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Arras por Foro De Espanha

Mas embargou-lhe os passos dificuldade imprevista. Ou fosse que os acontecimentos da véspera obrigassem a maiores cautelas, não havendo ainda então exército permanente, nem guardas pagas para defensão da pessoa real, cuja melhor protecção estava na própria espada, ou fosse por qualquer outro motivo, a porta ainda se não abrira. O beguino hesitou sobre se devia retroceder para sair pela igreja, se esperar. As considerações que o tinham movido a seguir este caminho obrigaram-no a ficar. Metido no estreito e escuro vão da escada, o echacorvos assemelhava-se, envolto nas suas roupas de burel e reluzindo-lhe os olhos à meia luz que dava o pátio interior, a um moderno funcionário, que hoje, nesses mesmos paços e em desvão igual, talvez no mesmo sítio, mostra aos que entram o rosto banhado na hediondez da sua alma, esperando que a vindicta pública o convide a algum banquete de carne humana, e, no esperar atroz, rodeia com as garras os ferros do seu covil, como o tigre cativo. O espia era ali, por assim dizer, uma “pre-existência”, uma “harmonia preestabelecida” do algoz.

Passara obra de meia hora, e o beguino começava a impacientar-se mui sèriamente quando sentiu pés de cavalgadura no pátio interior do edifício. Daí a pouco, um donzel, trazendo na mão uma desconforme chave e as rédeas de valente mula enfiadas no braço, chegou à porta e começou a abri-la. Era um dos donzéis de el-rei. Costumado a disfarçar a sua frequente entrada no paço sob a capa da mendicidade, e habituado a estender a mão à espera de alguns soldos que devotamente lhe atiravam senhores, cavaleiros e escudeiros, ao que ele retribuia com alonga lenda das suas orações em aleijado latim. Frei Roy era aceito a quase todos os moradores da casa de el-rei, que respeitavam a sua aparente santidade. Por isso, saindo do seu desvão, encaminhou-se para a porta.

A madre Santa Maria vos guarde de mau olhado, de feitiços e de ligamentos - disse ele, chegando-se ao donzel e fazendo sobressair esta última palavra.

- Vós aqui, Frei Rou, por estas horas? - replicou o donzel, voltando-se admirado.

- Que quereis! - tornou o beguino. - Quando ontem os malditos burgueses acometeram os paços reais com a sua grita e revolta, estava eu aqui. Ai que medo tive! Escondi-me naquela desvão, e quando se fecharam as portas achei-me encurralado cá dentro, como um emparedado em seu nicho. A minha profissão de paz e de religião não me consentia passar por meio de homens possuídos do espírito de cólera e inspirados por Belzebu, nem o susto me deixava ânimo desafogado para ir roçar o burel do meu santo hábito pelos trajos empestados dos filhos de Belial. Também a humildade e mortificação cristã se opunham a que eu subisse a pedir gasalhado a algum de vós outros, os moradores da casa de nosso senhor el-rei. Assim, louvando a Deus por me concedor uma noite de padecimento, ali me deixei ficar sobre as lajes húmidas, sobre as duras e agudas aresas dos degraus daquela escada. Agora, que a revolta é finda, consolado com as dores que me traspassam os ossos e confiado na providência de Jesus Cristo, vou-me ao meu giro diário, para ver se obtenho da caridade dos devotos a pitança usual com que possa matar a foma de vinte e quatro horas, pela qual dou louvores ao justo juiz, que reina eternamente nos altos céus.

O beguino revirou benignamente os olhos e fez uma visagem entre aflita e resignada, levando ao mesmo tempo a mão ao joelho, como se ali sentisse dor agudíssima.

- Venerável Frei Roy! - atalhou o donzel, com as lágrimas nos olhos -, se tivésseis procurado o aposento dos donzéis, nós vos daríamos, ao menos, um almadraque para repousar e repartiríamos convosco da nossa ceia. Mas o mal está feito, e o pior é que para hoje não vos posso oferecer abrigo. Vós credes, santo homem que a revolta é finda, e nunca ela esteve mais acesa. Sua senhoria vai partir já da cidade...

- Santa Maria vale! Santo nome de Jesus! Acorrei-nos, Virgem bendita! - interrompeu Frei Roy. - Pois os populares teimam em sua assuada, e el-rei deixa-nos aos coitados de nós, humildes religiosos e cidadãos pacíficos, entregues ao furor dos peões?

- E que remédio, bom Frei Roy?! - replicou tristemente o donzel. - Sem cavaleiros, escudeiros e besteiros não se faz guerra, nem se desfazem assuadas, e nada disto tem el-rei. Agora vou eu ao rossio de São Domingos avisar os senhores do conselho, os privados e fidalgos que lá estão, que sigam caminho de Santarém, sob pena de incorrerem em caso de traição, se ficarem em Lisboa: por sinal que el-rei me recomendou procurasse avisar primeiro que ninguém sua mercê o infante Dom Dinis.

- No rossio de São Domingos, dizeis vós? - tornou o beguino, arregalando os olhos. - Confesso que vos não entendo.

Durante este diálogo o donzel tinha acabado de destrancar a porta do paço, cavalgado na mula que trazia a rédea e saído ao terreiro seguido de Frei Roy, que coxeava, estorcia-se e suspirava dolorosamente de quando em quando. Passo a passo e sofreando a mula, caminho da Sé, o pajem narrou ao beguino todas as particularidades sucedidas aquela manhã, as quais Frei Roy sabia melhor do que ele. Chegados defronte dos Paços do Concelho, o pajem tomou pelo sopé da alcáçova e Frei Roy pela Porta do Ferro não sem terem primeiro saído da bolsa do donzel para a manga do beguino alguns pilartes, e da boca deste para os ouvidos daquele alguns latinórios pios devidamente escorchados.

Apenas passara o largo da Sé e transpusera a velha e soturna Porta do Ferro, Frei Roy tinha-se achado perfeitamente são do seu violento reumatismo. Ligeiro como galgo, desceu por entre as antigas terecenas reais, e em menos de três credos estava no pelourinho. Aí viu cousa que o fez parar.

Um homem vestido de valencina, e coberta a cabeça com um grande feltro, arengava a um troço de besteiros e peões armados de lanças ou ascumas, de almárcovas ou cutelos: tinha nas mãos um desconforme montante e na cinta uma espada curta. A turba ora o escutava atentamente, ora prorrompia em gritos confusos e estrondosos. Frei Roy chegou-se. O homem do feltro amplo era o mestre tanoeiro Bartolomeu Chambão, que, entusiasmado, prosseguia o seu veemente discurso, sem reparar no beguino:

- Já vo-lo disse: daqui ninguém bole pé antes de el-rei nosso senhor sair para São Domingos. Nada de bulha fora de sazão, que lá estão os esculcas. Daremos mostra ao poço quando aí for só a adúltera. Se, como ontem, nos fecharem as portas, isso é outro caso. É preciso que isto se desfaça. A cobra peçonhenta deve sair da toca. Não digo que então não seja possível esmargar-se-lhe a cabeça... Num brandir de ascuma... Mas cautela, não haja sangue!... Pelo menos de inocentes... Leais e esforçados cidadãos desta mui leal cida... Safa, bruto!

Esta peroração inesperada com que mestre Bartolomeu interrompera o seu discurso, que se ia elevar ao ápice da eloquência, procedera de lhe ter descido a grossa e espaçosa mão do echacorvos sobre o ombro, que lhe vergara, como se houvessem descarregado em cima dele uma aduela de cuba. A Frei Roy ocorrera uma ideia abençoada, a de comunicar a mestre Bartolomeu a nova que Dª Leonor lhe recomendara espalhasse entre os amotinados; a nova da sua partida de Lisboa com el-rei. O mendicante sabia que o tanoeiro era de bofes lavados, e que, dentro de meia hora não só a ser visto no rossio pelo donzel, de quem naquele instante se apartara, mas também a achar-se envolvido em qualquer desordem que semelhante notícia pudesse produzir, atenta a irritação dos ânimos. Além disso, a lembrança do arrepio dorsal que as últimas palavras de Dª Leonor lhe tinham causado fazia-lhe quase desejar que o tanoeiro, encarregado (segundo percebera do fim da sua arenga) da comissão que, na taberna de Folco Taca, Diogo Lopes incumbira a Fernão Vasques, pudesse ainda desempenhá-la, atalhando a fuga de Dª Leonor. Estas considerações, que lhe haviam passado ràpidamente pelo espírito, e o ver que mestre Bartolomeu não levava jeito de concluir moveram-no a falar ao tanoeiro, que só o sentira quando ele lhe descarregara sobre o ombro a ponderosa, mas amigável, palmada.

- Com mil e quinhentos satanases! - exclamou mestre Bartolomeu, voltando-se e vendo ao pé de si o beguino. - Sabia que a mão da Santa Madre Igreja era pesada; mas não pensava que o fosse tanto! Que me quereis, Frei Roy?

- Dizer-vos que podeis mandar sair vossos esculcas de sua atalaia; porque poderiam chegar a curtir o Inverno aí, antes de verem el-rei chegar e passar para São Domingos.

- Frei Roy - replicou o tanoeiro, fazendo-se vermelho de cólera -, para interromper-me com uma de vossas bufonarias, não valia a pena de me aleijardes este ombro!

- Tomai como quiserdes as minhas palavras; chamai-me o que vos aprouver, bufão ou mentiroso, mas a verdade é que não será hoje que os populares falarão com el-rei.

- Pois quê, morreu dos feitiços da adúltera ou tornou-o invisível algum encantador seu amigo?!

- Nem uma cousa, nem outra: mas, com estes olhos de grande pecador (aqui o echacorvos fez o gesto habitual de cruzar as mãos sobre o peito) eu o vi sair para a banda da Porta da Cruz...

- Frei Roy, olhai que estes honrados cidadãos vos escutam e que o auto é mui grave para gastar truanices.

- Já disse, mestre Bartolomeu, que falo verdade. Pelo bento cercilho do santo padre vos juro que, hoje, el-rei não dormirá em Lisboa, segundo o jeito que lhe vejo. Ele cavalgava uma possante mula de caminho; noutra ia uma dona coberta com um longo véu: seguiam-no donzéis, falcoeiros e moços de monte. Ao passar, ainda lhe ouvi estas palavras: Olhai aqueles vilãos traidores como se juntavam: certamente prender-me quiseram, se lá fora!” Não pude perceber mais nada. Que mais, porém, é preciso? Deixastes fugir a preia: agora catai-lhe o rasto.

- Traidor é ele, que nos há mentido, como um pagão! - bradou o tanoeiro, sopesando o montante. - Mas que se guarde de outra vez trazer a Lisboa a adúltera! Rainha ou barregã, arrancar-lhe-emos os olhos. A arraia-miúda foi escarnida; mas não o será em vão. Que dizeis vós outros, honrados burgueses?

- Escarnidos, escarnidos! - respondeu com grande grito o tropel. - Mas, à fé, que nunca a adúltera será rainha de Portugal. Morra a comborça!

E no meio do alarido, as pontas das lanças e os largos ferros das almárcovas agitadas nos ares cintilavam aos raios do sol oriental, como vasto brasido.

- A São Domingos! - gritou mestre Bartolomeu. - Vamos, rapazes: já que não fazemos aqui nada, ao menos que o povo não seja por mais tempo burlado!

E, pondo o montante às costas, mestre Bartolomeu tomou por uma das ruas que davam para a banda de Frei Roy, que procurava retê-lo, ponderando que ainda poderia alcançar el-rei e fazê-lo retroceder. O tanoeiro, porém, não tinha valor para afrontar-se face a face com D. Fernando, e por isso fingiu não ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos se achou só no meio do terreiro calado e deserto.

Entretanto, junto a S. Domingos, se bem que a rixa começada entre os nobres partidários de Dª Leonor e Fernão Vasques se houvesse desvanecido, a agitação dos populares, cujo número crescia contìnuamente, não tinha diminuído. Encostado a um dos pilares do alpendre, o alfaiate, ora lançava os olhos de revés para os senhores da Corte e conselho, que, esperando por el-rei, passeavam de um para outro lado, ora os espraiava por aquele mar de vultos humanos, que ele sabia poder agitar ou tornar imóveis com uma palavra ou com um simples aceno. Semelhante à hora que precede a procela, em que apenas se vêem correr na atmosfera abafada os castelos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o estourar dos trovões roufenhos e prolongados, aquela hora que então passava era espantosa e ameaçadora de estragos, sobretudo quando, após um rugido terrível do tigre popular, se fazia na praça, apinhada de gente, um silêncio ainda mais temeroso e tétrico.

Foi numa destas interrupções do motim que um pajem, saindo ao galope do lado da Corredoura, veio apear-se junto do alpendre e, tirando da cinta um pergaminho aberto, o entregou ao infante D. Dinis.

Este fitou os olhos na escritura, descorou sùbitamente e passou o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo em voz baixa:

- Estamos perdidos!

Diogo Lopes leu o conteúdo daquele escrito fatal e, no mesmo tom, respondeu ao infante:

- O caminho de salvação que nos resta é o de Santarém. Obediência e circunspecção!

O pergaminho passou ràpidamente de mão em mão: os fidalgos, letrados e cavaleiros fizeram um círculo no meio do alpendre: e, depois de o haverem lido, fitaram uns nos outros olhos desassossegados. Todos receavam falar. O manhoso Pacheco foi o primeiro que se atreveu a isso, aproveitando hàbilmente a hesitação dos outros fidalgos e conselheiros.

- Vistes a ordem de el-rei. Como um dos mais velhos entre vós, direi meu parecer. Embora o risco seja grande, achando-nos cercados de povo armado e furioso, o nosso dever é pôr a vida por obedecer a nosso senhor el-rei.

- Mas - atalhou o doutor Gil d’Ocem, que por mui letrado e prudente, era ouvido como oráculo pelos cortesãos -, o caso é grave: o povo, se nos vir retirar, enviar-se-á a nós; se lhe dizemos o motivo da nossa partida, é capaz de desconcertos maiores que os já cometidos. Sua senhoria não devera ter-nos emprazado para este auto, se a sua intenção era não dar resposta aos populares.

Visìvelmente, o doutor ëm leis e degredos” estava tomado de medo, no que não levava vantagem à maior parte dos outros membros do conselho real.

O conde de Barcelos guardava silêncio. Não podia conceber como Dª Leonor o não avisara a tempo, e por isso preocupava-o a indignação, ignorando que a resolução da fuga fora tomada mui tarde. Na véspera ela aconselhara a el-rei que cedesse a tudo quanto o povo quisesse; porque, dissolvido o tumulto, fácil era chamar à Corte os senhores e cavaleiros de mais confiança, acompanhados de gente de guerra, com que seria sopitado qualquer motim, se os populares ousassem opor-se aceitara o conselho, que, se não era o mais leal, era, ao menos, o mais seguro; mas as revelações do echacorvos, que o conde ignorava, tinham mudado, como o leitor viu, a situação do negócio.

A reflexão de Gil d’Ocem estava em todas as cabeças e por isso os cortesãos ficaram outra vez em silêncio, como buscando um expediente para sair daquele dificultoso passo. A incerteza, o despeito, o receito pintavam-se nos rostos demudados de muitos.

E as vagas do oceano que ameaçava tragá-los encapelavam-se aos pés deles: o povo, vendo os fidalgos erguidos, calados e em círculo, apinhava-se, cada vez mais basto, ao redor da alpendrada. Isto fazia crescer o temor, e o temor perturbara demais os ânimos para não poderem achar um expediente acertado.

Era por isso que esperava o astuto Pacheco.

- De um lado a cólera do povo: do outro os mandados de el-rei - disse, apertando com a mão a fronte, o velho conselheiro de Afonso IV. - Resta-nos só um arbítrio.

- Dizei, dizei! - clamaram a um tempo todos, à excepção do conde de Barcelos, que fitou nele os olhos desconfiados.

- É necessário que anunciemos a nova da partida de el-rei e que sejamos os primeiros a afear este procedimento: é necessário que vamos adiante da indignação dos peões. Depois, dir-lhes-emos que, burlando como eles, nada fazemos aqui. Então apartar-nos-emos sem custo e sairemos da cidade como pudermos, na certeza de que não serei eu o último, apesar de velho, que cruze as portas da Alcáçova de Santarém.

- Mas quem há-de falar em nosso nome? - perguntou Gil d’Ocem.

- No vosso, mestre Gil das Leis! - interrompeu o conde de Barcelos. - Nem o receito das afrontas de alguns milhares de sandeus nem o da própria morte me obrigariam a cuspir maldições sobre o nome daquele a quem uma vez jurei preito e leal menagem.

- Vitam impendere vero nemo tenetur replicou Gil d’Ocem -, ou, como quem o dissesse por linguagem, ninguém é obrigado a deixar-se matar por amor da verdade ou de seu preito. Vós fazei o que vos aprouver.

À autoridade de um texto latino, trazido assim a ponto por tão insigne doutor, não havia resistir. Os fidalgos e conselheiros aprovaram, unânimemente, o alvitre de Diogo Lopes.

- Mas quem há-de falar ao povo? - insistiu o mestre em leis, que não parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa gloriosa tarefa.

- Eu, se assim o quiserdes - replicou imediatamente Diogo Lopes.

O manhoso cortesão vira claramente que a partida de el-rei transtornava todos os seus desenhos: todavia calculara num momento como, sem suscitar a indignação de Fernão Vasques, e por consequência alguma revelação perigosa, podia salvar-se e ao infante. Logo que el-rei se esquivara à influência do povo, de cuja ousadia o velho esperava tudo, o casamento de Dª Leonor era inevitável, e ainda supondo, o que não era de esperar, que o tumulto fosse avante, e que Lisboa se rebelasse claramente contra D. Fernando, o resultado favorável a el-rei, senhor do resto de Portugal, que ao povo, desprovido naquela conjuntura dos principais meios com que poderia sustentar uma luta intestina. Assim, o alvitre que oferecera para a salvação dos cortesãos era só para se haver se salvar a si, conservando ao mesmo tempo a afeição dos cabeças da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse decair da graça de D. Fernando.

Para os cálculos de Diogo Lopes faltara, porém, um elemento: era a delação do beguino, e era justamente esta falta que os destruía todos. Assim é a política.

O “sacrifício” de Diogo Lopes foi geralmente recebido com aprovação e agradecimento. Então ele, saindo do círculo, aproximou-se `de Fernão Vasques, que, de quando em quando, volvia os olhos inquietos para a pinha dos fidalgos e cavaleiros.

- Falhou a traça - disse o velho cortesão em voz sumida ao alfaiate. - El-rei acaba de sair da cidade.

Fernão Vasques recuou, e pôs-se a olhar espantado para Diogo Lopes, como quem não acreditava o que ouvia.

- O que vos digo é a verdade - continuou Pacheco. - Mas não afrouxar! El-rei de Castela é por nós, e bom número de fidalgos portugueses o são também. Mas: são por nós a maior parte dos que ora aqui vedes presentes. Conservai o bom ânimo do povo, fiai o resto de mim e... de quem vós sabeis.

Ao pronunciar estas palavras, Diogo Lopes lançou de relance os olhos para D. Dinis.

- Mas el-rei tomará por mulher, Dona Leonor - acudiu o alfaiate aterrado -, voltará a Lisboa com seus cavaleiros e homens de armas, e, então, coitados de nós!

- Não temais: o matrimónio adúltero será condenado pelo papa. Vós já tereis ouvido contar o que sucedeu a el-rei Dom Sancho: a Dom Fernando pode suceder o mesmo. Também os fidalgos de Portugal têm homens de armas. Podeis estar certos de que não vos abandonaremos. Agora resta uma cousa. Coube-me a mim dar esta triste nova aos bons e leais burgueses, que tão ousadamente se opuseram à desonra da sua terra e de seu rei, e eu devo ser ouvido por eles. Mandai-lhes que façam silêncio.

Fernão Vasques obedeceu: o ruído dos populares, que não descontinuara durante esta cena, acalmou a um aceno do alfaiate.

Diogo Lopes fez então um largo discurso, com o qual não cansaremos os leitores, e cujo assunto fácil é de adivinhar. Misturando amargas repreensões contra D. Fernando com lisonjas aos populares, procurou persuadi-los, posto que indirectamente, de que toda a fidalguia estava cheia de indignação. Aludiu à resistência por armas que el-rei podia encontrar entre os ricos-homens de Portugal contra o seu casamento, e, no caso de vir ste a cabo, a probabilidade de ser anulado pelas censuras da Igreja. Enfim, sem nunca lhes dizer claramente que insistissem na revolta e tratassem, se fosse preciso, de defender a cidade contra o poder real, suscitou todas as ideias que podiam levar os populares a este excesso. Faltava o ponto dificultoso: o da partida dos fidalgos. Pacheco soube com a mesma ambiguidade dar esperança aos peões de que se encaminhavam para as suas alcaidarias e honras, com o louvável intento de se aperceberem em socorro dos burgueses de Lisboa, e com tal arte o fez que os senhores e cavaleiros que se achavam em S. Domingos, sem exceptuar o próprio conde de Barcelos, não viram nas suas palavras senão uma feliz inspiração para os salvar da cólera da arraia-miúda.

Durante aquela larga arenga, esta guardara silêncio, interrompido a espaços por um desses burburinhos que são como os anúncios das erupções do vulcão popular. Pacheco, enfim, concluiu: mas o espectáculo que tinha diante de si fê-lo ficar imóvel por alguns momentos, e estes foram terríveis. Aqueles centenares de olhos avermelhados, cintilantes de furor, cravados nele e nos outros fidalgos; aquelas bocas semiabertas, prestes a prorromper em brados de morte, eram como um pesadelo diabólico, como uma vertigem de loucura. Os populares pareciam ainda escutá-lo, e não puderam acreditar a deslealdade de D. Fernando de Portugal.

Os fidalgos aproveitaram esse instante de torpor moral que precedia a procela. Desceram da alpendrada e, montando nas suas possantes mulas, encaminharam-se vagarosamente para a banda da Corredoura. No meio da cavalgada, e rodeado dos cavaleiros mais benquistos do povo, ia o conde de Barcelos, e Diogo Lopes com os seus pajens fechava o séquito. Se houvessem atravessado a praça, o conde teria corrido grande risco; porque, ao dobrar o ângulo do mosteiro, já os doestos grosseiros e violentos voavam contra ele do meio do povo apinhado, e, até, dois virotes de besta pareceu sibilarem por cima da sua cabeça. Mas, apertando os acicates, os cavaleiros seguiram ao longo da Corredoura, enquanto Diogo Lopes, vitoriado pelas turbas, a quem com sorrisos retribuía aquelas mostras de afecto, obstava a que as ondas populares rodeassem o diminuto número de cortesãos, alguns dos quais tinham fundados motivos para recear a irritação desses animais ferozes, exaltados pela fuga de el-rei.

A cavalgada havia desaparecido, quando um trocó de besteiros e peões desembocou do lado da Rua Nova. Eram mestre Bartolomeu e a sua gente, que vinham confirmar a nova dada por Diogo Lopes Pacheco.

Mas as palavras que Frei Roy dissera ter ouvido proferir a el-rei, lançadas entre os amotinados como um facho sobre montão de lenha por onde lavra há muito fogo oculto, levaram o tumulto a ponto medonho. As afrontas, que até aí quase só se encaminhavam contra Leonor Teles e seus parentes, voltaram-se contra D. Fernando. As maldições, as pragas, os nomes de traidor e covarde ajuntavam-se às mais violentas ameaças. Uns juravam que nunca mais ele entraria em Lisboa; outros propunham que se lançasse fogo aos paços reais. Debalde Fernão Vasques trabalhava por aquietá-los; nem já escutavam o seu ídolo. Furiosos, espalhavam-se pelas ruas, que atroavam com gritos, brandindo as armas; e por certo que, se neste momento D. Fernando lhes tivesse aparecido, não teriam, talvez, respeitado a vida do filho do seu tão querido D. Pedro I, o mais popular de todos os nossos reis, chamados da primeira dinastia.

Este motim sem objecto, sem resistência, e sem resultado, acalmou nesse mesmo dia. Ao anoitecer, a cidade tinha caído no seu habitual silêncio, e, pouco a pouco, os fidalgos e cavaleiros, atravessando as Portas da Cruz, seguiam caminho de Santarém. O sistema militar dos antigos partos dera a vitória a el-rei: ele vencera fugindo!

O povo adormeceu: os cabeças da revolta estavam irremediàvelmente perdidos.

VI

Uma barregã rainha

O Douro é bem carregado e triste! A sua corrente rápida, como que angustiada pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem, volve águas turvas e mal-assombradas. Nas suas ribas fragosas raras vezes podeis saudar um sol puro ao romper da alvorada, porque o rio cobre-se durante a noite com o seu manto de névoas, e, através desse manto, a atmosfera embaciada faz cair sobre a vossa cabeça os raios do sol semimortos, quase como um frio reflexo de lua ou como a luz sem calor de tocha distante. É depois de alto dia que esse ambiente, semelhante ao que rodeava os guerreiros de Ossian, vos desoprime os pulmões, onde muitas vezes tem depositado já os germes da morte. Então, se, trepando a um pináculo das ribas, espraiais os olhos para a banda do sertão, lá vedes uma como serpente imensa e alvacenta, que se enrosca por entre as montanhas, e cujo colo está por baixo de vossos pés. É o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as águas que o geraram. O horizonte, até aí turvo, limitado, indistinto, expande-se ao longe: recortam-nos os cimos franjados das montanhas, que parecem engastadas na cortina azul do céu, e a terra, a perder de vista, afigura-se-nos como um mar de verdura violentamente agitado; porque em desenhar as paisagens do Douro a natureza empregou um pincel semelhante ao de Miguel Ângelo: foi robusta, solene e profunda.

Como sobre um circo convertido em naumaquia, o Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de três províncias e tendo nas mãos as chaves dos haveres delas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada. Mas não o julgueis antes de o tratar familiarmente. Não façais cabedal de certo modo áspero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o à prova, e achar-lhe-eis um coração bom, generoso e leal. Rudeza e virtude são muitas vezes companheiras; e entre nós, degenerados netos do velho Portugal, talvez seja ele quem guarda ainda maior porção da desbaratada herança do antigo carácter português no que tinha bom, que era muito, e no que tinha mau, que não passava de algumas demasias de orgulho.

Nos fins do século décimo quarto, o Porto ia ainda longe da sorte que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza estava no carácter dos seus filhos, na sua situação e nas mudanças políticas e industriais que depois sobrevieram em portugal. Posto que nobre e lembrado como origem do nome desta linhagem portuguesa, os seus destinos eram humildes, comparados com os da teocrática Braga, com os da cavaleirosa Coimbra, com os de Santarém, a cortesã, com os de Évora, a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora, guerreira e turbulenta. Quem o visse, coroado da sua catedral, semiárabe, semigótica, em vez de alcácer ameiado; sotoposto, em vez de o ser a uma torre de menagem, aos dois campanários lisos, quadrangulares e maciços, tão diferentes dos campanários dos outros povos cristãos, talvez porque entre nós os arquitectos árabes quiseram deixar as almádemas das mesquitas estampadas, como ferrete da antiga servidão, na face do templo dos nazarenos; quem assim visse o “burgo” episcopal do Porto, pendurado à roda da igreja e defendido, antes por anátemas secerdotais que por engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria um empório de comércio, onde, dentro de cinco séculos, mais que em nenhuma outra povoação do Reino, a classe, então fraca e não definida, a que chamavam burgueses, teria a consciência da sua força e dos seus direitos e daria a Portugal exemplos singulares de amor tenaz de independência e de liberdade.

A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais de uma légua, desde o Seminário até além de Miragaia ou, antes, até à Foz, pela margem direita do rio, entranhando-se amplamente para o sertão, mostrava ainda nos fins do século décimo quarto os elementos distintos de que se compôs. Ao oriente, o “burgo do bispo”, edificado pelo pendor do monte da Sé, vinha morre nas hortas que cobriam todo o vale onde hoje estão lançadas a Praça de D. Pedro e as Ruas das Flores e de S. João e que o separavam dos Mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco. Do poente, a povoação de Miragaia, assentada ao redor da Ermida de S. Pedro, trepava já para o lado do Olival e vinha entestar pelo norte com o couto de Cedofeita e pelo oriente com a vila ou burgo episcopal. A Igreja, o Município e a Monarquia, entre esses limites pelejaram por séculos as suas batalhas de predomínio, até que triunfou a Coroa. Então a linha que dividia as três povoações desapareceu ràpidamente debaixo dos fundamentos dos templos e dos palácios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade monárquica.

Era neste burgo eclesiástico, nesta cidade nascente, que por formoso dia de Janeiro da era de César de 1410 (1372) se viam varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e tortuosas ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo fundado ou restaurado pelos Gascões, se não mentem memórias remotas. Na Rua do Souto, já assim chamada, talvez pela vizinhança de algum bosque de castanheiros, como principal entrada da povoação, andavam as danças judengas e folias mouriscas com músicas e trebelhos ou ogos, por entre o povo vestido de festa, o que era indício evidente de que se esperava el-rei, cuja vinda a qualquer povoação era o único motivo legal para fazer dançar e foliar judeus e mouros, que, decerto, não folgavam nada com estes forçados e dispendiosos sinais de contentamento público.

Com efeito, uma numerosa e esplêndida cavalgada vinha da banda do bailiado de Leça. El-rei D. Fernando ajuntara em Santarém os seus ricos-homens e conselheiros e, amestrado por Leonor Teles na arte de dissimular, recebera com todas as mostras de boa-vontade o infante D. Dinis e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior disfarce, não escasseara mercês. Depois, em folgares e caçadas vagueara pelo Reino com Dª Leonor, até que em Eixo fizera um como manifesto da resolução que tomara de a receber por mulher, o que neste dia cumprira na antiga igreja daquela célebre comenda dos Hospitalários. Era, pois, para celebrar esse matrimónio adúltero, agourado pelas maldições populares, que o bispo D. Afonso, menos escrupuloso que o povo de Lisboa acerca de adultérios, vestia de festa o seu mui canónico burgo.

A cavalgada que se vira descer ao longo do vale já atravessava o rio da vila pela ponte do Souto e encaminhava-se para uma antiga porta da povoação primitiva, porta conhecida ainda hoje, como então, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito de el-rei ia Dª Leonor, a rainha de Portugal: ele montando em um cavalo de guerra; ela em um palafrém branco, levado de rédea desde a entrada da ponte pelo infante D. João, que familiarmente falava e ria com a formosa cavaleira. Da banda esquerda, o bispo D. Afonso, curvado e enfraquecido pela velhice, oscilava e fazia cortesias involuntárias a cada passada da mansíssima e veneranda mula episcopal. Junto ao velho prelado, o infante D. Dinis caminhava em silêncio, e no aspecto melancólico do mancebo divisava-se quão profunda tristeza lhe consumia o coração, vendo-se como atado ao carro triunfal da mulher que pouco a pouco se convertera em sua irreconciliável inimiga. Após estas principais personagens, via-se uma grande multidão de cavaleiros, clérigos, cortesãos, conselheiros, juízes da Corte; companhia esplêndida, por entre a qual brilhava o ouro, a prata e as variadas cores dos trajos de festa, que sobressaíam no chão negro das vestiduras roçagantes dos magistrados e clérigos. Adiante de el-rei, as danças dos mouros e judeus volteavam rápidas, ao som da viola ou alaúde árabe, das trombetas e das soalhas. Segundo o antigo uso, seguiam-se às danças coros de donzelas burguesas, que celebravam com seus cantos o amor e ventura dos noivos.

Mas esse canto tinha o quer que era triste na toada. Triste era, também, o aspecto dos populares, que, sem um só grito de regozijo, se apinhavam para ver passar aquele préstito real. Mil olhos se cravavam no infante D. Dinis, cujo rosto melancólico revelava que os seus pensamentos eram acordes com os do povo, que por toda a parte não via neste consórcio senão um crime e uma fonte de desventuras. Os cortesãos, porém, fingiam não perceber o que se passava à roda deles e pareciam trasbordar de alegria. Muitos eram daqueles que mais contrários haviam sido aos amores de el-rei, mas, que, vendo, enfim, Dª Leonor rainha, voltavam-se para o sol que nascia e calculavam já quantas terras e que soma de direitos reais lhes poderia render da parte de um rei pródigo a sua mudança de opinião.

Entre estes não se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado ao trato da Corte por largos anos, experimentado em todos os enredos dos paços, hábil em traduzir sorrisos e gestos, palavras avulsas e discursos fingidos, não tardara em perceber que as mercês e agrados de el-rei e de Dª Leonor encobriam intentos de irrevogável vingança. Conhecendo que a sedição popular fora inútil e que, ainda renovada com mais fúria, não poderia resistir às armas de D. Fernando, havia-se afastado da Corte e, posto que só nos fins desse ano ele passasse a servir o seu antigo protector e amigo, D. Henrique de Castela, buscara entretanto esquivar-se ao ódio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa opinião entre o vulgo.

Abandonado assim do seu guia, o infante D. Dinis sofrera resignado um sucesso que não podia embargar; mas, digno filho de D. Pedro, conservara intacta a sua má vontade a Dª Leonor. Desamparado dos seus parciais, vendo, se não traída, ao menos quase morta e inactiva a aliança de Pacheco, e, para maior desalento, seu irmão mais velho, o infante D. João, ligado com essa mulher, da qual este príncipe mal pensava então lhe viria a última ruína; no meio de tantos desenganos, o infante, a princípio tímido e irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentira girar-lhe nas veias o sangue paterno. Obrigado a seguir a Corte, nunca Dª Leonor achara um sorriso nos seus lábios; nunca o vira conter diante dela um só sinal de desprezo. Assim, a cólera de el-rei contra seu irmão havia chegado ao maior auge, e os cálculos de fria e paciente vingança estavam resolvidos no ânimo de Leonor Teles.

A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a Porta de Vandoma, que em parte ainda subsiste, e passado em frente da Sé, junto da qual se dilatavam os paços episcopais. Aí as danças e folias pararam e fizeram por um momento silêncio. Então o infante D. João, tomando nos braços a formosa rainha, apeou-se do palafrém, e, após ela, el-rei saltou ligeiro do seu fogoso e agigantando ginete. Dentro em pouco toda a comitiva tinha desaparecido no profundo portal dos paços, e os donzéis conduziam os elegantes cavalos, as mulas inquietas e os mansos palafréns para as vastas e bem providas cavalariças do mui devoto e poderoso prelado da antiga Festabole.

O aposento principal dos paços, quadra vasta e grandiosa, estava de antemão ornado para receber os hóspedes reais do velho bispo D. Afonso. Um trono com dois assentos de espaldas indicava que a ele ia subir, também, uma rainha. Dª Leonor entrou seguida das cuvilheiras e donzelas da sua câmara; el-rei de todos os principais cavaleiros. Viam-se entre estes o alferes-mor Airas Gomes da Silva, ancião venerável, que fora aio do rei, quando infante, o orgulhoso mordomo-mor D. João Afonso Telo, Gil Vasques de Resende, aio do infante D. Dinis, o prior da Ordem do Hospital, Álvaro Gonçalves Pereira, e muitos outros fidalgos que ou seguiam a Corte ou tinham vindo assistir às bodas reais.

Guiada por D. Fernando, Leonor Teles subiu com passo firme os degraus do trono. Como o navegante, que, afrontando temporais desfeitos por mares incógnitos e aprocelados e chegando ao porto longínquo, quase que não crê pisar a terra de seus desejos, assim esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade da sua elevação. A alma sorria-lhe a mil esperanças; a vida trasbordava nela. A seu lado um rei, a seus pés um reino! Era mais que embriaguez; era delírio. Ela sentia um novo afecto, um como desejo de perdão aos seus inimigos! Tremeu de si mesma e, convocando todas as forças do coração, salvou a sua ferocidade hipócrita, que parecia querer abandoná-la. Era severo o seu aspecto quando esses pensamentos estranhos lhe passaram pelo espírito; mas o sorriso tornou a espraiar-se-lhe no rosto quando o instinto de tigre pôde fazê-la triunfar desse momento em que a generosidade costuma acometer com violência as almas vingativas e ferozes, o momento em que se realiza a suma ventura por largo tempo sonhada.

Do alto do trono e em pé, D. Fernando estendeu a mão: o tropel de cortesãos e cavaleiros, de donas e donzelas formaram aos lados da espaçosa sala fileiras esplêndidas, imóveis e silenciosas: e el-rei volveu olhar lentos para um e outro lado e disse:

- Ricos-homens, infanções e cavaleiros de Portugal, um dos mais nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi o matrimónio: como para os outros homens, para os reis se instituiu ele; porque por ele as coroas se perpetuam na linhagem real. É por isso que eu desposei hoje a mui ilustre Dona Leonor, filha de Dom Afonso Telo, descendente dos antigos reis e ligada com os mais nobres de entre vós pelo dívido do sangue. Assim, a rainha de Portugal será mais um laço que vos una a mim como parentes, que de hoje avante sois meus. Leais, como tendes sido a vosso rei pelo preito que lhe fizestes, muito mais o sereis por este novo título. Em que pês a traidores, Dona Leonor Teles é minha mulher! Fidalgos portugueses, beijai a mão à vossa rainha.

O velho alferes-mor, Airas Gomes, aproximou-se então do trono, à voz do seu moço pupilo; ajoelhou e beijou à mão a Dª Leonor; mas o olhar que lançou para el-rei era como o de pedagogo que de mau humor se acomoda ao capricho infantil de um príncipe. Ao volver de olhos do ancião, D. Fernando corou e voltou o rosto.

O infante D. João, porém, dobrando o joelho aos pés da formosa rainha, parecia trasbordar de alegria. Contemplando-o, Leonor Teles deixou assomar aos lábios um daqueles ambíguos e quase imperceptíveis sorrisos que, vindos dela, sempre tinham uma significação profunda. Porventura que no infante D. João ela já não via mais que o precursor da humilhação de D. Dinis, do seu capital inimigo.

Após o infante, os fidalgos vieram sucessivamente curvar-se ante Dª Leonor. Boa parte deles era como capitães vencidos seguindo ao capitólio um triunfador romano. Podia com efeito dizer-se que, mau grado desses que se rojavam a seus pés, ela conquistara o trono.

Toda a comprida fileira de nobres oficiais da Coroa tinha passado e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que, menosprezando tantas frontes ilustres por valor ou ciência, por fidalguia ou riqueza, inclinadas perante ela, a mulher orgulhosa e implacável esperava cogitando no momento em que o mancebo ainda impúbere, sem renome, sem poderio, célebre só por seu berço e pelo desgraçado drama da morte de Dª Inês, viesse tributar homenagem à que representava uma papel análogo ao daquela desventurada, salvo na sinceridade do amor e na inocência da vida.

Mas esse para quem Dª Leonor mais de uma vez volvera ràpidamente os olhos considerava com os braços cruzados aquele espectáculo em perfeita imobilidade, de que ùnicamente saíra quando Gil Vasques de Resende, que estava a seu lado, se afastara, caminhando para os degraus do estrado. O mancebo apertara a mão do idoso aio, trémula da idade, com a mão ainda mais trémula de cólera. Na conta de pai o tinha; venerava-o como filho, e a ideia de o ver prostituir os seus cabelos brancos aos pés de uma adúltera o levara a esse movimento involuntário; involuntário, porque ele naquela postura e naquela hora não fazia senão coligir todas as forças da alma para salvar a honra do nome de seus avós, do nome dos reis portugueses, esquecida por um de seus irmãos e, talvez, mercadejada por outro em troco de valimento infame. O velho entendeu o que significava este convulso apertar de mão: duas lágrimas lhe caíram pelas faces; mas obedeceu a el-rei.

Só faltava D. Dinis, que continuara a ficar imóvel. Houve um momento de silêncio sepulcral na vasta sala, e este silêncio era para todos indefinido, mas terrível.

D. Fernando pôs-se a olhar fito para seu irmão, enleado, ao que parecia, em cismar profundo.

Dentro de pouco, poder-se-ia crer que todos os fidalgos que povoavam aquela vasta quadra estavam convertidos em pedra semelhante à das colunas góticas que sustinham as voltas pontiagudas do tecto, se não fosse o respidar ansiado e rápido que lhes fazia ranger sobre os peitos e ombros os seus ricos briais.

Os lábios de el-rei tremeram, como a superfície do mar encrespada pela leve e repentina aragem que precede imediatamente o tufão. Depois, entreabrindo-os, com os dentes cerrados, murmurou:

- Infante Dom Dinis, beijai a mão à vossa rainha.

Foi um só o volver de todos os olhos para o moço infante: o sussuro das respirações cessara.

D. Dinis não respondeu; encaminhou-se para o meio do aposento: parou defronte do trono e, olhando em redor de si, perguntou com sorriso de amargo escárnio:

- Onde está aqui a rainha de Portugal?

- Infante Dom Dinis! - disse el-rei, cujo rosto o furor mal reprimido demudara. - Sofredor e bom irmão tenho sido por largo tempo: não queirais que seja hoje só juiz inflexível do filho querido daquele que também me gerou! Infante Dom Dinis!, beijai a mão da mui nobre e virtuosa Dona Leonor Teles, como fez vosso irmãos mais velho, de quem deveríeis haver vergonha.

- Nunca um neto de Dom Afonso do Salado - replicou o infante, com aparente tranquilidade - beijará a mão da que el-rei seu irmão e senhor que chamar rainha. Nunca Dom Dinis de Portugal beijará a mão da mulher de João Lourenço da Cunha. Primero ela descerá desse trono e virá ajoelhar a meus pés; que de reis venho eu, não ela.

- De joelhos, dom traidor! - gritou D. Fernando, pondo-se em pé e descendo dois degraus do estrado. - De joelhos, vil parceiro de revéis sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer preito infame aos peões de Lisboa, quebra-lo-eis diante do vosso rei: quebra-lo-eis, que vo-lo digo eu!

D. Dinis viu então que todos os seus passos estavam descobertos: achava-se, por isso, à borda de um abismo. Hesitou um momento; mas lembrou-se de que era neto do herói do Salado e precipitou-se na voragem.

- Vil é a mulher barregã e adúltera, e essa é ambas as cousas. Traidor seria um rei de Portugal que assentasse o adultério no trono, e vós o fizestes, rei desonrado e maldito de vosso Deus e do vosso povo! Quem neste lugar é o vil e o traidor?

O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabeça e deixou descair os braços. Ele bem sabia que se seguia o morrer.

Apenas el-rei se alevantara, Dª Leonor, cujas faces se haviam tingido da amarelidão da morte, tinha-se erguido também. Naquele rosto, semelhante ao de uma estátua de sepulcro, apenas se conhecia o viver no profundar, cada vez maior, das duas rugas frontais que se lhe vinham juntar entre os sobrolhos.

Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Dinis, el-rei soltara um destes rugidos de desesperação e cólera humanas que nem o rugido da mais brava fera pode igualar; grito de ventríloquo, que é como o estridor de todas as fibras do coração que se despedaçam a um tempo; gemido como o do rodado ao primeiro giro do instrumento do suplício: rugido, grito, gemido, conglobados num só hiato, fundidos num som único pela raiva, pelo ódio, pela angústia - brado que só terá eco pleno no bramido que há-de soltar o réprobo quando no derradeiro juízo o julgador dos mundos lhe disser: “Para ti as penas eternas.”

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