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MANA MARIA

alcantara machado

Meia-noite e meia ou uma hora da madrugada já? Acendeu a luz, olhou o relógio de cabeceira: uma e meia da madrugada. E ela sem sono. Apagou a luz. E o Dr. Samuel com aquela visita inesperada. Mana Maria sorriu dentro dela: chegou tarde. Mas uma revolta tomou-a toda e fez esta pergunta: por que tarde? Então a primeira vez em que um homem dela se aproximava com um sentimento que não era de indiferença, ela ia e o maltratava? Aos poucos lhe veio uma doçura de pensar que um homem, em nada inferior aos outros homens que conhecia, a desejava para mulher. Seu pensamento se fixava aí: ela era desejada para mulher. E se deliciava. Por uma manobra sutil desviava a questão que mais importava: a do casamento. Aceitava o Dr. Samuel para marido? Que é que lhe fazia deixar em suspenso esta pergunta como se fosse absurda? De repente lhe veio a idéia de vingança. Recusando o casamento que lhe ofereciam ela se vingava da indiferença com que os homens sempre a trataram. Uma bela vingança. Uma estúpida vingança. Uma estupidez pura e simples, devia dizer. Recusando o casamento, não se vingaria de ninguém. Pior: se maltratava. Não há dúvida, mas era essa a sua volúpia. O abandono de toda e qualquer vaidade feminina, aquela maneira deselegante de se vestir, aquela mania de contrariar a moda, aquela dureza diante dos homens, tudo isso não era natural. Ela sabia perfeitamente. Tudo isso era querido. E de tudo isso ela tirava orgulho. Um orgulho besta (ela sabia). Mais: uma volúpia (ela sentia). Havia momentos em que hesitava, quase se arrependia. Porém dizia: eu quis assim. Tinha traçado uma linha de vida e dela nada a afastaria. Nem o Dr. Samuel. Nem cem Drs. Samuéis. E lhe ficava (como sempre) a volúpia de pensar: Eu poderia fazer assim, entretanto fiz assado que era o mais difícil. Não me traí. E se me sacrifiquei foi a mim mesma.

6

Levantou-se às mesmas horas do costume. Qualquer hora que dormisse por mais tardia acordava sempre bem cedo. Não eram ainda oito horas e ela já tinha o livro embrulhado. Com um cartão entre a capa e o frontispício: "Maria H. Pereira, agradecida, devolve o romance Le mariage d'Huguette que leu com interesse." Mandou levá-lo logo depois do almoço. E avisou a copeira que não estava em casa para o Dr. Samuel Pinto. Nem que fosse para falar no telefone.

Naquela tarde precisava falar com o advogado por causa de um inquilino atrasado. Eram três horas quando ela perguntou para o empregado:

- O Dr. Tobias está?

Não estava, só voltava às cinco. Saiu. Em frente, o Cine Universal engolia um homem de fraque. Olhou o cartaz: Greta Garbo em Mulher Vendida. Detestava vampiros. Hesitou entre o cinema e uma volta vagabunda pela cidade. Cinema. A indicadora mostrou com uma lâmpada o único lugar vazio. Pescadores barbudos decepavam com um só golpe certeiro a cabeça dos peixes prateados.

E a orquestra tocava a Serenata de Toselli. Luz. O cavalheiro à sua esquerda murmurou: Perdão! E puxou a aba do fraque. Mana Maria se sentara na aba do fraque. O homem do fraque. Usava pencine. No cabaré fumarento Greta Garbo diante de um cálice vazio cismava com o olhar distante. E uma sujeita de boina fazia o possível para desviar a atenção do companheiro daquele olhar distante. Mana Maria percebeu a agitação do homem do fraque se remexendo na poltrona. Justo no momento em que o olhar distante como que por acaso se cruzou com o do seu admirador a mão do homem do fraque se pousou com hesitação na perna de mana Maria. Um pulo, um começo de escândalo e mana Maria precipitadamente demandou a saída. Na rua se perguntou se fizera bem em não esbofetear o imundo. E se respondeu que sim. Fizera bem. O que sentia era um misto de indignação e de nojo. Uma vontade de bater. Mas fora melhor assim. Cachorro. Um táxi passou. Tomou-o e mandou tocar para casa. O advogado ficava para outro dia. Fechou-se no quarto pensando que devia ter esbofeteado o cachorro.

Começou a andar (deu mais uma volta na chave do armário, endireitou uma cadeira, o vaso de flores, as almofadas), sentou-se na cama. E sentiu perfeitamente na perna esquerda um peso, uma pressão. Arrepiou-se, se levantou. Não tinha ninguém. De repente lhe veio essa idéia. Vivia sozinha. Vida estúpida de isolada. Não tinha mãe, o pai na rua o dia inteiro, a irmã no colégio o ano todo, não tinha amigas. Que coisa mais esquisita: não tinha amigas. Ia visitar tia Carlota.

O telefone tocou, depois a criada bateu na porta. Era o advogado. Que quinze dias de prazo, nada. Cinco no máximo. E se não pagasse, executasse. Deixou o telefone mais calma. A criada informou que o Dr. Samuel Pinto já telefonara duas vezes. Aí está. Tinha o Dr. Samuel Pinto. Dando ordens na cozinha, mexendo no jardim, verificando a conta do empório, não tirava o pensamento do Dr. Samuel Pinto.

Já não ia visitar tia Carlota. Já não se sentia tão sozinha. Mas como sempre a hipótese de um casamento era sumariamente afastada. Se contra a vontade atentava nela, todo o bem-estar que lhe produzia (quisesse ou não quisesse) a certeza daquela inclinação do Dr. Samuel desaparecia. Que esperança. Ainda que a mão fosse do marido e o marido fosse o Dr. Samuel. Que esperança. Pensava que não era bem isso. Não queria saber de homem e acabou-se. Nem de homem nem de coisa nenhuma. Pois mais duas telefonadas inúteis deu o Dr. Samuel aquele dia. E mana Maria cada vez mais calma, mais dona de sua vontade, mais senhora de si, mais mana Maria, desviou seu pensamento do Dr. Samuel Pinto, ouviu pacientemente a conversa inútil do pai, jantou bem, concluiu uma blusa de tricô, dormiu sossegada.

7

Joaquim Pereira tirou o chapéu, estendeu o jornal para mana Maria:

- Tem uma notícia aí que interessa você.

E mostrou com o dedo. Mana Maria leu e fincando o olhar no pai:

- Interessa por quê?

Joaquim desconcertado por aquele olhar tão duro balbuciou:

- Por nada, ora! Por se tratar de seu médico moderno!

Mana Maria pôs o jornal na mesa, olhou de novo para o pai. Não. Não havia segunda intenção nenhuma nas palavras dele. E o olhar perdeu a dureza tranqüilizando o chefe de seção do Serviço Sanitário que começou logo a alinhar as vantagens de uma viagem de estudos aos Estados Unidos por conta da Missão Rockefeller. Dr. Samuel Pinto fora escolhido entre muitos candidatos e isso demonstrava o valor dele. Ia estudar a organização de hospitais de crianças. Estava feito na vida. Naturalmente o governo, assim que ele voltasse o incumbiria da fundação de hospitais, ou nomearia diretor-geral, o que o Dr. Samuel quisesse. Quanto à clientela, nem era bom falar.

Mana Maria ouviu e comentou:

- Política.

E apesar dos protestos do pai não disse mais nada. Um momento ela pensou na possibilidade de qualquer relação entre os propósitos casamenteiros do médico e aquela viagem. Viagem de núpcias à custa da Missão Rockefeller? Despeito por causa dela? O espírito crítico em mana Maria era bem mais forte do que qualquer sentimento de vaidade. Sem nenhuma emoção pendeu para a primeira hipótese. Ficava o desejo dele de se casar com ela. E isso era coisa resolvida, morta, não a preocupava mais. Não perdia tempo com coisas inúteis. A pretensão do Dr. Samuel era coisa inútil.

Todos os santos dias o Dr. Samuel telefonava para ouvir da criada que Dona Maria não estava em casa e nem dissera a que horas voltava. Até que uma tarde Joaquim Pereira chegou em casa com a notícia de que o Dr. Samuel estivera no Serviço Sanitário. Vinha encantado com o Dr. Samuel. Que moço mais amável. E inteligente. Conversa bonita. Dentro de três meses partia para os Estados Unidos. Estava aprendendo inglês. Falara muito em Ana Teresa, em mana Maria. É verdade. Ele não sabia que o Dr. Samuel tinha estado há pouco tempo com mana Maria. Houve um equívoco e ele pensou que o tinham chamado. Joaquim falou:

- Você não me contou nada. Ele me disse até que lhe emprestou um livro, um romance ou não sei quê, em francês?

Mana Maria confirmou percorrendo o jornal da tarde que o pai trouxera. Dr. Samuel fazia questão fechada de apresentar suas despedidas pessoalmente para mana Maria. E Joaquim lembrou:

- Se a gente oferecesse um jantar para ele hem? Que tal?

Mana Maria detrás do jornal respondeu:

- Não.

Que diabo. Mana Maria parece que já estava implicando com o moço que tratara tão bem de Ana Teresa e cobrara tão pouco. Não custava nada dar um jantar.

Mana Maria pôs o jornal no colo:

- Não, papai.

Pela primeira vez diante da filha, Joaquim Pereira tentou uma resistência. Pensasse bem. Ele se falava em jantar é porque o Dr. Samuel dera a entender, quer dizer, ele era muito delicado, moço educado, não falou claramente mas deixou perceber que teria grande prazer nisso e tal. Mana Maria examinava as unhas. E ele - que é que havia de fazer? - ele por sua vez prometera, quer dizer, não fizera um convite franco, mas insinuara também que possivelmente jantariam juntos e tal. Logo. Logo, porque o Dr. Samuel antes de embarcar para os Estados Unidos precisava passar uns tempos no Rio e quem sabe mesmo dar um pulo até Sergipe. Que diabo. Não custava nada fazer uma gentileza para o moço.

Mana Maria sem erguer o rosto virou os olhos na direção do pai:

- Pois ofereça o senhor o jantar num restaurante.

Joaquim se queixou:

- Você me põe numa situação!

Durante algum tempo jantaram em silêncio. Houve um momento porém em que Joaquim Pereira fez um gesto bem mal fingido de quem se lembra de repente:

- Que cabeça! Ele quer saber se você gostou do tal livro!

Mana Maria veio com outra pergunta:

- Ele, quem?

Joaquim se impacientou:

- Ora, quem! O Dr. Samuel!

Então mana Maria destacou as sílabas:

- De-tes-tei!

E a queixa voltou:

- Você me põe numa situação!

- Bem menos difícil do que o senhor pensa.

- Isso você diz. Agora eu tenho que dar uma resposta amanhã para o moço! Imagine a minha cara! Eu não sei ser malcriado, é uma coisa que não está em mim, que é que você quer que eu faça?

- Nada.

- Como, nada?

- Mas, papai, o senhor está dando importância a uma coisa que não tem nenhuma!

- Tem! Como é que não tem? Então o moço se desfaz em gentilezas e eu vou ser grosseiro para ele?

- Mas o senhor não vai ser grosseiro. Depois, não vejo onde estão as gentilezas do moço.

- Ah! bom! Você não vê as gentilezas! Ah! bom Então não discuto mais!

- Mas quem é que está discutindo, papai? Que nervosismo é esse? Homem!

- Sabe de uma coisa? Ele me pediu sua mão em casamento! Pronto! Acha pouco?

- Acho idiota.

Pela primeira vez o pai chegara a enganá-la por uns instantes. Nem ela podia imaginar que o Dr. Samuel Pinto ousasse tanto. Mesmo quando, com o nervosismo do pai, percebeu claramente que sob aquela insistência inacostumada havia uma intenção oculta não pensou num pedido formal de casamento. Naturalmente o Dr. Samuel, elogiando-a, dissera do seu desejo de constituir família, que nem falou para ela. E Joaquim Pereira pegara logo a coisa no ar.

Agora o silêncio punha entre os dois uma distância imensa. Joaquim acendeu um cigarro. Não compreendia aquela atitude da filha. Nunca pensara na possibilidade de um casamento para mana Maria. Nunca a realizara casada. Mas agora que uma oportunidade se oferecia todos os seus instintos casamenteiros de pai acordavam. E se irritava diante da oposição da filha.

Mana Maria aproximou o cinzeiro:

- Não derrube a cinza na toalha, papai.

Joaquim se levantou, deu alguns passos, parou ao lado da filha, teve um ímpeto carinhoso de levantar a cabeça de mana Maria pelo queixo, reprimiu-o, disse baixinho o que pensava:

- Mas eu não compreendo...

Mana Maria fingiu ajudar:

- O quê?

Essas interrupções (ela sabia) o desconcertavam sempre. Por isso engoliu o resto:

- Nada. Uma coisa aqui que eu... Nada.

Mana Maria dobrou os guardanapos, pós as xícaras de café na bandeja, saiu.

O pai pensou: - Vai escovar os dentes.

De fato: entrou no banheiro.

Aquela calma incrível o punha fora de si. Era pedida em casamento e ia escovar os dentes. Como todos os dias, como se aquele dia fosse igual aos outros. Uma calma irritante. Sua filha era um monstro. Pensou e se arrependeu envergonhado. Que maçada. Que maçada. Puxou o relógio: oito horas. Tinha um encontro na cidade às nove.

A copeira veio arranjar a sala, deu com ele, voltou. Mana Maria surgiu logo:

- Vamos para a saleta, papai, que a Ernestina; precisa acabar de tirar a mesa.

Mana Maria sentou no sofá, Joaquim hesitou um pouco e sentou ao lado. Pôs as mãos nos joelhos tomou coragem.

- Você pensou bem?

- Papai, é melhor dar por encerrado esse assunto. O senhor se irrita e não adianta nada.

- Mas que é que eu vou dizer pro moço?

- Que o pedido não foi aceito.

- Mas não foi aceito por quê?

- Porque eu não pretendo me casar.

- Mas não pretende por quê?

- Porque não.

Joaquim teve um gesto de desanimo. Depois lhe veio uma idéia:

- Mana Maria, você ama alguém!

- Ora, papai, deixe disso.

O tom era tal que ele mudou de tática:

- Você já refletiu sobre sua vida? Você já pensou na possibilidade de ficar só no mundo com Ana Teresa?

Mana Maria se contentou em sorrir. E ó pai (atentando no ridículo do argumento aos olhos de quem sempre soube se governar por si) procurou corrigir:

- Eu sei que você não precisa dos conselhos da ajuda de ninguém nesta vida. Mas um homem em casa sempre representa alguma coisa, que diabo!

Mana Maria com a boca semi-aberta sacudiu a cabeça primeiro, depois fincou o olhar nas pupilas do pai:

- O senhor está falando sério?

Joaquim perdeu o jeito de uma vez. Só teve uma saída:

- Você é sua mãe escarrada, nunca vi!

E acendeu outro cigarro. Ficou com o fósforo apagado na mão, quis guarda-lo na caixa, mana Maria apontou com o dedo:

- Olhe ali o cinzeiro.

Estava infeliz. Era inútil. Não podia com a filha. Mas lhe custava se declarar vencido. Tudo nele se revoltava contra a decisão de mana Maria. E por mais que se esforçasse não conseguia esconder o que lhe ia por dentro. Arquitetava e destruía planos. E se amesquinhava com a certeza humilhante de sua fraqueza. De repente lhe veio uma idéia. Não deu a si mesmo tempo para arrepender e disse:

- Muito que bem. Não digo mais nada Mas também lavo as mãos e não me meto mais nisso. Você que responda pro moço como entender. E boa noite que preciso sair.

Deu dois passos na direção do guarda-chapéus. Mana Maria falou devagarinho:

- Mas, papai, o senhor mesmo não sustentou há pouco a utilidade de um homem em casa? E me incumbe de uma coisa que cabe ao senhor? Ao senhor e mais ninguém?

Qual o quê. O melhor era se confessar mesmo vencido. Mana Maria reconheceu imediatamente o Joaquim Pereira de sempre:

- Amanhã no almoço a gente continua isso.

E sem esperança nenhuma:

- Até lá, você pense melhor.

E com a mão no trinco:

- O travesseiro é bom conselheiro. Até amanhã.

Mana Maria falou:

- Até logo.

Já no terraço, antes de fechar a porta, Joaquim balbuciou:

- Quero dizer: até logo.

8

Tia Carlota vivia sorrindo e mostrava dentes bonitos. Mana Maria tinha um fraco por ela. Só a presença de tia Carlota faz bem pra gente, disse um dia. A mãe falou:

- Você também acha? Quando ela era moça toda gente dizia isso. Os moços, então!

Purezinha não sabia que ainda depois de casada a irmã com sua presença fazia bem aos homens. A ela, dava uma impressão de desordem. E às outras mulheres, de perigo. Mana Maria, severa com as mulheres (sobretudo do temperamento da tia), abria uma exceção para aquela criatura alegre que a divertia, até a enternecia que nem uma criança. E era mesmo uma criança.

- Deus não me deu filho (dizia tio Laerte) mas me deu uma mulher que é uma menina perfeita: esposa e filha ao mesmo tempo.

Era quinze anos mais velho do que ela, sofria de asma e nunca soube o que era trabalho.

Mana Maria (antes que a criada lhe anunciasse a visita) ouviu da copa o som do piano: tia Carlota na certa. Tocava um tango à maneira dela: velozmente, trepidamente. Assim executava tudo, fosse o que fosse. E nunca ia até o fim. Mal percebeu a entrada de mana Maria, deu um soco no teclado (- É uma lata este piano!), meia volta no tamborete e um pulo:

- Bom dia!

Sentaram-se no sofá.

- Tire o chapéu - disse mana Maria.

- Não, prefiro ficar com ele por causa da ondulação - respondeu tia Carlota.

- Como queira.

- Não; é melhor tirar.

Tirou, abriu a bolsa, olhando o espelhinho ajeitou as ondas.

- Você não tem um espelho decente nesta sala? Então vou no seu quarto.

Penteava, passava a escova, acariciava o cabelo com a mão, não acabava mais.

- Para fazer a boca prefiro o da bolsa.

Perto da janela, com a bolsa aberta bem erguida na mão esquerda, o lápis na direita, fez, desfez, fez, desfez, fez a boca.

- Agora um pouco de pó-de-arroz. Este nariz é a minha diferença. Tenho horror de nariz vermelho! E você?

Mana Maria nem respondeu. Agora as pestanas. Molhava a escovinha na boca, passava nas pestanas. Agora as sobrancelhas, dois fios. Agora de novo a boca. E de novo o penteado. E mais um pouco de pó-de-arroz.

- Não se toma chá nesta casa?

- Toma-se!

- Então vá providenciar enquanto eu dou inspeção nas unhas.

Um minuto depois mana Maria voltou encontrando tia Carlota bastante contrariada.

- Eu acabo não tocando mais piano por causa destas malditas unhas! Não há dia que não lasque uma! Que horror! Que é que tem para o chá? Uma porção de coisas gostosas? Ótimo. Estou com uma fome! Você não pode imaginar como a Etelvina está cozinhando mal! Quase não almocei. Também eu para dona de casa não tenho jeito mesmo, é inútil! Você, sim, puxou por sua mãe! Como vai Ana Teresa?

- Vai bem.

Tia Carlota tomou dois goles de chá, engoliu um pedacinho de bolo, suspirou:

- Pronto! Já estou farta! Que será, hem, Maria? Em tudo eu sou assim! Estou com fome, sento na mesa, perco a fome! Vejo um vestido bonito, compro o vestido, me enjôo logo! Que será?

- Fartura.

- Fartura? É o que você pensa, minha filha!

Acendeu um cigarro, cruzou as pernas, estalou as unhas, demorou o olhar em mana Maria:

- Vamos pra outra sala?

Tinha alguns livros sobre a mesinha redonda.

- Você está lendo livros comunistas, Maria?

- Estou.

- Que horror! Ali! é verdade! Seu pai me falou que você tem um romance estupendo que um tal Dr. Pinto lhe deu! Você quer me emprestar?

- Já devolvi. Foi emprestado, não foi dado. E não tem nada de estupendo.

- Seu pai que disse!

- Quando é que esteve com ele?

- Ontem. Achei ele preocupado!

Tia Carlota de repente pegou nas mãos de mana Maria:

- Vamos! Responda! Por que é que você não quer casar com o Dr. Ismael Pinto?

- Não é Ismael: é Samuel.

- Isso mesmo: Samuel.

- Por quê? Papai é que lhe encomendou essa pergunta, está visto!

- Foi ele sim. Mas isso não tem importância. Responda pra mim. Por quê?

- Por que é que você casou com tio Laerte?

- Ora essa. Porque... porque gostava dele, porque queria casar.

- Pois é isso.

- Como isso?

- Não caso porque não gosto do médico e não quero casar.

Tia Carlota esmagou o cigarro no cinzeiro (Abdulla tem esse defeito, queima sozinho) tornou a pegar nas mãos da sobrinha, arranjou um ar grave:

- Sabe de uma coisa? Você faz muito bem! Não gosta dele, não case! Depois, você tem dinheiro, não precisa de amparo de ninguém.

- Nem que precisasse.

- Ora essa. Ah! não! Isso não!

O protesto foi tão pronto, tão vivo, que mana Maria estranhou. Tia Carlota percebeu a estranheza:

- Para que essa cara.

- Nada. Pensava que você não dava importância a dinheiro.

- Não dou mesmo. Gasto tudo quanto tenho. Desprezo dinheiro. Dinheiro para um é lixo. Jogo fora logo. Mas não vale a pena falar em coisas tristes.

Ergueu-se, foi até o porta-chapéus (- Você precisa reformar estes móveis, não se usa mais porta-chapéus de gancho!) olhou de perto a boca, olhou mais de longe os cabelos, suspirou.

- Bom. Vou dar o fora. Minha missão está cumprida.

Mas era evidente o desejo de ficar. Mana Maria sentia isso, percebia na tia a vontade, talvez a necessidade de um desabafo.

- Fique mais um pouco falou.

- Está bem. Fico se você me deixar fumar um cigarro. Quem fuma seus males espanta. Não sabia?

- Fico sabendo.

Aquela figura sentada no bordo do sofá, de pernas trançadas, o busto inclinado para a frente, cotovelos fincados no regaço, a mão que segurava o cigarro à altura da boca, mana Maria via sempre, igualzinha, nos desenhos de capa de revista, nos retratos de estrelas cinematográficas. Todos os gestos e atitudes de tia Carlota eram convencionalmente elegantes, de tela.

- Que olhar é esse? Nunca me viu? Não gosto que olhem para mim!

Mana Maria sempre pensou o contrário.

- Você se engana! Detesto que me olhem! Toda a gente me acha bonita. Me dá uma raiva! Eu não me acho feia. Mas também essa maravilha que dizem!...

Então se queixou da vida. Estava farta da vida, estava farta de ouvir elogios. Só isso é que ouvia em toda a parte, a toda a hora. E de repente:

- Você não sente às vezes vontade de fazer uma loucura? Não sei bem dizer, uma coisa assim como se jogar pela janela, quebrar tudo, apunhalar gente na rua? Eu sinto. Hoje estou nos meus dias. Briguei com Laerte, gritei com os criados, pintei o sete! Este maldito cigarro, se a gente não toma cuidado, queima os dedos. Também é a última caixa...

- Por quê?

Fez um sorriso amargo.

- Por quê? Você quer saber por quê? Porque não há mais dinheiro! Ah! Senhor! É melhor não ligar pra esta miséria de vida!

Foi para o piano.

- Sabe que é isso?

- Viúva Alegre?

- Ainda não, infelizmente!

E riu. Mana Maria não achou graça.

- Você precisa arranjar uma ocupação qualquer, tia Carlota. Uma coisa que lhe encha o tempo. Uma coisa séria. Um filho, por exemplo.

- Está doida! Basta o marido! Você ainda quer me dar um filho! Deus me livre!

Largou o piano, acendeu mais um cigarro:

- Isso que eu disse é brincadeira minha. Você precisa se casar.

Então chegou a vez de mana Maria rir.

- Não ria não. É isso mesmo. Mulher foi feita para casar.

- E ter filhos.

- Isso não. Quer dizer: você por exemplo é o tipo da mãe. Mas eu não. Não tenho saúde, não tenho jeito e agora também já não tenho dinheiro.

Esse assunto de dinheiro não agradava mana Maria. Ia dirigir a conversa para outro lado. Mas tia Carlota continuou:

- Se você soubesse a apertura em que nós estamos...

Não houve outro jeito senão falar:

- Não é possível.

- É sim.

E os olhos umedeceram logo porque em tia Carlota as lágrimas eram fáceis como a alegria. Foi preciso ir para o quarto de mana Maria onde havia deixado a bolsa com o lenço. De pé, virando a cabeça de forma a concentrar as lágrimas no canto do olho para chupá-las com a pontinha do lenço torcida, tia Carlota ia falando:

- Já há tempos eu via Laerte preocupado. Até que ontem ele me contou a verdade. De forma que este inverno não podemos sair de São Paulo. Veja você que situação!

Mana Maria sem dizer palavra esperava o momento da facada. Recusaria? Recusaria.

- E de vestidos, então, nem se fala! Aí mana Maria falou:

- Que criancice, tia Carlota! Para que mandar fazer mais vestidos? Você já tem uma coleção enorme. E toda ela moderna. Esse de hoje por exemplo é novo.

Tia Carlota guardou o lenço na bolsa, estava mesmo em frente do espelho grande do guarda-roupa, aproximou-se, passou as mãos pelas cadeiras, arqueou os braços, colocou-se de viés e sem tirar os olhos do espelho:

- Você não acha que ele me engorda um pouco?

- Não. Vai muito bem para você.

Tia Carlota começou a pôr o chapéu.

- Se eu pudesse diminuir um pouquinho estes seios! Operação eu não faço, tenho medo. Mas não são muito exagerados, você não acha?

- Que idéia!

No jardim tia Carlota perguntou:

- Então, nada feito?

- Como, nada feito?

- Casamento? Seu pai na certa aparece hoje a noite para saber o resultado. Não fale nada com ele, bem?

- Fique descansada.

- Nada feito?

- Nada.

Mana Maria acompanhou-a até o automóvel. Já o chofer batera a porta quando tia Carlota se lembrou:

- É verdade! Vocês vão jantar comigo quinta-feira?

- Vamos!

- Não se esqueçam! Às oito horas!

Mana Maria fechando o portão pensava no presente de aniversário para tia Carlota. Um vidro de perfume? É. Tabac Blond.

9

Joaquim Pereira ainda não eram sete horas e já atropelava a filha:

- Você não vai se vestir?

- É cedo. Em cinco minutos eu me apronto.

- Está bem.

Mas positivamente não estava. Ia para o quarto, perfumava o lenço, dava uma escovada no cabelo, voltava para a saleta onde a filha lia um jornal da tarde.

- Olhe que já são sete horas!

Mana Maria pousou o jornal no colo:

- Mas, papai, que pressa é essa?

- Você sabe que eu gosto de comparecer na hora marcada. Acho uma falta de educação a gente chegar tarde.

- Fique sossegado que nós chegaremos a tempo.

E chegaram. Joaquim se demorou pagando o táxi. Depois, como a filha não se movesse da calçada, falou:

- Vá entrando, que eu tenho ainda de comprar cigarros na esquina.

Mana Maria entrou. E logo no hall, sentado entre tio Laerte e um irmão deste, Major Nicolau, membro do Instituto Histórico e Geográfico, deu com o Dr. Samuel Pinto. Instintivamente teve um movimento de recuo. Mas foi um segundo. Tio Laerte veio ao seu encontro. Visivelmente contrafeito.

- O Joaquim?

- Vem já.

Mana Maria apertou a mão do major. O Dr. Samuel Pinto estendeu a sua.

- Já se conhecem, não é verdade? falou tio Laerte.

- Já. Boa noite, doutor.

E quando o médico afogueado e sorridente observava que há muito não tinha o prazer de a ver, etc.:

- Com licença.

Tia Carlota estava na sala de jantar às voltas com um vaso de flores. A mulher do Major Nicolau contava as graças do neto. Tia Carlota se enrubesceu um instante. Mana Maria viu o rubor, falou entregando o presente:

- Para você perfumar seu aniversario.

- Ora, para que você foi se incomodar? Muito obrigada.

Esperava uma palavra de protesto, uma censura indignada. Mas a calma da sobrinha, seu ar de indiferença, a fez pensar que vinha avisada pelo pai ou ao menos com o espírito preparado. Antes assim. A presença do Dr. Samuel lhe fora anunciada horas antes. Ela protestara a princípio. Falou mesmo em indecência. Mas o marido, para sua grande surpresa, fincou o pé. E ela cedeu certa de que a sobrinha se indignaria, faria um escândalo, qualquer coisa assim. A responsabilidade não era dela. E isso mesmo pretendia explicar para mana Maria.

- Venha tirar o chapéu.

Foram para o toucador.

- Olhe, Maria, eu lhe dou minha palavra de honra que o convite ao Dr. Samuel...

- Eu estou lhe perguntando alguma coisa?

- Não. Mas eu faço questão que você saiba...

- Eu não quero saber nada.

Tia Carlota ficou sem jeito.

- Ao menos você não está zangada com comigo?

- Zangada propriamente, não. Surpresa. Nem isso. Está tudo certo.

E sorriu. O sorriso doeu em tia Carlota. Humilhou-a.

- Olhe, Maria, eu não sei o que você está pensando. Mas eu juro para você que seu pai e Laerte é que arranjaram essa embrulhada. Laerte só me avisou faz umas duas horas, se tanto. E me proibiu que prevenisse você.

Era verdade. Mana Maria sentiu. Nunca a tia lhe falara naquele tom de sinceridade.

- Acredito. Fique descansada que isso não tem importância nenhuma.

Voltaram para a sala de jantar. Uma porta envidraçada separava-a do hall. Tia Carlota falou:

- Façam o favor...

Joaquim foi o último a entrar. Parecia um menino chamado para receber o castigo da travessura. Seu olhar se encontrou com o da filha. Um segundo. Mas bastou para que ele percebesse o desastre. De forma que um mal-estar horrível tomou conta dele. Sem saber bem o que fazia olhou o relógio. O Major Nicolau caçoou:

- Que é isso? Está com pressa, homem? Quis dizer qualquer coisa, não soube, sorriu desenxabido. Tia Carlota colocou o Dr. Samuel à sua direita e para junto deste mana Maria se deixou empurrar por tio Laerte. Do outro lado da mesa redonda bem em frente ficou o pai. Dona Ester, mulher do Major Nicolau, perguntou para mana Maria:

- Ana Teresa como vai?

- Vai bem, obrigada.

- Já deve estar mocinha.

Dr. Samuel entrou na conversa:

- Guardo uma excelente impressão dela. Uma menina muito dócil, muito bem-educada. Deve lhe dar muita satisfação, pois não?

Mana Maria não respondeu.

- Imagine! É como se fosse filha dela! - falou tia Carlota.

- Esta sopa é de milho verde?

- É. Você não gosta? perguntou tio Laerte. O major falou:

- Gosto muito. Parece espargo.

- É espargo que se diz? Sempre ouvi dizer aspargo.

O major deu duro na mulher:

- Espargo, sim senhora! Aspargo falam as cozinheiras. Delas é que você ouviu dizer aspargo!

- Você está enganado! Ouvi dizer de muita gente boa.

- Ignorância.

- Mas que discussão! exclamou tia Carlota. Deixa isto para o Instituto Histórico, Nicolau.

- Se o senhor gosta de História, Dr. Samuel, tem aqui um entendido.

- A História é mestra da vida, minha senhora. Quem sabe História sabe o futuro.

- Bravos! aplaudiu o major.

- Para que saber o futuro, agora? Depois cartomante também sabe sem estudar História. Estou brincando, Nicolau, não vá se zangar.

O major arranjou um ar galante:

- Com você eu não me zango nunca.

O que amargou profundamente a mulher:

- Guarda toda a zanga para mim.

E começaram então a discutir, Dona Ester e tia Carlota atacando os maridos que fora de casa vendem alegria e no lar implicam com tudo, num mau humor constante. Dr. Samuel achou azado o momento para conversar em voz baixa com mana Maria:

- Se não fosse esse jantar eu não teria com certeza o prazer de cumprimentá-la antes de minha partida?

Mana Maria não abaixou a dela para responder:

- Com certeza não teria mesmo esse aborrecimento inútil.

- Aborrecimento? A senhora sabe perfeitamente que não seria.

Mana Maria com o olhar posto no pai, que desviara o seu, foi logo às do cabo:

- Mas eu creio que lhe dei uma resposta bem clara ao seu pedido de há dias. Só se não lhe transmitiram.

Insensivelmente abaixou a voz que tremeu um pouco. O Dr. Samuel sorriu amarelo:

- Transmitiram sem me tirar de todo a esperança. Depois, nós do Norte somos tenazes. Não cedemos diante do primeiro obstáculo não.

Mana Maria sentiu o rosto afogueado. Em torno dela era visível o mal-estar. A discussão sobre os maridos mal-humorados havia cessado. A razão daquela presença cerimoniosa, até então disfarçada, se patenteava grosseiramente mesmo aos olhos desprevenidos do major e sua mulher. Havia em todos um ar de condescendência contrafeita, de cumplicidade acanhada.

Tia Carlota querendo salvar a situação, piorou-a dirigindo-se ao cunhado:

- Que tristeza é essa, Joaquim? Não disse uma palavra até agora.

A resposta saiu tímida, arrastada:

- Eu? Eu estou... ouvindo... Não tenho... motivo nenhum para tristeza.

- Muito ao contrário - pensou sublinhar com malícia o major.

Mana Maria foi ganhando um nojo enorme daquela comédia toda. E com o nojo tinha pena do pai, do papel triste que ele fazia ali. Estava arrependido. Era visível. E temia as conseqüências, o pedido de explicação da filha, a censura fatal que o humilharia. Só o sentimento de sua superioridade dava a mana Maria a calma necessária para não estourar, acabar de uma vez com a farsa. Ela era a mais forte. E a consciência disso tornava sem importância o resto. e jantar podia durar a noite inteira, a vida inteira. Inutilmente. Ela era a mais forte.

Tia Carlota não tinha vontade nenhuma de conhecer os Estados Unidos.

- Aposto que o senhor vai se aborrecer, Dr. Samuel. É verdade que o senhor vai estudar, não vai se divertir.

- A senhora prefere a Europa?

- Tenho uma vontade louca de conhecer a Europa. Mas Laerte não se decide.

O olhar de tia Carlota era um olhar de subentendidos. Punha reticências, segunda intenção, na frase mais banal. Olhar que encorajava. Doutor Samuel aos poucos foi se entregando à sedução. Como um derivativo. Mana Maria discutia educação infantil com o major. Dona Ester contava graças do neto para o cunhado, tia Carlota e o médico pegaram a conversar entre sorrisos. Joaquim, sem dizer palavra, fingia prestar atenção a Dona Ester. Inteiramente voltada para o major, seu vizinho da direita, mana Maria defendia a educação religiosa. Até que uma risada mais alta e demorada de tia Carlota desviou para ela a atenção de todos.

- Sabem o que o doutor acaba de me confessar?

Doutor Samuel ficou uma pinóia.

- Acredita ainda no teu amor e uma cabana!

Ninguém achou graça. E o mal-estar voltou. O médico passou a odiar tia Carlota. Uma leviana. Uma mulher perigosa. Naturalmente tinha amantes. Ou então era dessas que de repente cortam a ponte que elas mesmas lançam. O major falou:

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