Como já dissemos no início deste capítulo, consideramos que a prática do voluntariado educativo terá melhores resultados se organizada a partir de uma metodologia de projeto. Não consideramos, porém, que exista uma metodologia específica para o desenvolvimento de um projeto.
A comunidade escolar deve planejar suas atividades de acordo com o seu projeto político-pedagógico, seus objetivos, com a área de atuação e com a realidade local.
Apresentaremos a partir de agora alguns procedimentos que podem ser estudados como um fio condutor à elaboração de projetos de voluntariado educativo pela escola. No entanto, é a realidade local que determinará a necessidade de pular algumas e/ou de reforçar outras etapas aqui apresentadas.
O gráfico abaixo mostra as etapas do projeto de voluntariado educativo, demonstrando que o projeto pode ser sustentável se houver clareza de proposta, motivação e reflexão constantes.
Muitas vezes, um projeto pode começar pela necessidade de organizar atividades que foram iniciadas informalmente e que estão acontecendo de forma desarticulada ou desordenada. Em outras, a idéia pode partir da indignação, da vontade de transformar uma determinada situação.
Mas esse é apenas o movimento inicial. Um projeto de voluntariado educativo é composto por várias etapas, entre as quais destacamos a convocação, o diagnóstico, a elaboração do projeto, a ação, a reflexão, o registro, o reconhecimento e a comemoração.
Um projeto é mais do que a soma de algumas ou de todas as etapas reunidas. É a leitura, a adequação, a motivação, a articulação, a cooperação, a forma, a concepção, o envolvimento e a transformação que o conjunto de esforços pode propiciar.
Entre tantos atores e cenários, o interesse em iniciar ou participar de um projeto de voluntariado educativo geralmente parte da identificação com a causa, ou da necessidade de responder a uma demanda da sociedade. Há também casos em que a inquietude inicial brota durante uma atividade escolar ou pela compreensão da própria experiência de vida.
A motivação dependerá do grau de consciência que a comunidade educativa – em particular, os alunos – tenha diante dos problemas comunitários.
O importante é manter o grupo motivado do início ao fim do projeto. Para isso, é fundamental que todas as etapas sejam construídas coletivamente e que cada um conheça o seu papel e saiba como participar.
Uma vez identificada a motivação e a necessidade de desenvolver um projeto social ou ambiental, é necessário obter apoio dentro da escola (coordenadores, professores, alunos e funcionários) e fora dela (vizinhança, organizações da sociedade civil, comércio e imprensa locais, associação do bairro etc.).
Convocar é convidar, chamar, informar, conquistar o interesse e o apoio, integrar e comprometer a escola e a comunidade em torno de um só objetivo. Podemos convocar de diferentes formas:
Convidando pais, educadores, alunos e vizinhança para fazerem parte da elaboração do projeto;
Distribuindo cartazes e folhetos pelo bairro e pela escola, para que o projeto ganhe visibilidade;
Realizando seminários e palestras para esclarecer e divulgar o projeto;
Pedindo que a mídia local faça a divulgação;
Indo de sala em sala, enviando e-mails ou até mesmo fazendo divulgação boca a boca, para que todos possam conhecer e participar das ações que serão desenvolvidas.
É verdade que existem projetos que não comportam um grande número de participantes. Ainda assim, é importante estender o convite de envolvimento tanto para os potenciais agentes da ação como para os destinatários, para mobilizar e contar com o apoio de pessoas afins e que poderão contribuir com idéias e recursos. Mas isso só será possível se elas souberem do projeto.
Diagnóstico
Diagnosticar é identificar as reais necessidades da pessoa, do grupo ou da organização social que receberá a ação voluntária. É também nessa etapa que se conhece o perfil dos participantes, identificando-se que tempo, trabalho e talento os voluntários poderão oferecer ao projeto, para que posteriormente possam ser considerados no plano de ação.
O diagnóstico permite detectar problemas e relações estruturais e identificar possíveis vias de ação. A partir dessa primeira análise, será possível identificar quais serão as ações, os recursos necessários, o tempo de execução, as ferramentas e os meios para a implantação do projeto.
Existem muitas maneiras de diagnosticar:
Entrevistando pessoas da comunidade e das instituições que possam ajudar a traçar o perfil das necessidades locais;
Fazendo e distribuindo questionários, com perguntas abertas (que permitem respostas dissertativas) ou fechadas (com alternativas para a escolha de uma ou mais respostas), para mapear as condições atuais;
Conversando com moradores antigos, com a imprensa, com políticos e lideranças locais, para pesquisar o histórico da comunidade;
Pesquisando materiais jornalísticos;
Fazendo na escola dinâmicas e debates e abertos à comunidade.
Recomenda-se que, no diagnóstico, sejam levadas em consideração a opinião e a necessidade do público que será atendido. A perspectiva dos representantes da comunidade enriquece o processo de diagnóstico participativo.
É freqüente encontrar projetos com excelentes diagnósticos mas com escassa intervenção na comunidade, assim como ações solidárias bem-intencionadas, mas pouco eficazes por falta de um diagnóstico adequado.
É necessário, portanto, que o tempo e o esforço dedicados a essa etapa sejam proporcionais ao desenvolvimento total do projeto, e que conduzam à ação.
O diagnóstico pode buscar identificar dados relevantes ao projeto:
Os problemas que afetam um certo grupo de pessoas em um determinado local;
Ainter-relação entre esses problemas;
As causas geradoras da realidade observada;
Os aspectos estruturais que se encontram presentes, como situação geográfica, estrutura econômica e condições sociais;
Os pontos fortes e as limitações da comunidade educativa, para identificar possibilidades de ação;
As ações ou os projetos similares já realizados nessa ou em outra comunidade;
Os aspectos educativos e as ações possíveis para o grupo que desenvolverá as ações;
Os obstáculos e as dificuldades;
Os recursos disponíveis;
As distintas organizações que podem participar do projeto.
Um projeto de voluntariado educativo não deve servir para atender às necessidades que deveriam ser cobertas por instituições públicas. Para que o projeto não tome esse rumo, é fundamental priorizar as necessidades sociais que podem ser atendidas por um projeto pedagógico que, portanto, tenha finalidades educativas.
Elaboração do projeto
A elaboração do projeto é a construção da proposta de trabalho que articula a intencionalidade pedagógica e a intencionalidade solidária. Ela incorpora ferramentas básicas do planejamento pedagógico e algumas questões referentes execução de projetos sociais:
O que é? Natureza do projeto.
Por que fazer? Justificativa.
Para que fazer? Objetivos do projeto.
Para quem? Destinatários do serviço a prestar.
Como? Definição da metodologia e das atividades que cada um realizará.
Quando? Estimativa de tempos aproximados para cada atividade.
Quem? Responsáveis pelo projeto.
Com quê? Recursos humanos, materiais e financeiros.
Quanto? Determinação de custos.
Com quem? Possíveis parcerias com outros atores comunitários ou órgãos públicos.
A justificativa expressa o que leva o grupo a fazer a ação. Ela deve responder questão “por que fazer?” ou “o que move o grupo a tomar essa iniciativa?”.
Em se tratando de um projeto de voluntariado educativo, é conveniente ressaltar na justificativa o porquê de a instituição considerar que a ação pode beneficiar a comunidade e como ela muda a formação dos alunos. Também podem ser apresentadas explicitamente a proposta socioeducativa e a articulação da ação social nas diferentes áreas do conteúdo curricular.
O objetivo geral é o propósito do projeto, que sintetiza a transformação que se quer alcançar. Ele funciona como um guia, facilitando a ação e a reflexão.
Já os objetivos de aprendizagem são, idealmente, avaliáveis e vinculados aprendizagem. Na estruturação, consideram-se os conteúdos curriculares vinculados ao projeto ou o tema, sejam valores, atitudes, métodos, habilidades ou procedimentos. Os objetivos sociais também são específicos e avaliáveis, mas traduzem em palavras simples os fatos relacionados ao problema social e ao público-alvo.
Bernardo Toro destaca as aprendizagens de convivência que podem ser trabalhadas em projetos de voluntariado educativo:
Aprender a conviver com a diferença;
Aprender a comunicar;
Aprender a interagir;
Aprender a decidir em grupo;
Aprender a zelar pela saúde;
Aprender a cuidar do ambiente;
Aprender a valorizar o saber social.
A seleção das atividades deverá ser feita com o objetivo de alcançar aprendizados significativos e propiciar a transformação social. Nesse sentido, é importante relacionar cada atividade a um resultado esperado.
É aconselhável distinguir com clareza quais são as atividades e quais serão os conteúdos trabalhados. Sugere-se identificar as áreas de conhecimento e indicar, da forma mais objetiva possível, cada conteúdo em si.
Ao elaborar o projeto, é importante fazer uma previsão de quanto tempo será necessário para cada atividade e quem é o responsável por elas.
O estudo de viabilidade pode incluir vários aspectos, desde os técnicos e econômicos, até os legais e socioculturais. Deverão ser considerados os recursos necessários (espaços físicos, livros, ferramentas, papelaria etc.), assinalando de quais se dispõe, quais podem ser obtidos gratuitamente e quais exigirão gastos.
Realizar um registro ordenado dos gastos, guardar todos os comprovantes de pagamento realizados e elaborar informes sistemáticos sobre o movimento de dinheiro são alguns procedimentos necessários para organizar a planilha de custo.
Os recursos humanos também precisam ser considerados. Quem se dedicará ao projeto e por quanto tempo são dados que ajudam a analisar a viabilidade e as perspectivas de êxito do projeto. Todos os atores precisam ser considerados. Em qualquer circunstância, as parcerias trazem solidez e criam oportunidades de articulação que se constituem na valorização da participação comunitária.
Uma tabela pode simplificar a visualização entre os participantes do projeto, os objetivos propostos, as atividades e os recursos disponíveis.
Objetivos
Atividades
Resultados Esperados
Responsáveis
Recursos
Antes de colocar a mão na massa, uma última conversa com a comunidade escolar pode assegurar a viabilidade do projeto:
Os objetivos de aprendizagem estão claros?
Está clara a relação entre os objetivos de aprendizagem e o problema social detectado?
As atividades previstas respondem aos objetivos anunciados?
Estão bem definidas as tarefas e responsabilidades de cada participante?
Com que recursos o grupo conta? São suficientes? Qual é a origem dos recursos materiais?
É necessário estabelecer parcerias externas?
São muitas as possíveis áreas de atuação de projetos, ações ou atividades de voluntariado educativo. Entre outras, podemos citar:
educação:
reforço escolar;
capacitação profissional;
informática;
creches;
meio ambiente:
praças e parques;
animais;
educação ambiental;
reciclagem;
saúde:
hospitais;
casas de apoio;
primeiros socorros;
prevenção a doenças;
assistência social:
abrigos de idosos;
geração de renda;
moradores de rua;
pessoa com deficiência;
situação de risco social;
esporte e cultura:
museus;
bibliotecas;
teatro, coral, dança;
atividades esportivas;
cidadania:
defesa de direitos;
desarmamento;
voto consciente.
O projeto também pode considerar diferentes públicos:
crianças;
jovens;
idosos;
comunidade em geral.
Durante o desenvolvimento do projeto, deve-se acompanhar tanto as aprendizagens curriculares como o impacto social. A partir da análise, do diagnóstico e do planejamento das ações, os alunos envolvidos tornam-se parte de um projeto que beneficiará a comunidade, em pequenas ou grandes ações, com responsabilidade, criticidade e autonomia, favorecendo diretamente o desenvolvimento de inteligências interpessoais e intrapessoais, essenciais para a formação de cidadãos conscientes.
Refletir é essencial e deve permear todas as etapas do projeto. Sempre que necessário, o grupo deve trocar impressões e idéias, para ver se o resultado da ação corresponde ao esperado. É fundamental que o projeto seja constantemente avaliado por meio de uma reflexão conjunta sobre os seus resultados.
Trata-se de uma oportunidade de pensar sobre os sucessos e impactos das ações realizadas para poder corrigir erros, valorizar os acertos e, eventualmente, fazer modificações que se considerem necessárias. Pode-se, também, analisar se as etapas previstas foram cumpridas e se os objetivos foram alcançados.
Existem inúmeras formas de refletir em grupo, mas é importante considerar o diálogo como essencial no processo educacional. Dialogar é dar voz e vez a todos os integrantes do grupo, permitindo a troca de impressões e reflexões, o que é indispensável para o sucesso do projeto.
A reflexão é uma importante etapa no processo de internalização dos aprendizados e na apropriação do sentido da participação social. Recomenda-se que, no planejamento do projeto, sejam previstos momentos para que se desenvolva a reflexão adequada:
Na preparação: a partir de atividades de aprendizagem anteriores e relacionadas à atividade que será desenvolvida;
Durante o desenvolvimento: voltada para o processamento da experiência, gerando espaços para compartilhar pensamentos e sentimentos, resolver problemas e sugerir correções;
Durante a etapa final e o encerramento: reservando espaços para extrair conclusões.
Na reflexão sugere-se:
Compartilhar inquietações e dúvidas;
Reconhecer as características da atividade, seu impacto nas vivências pessoais, seu vínculo com a aprendizagem;
Avaliar e auto-avaliar o desempenho individual;
Analisar o andamento do projeto, com possibilidade de realizar ajustes;
Desenvolver os eixos temáticos sugeridos pela metodologia;
Registrar as vivências e opiniões de todos, incluindo os destinatários do projeto.
O processo de reflexão pode ser realizado de acordo com alguns eixos:
A aprendizagem contextualizada dos conteúdos curriculares,
Os resultados alcançados, incluindo os obstáculos encontrados
e outros elementos que
expliquem o resultado
A percepção e as opiniões do público atendido direta e indiretamente;
O comprometimento e a participação da comunidade escolar;
A relevância pedagógica e social do projeto para a escola.
A experiência pode ser divulgada, ampliada, analisada, revisada e reeditada se houver o registro das ações realizadas. A partir daí será formada uma base comum de dados, conhecimento e informação, tornando fácil perceber os impactos, os resultados, as dificuldades e as conquistas do projeto.
O registro pode ser feito de diferentes maneiras:
Notações, atas de reuniões, relatórios, pautas;
Arquivo com pesquisas feitas ao longo do projeto;
Fotografias da comunidade atendida em atividade, bem como eventos, campanhas, personagens, reuniões etc., buscando registrar a situação antes e depois das ações;
Vídeos de entrevistas, palestras e apresentações promovidas com o público atendido;
Gravação de reuniões, entrevistas e depoimentos, para que não seja perdida nenhuma informação, o que posteriormente pode até ser transcrito e arquivado.
Registradas, as atividades podem ser lidas, divulgadas e revisitadas, processos que contribuem também para o êxito do projeto, na medida em que facilitam a boa comunicação entre os participantes e a comunidade.
O material registrado permite melhor comunicação e difusão do projeto. O apoio e a participação de outros atores da comunidade está diretamente relacionado clareza da informação oferecida e à possibilidade de avaliar o impacto do projeto baseado em dados reais e mensuráveis.
A duração de um projeto de voluntariado educativo varia bastante. No entanto, mesmo para aqueles que duram anos, é necessário pontuar etapas de início, meio e fim, para que seja possível mensurar e comemorar os resultados parciais e seguir adiante.
Quando um projeto realmente chega ao fim, é conveniente analisar se ele pode ser continuado ou reeditado – e como isso pode acontecer. A reedição tem duas facetas: para a escola, é uma forma de dar visibilidade ao seu compromisso, propor novos desafios e ampliar o escopo das atividades; para outras escolas e para a sociedade em geral, constitui-se em uma experiência cuja aplicação naquela comunidade poderá ser estudada.
Reconhecer e comemorar são procedimentos fundamentais em projetos sociais, e que nem sempre são lembrados. Valorizar, estimular e reconhecer ações de voluntariado são gestos que promovem o comprometimento.
O reconhecimento e a celebração são fundamentais para fortalecer a auto-estima dos envolvidos. É o momento de reconhecer o serviço prestado à comunidade e incentivar a participação em novos projetos.
Existem muitas maneiras de reconhecer e apoiar a participação em projetos de voluntariado educativo:
Certificado: a escola pode atestar com certificados que contenham o nome do aluno, do projeto, a carga horária, o tipo de atividade realizada e outras informações. Dependendo do Estado, é possível também registrar no histórico escolar a participação dos alunos;
Homenagem: realizar celebrações simples de conclusão de etapas que culminem em homenagem aos participantes pode ser simples e extremamente gratificante, além de ser um procedimento que reconhece e convoca todos para dar continuidade às etapas seguintes, ou a uma nova edição do projeto;
Divulgação em jornais locais: além da visibilidade e do envolvimento da comunidade com o desenvolvimento do projeto, a publicação de material sobre o projeto reconhece e estimula os voluntários a continuar suas atividades.
A comemoração é também:
Um tempo de ambientação, em que se reúnem todos os participantes, e quem coordena a experiência convida todos para o encontro e a reflexão;
Um tempo de conteúdos, nos quais se pode realizar um gesto simbólico e escutar os relatos dos participantes;
Um tempo de compromisso, em que se expressa a necessidade de dar continuidade à experiência.
Para efeitos práticos, algumas instituições organizam esse momento abrindo as portas para a comunidade. Enfim, cada escola saberá a melhor forma de reconhecer e comemorar o trabalho voluntário de seus jovens.
Um planejamento que indique os momentos em que as ações acontecerão, e os responsáveis por realizá-las, o que geralmente se faz a partir da instituição que lidera o projeto, mas pode incluir a participação de outros atores.
A delimitação clara do objeto da ação socioeducativa.
A identificação de todas as práticas e momentos significativos, para medir a força da experiência, a aprendizagem com as dificuldades e com os acertos.
O cumprimento da etapa do registro, ou seja, a utilização de técnicas participativas para a produção de material escrito ou audiovisual.
A compreensão de que é possível realizar um projeto de voluntariado educativo, seguindo as etapas que a comunidade educativa se comprometer coletivamente em fazer.
Se é possível obter água cavando o chão, se é possível enfeitar a casa, se é possível crer desta ou daquela forma, se é possível nos defendermos do frio ou do calor, se é possível desviar leitos de rios, fazer barragens, se é possível mudar o mundo que não fizemos, o da natureza, por que não mudar o mundo que fazemos, o da cultura, o da história, o da política?
(Paulo Freire, 2000)
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Fonte: www.voluntariado.org.br