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No País dos Ianques

INTRODUÇÃO

TAINE, o glorioso Taine, o querido filósofo cuja obra admirável tem sido uma espécie de bússola para os que se iniciam na complicada arte da palavra; Taine, o mestre, aconselhava sabiamente, com aquela profundeza de vista e com aquele raro e superior critério de artista e pensador:

Que chacun dise ce qu'il a vu, ei seulement ce qu'il a vu; les observations, pourvu qu'elles solent personnelles et faites de bonne foI sont toujours utiles.

Devo a estas palavras a lembrança de escrever as múltiplas impressões, os sucessivos transportes de admiração, de júbilo e tristeza por que passou meu espírito durante alguns meses de viagem nos Estados Unidos.

A princípio afigurou-se-me obra de alevantado alcance e de extrema coragem traçar, ainda que ligeiramente, o plano de um livro sobre a grande nação americana, tão singular em seus costumes, em sua vida agitada e tumultuosa, em seus variadíssimos aspectos.

E de fato, esse trabalho, essa difícil tarefa demandaria, incontestavelmente, muito mais que uma soma de notas mais ou menos verdadeiras e algum estilo. Era preciso, antes de tudo, um elevado critério histórico e científico, grande cópia de conhecimentos e profundo espírito analítico.

Não se escreve a história de um país - a vida inteira de um povo -, sem demorar-se em largo e paciente estudo sobre as suas origens, seus habitantes primitivos, sua evolução política e social, suas lutas intestinas e sobre os elementos que mais diretamente influíram para sua independência.

A eles, os historiadores e analistas da ciência, tão arriscada empresa.

Os poucos meses que passei nos Estados Unidos apenas me proporcionaram ensejo de admirar, através de um prisma todo pessoal, o progresso assombroso desse extraordinário país.

Compreendem-se, pois, os meus intuitos: nada mais que reproduzir, com a possível exatidão, o que vi, somente o que vi nessa interessante viagem ao país dos ianques.

Procurei ser espontâneo e simples, natural e lógico, evitando exageros de observação e o estilo rebuscado e palavroso dos que, à fina força, pretendem transformar a literatura numa simples arte mecânica de construir frases ocas e coloridas.

Escritas em !890, as páginas que se vão ler podem não ter a importância de um estudo completo, mas de algum modo têm seu valor intrínseco.

Rio, 10 de agosto de 1893.

AD. CAMINHA

CAPÍTULO I

...Tinha cessado a faina geral de suspender âncora. Os marinheiros estavam todos em seus postos, alerta à primeira voz, silenciosos, enfileirados a bombordo e a boreste, alguns convenientemente distribuídos na popa, na proa e nas cobertas do cruzador.

Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro e tristeza, fria, sem estrelas, cortada de clarões longínquos. Tão escura que se não distinguia um palmo diante do nariz, tão feia que os bicos de gás da cidade, soturna e quieta, bruxuleavam palidamente com a sua luz trêmula e vacilante.

E contudo estávamos a 19 de fevereiro, em plena estação calmosa, no rigor do verão.

Chovera todo o dia. O céu conservava-se coberto de nuvens bojudas e cor de chumbo, velando uns restos de lua.

Um grande silêncio de alto-mar alastrava-se por toda a baía do Rio de Janeiro. Somente ao longe, para os lados da cidade, badalava o sino duma igreja, compassado e lúgubre.

De vez em quando passava rente com a popa do Barroso o vulto sombrio e largo de uma barca Ferry, com o seu farol de cor, deserta, indistinta, e que desaparecia logo na escuridão.

Seria meia-noite quando o navio começou a mover-se lentamente, caminho da barra, cheio da silenciosa melancolia dos que partiam, e uma hora depois a cidade, as praias, e as montanhas sumiam-se na distância, como se o mar as fosse engolindo com a voracidade de um monstro.

Restava apenas um ponto luminoso, uma visão microscópica da terra fluminense: era o farol da ilha Rasa tremeluzindo, como pálpebra sonolenta, através da noite.

E todos a bordo, todos silenciosamente, egoístas na sua dor concentrada e incomunicável, mandaram ainda um - adeus - profundamente saudoso à vida alegre e ruidosa do Rio.

Dizem que o homem do mar é insensível aqueles que nunca viram esta realidade: a lágrima da saudade brilhar na face de um marinheiro.

Lá fomos mar afora...

Pernambuco foi o primeiro porto da nossa escala.

Viagem monótona, sem acidentes notáveis, essa do Rio ao Recife. As horas sucediam-se numa uniformidade tediosa e imperturbável. Sempre o mar, sempre o céu, ora sombrios, ora azuis.

Durante o dia 21 avistamos, e isso nos consolou, uma vela que bordejava, muito branca, triste garça erradia no horizonte luminoso.

Para quem viaja no mar uma vela que se avista é sempre motivo de inocente alegria. O marinheiro com especialidade gosta de segui-la com o olhar nostálgico até perdê-la completamente. É como ao avistar-se terra depois de longa travessia: sente-se a mesma impressão boa e indefinível.

Na manhã de 26 - leste-oeste com o farol de S. Agostinho, e às onze horas recebíamos o prático.

Impossível entrar nesse dia, por falta de maré: passamos a noite fora, no Lamarão, aos solavancos, vendo, por um óculo, a cidade do Recife, iluminada e bela, ombro a ombro com a legendária Olinda dos holandeses e dos banhos de mar.

Na falta de outro assunto falou-se de história pátria.

Pela manhã de 27 o Barroso sulcava as águas do Lamarão, lento e majestoso, crivado de olhares. O povo saudava-o do cais da Lingüeta. Espalhou-se logo que o príncipe D. Augusto, neto do imperador, vinha a bordo, e toda a gente correu a recebê-lo com essa avidez instintiva das massas populares. O povo pernambucano, tradicionalmente inimigo dos imperadores, lembrava-se do tempo em que o Sr. D. Pedro de Alcântara dava-se ao luxo de visitar o Norte.

Mais tarde, ao desembarcar a turma de guardas-marinha, de que fazia parte o príncipe, subiu de ponto a curiosidade pública.

- Oh! o príncipe! - Que é dele? - É um ruivo? - É aquele barbado?

O pobre moço viu-se em apuros, e mudava de cores, e fazia-se escarlate, e vociferava contra a plebe, ocultando-se entre os colegas, desapontado. Um preto velho teve a lembrança de ajoelhar-se aos pés de S. A. e suplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, porém, que errou o alvo e foi direto a um outro rapaz, louro e rubro, como o príncipe, que se apressou em desfazer o engano.

O imperial senhor achava-se ridículo no meio de toda aquela multidão servil e anônima que o acompanhava, "como se visse nele um animal selvagem..."

É assim o povo - ingênuo, pueril.

Visitamos, em romaria, os principais edifícios públicos: a Penitenciária, a Assembléia Provincial, o Ginásio, o Teatro.

A nova Penitenciária do Recife é um belo edifício no gênero.

Impressiona tristemente esse casarão sombrio com escadarias de ferro, onde mal penetra a claridade meridiana.

Há criminosos de toda a espécie, em cujos semblantes retratam-se delitos tenebrosos. Nada, porém, nos comoveu tanto como a história do preso Gustavo Adolfo, que, há quase vinte anos, cumpria a terrível sentença a que fora condenado. Era um desses sentenciados simpáticos que inspiram compaixão a quem os observa de perto.

Um dos nossos companheiros desejou saber a história do seu crime e pediu ao infeliz que lha contasse ele próprio.

- Não queira, disse o condenado, não queira obrigar-me a fazer minha própria autópsia moral... Narrá-la, essa história, seria um suplício muito maior do que estar eu aqui, neste cárcere, há vinte anos...

Gustavo Adolfo parecia-nos um regenerado, tal o aspecto humilde de sua fisionomia e o tom comovente de sua voz. O isolamento transformara-lhe a alma. A dor tem isto de bom - purifica o espírito, é como um crisol. Esse infame, esse assassino, Gustavo Adolfo, era um mártir. Aquele semblante abatido pelas insônias, aquele rosto descarnado, aqueles olhos cansados de chorar, aqueles lábios lívidos de defunto, cansados de repetir a palavra - perdão, lembravam a figura resignada de um moribundo que nada mais espera senão a eterna liberdade - a morte.

Vimo-lo na casa dos condenados, entre as quatro paredes de um miserável cubículo, vestido de preto, barba crescida, macilento, arrependido e só.

Poucos iam incomodá-lo ali, naquela pavorosa solidão, e no entanto ele não odiava ninguém e desejava falar a todos.

Tinha dezenove anos quando a fatalidade o arremessou a Fernando de Noronha. A justiça humana o havia condenado a esta pena infamante - galés perpétuas.

Perdoar a um arrependido nas condições de Gustavo Adolfo, me parece a mais nobre ação de um rei. Todavia ele continuava, mendigo de liberdade, a pedir, a pedir...

Pôr diversas vezes a academia de direito, pelo órgão de seus representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador nunca estendeu o seu magnânimo olhar até aos cárceres senão em certos dias de gala natalícia para indultar os escolhidos da política dominante.

- Console-se, disse eu ao desventurado moço. E citei Lamartine: - Vivre c'est attendre...

Retiramo-nos comentando aquela catástrofe desastrada.

A história trágica desse preso foi-nos contada por um empregado do estabelecimento. Eu podia resumi-la em duas palavras: - cherchez la femme, se não fosse o prurido de registrar, ainda que brevemente, um caso curioso de processo-crime. Cada um tire as ilações que lhe aprouverem.

Gustavo Adolfo nasceu no Pará onde iniciou seus estudos como seminarista.

Muito cedo seu espírito mostrou-se refratário à educação eclesiástica, e desviou-se dos livros sagrados para outro gênero de leituras e estudos mais consentâneos com as suas aspirações.

Os pais do núbil seminarista desgostaram-se com o procedimento do filho revolucionário e ardente apologista de Martinho Lutero, que não ocultava-lhes suas tendências anticatólicas. Ele, porém, o apóstata, o herege, sentia-se instintivamente arrebatado pelas idéias do século e tratou de trocar a sotaina de noviço pelo fraque da última moda. Ninguém põe peias à fatalidade. Não contente com ir de encontro à vontade de seus pais e preceptores, o ex-seminarista tomou o primeiro vapor, e, súbito, viu-se na capital do Brasil, sem um amigo que o guiasse nesse labirinto de ruas suspeitas onde o vício assentou praça. A Rua do Ouvidor e os teatros sempre eram mais agradáveis que o claustro e as impertinências do reitor - muito mais...

Pobre Gustavo Adolfo! Salvara-se de um abismo para precipitar-se imprudentemente, como criança inexperta, noutro abismo talvez mais perigoso.

Sem amigos, sem proteção, longe de sua terra e de seus pais - que podia esperar o jovem desconhecido naquele turbilhão de vis interesses?

Imbert-Galloix, um italiano também adolescente e cheio de esperanças, inteligente e trabalhador, morreu de miséria numa rua de Paris, por ter trocado sua pátria natal por um país que só conhecia de nome. Fora em busca de glórias e encontrou a miséria, o frio, a fome, e a morte por fim.

Esses sonhadores como Imbert-Galloix são sempre vítimas da própria imaginação.

A sorte de Gustavo Adolfo foi mais cruel.

Custa a crer que um insignificante par de brincos leve um homem à cadeia e depois ao exílio perpétuo!

Uma vez sem meios de subsistência, lutando com a má vontade de uns e a indiferença de outros, Gustavo Adolfo, que tinha certa dose de espírito, desse espírito fino que caracteriza o homem de talento, fez-se boêmio, isto é, indiferente à vida, nômade a quem tanto faz dormir sobre flácido colchão, como ao relento e sobre a laje das calçadas. Ora, os boêmios são umas criaturas simpáticas. Quando um boêmio tem espírito acha sempre quem lhe estenda a mão. Gustavo Adolfo preferiu a mão leve, alva e cetinosa, de uma cortesã pela qual apaixonou-se deveras.

A mulher, sempre essa criatura profundamente sedutora e misteriosa!

E, parece incrível! quando na primeira noite, após as inefáveis carícias do amor, a mísera Manon, adormecida ao lado do amante, sonhava, talvez nalgum banquete suntuoso, à sombra de álamos frondosos, talvez nalguma de suas passadas orgias, à luz de candelabros deslumbrantes, ele, o mal-aventurado moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova o rosto sereno desta amante, antepensava um crime e um crime excepcional, monstruoso, inqualificável.

- Estes brincos, estes brincos... pensava ele fitando as jóias, duas grandes lágrimas de diamante pendentes das orelhas da rapariga. Seu espírito oscilava como um pêndulo na dúvida terrível, aguçado por um desejo louco.

Ei-lo que se levanta de um ímpeto, pisando devagar, sorrateiramente, tão de leve que dir-se-ia uma sombra; ei-lo que se encaminha para a porta da rua, tateando, encostando-se às paredes, pé ante pé, sem respirar, olhando sempre para trás, para o leito da amante (lembra-me a cena da "Cimbelina" de Shakespeare).

Meia-noite... Ei-lo ainda que volta e se aproxima do leito onde há pouco boiara em mar de volúpia. Traz na mão um objeto reluzente, uma coisa disforme... uma machadinha.

Que irá ele fazer?!.

Aproxima-se mais, rastejando quase, mansamente, sutilmente.

De repente soa uma pancada surda, e um grito estrangulado: - Soc... corro! Soa outra pancada surda, outra, outra, muitas pancadas, e sobre os brancos lençóis daquele malfadado leito palpitam as carnes sangrentas, moribundas, de um corpo de mulher que ainda há pouco sentia e pensava...

Obcecado pela idéia do roubo, o assassino arranca brutalmente as jóias do cadáver, e, à luz do combustor de cristal, reconhece que são falsas!

Foge rua fora, como um possesso, enfia num beco, sai por outra rua, e desaparece na escuridão da noite.

No dia seguinte seu nome lá estava estampado em letras garrafais no livro dos réus: "Gustavo Adolfo... preso pelo duplo crime de assassinato e roubo."

Mais tarde, anos depois, o jovem criminoso tentou fugir de Fernando de Noronha onde fora recolhido. Prenderam-no em flagrante. E há poucos meses, no ano passado, a princesa Isabel, então regente do Brasil, abriu-lhe as portas da prisão.

Gustavo Adolfo publicou, no degredo, um livro de versos intitulado Risos e lágrimas, uma coleção de poesias sentimentais e amorosas que pouco valem pela forma e onde se acham cristalizadas as dores do infeliz poeta, cuja imaginação cantava entre lágrimas.

Penalizou-nos a sorte desse rapaz simpático e inteligente.

Havia, além de Gustavo Adolfo, outro preso não menos interessante e que nos excitou a curiosidade. Indigitado autor de não sei que roubo, fora condenado igualmente a galés perpétuas.

Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) anos de idade e possuir família numerosa: - mulher e 30 filhos!

- Qual foi o seu crime? perguntamos.

O velhinho todo trêmulo, a cabeça muito branca, uma névoa úmida no olhar, sem forças quase para dar um passo, murmurou tristemente:

- Nenhum, meus caros senhores... Suponho que houve engano da justiça...

- E se lhe dessem liberdade agora?.

- De que me servia? Mal me tenho em pé e já não sei de minha mulher e de meus filhos. Estou muito velho, preciso morrer descansado aqui mesmo na prisão.

O edifício da Penitenciária tem, logo à entrada, a seguinte inscrição em mármore:

No DIA 23 DE ABRIL DE 1885 SENDO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA O ILM9 SR CONSELHEIRO DR. JOSÉ BENTO DA C. FIGUEIREDO FORAM REMOVIDOS OS PRESOS PARA ESTE EDIFÍCIO ORGANIZADO SOB A DIREÇÂO DO ENGENHEIRO JOSÉ MAMEDE ALVES PEREIRA.

Contava, portanto, trinta e cinco anos.

Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco.

CAPÍTULO II

No dia 27 deixamos o Recife em direção às Antilhas.

Como até aí, a viagem continuou a vapor - uma verdadeira viagem de recreio se não fosse a exigüidade dos cômodos a bordo do cruzador.

O comandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de assistirmos à abertura da exposição internacional americana, onde o Almirante Barroso devia figurar como legítimo e admirável produto da indústria naval brasileira tão pouco conhecida no estrangeiro.

Adotávamos, sempre que o vento permitia, a navegação mista, e deste modo, a vela e a vapor, arrastados pelas correntes marítimas que puxam para o norte, alcançamos, a 2 de março, a linha equatorial, onde apanhamos alguns chuviscos debaixo duma atmosfera ardentíssima.

Reinava "calmaria podre". Ferraram-se as velas à míngua da mais leve aragem, armaram-se os toldos para que pudéssemos suportar o calor na tolda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especialíssimo agrado. Suava-se a valer. Imagine-se embaixo, no porão, as fornalhas acesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, caindo como um cáustico sobre o navio.

À tardinha incendiavam-se os horizontes de um colorido rubro, ensangüentado, de mágica, refletindo-se no espelho do mar tranqüilo como num grande lago de cristal.

Demos graças a Deus quando nos vimos fora de tão desagradáveis regiões.

No dia 11 avistamos terra de Barbados, uma das mais prósperas colônias inglesas das Antilhas. Era o primeiro porto estrangeiro do itinerário.

O Capitão do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um inglês de aspecto duro como em geral o de todo inglês, olhando através de uns grandes óculos azuis e ostentando fleumaticamente um par de suíças ruivas. Trajava dólmã branco, muito justo ao corpo, calças de pano preto e chapéu de cortiça branco, de grandes abas, tombado para a nuca.

Fez a visita sacramental e pôs-se ao fresco em menos de dois minutos, depois de um fortíssimo shake-hand.

A ilha de Barbados vista de bordo é de uma nudez quase completa: nenhuma vegetação cobre as vastas planícies que primeiro ferem a retina do observador. Ao aproximar-se-lhe, porém, novas paisagens de efeitos cambiantes vão-se desenrolando à maneira de cosmorama. Moinhos rodam ao sopro do vento que ordinariamente é fresco aí, casas de campo confortáveis, árvores, chaminés fumegantes, tudo isso vai aparecendo à medida que nos aproximamos, até que, com verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidade de Bridgetown e então basta um golpe de vista largo para abrangê-la.

À distância Bridgetown semelha uma pobre cidade desabitada, sem indício de civilização. A surpresa que experimenta o viajante é completa depois. Alguém que aí esteve anos antes admirou-se da enorme quantidade de embarcações inglesas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra afirmando o grande poder marítimo desse país, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no mundo.

Um dia e meio - eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo suficiente para conhecermos a ilha à vol d'oiseau.

A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e geralmente intratável.

Abundam o ciceroni, espécie curiosíssima de especuladores, que perseguem os viajantes de uma maneira bárbara. Querem, à fina força, ensinar-lhes as ruas, os hotéis, e não os largam enquanto não satisfazem a sua ambição, cobrando, no fim de contas, certo número de shillings.

Falam um patois detestável; ninguém os entende com facilidade. Imagine-se um pobre-diabo acompanhado duma multidão que grita e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos: - Came hear! carne hear! discutindo, altercando-se de cacete em punho. O mísero julga-se por um momento transportado, como por encanto, às costas da África, fecha ouvidos à grita dos importunos ciceroni, brada mil vezes no, no, no..., e não tem remédio senão deitar a correr como um possesso, perseguido sempre pela turbamulta de vadios, até que, depois de uma luta incrível, esguedelhado, ofegante, pálido, embarafusta pela porta dum hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!

E ainda por cima vocifera a legião faminta dos negros!

Não exagero. Parece realmente um país semibárbaro aquele, e ai! de nós se não fossem os policemen, ativos e enérgicos guardas da vigilância pública, que a um simples franzir de sobrolhos fazem desaparecer a medonha horda de capadócios, ou que melhor nome tenham esses turbulentos demônios.

É espantosa a ambição do povo por dinheiro.

Ao tilintar do money surgem de repente vinte, trinta cabeças negras, cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.

Basta dizer que ainda não tínhamos fundeado e já grande número de pequenas embarcações a vela e a remos - fly hoats - aproximavam-se do navio, cortando-lhe a proa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, então, de todos os lados vozes que gritavam: - I am pilot! I am pilot!

Embalde procurávamos persuadir àqueles esfaimados de dinheiro que não precisávamos de prático, pois a baía de Bridgetown é bastante espaçosa e oferece entrada franca.

Dávamos com o lenço, mandando-os embora - que não! mas os gritos repetiam-se: - I am pilot! I am pilot!

Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio estrangeiro ao ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso.

Formidáveis importunos os tais negros de Barbados!

A edificação de Bridgetown, puramente inglesa, é curiosa, pitoresca mesmo, se bem que uniforme.

As casas, baixas quase todas, geometricamente dispostas, alpendradas na frente, simples e elegantes na sua arquitetura, são confortáveis e convidam ao far-niente.

As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, são, por assim dizer, intransitáveis, em conseqüência do poeiral que sobe, como fumaça, ao rosto dos transeuntes.

No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a St. Leonard's School e uma igreja-cemitério.

A estátua de Nelson, o herói de Trafalgar, ergue-se, em bronze maciço, numa das melhores praças do lugar - Nelson's Square, se me não engano.

Os poucos hotéis que existem na ilha são vastos e oferecem o necessário conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magnífico vinho, deliciosos sorvetes - ice-cream - e, finalmente, boas camas e muito asseio.

O brasileiro que viaja, com raras exceções, tem necessidade imprescindível de duas coisas que ele julga essenciais ao seu bem-estar: café e cigarros.

Spleen e charutos - são coisas inseparáveis de um inglês da Inglaterra; café e cigarros - eis o que um brasileiro não dispensa.

Infelizmente para nós, o café, tal qual se prepara em Barbados, é um licor detestável composto de muito pó e pouca água, que os naturais misturam à guisa de chocolate, mas de um sabor desagradável, repugnante.

Duas linhas de bondes percorrem a capital dum extremo a outro.

A ilha é circundada por uma via férrea.

De resto, é admirável senão assombroso o progresso dessa colônia, relativamente pequena e tão longe da metrópole.

E, note-se, de vez em quando atravessam aquelas regiões terríveis ciclones produzindo estragos incalculáveis em toda a extensão da ilha. Inúmeras embarcações, algumas de grande porte, têm sido arrojadas à costa por esses formidáveis meteoros. O último caiu em 1851 e figura nos anais da navegação como um dos grandes desastres marítimos do Atlântico.

CAPÍTULO III

Na manhã do dia 13 suspendemos âncora em direção à ilha da Jamaica, fundeando no mesmo dia na baía de Port-Royal.

Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze alvíssima, as altas montanhas que orlam majestosamente a antiga colônia espanhola.

Ao aproximarmo-nos da pequena e elegante cidade de Port-Royal, pedimos prático o qual nos levou a Kingston.

O brasileiro que, depois de longa ausência do Brasil, chega à Jamaica sente logo um prazer especial, um frêmito de patriotismo, ao contemplas as soberbas montanhas da ilha, tanto elas lembram a natureza do nosso país. A baía, salpicada de interessantes ilhotas de verduras, verdadeiras ilhas flutuantes, em cujas águas imóveis bandos de aves ribeirinhas ostentam sua plumagem garrida e multicolor, voando duma margem à outra numa contradança animada, oferece aspectos lindíssimos. Jamaica parece um pedaço do Brasil transplantado para as Antilhas, tal a opulência da sua natureza.

É a maior e a mais florescente das colônias inglesas da América depois de Barbados. Mede aproximadamente quarenta léguas de comprimento.

Kingston não é uma cidade como Bridgetown, onde a cada passo depara-se com uma prova de adiantamento material. É, por assim dizer, uma capital morta, quase sem comércio, mas, em compensação, muito mais pitoresca que a capital de Barbados. Os habitantes são morigerados, e uma paz religiosa parece reinar no seio de cada família.

Há mais pobreza, é certo, mas incomparavelmente o povo é mais educado, mais pronunciado o instinto de civilização.

Muitas estátuas. Vimos as de Lewis Quier Bower Bonk, nascido em 1815, Edward Jordon, um dos principais fundadores da Jamaica Mutual Life Assurance Society, Sir Charles Theophilus Metcal, governador em 1845 - todas ao redor de um parque. Isso prova quanto respeito infunde ao inglês o nome de um compatriota célebre.

Um brasileiro estabelecido em Kinsgton disse-nos ser o Almirante Barroso o primeiro navio brasileiro que aí aportava desde 1871.

Nossa demora em Jamaica foi rápida como em Barbados. Telegramas oficiais do Rio apressavam-nos cada vez mais. Já se havia inaugurado a Exposição de Nova Orleans; era-nos forçoso assistir ao menos o encerramento. Estávamos convictos de que o cruzador brasileiro ia figurar com brilho no importante certame americano. Tanto em Bridgetown como em Kingston não lhe faltaram elogios de pessoas competentes.

Todos ansiávamos pela chegada ao país maravilhoso dos ianques, ao berço da eletricidade, todos queríamos conhecer de visu o celebrado país das descobertas engenhosas.

Desde logo entramos, de combinação, em "sérios" estudos do idioma inglês praticando uns com os outros, compulsando manuais de conversação, decorando significados, preparando-nos, enfim, da melhor forma, para retribuir gentilezas, captar amizades, responder a todas as perguntas que nos fossem feitas à queima-roupa. Sim, porque tudo quanto havíamos aprendido teórica e praticamente na Escola, não era bastante. Faltava-nos a facilidade, o traquejo da palavra estrangeira, que havíamos de adquirir à força de vontade e aplicação assídua.

Alguns oficiais, entre os quais o comandante, riam-se do nosso apuro, e, de vez em quando, atiravam-nos de surpresa uma pergunta em inglês. Quanto disparate, quanta tolice a principio! O certo é que depois, com o tempo, já nos entendíamos sofrivelmente. Noblesse oblige.

CAPÍTULO IV

A hospitaleira sociedade de Jamaica havia nos conquistado a simpatia. Todos sentimos deixar tão cedo aquela encantadora ilha, cujos habitantes nos tinham prodigalizado tão generoso acolhimento. Lenços acenavam para bordo ao deixarmos o ancoradouro às 5 horas da tarde de 21, despedindo-nos talvez para sempre dessa boa gente.

Durante os dias 22 e 23, mar e vento rebelaram-se contra o navio.

Navegávamos à bolina, sempre a vela e a vapor, amurados por bombordo.

Grandes rajadas frias sopravam do norte, cantando nos cabos da mastreação, sacudindo-os com violência.

O termômetro baixara sensivelmente, a coluna barométrica punha-nos calefrios...

O mar quebrava-se de encontro às bochechas do cruzador desafiando-lhe a resistência colossal.

Sabíamos que a latitude em que navegávamos, nas Antilhas, era muito freqüentada pelos ciclones, esses terríveis inimigos dos navegantes, que arrastam em sua cauda milhares de vidas. Receávamos esses fenômenos tanto mais porque os seus efeitos fazem-se sentir a grandes distâncias.

Os sintomas visíveis, se não eram evidentes, aproximavam-se das descrições de navegantes experimentados. O céu estendia-se limpo, como um largo pálio azul esbranquiçado; apenas no horizonte flutuavam pequenos estratos em forma de rabo de galo e algumas estrias avermelhadas, escarlates, despertavam-nos a atenção.

Ao meio-dia o sol tinha uma cor baça, com um disco azulado ao redor.

E crescia o mar em vagalhões medonhos e esfuziava o vento no cordame.

O navio caturrava e arfava morosamente; ouvia-se o barulho do hélice trabalhando fora dágua.

Pela madrugada de 24 lobrigamos por boreste o farol da ilha de Cuba, de luz muito branca, e no dia seguinte sulcávamos o golfo do México.

Poucos dias restavam para alcançarmos Nova Orleans.

E nada do suposto ciclone!

Por via de dúvidas, como o tempo continuasse borrascoso, ferramos a maior parte do pano, conservando apenas as gáveas rizadas nos terceiros e a mezena de capa.

Capeamos três dias consecutivos, sem que aparecesse o medonho visitante.

No quinto dia o vento amainou rondando para nordeste e o mar, por força das circunstâncias, também acalmou-se. Ferramos o resto do pano, navegando só a vapor.

A idéia da chegada preocupava todos os espíritos. Os Estados Unidos eram o assunto de todas as conversações.

Cedo tratou-se da limpeza do navio.

Cada qual tratou de si, de sua roupa, de seus objetos que o mar sacudira de um lado a outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam o curioso aspecto de um campo de batalha; malas confundiam-se umas sobre outras formando empilhamentos, a roupa branca usada andava de mistura com os fatos novos de pano; livros, papéis - tudo quanto era de uso quotidiano estava espalhado no convés, como se andasse por ali alguma criança traquinas.

Guerra ao mofo! Roupas ao sol! Ninguém se fez esperar. Começaram as arrumações, uma faina açodada, durante a qual soaram boas gargalhadas filhas de inalterável bom humor.

Os guardas-marinha alojavam-se à popa num acanhadíssimo compartimento que mal os comportava. Aí tinham suas camas, suas malas, seus livros.

Quantos prejuízos! Quantas decepções!

E todos acocorados, arrumando e desarrumando, numa confusão burlesca, maldiziam o mar e apostrofavam o vento. Netuno e Éolo nunca receberam tantas manifestações desairosas. Pois não! Ninguém tem suas coisas para vê-las de um dia para outro arruinadas, inutilizadas pelos caprichos incoercíveis do mar e do vento.

Finalmente, como nada há melhor que um dia depois de outro, veio o dia 29 de março em que dos vaus do joanete de proa o gajeiro anunciou - terra!

Continuava, entretanto, incessantemente, a azáfama. A guarnição da bateria ocupava-se da limpeza das peças, colocando-as em posição, abrindo e fechando culatras, lixando-as, lubrificando-as enquanto o fiel ia distribuindo o cartuxame.

Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se um vago odor de tintas, como ao entrar-se numa casa nova, pintada de fresco.

Já era tempo de repousarmos das fadigas da viagem.

CAPÍTULO V

Ninguém pode imaginar o que é a chegada de um navio de guerra a porto estrangeiro depois de uma tempestade ou mesmo depois duma ameaça de temporal. A faina torna-se geral e o ruído inevitável. É de ver-se a prontidão, a rapidez com que se executam as ordens. Como que há mais vontade para o trabalho, desenvolve-se logo um contagioso bem-estar, ninguém foge ao serviço.

Tesar cabos de laborar, baldear o convés a ficar alvo e polido como uma sala de visitas, limpar, arcar os metais amarelos até ficarem reluzentes como ouro de lei, ferrar o pano a capricho, cuidadosamente, de modo a confundi-lo com as vergas e os mastros, preparar os escaleres - tudo isso é coisa dum abrir e fechar de olhos.

A guarnição do Almirante Barroso, disciplinada e obediente como todas as que serviam sob as ordens do comandante Saldanha, primava pelo asseio, pela ordem, pela destreza e pela atividade. Não se lhe pode fazer maior elogio. Cada marinheiro era como uma máquina pronta sempre ao menor impulso.

A chibata era nesse tempo, como ainda hoje, o terror das guarnições da armada.

Sempre manifestei-me contra esse bárbaro castigo que avilta e corrompe em vez de corrigir. Um castigo de chibata é a coisa mais revoltante que já tenho visto, mormente quando é mandado aplicar por autoridade desumana, sem noções do legítimo direito que a cada homem assiste, quem quer que ele seja, soldado ou pariá.

O meu primeiro passo ao deixar a Escola e envergar a farda de guarda-marinha foi publicar um protesto contra essa pena infamante, e fi-lo desassombradamente, convicto mesmo de que sobre mim ia cair a odiosidade de meus superiores em geral apologistas da chibata.

A primeira vez que minha posição oficial obrigou-me a assistir um desses castigos, tive ímpetos de bradar com toda a força dos pulmões contra semelhante atentado à natureza humana.

Quem já assistiu a uma dessas pavorosas cenas do eito, magistralmente descritas por Júlio Ribeiro na sua obra A Carne, pode fazer idéia do que seja o castigo da chibata.

Despir-se a meio corpo um pobre homem, um servidor da pátria, pés e mãos algemados, muita vez depois de três dias de solitária a pão e água, e descarregar-se-lhe sobre a espinha, sobre as espáduas, sobre o peito, sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o corpo cinqüenta, cem, duzentas chibatadas, em presença de todos os seus companheiros, me parece indigno duma geração que se preza, de uma sociedade de homens civilizados, de cidadãos, de cavalheiros que ostentam triunfalmente galões dourados na farda - na farda, que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo e a honra duma nação.

Revoltei-me contra semelhante barbaridade inquisitorial, como quem tem consciência de que está praticando uma ação justa e honrosa. Doía-me por um lado pertencer a uma classe nobre por tantos títulos, é certo, mas em cujo seio era permitido a chibata e, o que é mais, o seu abuso.

A esse tempo a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro publicava semanalmente um boletim literário no louvável intuito de estimular os incipientes das letras. Oferecia-se-me oportunidade para um conto marítimo, cujo assunto fosse a chibata.

Escusado é dizer que o meu artigo provocou o despeito dos culpados indiretamente feridos no seu amor-próprio. Embora! Fiquei satisfeito, como se tivesse sacudido para longe um fardo pesadíssimo; e, é preciso dizer, não hesitei em declarar-me autor do conto que vinha firmado por meu nome, então desconhecido na armada.

Alguns de meus companheiros taxaram-me de imprudente e "indiscreto" Outros levaram seus conselhos até à minha inexperiência de adolescente indisciplinado.

Todo o mundo julgou-se com direito a censurar meu procedimento: "que roupa suja deixa-se ficar em casa; que a chibata era um castigo imprescindível", e outros arrazoados sofrivelmente banais.

Meu consolo é que dentre aqueles que preconizavam os efeitos prodigiosos da chibata noutros tempos, muitos concorreram em demasia para a sua extinção.

Dei parabéns à pátria e à humanidade.

CAPÍTULO VI

Como militar e disciplinador o comandante Saldanha da Gama distinguia-se por sua inflexibilidade porventura exagerada, especialmente para com as guarnições sob seu zeloso comando. Temperamento atrabiliário, sangüíneo, nervoso, sujeito a transições bruscas, inesperadas, impetuosas e violentas, o ilustre marinheiro, espírito eminentemente ilustrado, não sabia, entretanto, guardar a necessária calma quando devia aplicar as penas do código. Essas penas, como se sabe, acham-se perfeitamente explícitas, precisamente formuladas de modo a não deixar dúvida nos espíritos retos e amigos da lei. Entre os artigos que constituem o código penal militar existe um que limita o número de chibatadas, o qual não deve, em caso algum, exceder de vinte e cinco por dia.

Pois bem, o comandante Saldanha pouquíssimas vezes castigava conforme a lei. Colocava acima dela seus caprichos inexplicáveis, sua natureza rancorosa, sua vontade suprema. Não trepidava, e isto é sabido, em mandar açoitar com duzentas chibatadas uma praça qualquer, tal fosse o delito cometido. A um simples olhar seu as guarnições tremiam como caniços. A qualidade característica desse ilustre oficial era ser arbitrário e prepotente. Por isso a guarnição do Almirante Barroso corria a seus postos, em ocasião de manobra, com a velocidade duma seta.

Estávamos quase à entrada do Mississipi, a grande artéria fluvial da América do Norte, que nós imaginávamos um colosso talvez superior em volume d'água ao Amazonas - o Mississipi, decantado pelo autor dos Natchez, e em cujas margens fica a cidade de Nova Orleans, nosso ponto de chegada.

Ninguém pensava mais no Rio de Janeiro para só se lembrar de Nova Orleans, a Cidade Crescente, como a denominam os americanos.

Três horas da tarde, mais ou menos. Embarcações a vela e vapores bordejavam fora da barra à espera de prático, sem o qual era impossível a entrada. Mar calmo, com uma cor esbranquiçada, lembrando na sua quietação dormente um vasto lago estagnado. Em frente, muito longe ainda, mal distinguíamos com o binóculo o farol, microscópica torre branca, invisível quase.

Envolvidos em grossas capas de lã, abotoados até o pescoço ao abrigo do frio que se tornava insuportável para nós da zona tórrida, de pé no tombadilho, máquina a um quarto de força, bandeira nacional desfraldada na carangueja do mastro de ré, esperávamos também o pilot que nos devia conduzir a Nova Orleans, 110 milhas da foz do Mississipi.

O Mississipi! Dentro em pouco sulcávamos a grande corrente.

Não tardou muito o prático, por cujo intermédio tivemos notícia da estrondosa manifestação com que os habitantes da cidade americana aguardavam a chegada do cruzador brasileiro.

Bela surpresa essa! Cresceu o entusiasmo entre os novéis oficiais.

Entramos. Durante o nosso trajeto pelo Mississipi a ansiedade a bordo tocou o seu auge. Queríamos, todos a um tempo, avistar as embarcações que, dizia-se, vinham nos receber.

O autor destas simples notas de viagem, que admira os Estados Unidos como uma segunda pátria, porque ali moram juntas todas as liberdades e florescem prodigiosamente todas as nobres idéias civilizadas, de braços cruzados estendia o olhar cheio de admiração, cheio de deslumbramento por cima das extensas planícies das margens do grande rio.

O pôr-do-sol entre a neblina que cobria os horizontes fazia lembrar as páginas de Chateaubriand na sua Voyage en Amérique, páginas esculturais e cheias da comovida nostalgia dos que se vão da pátria.

Quanta verdade nas suntuosas descrições do poeta! Quanta poesia naquelas paragens desertas da foz do Mississipi - Saara de neve estendendo-se a perder de vista nos horizontes sem fim! Que de maravilhas ocultavam-se por trás daquelas planícies, lá onde o olhar não atingia!

Eram ave-marias. Lembrei-me do Brasil, dos sertões de minha terra natal, da torrezinha branca do Senhor do Bonfim badalando o terço das almas, justamente aquela hora, quando as boiadas recolhiam mugindo, pesadas e melancólicas.

Ave-marias!... Mesmo quando não se é crente, àquela hora da tarde o coração fica cheio de não sei que terna e piedosa unção mística.

Fundeamos no ponto em que o rio se divide em dois braços ou pequenos confluentes, e aí passamos a noite inteira, essa longa e tristíssima noite de inverno.

Frio de rachar. As águas do rio, pardas e barrentas, estavam quase geladas.

As margens do Mississipi, em vários pontos, são, no inverno, verdadeiras planícies, onde apenas medra a erva rasteira. À distância, pobre alma perdida no descampado, ergue-se às vezes uma árvore muito esguia, como um fantasma de braços abertos para o céu. De quando em quando atravessa a solidão uma ave desconhecida batendo as asas, como um agouro.

Noutros lugares, porém, vêem-se rebanhos pastando silenciosamente, plantações verdejantes, casas de campo, postos de correio, em cujas portas destacam-se em caracteres maiúsculos as palavras

- Post office.

O povo parece viver satisfeito no meio de suas plantações e de seu gado, entregue à cultura e à criação.

Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda a noite. - "Caramba! exclamava o barbeiro de bordo, um estimável espanhol que trazíamos do Rio de Janeiro. Caramba! Mosquitos por mosquitos me gusta más los deI Brasil!" E tinha razão o nosso companheiro. Os mosquitos do Mississipi são muito capazes de dar cabo dum pobre homem. E que medonha orquestração nos ouvidos da gente!

Felizmente na manhã do dia seguinte levantamos ferro.

O navio estava completamente pronto a fazer sua entrada em Nova Orleans. Durante quase toda a noite a guarnição ocupara-se em colher cabos, esfregar a amurada e baldear o costado.

Como passatempo líamos os jornais que o prático trouxera, os quais noticiavam a recepção popular e oficial que se nos preparava.

Dois iates a vapor - o Cora e o Pansy - propriedade de Mr. Morris, largariam de Nova Orleans a nosso encontro, embandeirados, com bandas de música, comissões de senhoras, representantes do comércio e de outras classes sociais.

Ou fosse a natural afinidade que existe entre as duas nações americanas, ou fosse o fato de ir a bordo do cruzador brasileiro um representante da família imperial do Brasil, o certo é que durante nossa travessia da foz do Mississipi à cidade fomos constantemente saudados de ambas as margens do rio a tiros de espingarda e a lenços que nos acenavam de longe.

E o Almirante seguia devagar, alvo de mil olhares curiosos.

Ao meio-dia ouvimos as notas de uma música alegre que se aproximava, e em breve surgiram numa curva do rio os dois magníficos iates - o Cora e o Pansy - apinhados de gente, enfeitados de galhardetes de cores variadas, em cujos mastros tremulavam as duas bandeiras amigas.

De ambos os lados, no cruzador e nos iates, hurras confundiam-se no ar.

Em viva efusão de inexprimível júbilo patriótico estreitavam-se as duas grandes potências da América; a mesma brisa balouçava simultaneamente os dois gloriosos pavilhões.

A gente do Barroso subiu às vergas acelerada, e acenando com os lenços e os bonés, saudava com vivas estrepitosas e delirantes aclamações aos Estados Unidos, ao mesmo tempo que das duas embarcações partiam ruidosas manifestações ao Brasil.

Fardada em segundo uniforme, espada e dragonas, a oficialidade do cruzador brasileiro, em pé no tombadilho, vivamente comovida, descobria-se a todo instante risonha e feliz.

Sentíamos a falta de uma banda de música bem organizada, que naquele momento, verdadeiramente solene, entoasse o hino da república a bordo.

Passado o primeiro momento de delírio, aproximaram-se os dois iates que nos acompanhavam e o cruzador diminuiu a marcha. Ficamos borda a borda. Num instante toda aquela gente, que vinha nos vaporezinhos, passou para o Barroso.

Houve um silêncio respeitoso de parte a parte e começaram os abraços.

O cônsul-geral brasileiro, Sr. Dr. Salvador de Mendonça, tão conhecido entre nós por seu talento e por sua ilustração, como homem de letras e diplomata, juntamente com Mr. Eustis, cônsul em Nova Orleans, foram recebidos no portaló pelo comandante e oficiais com todas as honras que lhes eram devidas. Seguiram-se os representantes da imprensa, do comércio, etc.

Conduzidos à câmara, desde logo estabeleceu-se entre brasileiros e americanos uma camaradagem franca, uma corrente comunicativa de afabilidades, como se já fôssemos conhecidos velhos. As taças de champanha chocavam-se, vivas sucediam-se, levantavam-se toasts às duas nações, trocavam-se os mais espontâneos comprimentos.

A viagem continuou ao som da música do Cora e do Pansy.

Às 4 horas da tarde largamos ferro defronte da antiga capital da Luisiana.

CAPÍTULO VII

Nova Orleans é, talvez, a cidade mais importante do sul dos Estados Unidos.

Nosso primeiro cuidado, como era natural, foi desembarcar, "ir à terra", cear bem e dormir tranqüilamente um sono bom e reparador. Não nos faltariam esplêndidos hotéis e magníficos rooms, onde pudéssemos, à vontade, descansar dos trabalhos da viagem.

Nossa demora devia prolongar-se aí mais do que em qualquer outro ponto, por causa da Exposição e a instâncias dos habitantes da cidade, que nos preparavam deliciosas surpresas.

Tínhamos tempo bastante para ver Nova Orleans, para observar os costumes americanos e fazer um juízo mais ou menos aproximado daquele belo povo.

O porto estava atulhado de barcas de comércio - vastas embarcações de dois e três pavimentos, duas e três chaminés negras a deitar fumaça numa atividade constante, rodas na popa, muito mais amplas que as nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas de sacas de algodão e outros gêneros do país, esperavam o momento preciso e regulamentar de se fazerem ao largo.

Enquanto esperávamos, vivamente ansiosos, o escaler que nos devia conduzir ao cais, assestávamos o óculo para a cidade quase silenciosa àquela hora, e cujas ruas não tardaríamos a conhecer. Acendiam-se os primeiros bicos de gás. Ao longe, nalguma igreja remota, badalava um sino triste. Já não se ouvia quase o bruaá quotidiano. Numerosas embarcações cruzavam-se no rio. Ouvíamos guinchos de locomotivas e o surdo ruído de carros que ainda labutavam.

Alguns oficiais deixaram-se ficar aguardando o dia imediato para mais comodamente satisfazerem sua curiosidade de viajantes em terra estrangeira.

Era fim de inverno. Ameaçava chover. O frio continuava bastante forte ainda e os camarotes do Barroso ofereciam, nessas condições, agasalho confortável aos mais friorentos.

Na manhã seguinte, grupos de oficiais brasileiros, uns fardados, outros à paisana, percorriam Nova Orleans.

O St. Charles Hotel, um dos melhores estabelecimentos da cidade, e o Royal Hotel - primeiro em luxo e ornamentação - eram procurados avidamente.

Os jornais davam notícias circunstanciadas de nossa chegada e anunciavam festas em homenagem ao Brasil.

Uma vez instalados nos hotéis, cada um de nós em seu vasto aposento, onde nada faltava, tão diferente dos estreitos camarotes de bordo, dividimo-nos em grupos.

Quanto a mim, o meu primeiro cuidado foi munir-me de um guia da cidade, espécie de pocket-book muito cômodo, registrando indicações úteis de estabelecimentos e lugares principais.

Meu quarto ficava no segundo andar do St. Charles Hotel frente para a rua do mesmo nome - uma saleta mobiliada com a máxima sobriedade, sem luxuosas decorações, contendo apenas os móveis indispensáveis a um rapaz solteiro, e o fogão a um canto.

Depois de magnífico banho morno em bacia de mármore (perdoem-se-me estas inocentes confidências, aliás de bom gosto) seguido de um valente almoço de ostras cruas, as melhores que eu tenho provado, regadas a Sauterne, mastigando (é o termo, porque não sou lá muito admirador de charutos) mastigando um charuto, que não sei bem se era de Havana, saí a fazer meu primeiro passeio, minha promenade matinal, começando pela Canal Street, a rua mais importante de Nova Orleans, que a divide em dois grandes bairros - o francês e o espanhol.

No cruzamento das ruas de St. Charles e Canal erguia-se a estátua de Clay. É esse o ponto principal da cidade e o de maior movimento nos dias úteis.

Parei defronte do monumento e consultei meu alcorão, quero dizer meu guia manual.

"Estátua de Clay - Inaugurada solenemente no dia 12 de abril de 1860. Joel T. Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e proporções à estátua, assistiu ao ato. O orador oficial foi Wen H. Hent."

Maldito laconismo! Pouco adiantei com as explicações do livrinho. A estátua é de bronze, sobre pedestal de mármore, e mede, aproximadamente, quinze pés ingleses de altura.

- Continuam as estátuas! - exclamei recordando as que vira em Barbados e Jamaica. Felizmente até agora não vira a de nenhum monarca. Veio-me então à memória aquela colossal massa de bronze que se ergue no Largo do Rocio, no Rio de Janeiro, em forma de um monarca escanchado num belo cavalo.

Tive pena de não ser aquele bronze aproveitado para outra coisa mais digna e útil.

- Que diabo! Aquilo é uma página de história pátria, refleti. - E continuei o meu tour.

A Canal Street é o centro comercial de Nova Orleans, é a Rua do Ouvidor daquela cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso querido beco.

Larga, bastante espaçosa e comprida, oferece trânsitos especiais para a população, para trens, bondes e carruagens.

As ruas, na maior parte, são mal calçadas, principalmente para o interior da cidade.

É, sem dúvida, admirável semelhante incúria em se tratando de americanos do norte, entretanto, é uma verdade que não deve ser esquecida, para consolo de nossas municipalidades.

Na Canal se acham os melhores e mais sólidos edifícios, as mais fortes casas comerciais, os mais importantes armazéns da cidade, cafés, restaurantes, clubes, etc.

Convenci-me desde logo que os principais produtos industriais de exportação eram - açúcar e algodão, como bem presumira ao desembarcar, no cais, onde era enorme a acumulação de fardos desses dois gêneros.

De vitrina em vitrina, observando sempre, escrupulosamente, curiosamente, à cata de novidades estrangeiras, posso afirmar que nada vi, surpreendente... Ah! sim, vi umas graciosas caixeiras acudirem pressurosas e desenvoltas, com o desembaraço próprio de sua raça, aos compradores, coisa aliás muito simples, muitíssimo natural, mas não no Brasil, onde as senhoras estão eternamente proibidas de competir com o outro sexo na vida pública.

Parece-me que só neste país ainda não se observa nem se permite esse costume tão natural, tão próprio, tão eficaz mesmo, das senhoras pobres empregarem-se no comércio a retalho. Na Inglaterra, em França, na Alemanha, na Itália e nos Estados Unidos é hábito velho, ao que me consta, as senhoras servirem nos balcões, e é de notar que cumprem seus deveres com assombrosa perícia. Às nove horas da manhã, que digo eu! às seis horas, depois de ligeira refeição, encaminham-se para o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas em grossas capas de lá no inverno, a bolsa de um lado, sem sequer fazerem-se acompanhar. Vão direitinhas de casa para a loja ou escritório, sem que ninguém lhes dirija uma pilhéria, sem que ninguém as desrespeite, e, à noite, recolhem-se da mesma forma, sempre alegres, transpirando saúde, a face rubra.

Muitas vezes saem das lojas, mudam a toilette, fazem seu penteado, perfeitamente dispostas, e dai a pouco estão nos bailes, nos concertos, nos teatros.

Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria onde se não encontra uma senhora exercendo as funções de simples caixeira, ou como guarda-livros, silenciosa na sua carteira, escriturando cuidadosamente o Caixa.

Em alguns estabelecimentos públicos, no Correio, por exemplo, grande parte do serviço é feito por senhoras. Esse edifício, digamo-lo de passagem, na Rua Canal, é de aparência extraordinariamente simples e desgraciosa. O serviço, porém, como em toda estação americana, é correto e sem demora.

Indivíduos de muitas nacionalidades acotovelam-se na grande rua.

Em Nova Orleans, como em quase toda a Luisiana, fala-se mais o francês que outro idioma qualquer, não sendo raro ouvirem-se negociantes, mesmo senhoras de elevada hierarquia falar, embora mediocremente, o espanhol.

Havia chegado o momento fatal, inevitável, de nos exibirmos também em língua alheia.

Pouco a pouco, nos íamos familiarizando com a população e com o idioma desse adorável canto da terra que o Mississipi banha.

O dia seguinte ao de nossa chegada a Nova Orleans (31 de março) estava designado para o encerramento da Exposição das Três Américas. Avisados desta solenidade, devíamos comparecer a ela em grande uniforme, incorporados.

Foi um dia essencialmente brasileiro esse. Nos convites para a festividade lia-se esta impagável gentileza: Brazilian day.

Todas as atenções convergiam para o Almirante Barroso (brazilian man-of-war).

O palácio da Exposição estava situado a alguns quilômetros fora da cidade, num de seus pontos mais pitorescos, o Upper City Park, à margem do Mississipi - largo edifício vistosamente adornado e do alto do qual se avistava toda a cidade e imediações.

Na manhã desse dia, por sinal chuvoso e coberto de nevoeiro, embarcamos em trem especial, que nos fora destinado pelo presidente da Exposição, Mr. Ed. Richardson, um ianque muito amável, todo cortesia, sempre com um belo e espontâneo sorriso a cativar a gente, correto sempre, irrepreensivelmente correto.

Embarcamos na Canal Street, defronte do Pickwick Club, em companhia de muitos oficiais da Guarda Nacional, de Mr. Richard-son e de oficiais da corveta francesa l'Étoile, que se achava no porto de Nova Orleans, dos cônsules e outras sumidades do país.

O trem abalou como um raio, todo enfeitado de bandeirolas americanas, brasileiras e doutras nações, ao som de músicas e aclamações delirantes, rasgando, na sua marcha vertiginosa, o nevoeiro que caía sem cessar penetrando os vagões escancarados ao ar frio da manhã, soltando guinchos medonhos...

Durante o trajeto não me cansei de observar os sítios que o trem atravessava.

De um lado e doutro da linha estendiam-se vastas plantações de algodoeiros desfolhados pelo rigor do inverno, amontoados de neve, imóveis, fantasmas brancos no silêncio infinito dos descampados; casas de campo deliciosas para se passar o verão, trancadas à neve, muito brancas e desoladas, riam, como saudando a nossa passagem, e desapareciam rapidamente no horizonte esfumado.

É de ver a simplicidade reunida à graça que apresentam essas habitações: ver uma é ver cem, tal a uniformidade de sua arquitetura. Em geral são de madeira, pintadas de branco e cinzento, com seu terraço para as cálidas noites de verão, jardim e horta arranjados com admirável cuidado e bom gosto.

Absorvido completamente pelo aspecto variado da paisagem, sem prestar atenção ao círculo ruidoso dos colegas, eu (lembro-me bem) formava planos de vida sossegada, nalgum eremitério entre a eterna frescura das plantas e o amor eterno duma criatura querida.

Invejava os simples, os sertanejos, os homens do campo - esses para quem a vida corre sempre calma, porque seu coração não conhece outro amor senão o da esposa e o dos filhos, esses de quem Boileau dizia:

Heureux est le mortel qul du mond ignoré

Vit content de soi même en un coin retiré...

E eu me transportava outra vez ao Brasil, outra vez eu tinha a nostalgia da pátria, a saudade vaga e inexplicável de minha terra natal.

Parecerá uma fantasia de poeta adolescente isto que acabo de dizer, mas é a verdade, a expressão sincera do que eu sentia ao atravessar a região que ia ter lá, ao palácio da Exposição.

A tristeza da neve comunicava-se ao meu espírito imprimindo nele não sei que despretensiosas ambições de silêncio e recolhimento. Alguém já procurou explicar a influência que exerce o estado higrométrico da atmosfera no estado psicológico do indivíduo.

Eu de mim só sei que o patriotismo, longe da pátria, duplica.

E fechemos esta espécie de parêntesis.

Uma comissão de cavalheiros, competentemente encasacados, veio receber-nos ao desembarque.

Entramos. Nossa entrada foi verdadeiramente triunfal.

Dentro e fora do edifício era grande a agitação. Ondas de povo entravam e saíam percorrendo o pitoresco Upper City Park.

Felizmente "levantou o tempo", como se costuma dizer.

Ao assomar à porta do grande salão de honra o primeiro oficial brasileiro, o comandante do Barroso, ao lado do cônsul e do presidente da Exposição, a orquestra de professores, brilhantemente organizada, rompeu lá dentro o hino nacional americano (não conheciam o nosso hino aliás tão vulgarizado), os espectadores que enchiam o vasto recinto ergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas acolheu o resto da oficialidade.

Houve um momento de verdadeiro delírio, em que todos batiam palmas sem interrupção, levantando vivas ao Brasil.

Serenado o entusiasmo, um entusiasmo indescritível, apoplético, tomou a palavra Mr. Richardson, que proferiu o discurso de encerramento, saudando a armada brasileira.

Seguiu-se na tribuna o orador oficial, que, num improviso eloqüentíssimo, patenteou a necessidade de uma união entre todas as nações americanas, desenvolvendo largamente as vantagens que daí proveriam a todas elas.

Falou também o governador da Luisiana, e, finalmente, os Srs. Salvador de Mendonça e Saldanha da Gama, cujas palavras foram cobertas dos mais significativos aplausos.

Terminada a cerimônia oratória, foi-nos franqueado o edifício da Exposição, que percorremos examinando com interesse os diferentes pavilhões industriais.

O Brasil - é triste dizê-lo - fizera-se representar de modo bem insignificante.

Brilharíamos pela ausência, se o Governo não tivesse a lembrança de mandar o Almirante Barroso.

Amostras de madeiras, café em grão, fumo, artigos de borracha, constituíam os principais produtos brasileiros expostos à curiosidade dos visitantes de quase todas as partes do mundo civilizado. O pavilhão do Brasil deixava-se ficar em plano inferior aos das outras nações, como se fôssemos um pobre país, cujos produtos não valessem a pena de ser expostos num certame internacional!

Daí, talvez, o assombro dos americanos ao verem o Almirante Barroso, esse esplêndido vaso de guerra de envergadura possante, capaz de resistir aos mais fortes temporais e que eles, os estrangeiros, duvidavam fosse obra nossa.

- Como? Pois no Brasil também se fabricam navios de guerra? Está muito adiantado o Brasil!

E repetiam com um ar de dúvida e de ironia medindo de alto a baixo e de popa a proa o majestoso cruzador, que balouçava de leve sobre o Mississipi:

- Está muito adiantado o Brasil!

Entretanto o México, a América Central e as repúblicas sul-americanas, sem os recursos invejáveis da grande nação, sobressaíam admiravelmente. O pavilhão do México, sobretudo, desafiava a maior parte dos outros não só em abundância de artigos, mas, principalmente, em beleza e bom gosto, em elegância e riqueza.

Escusado, parece, falar do importante lugar que coube aos Estados Unidos. Que profusão de máquinas e instrumentos industriais de invenção puramente americana! Ali mesmo, à vista do observador, fabricavam-se os mais curiosos objetos de fantasia e de uso doméstico; o linho, o algodão, a seda - eram tecidos rapidamente aos olhos de todos.

Imagine-se agora o ruído, a algazarra, a movimentação que devia reinar ali dentro daquele imenso edifício, certamente muito longo de ser comparado aos palácios de exposições universais, mas ainda assim um dos maiores que se tem levantado nesse gênero.

Para dar uma idéia de suas dimensões - não o chamaremos vaticano da indústria para não exagerar - basta dizer que o salão de música - music-hall - acomodava 11.000 pessoas, inclusive uma vasta área para 600 figuras.

Impossível descrever as amabilidades, as gentilezas que nos foram prodigalizadas largamente pelas adoráveis americanas de Nova Orleans nessa festa democrática de confraternização internacional; recordar as frases deliciosas, os galanteios irresistíveis.

O que posso afirmar é que o brazilian day há de perdurar por muito tempo no coração daqueles que tiveram a felicidade de assistir essa belíssima festa.

Dias depois voltei ao palácio da Exposição, sozinho, como simples curioso que não tivera tempo bastante para examinar tudo no pequeno espaço de doze horas.

Nada mais restava senão o esqueleto nu do edifício em via de demolição. Todos os objetos tinham sido retirados com assombrosa rapidez. Operários em mangas de camisa martelavam grandes caixões, assobiando monotonamente, enquanto outros carregavam pesados volumes contendo os últimos espécimens da indústria americana.

Voltei imediatamente com um ar compungido de quem acaba de acompanhar um enterro, lamentando o tempo perdido e exclamando de mim para comigo:

- Ah! americanos duma figa, sois um povo excepcional!

Agora uma pergunta ingênua: Por que é que o Brasil, com os numerosos recursos que tem à mão, timbra em ocupar lugar secundário em quase todas as Exposições a que concorre?

Indiferença, talvez, simples indiferença de nossos governos.

Na célebre Exposição de Filadélfia não sabíamos à última hora como e onde acomodar os produtos deste país, em conseqüência de não ter o governo mandado construir um pavilhão especial.

Contentamo-nos em enviar objetos bastante conhecidos, não fazemos seleção na escolha deles, não nos importa o modo como devam ser acondicionados.

Na Exposição de Viena ainda o Brasil teve de ocupar lugar pouco lisonjeiro, e se alguns de seus produtos principais tiveram a felicidade de ser premiados foi isso devido, não ao governo, mas tão-somente a esforços de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do Pará.

Anuncia-se para o ano vindouro uma Universal Great Exhibition, nos Estados Unidos, cujo sucesso irá rivalizar, talvez, com o da Exposição Universal realizada há meses em Paris e notável pela colossal e tão célebre Torre Eiffel. Nenhuma razão assiste para que a grande nação da América do Sul, o Brasil, não se faça representar com todo o brilho de sua incontestável riqueza.

Agora que somos república, torna-se duplamente preciso que patenteemos ao mundo inteiro a infinita variedade de nossas produções agrícolas, a opulência invejável da flora brasileira e da indústria já bastante adiantada deste belíssimo país, cuja natureza extasiou Humboldt, Agassiz e tantos outros sábios da Europa.

Se cada Estado souber cumprir seu dever não poupando esforços para esse nobilíssimo fim, certo desta vez não teremos que corar perante as outras nações como nos tempos do anacrônico império do Sr. D. Pedro II.

CAPÍTULO VIII

A Grande Exposição Industrial de Nova Orlens prolongou-se até ao Almirante Barroso. O belo cruzador brasileiro começou desde logo a ser o alvo dos curiosos de todas as nações ali representadas.

Compreende-se o vivo interesse do povo em assuntos desta ordem.

Não havia na cidade quem não soubesse que estava no porto um navio de guerra do Brasil, e este fato por si só era bastante para que toda a gente ardesse em desejo de vê-lo de perto, de o percorrer dum extremo a outro.

- Quantos canhões traz? perguntava-se. A máquina quantas milhas vence por hora? Quantas rotações por minuto?

E quando afirmávamos que a máquina do Barroso era de ferro Ipanema e doutros metais brasileiros, que todo o navio, da popa à proa, era construção inteiramente nacional, subia de ponto a surpresa dos nossos vizinhos.

O quê! No Brasil já se constroem navios de guerra? - It is impossible!... E toda a população, tomada de um quase espanto, duvidando, talvez, da nossa habilidade, afluía ao cais.

Todo o cruzador, desde a câmara do comandante até ao alojamento dos marinheiros, desde o tombadilho até ao porão, foi exposto à curiosidade pública.

O sexo gentil, com especialidade, repetia suas visitas.

Desde as oito horas da manhã, ao içar-se a bandeira, começavam a atracar lanchas a vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos os sexos.

Grandes lanchas iam e vinham do cais para o cruzador e do cruzador para o cais, continuamente, incessantemente, apinhadas de passageiros, que pagavam 5 cêntimos de ida e volta. Cada uma trazia à proa, em letras esparrarnadas e vivas, a senha: - Brazilian man~of-war.

À tarde, depois duma faina acabrunhadora de receber famílias e percorrer duas, três e mais vezes o navio, dando explicações, descrevendo aparelhos e maquinismos com uma paciência de pedagogos, íamos à terra, distrair nos cafés, nos teatros, nos bailes, tanto mais quanto multiplicavam-se os convites para todas as diversões públicas e familiares.

As famílias com que íamos entretendo relações de amizade exigiam que fôssemos quotidianamente a suas casas, como se nos sobrasse tempo para isso; e, força é confessar, dispensavam-nos um tratamento quase paternal.

A melhor de todas as recepções que tivemos, não obstante o caráter oficial que a revestia, foi a do Governador da Luísiana, esplêndido baile no Royal Hotel, no dia 8 de abril, ao qual compareceram todas as autoridades civis e militares da cidade em uniforme de gala.

A casaca, o clak, a gravata de seda branca, o vestido decotado até aonde permite a decência, confundiam-se nos salões do hotel ricamente adornados, cheios de luz, escancarados de par em par como um palácio em festa.

A jovem oficialidade brasileira, exímia em cotillons, expandiu-se a valer nessa magnífica soirée de inverno, fria e clara, constelada de botões de ouro e brilhante, longe da pátria, longe de suas famílias, mas no seio dum povo que nos amava deveras.

Sarau principesco esse de que ainda sinto o saibo esquisito ao traçar as reminiscências da minha primeira ausência do Brasil.

Mesa abundantíssima e franca, desde a deliciosa sopa de ostras com molho inglês ao mais fino champanha Clicot, com escala pela maionese de lagosta, fresca e picante, pelo suculento poisson a l'italienne, rubro e apetitoso... e tantos, meu Deus, e tantíssimos outros pratos maravilhosos inventados pela gula epicurista de todas as gerações desde Lúculo até à nossa.

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