- Mas o Dr. Samuel tem toda razão, Carlota. O amor se contenta com pouco.
- Só que o doutor se esqueceu dos filhos - disse Dona Ester. - Os filhos completam a felicidade.
Tia Carlota estava de veneta:
- Que é que você entende por felicidade? Felicidade para mim é não pôr desgraçados no mundo Aí está!
- Ah! Bom ! você pensa assim...
Dr. Samuel achou oportuno se dirigir a mana Maria:
- As crianças são o encanto do mundo, a senhora não acha, Dona Maria?
Mas foi tia Carlota que respondeu:
- Para os médicos de crianças principalmente!
Então o Dr. Samuel, a princípio irritado, depois visivelmente deliciado com as próprias palavras, fez o elogio da criança. Para o Dr. Samuel, acreditassem, curar uma criança ele não poderia dizer que era um prazer. Sim. Podia. Era um prazer. Isto é: não era dos que curavam por obrigação, com mero fito de lucro. Não. Ele punha na salvação do corpo o mesmo ardor que um sacerdote poria na salvação da alma.
- Belas palavras, sim senhor ! - exclamou o major.
E partidas do coração, acreditassem. Do leito de uma criança doente ele nunca se aproximou sem piedade e nunca se afastou sem proveito. A infância e a velhice são as coisas mais sagradas deste mundo porque são as que se encontram mais perto de Deus. Sobretudo a primeira. Porque o velho vai para Deus purificar-se das misérias do mundo. E a criança vem pura de Deus, livre ainda das misérias terrenas.
- Bravos, doutor ! Eu sempre pensei assim! - falou Dona Ester.
E com razão. Os povos de civilização superior têm o culto da criança. Por quê? Porque a criança é o futuro, é o que conforta e sustenta os homens, aquilo que os anima ainda na hora da morte: a esperança.
- É isso mesmo! "Lasciate ogni speranza..." - aparteou tio Laerte.
Sim. Na porta do inferno. Ele poderia citar mil casos de sua clínica para provar a superioridade da criança. Mas seria repetir o que está na consciência de todos. Contaria um fato só, bastante eloqüente. Tratava ele uma menina, vítima de pertinaz moléstia infecciosa. Era órfã. Mas tinha ao seu lado quem lhe fizesse as vezes de mãe e de mãe extremosa. Um dia, examinando o termômetro, verificou que a doentinha ainda estava com febre.
E ele ia comunicar isso àquela que dia e noite na cabeceira da criança se desdobrava em desvelos verdadeiramente maternais, e que naquele momento se achava de costas para o leito, quando seu olhar se encontrou com o da doentinha. E naqueles olhos infantis de expressão puríssima, que a febre tornara ardentes, ele leu claramente um pedido a que não pôde deixar de se submeter: o pedido de não dizer nada, de não afligir a enfermeira dedicada, com a notícia de que a febre ainda não cedera. Só depois de se retirar do quarto, pondo seu dever de médico acima de tudo, é que ele fizera a comunicação com tanta grandeza de alma proibida pela criança.
- Lembra-se, Dona Maria?
Era a chave de ouro. Dona Ester emocionada quis falar:
- Meu netinho também...
Mas não pôde concluir. Porque o marido cobria sua voz:
- É o que eu sempre sustentei! Desses gestos só uma criança é capaz! Admirável! Admirável! E sem saber bem o que dizia:
- Meus cumprimentos, Joaquim! Também para você, Maria!
A admiração que sempre lhe causava a facilidade oratória do Doutor Samuel quebrara o embaraço mudo do chefe de seção do Serviço Sanitário:
- Sempre foi de fato uma menina de muitos sentimentos, Ana Teresa! Felizmente.
Mana Maria procurou uma saída para aquela cena ridícula. Falou no ouvido do major:
- Creio que é hora da saúde.
- É? Você acha? Não terá champanhe? Eu não vejo taça!
- É nesse copo comprido que servem.
O major observou:
- Futurismo.
E alto para o irmão:
- Como é, Seu Laerte, não tem champanhe para a saúde?
- Tem, como não!
De forma que depois de um ligeiro protesto de tia Carlota (para quem era bobagem essa história de saúde) se fez um silêncio de expectativa. A criada encheu os copos. Feito o quê, o major tomou a palavra de copo erguido:
- Carlota, queira receber os nossos votos de muita felicidade! Ad multos annos!
- Muito obrigada pela felicidade e pelo latim! É latim, não é?
- Do bom! Daquele que se ensinava no meu tempo, não desse de hoje.
Mana Maria perguntou sorrindo:
- Tem diferença?
Mas não obteve resposta porque tio Laerte bebia à saúde de Dona Ester, marido, filhos e netinhos. Pousados os copos, houve nova saúde levantada pelo major que desejou muita prosperidade para o caro Joaquim e suas gentilíssimas filhas. A criada surgiu com uma bandeja de sorvetes. Tio Laerte falou:
- Espere um pouco. Tem ainda uma saúde. À felicidade do Doutor Samuel e ao bom êxito de sua próxima viagem!
Dr. Samuel se declarou comovido no seu agradecimento. E reparou que mana Maria mal ergueu o copo sem levá-lo aos lábios. O major achou o sorvete ótimo. Joaquim e a filha concordaram. Dr. Samuel adiantou que nunca tomara tão bom. Dona Ester em vez do esperado elogio perguntou:
- Sua cozinheira que fez?
Tia Carlota falou:
- Quem mais?
- Podia ser de confeitaria.
O major se zangou:
- Êta mulher, meu Deus! Quando é que confeitaria já fez sorvete assim?
Dona Ester ostensivamente deixou o sorvete pela metade.
- Café aqui ou no hall?
- No hall - preferiu tio Laerte.
Tia Carlota se levantou. Sentada na cadeira de vime depois que o Dr. Samuel lhe acendeu o cigarro compôs seu olhar mais perigoso e disse baixo:
- Perdoe a minha brincadeira de há pouco.
- Ora, minha senhora! Eu é que lhe peço perdão de contrariar suas teorias amorosas. Naturalmente fruto de uma experiência que me falta..
Era a vingança. Acadêmico na Bahia, o Dr. Samuel ganhara fama de terrível ironista.
- Você acha?
Estranhou o você. Não. Com ironia não ia. Melhor ser cínico. Tinha sempre na lembrança o que lhe dissera sua mãe sobre as donas da alta sociedade: são as piores.
- Meu olho de clínico, minha senhora. Não falha.
Tia Carlota desviou o rosto, franziu as sobrancelhas, demorou o olhar na sobrinha que conversava com Dona Ester, encarou o doutor, disse num sorrisozinho:
- Então é certo o que dizem? Os médicos só acertam no diagnóstico e conseguem curar quando se trata de doença alheia? Quando eles mesmos ficam doentes não sabem se tratar?
Com mulher daquele tipo ele não sabia lidar. Não era a primeira vez que verificava isso.
- Que é que a senhora quer insinuar com isso?
Ela fingiu impaciência:
- Ora! Morda aqui! E a minha experiência amorosa onde é que está? Se quiser eu lhe servirei de médico-assistente.
- Não se brinca assim com os sentimentos alheios, minha senhora!
- Mas eu não estou brincando. E francamente acho seu caso desesperador, sem remédio...
Dr. Samuel ia ser malcriado. Positivamente. Com certeza tia Carlota percebeu isso no jeito nervoso dele. A criada entrava com o café, ela disse:
- Em todo o caso experimente uma xícara de café. Quem sabe fará bem...
Levantou-se, foi para junto da sobrinha. Então o major e Joaquim se aproximaram do médico. O major desenvolvia um de seus temas históricos prediletos: a vantagem que resultaria para o Brasil se tivesse vingado a colonização holandesa. E era uma de suas manias: não dizia Holanda, dizia Batávia. De forma que Joaquim concordava sem entender direito.
- Hein, doutor? Não é verdade? O Brasil colônia da Batávia! Que colosso.
O Dr. Samuel não estava disposto a discutir o que quer que fosse naquele momento. Sentia-se humilhado. Era homem que se humilhava com facilidade mas não inutilmente. Então o seu orgulho doía.
- Sob o ponto de vista da eugenia, por exemplo. Que é que o senhor acha?
O Dr. Samuel não quis achar nada:
- Não sei não. Seria um caso interessante a estudar.
- É um ignorante, pensou o major. E com redobrada segurança prosseguiu em suas considerações. Enquanto o médico procurava tomar uma resolução. Retirava-se. Despedia-se secamente e retirava-se. Logo. Mas isso era abandonar a luta e não era de seu feitio abandonar uma luta. Nem até então fora vencido em nenhuma. Quando Joaquim timidamente, por meias palavras, lhe comunicou a resposta da filha ao pedido de casamento, ele perguntara: O casamento é de seu gosto, pois não? Joaquim pela milésima vez disse que sim. E Dr. Samuel, dominando â vontade aquele homem sem nenhuma, obteve dele que arranjasse um encontro com a filha: - Eu a convencerei, tenho certeza. Mas de que forma? - Joaquim não descobria um jeito bom. Andava à procura dele quando lhe apareceu o concunhado para pedir depois de uma conversa muito longa cinco contos de réis por quinze dias. Cinco Joaquim não tinha. O que confessou sumamente envergonhado. Tinha (ia dizer três) mas insensivelmente saiu um. Disse, um, sentiu remorso, acrescentou: um e quinhentos. E ficou em paz com sua consciência. Tio Laerte guardou o cheque e ouviu as queixas de Joaquim.
- Então não quer casar mesmo?
- Veja você. Recusar um partido dessa ordem!
- E ele continua firme? Firmíssimo.
- Ah! Então fique tranqüilo. A Maria acaba cedendo. Você não conhece nortista.
A questão é que conhecia a filha. Contou o embaraço em que estava. E foi então que tio Laerte sugeriu convidar o pretendente para o jantar de aniversário da mulher. Esta ficaria por conta dele. Joaquim (como sempre) relutou em aceitar a idéia. Mas o cunhado avocou para si toda a responsabilidade:
- Se ela ficar zangada, você manda falar comigo.
Joaquim cedeu:
- Assim, sim.
Apertou agradecido a mão do concunhado (podia ter dito dois contos), recusou os agradecimentos dele, comunicou logo o plano ao Dr. Samuel.
- Olhe que é a última tentativa que eu faço. Dr. Samuel garantiu que nem era necessária outra. E entregava os pontos? Não entregava.
- Já disse para os confrades do Instituto Histórico e estou pronto a repetir onde e quando queiram: se o Brasil tivesse passado para o domínio da Batávia seria hoje o primeiro país do mundo!
Joaquim arriscou uma pergunta tímida!
- Maior que a Inglaterra?
- Maior que a Inglaterra!
Tio Laerte perguntou:
- Que é que é maior que a Inglaterra, Nicolau?
E informado do que se tratava deixou o grupo das mulheres para discutir com o irmão. O que ele fazia sempre para pôr em destaque os conhecimentos históricos do major, sua grande admiração. Fazia umas objeçõezinhas que ele mesmo sabia idiotas para o major responder com vantagem. O Dr. Samuel se decidiu e entrou na conversa das mulheres. Dona Ester falava do netinho. Não tinha outro assunto.
- Que idade tem ele, minha senhora?
- Vai fazer quatro anos em agosto.
- É forte?
- Oh! uma criança linda! Só queria que o senhor visse!
Por enquanto ele não tirava os olhos de mana Maria. Mas como dizer o que queria na presença das outras? Se não o deixavam a sós com ela por que aquele jantar? Tia Carlota falou:
- Sente-se, doutor.
Sentou-se no canapé de vime ao lado de mana Maria. O olhar malicioso de tia Carlota irritava-o. Aquela mulherzinha estava se divertindo à custa dele.
Tinha umas pernas bonitas a sem-vergonha. Dona Ester traçava um plano de educação para o netinho:
- Eu já disse para Nini. Nada de botar o menino desde cedo num colégio. A melhor educação é a que se dá em casa. Dizem que os comunistas na Rússia separam as crianças das mães. Comigo, eles veriam! Preferia matar meu filho a entregar para os bandidos! O senhor não é comunista?
- Sou adversário decidido do comunismo, minha senhora! A sociedade não prescinde dessa célula que é a família e o comunismo destroi a família! Ainda há pouco li um estudo...
Tia Carlota interrompeu:
- Comunista aqui só existe a Maria.
Dona Ester se sacudiu toda na cadeira:
- Que horror, minha filha! É verdade?
- Brincadeira de tia Carlota.
- Não é não. Você é comunista.
Doutor Samuel interveio:
- Dona Maria naturalmente é uma inteligência aberta às reformas sociais. Percebe, como todos nós, os erros do regime capitalista e quer...
- Não! Eu não posso acreditar que Maria seja comunista! Que horror, meu Deus!
Mana Maria sossegou Dona Ester:
- Não acredite. Tia Carlota gosta de brincar. Eu tenho um instinto de propriedade tremendo. O que é meu é meu. E em geral só gosto do que me pertence. Não poderia morar numa casa que não fosse minha.
Levantou-se.
- E vou para ela, papai, minha casa que já são horas. Papai, vamos indo?
Disse num tom tão brusco que assustou tia Carlota, incomodou Dona Ester, empalideceu o Dr. Samuel. Joaquim perguntou de mansinho:
- Você falou comigo?
Tia Carlota não deixou a sobrinha responder:
- Não é nada, Joaquim! Pode continuar sua conversa!
Mana Maria se arrependia mas não cedia. A idéia lhe veio de repente, ela falou, se levantou, não se sentava mais.
- Não, papai. São horas. Vamos?
Tia Carlota teimou:
- Não admito! Que horas, coisa nenhuma! Sente-se, Maria, deixe de ser boba!
- Não. Se papai quiser ficar, eu vou sozinha. Mais uma vez (tinha consciência disso) decidia o seu destino.
E abandonando o caminho que para outras seria o mais agradável ou o menos desagradável (para ela também, quem sabe, não queria saber) escolhia o outro, o dela, onde seria sozinha. Joaquim não dizia palavra, ar de tonto, hesitando. A filha decidiu por ele:
- Fique papai. Naturalmente tio Laerte quer jogar. Eu tomo um táxi. Não tem importância. Com licença.
Foi pôr o chapéu. Dona Ester falou baixinho para o Doutor Samuel:
- Ela teria ficado aborrecida com o negócio do comunismo?
- Como, minha senhora?
- A conversa sobre o comunismo parece que contrariou a moça.
O Doutor Samuel pôs um profundo sarcasmo na voz:
- Não foi isso não, minha senhora! A razão é outra. Eu conheço bem esses temperamentos. Freud explica isso.
- Quem?
- Freud. A senhora nunca ouviu falar em Freud?
- Não. Quer dizer...
- Pois Freud explica o caso perfeitamente, esses nervosismos subitâneos, essas explosões.
Tia Carlota seguira a sobrinha.
- Eu compreendo sua vontade de ir embora. mas faça um esforço e fique mais um pouco.
Mana Maria disse que não, que estava de fato cansada, se levantara muito cedo, passara a tarde inteira na cidade fazendo compras, queria dormir.
- Está bem. Mas não guarde nenhuma raiva de mim.
- Raiva por quê?
Enquanto a sobrinha punha o chapéu (foi um segundo), calçava as luvas (nem arranjara o rosto). Tia Carlota aprovava a resolução da sobrinha:
- Você quer saber de uma coisa? Você tem toda a razão. É um bocó de mola. Quer dizer: todo metido a sebo, falando difícil, teimoso (eu gosto de homem teimoso), mas um bocó. Depois, feio! Parece um sapo. Papapá, papapá, papapá, minha senhora pra cá, minha senhora pra lá, medicina é sacerdócio. família é não sei quê, não vai não.
Mana Maria (estava nervosa) falou:
- Pois eu pensei o contrário. Pensei que ele tinha agradado você.
- Por quê? Porque brinquei com ele?
- É...
- Xii, Maria, você não me conhece!
Sorriu, acrescentou com um brilho nos olhos:
- Quando eu quero de verdade ninguém resiste...
Outra qualquer dizendo isso irritaria mana Maria. Tia Carlota era diferente. Era uma menina louca. Mana Maria falou e abriu a porta:
- Eu imagino.
- Como os homens são idiotas, meu Deus!
Mana Maria quis chamar um táxi.
- Não. Eu mando levar você. O chofer está aí para isso.
Mana Maria não aceitava nada de ninguém:
- Para quê? Eu vou bem de táxi.
- Não, senhora. Um marido eu compreendo que se recuse. Mas um automóvel não admito. É o cúmulo.
Agora era o momento difícil da despedida. Ninguém se sentia à vontade. Mana Maria apertou a mão do major:
- Boa noite, major.
- Então, já vai?
- Já.
- Boa noite.
Apertou a mão mole (mana Maria desconfiava de quem não punha energia no aperto de mão) de tio Laerte:
- Até qualquer dia.
- Quer deixar mesmo a gente tão cedo?
- Preciso.
- Vá com Deus.
Apertou a mão de Dona Ester (mana Maria detestava beijos):
- Lembranças para Nini. E para o netinho também.
- Você precisa marcar um dia para conhecer ele.
- Qualquer dia telefono.
- Não deixe mesmo de telefonar.
Apertou a mão do Doutor Samuel sem dizer palavra. Só uma ligeira inclinação de cabeça. Foi comoção, foi qualquer coisa. ele reteve a mão enluvada murmurando:
- Muito prazer...
Com um ligeiro puxão, ela se desembaraçou, disse para o pai:
- Então, até logo.
- Até logo. Eu não demoro muito.
Tia Carlota acompanhou-a até o terraço:
- Desse você está livre.
Felizmente para Joaquim o Doutor Samuel logo depois da saída de mana Maria retirou-se também. Não se justificava mais a presença dele, não havia mais conversa que pegasse, tio Laerte propôs que se jogasse bridge, Doutor Samuel não jogava, tio Laerte por delicadeza retirou a proposta, ele compreendeu:
- Eu peço licença para me retirar.
Foi uma despedida fria, remate rápido de um aborrecimento. Joaquim se sentiu aliviado, readquiriu a fala, pediu para a cunhada tocar, desafiou os campeões presentes para um bridge bravo. Estava por ora livre do que ele mais detestava no mundo: uma explicação. E no caso eram duas. Mas a filha estaria dormindo quando ele chegasse em casa e o Dr. Samuel ficaria para o dia seguinte. Com certeza ele o procuraria no Serviço Sanitário. E seria uma conversa desagradável. Paciência. Até lá o homem se acalmaria, se convenceria de que malhava em ferro frio. E quanto à filha, ele a conhecia. Só falaria se provocada. O pai não tocando no assunto, ela também não tocaria.
O licor aumentou o seu bem-estar. Já meia-noite passada tomou o caminho de casa. A pé para fazer um pouco de exercício. Se fosse ver a Zoraide? Não. Sem telefonar primeiro era arriscado.
- Táxi, doutor?
- Não.
Dobrou a esquina. Ninguém. É bom surpreender assim as ruas desertas no silêncio noturno. De dia a atenção se perde no bonde que passa, na casca de banana, no pregão dos vendedores ambulantes, nuns olhos, num palavrão, num anúncio. A gente vê perto e vê baixo. Das casas só tem importância a vitrina das de comércio, o número das de moradia. De noite, tudo muda. Não há perigo de esbarros, de atropelamentos. A vista se alonga desembaraçada. É possível parar, erguer a cabeça, embasbacar, cismar, examinar, não há respeito humano. E a rua: postes, árvores, jardins. fachadas. Os homens dormem: a rua vela. Ele não saberia exprimir (não era literato, graças a Deus) a sensação gostosa que lhe davam essas voltas a pé para casa noite alta. Mas era evidente que se sentia mais forte, mais homem, o único homem. De dia se anulava na multidão, era ninguém. De noite ganhava outro relevo na sua solidão, uma certeza mais grata de sua realidade. Ouvia os próprios passos, via a própria sombra.
Dobrou a esquina. Ninguém. Era como se a rua dissesse: - Pode passar, trânsito livre. Depois na noite vazia, silenciosa, o cheiro dos jardins é mais forte, a feitura das casas mais branda, as calçadas mais largas, as esquinas mais misteriosas. A imaginação tem campo livre. Os homens são prisioneiros das casas, tranca na porta, cadeado no portão. Está reintegrada a rua na posse de si mesma, no gozo de sua liberdade. Tal como é e não como a fazem e sujam os homens, a desfiguram os homens de dia. Deserta a cena, vive o cenário. Através das venezianas no terceiro andar da casa de apartamento se escoa uma luz vermelha. Se ele fosse ver a Zoraide? Quase uma hora. Tarde demais.
Dobrou a esquina. Alguém. Ainda distante, na mesma calçada, cambaleando. Embriagado. Melhor atravessar a rua. Detestava bêbados, tinha pavor de bêbados. O vulto colou-se à árvore. Depois se equilibrou na guia do passeio, pesadamente desceu ao leito da rua. Joaquim resolveu não mudar de calçada. Agora o bêbado olhava o céu. Lua cheia. Tirou a palheta. Era o Platão de Castro. Joaquim apressou o passo.
- Ó Pereirinha!
- Como vai, Platão?
Não parou.
- Espere aí um pouco!
- Não posso. Estou com pressa!
Platão berrou:
- Es-pe-re, seu canalha!
Quis correr, estatelou-se nos paralelepípedos. Joaquim se voltou, teve pena, foi erguer o bêbado.
- Não precisa me ajudar! Eu me levanto sozinho.
Mas Joaquim ajudou. Depois ergueu a palheta.
- Vá dormir, Platão!
- Não. Quero propor uma coisa para você.
- Agora não tenho tempo.
- Fique ai, seu! Está vendo a lua? Responda. Está vendo a lua?
- Estou.
- Não tem pena dela, não? Responda. Segurou o braço de Joaquim.
- Tenho.
- Então vamos latir para ela pensar que é cachorro.
Joaquim puxou o braço, empurrou o bêbado, quase o derrubou, saiu na disparada. Platão gritava:
- Pereirinha, você não é poeta, Peireirinha! Seu animal! Seu bandido! Seu bêbado!
Dobrou a esquina. Três varredeiras da Prefeitura. A poeira subia em caracol, se esborrachava nas arvores, nos postes, nas fachadas. Joaquim tapou com o lenço nariz e boca, furou a nuvem de olhos fechados. A moreninha do 79 suicidou-se três dias antes com lisol. O que ela tinha de mais bonito era o andar. Coisa mais provocante. Imaginem aquela perfeição debaixo da terra apodrecendo. Que horror. De Purezinha então só podiam restar ossos. Para que pensar nessas coisas? Mas pensava sempre, era um sofrimento.
Dobrou a esquina. Ninguém. A magnólia plantada por Purezinha estendia um ramo sobre a calçada. Pensando bem, não há nada como ter uma casa: a casa da gente. Pátria, podem falar o que quiserem, pátria, bobagem. Ele não pegaria em armas para defender a pátria. Mas atacassem a casa dele para ver. Nunca imaginou que pudesse haver porão fedido como o da viúva do médico italiano. Um cheiro de gato, impossível. Empestava a calçada. Atravessou a rua pensando que a noite não estava assim tão quente. E sentiu em toda a sua plenitude essa delícia que é chegar.
Adelaide, portuguesa peituda, cantava lavando o terraço. A cometa do tripeiro soou na esquina, insistiu inutilmente diante do 52 (Adelaide não deu importância), foi soar em outra freguesia.
- Estado! Fanfulla! Fôôôlha!
O caminhão da Antártica passou sacudindo as casas. Cozinheiras iam e voltavam da feira carregando cestas, os chinelos estalavam nas calçadas.
- É a sorte de hoje! É o cavalo com 43!
Adelaide largou escova, balde e pano, correu para dentro de casa.
- Garrafeiro! Garrafa vazia! Garrafeiro!
A viúva de quimono curto veio mostrar as pernas gordas na calçada. A carroça com a mudança pobre rodava devagarzinho. No meio da rua. O italiano de preto tapou o sol com o maço de bilhetes para ver o aeroplano. A sereia da Assistência uivou numa rua próxima.
- É a Paulista com 100 contos! Último inteiro para hoje!
Adelaide desceu depressa a escada de mármore, entregou para o italiano dos bilhetes duzentos réis embrulhados num papelzinho. De sandálias sem meia, acompanhados pela criada vesga, passaram os quatro filhos menores impúberes, uma escadinha, do Doutor Laurindo de Sá. Um mulato de palheta com uma carta na mão, olhava o número das casas. Escorregou na casca de banana, se equilibrou, riu de seu quase tombo, entregou para Adelaide espiando no portão o envelope cor do céu.
- Tem resposta?
- Ele não me disse para esperar é porque não tem. Até logo.
Mana Maria lia no Estado o crime passional que agitara o bairro da Moóca enlutando dois lares húngaros, quando Adelaide lhe entregou a carta. Conheceu logo sem nenhuma surpresa a letra esparramada do Dr. Samuel, a letra das receitas: tome de duas em duas horas diluído em um cálice de água. E de novo a indecisão como acontecera com o livro: lia não lia, lia não lia. Mana Maria disse para si mesma que não era assim. Essa maldita história, é que a estava deixando hesitante. Pensar isso foi o suficiente para deliberar logo abrir o envelope. Sabia o que estava dentro. Mas também podia ser que não fosse o que pensava. Quando menina tinha absoluta certeza da soma que o cofre continha. Contava todos os dias, escondia a chave debaixo do colchão. E todos os dias o abria, contava os níqueis com uma esperançazinha louca de que tivesse mais.
Enchia quatro páginas e dizia assim:
"Senhorinha!
O vosso orgulho ou a vossa mórbida indiferença recusaram a proposta honesta que eu fiz, menos por mim, que sou homem e sei vencer na vida, do que por vós, que sois mulher e tendes necessidade de um amparo outro que não o paterno ou o fraterno. Recusastes e eu, nas vésperas de uma viagem, que tenho a certeza será mais um triunfo na minha carreira, não quero insistir, embora certo de que não refletistes bem sobre a excelsitude do destino que, ao meu lado, como senhora do meu lar cristão, vos esperava! Não vos dirijo esta, pois, para vos desvendar um coração alanceado e pedir-vos misericórdia. Não! Almejo precisamente desiludir-vos sobre o mal que porventura pensais haver-me feito e tirar-vos assim qualquer possibilidade de remorso. Sou moço, sinto-me forte e pertenço a uma raça de bravos que a adversidade não abate e atemoriza. A vossa atitude nenhum golpe representou para mim, que na luta retempero minhas energias de brasileiro digno e profissional honrado. Se vos disserem que sofro, não acrediteis. Posso vos assegurar até, sob palavra de honra, com o pensamento voltado para Aquele que julga todos os nossos atos e intenções mais recônditas, que se pressuroso me mostrei às vezes, foi por instigação de vosso pai, tomado do nobre desejo de vos dar companheiro dedicado e fiel, capaz de vos tornar menos cruel e monótona a existência e concretizar dignamente os vossos sonhos de mulher. Assim não quisestes talvez para felicidade minha!... Não vos preocupeis comigo. E onde quer que me conduzam o meu trabalho, o meu talento, a minha capacidade e a minha estrela, contai, sempre, por maior que seja a vossa precisão, com os meus sentimentos cristãos de solidariedade humana. Vosso respeitoso servo,
Samuel Pinto."
Ficou com a carta na mão avaliando o despeito enorme dele. Sujeitinho besta. Ferido no seu orgulho quis humilhá-la. Coitado. Não sabia com quem se metera. Ela podia ainda guardar uma lembrança de certo modo simpática do desgraçado. Mas depois dessa carta só tinha nojo. Aquilo era uma cusparada de vencido. Ela vira uma vez na calçada de sua casa uma briga de meninos. O que apanhou, deitando sangue pelo nariz, estendido no cimento, quando o outro se afastava, cuspiu-lhe nas costas. Mana Maria fazia questão de guardar aquela cusparada idiota. Foi para o quarto, abriu a secretária, guardou ao lado de outros papéis, contas do colégio de Ana Teresa, recibos de impostos. Depois se debruçou na janela. Seu Manuel jardineiro (um dia por semana ela o tratava para arranjar o jardim) podava devagar uma roseira. Conversando com o entregador mulato da Confeitaria Esmeralda, cesta vazia debaixo do braço.
- Seu Manuel, o senhor não entende nada de mulher!
- Pois sim.
Tinha um ar canalha e chupava um cigarro.
- Não entende não. Acredite no que estou lhe dizendo, Seu Manuel. Não há como mulher do interior!
Seu Manuel sacudia a cabeça. Mana Maria achou que devia sair da janela mas ficou escutando.
- Mulher da capital é besta, quer dinheiro, chama a polícia, Deus me livre!
- Pois aqui onde me vê já tenho papado muitas e nunca tive motivo de queixa.
Envergonhada, uma quentura no rosto, incomodada, ela deixou a janela.
- E porque o senhor não sabe o que é coisa boa. Olhe, seu Manuel: mulher do interior a gente derruba ela, ela cai sempre de jeito, prontinha!
- Explica isso melhor, rapaz. Conta cá como é essa caída assim tão jeitosa.
Então aquele domínio sobre si mesma, mais forte que a sua vontade, que a fazia sempre retroceder na hora de dar o último passo, que a retinha no momento exato da condescendência, da derrota, da fraqueza, o que fosse, arrancou mana Maria da janela, abruptamente. Voltou para o escritório, pegou o jornal, sentou-se. Porém a tragédia passional do bairro da Moóca não a interessava mais. Resolveu ver quem havia morrido. Falecimentos. Correu os nomes, não conhecia nenhum. Deu nela vontade de voltar para o crime dos húngaros, mas foi um instante só. Jogou o jornal no sofá, levantou-se decidida a ir visitar o túmulo da mãe. Numa das reviravoltas comuns de seu espírito. Passar do preto para o branco, limpar-se neste das impurezas daquele. A conversa do jardim a perturbava, a revoltava, talvez prosseguisse entre detalhes canalhas, ia acabar com ela.
Chamou a copeira:
- Diga pra Seu Manuel cortar umas dálias, um molho grande. Mas sem demora, imediatamente!
No quarto, vestindo-se depressa, ouviu a Maria gritar a ordem ao jardineiro, depois os passos do mulato do armazém na direção do portão. E gozou malvadamente a interrupção da conversa indecorosa. Não, não podia admitir essas coisas na sua casa. Essas coisas. Ora que estupidez, mulher do interior, mulato imundo. Não podia precisar a sensação de proibido, de vergonhoso que aquilo lhe dava. Era lixo, isso tinha a certeza de que era, não adiantava esclarecer que espécie de lixo. Era e acabou-se.
Pediu um táxi fechado. Seu Manuel cortava periquitos perto do portão, ela sem olhar mal respondeu ao cumprimento respeitoso dele, fingiu pressa, ainda fora do automóvel deu o endereço para o chofer:
- Consolação.
- Cemitério?
- É.
Dentro do vasto quadrilátero de muros altos, nenhum ar triste e sim frio de limpeza e ordem. Ali cada um se despede do atropelo e da confusão da vida, tem seu lugar na morte. Sobrepostos, lado a lado, apodrecendo jazem. Como a areia das ruas retas, a pedra dos túmulos alveja sob o sol que murcha as flores. Os ciprestes montam guarda, o verde-escuro deles acaba oscilando em ponta, ao vento. Troncos partidos, anjos em prece, cruzes, as sepulturas ricas, as sepulturas bonitas, as sepulturas pobres, as sepulturas feias, bem tratadas, maltratadas, não há igualdade. Os ruídos da rua atravessam o silêncio de arquivo, biblioteca, depósito, silêncio de morte. Os que passam lá fora tiram o chapéu, os que entram pisam de leve, a atitude não é propriamente de respeito mas de cerimônia. Também acanhamento.
Mana Maria ia notando os túmulos novos. Aquele de esfinge deve ser de sírio. Não disse? Família Yasi. A italiana de papoula no chapéu preto parou também, admirou, perguntou:
- É um leão?
Informou de má vontade:
- Não: esfinge.
- Ah sei! Finge de leão. É belo!
Não teve vontade de rir. Nem de sorrir. Prosseguiu de rosto fechado. Quebrou à direita, quebrou à esquerda, estacou. Pôs as flores nos dois vasos de mármore, ajoelhou-se, apoiou os cotovelos na lápide, juntou as mãos, nelas encostou a testa, ficou pensando. Padre Raimundo dizia: A melhor oração é a que o coração improvisa. Ajudada pela enfermeira, ela vestira o corpo magro da mãe ouvindo as marteladas dos homens da empresa funerária na sala de visitas. Não chorara. Não. Quando todos se puseram de joelhos no quarto mal-alumiado e só ela de pé, debruçada sobre o leito, sustinha entre os dedos da que morria a vela acesa da agonia lhe veio a decisão de não chorar. E não chorou. Nem quando o caixão florido se fechou, nem quando ele saiu pela porta do terraço, nem quando o pai voltou (ele sim, chorando) e lhe deu a chave presa numa fita roxa para guardar:
- Minha filha!
- Coragem, papai, vá descansar.
Ela tinha coragem e não precisava de descanso. Ela era a forte, a dominadora, a incorruptível. A que resistia contra tudo, contra todos, contra ela mesma. A serviço do quê? De sua memória, mamãe.
Levantou-se. Era falso. Não: era verdadeiro. Ela substituía a mãe naquela casa, naquela família que Dona Purezínha dirigia sem oposição. Por isso não podia casar. Por isso tinha de ser dura, só pensar na missão a cumprir. Grandes palavras. Sentiu-se ridícula. Ajoelhou-se. "Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria, cheia de graça..."
Alguém parou junto dela.
- Ia justamente procurar o senhor. Tem água no regador? Ponha nos vasos.
O homem levou a mão no chapéu, fez o que ela mandou. ".... e na hora da nossa morte, Amém. Em nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo. Amém."
- Está satisfeita com o meu serviço? É um túmulo de que não descuido.
- Estou. Eu lhe devo um mês?
- Ia amanhã à sua casa buscar o dinheiro.
- Eu pago já.
O homem agradeceu (quem pagaria para tratarem o túmulo quando ela morresse?), mana Maria foi andando devagar. Olhou o relógio: 11 horas. Na área principal deu com um enterro que chegava. Atrás do caixão um velho caminhava, o lenço nos olhos, amparado por dois moços também chorosos. O padre com o livro de orações protegia a vista contra o sol forte. Pouca gente. O sino da capela tocou. Mana Maria deu 400 réis para a negra velha. Não costumava dar esmolas não. Mas sentiu que ali devia dar. Estava um pouquinho comovida. No enterro dela não viria ninguém. Era capaz até de faltar gente para carregar o caixão. Morreria num hospital. Para não dar trabalho para ninguém. Foi descendo a Rua da Consolação ao longo do muro do cemitério. Na frente dela duas meninas de sandália carregavam uma cesta de lavadeira. Como um caixão. Uma de cada lado segurando na alça. Apressou o passo, na esquina tomou um táxi. Do automóvel ainda viu as meninas que haviam pousado a cesta na calçada, descansavam alegres.
Fonte: biblio.com.br