Edificada num local privilegiado, aprisionada entre as águas revoltas dos oceanos e as fotogénicas table mountains, a Cidade do Cabo é uma urbe cosmopolita, hiperactiva, de belas praias, noites longas, bom surf, muito luxo e alguns excessos. Mas será assim tão especial quanto dizem os relatos de viagem?
CIDADE DO CABO, THE SPECIAL ONE
São raras, é certo, mas existe um punhado de cidades no mundo que recolhem aplausos praticamente unânimes entre os viajantes que por elas passam. E a Cidade do Cabo é, seguramente, uma delas, pelo que a pergunta - será assim tão especial quanto dizem os relatos de viagem? - é praticamente de retórica. A reportagem poderia, aliás, terminar logo aqui para se evitar o risco de o escriba embevecido começar a discorrer um chorrilho de elogios sobre “a mais” isto, “a mais” aquilo cidade do continente africano. Pela simples razão de que, em abono da verdade, a Cidade do Cabo é quase tudo o que de positivo dela se diz. Do simbólico Cabo da Boa Esperança ao multicolorido bairro de Bo-Kaap, do luxo desmedido das escarpas de Clifton às impecáveis docas Victoria & Alfred, da irreverente Long Street às ondas poderosas de Camps Bay, do mercado diário da praceta Green Market à vista do topo das table mountains, a Cidade do Cabo é uma metrópole vibrante e cosmopolita, elegante, trendy e hiperactiva, com muitos espaços verdes, praia, surf e gente bonita. Numa palavra, é uma cidade fascinante.
Também há, naturalmente, a miséria das favelas, a discriminação racial e o crime violento, para além da SIDA e das drogas a lembrar que o solo que se pisa é sul-africano. Mas essas não são características exclusivas da Cidade do Cabo e, verdade seja dita, aparte a discriminação, têm proporções bem mais comedidas que noutras paragens da região, mormente em Joanesburgo e na capital Pretória. Nota-se - não haja ilusões - uma grande segregação racial, apesar do término oficial do apartheid ter ocorrido há quase 20 anos, por decreto do então presidente e posterior Nobel da Paz Frederik de Klerk. Apesar de estarmos em África, a pele clara predomina no corpo dos transeuntes que se passeiam nas ruas do centro, nos rostos que trabalham no comércio, nos donos dos restaurantes e cafés, nos frequentadores das praias ao longo da Beach Road, nos cartazes publicitários, em quase todo o lado. Excepto nas favelas dos arrabaldes, naturalmente. É o apartheid dos tempos modernos, a exclusão social.
A constatação pode até parecer um paradoxo, quando falamos de uma cidade que recebe gente dos cinco continentes, atraída pela qualidade de vida, pelas múltiplas oportunidades profissionais, pelo dinamismo cultural e pelo sentimento de segurança certamente acima da média do país. Porque, no fundo, a Cidade do Cabo aparenta ser uma boa cidade para se viver com qualidade, ao ponto de muitos dos que por aqui passaram não mais se deixassem partir. Em última análise, o Cabo é uma cidade do Mundo e esse espírito aberto transpira para o viajante em gotas de alegria, de fascínio, de prazer. À chegada à central de camionagem, entrei num táxi cujo motorista era, naturalmente, estrangeiro (são quase todos do Burundi, do Congo, do Ruanda...). Tinha já trabalhado em Moçambique, pelo que arranhava umas quantas palavras em português. “Long Street? OK, amigo”. Assim começava a descoberta de uma cidade verdadeiramente especial.
LONG STREET, CENTRO TURÍSTICO DA CIDADE DO CABO

Long Street, a meca do turismo mochileiro na África do Sul
É no centro da Cidade do Cabo que se concentram os edifícios mais imponentes em altura, como as torres de escritórios e os enormes centros comerciais ao melhor (pior?) estilo europeu. Mas também os edifícios históricos e monumentais como o do parlamento, e as sedutoras casas de arquitectura vitoriana com requintadas varandas de ferro forjado, concentradas sobretudo numa rua bem conhecida por motivos mais prosaicos: Long Street, o ponto nevrálgico do turismo low cost de toda a África do Sul.
Muito animada durante as 24 horas do dia, especialmente assim que o sol se esconde, Long Street é a artéria turística por excelência, pejada de restaurantes, bares, albergues, lojas de conveniência e pontos de acesso à internet, bem como a sua dose de pedintes andrajosos e vendedores de droga que sussurram nomes de substâncias ilícitas ao cruzar um transeunte de feições estrangeiras. Para quem já esteve em Banguecoque, Long Street faz lembrar - para o bem (leia-se diversão, ambiente descontraído, liberdade, boa música, gente bonita) e para o mal (leia-se jovens embriagados a cambalear pelas ruas às três da madrugada, desacatos, drogas) - a popular Khao San Road, essa avenida surrealista frequentada por gerações de mochileiros de todo o mundo e que tem tanto de fascinante como de decadente. Tal e qual como Long Street, que pode ser imprescindível ou abominável, consoante o estado de espírito do viajante.
PRACETA GREEN MARKET

Banca na praça Green Market
Bem perto fica a praceta Green Market, onde, diariamente, até cerca das quatro horas da tarde, dezenas de comerciantes vendem artesanato, estátuas de madeira, peças de roupa, pinturas, batuques, bugigangas e souvenirs de toda a espécie. É um passeio divertido deambular pelo exíguo espaço entre as bancas de venda, nem que não tenha intenção de acumular peso na bagagem com compras acidentais. É que, ao contrário de muitos outros lugares da Cidade do Cabo, na Green Market sente-se que estamos em África. Se isso não for motivo suficiente para convencer o viajante mais comodista, saiba que numa das esquinas da praceta se vende, provavelmente, o melhor ice coffee da Cidade do Cabo. Uma delicia em dias de calor.
JARDIM BOTÂNICO
Praticamente ao lado da praça Green Market ficam os espaços verdes do Jardim Botânico. Numa cidade cada vez mais construída em altura, os jardins são o local ideal para um passeio matinal em família. Mais, se viaja com crianças, tem ali a oportunidade de as deixar correr livremente pelos relvados, alimentar os pombos ou observar os muitos esquilos ariscos que por ali cirandam. Se prefere outros ambientes, passe pelo Jardim Botânico num horário mais tardio, um pouco antes do Sol descer abaixo do horizonte, quando o jardim é invadido por músicos amadores, rastafaris e muitas personagens excêntricas que conferem à zona verde um colorido diferente, ambiente animado e, digamos, alternativo.
BO-KAAP, RENOVADA CIDADE DO CABO

Pormenor de Bo-Kaap, um dos bairros
mais bem preservados da Cidade do Cabo, África do Sul
Não há visita à Cidade do Cabo que fique “completa” sem uma passagem por Bo-Kaap, um pequeno bairro localizado já na encosta da Signal Hill e cuja preservação tem vindo a ser incentivada pelos poderes locais. O objectivo é tornar aquele que se apresenta como um espaço pródigo na diversidade multicultural, numa atracção turística de qualidade, criando um pólo de interesse adicional para os visitantes. Dos habitantes de Bo-Kaap, maioritariamente descendentes de escravos trazidos pelos marinheiros holandeses da Malásia, Indonésia e de outras paragens africanas e asiáticas, diz-se, aliás, serem muito orgulhosos da sua rica herança cultural, pelo que o intercâmbio com os forasteiros pode ser uma experiência agradável e enriquecedora.
Nos dias de hoje, Bo-Kaap continua um bairro pequeno e bonito, com um punhado de ruas de casas térreas bem arranjadas e um jogo de cores garridas nas fachadas recém-pintadas que é demasiado fotogénico para ser ignorado. Por tudo isso, um passeio por Bo-Kaap faz uma manhã diferente e prazenteira na Cidade do Cabo.