tantos anos iniciada sob minha direção, disse ele com um amável sorriso de bonomia patriarcal.

E começou a desenrolar diante de nossos olhos uma série infindável de cartas hidrográficas, mapas, desenhos.

Vale a pena se admirar essa obra monumental.

Tratava-se de cavar o leito do rio, num dos braços de sua foz, por modo a efetuar-se a navegação livremente, na linha da correnteza, e terem entrada embarcações de grande calado, desenvolvendo-se assim o já notável comércio de Nova Orleans. Com esses trabalhos o porto irá melhorando consideravelmente, sendo para notar o grande movimento de navios que entram e saem durante o dia.

O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegáveis que os americanos dia a dia tratam de aproveitar dando saída a inúmeros produtos do fertilíssimo vale do Mississipi, o qual abrange cerca de 768.000.000 jeiras das mais ricas terras do mundo, como eles lá dizem. Sua embocadura é, portanto, a passagem natural de todos aqueles produtos.

Desde 1726 têm sido empregados esforços inauditos a fim de se aprofundar essa parte do famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo dos Estados Unidos contratou definitivamente esse serviço com Mr. Eads, e é bem provável que em futuro não muito remoto esteja o porto franqueado a todos os navios do mundo, graças à perseverança e aos esforços de hábeis engenheiros.

A visita foi curta, mas proveitosa.

Tomamos novamente a barca, e às cinco horas da tarde atracávamos no forte Jackson, velha fortaleza abandonada, à margem direita do rio. Lá estava ainda, imóvel e muda, a descomunal artilheria que Farragut, o velho almirante, comandara na guerra sanguinolenta dos separatistas, que terminou com a tomada de Nova Orleans.

Os velhos canhões dormiam seu sono de bronze, lá dentro, nos corredores escuros como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes de história naval, inspiravam não sei que respeito sagrado. Perante eles falávamos baixo, como para não os acordar...

A fortaleza é grande, mas só tem a importância arqueológica que a história lhe empresta; não resistiria, talvez, às modernas baterias. Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em derredor. O seu aspecto é sombrio como o de um cemitério: as grossas paredes denegridas e o silêncio que a cerca dão-lhe um cunho misterioso de cripta subterrânea e produzem no visitante uma incômoda sensação de abandono e tristeza. Em cada canto parece surgir a sombra de um confederado clamando vingança.

Retiramo-nos em marcha fúnebre, calados e supersticiosos.

Dormimos ainda essa noite sobre o rio para amanhecermos em Nova Orleans. Já estávamos com saudade do Barroso.

Continuaram as manifestações de amizade ao Brasil.

O neto do imperador, jovem e irrequieto, embalde procurava fugir às insistências da aristocracia local e por diversas vezes desejou ter nascido simples burguesinho, como qualquer de seus colegas.

E digamos aqui, muito à discrição, Sua Alteza podia ser um belo moço, um digno cavalheiro, um excelente amigo e camarada, mas... Sua Alteza era um péssimo príncipe. A sua grande aspiração era a vida livre, sem peias, essa vida alegre e boêmia que se esgota depressa nos cafés-concertos e nos restaurantes.

Não gostava de continências e desprezava o juízo imbecil dos que lhe apodavam de estróina. O certo é que esse juízo em nada o comprometia perante o high-life americano que o estimava suficientemente. Ele era o representante imediato da família imperial, era o alvo predileto de todas as manifestações ao Brasil na grande festa internacional.

Seria ocioso, senão monótono e fatigante, descrever, uma por uma, em todos os seus detalhes, com todas as suas cores mirabolantes, essas manifestações, profundamente fraternais e democráticas, com que nos recebeu a distinta sociedade de Nova Orleans. Bailes, regatas, passeios improvisados, concertos, brindes - e não raro a tolda do nosso belo cruzador converteu-se em esplêndido salão de baile, acordando a sons de orquestra e gritos de alegria o silêncio agreste das margens do Mississipi.

É este o único consolo daqueles que andam no mar em serviço da pátria - o repousar em terra amiga. Vão-se as saudades para dar lugar à franca expansão dos corações: a alma do marinheiro transforma-se, como por encanto, num bostiário de alegrias de uma ingenuidade incomparável, e ele ri com os outros, canta e sente-se tão bem como se estivesse em seu próprio país, no meio de seus amigos e de seus parentes. Encantadora ilusão, que só dura enquanto ele não abre as velas mar em fora nessa interminável derrota de argonautas que vão atrás do bezerro de ouro da felicidade...

Não direi, não, o que nos divertimos, as múltiplas sensações por que passou o nosso espírito nessa Luisiana que o Mississipi embala com o ritmo nostálgico de suas águas cor de barro. Seria desdobrar a natureza humana tão complexa e misteriosa.

Vamos adiante, consultemos o caderno de notas.

25 de abril... - Estávamos na Páscoa, a festa risonha e popular da ressurreição do Cristo. Até então nenhum desgosto, nenhuma tristeza, nenhuma mágoa toldara o céu puríssimo de nossas alegrias. Vagávamos em mar de rosa, egoístas de felicidade, sereno o espírito, aberto o coração a todos os influxos bons. Boa vida, por um lado, essa de quem viaja sem grandes preocupações, no bojo de um navio patrício.

Eis que, de repente, uma nota dissonante e sombria chamou-nos à realidade pungente da vida humana: morrera um nosso companheiro de bordo, o Leocádio..., que digo eu? um desses heróis anônimos que usam gola ao pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade arrebatou de sua terra natal para morrer tísico em pais estranho.

Ninguém imagina a dolorosa impressão que produz a morte de um companheiro de viagem longe da pátria, num hospital desconhecido.

Fez-se o enterro com todas as honras devidas ao obscuro soldado e velho marinheiro, nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado na escola das tempestades. Tinha sessenta anos. Era o "cozinheiro da proa" Sobre o seu corpo foi estendida a bandeira nacional brasileira como símbolo da pátria reconhecida.

Nesse dia, conforme já estava assentado, toda a guarnição do Barroso desembarcou a fim de assistir à missa solene da Páscoa na catedral de S. Luís, o mais importante dos templos católicos da cidade, situado na Rua Chartres.

Bem que antiga, essa igreja parece resistir ainda por muito tempo. Foi o primeiro edifício católico erigido em Nova Orleans pelos capuchinhos, em 1718, ao tempo da fundação da cidade. Tomou o nome de S. Luís em homenagem ao rei da França.

Mais tarde, em setembro de 1723, desabou sobre a nascente cidade, cuja população elevava-se a 200 almas, formidável ciclone, que arrasou todos os edifícios, causando uma mortandade incalculável. Narram os cronistas que foram arrojados à costa três navios que se achavam fundeados no porto. Em breve, porém, a cidade foi reedificada, sendo em 1724 reconstruída a igreja, essa

mesma onde ainda hoje ergue seus torreóes vetustos na Rua Chartres.

Naquele ano o território de Nova Orleans foi dividido em três grandes distritos sob a administração dos capuchinhos, dos carmelitas e dos jesuítas. De então em diante multiplicaram-se os edifícios religiosos, igrejas, palácios episcopais, conventos, etc.

O convento das Ursulinas data igualmente da fundação da cidade e é um estabelecimento católico à maneira do de Ruão conhecido por esse mesmo nome.

É um dos últimos conventos que ainda existem nos Estados Unidos. Consta de três andares e ergue-se à margem do rio, para onde abre suas janelinhas através das quais se vê passar a sombra fantástica das religiosas.

CAPÍTULO X

Um belo povo, o de Nova Orleans - jovial, comunicativo hospitaleiro e sincero. A ele devemos os melhores dias dessa longa Viagem ao país sugestivo e excepcional dos ianques, universalmente querido e respeitado por sua grandeza industrial e por suas belas tradições de energia e patriotismo.

E entanto aproximava-se o dia da partida: íamos embora rumo de norte, levando conosco a imorredoura lembrança do Meschasebé, "le roi des fleuves", e das legendárias terras que Chateaubriand poetizara nas suas inimitáveis viagens. Restava-nos, porém, o consolo de que ainda iríamos à sonhada Nova Iorque dos trens aéreos e das empresas colossais.

Corações à larga, rapazes! Um homem é um homem!...

A saudade, porém, não é uma simples figura de retórica, pelo amor de Deus! É um estado d'alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza, como a dor.

A saudade existe, é um fenômeno perfeitamente real e determinado na ordem dos fatos psicológicos. Não nos venham dizer outra cousa os senhores neologistas fin de siècle. Por ter sido cantada em prosa e verso, nem por isso a saudade deixa de ser o que é na verdade - uma comoção nervosa interessando o mais delicado e sensível do coração humano, uma dolência vaga, flutuante n'alma, intraduzível como um sonho nebuloso, tocada de doçura e ungida de tristeza...

Por que uma pessoa tem barba no rosto e já passou dos vinte anos, segue-se que não deve ter mais saudade, que deve ser um insensível, uma massa inabalável?

Absolutamente não. A lágrima, expliquem-na como quiserem os doutores da ciência, há de existir enquanto palpitar em nós esse músculo que se chama coração, enquanto a humanidade sofrer e houver um motivo sentimental para comover os seres dotados de inteligência. É talvez uma questão de mais ou menos intensidade nervosa. Por que tudo é egoísmo neste século essencialmente palavroso e mercantil, deve-se concluir que, em futuro não muito longe, a raça humana se transforme numa como esfinge, sem afetividade possível, ou que o sistema nervoso passe a exercer funções negativas na fisiologia do porvir? Não o acreditamos.

A lágrima há de existir per ommia secula, e a saudade terá sempre a sua lágrima, como sentimento superior às nossas forças.

Chorar sobre o túmulo de um amigo é tão natural, tão humano como chorar porque nos separamos de um ente querido. Não desejo agora, por uma veleidade de rabiscador sentimentalista, fazer a psicologia da lágrima. O que eu quero é confessar, embora disso me advenha o qualificativo de piegas, que não podíamos - eu e a maior parte dos meus colegas - pensar em deixar Nova Orleans sem um demorado frêmito de pálpebras e uma névoa úmida no olhar triste.

E, dizendo isto, está dito o que nos merecia a hospitaleira população daquela cidade.

Entretanto, ainda não estavam satisfeitos os luisianenses. Como última prova de verdadeira estima o Luisiana Jockey Club deu-nos um magnífico baile na véspera da partida.

Tenho ainda na memória essa derradeira impressão que me ficou de Nova Orleans. Fazia um luar soberbo, um luar tropical, um luar de legenda, tão límpido e tão claro que se não viam as estrelas... O Jockey Club, embaixo, fazia um efeito surpreendente com a sua iluminação de mil cores rodeando a grande raia das corridas, com o seu aspecto fantástico de quermesse noturna, salpicado de pontos luminosos e galhardetes em miniatura, imóveis na calmaria da noite.

Em derredor a mudez solene da floresta acordada de instante a instante pelo eco da música cortando o ar calmo.

Perto do Clube tinha-se armado um grande estrado para a dança ao ar livre, sem teto, sem toldo, sob o luar.

Cruzavam-se os pares, num turbilhão impetuoso, ao som das valsas americanas e dos galopes à brasileira.

Nessa noite, e pela primeira vez, conversei longamente com uma créole, Mile... já me não lembra o nome, um tipo ideal de Valquíria de olhos negros com um extraordinário brilho nas pupilas - microscópica, delgada, flexível, cintura extremamente fina, certo jeito adorável de pender a cabeça para os lados, num abandono irresistível... Toda de preto.

Dançamos uma quadrilha e ela convidou-me a passear no Prado.

Lá fomos, braço dado, eu muito circunspecto, teso dentro da minha farda de guarda-marinha, levado quase que maquinalmente por essa formosa dama de olhos negros e sedutores, arranjando a custo umas frases de efeito, que eu não teria coragem de reproduzir; ela, desenvolta e pequenina, muito leve na sua toilette escura, conduzindo-me naquela esplêndida promenade au clair de la lune, para onde... não sei eu...

Perguntou-me se as brasileiras eram bonitas e ricas, se no Brasil dançava-se muito, e que tal nós tínhamos achado as americanas. Explicou-me então a diferença entre créoles e americanas propriamente ditas.

Respondi-lhe como pude, exaltando as nossas patrícias, "belas e ricas, como não há iguais no mundo..."

Paramos. Tínhamos andado seguramente dois quilômetros e não víamos agora senão a parte superior do Clube, por trás do arvoredo, toda iluminada ao longe, como uma cousa fantástica.

À proporção que nos afastávamos dos nossos companheiros a conversa tornava-se menos animada, e, por fim, já seguíamos calados, como dois sonâmbulos, no silêncio da noite enluarada...

Depois é que vimos a distância que nos separava do centro da festa.

Na volta encontramos outros pares em doce confabulação, como nós, longe do ruído.

Despedi-me para tomar o trem, e ela, a dama dos olhos negros, disse-me um good bye tão sentido e tão sugestivo que eu não tive leito senão perder o trem.

Good-bye! Nada mais doce e expressivo que estas simples palavras em boca de americana. Uma inglesa talvez que as não pronuncie com tanta suavidade, com tão sonora flexão, com tanto sentimento. Good-bye... Há qualquer coisa de aveludado no timbre cantante com que elas, as misses da Nova Inglaterra, dizem a sua frase sacramental de despedida. O nosso adeus, aliás tão lacônico e singelo, não exprime tanto, não caracteriza tão bem esse estado d'alma que se denomina - saudade.

E, a propósito de - Good-bye, vem-me à memória um episódio de uma simplicidade primitiva e comovente que a minha indiscrição de observador tagarela não deixa calar.

Esqueçamos a rapariga de olhos negros e narremo-la em toda a sua verdade.

Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manuel..., o apelido de família não nos interessa. O jovem oficial de marinha, moço de bela aparência e excelente coração, apaixonara-se por uma Eva Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova Orleans. Até aqui nada mais natural. Ela vira-o uma vez diante de um bock, seus olhos se encontraram, e, desde logo, Manuel ficou sendo a menina dos olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias, gozaram todas as delícias imagináveis, ele proibiu-a de andar nos cafés, ela proibiu-o de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se de comum acordo, sem que nunca houvesse entre eles a menor desavença.

- Leva-me para o Brasil, Manuel... (ela só o tratava por Manuel.)

- Sim, filha, depois havemos de ver isso.

- 1 love you very much...

- Oh! yes... I think so...

Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, num quarto de hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sopa.

Um belo dia:

Ele - Olha, sabes? O Barroso suspende ferro amanhã.

Ela (surpreendida) - What do you say?!

Ele (trincando um rabanete) - É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por estas horas, o Manuel vai sulcando o golfo do México.

Ela (cruzando o talher) - Impossível! Por que já não me disseste?

- Para te poupar o desgosto.

- Oh! não, meu querido Manuel, é história, tu não vais amanhã...

- Assim é preciso. São coisas da vida.

- Não, não, meu amor (my love) tu não vais, porque eu não quero, do contrário faço escândalo, estás ouvindo?

- E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cair uma lágrima...

Silêncio. Manuel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com uma fleuma verdadeiramente britânica. Eva, coitada, abriu a soluçar baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava fazendo de um guardanapo um lenço.

Último ato, e aqui é que está o apropósito.

Cenário: O Mississipi pardo e murmurejante sob a luz moribunda do crepúsculo.

O Almirante Barroso, imóvel sobre o rio, com a sua mastreação muito alta, fumega. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras caindo no convés. Tremula a bandeira brasileira na carangueja da mezena... Últimos preparos.

No cais agita-se uma multidão compacta.

De repente surge à tona d'água o cepo da âncora enlameada, pingando um lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.

A guarnição sobe às vergas, alastrando-se de um bordo e doutro, e acena para terra ao som de vivas!

Agitam-se lenços na praia, correspondendo às saudações de bordo. Um frêmito percorre os que estão no cruzador.

É o momento decisivo.

Um grande rebocador, The Warrior, vistoso e arquejante, acompanha as manobras do Barroso, à distância de uma amarra, solitário e sombrio, envolto numa nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura desgrenhada de uma mulher.

O cruzador segue à viante, majestoso e lento, descrevendo uma bela curva no espelho da água, e toma a passar defronte da cidade, apressando a marcha.

As religiosas das Ursulinas lá em cima, nas janelinhas do convento, acenam também com os seus lenços brancos.

E, no silêncio da tarde que a névoa melancoliza, repercutem estas palavras tocadas de saudade:

- Good-bye!

- Good-bye! repete a mesma voz aveludada como um carinho.

Olhamos uns para os outros comovidos.

Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos brasileiros?

A voz era de mulher, não restava dúvida.

Com efeito, reconhecemos na figura desgrenhada que víamos a bordo do rebocador, Eva Smith, a amante de Manuel..., a apaixonada rapariga muito conhecida nos cafés-cantantes de Nova Orleans, cujo entusiasmo pelo nosso companheiro tinha chegado a seu auge.

E quando o Barroso desapareceu na primeira curva do rio, ainda ouvíamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de desespero, agora abafada pela distância, soluçada e plangente:

- Good-bye, Manuel! Good-bye!...

E dizer que a Dama das Camélias é uma exceção na vida sentimental das filhas de Eva!.

O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguém, deixou-se cair numa saudade profunda, num longo adormecimento da alma, de que só acordou no alto-mar, quando já não se avistava um ponto sequer da costa americana.

CAPÍTULO XI

Abençoada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus costumes, de tua gente, de tua civilização, mesmo porque a nossa demora em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista diria que apenas tivemos tempo de mastigar um havana, desses que fabricas aos milheiros e que fazem a delícia dos consumidores do bom tabaco.

Belas cubanas de olhos rasgados e sensuais, acreditamos piamente nas coloridas descrições em que viajantes de todas as nacionalidades gabam as vossas preciosas qualidades físicas, os vossos olhos ardentes, os vossos cabelos negros, a vossa graça incomparável e sedutora... Nos oito curtos dias que passamos em vossa pátria não tivemos a felicidade rara, a gostosa satisfação de vos contemplar senão de relance, por um acaso verdadeiramente providencial.

Dizem outros que sois belas e irresistíveis, que dançais divinamente o salero, que possuís todos os encantos possíveis, e isto é quanto basta para que dispenseis o desmaiado elogio dos que não tiveram a fortuna de confabular convosco.

E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suas calles irregulares, estreitas e pacatas, é uma pequena capital sem capitais, sobriíssima de diversões populares, quase monótona, mas relativamente adiantada.

Não se lhe pode negar certo progresso material e mesmo uma ponta de civilização européia.

Encontram-se nela importantes estabelecimentos comerciais, grandes tabacarias que fornecem fumo e seus preparados a quase todos os mercados do globo; excelentes botequins, poucos hotéis.

O célebre professor Agassiz, no roteiro de uma de suas excursões à América, disse que toda a arquitetura brasileira é pesada e sombria; eu acrescentarei que no mesmo gênero são as edificações de Havana, o que não é para surpreender numa cidade antiga, onde se observa ainda o cunho tradicional da velha metrópole espanhola.

Entre os monumentos arqueológicos notamos a secular catedral onde (refere a crônica) estão sepultados os ossos de Cristóvão Colombo.

Vimos uma estátua - a de Isabel, a Católica, num grande largo que tem o nome da santa rainha.

Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em conseqüência do calor excessivo e constante a que vive sujeita.

Visitamos também (ia-me esquecendo) os aquedutos que fornecem água à população da cidade. Todos eles vão despejar num imenso reservatório de pedra inteiriça (como os nossos diques da ilha das Cobras), cavado no solo, formando uma espécie de tanque de grande capacidade para comportar muitos e muitos metros cúbicos d'água cristalina. O sítio, onde se acha essa importante obra de engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as suas cascatas despejadas do alto de rochedos inacessíveis, com a extrema frescura de suas montanhas verde-escuras, debaixo de um céu límpido e azul. É um dos melhores passeios de Havana. A viagem até aí se faz em diligências puxadas a mulas, arriscando-se o turista a chegar sem bofes ao fim da jornada longa ~ sem o atrativo das belas paisagens claras do Brasil.

O sol é ardentíssimo em Cuba, e, entretanto, as diligências partem da cidade pela manhã e chegam às onze horas ao reservatório, onde não se encontram hotéis nem botequins. Sua-se por todos os poros e, no fim de contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, mas o corpo moído.

O Passeio Público... Oh! não falemos de coisas tristes. Quem já viu o Passeio Público da Bahia pode imaginar o de Havana: o mesmíssimo cemitério deserto e sombrio, o mesmíssimo abandono criminoso; árvores colossais, meia dúzia de castanheiros decrépitos, e um silêncio, um silêncio absoluto de arrepiar cabelos. Aos domingos costuma ir chorar para ali uma banda militar. Só então é que a gente se lembra que existe um Passeio Público em Havana.

La Havana, de resto, é o que se pode chamar uma cidade pacífica, sossegada e sem atrativos. A impressão que ela deixa no espírito de quem a viu exteriormente é de uma velha capital decadente, muito cheia de sol e poeira.

Mas, para que não fosse de todo ociosa e inútil a nossa visita a Cuba, aproveitamos o ensejo de ver uma de suas mais pitorescas e curiosas cidades - Matanzas, onde chegamos depois de algumas horas de viagem costeira. Ai nos esperava o vice-cônsul do Brasil, excelente cavalheiro, cujo primeiro cuidado foi pôr à nossa disposição vinte e tantos carros de praça a fim de que não perdêssemos oportunidade de contemplar o majestoso panorama do vale de Yumiri, um dos mais belos do mundo, cerca de uma légua distante da cidade.

- Os senhores vão ver um belíssimo trecho da natureza americana, como talvez não haja igual no Brasil, preveniu-nos o cônsul. É uma maravilha!

E lá fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios à topografia do país, cheia de altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate, numa disparada única por montes e vales, aos solavancos.

Era quase noite quando parou o último carro, e corremos logo à tal "maravilha" que o diplomata recomendara.

Aqui têm os aquarelistas motivo sensacional para uma tela rembrantesca.

Crepúsculo... Céu pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui, ali, bordando nuvens... Embaixo a longa extensão côncava do vale afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desaparecido, verde-escuro, indistinto quase a essa hora do dia.

Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira - larga faixa de veludo cinzento - limita o cenário, confundindo-se com as tintas indecisas da planura sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza religiosa, um vago silêncio de abismo.

Vê-se muito ao longe, de um lado da paisagem, rasgando o fundo nebuloso do quadro, uma nódoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito escandalosa mesmo em meio de toda essa harmonia de cores esmaecidas.

Há muito que o sol tombou na sua eterna circunvolução diurna. A sombra que se alastra, a plêiade fosforescente dos pirilampos, o silêncio absoluto que nos cerca - tudo inspira respeito: e a gente esquece preconceitos e doutrinas para, instintivamente, levantar uma prece à misteriosa Força que rege o Universo.

Existe no alto da montanha a modesta capela de N. Sra. de Monserrate, sempre aberta aos crentes, muito branca na sua despretensão de nicho de aldeia, com a sua torrezinha triangular onde vão fazer ninho, no inverno, as andorinhas do vale.

Caiu de todo a noite, e, no silêncio da estrada que descia em broncas sinuosidades, regressamos para o hotel, cujo salão principal tinha agora o aspecto suntuoso (dados os devidos descontos...) dum refeitório de convento em dia de festa pascoal: mesa lauta, vinte variedades de vinho excelentes e tudo mais que se faz mister num banquete finamente organizado à moderna.

O resto é fácil de imaginar: brindes, hurras, charutos finíssimos... e um sono reparador obrigado a pesadelos.

Na manhã seguinte acordamos para outro passeio não menos agradável. Era preciso aproveitar o tempo do melhor modo possível. Cometeríamos indesculpável falta se não fôssemos ver as Cuevas de Bell-mar, essas caprichosas grutas subterrâneas, verdadeiros palácios de cristal puríssimo, que se abrem terra dentro em toda a opulência de suas maravilhosas estalagmites e estalactites. Era mais uma deliciosa surpresa que nos estava reservada. Ir a Matanzas e não ver as Cuevas equivale a ir a Roma e não ver o Papa. Cumprimos o nosso dever de viajantes, que não se contentam com a vaidade infantil de pisar solo estrangeiro.

Cuevas de BelIa-mar... Entre os numerosos fenômenos que a geologia registra muitos há que ainda estão por ser lucidamente explicados, por sua própria natureza complexa e profundamente científica.

No terreno da geologia subterrânea, com especialidade, inúmeros são os problemas a destrinçar, e um dos mais curiosos e interessantes é, sem dúvida, a formação das cavernas, as escavações produzidas por agentes externos, pela infiltração natural da água no solo calcáreo, formando essas caprichosas pirâmides de cristal, que a cíência denomina estalagmites e estalactites.

As Cuevas de Bella-mar formam um dos mais belos panoramas que se podem imaginar.

Figure-se um grande túnel aberto no subsolo e de cuja abóbada pendem cristais multiformes, cada qual o mais surpreendente, alguns de tamanho admirável, enquanto do chão constantemente úmido sobem outros de igual estrutura, pontiagudos quase sempre, formando, às vezes, colunatas brilhantes, esplêndidos capitéis, tão caprichosamente dispostos que dir-se-iam arquitetados por mãos humanas. A caverna prolonga-se a perder de vista, deslumbrante como um palácio encantado, à luz dos archotes, porque é impossível percorrê-la sem luz, e a cada passo uma nova exclamação de surpresa irrompe da boca do observador, espontânea e entusiástica.

É, com efeito, encantador o aspecto das Cuevas.

A atmosfera é quase insuportável, apesar da umidade que se reflete das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acesa.

É, expressamente proibido tocar nos cristais. Um guarda, empunhando um archote, acompanha o visitante, recomendando-lhe, de espaço a espaço, todo cuidado, toda cautela para que não dê alguma cabeçada...

Desta vez tínhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando as horas perdidas em Havana.

Nesse mesmo dia o Barroso fez-se de marcha para o país dos ianques, para Nova Iorque, a bela e maravilhosa cidade que o consenso universal alcunhou de Londres americana.

E... foi um dia a ilha de Cuba...

CAPÍTULO XII

... Manhã de inverno, fria e nebulosa, sem uma réstea de luz confortável. Estava interdita a nossa curiosidade, pois que amanhecemos defronte da baía de Hampton Road, a essa hora coberta de cerração, cheia de nevoeiro, impenetrável. Não podíamos, que pena! ver Nova Iorque de fora, do mar, abrangê-la toda com um golpe de vista, estereotipá-la na imaginação para todo o resto da nossa vida. A grande cidade cosmopolita dos trens elevados e das pontes colossais dormia o sono beatifico da madrugada, envolvida num largo capuz de neve através do qual apenas se podia ouvir a sineta de invisíveis embarcações que bordejavam demandando o porto. Adivinhávamos que muitos vapores transatlânticos aguardavam, como nós, o momento azado para fazerem sua entrada.

Felizmente não durou muito esse estado quase aflitivo. Por trás do nevoeiro compacto e lúgubre os primeiros clarões da manhã surgiram como uma aparição bendita, rompendo a monotonia branca da atmosfera, e pouco a pouco, à proporção que a neve ia se rarefazendo, o Barroso tomava chegada muito lento, e Nova Iorque destoucava-se num fundo luminoso, batida pelas primeiras irradiações do sol, ruidosa e alvissareira, toda cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta.

Onze horas. Céu limpo e mar chão - como se diz nos diários náuticos. Nem mais um floco de neve, tudo luz agora, e já podemos ver cheios da mais íntima satisfação, com uma surpresa ingênua no olhar, o aspecto risonho da baía cortada de embarcações a vela e a vapor, com os seus longes de verdura matizando perfis de montanhas indistintas, muito descoberta, sem o sombrio majestoso das paisagens americanas do sul, bela na sua simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara àquela hora.

À direita destacava, à boca do Hudson, a grande, a enorme, a colossal ponte que liga Brooklin a Nova Iorque lembrando-nos que realmente tínhamos chegado outra vez à terra feliz dos ianques, e doutro lado erguia-se, iluminando o mundo, a Estátua da Liberdade, belo símbolo de bronze, cujo pedestal ocupa toda a ilha de Bedloe.

Era um dia de domingo, um desses dias de expansão popular, em que, no mar como em terra, há quase sempre uma alegria nova entre os que passaram a semana a trabalhar, a lutar pela vida incansavelmente com a consciência tranqüila de quem vive honestamente à custa do próprio esforço. A baia de Nova Iorque tinha o festivo aspecto de um dia de regatas. Esquadrilhas de iates, com suas velas quadrangulares, muito elegantes e asseados, cruzavam na barra, aproveitando a fresca do mar. Passavam barcas de recreio, embandeiradas, conduzindo bandas de música, que tocavam alegremente o Yankee doodle. À cerração matinal sucedera um sol frio de inverno, que dava vontade a gente improvisar piqueniques à beira-mar, fora da cidade, longe dos botequins e das brasseries, nalgum verde recanto onde houvesse bastante quietação e muita água, num lugarejo calmo de subúrbio donde se pudesse ver ao longe, mas muito ao longe, a miniatura da cidade soturna e cansada...

O Barroso tinha fundeado em frente à Battery Square e com pouco recebia a visita oficial do cônsul brasileiro e doutras autoridades do país, sendo para notar que uma das primeiras pessoas que pisaram a bordo foi o repórter do New York Herald, a importante folha americana tradicionalmente conhecida no mundo jornalístico. Um cavalheiro irreprochable, de cartola e sobrecasaca de pano, bem-apessoado, bigode louro e olhos azuis, verdadeiro tipo de ianque, amável e expansivo. É escusado dizer, num parêntesis, que no dia seguinte a quilométrica folha descrevia, com uma precisão fotográfica, o cruzador brasileiro, sem esquecer mesmo um carneiro de estima que trazíamos e que o espirituoso noticiarista incluía na lotação do navio, emprestando-lhe qualidades invejáveis. Creio até que o pobre lanígero figurou na folha ianque entre os heróis de Humaitá!

Satisfeitas as formalidades oficiais da chegada, trocadas as salvas do estilo, nada mais nos restava senão ver de perto a bela cidade.

Nova Iorque estava quieta, muitíssimo quieta, com as suas praças desertas, com os seus parques silenciosos, fechado o comércio a ponto de não se encontrar aberta uma só tabacaria, sequer um botequim. Isso, porém, não nos causou estranheza. Sabíamos que o domingo nos Estados Unidos é um dia completamente inútil, um dia triste para os centros populosos. Toda a gente deserta para os arrabaldes em seus trajes domingueiros. As ruas, muito largas e compridas, permanecem ermas e cheias de silêncio, entregues à vigilância dos policimen. Todas as casas comerciais, todos os armazéns, todas as fábricas, todos os estabelecimentos públicos conservam-se fechados e taciturnos, como numa cidade abandonada.

Nova Iorque, a opulenta e alegre cidade cosmopolita, tinha esguichado para Nova Jersey, para Brooklin e para Conney Island. Toda aquela multidão laboriosa e ourissedenta, que nos dias de trabalho se atropela na Broadway, bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se largamente nos hotéis ambulantes e nas cervejarias suburbanas, folgava e ria com desespero, sem pensar na segunda-feira, sem se inquietar com o futuro.

Por isso é que não se deparava ninguém nas ruas, por isso não se ouvia o barulho infernal das carroças e das carruagens.

O domingo no país dos ianques é para se divertir, para se descansar, para se jogar o criket, para se passear a cavalo, para se apostar regatas, de modo que o protestantismo americano nada tem de comum com o protestantismo britânico.

Enquanto nos domingos (a dar crédito na crônica) o inglês reza a Bíblia no interior de seu home, em companhia de sua mulher e de seus filhos, o americano, ou melhor, o ianque, exercita os músculos e bebe cerveja fora da cidade.

Não admira semelhante discordância, quando é sabido que a religião protestante subdivide-se em milhares de seitas. A este respeito leiam-se os belos capítulos em que Mr. Laboulaye (Ed. Lefêvre), estuda, com uma graça especial e encantadora, cheia de humorismo e de senso crítico, as instituições religiosas na América do Norte. Paris en Amérique é um dos livros mais curiosos e originais que eu tenho lido sobre os Estados Unidos.

Em tais condições, estrangeiros no meio de uma cidade deserta, imagine-se o nosso embaraço, a triste situação em que nos colocava a curiosidade.

Os raríssimos transeuntes que porventura encontrávamos, marinheiros ou vagabundos que desciam para o cais da Battery, olhavam-nos com um ar de surpresa, embasbacados, medindo-nos de alto a baixo, com se fôssemos uns verdadeiros botocudos de tanga e cocar.

Entretanto, não perdemos a precisa calma, e, sem mais tirte nem guarte, saltamos dentro do primeiro veículo que passava, uma velha carruagem de aluguel, cujo boleeiro custou deveras a compreender que desejávamos fazer um passeio ao redor da cidade.

Oh! yes! Yes!...

E disparou a trote largo por aquelas ruas fora.

De modo que nesse dia vimos Nova Iorque à vol d'oiseau e por um prisma de tristeza e monotonia.

Em compensação a nossa demora naquela cidade ia ser mais longa que em qualquer dos outros portos do itinerário.

No dia imediato, uma segunda-feira, recomeçamos, sem perda de tempo, a nossa tarefa de estrangeiros em país desconhecido.

Eu, por mim, confesso que Nova Iorque produzia-me vertigens. O desejo imoderado de tudo ver, de tudo observar, de tudo saber, trazia-me numa inquietação contínua, tirava-me o sono, arrebatava-me a todas as comodidades, torturava-me o espírito de análise. Uma coisa, porém, devo dizer: raro é o oficial de marinha, mormente da marinha brasileira, que sabe aproveitar o tempo nessas viagens ao estrangeiro. Aproveitar o tempo, entendamo-nos, as horas de folga. Preferíamos a convivência dos cafés-cantantes aos passeios úteis e ao mesmo tempo agradáveis. Um estrangeiro já teve a coragem de dizer que os oficiais de marinha brasileiros levavam o tempo, na Europa, a freqüentar os conventilhos e os cafés-cantantes. Até certo ponto isso é verdade.

Em geral eles pouco conhecem dos países que têm visitado, a não ser em assuntos de sua profissão, e as suas narrativas entre amigos limitam-se quase sempre a recordações de aventuras amorosas.

Também são tão curtas e tão raras essas viagens.

Quando se tem a felicidade relativa de viajar sob o comando de um oficial ilustrado e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos conhecimentos não se restringem à navegação é à artilharia, o aproveitamento é certo. Ele não é somente um superior hierárquico - faz-se mestre e sabe proporcionar aos seus subalternos a maior soma possível de excursões úteis e proveitosas.

Uma das nossas primeiras visitas foi à Estátua da Liberdade, tia ilha de Bedloe.

O importante monumento ainda não estava completamente pronto, mas já se podia fazer uma idéia do que seria ele depois de concluído. O pedestal, de granito, ocupa quase toda a ilhota e mede, aproximadamente, 15 a 20 metros de altura, 154 pés, desde o nível do mar, formando uma espécie de casamata cuja utilidade não souberam nos dizer. Sobre o pedestal ergue-se a estátua, em bronze, armada por meio de vigamentos de ferro, pois que não é inteiriça.

Conta-se que dentro dela realizara-se, em Paris, um magnífico banquete de 12 talheres, presidido por V. Hugo.

Como se sabe, a estátua foi oferecida aos Estados Unidos pela França em agradecimento dos serviços prestados por esta nação à sua amiga na guerra franco-prussiana.

O pedestal foi mandado construir à custa de subscrições populares, que em pouco tempo atingiam a uma soma elevadíssima.

Não há por aí quem não tenha ouvido falar na famosa ponte de Brooklin (Brooklyn Bridge), uma das maravilhas da engenharia moderna, que liga a ilha de Brooklin a Nova Iorque.

Esta cidade, incontestavelmente o primeiro empório comercial da América e uma das mais populosas do mundo, fica situada numa grande ilha formada por dois braços do rio Hudson. De um lado, à direita de quem olha para o mar, um dos deltas, o North River, separa-a de Nova Jersey, e à esquerda o East River separa-a de Brooklin. A travessia para qualquer desses pontos faz-se rapidamente, em barcas que a todo instante largam de Nova Iorque, e por preço assaz diminuto.

A princípio, quando se projetou levantar a grande ponte, surgiram mil dificuldades.

Parecia impossível que se pudesse levar a efeito obra tão arriscada e dispendiosa. Como assentar as bases do colosso numa profundidade de mil e seiscentos pés, que é esta a altura do rio na sua parte mais estreita?

Demais era preciso não prejudicar a navegação, construindo a ponte muito acima do nível do mar de modo a dar passagem livre às embarcações de comércio.

Com tudo isso os americanos meteram mãos à obra e dentro de alguns anos de trabalho assíduo os Estados Unidos contavam mais uma glória.

O comprimento total dessa magnífica ponte é de uma milha pouco mais ou menos. As torres onde ela está suspensa erguem-se a 268 pés acima da preamar, de forma que as maiores embarcações de comércio têm passagem fácil por baixo.

O Barroso, cuja guinda era uma das mais altas que se tem visto em navio de guerra, apenas foi obrigado a "acachapar" os mastaréus de joanetes.

Atravessa-se a ponte em vagões movidos a eletricidade, em carros de praça ou mesmo a pé. Paga-se um cêntimo para atravessá-la a pé!

O movimento é espantoso. Cruzam-se diariamente as duas populações de Nova Iorque e de Brooklin, em carros, em vagões e a pé, sem risco de se atropelar, por que a cada espécie de veículos corresponde uma passagem independente e adequada. Os que transitam à pé têm também o seu caminho livre e, por conseqüência, não correm o perigo de ser pisados pelos carros.

À noite o aspecto da ponte é feérico. Logo às seis horas da tarde começa a iluminação em toda ela, de um lado e doutro, destacando-se em alguns pontos, focos de luz elétrica, enormes botões de brilhante que encandeiam a vista.

Vista do mar, então, o efeito é deslumbrante! Lembra as lendárias pontes de Veneza cortando canais, projetando n'água seus reflexos luminosos.

Um dos meus divertimentos prediletos era contemplar Nova Iorque do alto. Muitas vezes punha-me lá de cima da ponte de Brooklin, braços cruzados, num êxtase de fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhando com a vista a vela das embarcações que singravam no rio, pequeninas, microscópicas.

E punha-me, nessa embriaguez do grandioso, a pensar no progresso dos Estados Unidos, desse país modelo, onde tudo move-se por meio de eletricidade e vapor, onde tudo é feito às carreiras, num abrir e fechar de olhos, sem a menor perda de tempo; vinham-me à imaginação escandecida as descobertas de Franklin, de Fulton e de Edison, as maravilhosas experiências sobre o telégrafo, sobre o telefone e sobre o fonógrafo, e eu repetia com os meus botões, mergulhando o olhar na distância, abarcando a cidade inteira: - Grande país! Grande povo, gente feliz, que sabe compreender a vida e amar a pátria!

Como era pequeno o meu país, com toda a grandeza de suas montanhas e de seus rios, diante do colosso americano do norte!

Caía-me na alma uma tristeza de desterrado, uma profunda e incompreensível melancolia, feita ao mesmo tempo de saudade e descrença.

Incansáveis os americanos! Nenhum povo os excede em temeridade e perseverança. Sequiosos de glórias para o seu país, ávidos de empreendimentos que causem assombro ao mundo, eles têm uma grande qualidade - o amor à sua terra, o nativismo instintivo, o chauvinismo (deixem passar o termo) incondicional, absoluto, e é força confessar que, sem essa qualidade, sem esse egoísmo patriótico, as nações vivem, mas não progridem.

Ainda ultimamente a câmara do Estado de Nova Iorque aprovou, por unanimidade, o bill que propôs a construção de uma nova ponte de ferro sobre o East River, passando sobre a ilha de Blackorel, que ligue Nova Iorque a Long Island, e que terá seis mil metros de comprimento e 46 de altura, com uma resistência de 65 quilômetros de velocidade para os trens que a devem atravessar.

É o caso de dizer, parodiando o outro: se eu não fosse brasileiro, desejaria ser americano do norte.

CAPÍTULO XIII

Nunca fui a Londres, apesar do grande e impaciente desejo que tenho de visitar a sombria capital britânica, mas estou bem certo de que Nova Iorque em muitos respeitos pode ser denominada a Londres americana.

Toda nova, toda alegre e pitoresca, sem os bairros imundos que o Tâmisa lambe com as suas águas pútridas, onde bóiam cadáveres em decomposição, iluminada por um sol que dá vida e conforta, a nova Londres tem um cunho especial de cidade latina. Como em Londres, tudo nela é grandioso e opulento, desde a edificação igual, sólida e elegante, até às festividades públicas e às instituições nacionais.

As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente e distinguem-se pela numeração (Fourteen street, Fifteen street etc.).

A Broadway é o centro comercial, a rua de maior movimento quotidiano - equivale à City de Londres.

Aí é que os carros se atropelam, que os transeuntes se abalroam numa confusão burlesca e indescritível de que a nossa Rua do Ouvidor não dá sequer a menor idéia. Negociantes, capitalistas, banqueiros, corretores, operários e vagabundos acotovelam-se, empurram-se, pisam-se os calos e vão seguindo adiante, sem olhar pra trás, carregados de embrulhos, suando no verão, que costuma ser muito forte em Nova Iorque. A gente vê-se abarbada para romper aquela multidão cerrada, compacta e egoísta.

Um cosmopolitismo sem igual em parte alguma.

Americanos, ingleses, espanhóis, franceses, italianos, alemães, gente de todas as nacionalidades, até turcos com os seus costumes esquisitos, confundem-se nas ruas de Nova Iorque, enchendo-as em ondas sucessivas e tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio. Parece mesmo, à primeira vista, que o elemento estrangeiro absorve o nacional, tão numeroso é aquele. Custa, porém, a encontrar-se um português ou um brasileiro. Em compensação a raça latina é abundantemente representada por espanhóis da Europa e da América. Os mexicanos, apesar da natural e oculta ojeriza que têm aos americanos dos Estados Unidos, encontram-se a cada passo e distinguem-se logo pelo seu tipo original: estatura média, rosto anguloso e abolachado, moreno, cabelo duro, olhos pequenos; amáveis. Não perdem ocasião de dizer mal dos americanos, que, entretanto, dedicam-lhes uma afeição especial.

Uma das coisas mais curiosas de Nova Iorque são os trens elevados (elevated railroad), a complicada rede de linhas férreas que rodeia a cidade passando em muitos pontos por cima da casaria, atravessando ruas inteiras sobre grandes colunas resistentes de ferro. Partem todas da Battrey Square, ponto mais meridional da ilha de Manhattan (onde fica a cidade) e vão terminar na sua extremidade setentrional, em Harlem River. Segundo o relatório apresentado pela New York Elevated, o número de viajantes transportados em 1878 por essa linha foi de 107.079.625. (Sempre a estatística como base fundamental do progresso entre os americanos!) A linha inteira, que tem seguramente trinta milhas, estava concluída até Harlem. Os moradores das margens dessas estradas de ferro aéreas queixavam-se continuamente da vizinhança.

Pudera! Ruído, fumo e fagulhas a toda hora sobre a cabeça, não são coisas que agradem a ninguém. A pobre gente fica em risco de perder o juízo, pois não!

Felizmente, o que aliás é muito admirável, os desastres reproduzem-se raríssimas vezes. É que o serviço faz-se com inexcedível perfeição e as posturas municipais verificam-se inexoravelmente.

As estações são numeradas, como as ruas: Primeira Estação, Segunda Estação, etc.

Os passageiros desembarcam em plataformas de ferro gradeadas, que comunicam com as estações.

O espírito inventivo dos americanos revela-se a cada passo nas grandes cidades dos Estados Unidos. Em todos os estabelecimentos, em todos os ramos da atividade pública se encontra uma aplicação nova de mecânica industrial, um artifício de utilidade prática, econômico e curioso, uma invenção engenhosa...

Aproveitar o tempo e economizar os dólares - tal é o princípio fundamental da sabedoria ianque.

Um domingo em Coney Island: nada mais pitoresco e hilariante, nada mais sugestivo.

Coney Island aos domingos é para os americanos o que o Bois é para os franceses e Hyde Park é para os ingleses - um interessantíssimo microcosmo de incrível bizarraria, cheio do vago rumor de uma multidão que passeia, que canta, que ri e que bebe ao ar livre, num pêle-mêle vertiginoso, com as suas toilettes claras, com o seu belo ar despretensioso, com os seus gestos largos de quem respira uma atmosfera leve e pura.

Essa pequena ilha constitui a principal diversão domingueira dos habitantes de Nova Iorque.

Famílias inteiras, burgueses de todas as castas, cocotes, afluem para ali nesses dias. Pela manhã, cedo, largam da Falton Station grandes barcas embandeiradas conduzindo músicas, cheias de passageiros. Muita gente prefere ir por terra, em trens que partem de Brooklin.

Não há lugar para todos nos hotéis. Improvisam-se piqueniques defronte do mar, na beira da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas há que não se lembram de comer - preferem a cerveja, o bock, a qualquer espécie de alimento sólido.

Vimos dois grandes hotéis - o Great Hotel e o Gigantic Elephant.

Aquele é um magnífico estabelecimento, todo construído de madeira de lei sobre enorme plataforma que se move em trilhos próprios. Novo gênero de hotéis até então desconhecido para nós. Num dado momento podem ser conduzidos, como qualquer tramway, dum lugar para outro.

O Gigantic Elephant (the monarch ol the architectural world, como lá dizem...) mede 175 pés ingleses de altura, é dividido em 31 compartimentos, ventilados por 63 janelas, e iluminado, à noite, por 25 focos de luz elétrica. Figura um elefante colossal, de madeira, em pé, no meio de um jardim. Em cima, no dorso do monstro, existe um terraço donde se descortina uma esplêndida paisagem rasa e calma.

Quer num, quer noutro, o promeneur encontra abundante variedade de petiscos e bebidas.

As crianças, com especialidade, fazem de Coney Island um céu aberto. Elas, sim, não perdem os cavalinhos que andam à roda ao som de um clássico realejo seboso, os passeios aéreos, na ponte-russa, nas barquinhas, nos trens elevados...

Por toda a parte música, realejos, pregoeiros de coisas maravilhosas, gritos, gargalhadas.

Tiram-se retratos instantâneos, apostam-se corridas, sobem-se elevadores de duzentos metros acima do solo, pesca-se, alugam-se cavalos de passeio... Enfim, Coney Island é uma miniatura da vida tumultuosa das grandes cidades.

O pobre-diabo que não for esperto e econômico arrisca-se a voltar com as algibeiras cheias de vento...

À noite enchem-se novamente os trens e as barcas. Em uns e outros a algazarra torna-se insuportável. Canta-se a Marselhesa em vozes detestáveis, grita-se, bate-se com a ponteira da bengala no chão, assovia-se, imitam-se animais de toda a espécie... Uma loucura!

Entretanto, abençoado país! em todas essas pagoderias não se distingue sequer um boné policial. Não há conflitos, nem desastres.

Tudo corre na maior harmonia, sem intervenção da guarda cívica. Os policemen podem cochilar à vontade: a população americana é naturalmente pacata e respeitadora da ordem.

Coney Island é o complemento necessário e indispensável de Nova Iorque.

Pelo verão reúnem-se ali cerca de 5.000 pessoas, segundo o cálculo aproximado do cônsul brasileiro.

Dias depois da nossa chegada, o Barroso entrou para o dique de Brooklin, a fim de sofrer alguns reparos no casco.

Enquanto isto se dava, enquanto a guarnição ocupava-se da limpeza externa do cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com o carinho mesmo de amigos dedicados, íamos visitando outras cidades americanas, ligeiramente, de relance.

Não nos foi dado, porém, diga-se em parêntesis, ver o mais grandioso espetáculo dos Estados Unidos - a célebre cascata do Niágara, que Chateaubriand pinta com as maravilhosas cores de sua palheta de artista inimitável.

Não tivemos mesmo a felicidade de ver Washington, a bonita capital americana, e tampouco o presidente Cleveland.

Esse privilégio coube quase que exclusivamente ao ex-príncipe D. Augusto, que aliás não revelou grande admiração pela Niágara, nem pelo presidente Cleveland.

Sua Alteza não era para que digamos muito amigo da natureza e menos ainda de personagens ilustres.

Quanto a mim continuei a ver a famosa cascata por um óculo, nos livros do poeta, e o Sr. Cleveland, vi-o casualmente no Daily News, no ato do seu casamento realizado a esse tempo. Pareceu-me um belo tipo de ianque: cheio de corpo, cabelo penteado pra trás, olhar firme, bigode grosso...

Assim, contentamo-nos com visitar algumas cidades de importância e tão depressa que era impossível apanhar com precisão todos os caracteres por meio dos quais se pode apreciar a vida de uma população.

Vejamos:

BALTIMORE - Cidade aristocrática, pequena, mas extremamente bela na simplicidade, no gosto sóbrio de sua edificação, muito asseada, clara, semelhando toda ela, no seu conjunto gracioso, uma confortável habitação de outono, fresca e risonha, boa para se gozar o sossego de uma vilegiatura sem preocupações mercantis e utilitárias.

A gente de Baltimore parece viver uma vida tranqüila e descuidada no calmo interior de seu home, longe da mentira social, longe de todo o ruído, beatificamente, numa paz invejável, respirando uma atmosfera livre do micróbio daninho das civilizações tumultuosas.

Baltimore é uma cidade por excelência aristocrática e higiênica, onde os temperamentos requintadamente pacíficos encontrariam o desejado repouso trespassado da incomparável doçura de um clima raro.

Na melhor de suas praças e no mais elevado de seus pontos ergue-se a estatua em mármore do grande Washington, geralmente considerada "um dos mais interessantes monumentos da América" e inaugurada em 1809. Mede 60 pés quadrados na base e 15 de altura. Sobre o pedestal foi levantada uma elegante coluna dórica de 20 pés de diâmetro na base e 15 no cimo, onde branqueja a estátua do primeiro presidente dos Estados Unidos, representando-o no momento de renunciar a sua comissão de general-em-chefe dos exércitos de seu pais.

Para subir até essa galeria fui obrigado a vencer duzentos degraus (contados) de uma estreita escadaria de pedra, em espiral. De cima vê-se, a olho nu, todo o panorama, realmente belo, da cidade, que lembra uma dessas paisagens holandesas, muito claras e sugestivas, tais como descreve Ramalho Ortigão, e onde destacam, num fundo de aquarela, linhas de arvoredo e revérberos d'água parada.

Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonitas dos Estados Unidos são as de Baltimore. Durante as poucas horas que aí nos demoramos vimos alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possível que víssemos com olhos protetores de hóspedes em terra estranha...

Era nosso cônsul naquela cidade Fontoura Xavier, o conhecido autor das Opalas, bom poeta e péssimo republicano, que se apressou em nos proporcionar todas as comodidades possíveis, franqueando-nos os quartos e os salões do melhor hotel do lugar. Fez mais: ofereceu gentilmente à oficialidade brasileira um delicadíssimo almoço ao qual compareceram diversos estudantes nossos patrícios.

Guardamos belas recordações de Baltimore.

FILADELFIA - Grande centro de indústria e comércio. Altas chaminés características. Céu encoberto de fumaça, pesado e lúgubre a certas horas do dia. Aquedutos, casas colossais, ruas largas e atulhadas de barricas e caixotes. Continuo movimento de carros e tramways. Imensa e grandiosa, a cidade vista de qualquer ponto elevado. A lembrança que fica é a de um grande edifício em construção, cheio de rumor de máquinas e de operários em atividade permanente.

- Jardim Zoológico. - Universidade importantíssima, onde vão estudar moços de todas as nacionalidades. - City Hall, edifício monumental, vasto e muito alto, onde funcionam as repartições públicas: dizem ser o maior dos Estados Unidos.

Não há tempo a perder. Temos apenas três horas a nossa disposição, pois que o trem deve partir para Anápolis às cinco da tarde e já são duas...

Leio na tabuleta de um bonde: Zoological Garden... Oh! sim, vamos ao Jardim Zoológico, a mais completa coleção de animais, que já se conseguiu formar. O meu companheiro, que conhece o Jardim Zoológico de Londres e o de Filadélfia, opta por este. Vejo, de passagem ruas belíssimas, esplêndidas filas de casas luxuosas, magníficos jardins particulares, templos em estilo gótico; descampados.

Mas, a viagem é longa, o tempo escorre sem a gente perceber, e é preciso contar com a volta, a fim de apanhar o trem.

Trabalho perdido! Voltamos no mesmo bonde, sem ter visto o apetecido Jardim Zoológico.

Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar por entre os passageiros que se acumulavam na gare, e saltar para dentro do vagão.

E eu fiz o resto da viagem pensando no assombroso progresso daquela cidade enorme, que ainda em 1791 não era mais que uma simples colônia a respeito da qual Chateaubriand exprimia-se deste modo: - L'aspect de Philadelphie est jroid et monotone...

Não foi preciso mais de um século para que os americanos fizessem dela uma das principais cidades industriais do mundo.

Em Filadélfia tive ocasião de ver, pela primeira vez, bondes elétricos funcionando com a máxima regularidade.

O que será a grande cidade americana daqui a cem anos?

CAPÍTULO XIV

Abramos capítulo especial para Anápolis, não que esta cidade, a mais antiga dos Estados Unidos, mereça-nos mais que qualquer das outras, absolutamente não, mas por uma deferência bem entendida, por um recolhido sentimento de gratidão para com a jovem oficialidade da marinha norte-americana, que ali recebeu as primeiras lições de disciplina militar e dever cívico, e que soube nos acolher em seu seio como verdadeiros irmãos de armas que éramos.

A nossa visita coincidia com a festa de formatura dos guardas-marinha, uma das belas solenidades anuais dos Estados Unidos à qual concorrem centenas de pessoas da mais elevada sociedade - a fina flor da aristocracia daquele país - movidas pelo nobre entusiasmo de apertar a mão à mocidade que se despede da escola para entregar-se às duras lidas do mar.

Antes, porém, de dizer o que foi essa festa, descrevamos, rapidamente, a cidade.

Anápolis é como unia nota dissonante na civilização americana. Imagine-se um quilombo africano, uma grande aldeia cortada de ruas desiguais, estreitas e desalinhadas, com um aspecto sombrio e detestável de velho burgo colonial, onde se move uma população na maior parte negra e atrasadíssima - e ter-se-á essa antítese da cidade moderna. Bridgetown, a capital de Barbados, avantaja-se-lhe mil vezes com toda sua poeira, com toda a imprudência e miséria de sua baixa população.

Vê-se que os americanos têm-lhe certo respeito e conservam-na esquecida e retrógrada por uma espécie de devoção arqueológica, sacrificando por esse modo o seu bom gosto característico e o seu tradicional amor ao progresso.

Insípida, monótona e triste como um cemitério de pagãos - Anápolis é um protesto, um anátema contra a evolução natural das coisas, uma nódoa antipática em pleno mapa da Confederação americana. Nada há ali que interesse e desperte a curiosidade senão a Escola Naval (Naval Academy) situada numa das extremidades da cidade, à beira-mar.

De ano em ano enche-se de povo; seu único hotel, um pardieiro, extravasa, e então sente-se um frêmito de vida nova percorrer aquelas ruas habitualmente sossegadas e tristes. Passeiam bandas de música, flutuam bandeiras na frontaria das casas, por toda a parte ouve-se uma vozeria estranha de gente que bebe e canta nos cafés (arremedo de cafés) e todas as janelas abrem-se como para receber o desinfetante da alegria, importado das grandes cidades circunvizinhas.

Anápolis acorda, então, de seu pesado sono tumbal para saudar os estudantes que saem da academia para a vida pública.

O grande ato, a que assistimos, da distribuição de títulos, realizou-se num dos vastos salões da Escola, presente numerosíssimo auditório: família em grandes trajes de luxo, altos funcionários, estudantes.

Ao receberem seus diplomas os novéis oficiais de marinha foram vivamente aplaudidos pelos seus companheiros, caindo sobre eles uma chuva imprevista de flores, no meio de palmas e gritos de entusiasmo. E começaram os abraços, as felicitações, os conselhos e as lágrimas de comoção.

Abrem-se de par em par as portas do estabelecimento e a multidão de espectadores precipita-se por todos os lados, feliz, alegre, desafogada como se acabasse de assistir a uma festa de amor e justiça.

Ainda não estava concluído o programa.

Em seguida à solenidade oficial - a festa íntima, a festa de despedida que os naval cadets (aspirantes) ofereciam aos seus companheiros.

Noite clara e constelada. O largo edifício da Escola de Marinha regurgita de convidados que se cruzam em todos os sentidos no salão de baile, nos corredores, nos bouffets, nas ante-salas...

Nota-se em todas as caras certo ar de intimidade, certo bem-estar flagrante, um quer que é comunicativo e bom.

Uma ou outra casaca solitária, destoando da linha geral das toilettes largas e frescas. Observo curiosamente o apuro de um oficial japonês que franze as sobrancelhas num gesto de enfado. - Por que será?... Julgo de mim para comigo que o pobre camarada não se sente à vontade dentro de suas calças de pano com largos galões dourados. A casaca o incomoda visivelmente. O chapéu armado, ele já não sabe como o tenha - se na mão, se debaixo do braço ou mesmo se na cabeça...

Desabotoam-se risos gentis em bocas purpurinas. Derramam-se essências preciosas no ambiente luminoso. Conversa-se alto. Belas misses de face escarlate abanam-se com os leques de ricas plumas de edredom. Os leques e as jóias são as únicas riquezas que conduzem num contraste frisante com os vestidos leves e claros.

Em um dos lados do enorme quadrilátero, onde reluziam panóplias arranjadas a capricho, estava levantado um pavilhão de aspecto risonho, em cujo frontispício destacavam em letras de luz

1887 TO 1886
FARWE LI.

Era o lugar do diretor da escola.

Começou a dança...

E à meia-noite a música fazia sinal para a última valsa.

Ficamos sabendo que todas as festas noturnas terminam invariavelmente à meia-noite, nos Estados Unidos. É uma velha praxe que os americanos poucas vezes transgridem.

Anápolis, black City - como te chamam teus próprios patrícios, tu não poderás saber nunca a saudade que levamos de ti nessa esplêndida noite clara e constelada!...

CAPÍTULO XV

O 'Barroso" continuava no dique, em Brooklin.

Logo ao regressarmos de nossa viagem a Anápolis tivemos aviso para uma outra excursão não menos interessante e agradável.

West Point era agora o principal objeto de nossa curiosidade - West Point, a bela povoação à margem do Hudson, onde funciona a Escola Militar. Estávamos convidados para assistir a outra festividade acadêmica - um combate simulado entre os alunos do estabelecimento - manejos de armas, exercícios de esgrima, assaltos.

Compreende-se a grande utilidade que necessariamente nos adviria dessas visitas aos estabelecimentos militares no estrangeiro. Sem nos aperceber, íamos conhecendo, de visu, os diversos processos de ensino prático, os métodos mais modernos de educação física, e, quando mais não fosse, lucrávamos com a vista de objetos novos e de novas paisagens.

O viajar é uma necessidade quase imprescindível para o espírito e para o organismo. A alma como que se dilata em presença de estranhas combinações de cor e de luz. A monotonia da vida urbana cansa o espírito, fatiga-o, consome-o lentamente; é preciso o grande ar, o ar livre e temperado dos campos, a natureza em toda sua beleza original, para que não se morra de tédio e desânimo. O tempo é limitadíssimo e inapreciável para quem viaja com desejo de ver e saber.

Muitos há que preferem morar eternamente em Paris ou em Londres, no centro da cidade, asfixiado pela poeira dos boulevards, a gastar economicamente o seu rico dinheirinho vendo a natureza de perto, gozando as inefáveis delícias do campo e das praias, saboreando o clima das montanhas, deliciando a vista com o espetáculo das fontes murmurejantes, dos frescos arvoredos trespassados de luz...

Eu preferirei sempre a paz absoluta e invejável dos subúrbios.

E é por isso que, a cada nova excursão fora da cidade, eu sentia-me bem comigo e bem com o resto da humanidade. Voltava sempre mais consolado e mais leve, como se saísse de um quarto muito escuro e abafado para a claridade larga e bela do dia.

Foi assim que recebi a notícia do passeio a West Point.

Como devia ser magnífico o Hudson lá para as bandas de sua nascente, a qualquer hora do dia, iluminado pelo sol, calmo e radiante, ou coberto de névoa, pela manhãzinha, ou no silêncio da noite, vago e sombrio como um pântano dormente!...

Era o que íamos ver.

Seis horas da manhã...

Caía uma neve friíssima, transparente, e agressiva como alfinetadas.

O Express, pequeno e elegante cruzador americano, espécie de transporte de guerra, esperava-nos de "fogos acesos", deitando fumo pela chaminé.

Remos n'água e toca pra diante! Pontualidade no caso.

Estamos a bordo.

O Express oferece o belo aspecto de uma galeota imperial que vai suspender ferro...

Fazia gosto ver a ordem e o asseio que apresentavam o convés e a câmara.

Tinha-se acabado de fazer a baldeação matinal. Marinheiros, perfeitamente uniformizados, ocupavam-se em limpar as chapas de metal; outros colhiam cabos à proa; outros lá cima, nas vergas, atavam ou desatavam andarivelos, muito rubros, com os seus bonés de pano azul-marinho onde se lia o nome do navio, em letras cor de ouro: - Express.

A câmara - uma sala espaçosa e clara, elegantemente adornada - ocupava um terço do pontal, a ré, na primeira coberta. Embaixo, na segunda coberta, ficavam os camarotes e a praça de armas.

Servido o fine cognac, que os americanos de bom tratamento não dispensam nos dias invernosos, o captain subiu ao passadiço e deu a voz de suspender. A máquina tocou adiante e o Express começou a singrar o Hudson.

Variadíssimo o aspecto da paisagem. Ora o rio se estreita em curvas caprichosas, ora vai-se alargando, sempre manso, banhando cidades e aldeias, límpido às vezes, outras vezes toldado e sombrio.

West Point fica a duzentas milhas de Brooklin.

Passamos o dia inteiro e a noite em viagem para amanhecermos em nosso destino.

Novas manifestações de simpatia. Oficiais e alunos da Escola Militar esperavam-nos com aquele sorriso afável de gente hospitaleira, que logo se traduz em franca e sincera camaradagem.

A Escola estava acampada perto do estabelecimento, em exercícios práticos.

Inúmeras barraquinhas de lona, alinhadas em simetria, alvejavam, como um acampamento de beduínos, guardadas por sentinelas que rondavam de arma ao ombro, perfilando-se de vez em quando em continência a um oficial que passava.

Cada barraca abrigava cinco a seis alunos que se rendiam pontualmente na sentinela.

Enquanto um rondava, grave e silencioso, de mochila às costas e espingarda ao ombro, os outros divertiam-se a trocar socos, a jogar o dominó, a apostar corridas, até que o tambor ou a cometa os chamasse à forma. Então, com uma rapidez extraordinária, lestos, vivos e fortes, corriam todos a seus postos, e, em menos de um minuto, estava formada a companhia.

Cada aluno era um verdadeiro soldado.

Alegres, o sangue a pular-lhes no rosto, cheios de saúde, tesos, empinados, quadris largos, espáduas amplas, todos se pareciam em robustez física.

Uns rapagões sadios!

Notei mesmo certa propensão dos americanos para o militarismo. Parece que a educação militar, adaptação de princípios rigorosos na disciplina do corpo, é o único meio de obterem-se homens robustos e cumpridores do dever. A Escola de West Point é, sem exagero um exemplo raro de estabelecimentos desse gênero. E não era sem uma ponta de tristeza que nós, brasileiros - raça degenerada e linfática - víamos criar-se assim uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e independência.

Tive ocasião de assistir a uma luta corporal entre dois alunos, competentemente armados de luvas de camurça, rosto a descoberto. Pegaram-se a socos, um defronte do outro, calmos e convictos, como se estivessem cometendo uma nobre ação.

No fim de alguns minutos, o agressor estava com o rosto inchado, escorrendo sangue, os olhos vermelhos, injetados, e a luta acabava com um abraço entre os dois contendores. O mais forte foi aclamado pelos companheiros, teve o prêmio de sua robustez.

É talvez um duro sistema de educação esse, mas incontestavelmente o mais acertado e eficaz.

Simples questão de raça...

CAPÍTULO XVI

Estava terminada a nossa estação de quase dois meses em Nova Iorque.

No dia 30 de julho o Barroso deixou aquele porto em direção a Newport, outra cidade dos Estados Unidos, refúgio da população aristocrática nos quentes dias de verão. Uma perfeita cidade balneária, muito fresca e saudável, à beira-mar, olhando para o largo oceano e recebendo-lhe as emanações salinas, com um Cassino e um Passeio Público.

Os banqueiros e a gente rica de Nova Iorque costumam fazer aí o seu ninho de verão, e, de vez em vez, para amenizar a vida monótona que se leva nesse pequeno mundo de simplicidade e conforto, promovem regatas na esplêndida enseada que orla a cidade e que nesses dias de festa marítima toma uma feição ridente e característica de aquarela inglesa, com os seus cutters a vela, com os seus iates de recreio bordejando ao largo como um bando de gaivotas pousadas n'água.

Apostam-se milhões de libras. De França e de Inglaterra príncipes e lordes vêm assistir e tomar parte no jogo.

A regata é um dos divertimentos prediletos dos americanos. Todas as cidades marítimas e fluviais dos Estados Unidos têm pelo menos um clube de regatas.

Nota curiosa: em Newport não se bebe álcool. É proibida a importação de bebidas que contenham espírito, ou qualquer outra substância nociva. Não se encontra um só botequim na cidade. Para tomarmos um refrigerante, uma simples limonada, fomos bater a uma farmácia! Garantiram-nos que esse preceito contra o álcool é escrupulosamente observado naquela cidade. Custávamos a acreditar, mas, enfim, não havia jeito senão ser delicados.

De resto, uma cidadezinha elegante e sossegada, Newport. O comércio aí é quase nulo.

No fim de oito dias o Barroso deixava de uma vez o país dos ianques, fazendo-se de vela para os Açores.

Já agora não nos doía muito a saudade desse belo e prodigioso país. O regresso à pátria, depois de uma ausência de quase um ano, enchia-nos o coração de alegria.

Não fora a perda de um companheiro em Nova Orleans e voltaríamos todos, sem faltar ninguém, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios de esperança.

Voltávamos, sim, mas tínhamos deixado atrás, em terra estrangeira, num cemitério de Nova Orleans, um dos nossos camaradas.

Trazíamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe compreender tão bem o problema da vida humana como os americanos dos Estados Unidos. A idéia da morte não os preocupa: um ianque triste é coisa rara e toma proporções de fenômeno.

Eles, os americanos, são geralmente alegres, bem-dispostos, amigos do trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua pátria mais do que qualquer outro povo.

A pátria e a família são os seus principais objetivos. Menos egoístas que os ingleses, enérgicos e resolutos, sobra-lhes tempo e dinheiro para se divertirem.

Esse povo verdadeiramente democrático não pede lições a país nenhum: engrandeceu à custa de seus próprios esforços e dia a dia prospera, assombrando o mundo com as suas empresas colossais.

Se a Alemanha representa no século XIX a pátria das ciências morais, aos Estados Unidos compete o primeiro lugar na ordem dos países que têm concorrido grandemente para o aperfeiçoamento e bem-estar humanos.

Enquanto as nações da Europa digladiam-se numa luta contínua, perdendo na guerra o que dificilmente acumularam em poucos anos de paz, a grande nação americana deixa-se estar quieta e desarmada, sem exército e sem marinha, confiada no seu próprio valor, no patriotismo de seus filhos, certa de que, num dado momento, cada cidadão, cada americano saberá cumprir com heroísmo o seu dever e honrar as suas tradições de povo independente e forte.

Go ahead! never mind! help yourself! - eis a máxima de todo ianque. Eles não a esquecem nunca e marcham desassombradamente na vida, como quem tem absoluta confiança no próprio valor.

Ceará, 1890.

Fonte:
Tentação - No País dos Ianques - Adolfo Caminha - Livraria José Olímpio Editora -1979

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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