-Um vermutezinho não é mau antes do almoço, oh, visconde... - lembrou Furtado.
- Vá lá um vermute.
- Já tão cedo! - exclamou Adelaide.
- Pois então!... - fez D. Branca.
- Cedo para preparar o estômago - replicou o banqueiro.
- Ah!...
O próprio Furtado tirou da cesta cálices, uma garrafa intacta que o Antônio abriu com estampido, e bebericaram.
- Agora, toca!
E marcharam, ora a dois e dois, ora a três e três, por entre os tufos verdejantes, papagueando e rindo, num começo de liberdade familiar. Aves ariscas voavam pressentindo-os; pipilavam ninhos na frondosa espessura das ramagens; estridulavam cigarras em desafio, numa orquestração aguda e uníssona.
Evaristo, no meio de toda aquela paisagem tropical, de uma riqueza encantadora, lembrou-se da província, e, num tom solene e misterioso, recitou descobrindo a cabeça e estacando:
- Solidão, eu te saúdo! Silêncio do bosque, salve!
Lera isso há muito num clássico português e nunca um pensamento alheio fora tão bem empregado!
- Olhe, D. Adelaide, como se deita a perder um homem - gracejou o secretário.
Adelaide sorriu.
- Vocês é porque não sabem glorificar a natureza, vocês é porque não lêem os clássicos! - replicou o bacharel.
- Mas não te lembras do resto.
- Como não me lembro, se é uma das páginas que eu nunca hei de esquecer?
E o bacharel, sem receio de escandalizar o aprumo do Santa Quitéria, berrou para o alto, como se falasse às nuvens:
- Solidão, eu te saúdo! Silêncio do bosque, salve! A ti venho, oh natureza; abre-me o teu seio. Venho depor nele o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas da vida!. .. Os homens não me deixam; amparai-me vós, solidões amenas, abrigai-me, oh solidões deleitosas.
- Onde queres tu chegar com essa desfruteira, oh Evaristo? - interrompeu o outro.
- Quero chegar ao fim da página...
- Olha que isso é um desrespeito ao visconde! - segredou Adelaide.
O banqueiro, porém, havia-se destacado um pouco e marchava com D. Branca, sem se incomodar, no seu passo lento de garça real. Atrás vinham as outras pessoas. O secretário tinha absoluta confiança no visconde; até aborrecia-o dalgum modo a sisudez, a gravidade patriarcal do celibatário. A Branca ia muito bem na companhia dele, do Santa Quitéria.
Este, enquanto o bacharel discursava e vendo-se longe de ouvidos perigosos, abriu válvulas ao coração, baixinho e disfarçadamente.
- Creio que não a posso esquecer; acordo e deito-me pensando no nosso grande amor... Imagine se estivéssemos sós aqui.
- Oh!...
Mas deixe estar que ainda havemos de ser muito felizes... muito felizes.
- Eu bem sei que me ama, bem sei, mas vi-o outro dia interessar-se tanto pela minha amiga Adelaide...
O capitalista sorriu benevolamente, como quem perdoa.
- Sua amiga Adelaide é uma criança... uma menina de ontem... e eu seria incapaz... Oh!... faça-me justiça...
- Eu não estou afirmando...
- Creia que não me preocupo com outra pessoa.
- E que tal a idéia do piquenique? Supus que não viesse...
O banqueiro guardava a atitude respeitosa e fidalga de quando se exibia nos salões. Ia responder, mas ouviu passos na areia. Voltou-se: eram as outras pessoas, o Raul, Evaristo, Adelaide e o secretário, que se aproximavam silenciosamente.
Foi longo o passeio através das árvores, em romaria bucólica e matinal pelas avenidas do jardim. O visconde colhia flores dedicadamente para as senhoras. D. Branca, mesmo na presença do marido, colocou uma na sua botoeira, sempre risonha, sempre afável, multiplicando-se em gentilezas ao Santa Quitéria. Adelaide, entre Evaristo e Furtado não perdia o ar ingênuo e melancólico que tanto preocupava ao Manhães na noite do batizado e que encantava o secretário. Este volvia constantemente os olhos para ela e de vez em quando arriscava um segredinho inofensivo, uma pilheriazinha, elogiando-a, gabando-lhe os olhos, a boca, fazendo alusões amorosas às flores, glorificando o amor livre dos pássaros, lembrando cenas de romances, episódios do campo... Furtado aproveitava os momentos em que o bacharel ia, com o Raul, fazer provisão de flores para enfeitar a mesa do lanche".
Os dois já não sabiam onde colocar flores; levavam grandes buquês feitos à pressa. O secretário achava muita graça naquela amizade do Raul ao Evaristo.
- Se meu marido é uma criança! - ralhava Adelaide.
- Uma criança de vinte e oito anos!... - dizia o secretário.
- Criança, porque não tem juízo, porque não se importa...
- Deixe-o lá, deixe-o lá... É gênio.
- Mas não fica bonito, não é sério.
De novo entravam todos na grande além de palmeiras e de novo chegaram ao caramanchão escolhido para o piquenique.
Ia para as onze horas. O sol inundava a floresta e nenhuma nuvem toldava a maciez límpida do céu. Todos respiraram ao entrar no improvisado restaurante coberto de folhas, rodeado de árvores e onde se gozava uma frescura deleitosa e aromada de selva.
- Uf! - respirou Evaristo sentando-se. - Já é andar. Olhem que demos a volta ao jardim!
- Outra dose de vermute - propôs o secretário.
- Apoiado, apoiado! - murmurou o visconde fazendo-se alegre.
As duas senhoras conversavam endireitando as toilettes, revistando-se uma à outra com risadinhas.
O Antônio pusera "a mesa"; uma toalha muito branca alvejava no pequeno recinto que a luz mal penetrava. Sobre a toalha brilhavam os talheres de metal branco e os copos de cristal muito finos, e as flores que o Raul colhera. Ao aspecto risonho da mesa as fisionomias tomaram uma expressão viva de conforto. - "Era tempo de se ir comendo qualquer coisinha..." - balbuciou Evaristo ao secretário. Este dispunha tudo na melhor ordem, falando ao Antônio, sorrindo ao banqueiro, uma atividade pasmosa de garçon d'hótel.
De dentro da caixa da confeitaria surgiu primeiro um prato com "vol-au-vents e logo seguiu-se o estampido de uma garrafa que se abre.
- Vamos, vamos - comandou Furtado. - Senhor visconde. D. Adelaide... Branca... Evaristo... Vão se sentando...
Riram-se todos à falta de cadeiras. Mas havia no caramanchão, longe da mesa, um banco de pedra, onde se sentaram as duas senhoras. Os homens comiam em pé.
- Aqui há ainda um lugar, senhor visconde - ousou amavelmente a esposa de Furtado conchegando-se à amiga.
- Não, não, minha senhora, obrigadíssimo; eu faço companhia aos do meu sexo...
- Isso, visconde, isso! - aprovou o bacharel. - Um homem é um homem!
Vieram outros pratos, outras iguarias delicadamente feitas no Pascoal, sob encomenda do secretário: uma esplêndida torta de camarões - regada a Sauterne - ostras e uma bela garoupa fria e apetitosa, não falando no hors-d'oeuvre no fiambre, nas azeitonas muito fresquinhas e muito negras que o visconde colhera com a ponta dos dedos, e as frutas ao dessert - pêssegos, uvas e abacaxi frappé.
O almoço correu alegre, muitíssimo alegre, cheio de risos, fermentado pelo Bourgogne e pelo champanha - um almoço leve, delicadíssimo e substancial, "aristocraticamente fino", como ideara o esposo de D. Branca. Evaristo, ao abrir-se o champanha, pediu que não se fizessem brindes.
- O brinde é a maior tolice do século dezenove - explicou ele, tragando uma roda de abacaxi. - O brinde parece até uma invenção do Valdevino Manhães ou de Mr. de La Palisse; eu sou contra o brinde como sou contra a mon...
Ia dizendo monarquia, mas arrependeu-se logo, sem olhar para o visconde:
- ... Como sou contra o voto feminino!
- Eu só compreendo o brinde quando é de honra, à Sua Majestade o Imperador, à princesa... ou mesmo a um homem ilustre que se não confunda com o resto da gente.
- Qual, senhor visconde! exclamou o bacharel depondo o talher.
- O brinde, seja ele a quem for, é uma das muitas ridicularias da civilização... Não sei como qualificar o indivíduo que interrompe a boa digestão de uma mesa, de uma sociedade, para, de taça em punho, levantar um brinde às virtudes de outro, não sei.
Evaristo esquecia-se do batizado da Julinha em que o diretor do Banco Luso-Brasileiro fizera diversos brindes entre os quais um a seu amigo Furtado, que por sua vez brindara à sereníssima herdeira do trono.
Adelaide fez-lhe sinal piscando o olho, mas o bacharel não percebeu e concluiu dizendo catedraticamente que o brinde "era uma prova de ignorância e de tacanhez intelectual",
Todos estranharam aquela franqueza perante o visconde de Santa Quitéria, na presença do respeitável amigo de Suas Majestades que ninguém ousava contrariar nas menores coisas.
Furtado disfarçou o mau efeito das palavras de Evaristo, dizendo alegremente que, para provar ignorância e tacanhez intelectual, ia brindar à Inspetoria do Jardim Botânico e mais à Flora brasileira.
- Muito bem, muito bem, meu amigo - fez o visconde erguendo o copo. - O esposo da Sra. D. Adelaide estava bem para niilista, ao que vejo. Atira-lhe com um brinde à Flora.
As palavras do visconde mereceram aplauso das duas senhoras. Adelaide e Branca saudaram-no entusiasticamente.
- Bravo, senhor visconde, bravo - exclamaram as duas a um tempo.
E Evaristo, esmagado pela maioria, bebeu também à saúde do Jardim Botânico, "uma vez que o amigo Furtado e o ilustre senhor visconde faziam questão".
Beberam, e o champanha, caindo no estômago farto dos homens e das senhoras, trouxe-lhes ainda mais alegria e expansão.
A própria Adelaide tinha agora um brilho comprometedor nos olhos, uma viveza fora do natural, e falava também, muito risonha, inclinando a cabeça no ombro de Branca. A mulher do secretário lamentou a ausência da viúva Tourinho; faltava uma senhora para completar três casais, e a viúva sabia se divertir como gente, era uma bela companhia.
- E o desembargador? por que não convidaram o desembargador Lousada? - disse o marido de Adelaide, devorando um cacho de uvas.
- Oh, Evaristo, você ainda come? - acudiu a jovem esposa do bacharel, cujas faces, ordinariamente pálidas, tinham agora um ruborzinho quente.
Furtado perguntou, então, se ainda queriam tomar alguma coisa, e como todos recusassem, propôs novo passeio através das árvores. Ninguém discordou da idéia. Evaristo, porém, falou ao ouvido do secretário, que lhe respondeu baixinho, acrescentando alto, para as senhoras e o visconde:
- Podemos ir, podemos ir; o Evaristo irá depois...
- Como, irá depois? - perguntou Adelaide com um arzinho de riso.
- Vão andando, que eu já os encontro - disse o bacharel misteriosamente. - É questão de minutos...
- Espera por ele, oh Raul - ordenou Furtado.
E, oferecendo o braço a Adelaide, à imitação do visconde, que já se apoderara de D. Branca, saiu do caramanchão.
O número de passeantes aumentava com o correr da tarde. O jardim ia-se enchendo de famílias e rapazes que percorriam as avenidas de chapéu-de-sol aberto à luz das duas horas. Os sons da música chegavam aos ouvidos distintamente na aragem acariciadora que soprava. Como que esmoreciam os tons vivos da paisagem, num desmaio lento; o sol esfriava um pouco e o azul tinha agora uma cor poeirada de cinza, como um espelho que de repente se ofuscasse a um bafejo úmido. Todas as coisas iam mudando de aspecto à proporção que se aproximava o fim da tarde. Os tons vivos iam-se traduzindo em tons melancólicos; a natureza, cansada de luz, queimada pelos ardores do sol, numa indolência outonal, volvia-se para o crepúsculo, adivinhava a noite. O repuxo central do Jardim entoava a sua ladainha num ritmo blandicioso de cascata longínqua.
Furtado queria se abrir com Adelaide agora que estavam sós, dizer-lhe tudo quanto sentia por ela desde que a vira pela primeira vez, contar-lhe as suas insônias, o muito que a estimava, a extraordinária simpatia que ela lhe inspirava; mas uma timidez amordaçava-o, uma timidez de colegial, e, no fundo, um vago sentimento de compaixão pelo amigo, pelo Evaristo, seu velho contemporâneo do Liceu, cujas qualidades, ontem como hoje, eram dignas do respeito que se deve a um chefe de família honesto e exemplar. Além disso, temia qualquer movimento de indignação por parte de Adelaide; ela talvez o repelisse, dando escândalo num lugar público, desabafando ali mesmo em face do visconde e de sua mulher, inutilizando-o. Mas logo esses temores desapareciam e voltava-lhe o ânimo, a coragem de homem useiro e vezeiro nas pugnas do amor fácil.
E já não pensava no Evaristo nem nas conseqüências de uma deslealdade infame, trancando o coração ao sentimentalismo e aos influxos nobres, abstraindo de tudo que não fosse o desejo criminoso e lúbrico de aumentar o número das suas conquistas. Porque, em verdade, a presença daquela mulher tirava-lhe o sossego íntimo, arrebatava-o como a presença de outras igualmente respeitáveis e a quem ele seduzira com os seus brilhantes e com as suas lábias, triunfando como um general invencível. Apontava-as a dedo; via-as passar na Rua do Ouvidor e saudava-as feliz e glorioso. Adelaide sorria-lhe e tanto bastava para que dentro dele se ateasse a chama rubra do desejo, lambendo-o vorazmente, como uma língua de fogo, queimando-lhe o coração, escaldando-lhe o cérebro.
Ele então apertava-a contra si, mordendo o beiço, ameigando o olhar, com ímpetos de explodir numa declaração formal, absoluta e suprema, como se estivesse de joelhos num confessionário, e pedir-lhe, pelo amor de Deus, por vida de seus olhos, por tudo! que soubesse corresponder àquela estima, àquele amor, àquela loucura.
Adelaide ia rindo, muito satisfeita, não completamente fora do círculo de idéias que preocupavam a Furtado; de algum modo ela não estava muito longe de preferir o secretário a Evaristo; iniciada nos segredinhos de alcova por D. Branca, que lhe abrira os olhos à vida fluminense, tumultuosa e desregrada, na rua como nos salões, vendo o exemplo de outras mulheres e da própria Branca, Adelaide insensivelmente ia-se deixando absorver pelo meio que a cercava, embora a educação que recebera na província, os hábitos ingênuos, a natural timidez, que ainda conservava, não cedessem logo a um primeiro impulso do coração. Ela notava as delicadezas de Furtado, via-o quase sempre de olhos cravados no seu rosto como se quisesse adivinhar o que lhe ia n'alma, guardava o caso da mobília e dos duzentos-mil-réis e muitas outras provas de generosidade e fineza do secretário; mas atribuía tudo a um sentimento de amizade para com Evaristo, a um impulso natural de velho companheiro de escola.
Iam por uma aléia sombria de bambus, cuja copa unia-se formando um túnel verde extenso, que se prolongava em ziguezague. Às vezes o banqueiro desaparecia numa curva com a mulher de Furtado, e o secretário conchegava o braço de Adelaide, numa pressão meiga e voluptuosa, como se a quisesse envolver de carinhos, o olhar medindo toda a singeleza do seu perfil, resvalando-lhe na cútis do rosto e caindo apaixonadamente no pescoço que as rendas do plissê guarneciam de branco.
As palavras dele, ungidas de ternura, ritmadas pela emoção, Adelaide ouvia-as inquieta, e, instintivamente, apressava o passo, medrosa, de estar ali sozinha "com um homem!".
- Como é escura esta avenida! - exclamou, de repente, erguendo os olhos para a copa dos bambus.
Furtado estremeceu.
- Escura, mas muito agradável, não acha? - murmurou quase ao ouvido dela.
- Pelo contrário...
- Não diga pelo contrário... Leia os poetas. .. A solidão convida ao amor...
Adelaide estranhou aquelas palavras e calou-se.
O trajo branco do visconde assomou longe e tornou a desaparecer entre as árvores.
A esposa do bacharel queixou-se de uma dorzinha de cabeça; o champanha lhe fizera mal.
Ele tranqüilizou-a, dizendo que o champanha não fazia mal a ninguém; que era uma bebida inofensiva como água... O vinho do Porto, sim, o vinho do Porto estragava o estômago. Mas não tinham tomado vinho do Porto...
- Então é do sol.
- E do muito sol que apanhamos. Eu mesmo sinto um fogo na cabeça, uma quentura no cérebro.
De repente o secretário estacou; descobrira um pequeno inseto cor de ouro no ombro de Adelaide. Colheu-o na ponta dos dedos e mostrou-lho.
- Veja que bonito!
- É verdade: lindo!
- Naturalmente confundiu-a com alguma rosa..
- Que graça, senhor Furtado...
- E então? Admira-se de que eu a compare a uma rosa?
- Muito lindo! - repetiu Adelaide observando o insetozinho na palma da mão.
Estavam agora frente a frente ocupados com a descoberta do coleóptero, ele sem tirar os olhos dela, todo embebido na contemplação do seu rosto ideal.
- O Evaristo gosta muito de insetos, vou guardar para ele.
E depositou cautelosamente o besouro na bolsa de couro da Rússia que sempre trazia, dizendo:
- Que demora de meu marido!
- Anda às voltas, com o Raul.
E no momento em que ela fechava a bolsa para continuar o passeio, Furtado abaixou a cabeça, num movimento nobre, e beijou-lhe audaciosamente a mão, oferecendo-lhe, ato contínuo, o braço.
- Senhor!...
Ia exclamando: - Senhor Furtado!... - num tom de admiração e de queixa; mas, o insólito procedimento do secretário gelou-a.
Um beijo!... Faltava-lhe toda a coragem, toda a presença de espírito, para reagir no mesmo instante, lembrando ao marido de D. Branca o respeito que todo o homem deve a uma senhora casada. Penderam-lhe os braços, curvou a cabeça, e em vez de uma explosão de palavras que demonstrassem a Furtado a sua indignação e o seu assombro, ela deixou que as lágrimas corressem como pérolas de rosário desfiado. Nunca homem algum se atrevera a tanto, nunca o seu pudor de mulher fora tão cruelmente magoado como naquela ocasião e por um homem que devia ser o primeiro a respeitá-la.
- Adelaide... - murmurou Furtado numa voz suplicante. - Zangou-se?
A jovem senhora não respondeu. Ia calada, muda, abafando o seu ódio, enxugando as lágrimas. Compreendia agora os zelos do secretário para com ela, a sua fingida dedicação ao Evaristo; compreendia tudo...
Mas, ao mesmo tempo, compreendia a necessidade de ocultar aquele episódio revoltante "para não dar escândalo", para evitar a cólera de Evaristo e uma grande desordem, talvez, entre o secretário e a mulher. Oh, infelizmente era preciso mostrar cara alegre, ainda que o coração estivesse sangrando... Nunca lhe passara pela idéia que o Sr. Furtado, um homem que se dizia tão fino, tão bem-educado, abusasse da sua posição e de um momento como aquele para... para beijá-la, como se estivesse tratando com uma criadinha de família, sem pejo nem nada! Era muita coragem e muita desfaçatez!
- D. Adelaide... - repetiu Furtado aproximando-se dela. - Queira desculpar-me se a ofendi...
A esposa de Evaristo continuou no mesmo silêncio obstinado, como uma pessoa que de repente perdesse a fala, indo maquinalmente pela avenida, sem ver as coisas, olhando para o chão fofo que seus pés iam pisando insensivelmente. De alegre que estava quando saiu do caramanchão, tornou-se melancólica e indiferente às belezas do jardim e às fulgurações da luz. Doía-lhe a cabeça com uma intensidade atroz.
Furtado emudeceu também, penalizado, um pouco arrependido já, receoso de que Adelaide não fosse cometer alguma imprudência desabafando-se. Mordia o castão da bengala com um ar sério de quem cogita numa grave questão.
Aventurou nova pergunta:
- Quer que me ajoelhe e peça perdão? Creia que foi uma loucura de que me confesso arrependido...
Adelaide suspirou levemente, como alívio, ainda sem responder. Neste instante a música do outro lado do parque tocava uma habanera saudosa cujo eco ia morrer longe nas montanhas, penetrado de evocações. O coração terno da esposa de Evaristo encheu-se de bondade e acordou subitamente da melancolia em que o deixara Furtado. Ela, porém, não tinha coragem de abrir a boca e dizer uma simples palavra, como se estivesse na presença de um estranho, de um desconhecido. Queria esquecer a ofensa que recebera do amigo do Evaristo, acabar com aquilo e continuar a viver como dantes; o homem às vezes não é senhor de si... Lembrava-se dos favores que o bacharel devia ao secretário, da extremosa amizade de D. Branca e um sentimento de gratidão penetrava-a desanuviando-lhe a alma, restituindo-lhe o bom humor e a visão otimista da paisagem e das coisas... Não valia a pena zangar-se, amofinar-se por uma tolice, de uma loucura... Ninguém vira o secretário beijar-lhe a mão, ninguém...; a aléia estava deserta como o interior de uma gruta longínqua. Para que então, provocar escândalo? Também não se deve ser muito escrupulosa... deve-se desculpar, fechar os olhos a estas coisas.
Furtado ouviu um rumor na areia. O Raul aproximava-se correndo; atrás dele vinha o bacharel em passo ordinário.
- Eh, lá! - gritou Evaristo. - Esperem ao menos pela gente!
O secretário voltou-se com Adelaide e riram ambos da filosofia ingênua daquele marido excepcional.
- Já te fazíamos desertor!
- A mim?... Ufa, que já me não tenho nas pernas!... Desertor?
- Onde andaste há quase uma hora?
- Vendo as cascatas e os reservatórios... Pergunta ao Raul!
- Oh, que bonito, hem, senhor Evaristo? Que bonito, papai! A cachoeira vem de lá de cima da montanha rolando, rolando como uma chuva...
- Esplêndido! - tornou o bacharel. - Já não nos lembrávamos de vocês... Que é do visconde?
- Vai lá adiante com a Branca.
- Papai, oh papai! - interrompeu o menino.
- Que é, meu filho?
- Um homem estava tirando o retrato da cachoeira, com uma máquina...
- Já sei.
E para Evaristo:
- D. Adelaide é que está com uma dorzinha de cabeça.
- Melhorei um bocado, já não dói tanto - disse Adelaide.
- E agora para onde nos atiramos? - perguntou o bacharel.
- Ao encontro do visconde e da Branca.
Foram andando os três, mais o Raul. Saíram na grande aléia das palmeiras, onde se achava o Santa Quitéria de braço com D. Branca cm torno do repuxo, vendo cair a água em fios dentro do reservatório.
- Olá, como estão embebidos! - exclamou o Furtado.
O bacharel, por trás do secretário, piscou maliciosamente o olho à esposa.
- É verdade, como estão embebidos! - repetiu Evaristo.
E aproximaram-se justamente na ocasião em que o Santa Quitéria falava em voz muito baixa no seu escritório na Rua da Alfândega, onde havia uma alcova, toilette, jarro com flores, et coetera...
O instinto de D. Branca advertiu-a da aproximação de Furtado; ela fez sinal com os olhos ao banqueiro e entraram todos a confabular alegremente.
Estava reunida a troupe sem faltar uma só pessoa. O visconde consultou o relógio: eram três e meia.
- Cedo - murmurou.
- Querem tomar alguma coisa? - ofereceu o secretário. - Um vermute, um conhaque, um copo de água gelada.
Ninguém queria; em todo caso foram repousar à sombra do caramanchão, enquanto o sol ainda estava quente.
Adelaide aparentava a mesma fisionomia naturalmente ingênua do costume. Evaristo sempre despreocupado, não adivinhou, através do seu rosto, a mais leve contrariedade. Já se habituara àqueles longes de melancolia, que eram a verdadeira expressão do olhar da esposa. D. Branca notou porém um tom cerimonioso na voz do Furtado, quando este se dirigia a Adelaide. Desconfiança, talvez, mas notara... e ela que conhecia bem o gênio do esposo, imaginou logo o fio de uma secreta história de amor...
As cinco horas, nova refeição desafiava o apetite do bacharel e do Raul, somente deles, porque as outras pessoas torceram o nariz à galinhola e à maionese de salmão; contentaram-se parcamente com uma fatia de queijo holandês, um pouco de marmelada e vinho de Bourgogne. O visconde acrescentou água de Selters, limpando o bigode com cerimoniosa fidalguia.
Evaristo e Raul é que não dispensaram a comezaina e entraram, de rijo, na asa de galinha e na maionese.
- Vocês não sabem o que estão perdendo! - excitava o bacharel, sem cerimônia, trincando as azeitonas. - Um bocadinho de maionese, Adelaide!
O Raul achava graça nas palavras e no apetite de Evaristo e ria mastigando, com um risinho dobrado e sonoro que fazia os outros rir.
- Então, D. Branca? Mostre ao menos que é filha do sul!
- Não, senhor Evaristo, muito obrigada - sorriu corando a elegante fluminense.
- E o senhor visconde? e o amigo Furtado? Olha que gente!...
Abriam-se garrafas de vinho. O Antônio sempre alerta movimentava o quadro, exibindo as suas qualidades de copeiro que ama o ofício.
- Não vás indigestar... - advertiu o secretário ao filho.
No mesmo instante Adelaide recomendava ao marido que "tivesse cuidado com a maionese".
A luz do sol desmaiava num crepúsculo cheio de misteriosas paIpitações. Descia das montanhas um ar úmido; o som das cascatas vinha impregnado do aroma da floresta, como se dele fizesse parte, e evocava, aquela hora, longes de natureza tropical, saudosas ave-marias da infância... O parque com as suas árvores colossais, com os seus renques de palmeiras, com os seus túneis de verdura e com as suas planícies de grama, onde brotavam pequeninos eucaliptos e obscuros vegetais de famílias obscuras da Índia e do norte da América - o grande parque ia-se revestindo de melancolia e cada árvore com a sua etiqueta explicativa tinha um ar fúnebre de cemitério...
- Agora podemos ir - disse Evaristo -, mesmo porque vem caindo a noite...
Dirigiram-se todos para o portão do Jardim.
V
Adelaide recolheu-se triste naquela noite; por maiores esforços que fizesse, não podia esquecer a afronta do secretário aos seus brios de mulher casada, e o que mais a impressionava era o desplante, o cinismo audacioso com que ele a beijara... - Que coragem de homem, Senhor! Quase à vista de todos, em pleno Jardim Botânico, num lugar público! Eis aí quando a gente perde a cabeça e comete uma loucura, eis aí!
Depois falam, depois não dão razão, e uma mulher vê-se obrigada sofrer os maiores insultos, porque tem medo de que lhe aconteça pior...
Já há dias notara certas liberdades de Furtado, certa maneira de lhe falar, de lhe dizer as coisas baixando a voz, ameigando o sotaque, olhando-a insistentemente; já há dias notara... mas, palavra de honra como não supunha o marido de D. Branca um homem sem escrúpulos, um sedutor, um amigo desleal... Pobre Evaristo! nem sequer imaginava...
E caía-lhe n'alma um desgosto, uma tristeza, um cansaço da vida, um peso enorme. Oh, quanto mais para dentro da civilização, mais horrores, mais espinhos, como no interior de uma floresta de cardos, povoada de insetos venenosos. Homens e mulheres traem-se com a mesma facilidade com que se juram amar eternamente uns aos outros. Bem lhe diziam na província que o Rio de Janeiro era um centro de perdição, uma Babilônia de vícios, bem lhe diziam!... Melhor prova ela não podia ter: o Sr. Luís Furtado, aristocrata de Botafogo, pai de família, mostrava-se dedicado aos outros para poder abusar.. E assim era tudo.
O cérebro de Adelaide enchia-se de considerações, enquanto Evaristo mergulhava num sono calmo e reparador. O bacharel não esperou pela hora habitual de se deitar, fatigado do passeio, com uma invencível morrinha no corpo, os olhos ardendo, a vista turva, esvaziou uma moringa d'água fresca e estendeu-se na cama, na bela cama de casal. "Não era de bronze para resistir às conseqüências de um piquenique!" E dormia, o Evaristo, como o mais feliz de todos os bacharéis.
Adelaide é que não podia dormir, apesar de cansada também. Era maior a preocupação moral que o sono. Ouviu bater oito horas, nove, dez, onze, meia-noite, e o cérebro a trabalhar, a funcionar como uma máquina de alta pressão. Chocavam-se nela as mais desencontradas idéias: ora Furtado parecia-lhe um homem sem caráter, indigno da amizade de Evaristo ou de quem quer que tivesse um bocado de vergonha, ora afigurava-se-lhe cavalheiro distinto, com todas as virtudes e defeitos (não há homem sem defeitos ...) da sociedade em que vive. Ao mesmo tempo que o condenava por lhe ter beijado a mão, ferindo-a no seu amor-próprio, intimamente o perdoava, lembrando-se de que talvez ele a amasse deveras e o amor é cego, o amor não quer saber de razões... Quem sabe? ele talvez a amasse, talvez lhe consagrasse alguma estima particular e fora de suspeitas criminosas. Beijou-a porque... porque não teve forças para se dominar...
A consciência, porém, dizia-lhe baixinho que uma mulher casada, uma mulher que se ligou a um homem para toda a existência, é objeto que outro homem não deve tocar nem de leve, ainda mesmo a pretexto de amizade fraternal ou de sagrada admiração; e a esposa que se deixa beijar por um homem, que não é o seu legítimo marido, tem na sociedade o feio nome de adúltera. Vinha-lhe, então, um arrepio nervoso, uma sensação de remorso por não ter energicamente repelido o secretário, mesmo com escândalo, embora caísse sobre ela todo o ódio de Furtado e de D. Branca; acima deles estava a sua dignidade e a honra de Evaristo. No meio dessas idéias, e como uma aparição bendita, surgiu-lhe a figura de Balbina, a preta velha de Coqueiros, e uma lágrima triste, uma lágrima de saudade embebeu-se no travesseiro da meiga esposa do bacharel.
Evaristo roncava.
No outro dia falou-se muito no piquenique; todos tinham gostado imenso. A correção do visconde, o ar fidalgo que ele não perdia mesmo entre amigos, a toilette com que se apresentava, as suas delicadezas mereceram especiais referências de D. Branca.
O secretário não esteve muito loquaz ao almoço; dava uns apartes tímidos e avançava um ou outro juízo irônico sobre o passeio da véspera, lamentando as dores de cabeça de Adelaide e a eterna circunspecção do visconde. - "Afinal, a verdade é que ninguém se divertira. Resultado: um passeio de burgueses, um piquenique fúnebre!"
- Fúnebre por quê? - saltou Evaristo. - Vocês é que não sabem se divertir; eu pelo menos fiz honra à confeitaria Pascoal e gozei o que há muito não gozava: o aspecto da nossa natureza, a sombra de uma árvore e a frescura de um veio d'água. Nesta imperial cidade, onde a vida do rei é o que de mais precioso existe, vale a pena um homem sair dos seus cômodos para respirar o ar livre do Jardim Botânico ou de outro jardim qualquer. Nós é que não sabemos gozar o que possuímos. O imperador absorve o cérebro e o coração deste povo...
- Deixe o velho, Sr. Evaristo, Sr. Evaristo ... - fez D. Branca. - O imperador é um bom homem.
- Ninguém diz o contrário; mas o Brasil ainda é melhor que ele...
- Aí vem política! - murmurou Adelaide, que até aí não dera palavra.
Furtado olhou-a e sorriu; ela abaixou os olhos gravemente.
O resto do dia passou calmo. Adelaide subiu, depois do almoço, como às vezes costumava, e foi ler os jornais. Estava resolvida a mudar-se daquela casa antes que estalasse algum escândalo.
Mas a insistente idéia de Furtado não a abandonava e todo o santo dia pensou nele, como num objeto querido, e nas histórias de amor que lhe contara D. Branca. Como exigir de Evaristo uma mudança brusca, ela que nenhuma razão podia alegar contra o sobrado ou contra a família do secretário? Dizer-lhe simplesmente que não estava bem ali era uma imprudência, tanto mais quanto as suas relações com a esposa de Furtado eram estreitíssimas e ela sempre fizera grandes elogios à casa e ao próprio marido de D. Branca. Antes esquecer, antes esquecer tudo e apresentar-se alegre, fazendo pela vida como os outros, não estorvando os projetos de Evaristo, aceitando os homens como eles são - desleais e corruptos... Que podia ela só contra uma sociedade inteira, contra milhares de pessoas? Nada, absolutamente nada. Homem e mulher vivem conforme a sociedade os obriga a viver, fingindo não perceberem aquilo que lhes está entrando pelos olhos; a mulher principalmente, a mulher é um ente nulo, uma criatura sem vontade, uma pobre máquina dos caprichos do homem. Triste daquela que, instigada pelo amor-próprio, arrebatada por um movimento de dignidade feminina, rebelar-se contra o jugo do meio em que vive! Não lhe faltarão apodos, nem grosseiras alusões...
Na sua simplicidade provinciana a jovem esposa do bacharel começava a compreender o papel inferior da mulher na civilização, e traçava mentalmente um programa de vida, uma linha de conduta humilde e utilitária sobre as bases que lhe fornecera a experiência de alguns meses. O Rio de Janeiro aparecia-lhe agora sob um aspecto novo e convencional. Furtado representava, a seus olhos, o homem moderno, capaz de todas as perversões, de todas as hipocrisias, colocando acima da dignidade própria, o sensualismo, os gozos inconfessáveis, a luxúria sob todas as formas e as exibições públicas de toilettes à última moda. Notara, no piquenique, a insistência com que o visconde de Santa Quitéria se dirigia a D. Branca, levando-a pelo braço a passear no Jardim, fora das vistas do secretário, enquanto este, por seu turno, ia maquinando o melhor meio de pôr em prática uma traição ao amigo... e essas e outras coisas enchiam-lhe o coração de descrença e de pesar. O verdadeiro - a prudência lho dizia - era fechar os olhos a tudo e esperar que Evaristo se convencesse da asquerosa realidade... Ela nunca o havia de trair, isso nunca! Preferia morrer, preferia suicidar-se... Queria-o muito, orgulhava-se em o ter como esposo de sua alma. Ou a mulher ama o homem com quem vive e, se o ama, não o pode trair, ou não o ama e, neste caso, é a pior de todas as mulheres de vida fácil, porque diz hipocritamente que o ama para, à sombra de um responsável. cometer infâmias. Não, ela havia de respeitar seu maridinho enquanto Deus lhe desse juízo.
Arrumou a casa, espanou os móveis, passou uma vista nos jornais e sentou-se entregue às suas reflexões, o espírito alvoroçado pelo enxame das idéias, num grande silêncio de tugúrio que nenhum estalido quebrava.
D. Branca, pé ante pé, foi encontrá-la na cadeira de balanço, a olhar o teto, numa abstração infinita, rodeada de jornais.
- Boa vida! - exclamou, com um sorriso afetuoso, a mulher de Furtado.
Adelaide teve um pequeno sobressalto: "- Oh!... Estava pensando..."
- Estava pensando! Isso é grave... Cai ou não cai o ministério! O imperador vai ou não vai à Europa?
A outra endireitou-se na cadeira, passou a mão nos olhos, como quem acorda, e suspirou de leve.
- Olhe que a vida é curta, menina, olhe que a vida é curta - repetiu a amiga em tom conselheiro.
- E os desgostos são muitos...
- Qual desgostos, criatura! Uma mulher nova e bonita não pode queixar-se.
E sem transição, D. Branca aludiu ao piquenique. Adelaide gabou a festa, para não contrariar a esposa do secretário, recordou o champanha, os ditos espirituosos do senhor Furtado e, propositalmente, não falou no visconde.
D. Branca, então, sem estranhar o silêncio de Adelaide, fez o elogio de Santa Quitéria, enaltecendo-lhe os modos, "a impecável distinção com que ele tratava uma senhora, a extrema delicadeza que punha nas palavras e nos menores gestos", concluindo que o visconde era, na sua opinião, "o que se podia desejar de tout à fai chic".
- Ele parece simpatizar muito com a senhora.
- Comigo? Oh não, nem diga tal coisa!
- Por quê?
- Porque não é bom, pode alguém ouvir e eu não quero - Deus me livre - uma questão com o Furtado ...
O certo, porém, é que D. Branca exultou intimamente com as palavras de Adelaide. - "Era, então, verdade que o visconde parecia Simpatizar com ela... Que lembrança?..."
Ia animada a palestra, quando a campainha soou embaixo e vozes repercutiram na escada.
Eram os dois amigos que voltavam juntos do Banco.
À noite ainda se falou no piquenique, tema inesgotável das conversações daquele dia. Ninguém se lembrava de outra coisa; o piquenique no Jardim Botânico era a grande novidade, o grande acontecimento.
Adelaide estava mais expansiva; trocou algumas palavras, diretamente com o secretário, emitiu opiniões, teve risos gostosos; enfim, já não era a mesma que D. Branca surpreendera com os olhos no teto, a pensar e que se conservara silenciosa ao almoço, enquanto as outras pessoas comentavam o piquenique.
As noites eram mais frescas então; respiravam-se as primeiras brisas do equinócio das flores, o sol ia perdendo a intensidade abrasadora e caniculante que afugentara para Petrópolis e Friburgo os satélites imperiais do monarca. A vida fluminense, por assim dizer interrompida com a ausência da aristocracia palaciana, voltava a funcionar, é verdade que sem o estímulo habitual, porque a sabedoria de Hipócrates ordenava ao imperador uma retirada para o outro continente, e os olhos do povo e da nobreza cedo começavam a chorar a ida inevitável do augusto e perpétuo defensor do Brasil. Voltavam tristes as andorinhas de Petrópolis, e essa tristeza comunicava-se ao meigo rebanho que atravessara dezembro e janeiro ao sol, enquanto a asa negra da febre amarela estendia-se pavorosa, sobre a heróica cidade.
Os jornais, numa faina lúgubre, pediam contas ao governo sobre o verdadeiro diagnóstico da imperial moléstia e já se dizia por toda a parte que "o rei ia, mas não voltava... - Diabetes ... glicosúria... surmenage... eram palavras que enchiam a Rua do Ouvidor subindo e descendo com os transeuntes. - Quem ficava no trono! Quem se responsabilizava pelos destinos da grande pátria americana? Toda a gente sabia que era a princesa, mas toda a gente perguntava: - Quando era o dia do embarque? - e cada boca era uma interrogação e cada olhar uma profecia. Republicanos, abolicionistas, em conciliábulos secretos, viam na doença do imperador o triunfo das novas idéias, a conquista da liberdade, a grande hora da fraternização brasileira..." E reduzido às míseras proporções de inválido, o segundo Alcântara, bisneto da Sra. D. Maria I, universalmente conhecido pelos seus versos ao bom povo ituano e pelo seu amor às letras, que na Europa dava-lhe foros de primeiro poeta do Brasil - O celebrado amigo de V. Hugo e das canjas do Teatro Lírico ia sulcar o Atlântico para bem do povo e felicidade da nação, desse povo que tanto o amava e dessa nação que ele governava há meio século.