Deve-se, aqui, fazer uma distinção entre parcerias e redes. Parceria diz respeito à associação que as organizações estabelecem entre si, com o objetivo de se apoiarem reciprocamente e tirarem alguma vantagem dessa associação, seja no desenvolvimento de algum projeto, seja no cumprimento de suas metas ou na luta por uma causa em comum. As duas partes ganham, mas não há, necessariamente, transformação interna; os parceiros geralmente seguem preservando a sua identidade inicial.
Rede, por sua vez, diz respeito à intercomunicação constante entre organizações e/ou pessoas envolvidas na busca de objetivos comuns. As redes são abertas e dinâmicas e só existem pela ação constante de comunicação, associação e intercâmbio entre todos os seus componentes.
Luck (2000), porém, alerta para o fato de que não basta apenas haver objetivos e propósitos para construir uma rede. É preciso dedicação continuada e atenção especial para garantir seu funcionamento.
Alguns princípios que podem ser adotados para o desenvolvimento da rede com sucesso:
Reconhecimento de que todos fazem parte de um sistema e que, assim, o que acontece em um afeta os demais e o conjunto todo.
Todas as pessoas e organizações envolvidas têm igual valor, independentemente das suas característica.
Identificação de necessidades comuns, de caráter construtivo
e estratégico, como norteadoras
das ações em rede.
Estabelecimento de um compromisso conjunto para o atendimento dessas necessidades e cultivo de entusiasmo e práticas de intercâmbio e reciprocidade (Luck, 2000).
Algumas estratégias de voluntariado educativo que podem ser desenvolvidas em rede:
Manutenção dos contatos como forma de troca de experiências.
Estabelecimento de intercâmbio entre outras escolas, na busca de referências positivas para a melhoria do trabalho de voluntariado educativo.
Formação de fóruns temáticos, grupos de estudo e reflexão sobre temas sociais e ambientais, tendo por base a análise de experiências diversificadas na área.
Divulgação de conhecimentos produzidos no contexto da rede e fora dela, de modo a incentivar o voluntário educativo.
Promoção de eventos, visitas entre as instituições e intercâmbio das experiências.
Constante troca de informações e divulgação e intercomunicação, por meio de correspondência, boletins informativos, fax, telefone e e-mail.
As escolas podem ser pontos de conexão em uma rede de projetos de voluntariado educativo. Juntas, em uma rede aberta e dinâmica, que facilite o surgimento de uma cultura de colaboração entre educadores e educandos, elas têm mais condições de atingir seus objetivos.
A força da rede está centrada na construção conjunta de relações de cooperação, na troca de experiências de vida e trabalho, na reciprocidade, no compromisso e na responsabilidade.
A escola é espaço formal de aprendizagem e, portanto, espaço de ensino. Toda e qualquer atividade que envolva a escola deve passar por este crivo: os alunos aprendem algo relevante? Os professores ensinam melhor com isso? (Mello, 2004.)
Projetos de voluntariado educativo desenvolvidos pelas escolas podem ser realizados em qualquer ambiente, mas precisam estar alinhados a seu projeto pedagógico, do contrário são apenas projetos de voluntariado.
Os projetos de voluntariado educativo transbordam as paredes da sala de aula. Do mesmo modo que um hospital pode ser um cenário ideal, é também possível fazer ações solidárias em – e para – um parque, um museu, um rio, uma organização social ou mesmo na própria escola, entre outras tantas possibilidades.
A variedade de opções, contudo, não significa que todas as ações têm a mesma natureza ou os mesmos moldes. De uma forma geral, podemos agrupar os projetos de voluntariado educativo a partir de três grandes grupos. São eles: escola-comunidade, comunidade-escola e escola-escola.
Esse tipo de trabalho voluntário está pautado na aprendizagem contextualizada de conteúdos curriculares a partir do envolvimento dos alunos em ações ou projetos sociais.
Considerando-se a proposta de construir projetos a partir da identificação de alguma necessidade, é natural que crianças e adolescentes tragam problemas vividos por si, pelos pais ou pelos vizinhos, ou ainda situações incômodas que não afetam diretamente uma pessoa – mas, por exemplo, a natureza que os cerca.
Tais projetos são bastante eficazes para dar significado aos conteúdos curriculares e à vivência de valores. Se articulados à proposta pedagógica da escola, projetos de voluntariado educativo complementam o trabalho em sala de aula, trazendo elementos enriquecedores para o tratamento de temas transversais, enquanto os alunos aprendem a ser mais críticos, construtivos, criativos e solidários.
Incluem-se nessa categoria projetos de coleta seletiva de lixo, de conscientização da população sobre a importância de alimentar-se de modo balanceado, de acompanhamento de creches, asilos e outras instituições, de recuperação de praças, de monitoramento ambiental... enfim, a lista é longa.
A escola precisa ser compreendida pela sociedade como um núcleo de cidadania, e não como uma simples prestadora de serviços. Quanto mais aberta e direta for a relação comunidade- escola, melhor ela acontecerá.
Esses são princípios de uma proposta pautada na gestão democrática, mediante a qual a comunidade encontra maneiras de contribuir para a qualidade da educação oferecida pela escola.
Muitas vezes, os moradores vizinhos à escola e os próprios familiares dos alunos já estudaram nela e gostariam de contribuir, de apoiar, de participar das atividades escolares.
Se a comunidade quiser contribuir, ela pode, e até deve. Mas nem sempre essa contribuição terá um caráter educativo. Para que pais e comunidade participem efetivamente da vida escolar, é preciso que exista um envolvimento com a proposta educativa da escola, que essa participação contribua efetivamente para melhorar o processo de ensino e de aprendizagem. Projetos de voluntariado educativo do tipo comunidade-escola demandam atenção e coordenação, para que as contribuições dos voluntários não substituam ou se confundam com atividades de responsabilidade dos funcionários da escola.
A participação dos voluntários precisa estar planejada de acordo com o projeto políticopedagógico da escola. Nesse planejamento, cabe à escola estabelecer e avaliar suas próprias necessidades pedagógicas e de infra-estrutura; também é importante que cada voluntário se sinta acolhido, útil e saiba como irá atuar – é preciso, portanto, que a escola esteja preparada para recebê-los e orientá-los.
Uma das mais expressivas experiências de incentivo à participação da comunidade em atividades e projetos de voluntariado educativo na escola é o projeto Amigos da Escola, realizado pela Rede Globo e pela Petrobras. Desde 2005, conta com a parceria do Consed, da Undime e do Instituto Faça Parte, que atua como facilitador e articulador institucional, além de assegurar a base conceitual e metodológica.
Segundo Guiomar Namo de Mello, o melhor indicador para verificar se a contribuição dos voluntários permite a eles uma participação efetiva na escola pode partir de algumas reflexões cruciais: os voluntários ampliam seu conhecimento sobre o papel mais importante da escola e sabem como podem acompanhá-la para ver se ela está desempenhando bem esse papel? A ajuda deles abriu-lhes os olhos sobre a importância da escola na vida de seus filhos e os levou a tomar algumas atitudes, como criar espaço para que seus filhos estudem em casa? Eles aprendem enquanto participam da atividade que desenvolvem?
A sintonia entre a equipe escolar e o voluntário também é fundamental para o sucesso da ação. Para promover essa sintonia, a escola precisa criar oportunidades de convivência, tanto em eventos sociais como em projetos socioeducativos, reconhecendo igualmente o apoio e a participação de todos, inclusive compartilhando metas, objetivos e resultados das atividades desenvolvidas. Assim, o voluntário se inteirará, aos poucos, sobre o funcionamento da escola, sua missão, seus valores e sua cultura, além de conhecer seu projeto político-pedagógico.
Vale ressaltar que, pedindo a assinatura do Termo de Adesão (ver Anexo 2), a escola se protege de eventuais problemas, por exemplo reclamações de vínculo empregatício por parte do voluntário.
Do mesmo modo, quando os voluntários são os alunos, é necessário que uma autorização dos pais para que eles participem das atividades socioeducativas fora da escola (ver Anexo 3).
São projetos realizados por integrantes da comunidade escolar e voltados para atividades dentro da própria escola (monitoria, reforço escolar e infra-estrutura, entre outros) ou entre escolas.
Não há diferenças radicais entre projetos intra-escolares e interescolares. Em ambos os casos, verifica-se um caráter predominantemente educativo, com especial participação da comunidade escolar. O ganho é ainda maior quando se estabelecem parcerias com vistas à formação de redes, conforme abordado no capítulo 3.
Um projeto “clássico” de voluntariado educativo escola-escola é o de monitoria, pelo qual alunos ajudam seus pares a compreender o conteúdo de aula, sempre com a orientação de professores – um procedimento eficaz não apenas para os receptores da ação, que esclarecem suas dúvidas, mas também para os agentes, que têm a possibilidade de consolidar conhecimentos adquiridos anteriormente.
Outro projeto recorrente é o cultivo de hortas comunitárias, que pode envolver alunos de diversas séries. Ao fazer a ponte com conceitos aprendidos em sala de aula, a atividade prática dá significado ao aprendizado teórico.
Essencialmente, projetos de voluntariado educativo interescolares dependem da cooperação entre duas ou mais escolas. No caso do projeto de monitoria, os alunos de uma escola atuariam como monitores em outra.
De acordo com os relatos das escolas inscritas no Selo Escola Solidária, pudemos perceber que as ações de voluntariado educativo mais bem planejadas apresentam resultados melhores, tanto em relação ao rendimento escolar como na ação social propriamente dita.
Sendo assim, consideramos que a prática do voluntariado educativo terá melhores resultados se organizada a partir de uma metodologia de projeto. Não existe, porém, uma metodologia específica para o desenvolvimento de um projeto de voluntariado educativo. A comunidade escolar deve planejar suas atividades de acordo com seus objetivos, com a área de atuação e com a realidade local.
Os projetos desenvolvidos pela escola são considerados educativos se contribuírem para o processo de ensino e de aprendizagem e são considerados sociais quando realizam uma atividade de caráter social na própria escola ou na comunidade. No entanto, os projetos de voluntariado educativo são aqueles cujas atividades são de intervenção social e foram planejadas com a intenção de propiciar a aprendizagem cognitiva, emocional e social do educando.
A elaboração de um projeto de voluntariado educativo traz benefícios para todos que dela participam, notadamente se forem alunos. Quem participa de um projeto socioeducativo exercita a análise da realidade, estabelece objetivos, aprende a trabalhar em grupo, a resolver problemas reais, a administrar recursos materiais, financeiros e humanos, a conviver e a transformar a realidade.
A qualidade das práticas socioeducativas está associada a diversos fatores: a satisfação de quem recebe a ação, os impactos mensuráveis na qualidade de vida da comunidade, a possibilidade de alcançar objetivos de mudança social a médio e longo prazo – e não apenas de satisfazer necessidades urgentes uma única vez – e a constituição de redes interinstitucionais que garantam a sustentabilidade das propostas. Essas práticas podem ser definidas, grosso modo, em quatro grupos.

Podemos dizer que o serviço à comunidade é voluntariado educativo quando planejado:
Em conformidade com a proposta político-pedagógica da escola;
Com a participação de atores da comunidade educativa, incluindo direção, professores, demais funcionários e alunos;
Para contextualizar os saberes escolares a partir da participação dos alunos na busca por soluções para problemas reais;
Para responder a uma demanda efetiva da comunidade.
O voluntariado educativo pode ser definido, portanto, como um serviço solidário:
Planejado de forma integrada à proposta pedagógica da escola, para promover a aprendizagem de conteúdos curriculares de modo contextualizado;
Destinado a atender necessidades reais da comunidade;
Destinado a integrar a escola à comunidade, criando espaços efetivos de aprendizagem, trabalho e transformação social;
Que, preferencialmente, conta com a participação de alunos e do professor orientador, entre outros atores da comunidade escolar.
Incluem-se aqui atividades e pesquisas que envolvem os alunos com a realidade da comunidade como objeto de estudo. A finalidade do trabalho de campo é unicamente o diagnóstico, para ser discutido dentro do contexto de alguma disciplina. Esse tipo de atividade envolve o conhecimento da realidade, mas não se propõe a transformá-la ou a prestar um serviço.
De trabalhos de campo para o voluntariado educativo
Muitas escolas são consideradas conteudistas, por centrarem seus esforços no cumprimento do conteúdo programático das disciplinas. São casos em que, não raro, os professores consideram a metodologia de projetos muito trabalhosa ou até mesmo perda de tempo.
Mas há inúmeras experiências que começaram como projetos escolares de pesquisa e, aos poucos, dispuseram esses conhecimentos a serviço da comunidade e se transformaram em excelentes experiências de voluntariado educativo.
Iniciativas solidárias assistemáticas
Definem-se por sua intencionalidade solidária, mas têm pouca ou nenhuma integração com o aprendizado formal. São atividades ocasionais, que tendem a atender uma necessidade pontual da comunidade.
Em geral, surgem espontaneamente, sem nenhum planejamento educativo. Mesmo assim, iniciativas solidárias assistemáticas podem gerar benefícios positivos para os alunos, pois:
Estimulam a formação de atitudes participativas e solidárias;
Permitem a sensibilização para certas problemáticas sociais e ambientais;
Oferecem aos estudantes a possibilidade de aprender procedimentos básicos de gestão.
Apesar de seus resultados positivos, a qualidade desse tipo de iniciativa é considerada baixa, pois uma ação assistemática tem possibilidades menores de gerar soluções duradouras a um problema social e não envolve os alunos num comprometimento pessoal em sua solução. Além disso, esse tipo de ação não se articula com os aprendizados disciplinares.
Reconhecemos, mesmo assim, que esse tipo de atividade pode ser um ponto de partida para o desenvolvimento de um projeto de voluntariado educativo.
De iniciativas assistemáticas para a promoção social
Primeiramente, é necessário reconhecer que, sobretudo em situações emergenciais, ações assistenciais são fundamentais, embora elas não possam ser compreendidas como suficientes. Mas, sempre que possível, é preciso ir além, criando espaços de promoção social, com soluções que propiciem o desenvolvimento sustentável da comunidade atendida.
O quadro abaixo ajuda a diferenciar, em termos gerais, o assistencialismo e a promoção social.
De acordo com as inscrições no Selo Escola Solidária, a maioria das escolas ainda realiza ações pontuais, desvinculadas dos conteúdos curriculares.
No entanto, podemos perceber também um número crescente de escolas desenvolvendo projetos em suas comunidades, trabalhando criativamente, com soluções simples e eficazes, gerando novas formas de participação social.
Ainda nesse contexto, vale ressaltar que é possível e aconselhável considerar a participação do público atendido pelo projeto no planejamento das atividades, definindo-se conjuntamente os objetivos, os recursos disponíveis, as ações propriamente ditas e os resultados esperados.
Serviço comunitário institucional
Esse tipo de experiência se caracteriza por uma decisão da direção da escola em envolver- se em projetos sociais. Sejam voluntárias ou obrigatórias, as atividades propostas são assumidas formalmente, o que não significa que os atores da comunidade escolar se sintam envolvidos.
Sendo assim, ainda que o serviço comunitário resulte no desenvolvimento de atitudes sociais mantidas pela escola, não há intenção formativa, não há integração ao currículo e, portanto, não favorece diretamente o processo de ensino e de aprendizagem.
Do serviço comunitário institucional para o voluntariado educativo
A diferença entre as formas mais clássicas de voluntariado e o voluntariado educativo é fundamentalmente do ponto de vista da intencionalidade pedagógica. Significa dizer que o trabalho voluntário será realizado a partir de uma proposta pedagógica, como experiência formativa. Sendo assim, podemos considerar que a escola que desenvolve projetos de voluntariado educativo está mantendo sua identidade educativa, ou seja, é válido desenvolver qualquer atividade solidária se esta for um meio pelo qual os alunos aprendem tanto os conteúdos curriculares como a participação comunitária de forma consciente e solidária.
Para tanto, é necessário:
Identificar os conteúdos pedagógicos envolvidos;
Selecionar as áreas ou as disciplinas relacionadas ao projeto;
Articular as atividades sociais aos conteúdos curriculares:
Indicando os conteúdos específicos que estarão envolvidos
e como podem ser trabalhados
nas diferentes disciplinas;
Dando projeção social a conteúdos e atividades já presentes no planejamento;
Incorporando novos conteúdos, atividades e estratégias de aula ao planejamento.
As atividades de voluntariado educativo podem ser articuladas a uma só disciplina ou a mais, em projetos multidisciplinares ou interdisciplinares. Em qualquer que seja o caso, o importante é ter, de forma cada vez mais consistente, a contextualização do conteúdo curricular por meio de ações ou projetos socioeducativos. É desejável ressaltar o prazer em ser voluntário, mostrar como esse trabalho cria situações inéditas de convivência e participação social, transforma para melhor o dia-a-dia da comunidade e é gratificante e dinâmico.