- Vá perguntar pra mana Maria.
Era assim desde que a mãe morrera. Era assim a propósito de tudo. Mana Maria é que resolvia, mandava, punha e dispunha, fazia, desfazia. E Ana Teresa obedecia.
Quando Dona Purezinha morreu, deixou Ana Teresa com dez anos. Tinha duas tranças compridas e com uma delas quis enxugar as lágrimas diante do cadáver da mãe. E foi ai que sentiu pela primeira vez a nova autoridade. Mana Maria deu um puxão na trança e lhe pôs um lenço na mão:
- Enxugue com o lenço.
Lenço seco.
De fato a coragem de mana Maria foi uma coisa que admirou toda a gente. Não derramou uma lágrima. Não teve um gesto, uma expressão de sofrimento. Ninguém esperava tanta fortaleza de ânimo num corpo tão franzino.
Dona Purezinha agonizou seis meses com um cancro no piloro. Era gorda, foi ficando magrinha. Também era boa, paciente, e foi ficando má, impertinente. Parecia que tudo nela morria, menos os olhos que enxergavam uma sombra de poeira na cômoda e os ouvidos que percebiam lá longe, na cozinha, o bater de um prato na pia.
Em torno dela foi se fazendo um silêncio que já era de túmulo. Primeiro se suprimiu o piano de Ana Teresa. Para ela foi uma alegria. Mesmo a aula de Português, Aritmética, Geografia, História do Brasil, Religião, Desenho e Caligrafia, tudo ensinado por Dona Mercedes, passou para o porão.
No porão vivia. Subia para almoçar, lanchar. jantar, dormir. Fora disso, mal punha os pés na escada que conduzia â copa, uma criada, a irmã, o pai, alguém falava:
- Não venha que mamãe está doente.
Era o estribilho. Pegava no voador, rodava dez metros no cimento do jardim, uma janela se abria:
- Não faça barulho! Mamãe está doente!
Na mesa, não queria sopa ou queria pão com manteiga e açúcar:
- Seja boazinha. Olhe que mamãe está doente.
Aos poucos se habituou. Ficava no quarto grande do porão horas e horas vendo a arrumadeira passar roupa. Também ia visitar o galinho garnisé. Corria atrás dele, ele não se deixava pegar, ela dizia:
- Não faça barulho que mamãe está doente.
Até que chegou também o dia do garnisé. O canto dele incomodava Dona Purezinha. Foi para a faca. E Ana Teresa nem direito de chorar teve porque mamãe estava doente.
Já era sossegada de natureza, ficou uma santinha na opinião da cozinheira. Parecia gente grande. Amorteceram com algodão a campainha da entrada, a campainha do telefone. Todos se entendiam por gestos. Joaquim Pereira pensou até em imitar o vizinho senador que quando a mulher esteve para morrer arranjou uns grilos que não deixavam os choferes tocarem cláxon nas imediações. Mas desprovido de qualquer influência política desistiu da idéia. Ana Teresa passou a fazer parte do silêncio: se perturbava quando falavam perto dela. Quase no ouvido da professora segredava as capitais dos Estados do Brasil. E ficou com o hábito de responder movendo a cabeça, sacudindo os ombros, movendo as mãos. A boniteza dela não entristeceu: ficou indiferente, perdeu a vivacidade, ficou distante.
Uma madrugada mana Maria acordou Ana Teresa. Como estava, de camisola e descalça, foi levada até o quarto de Dona Purezinha. O pai a ergueu nos braços, molhou de lágrimas o rosto dela, abraçou forte, beijou muito a filha. Depois falou:
- Venha beijar sua mãezinha que foi pro céu. No quarto estavam um padre, o médico, a enfermeira, tio Laerte e a mulher dele, tia Carlota. Ana Teresa sacudida pelo choro agarrou na mão da morta, deu um beijo. Porém silencioso. Alguém falou: - "Pobrezinha". Com certeza tia Carlota que a tirou do quarto. Ana Teresa viu no fundo do corredor uma vela acesa nas mãos de mana Maria. Teve medo, dobrou o braço no rosto. Voltou carregada pro seu quarto. Ainda ouviu mana Maria falar:
- É bom que tio Laerte vá encomendar o caixão.
Na hora do enterro é que mana Maria não a deixou enxugar os olhos com a trança. Foi o primeiro gesto de mando. E por isso Ana Teresa nunca mais esqueceu dele. Era um quadro que ela via sempre. Sobretudo de noite, no escuro, de olhos fechados, na cama: a sala repleta, o caixão muito alto e florido, a cara barbuda do pai, o jeito duro com que mana Maria lhe puxou a trança, lhe deu o lenço. Lenço seco.
E três dias depois, logo de manhã cedo, Ana Teresa teve a revelação física de mana Maria. Até então nunca reparara direito na irmã. Quer dizer: reparara sim, mas sem compreender. Nessa manhã ela principiou a compreender. Pela primeira vez a viu de óculos. E isso já foi uma surpresa. Nunca suspeitara da existência daqueles óculos de aros de tartaruga. Nunca, nunca mana Maria pusera os óculos na presença dela. Pois mana Maria a recebeu assim, de óculos. Estava com a costureira e mandara chamar Ana Teresa para tomar as medidas. Ana Teresa ficou em pé, no meio do quarto, imóvel, com os olhos nos óculos. A arrumadeira entrou, Ana Teresa olhou para ela e viu também nos olhos dela a mesma surpresa dos óculos. Nunca, nunca mana Maria aparecera de óculos para ninguém. Ana Teresa se deixou dominar por aqueles vidros redondos, aqueles aros de tartaruga manchada. Sentiu a autoridade daqueles óculos.
Aumentou nela o respeito que já tinha pela irmã mais velha e que a levava instintivamente a chamá-la mana Maria. Não Maria simplesmente. A irmã, quinze anos mais velha, impôs-se desde logo ao respeito de Ana Teresa. E esse respeito se exprimiu como de regra por um título: mana Maria valia por Doutora Maria, Excelentíssima Senhora Baronesa Maria, Sua Majestade a Rainha Maria. Sempre a chamou assim.
Ana Teresa olhava os óculos. Depois disfarçou, olhou as mãos. Mãos magras, unhas bem tratadas, mãos esquisitas. Magras demais. Depois bruscas. Faziam tudo depressa. Ajeitavam o cabelo com um repelão. Ana Teresa olhou os cabelos. Eram ondeados. Eram pretos. Pretos demais. E não eram cortados. Todas as moças usavam os cabelos cortados. Todas. Mana Maria não usava. Mana Maria enrolava os cabelos na nuca. E o penteado quase cobria as orelhas. Só se viam os lóbulos.
As sobrancelhas eram grossas. Grossas demais. E o nariz também era ossudo demais. E os dentes? Os dentes não se viam. Mana Maria falava sem mostrar os dentes. Ana Teresa não achava mana Maria bonita.
Mas aqueles óculos, passada a surpresa, eram bonitos. Iam bem para mana Maria. Ana Teresa não sabia direito o que era mas já agora lhe parecia que mana Maria sempre usara aqueles óculos. E ficava melhor assim. Ficava completa.
Mana Maria olhou num papelzinho, falou pra costureira:
- O uniforme pra sair tem gola branca.
Uniforme? Ana Teresa não compreendeu. Nem mana Maria lhe explicou nada. Só dias depois é que o pai com ela no colo contou tudo:
- É muito bom. É o melhor colégio de São Paulo. As internas são tratadas como filhas.
Falou outras coisas, reparou nas lágrimas da filha, enxugou, parecia triste. E disse:
- Eu por mim não punha você interna. Mas sua irmã quer. Ela é que é a mãezinha de meu bem agora. Precisa fazer como ela quer, obedecer em tudo, ser bem boazinha pra ela. Como pra mamãe antes de ir pro céu. Igualzinho.
Foi para o colégio. Mana Maria a deixou entre a madre superiora e a madre prefeita no dia seguinte ao da missa de sétimo dia. Passaram antes pelo cemitério. Colocaram umas flores entre as coroas murchas do enterro, rezaram, tocaram para o colégio. Mana Maria corajosa como sempre. Conversou com a superiora, pagou o primeiro semestre adiantado, virou-se pra irmã:
- Então até domingo.
Ana Teresa com os olhos chorosos deixou-se beijar na testa, beijou mana Maria no rosto, abraçaram-se. Mana Maria se desprendeu com uma recomendação:
- Tenha juízo.
No domingo voltou com o pai. Ana Teresa recebeu-os com uma reverência:
- Bonjour; mon cher papa. Bonjour, ma soeur.
- Já fala francês?
Joaquim Pereira ficou radiante. Mana Maria falou quase todo o tempo com a superiora. Na saída disse para a irmã:
- Você precisa caprichar melhor no desenho.
Ana Teresa prometeu caprichar. E na despedida repetiu a reverência:
- Au revoir, mon cher Papa. Au revoir, ma soeur.
Voltando para casa mana Maria repetiu as informações da superiora: ótimo comportamento e ótima aplicação, havendo o que dizer somente quanto ao desenho. Joaquim Pereira se admirou:
- Por que que você não disse pra menina os elogios?
Mana Maria respondeu:
- Eu sei o que faço.
Joaquim Pereira reprovou em silêncio aquela dureza. E para dizer alguma coisa:
- Que é que você acha de eu comprar um Ford?
Mana Maria perguntou:
- Pra quê?
- Que pergunta. Pra quê? Pra usar.
Mana Maria como que esboçou um sorriso. Joaquim Pereira não disse mais nada.
2
Diante da mulher conservou sempre uma atitude de inferioridade. Morta a mulher não teve dificuldade nenhuma em reconhecer na filha mais velha a herdeira de Dona Purezinha, no governo doméstico.
Quando conheceu Dona Purezinha era terceiro-escriturário do Serviço Sanitário. Seu pai, que era agente de seguros e juiz de paz da Consolação, lhe arranjou esse emprego dias antes de morrer.
Joaquim herdou uma casa, uma caderneta da Caixa Econômica, acusando um saldo de sete contos e coisinhas, um seguro de vinte contos e os nove volumes encadernados da Genealogia Paulistana de Luís Gonzaga da Silva Leme.
O pai também enviuvara moço. Era homem austero e tratava o único filho severamente.
Tinha dois orgulhos que manifestava cem vezes por dia, com e sem propósito:
- Você vem dizer isso a mim, descendente de bandeirantes? A mim, que fui amigo do Coronel Mursa? Ora tire seu cavalo da chuva!
Joaquim guardava do pai uma lembrança nada afetuosa. Ela vinha sempre com uma bofetada e uma desilusão. Bofetada, porque certa vez durante o jantar se permitira com a ingenuidade dos dezesseis anos pôr em dúvida a justiça de uma sentença de que o pai se vangloriava. O juiz de paz estourou:
- Como, seu cachorrinho? Eu descendente de bandeirantes, amigo do Coronel Mursa, receber lições de um frangote! Cale essa boca, já, imediatamente!
Joaquim se dispôs a não dar um pio. Mas o pai continuou a falar, a gritar, a invocar a sua progênie bandeirante e a sua amizade com o Coronel Mursa, ele se irritou e disse muito atrevido:
- Ninguém nunca ouviu falar nesse Coronel Mursa que o senhor...
Aí levou a bofetada. Na boca. E foi trancafiado no quarto. Ouviu o pai dar um berro com a criada. Depois as passadas dele pelo corredor indo e vindo. Depois um silêncio. Passos de novo. Parou. Abriu a porta. Estava mais calmo e estendeu ao filho uma folha de jornal amarelecida, com as marcas das dobras bem acentuadas:
- Leia para se instruir. No fundo a culpa não é sua, mas dos professores que não lhe ensinaram a história de sua terra.
O pai saiu sem fechar a porta à chave; Joaquim percorreu a folha encardida. Na primeira página. o título do jornal e a data: São Paulo, 20 de novembro de 1889. O resto era meio alegórico: uma mulher com barrete frígio na cabeça segurava um ramo de café com a mão direita e com a esquerda levantava um facho que iluminava três medalhões com os retratos do Coronel Mursa, Prudente de Morais e Rangel Pestana. Embaixo: Homenagem à Junta Provisória. Em volta: leões deitados, pombas voando, ramalhetes de flores com laços de fita, o Zé-Povinho de chapéu erguido. Na segunda página, então, vinha o elogio do triunvirato, da República, da Democracia e do Brasil. Joaquim leu com toda a atenção: "O Coronel Mursa simboliza a espada gloriosa que fulgurou nas lutas da Independência, combateu nas campanhas do Prata, venceu na Guerra do Paraguai e ajudou a implantar a República." Virou a folha, se demorou na contemplação do Coronel Mursa. Era aquele. Sim senhor. Simpaticão. No dia seguinte quis devolver para o pai mas o pai falou:
- Guarde para você que eu tenho vários exemplares.
Joaquim guardou. Daí por diante cada vez que o pai falava na sua amizade com o Coronel Mursa, o filho abaixava os olhos. No fundo tinha ódio dessa amizade, por causa da bofetada. O que não impediu que num domingo de tarde, queixando-se o pai de certo tenente do Exército que lhe devia cem mil-réis e se recusava a pagar, o filho falasse:
- Se o Coronel Mursa fosse vivo o senhor falava com ele e arranjava tudo!
A coisa foi tão inesperada que o juiz de paz olhou desconfiado para o filho. Mas Joaquim fitava o assoalho humildemente. E o velho exultou:
- Que dúvida! Homem de peso, homem de peso! Não há mais disso hoje em dia!
Depois recapitulou com todos os detalhes a história da famosa amizade. Depois (conversa puxa conversa) falou na sua progênie bandeirante. Disse:
- Eu estou morre não morre, você é menino, é bom que saiba quem foram seus avós para amanhã, quando eu já não estiver no mundo, não deixar ninguém pisar em você!
Foi no quarto, voltou com dois volumes da Genealogia Paulistana.
- Está vendo, Joaquim? Título Cordeiros de Paiva. Olhe aqui: João Duarte Pereira Castro, irmão de um seu tio-avô, não, tio-bisavô, casou com uma Cordeiro de Paiva. Nós somos primos desses Cordeiros de Paiva, gente de tutano, uns leões. Mas tem mais. Olhe aqui neste outro volume. Títulos Aguirre. Olhe: um Aguirre, João Afonso, casou em segundas núpcias com a bisavó paterna de sua mãe, sua tataravó, portanto, minha bisavó por afinidade. Nunca se esqueça que você tem sangue de Aguirres nas veias e é ligado com os Cordeiros de Paiva. Dois títulos. Há pouco paulista hoje que se possa orgulhar de sua nobreza, como você. Veja lá que responsabilidade.
Por fim deu uma nota de vinte mil-réis para o filho, já era noite:
- Vá se divertir.
Joaquim beijou a mão do pai e foi se divertir no Cinema Bijou. Pina Menichelli suicidou-se no sexto ato e ele na saída encontrou o Albertino. O Albertino conhecia uma casa na Rua das Flores. Joaquim o acompanhou até lá. Dona Filomena veio abrir a porta:
- Que é que querem? Ah! Albertino, como vai?
Albertino ficou conversando com Dona Filomena, Joaquim enfiou pelo corredor. Uma voz de mulher falou:
- A senhora deixou a porta aberta! Faz favor de fechar, Dona Filomena!
Joaquim espiou e viu o pai sentado diante de uma garrafa de cerveja, com uma gorda de cabelo vermelho no colo. A gorda gritou:
- Olha essa porta aberta, Dona Filomena!
Joaquim deu meia volta rápida, esbarrou em Dona Filomena que vinha fechar a porta, disse para o Albertino:
- Vou me embora, estou me sentindo mal.
Albertino quis retê-lo pelo braço, ele se desenvencilhou brutalmente, atravessou a rua, dobrou a esquina, passo apressado quase correndo. Sentia uma precisão de chorar. Um homem como papai com uma vagabunda no colo. É impossível. É impossível. Mas então... Meu Deus é impossível, papai, papai num bordel. Mas então... O pensamento dele ficava suspenso. Mas então... Mas então... Não há nada. Não existe nada no mundo. Nada. E se lembrava da mãe.
Tomou o bonde, foi para casa. Fechou-se no quarto, atirou-se na cama. Tinha pena da mãe. Estendeu o braço, pegou o retrato no criado-mudo, falou: Minha mãe! Coitada de minha mãe!
Beijou o retrato. Que coisa, meu Deus, meu Deus do céu! Pôs o retrato no criado-mudo. Um homem que falava tanto na sua seriedade e mais isto e mais aquilo. Descendente de bandeirante, amigo do Coronel Mursa. Levantou-se. Abriu uma gaveta da cômoda. Tirou a folha de jornal. Amigo do Coronel Mursa. Espera um pouco que já te mostro. Picou a folha em pedacinhos. Jogou na latrina. Pôs a mão na chave da porta, se arrependeu: o pai podia chegar, não queria ver o pai. Aí lhe deu uma curiosidade má. A que horas ele voltaria? Passaria a noite no bordel? Abanava a cabeça. Pensou: meu pai na putaria. Não. Não era bem isso. Que coisa besta. Sorriu por dentro. Chorou. Apagou a luz, se jogou de novo na cama. Mas não dormiu. Vinha um pensamento perverso, ele expulsava com outro ainda mais perverso, e sofria. Pouco depois de meia-noite o pai chegou e Joaquim dormiu mais aliviado.
Entretanto o respeito que até então tivera pelo pai não diminuiu pelo menos exteriormente. O mal-estar que passou a sentir na presença dele aumentava até a atitude humilde, cabeça baixa, olhos no chão. Quando o juiz de paz falava nos avós bandeirantes ou na sua histórica amizade com o Coronel Mursa Joaquim no fundo sentia uma espécie de volúpia em apresentar aos seus botões o reverso da medalha. O pai falava:
- Um paulista como eu, de autêntico sangue bandeirante...
E o filho continuava com o pensamento:
... e que freqüenta bordéis baratos...
O pai acrescentava:
... amigo inseparável do Coronel Mursa...
E o filho rematava:
... e bebedor de cerveja com polaca vagabunda no colo...
Até que meses depois, no dia de Finados, vendo o pai chorar diante do túmulo da mulher, quinze anos já passados de sua morte, ele começou a compreender esse dualismo em que ele próprio cairia mais tarde.
O pai morreu com setenta e dois anos num dia de São João. E no primeiro aniversário de sua morte já foi Purezinha que colocou um ramo de cravos no túmulo e providenciou sobre a missa. Como também foi Purezinha que arranjou com o parente deputado a promoção do marido para segundo-escriturário, depois primeiro, depois chefe de seção. E assumiu discricionariamente o governo do lar, cabeça do casal, alugando a casa deixada pelo sogro, aplicando o dinheiro do seguro, economizando, comprando o palacete em que Ana Teresa nasceu, emprestando dinheiro sob hipoteca em pequenas parcelas para render juros mais altos, tudo, tudo. Purezinha, coitada. Morrer daquele jeito. Felizmente deixava uma substituta, sua filha de palavra medida e dura, gesto brusco e decidido, olhar firme, direto, autoritário.
3
Por isso Joaquim Pereira não se atreveu a insistir na compra do Ford. Paciência. Maria não aprovava, ele se conformava. Entretanto era coisa que lhe apetecia bem, um Fordinho fechado. Satisfazia bem aquela ânsia de gozo que se apoderara dele viúvo. Gozo da vida, das coisas materialmente boas da vida. Daí a poucos anos se aposentaria. E já tinha um plano de vida feito. Como o Ciancullo barbeiro que com mais cinqüenta contos fechava o salão e ia fazer il signore. É isso mesmo. Bancar o milionário. Inclusive e sobretudo no capítulo das mulheres. Foi fiel, foi um cão de tão fiel, para Purezinha. Mas ela morta, ele era moço ainda, ficava neste mundo miserável, era disfarçar a miséria do mundo. Às vezes se lembrava do pai e como que se revia (em lugar do juiz de paz) no quarto da Rua das Flores com uma gorda de cabelo vermelho no colo que mandava dona Filomena fechar a porta. Então sentia uma vergonha inexprimível de ser homem, homem como o pai, seu herdeiro na contingência de semelhantes fraquezas. Paciência. Não era o único. Como é que havia de fazer? Casar? Ele já pensara nessa solução mas esbarrava na oposição da filha mais velha, que ele sabia fatal, e não tinha ânimo para enfrentar. Que esperança. Atentava no jeito frio e agressivo da filha e desistia logo de qualquer idéia a respeito de novo casamento. Nada disso. O melhor era fazer como todos os homens, até casados, até recém-casados. O melhor era fazer como, como, como o pai. Aí está. Joaquim por mais que expulsasse a lembrança amarga daquela noite da Rua das Flores era constantemente perseguido por ela. Daí a timidez de suas primeiras aventuras, nome com que ele dourava a sentida sordidez dos coitos pagos à vista. Uma aventura, uma conquista. Parecia um criminoso. Escolhia horas adiantadas da noite, se exasperava quando custavam para abrir a porta e ele ficava sujeito às olhadas dos transeuntes, exigia um quarto bem trancado, tapava o buraco da fechadura. Inutilmente procurava se confortar com a idéia de que não tinha filhos. Inutilmente. A lembrança da Rua das Flores não o largava. Teve um sonho horrível em que o pai o espiava como ele o vira.
Um dia se surpreendeu chamando a filha de mana Maria, tal e qual Ana Teresa. E se arrependeu, quis corrigir logo em seguida, não teve jeito, deu uma risadinha (a filha calma, olhando para ele), repetiu: mana Maria. A filha disse:
- Eu o envelheço tanto assim?
Custou a compreender, compreendeu, falou:
- Não é isso!
Não era e a filha sabia que não era. Mas mesmo quando lhe agradavam (e o pai chamando-a assim lhe agradara) ela dava um jeito pra responder com uma bicada certeira.
O pai bandoleiro não parava mais em casa. Mana Maria só o via durante as refeições. Tinha o estômago delicado, comia sempre em casa, discutia negócios com ele. Por ocasião da partilha no inventário de Purezinha, mana Maria fez questão de ficar com a casa onde moravam. O pai objetou generosamente que não dava renda pois era residência deles, era melhor que ficasse na sua meação, a menos que a filha não concordasse em receber o aluguel. Mana Maria respondeu:
- Eu quero morar na minha casa.
Repetiu, acentuando bem:
- Minha casa. E isso de aluguel é bobagem.
Joaquim acedeu:
- Como você quiser.
E acrescentou:
- Você é de fato a dona da casa, fica também dona do prédio.
O olhar de mana Maria exprimiu a satisfação de quem se sente bem compreendido. Discutia as questões do inventário com tanta segurança que o pai um dia se espantou. Ela explicou:
- Conheço as leis de meu país.
Foi no quarto, voltou com um exemplar encadernado do Código Civil Brasileiro. O pai estourava de admiração:
- Você é sua mãe escarradinha.
Porque Purezinha é que comprara o Código. Ele nem se lembrava mais de que o tinha em casa. Pois mana Maria descobrira o Código, lia o Código. Incrível. Definitivamente sumiu diante da filha. Ela é que conversou com o advogado, estabeleceu os quinhões dela e de Ana Teresa (favorecendo esta) e concluído o inventário passou a tomar conta de todos os negócios. Do pai inclusive.
4
Nas férias de fim de ano Ana Teresa caiu doente de escarlatina. Joaquim queria chamar o velho Dr. Tibúrcio que receitava calomelanos a três por dois e já tratara da menina por ocasião de uma coqueluche. Mas mana Maria telefonou para o Dr. Samuel Pinto, recém-chegado da Europa, com prática dos hospitais de crianças de Berlim, Viena e Paris.
Dr. Samuel chegou, mandou abrir as janelas do quarto. Ar, ar. Tratamento moderno. A escarlatina cedeu. Ana Teresa se levantou.
Nada de excesso, recomendou o Dr. Samuel. Escarlatina é moléstia traiçoeira, costuma deixar marca. Alimentação sadia, ginástica, muita ventilação durante a noite.
Ana Teresa já estava perfeitamente boa e o médico prosseguia nas visitas. Mana Maria estranhou.
- Médico moderno, você quis médico moderno, é agüentar com a exploração - falou o pai.
Então mana Maria escreveu um cartãozinho para o Dr. Samuel Pinto pedindo a conta. E ele a mandou bem módica. Joaquim comentou:
- Esquisito. Só se é para garantir o cliente. Deve ser isso.
Ana Teresa voltou para o colégio nem alegre, nem triste. Estava habituada a obedecer. Recebia as coisas boas e más com a mesma mansidão. Mana Maria resolvia por ela e ela aceitava a resolução. Nunca lhe passou pela idéia discutir isto ou aquilo. exprimir suas preferências, mostrar um tiquinho que fosse de vontade. Até nas coisas mínimas. Aceitava sempre o que lhe ofereciam e quando lhe concediam o direito de escolha se decidia sempre pela última oferecida. Mana Maria perguntava na mesa:
- Você quer banana ou laranja?
Ana Teresa respondia:
- Laranja.
Se a pergunta fosse laranja ou banana ela diria banana. Ainda quando houvesse também pêra e esta lhe apetecesse mais.
Uma noite, já fazia quinze dias que Ana Teresa tinha ido para o colégio, a criada anunciou o Dr. Samuel Pinto para mana Maria. Mana Maria tirou os óculos, levantou o olhar do livro, fixou-o na criada. Pensou: - O que será? Mas disse:
- Faça entrar.
Ficou um momento imaginando o que seria, passou diante do espelho sem nenhuma olhadela e foi receber o médico. O Dr. Samuel falou logo:
- Desculpe não ter vindo mais cedo. Hoje foi um dia cheio de serviço.
E mana Maria muito calma:
- Mas deve haver engano. Daqui de casa não se fez nenhum chamado.
Dr. Samuel, sentado no sofá, com um livro na mão arregalou os olhos num bruto espanto:
- Oh! mil desculpas, foi o recado que me deram.
Mana Maria imóvel, o olhar parado, as mãos paradas no colo, considerava aquele moreno meio careca, subitamente ruborizado, que lastimava o engano de sua enfermeira, uma alemã ainda não muito familiarizada com a língua portuguesa. Estava mentindo. Era visível. Que é que o teria levado ali? Impossível, mana Maria (Dr. Samuel agora se estendia sobre os criados em geral, sua negligência, sua insolência diante dos patrões) se decidia diante do menor gesto do intruso a dar um grito que faria vir dos fundos da casa a copeira, a arrumadeira, a cozinheira. Não. Ele não ousaria tanto. E se ousasse ela não apelaria para ninguém. Sozinha, sem elevar a voz, talvez com um simples olhar, poria o atrevido imediatamente no olho da rua.
Dr. Samuel perdia aos poucos o desembaraço dos primeiros instantes. Já gaguejava, dizia o já dito procurava palavras. Mana Maria reparou (como já fizera durante as visitas a Ana Teresa) na voz cantada que abria as vogais, arrastava os erres, prolongava as tonais. Na terra dele é que a gente ainda encontrava empregados como os de outrora, humildes e fiéis. Mana Maria perguntou:
- Que terra?
- Sergipe.
Ela bem que estava percebendo. Dr. Samuel tinha saudades daquela terra. Estava radicado em São Paulo. Mas pretendia (talvez em breve) voltar para lá, rever o seu berço. Que é que deu em mana Maria? Ela não sabia ou não queria saber. O fato e que disse:
- Com certeza deixou uma noiva lá?
Qualquer coisa iluminou os olhos miúdos do Dr. Samuel e ele readquiriu a desenvoltura do princípio. As frases tornaram a sair fáceis, redondas, descansadas. Que penetração psicológica a de Dona Maria. Que extraordinário espírito observador. Como é que adivinhara que ele era solteiro? Porque não usava anel? Não, porque hoje em dia poucos maridos o usam. Não havia dúvida: admirável espírito de observação. E esse dom aliado à cultura, a uma educação perfeita, era a maior riqueza a que o homem pode aspirar.
Dr. Samuel (como se percebesse o nojo nascente de mana Maria) cortou os elogios e confessou que não tinha noiva. Mas pensava seriamente em casar, está visto. Sentia até que precisava casar. O casamento era um ideal que todos, todos, homens e mulheres, sem nenhuma exceção, deviam acalentar. Pois não é exato? Mana Maria não disse nem sim nem não.
Dr. Samuel esboçou um sorrisozinho. Naquele livro que ele tinha ali, por exemplo, um romance francês, havia uma frase sobre o casamento, que lhe parecia admirável. Ele ia traduzir. Não: traduzir é trair, como dizem com acerto os italianos. Seria mesmo em francês. Mas Dona Maria havia de prometer primeiro que não caçoaria do francês dele. Mana Maria (tomada de uma idéia que ela pensava perversa) em vez de prometer falou:
- Eu mesma leio. Com licença um segundo. Vou buscar meus óculos.
Foi. Veio com os óculos postos. Num átimo procurou ler no rosto do Dr. Samuel a impressão produzida. Leu. Disse:
- Acho banal.
E devolveu o livro.
Dr. Samuel concordou em que não era coisa original mas não é só o original que é admirável. Ou Dona Maria por acaso seria adepta das idéias modernas, do futurismo?
Mana Maria, conservando os óculos, fez um gesto vago. E a copeira (com quem ela trocara duas palavras rápidas quando foi buscar os óculos) apareceu pra dizer que a pessoa que Dona Maria mandara chamar estava na cozinha esperando. Mana Maria falou:
- Vou já.
E se levantou olhando o Dr. Samuel. Dr. Samuel tornou a perder o jeito. Levantou-se também. sentia-se que ele levava consigo uma porção de coisas que desejava falar, desculpou-se pelo incômodo que dera, lastimou mais uma vez o equívoco da enfermeira e tomando coragem (falando, ele tomava coragem) fez questão que Dona Maria ficasse com o romance. Ele já tinha lido. Ou por outra: estava relendo.
Dona Maria veria que livro admirável era. Mana Maria recusou. Ele, fazendo muitos gestos, com a voz meio alterada, pôs o livro na mesa. Não, positivamente não levaria o livro. Ficava ali em ótimas mãos. E Dona Maria que não se preocupasse em ler depressa. Lesse com todo o vagar. Depois telefonasse que ele mandaria buscar. Já com o chapéu na mão, hesitou um instante, acrescentou:
- Ou então, se a senhora me quiser dar a honra de trocar impressões sobre ele, eu mesmo virei buscar. Sem incômodo nenhum. Só prazer, imenso prazer.
Mana Maria lhe estendeu a mão.
5
Fechou a porta. E esta agora? Virou-se. Olhou o livro. Francamente. Deu uns passos, pôs a mão no livro, pôs o olhar na Paisagem de Outono da parede, tamborilou os dedos na capa amarela do romance. Mordeu o lábio superior, o inferior, de novo o superior. Foi cerrando os olhos, cerrando, cerrou. Então viu claro o que tinha a fazer. Pegou no livro, pediu papel e barbante para a copeira (qualquer um serve!) embrulhou, amarrou nervosamente. Escreveu: Ao Senhor Doutor Samuel Pinto. Procurou o endereço na lista telefônica. Residência ou escritório? Mandava para a residência. Teria telefone? Tinha. Apartamento. A palavra deflagrou a imaginação de mana Maria. Apartamento, champanha e mulheres. Um tango dizia assim. Todos os santos dias ouvia no rádio. Quero um apartamento com champanha e mulheres. Champanha e mulheres. Mulheres. Escreveu o endereço. Mandava levar amanhã cedo. Sem uma linha que fosse de agradecimento? Agora ela não ia abrir o embrulho. Colocaria o cartão por fora, entre o barbante e o papel. Não. Não colocaria nada. O livro só. Para o atrevido compreender. Atrevido? Mana Maria pesou a palavra, pesou-a bem, arrependeu-se. Afinal que atitude era aquela? Para que ferir o moço com tamanha grosseria?
Mana Maria sentou-se diante da secretariazinha, tirou da gaveta um cartão de luto, molhou a pena no tinteiro, escreveu por cima do nome: Com os melhores agradecimentos de... Rasgou o cartão. Pegou outro. Escreveu: Com os agradecimentos de... Leu uma porção de vezes: Com os agradecimentos de Maria H. Pereira. Começou a pôr a data por baixo do nome. Escreveu São Paulo e parou. Rasgou o cartão. Levantou-se, foi até a janela, da janela até a porta que dava para o corredor, deu duas voltas na chave, veio até o meio do quarto, parou, olhou para o espelho. E deu um jeito no penteado. Foi para a escrivaninha de novo. Precisava agradecer o livro, falar no livro. Senão um estranho que visse o cartão não saberia que agradecimentos eram aqueles.
Agradecer o livro e dar o nome do livro. Assim afastaria todas as suspeitas ruins. Levantou-se. Não. Ia ler o livro. Desfez o embrulho. Assim em duas linhas daria sua impressão, ele não precisava aparecer para perguntar. Mas também se desse ele seria capaz de aparecer para discutir. Nunca hesitara assim. Nunca. Por que não ficava na primeira idéia? Como sempre? Levantou-se. Diante do espelho passou os dedos pelas sobrancelhas. O embrulho já estava desfeito, lia o livro. E amanhã cedo mandava. Pronto. Estava resolvido o assunto.
Abriu a porta. O carrilhão da sala de jantar deu dez horas. Ela correu a casa inteira para ver se a criada fechara todas as portas e janelas. Foi para o banheiro. Furiosamente escovou os dentes. Como de costume: furiosamente. Bochecho e gargarejo com água oxigenada.
Tinha a mania da higiene. Vivia lavando as mãos, escovando as unhas. E nas coisas da casa exigia asseio e ordem. Queria tudo limpo e no seu lugar. Andava sempre com um lenço na mão e não sentava numa cadeira sem antes passar o lenço nela. Agora, no banheiro, continuava a toalete rigorosa. E acabou deixando tudo como encontrara: cada coisa no seu lugar.
Fechou-se no quarto. Deitou-se, abriu o livro. Dez e pouco. Antes da meia-noite estava lido. Principiou pulando a descrição do parque porque detestava descrições. Um parque: já se sabe o que é. Ela e ele voltam de seu passeio a cavalo. São noivos. Conheceram-se num baile. O pai dela estava na iminência de uma ruína. O pai dele, em vez, era riquíssimo. Casamento de conveniência? O autor dizia que sim e que não. Que sim na intenção do pai. Que não porque ela gostava do feitio esportivo do noivo. Muito que bem. Estão voltando do seu passeio matinal. De repente (na pagina 27) Bismarck, o cão pastor alemão, pula diante dos cavalos. E o dela se espanta, pula também, ela cai na areia branca da alameda. É carregada sem sentidos para o castelo. Na página 43 o jovem médico abana a cabeça e diz para o visconde:
- Fratura dupla no terço superior do fêmur.
O pai desesperado pergunta:
- Ficará defeituosa?
O jovem médico mais uma vez abana a cabeça:
- A ciência tudo fará para evitar tamanha desgraça.
Mas na página 98 a ciência depois de mil esforços inúteis se declara vencida: aquela flor de uma estirpe milenar ficará com uma perna mais curta que a outra. O visconde trata de apressar o casamento. E há uma cena horrível em que a aleijadinha ignorante de seu defeito faz um esforço supremo (quer receber o noivo levantada) deixa a cama, o pé falseia, ela dá um grito e tomba sem sentidos. Agora, o noivo mal disfarça sua repugnância. Enquanto que o médico redobra sua dedicação. O choque moral é tremendo, bem mais perigoso que o físico. A ciência vela. A ciência só? O autor insinua que o amor, o amor também vela.
A página 167 é toda ela a transcrição da carta em que o esportista rompe o noivado, triste documento de um invertebrado moral. E como o visconde julga enojado. Mais nojo ainda lhe causa a insistência dos credores cuja sanha o projetado casamento amenizara um pouco. Precipita-se a catástrofe: a filha aleijada, o visconde arruinado, castelo, parque, terras, tudo vendido em hasta pública. De que modo resistir a tamanha dor e tamanha vergonha? Na sala dos retratos, onde lado a lado figuravam os antepassados (quatro com o bastão de Marechal de França) o visconde estoura os miolos no momento exato em que pisavam as escadarias do castelo as autoridades judiciárias que iam proceder ao inventário dos bens.
Mas o amor vela. E na página 233 um moço de ciência e uma moça coxa (casados horas antes) pelo portão dos fundos deixam o castelo (já propriedade de um fabricante de conhaque) para uma vida modesta de trabalho e rica de afeição.
Meia-noite e um quarto. Joaquim Pereira entra em casa, bate na porta da filha.
- Ainda está acordada, mana Maria? Está sentindo alguma coisa?
- Nada disso. Estava lendo.
- Boa noite.
- Boa noite.
Apagou a luz. Virou do lado direito. Romance bobo. Um médico se casava com uma aleijada. E agora um médico queria casar com uma, uma, uma feia. Mas feia que sabia que era feia, não escondia sua fealdade, até aumentava, aumentava de propósito. Por que motivo?
Mana Maria se revia indo para a Escola Normal com Dejanira e Alice. Ela saia de casa, Dejanira já estava esperando na porta do n.0 53, se juntavam. dobravam a esquerda, Alice estava esperando no n.0 17, tocavam para a Escola. Com passagem forçada pelo Ginásio Piratininga. Onde as gracinhas choviam. Tetéias, diziam. Tetéias. Dejanira e Alice fingiam que não gostavam. Mana Maria gostava sem fingir que não. Aos poucos porém foi percebendo que as tetéias eram duas com exclusão sua. Dois ginasianos mais ousados passaram a se dirigir diretamente a Dejanira e Alice. Mana Maria propôs:
- Vamos passar agora pela outra calçada.
Mas as amigas não concordaram. Mana Maria não insistiu. E se remoeu de despeito.
Um dia não encontrou Dejanira na porta do 53. Tocou a campainha, a mãe de Dejanira informou que ela já tinha saído. Dobrou a esquina. não viu Alice no número 17. E a irmãzinha informou que Alice já tinha saído. Na calçada do Ginásio Piratininga os estudantes formavam grupinhos. Mana Maria passou por eles completamente despercebida.
Junto de uma árvore, a um quarteirão da Escola, havia dois casais parados. Mana Maria reconheceu logo os namorados. Sentiu um peso nas pernas. Passava fingindo não ver? Passava. Com o rosto em fogo passou. Dejanira chamou:
- Maria!
Nem se virou. E a explicação na Escola foi um sofrimento para ela. Não tem importância, dizia. Na saída viu os dois estudantes no mesmo ponto em que de manhã os descobrira com as amigas. Disse para elas:
- Até logo!
E sem querer ouvir o que elas falavam passou pelos moços já de chapéu na mão (era de ironia o olhar que lhe dirigiram, cachorros), apressou cada vez mais o passo, chegou ofegante em casa. Daí por diante ia sozinha para a Escola e sozinha voltava para casa. Pensou mil vinganças, cartas anônimas avisando os pais por exemplo. Mas atentou na mesquinhez delas e desistiu. Entretanto sua amizade com Dejanira e Alice esfriou. Mal se cumprimentavam passados poucos dias. Deu então de reparar na atitude indiferente dos homens para com ela. Indiferente - ou respeitosa? Dava no mesmo. Quantas vezes ela andava, um, dois, três, quarteirões atrás de uma saia qualquer, uma, italianinha suja, uma mulatinha até, ouvindo os gracejos que dirigiam para a italianinha, para a vagabunda. Ela não ouvia nenhum. E o mais esquisito é que quando mana Maria se aproximava muitas vezes os gracejos dirigidos à italianinha ou à mulatinha cessavam. Por respeito dela, mana Maria. Isso lhe dava um amargor e ao mesmo tempo um orgulho indefiníveis. Era respeitada. Não era desejada.
Foi ai que se tornou a primeira de sua classe. O que perdia por um lado, queria ganhar por outro. E ganhava. Também se tornou severa para as mulheres, no juízo e no trato. Umas levianas e umas idiotas. E se maltratava. Até em frivolidades. Era Filha de Maria. Um pequeno sacrifício por dia, aconselhava o vigário. Vontade de se olhar no espelho e não se olhar, por exemplo. Mana Maria levava a coisa ao extremo: passava o dia inteiro sem por os olhos num espelho, sem beber água, sem comer carne. Veio nela o desejo de ser a primeira em tudo, um espírito de emulação que a levava a passar na frente de todas as mulheres que encontrava na rua. Apostava consigo mesma: Chego na esquina antes daquela gorda. E chegava. Aparentemente se masculinizou: sapatos de salto baixo, abolição do decote, supressão de jóias, mangas compridas.
Por ocasião das festas de formatura de normalista recebeu um golpe doído com a sua escolha para fazer de pai da ingênua na coméd