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Arras por Foro De Espanha

do fizera tremer os mais esforçados cavaleiros que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o sangue em todas as veias.

Como um relâmpago ele tinha arrancado da cinta o agudo bulhão e, com os olhos desvairados, encaminhava-se para o meio da sala, onde seu irmão o esperava imóvel, com a mão sobre o peito, como se dissesse: “Aqui!”

Mas D. Fernando não pôde oferecer nas aras do adultério um fratricídio; uma barreira se tinha alevantado a seus pés. Era um velho de fronte calva e de longas melenas brancas e desbastadas pelos anos: era aquele que lhe fora mais que pai e que ele respeitava mais que a memória deste; era o seu alferes-mor, o venerável Airas Gomes, que, ajoelhado, lhe clamava com vozes truncadas de soluços e lágrimas:

- Senhor!, que é vosso irmão!

- É um covarde traidor, que deve morrer! Irmão!? Mentes, velho! Ele já o não é!

À palavra “mentes!” um relâmpado de vermelhidão passou pelas faces cavadas do antigo cavaleiro: abaixou os olhos e correu-os pela espada. Fora esta a primeira vez que ela ficara na bainha depois de tão funda afronta. Mas aquele era o momento dos grandes sacrifícios. Airas Gomes replicou, alimpando as lágrimas:

- Nunca vos menti, senhor, nem quando éreis na puerícia, nem depois que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou inocente, Dom Dinis é filho de meu bom senhor Dom Pedro. A vosso pai servi com lealdade; por vós já me andou arriscada a vida. Hoje tendes por defensores todos os cavaleiros de Portugal, ele é que não tem, talvez, um só. Senhor rei, ficai certo de que, para assassinar vosso irmão, vos é mister passar por cima do caáver de vosso segundo pai.

Atalhado assim o primeiro ímpeto, o carácter do moço monarca revelou-se inteiro neste momento. Comoveu-o a postura do venerando ancião, que pela primeira vez via a seus pés, e, com a irresolução pintada nos olhos, fitou-os em Leonor Teles.

Por uma reflexão instantânea, a hiena previra que o sangue derramado pelo fratricida não cairia sòmente sobre a cabeça deste, mas também sobre a dela. Naquele rosto, então semelhante ao de uma estátua, D. Fernando não pôde ler a sentença do infante, bem que lá no fundo do coração ela estivesse escrita com sangue.

Entretanto os cortesãos, que no furor rompente de el-rei haviam ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacilar, rodearam o infante. O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se, também, entre D. Dinis e el-rei, quando este arrancara o punhal, parara ao ver a heróica resolução do alferes-mor; mas, ao hesitar de D. Fernando, correra a abraçar-se com o seu pupilo, que, no meio de tantos ânimos agitados por paixões diversas, era quem ùnicamente parecia tranquilo e alheio ao terror que se pintava em todos os semblantes.

Finalmente, el-rei meteu vagarosamente o punhal no cinto e, com voz pausada, mas trémula e presa, disse:

- Que esse mal-aventurado sai de ante mim.

O tom em que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar o ânimo de D. Dinis, cujo coração, antes disso, parecera de bronze. Os olhos arrasaram-se-lhe de água. Sentira que, até então, era uma cólera cega, repentina, insensata, que o ameaçava: agora, porém, no modo e na expressão de D. Fernando vira claramente que era um amor de irmão que expirava.

Com a cabeça pendida em cima do ombro de Gil Vasques de Resende, saiu do aposento.

Era, talvez, o velho o único amigo que lhe restava no mundo.

Dª Leonor levou ambas as mãos ao rosto, e via-se-lhe arquejar o colo formoso, agitado por mal contido suspiro.

“Coração compadecido e generoso!”, pensou lá consigo o alferes-mor, que havia pouco a tratara de perto pela primeira vez.

“Hora maldita e negra, em que perdi metade de minha tão espera vingança”, pensava Leonor Teles, e o choro rebentou-lhe com violência.

- Não te aflijas, Leonor - disse D. Fernando, apertando-a ao peito. - Que nunca mais eu o veja, e viva, se puder, em paz!

Mas as lágrimas correram ainda com mais abundância e amargura.

O resto daquele dia foi triste: triste o banquete e o sarau. A atmosfera em que respirava a nova rainha tinha o que quer que fosse pesado e mortal, que resfriava todos os corações.

À meia-noite, por um claro luar de céu limpo de Inverno, uma barca subia com dificuldade a corrente rápida do Douro: à popa viam-se reluzir, nas toucas e mantos negros de dois cavaleiros que aí iam sentados, as orlas e bordaduras de ouro e prata: um dos remeiros cantava uma cantiga melancólica, a que respondia o companheiro, e dizia assim:

“Mortos me são padre e madre:

Eu tamanho fiquei.

Irmãos meus mal me quiseram.

Eu mal não lhes quererei.

Vou-me correr esse mundo;

Sabe Deus se o correrei!

A alma deixo-a cá presa;

O corpo só levarei.

De meus avós nos solares

Nasci: dous dias passei:

Meus irmãos, nada vos tenho

Senão o nome que herdei.”

Esta cantiga, cuja toada monótona repercutia nos rochedos aprumados das margens, foi interrompida por doloroso suspiro. Um dos cavaleiros o dera.

Os remeiros calaram-se: arrancaram da voga com mais ânsia e, depois, continuaram:

“Se fui rico, ora sou pobre:

Choro hoje, se já folguei:

Vilas troquei por desvios;

Muito fui: nada serei.

Sem padre, madre ou irmãos

A quem me socorrerei?

A ti, meu Senhor Jesus:

Senhor Jesus, me acorrei!”

Um gemido mais angustiado, que saiu envolto em soluços, cortou de novo a cantiga: era do mesmo que já a interrompera. O seu companheiro bradou aos barqueiros, com a voz trémula e cansada de um ancião:

- Calai-vos aí com vossas trovas malditas!

Os remeiros vogaram em silêncio; mas pensaram lá consigo que muito danadas deviam ser as almas de cavaleiros que assim maldiziam tão devoto trovar.

Repararam, porém, que, dos dois desconhecidos, o que suspirava e gemera lançara os braços ao pescoço do que falara, e que este, afagando-o, lhe dizia:

- Quando todos, senhor, vos abandonarem não vos abandonarei eu; que o devo ao amor com que vos criei e à esclarecida e santa memória de vosso virtuoso pai.

Então os barqueiros, bem que rudes, desconfiaram de que podia muito bem ser que não fossem duas almas danadas aquelas, mas sim mal-aventuradas.

VII

Juramento, pagamento

Passara mais de um ano depois do casamento de el-rei. Este casamento, que explicava o repúdio da infanta de Castela, não bastara, em verdade, para acender a guerra entre D. Henrique e D. Fernando, estando já de algum modo previsto nos capítulos adicionais do Tratado de Alcoutim. Mas, como se o desgosto que semelhante ofensa devia gerar no ânimo do rei castelhano não fosse assaz forte para servir de fermente a futuras guerras, D. Fernando suscitara novos motivos de sérias desavenças, que não particularizaremos aqui, por não virem a nosso intento. Baste saber-se que, depois de inúteis mensagens e queixas, D. Henrique de Castela, entrando sùbitamente em Portugal e tomando muitas terras fortificadas, atravessara ràpidamente a Beira, passara junto aos muros de Coimbra, onde se achava Dª Leonor Teles, e, vindo oferecer batalha a el-rei D. Fernando, que estava em Santarém e que não aceitou o combate, se encaminhara para Lisboa, cujos habitantes desapercebidos apenas tivera tempo de se acolherem aos antigos muros do tempo de D. Affonso III, de cujas torres e adarves viram os Castelhanos saquearem e queimarem o bairro mais povoado e rico da cidade, o Arrabalde, sem lhes poderem pôr obstáculo. No meio deste apertado cerco, desamparados de el-rei, que apenas lhes enviara alguns dos seus cavaleiros, os moradores de Lisboa não tinham desanimado. Com vária fortuna, haviam resistido aos cometimentos dos Castelhanos e, o que mais duro era de sofrer, à fome, à sede e, até, ao receio de traições de seus naturais. Finalmente, D. Fernando fizera uma paz vergonhosa, depois de ter suscitado uma injusta guerra, e Lisboa viu afastar dos seus muros o exército de el-rei de Castela, que a tivera sitiada durante quase dois meses.

Era nos fins de Mio de 1373, pela volta da tarde de um formoso dia de Primavera. O ar estava tépido e o céu limpo. Pelos campos e vales via-se verdejar a relva; a madressilva e as rosas bravias, enredadas pelos valados, embalsamavam a atmosfera. Mas estes eram os únicos sinais que, nos arredores de Lisboa, revelavam aquela estação suave no seu clima suavíssimo. Tudo o mais contrastava horrìvelmente com eles. Os extensos e bastos olivedos e azinhais que nessas eras a rodeavam jaziam aqui e ali por terra, como se por lá tivesse passado fouce gigante meneada por braço de ferro. Pelos outeirinhos, coroados pouco havia de vinhas frondosas, viam-se espalhadas as videiras cobertas de folhas ressecadas antes de tempo ou enegrecidas pelo fogo, assemelhando-se a gântara coberta de urzes que foi desbravada por fins do Outono. As vastas hortas que se derramavam por Valverde, trilhadas pelos pés dos cavalos, estavam incultas e abandonadas. Mas, sobre este mal-assombrado e triste chão do painel, mais melancólica e aflitiva avultava ainda a figura principal, a cidade.

O populoso bairro chamado o Arrabalde, onde, dantes, era contínuo o ruído discorde de trato imenso, achava-se convertido em montão de ruínas. Para os lados do sul e poente, não se viam, desde os antigos muros (cujo perímetro pouco mais abrangia do que o castelo e o bairro a que hoje damos geralmente o nome de Alfama), senão edifícios queimados, ruas entulhadas, praças desfeitas, vestígios de sangue, peças de armadura aboladas ou falsadas, hastilhas e ferros partidos de virotes, de lanças e de espadas, e, aqui e acolá, cadáveres fétidos, não só de cavalos, mas também de homens, cujas carnes, meio devoradas pelos cães ou pelo tempo, lhes deixavam branquejar as ossadas. Sobre os entulhos apareciam como fantasmas os servos mouros, revolvendo as pedras derrocadas, em busca de alguma preciosidade que tivesse escapado às chamas e ao inimigo; e junto às paredes negras da sinagoga os mercadores judeus, olhando para o seu bairro assolado, depenavam as barbas à roda dos rabis, que recitavam em tom de pranto os versículos hebraicos dos trenos.

Por meio deste vasto quadro de assolação rompia uma numerosa companhia de cavaleiros e damas, de donas e escudeiros, de donzelas e pajens brilhante cavalgada que descia da banda de Santo Antão para S. Domingos e tomava pela Corredoura para a Porta do Ferro. A formosura e o luxo das mulheres, as figuras atléticas e os rostos varonis dos cavaleiros, o brunido das armas, o loução dos trajos, o rico dos arreios, tudo, enfim, dava clara mostra de que naquela cavalgada vinha a mais nobre gente de Portugal. Os risos das damas, os ditos galantes e agudos dos fidalgos, o rinchar alegre dos corcéis briosos e dos delicados palafréns, as doudices dos donzéis, que, ora correndo à rédea solta, ora sofreando os cavalos, ao perpassar pelas mulas pacíficas dos cortesãos letrados, os faziam vacilar e debruçar sobre os arções, o bater das asas dos nebris e gerifaltes empoleirados nos punhos dos falcoeiros, o latir dos galgos e alãos, que, atrelados, forcejavam por se atirarem acima daqueles centenares de habitações derrocadas, de onde saía de vez em quando uma exalação de carniça: esse rir, este folgar, este ruído de contentamento, este matiz de reflexos metálicos, de cores variegadas, passando, como turbilhão, através daquele silêncio sepulcral, parecia rasgar o véu de tristeza que cobria a vasta área da cidade destruída e revocá-la a uma nova existência.

Mas o povo, apesar disso, continuava a estar triste.

A cavalgada chegou ao terreiro da Sé. Um engenho de arremessar pedras estava assentado no meio dele, e os grossos madeiros de que era construído viam-se ainda manchados de rastos de sangue. Uma dama que vinha na frente da comitiva parou: um cavaleiro de boa idade e gentil-homem, que caminhava a seu lado, parou também. A dama apontou para o engenho, disse algumas palavras ao cavaleiro e, depois, desatou a rir.

Era ela a mui nobre e virtuosa rainha Dª Leonor: ele o mui excelente e esclarecido rei D. Fernando de Portugal.

Dª Leonor tinha razão para rir.

Durante o cerco de Lisboa, uma voz, verdadeira ou falsa, se espalhara de que vários moradores da cidade estavam preitejados com el-rei de Castela para lhe abrirem uma das portas. Dava força a tais suspeitas o acharem-se no campo castelhano Diogo Lopes Pacheco e D. Dinis, que com ele se haviam ajuntado na sua entrada em Portugal, e as desconfianças recaíam naturalmente sobre aqueles que, dois anos antes, tinham seguido o partido contrário a Dª Leonor, de que o infante e o velho privado de D. Afonso IV eram cabeças. Assim a popularidade dos parciais de D. Dinis tinha diminuído consideràvelmente, porque o povo, em vez de atribuir a sua ruína a causas remotas, às paixões insensatas de Dª Leonor e à imprudência de el-rei, só nas sugestões de Diogo Lopes e do infante via agora a origem de todos os males presentes, e o ódio que contra os dois havia concebido se estendera a todos os que cria serem-lhes afeiçoados.

Apenas, portanto, se divulgou a notícia da intentada traição, o povo furioso correu às moradas daqueles que, como fica dito, lhe eram mais suspeitos. Seguiu-se uma festa de canibais, festa de vulgacho em qualquer tempo e lugar que ele reine. Aqueles que não puderam provar de modo inegável a sua inocência foram metidos aos mais cruéis tormentos, onde nenhum se confessou culpado. Um desgraçado, contra o qual eram mais veementes as desconfianças, foi arrastado pelas ruas e feito depois em pedaços: “outro - diz o cronista - tomarom e pozoromno na fumda d’huum engenho, que estava armado ante a porte da see; e quando desfechou lançouo em çima dessa igreja antre duas torres dos sinos que hi ha, e quando cahio acharomno vivo; e tomaromno outra vez e pozeromno na funda do engenho, e deitouho contra o mar, omde elles desejavom, e assi acabou sua vida”.

Era por isso que Dª Leonor olhava para o engenho e se rira. O próprio povo tinha pagado uma parte das arras do seu casamento.

A noite descera entretanto. A cavalgada parou no terreiro de S. Martinho, e à luz de muitas tochas parte daquela multidão escoou-se, pouco a pouco, por diversas ruas, enquanto outra parte subia à sala principal ou se derramava pelos aposentos dos paços, cujo silêncio de quase dois anos, depois da fuga de el-rei com Dª Leonor Teles, era a primeira vez interrompido pelo ruído de uma corte numerosa, mas bem diferente da antiga. A rainha havia quase exclusivamente chamado a ela os seus parentes ou aqueles fidalgos que lhe tinham dado provas não equívocas de sincera afeição e substituíra à severidade antiga do paço todo o brilho de luxo insensato e, o que mais era, a dissolução dos costumes, que quase sempre acompanha esse luxo. Depois de uma ceia esplêndida como o devia ser nesta corte voluptuária, apenas ficara na câmara real D. Fernando e sua mulher, o conde de Barcelos, D. João, D. Gonçalo Teles, irmão de Dª Leonor, e um donzel da rinha, filho bastardo de outro bastardo, do prior do Hospital Álvaro Gonçalves Pereira, donzel que ela mais que nenhum estimava. Estas personagens achavam-se reunidas no mesmo aposento onde, dois anos antes, o beguino Frei Roy viera revelar à então amante de D. Fernando os intentos dos seus inimigos. Era deste aposento que ela saíra fugitiva e amaldiçoada do povo. Mas era aí, também, que Dª Leonor vinha depois de tantos sustos, de tantas dificuldades vencidas, de tanto sangue derramado por sua causa, repousar triunfadora, segura já na fronte a coroa real. Tudo estava do mesmo modo, salvo as personagens, que, em parte, eram diversas e em diversa situação.

El-rei, habitualmente alegre, sentara-se triste na cadeira de espaldas, único móvel do aposento, e encostara a cabeça sobre o punho cerrado: Dª Leonor, posto que naturalmente loquaz, sentada no estrado defronte de D. Fernando, conservava-se, também, em silêncio: em pé, um pouco atrás da cadeira de el-rei, o donzel querido de Dª Leonor, com os olhos fitos nela, esperava atento as determinações de sua senhora: ao longo da sala o conde de Barcelos e D. Gonçalo Teles passeavam lentamente, conversando em voz submissa e pausada.

Mas a taciturnidade de cada uma das duas personagens principais tinha bem diferentes motivos.

A imagem da sua capital destruída havia-se embebido na alma de el-rei, como remorso cruel. Pelas sugestões de seu tio adoptivo, consentira que D. Henrique viesse livremente destruir a opulenta Lisboa. Ele, neto de Afonso IV, rejeitara os socorros de seus valorosos vassalos, que, ao esvoaçar dos pendões inimigos, de toda a parte haviam corrido, lança em punho, para combaterem debaixo da signa real: ele, cavaleiro, fora vil instrumento de vingança covarde: ele, rei de Portugal, fora o destruidor do seu povo: ele, português, recebera o nome de fraco de um castelhano, sem que ousasse desmentir a afronta! Estas ideias, que o tinham assaltado ao atravessar as ruínas dos arrabaldes, tomavam vulto e força na solidão e no silêncio. O pobre monarca, bom, mas excessivamente brando e irresoluto, tinha sobeja razão de estar triste. A Lua, que começava a subir, dava de chapa, através da janela oriental do aposento, no rosto de D. Fernando, como dois anos antes, quase a essa hora, lhe alumiara, também, as faces demudadas de aflição. Este lugar, esta luz e esta hora eram para ele funestos!

Nesse momento, passos mais rápidos e mais pesados que os dos dois fidalgos começaram a soar na sala contígua: quem quer que era passeava também.

Dos olhos de D. Fernando saíam dois ténues reflexos; eram os raios da luz que os espelhavam em duas lágrimas.

A rainha, alevantando-se então, disse ao donzel:

- Nun’Álvares Pereira, vede quem está nessa sala.

Nun’Álvares abriu a porta e, alongando a cabeça, voltou imediatamente e disse:

- O corregedor da Corte.

Os dois fidalgos pararam na extremidade do aposento, calaram-se e conservaram-se imóveis.

A rainha fez sinal com a mão a Nun’Álvares para que esperasse: o donzel ficou à porte sem pestanejar.

Dª Leonor encaminhou-se então para el-rei, que, embebido no seu profundo cismar, não vira, nem ouvira o que se fazia ou dizia. Curvando-se e firmando o cotovelo no braço da cadeira de el-rei, encostou a cabeça sobre o ombro dele, com a face unida à sua.

- Que tens tu, Fernando? - perguntou ela, com essa inflexão de voz meiga que só sabem lábios de esposa que muito ama, mas com que também soubera atinar esta mulher sublime de hipocrisia.

- Nada! ... nada! - respondeu el-rei, lançando-lhe o braço em redor do pescoço e apertando a face incendiada àquele rosto de anjo, que dissimulava um coração de demónio.

Os dois ténues reflexos da lua tinham esmorecido nos olhos de D. Fernando: o hálito de Leonor Teles queimara as lágrimas da compaixão e do remorso.

- Enganas-me ou enganas-te a ti próprio, Fernando! - replicou a rainha. - Tu és infeliz, e eu sei porque o és. Aborreces já a pobre Leonor Teles.

O tom com que estas palavras foram proferidas era capaz de partir um coração de mármore.

- Enlouqueceste, Leonor? - exclamou el-rei. - Aborrecer-te? Sem ti, este mundo fora para mim soldade, a coroa martírio, a vida maldição de Deus. Como nos primeiros dias dos nossos amores, no leito da morte amar-te-ei ainda. Glória, riqueza, poderio, tudo te sacrifiquei; não me pesa. Mil vezes que tu o queiras to sacrificarei de novo.

- Ah, prouvera a Deus que o teu amor fosse metade do que dizes: fosse metade do meu!

- Busca, inventa, aponta-me algum modo de provar o que te digo, e verás se as minhas palavras são sinceras!

- Há um, rei de Portugal! - replicou Leonor Teles, em cujos olhos cintilava o contentamento.

Dizendo isto, ela se afastara de el-rei. O seu aspecto tomou sùbitamente a expressão grave e severa de uma rainha. A um gesto que fez, Nun’Álvares ergueu o reposteiro, e o corregedor da Corte entrou. Trazia na mão um pergaminho aberto. Chegou ao pé de Leonor Teles, ajoelhou e entregou-lho.

A rainha pegou nele e apresentou-o a el-rei: o donzel trouxe uma das tochas que estavam nos ângulos do aposento e colocou-se à esquerda da cadeira de D. Fernando.

- A prova do que dissestes, rei de Portugal, está em estampardes no fim desse pergaminho o vosso selo de puridade.

D. Fernando recebeu o pergaminho e começou a ler: a cada uma das extensas linhas, que o obrigavam a descrever com a fronte uma curva, o remor das mãos tornava-se-lhe mais violento e as contracções do rosto mais profundas. Antes de acabar de ler, atirou o pergaminho ao chão e, com voz terrível, exclamou, cravando os olhos reluzentes em Leonor Teles:

- Mulher, que me pedes tu?

- Justiça e as minhas arras.

Era a primeira vez que el-rei ousava resistir à vontade de Leonor Teles. Ela ainda não o cria. Habituada a ser obedecida pelo pobre monarca, estas últimas palavras foram proferidas com a insolência de uma resolução incontrastável.

- Justiça? Contra quem a pedes? Contra caáveres e moribundos. As tuas arras? Tiveste em dote as mais formosas vilas dos meus senhorios: tiveste o que mais desejavas, as arras de sangue e ruínas. Para te contentar, deixei Lisboa entregue ao furor de inimigos; para te contentar, fui vil e fraco; para te contentar, dos patíbulos já têm pendido sobejos cadáveres. E, ainda não satisfeita, pretendes que, antes de dormir uma única noite na minha capital assolada, confirme uma sentença de morte! Leonor!, tu eras digna de seres filha de meu implacável pai!

Dª Leonor repelira o olhar, entre colérico e tímido de D. Fernando, que mal acreditava a própria audácia, com um olhar em que se misturava a indignação e o desprezo. Ela ouviu as suas palavras sem mudar de aspecto; mas, apenas el-rei acabou, encaminhou-se para a janela onde batia o luar e estendeu a mão para o céu:

- Há dois anos, senhor rei, que neste aposento, a estas mesmas horas, um cavaleiro jurava a uma dama, de quem pretendia quanto mulher pode ceder a desejos de homem, que a amaria sempre; jurava-o pelo céu, pelos ossos de seus avós, pela sua fé de cavaleiro - e o cavaleiro mentiu. As bocas de homens vis vomitavam contra essa mulher e a essa mesma hora os nomes de adúltera, de barregã, de prostituta; e pediam a sua morte. O cavaleiro sabia que tais afrontas escrevem-se para sempre na fronte de quem as recebe, se o sangue de quem as proferiu não as lava um dia. O cavaleiro ofereceu a sua alma aos demónios, se não as lavasse com sangue - e esse cavaleiro blasfemou e mentiu. Senhor rei, diante do céu que ele invocou, perto dos ossos de seus avós, pelos quais jurou, à luz da lua, que o alumiava, dir-vos-ei: aquele cavaleiro foi perjuro, blasfemo, desleal e covarde, e eu a sua vítima. É contra ele que ora vos peço justiça. Rei de Portugal, justiça!

Esta última palavra restrugiu horrìvelmente pelo aposento. El rei, que, durante o discurso de Dª Leonor, se erguera pouco a pouco, fascinado pelo seu gesto diabólico e pelo seu olhar fulminante, caiu outra vez, arquejando, sobre a cadeira. O desgraçado cobriu a cada com ambas as mãos e, depois de um momento de silêncio, murmurou:

- Mas como punir aqueles que, talvez, são cadáveres? A guerra e a fúria popular os puniram!

Dª Leonor triunfara.

- Nem todos! - prosseguiu a astuta e sanguinária pantera, acometendo o último entrincheiramento em que D. Fernando, já debalde, procurava defender-se. - Os seus mais vis inimigos ainda respiram e, porventura, ainda sonham vingança. Corregedor da Corte, lede os nomes escritos em vossa sentença.

O corregedor da Corte alevantou o pergaminho, afastando-o dos olhos e interpondo a mão aberta entre estes e a tocha que Nun’Álvares segurava; tossiu duas veses, inclinou para trás a cabeça e, com o tom cheio e solene de um mestre em degredos, leu:

- Item: Fernão Vaasques, peom, alfayate, cabeça e propoedor dos ssusodictos rreveis.

Aqui abriu o peitilho da garnacha, tirou a sua ementa particular e leu a seguinte cota:

- Vivo: muy malferido dhuùa ffrechada com herva no ffecto do meirinho-moor, quando hos da çidade llevarom os castellãos de vencida até mêa rrua nova.

Lida esta observação, o corregedor continuou a ler sucessivamente os nomes dos réus e as respectivas cotas.

- Item: Stevom Martins Bexigosso, mercador, peom, capitão dhuu corpo dos ssusodictos rreveis. - Fizia a ementa: - Morto de ssua door naturall.

“Item: Bertholameu Martijs, ourives, peom, dizidor de pallavras de desacatamento contra ssua rreal ssenhoria e de grão ssamdiçe e desavergonhamento. - Dizia a ementa: - Morto dhuua pedrada dhuu engenho dos imiguos.

“Item: Joham Lobeira, escudeiro, homem darmas, acostado do alcayde moor que ffoy do castello desta lyal cidade, capitão dos beesteiros que fforam a Ssam domingos. - Dizia a cota: - Foi cativo dhos castellãos: dado em reendiçom e a boõ rrequado na pryssom Dalcaçova.

“Item: Bertholameu Chambão, peom, tanoeiro, cabeça da beesteria do concelho, deputado pera ffazer vilta e affronta a ssua rreal ssenhoria ha muy excellente e muy vertuosa de gramdes vertudes, rrainha dona llyanor. - Rezava a ementa: - Morto dhuua lançada aa porta dho fferro.

“Item: Ayras Gil, petintal, capitão dos rreveis, gualiotes, arraizes e pesquadores Dalfama. - Dizia a cota: - Ffogido com os castellãos.

“Item: Fr. Roy, dalcunha Zambrana, biguino, ffolliom, jograll de sseu officio, bevedo, assoalhador de pallavras e dictos devedados, scuita dhos rreveis. - Notava a ementa: - Enssandeçeu na pryssom ao lleer da sentença.

Pobre Frei Roy! Vendo-se condenado à morte, desesperado, revelara o que tinha sido na sedição - um espia de Leonor Teles. A cota da ementa fora tudo o que tirara das suas revelações. O corregedor, homem agudo, como o melhor mestre em leis ou em degredos, deduzira das suas palavras que o beguino endoudecera, Frei Roy trocara as ideias. Tinha sido espia, mas dos sediciosos.

Alevantado o cerco de Lisboa, o corregedor da Corte fora o primeiro presente que a nova rainha enviara à cidade. Àquele perspeicaz e diligente magistrado poucos dias haviam bastado para preparar um sarau digno dela, uma sentença de morte. A prova da sua perspicácia e diligência estava em ter já no caminho da forca os desgraçados cuja sentença vinha trazer à confirmação real. Numa execução nocturna não havia a recear tumultos populares, e a brevidade que a rainha lhe recomendara neste negócio lhe fazia crer que não seria desagradável a sua real senhoria a imediata execução dos réus.

Quando acabou a leitura, el-rei tirou da bolsa que trazia no cinto o selo de camafeu e, sem dizer palavra, entregou-o ao corregedor. Este pegou na tocha de Nun’Álvares, deixou cair alguns pingos de cera no fundo do pergaminho, assentou-lhe em cima um fragmento de papel que tirara da ementa e cravou neste o selo. As armas de el-rei ficaram aí estampadas. O corregedor fizera isto com a prontidão e asseio com que o mais hábil algoz enforcaria o seu próximo.

Depois o honesto magistrado entregou o selo a el-rei, cujo tremor nervoso se renovara durante a fatal cerimónia. Ao pegar-lhe, o pobre monarca deixou-o cair no chão. O selo foi rolando e parou aos pés de Dª Leonor Teles. Ela empalideceu. Porquê? Talvez se lhe figurou uma cabeça humana que rolava diante dela.

O corregedor fez uma profunda vénia e perguntou em voz sumida à rainha:

- Quando, senhora?

No mesmo tom, Dª Leonor respondeu:

- Já.

O destro e activo corregedor tinha dado no vinte. O “já” da rainha seria mais “já” do que ela própria pensava.

O corregedor saiu.

A um aceno de Dª Leonor, o donzel meteu a tocha no anel de ferro embebido na parede de onde a tinha tirado e encaminhou-se para junto da porta. Ali ficou de braços cruzados, olhos no chão, e imóvel como estátua. Desde este dia, o formoso donzel odiou do fundo da alma a sua mui nobre senhora, aquela que lhe cingira a espada. O generoso Nun’Álvares conhecera que debaixo desse rosto suave se escondia um instinto de besta-fera.

Os dois fidalgos continuaram a passear de um para outro lado, conversando em voz baixa, e como alheios à cena que ali se passava.

El-rei tomara a primeira postura em que estava, com o cotovelo firmado no braço da cadeira, e a cabeça encostada no punho; mas os seus olhos, revolvendo-se-lhe nas órbitas, incertos e espantados, exprimiam a dolorosa alienação daquela alma tímida, atormentada por mil afectos opostos.

Ouvia-se apenas o cicio dos dois que conversavam. E, por largo espaço, aquele murmúrio e o respirar alto e convulso de D. Fernando foram o único ruído que interrompeu o silêncio do vasto aposento.

El-rei, com a mão esquerda pendente sobre os joelhos, deixava-se ir ao som das ideias tenebrosas que lhe ofuscavam o espírito e que, protraídas, o levariam bem próximo das raias de completa loucura. A imagem de Leonor Teles aparecia-lhe como composto monstruoso de vulto de anjo e de olhar de demónio. Um amor infinito arrastava-o para essa imagem; o horror afastava-o dela. Via-a como um simulacro das virgens que, na infância, imaginava, ao ouvir ler ao bom de seu aio Airas Gomes as lendas dos mártires; mas logo cuidava ouvi-la dar risada infernal, passando por cima das ruínas da cidade deserta. O patíbulo e os delírios amorosos; o cheiro do sangue e o hálito dos banquetes, misturavam-se-lhe no senso íntimo: e o pobre monarca, nos seus desvarios, perdera a consciência do lugar, da hora e da situação em que se achava naquele terrível momento.

Mas um beijo ardente, dado nessa mão que tinha estendida, e lágrimas ainda mais ardentes, que a regavam, foram como faísca eléctrica, revocando-o à razão e à realidade da vida.

A comoção indizível e misteriosa que sentira fez-lhe abaixar os olhos: a rainha estava a seus pés; era ela quem lhe cobria a mão de beijos e lha regava de lágrimas.

D. Fernando afastou-a suavemente de si: ela alevantou o rosto celeste orvalhado de pranto; era, de feito, a imagem de uma das mártires que ele via no seu imaginar de infância. Dª Leonor ergueu as mãos suplicantes, com um gesto de profunda angústia: então, era mais formosa que elas.

- Ah! - murmurou el-rei -, porque é o teu coração implacável, ou porque te amei eu tanto?!

- Desgraçada de mim! - acudiu Dª Leonor entre soluços. 0 O teu amor era como o íris do céu: era a minha paz, a minha alegria, a minha esperança; mas desvaneceu-se e passou; a vida de Leonor Teles desvancer-se-á e passará com ele!

- É porque sabes que esse amor não pode perecer; que esse amor é como um fado escrito lá em cima - interrompeu D. Fernando -, que tu me fazes tingir as mãos de sangue, para satisfazer as tuas cruéis vinganças: é porque sabes que esgoto sempre o cálix das ignomínias quando as tuas mãos mo apresentam, que me sacias de desonra. Terás, acaso, algum dia piedade daquele que fizeste teu servo, e que não pode esquivar-se a ser tua vítima?

- Aí, quanto és injusto, Fernando, e quão mal me conheces! - exclamou Leonor Teles, limpando as lágrimas. - Foi a tua dignidade real, e a tua justiça, o teu nome que eu quis salvar da tua própria brandura. Aos mesquinhos que me ofenderam perdoei de todo o coração; mas tu, que eras rei e juiz, não o podias fazer. Se o nome de teu virtuoso pai ainda hoje lembra a todos com veneração e amor, é porque teu pai foi implacável contra os criminosos, e aquilo em que pões a desonra e a ignomínia é a coroa de glória imortal que cera o seu nome. Se as minhas palavras te constrangeram a escolher entre a confirmação dessa fatal sentença e a deslealdade e a blasfémia, que não cabem em coração e lábios de cavaleiro, foi por te salvar de ti mesmo. Se crês que nisto fui culpada, dize-me só “Leonor, já te não amo!”, e eu ficarei punida; porque nessas palavras estará escrita a minha sentença de morte! Possas tu depois perdoar-me e proferir sobre a campa da pobre Leonor uma expressão de piedade!

As lágrimas e os soluços parecia não a deixarem prosseguir. Reclinou a cabeça sobre os joelhos de el-rei, apertando-lhe a mão entre as suas com um movimento convulso.

Formosa, querida, humilhada a seus pés, como resistiria o pobre monarca? Unindo a face àquela fronte divina, só lhe disse: “Oh, Leonor, Leonor!”, e as suas lágrimas misturavam-se com as dela.

Durante esta luta da dor e da hipocrisia, em que como sempre acontece, a última triunfava, o conde de Barcelos e D. Gonçalo Teles tinham-se encostado à janela fatal que dava para o rio e que, também, dominava grande porção do arrabalde ocidental da cidade. O espectáculo da noite era de melancólica magnificência.

A Lua caminhava nos céus limpos de nuvens, e pela face da terra nem suspirava uma aragem. A claridade do luar refrangia-se nas águas, mas esmorecia batendo na povoação, na qual não achava, além dos antigos muros, uma parede branqueada, uma pedra alva, onde espelhar-se, ou um sussurro de festa acorde com as suas harmonias. O incêndio e o ferro tinham passado por lá, e Lisboa era um caos de ruínas, um cemitério sem lápides. Apenas, no extremo do seu, dantes, mais rico e povoado arrabalde, amarelejava, polido pelo tempo, o gótico Mosteiro de S. Francisco, junto de sua irmã mais velha, a Igreja dos Mártires. No vale que ficava em meio a luz de cima embebia-se inùtilmente na povoação que jazia extinta. A bela Lua de Maio, tão fagueira para esta cidade querida, assemelhava-se à leoa que, voltando ao antro, acha o seu cachorrinho morto. A pobre fera ameiga-o como se fosse vivo, e vendo-o quedo, indiferente e frio, não crê, e vai e volta muitas vezes, renovando os seus inúteis afagos. Lisboa era um cadáver, e a Lua passava e sorria-lhe ainda!

Mas, no meio daquele chão irregular, negro, calado, viam-se, aqui e acolá, luzinhas que se meneavam de um para outro lado, ao que parecia, sem rumo certo. Era que os frades de S. Francisco e de S. Domingos faziam procurar por entre os entulhos as relíquias dos mortos, para lhes darem sepultura cristã. Neste piedoso trabalho, que seguiam sem descontinuar havia muito tempo, eram acompanhados por alguns do povo, que, para se esforçarem, cantavam uma cantiga pia, cujas coplas, bem que interrompidas, vinham, com triste som, bater de vez em quando nos ouvidos dos dois cavaleiros. Rezavam as coplas:

“De amigos e imigos,

Que aí são deitados,

Levemos os ossos

Ao chão dos finados.

Ave-maria!

Santa Maria!

Madre gloriosa,

Dessa alta ventura

Demovei os olhos

À nossa tristura.

Ave-maria!

Santa Maria!

Ao bento Jesus,

E ao padre eternal

Pedi que perdoe

A quem morreu mal.

Ave-maria!

Santa Maria!”

Esta longíqua toada perdeu-se no som de outra bem diversa, que se alevantou mais perto dos dois cavaleiros. Uma voz esganiçada dava o seguinte pregão:

- ... Justiça que manda fazer el-rei em Fernão Vasques, João Lobeira e Frei Roy: que morram na forca, sendo ao primeiro as mãos decepadas em vida.

Os cavaleiros abaixaram os olhos para o lugar de onde subira a voz: era no terreiro próximo: os três padecentes e o algoz, cercados de alguns besteiros, aproximavam-se do cadafalso: vários vultos negros fechavam o préstito: daquela pinha partira a voz do pregoeiro.

Este pregão, dado a horas mortas e numa praça deserta, parecia um escárnio. Mas o corregedor da Corte era afamado jurisconsulto, e nós temos ouvido a alguns que na execução das leis as formas são tudo. Assim piamente o cremos.

Duas se tinham, porém, esquecido: os desgraçados morriam, como aqueles que o salteador assassina na estrada, pela alta noite, e sem um sacerdote que os consolasse na extrema agonia.

O algoz empurrou brutalmente um dos padecentes para uma espécie de marco escuro que estava ao pé do patíbulo. Daí a nada, os cavaleiros viram reluzir duas vezes um ferro: ouviram sucessivamente dois golpes, dados como em vão, seguindo-se a cada um deles um grito de terrível angústia.

O conde de Barcelos quis rir-se, mas a risada gelou-se-lhe na garganta, e, como Gonçalo Teles, recuou involuntàriamente.

O grito que restrugira chegara aos ouvidos de el-rei.

- Que bradar de homem que matam é este? - perguntou ele.

- Justiça de sua senhoria que se executa - respondeu o conde, que neste momento retrocedia da janela.

- Oh, desgraçados!, tão breve! - disse el-rei, passando a mão pela fronte, de onde manava o suor da aflição e do terror. Olhando então para Leonor Teles, acrescentou:

- Até à derradeira mealha estão pagas vossas arras, rainha de Portugal! Que mais pretendeis de mim?

E deixou pender a cabeça sobre o peito.

Dª Leonor não respondeu.

D. Gonçalo Teles aproximou-se então da cadeira de D. Fernando e curvou um joelho em terra.

El-rei alevantou os olhos e perguntou-lhe:

- Que me quereis?

- Senhor - respondeu o honrado e nobre cavaleiro -, se vossa senhoria consentisse neste momento em ouvir a súplica de um dos seus mais leais vassalos! ...

- Falai - replicou D. Fernando.

- João de Lobeira acaba de receber o prémio da sua traição - prosseguiu D. Gonçalo. - O desleal escudeiro possuía avultados bens, que ficam pertencendo à coroa real. Por vossa muita piedade, podeis fazer mercê deles a seu filho Vasco de Lobeira; mas o pobre moço ensandeceu há tempos! Tresleu com livros de cavalarias, e tão varrido está que não fala em al, senão em um que anda imaginando e a que pôs o nome Amadis. Para um mesquinho parvo e sandeu pouco basta, e vossa real senhoria bem sabe que a minha escassa quantia mal chega...

- Calai-vos, calai-vos; que isso é negro e vil - bradou el-rei, redobrando-lhe o horror que tinha pintado no rosto. - Deixai ao menos que a sua alma chegue perante o trono de Deus!

- Apenas cinquenta maravedis! - murmurou D. Gonçalo, erguendo-se, e abaixando os olhos, aflito com a lembrança de sua extrema pobreza.

seis de Junho da era de César de 1411 (1373), em um dos andares da torre do castelo, o veador da chancelaria, Álvaro Pires, passeando de um para outro lado, ditava a um mancebo, vestido de garnacha preta, o qual tinha diante de si tinteiro, penas e folhas avulsas de pergaminho, a seguinte nota:

- Item. Pera se spreuer a ffolhas cento e vinte-oyto do llivro prymeyro da Cançelaria Delrrey nosso senhor: - Doaçom dos bees de rraiz e moviis de Joham Lobeira, confisquado e morto por treedor contra ho serviço de ssua real senhoria, ao muy nobre D. Gonçalo Tellez, per ho muyto divedo que cõ elrrey ha, e polos muytos serviços que del tee reeçebido e ao deante espera de rreçeber.

E o povo? ... Oh, este, sim! Nistrava-se agradecido e bom no meio de tantas infâmias e crimes.

Os populares que, na manhã imediata àquela horrível noite dos fins de Maio, passavam pelo terreiro maldito onde pendiam da forca os três cadáveres, meneavam a cabeça e seguindo avante, diziam:

“Boa e prestes foi a justiça de el-rei nos traidores. Alcácer por sua senhoria.”

D. Fernando guardou até à Primavera de 73 a vingança contra os populares de Lisboa e de outras terras que no ano de 71 se tinham amotinado por causa do seu casamento. Vê-se isto dos documentos registrados na sua chancelaria e citados por Frei Manuel dos Santos. Quem atentamente tiver estudado o carácter atroz e dissimulado de Leonor Teles, tão bem pintado por Fernão Lopes, e os factos que provam a sua influência sem limites no ánimo daquele príncipe, não poderá esquivar-se a veementes suspeitas sobre os motivos que, num romance, nós danos como reais, porque aí é licito fazê-lo, da, aliás inexplicável, inacção com que D. Fernando não quis opor-se à vinda de el-rei de Castela sobre Lisboa, vinda que reduziu os seus moradores aos mais espantosos apuros e que converteu a cidade, por assim dizer, em um montão de ruínas. Daqueles documentos resulta que, depois de tirada toda a força aos habitantes de Lisboa pela guerra de Castela, em que se viram quase sós e abandonados, el-rei viera, sobre as ruínas da maior e melhor parte dela, satisfazer os ódios de D. Leonor; porque, levantando o cerco em Março de 73, achamos el-rei em Lisboa (aonde não volta desde a sua fuga no Outono de 71) durante alguns dias de Maio, e em Santarém e outros lugares nos meses seguintes, fazendo mercês dos bens dos cidadãos mortos, decepados ou fugidos, do que se pode concluir que então foram executados ou banidos, não sendo de crer que a cobiça cortesã tivesse esperado muitos dias sem prear estes sanguinolentos despojos.

O casamento de Leonor Teles e as consequências dele são o primeiro acto do drama terrível, da Ilíada scelerum da sua vida política. Foi este primeiro acto que nós procurámos dispor na tela do romance histórico. Todo o drama daria, nessa forma da arte, uma terrível “crónica”. Desde esta conjuntura até ser arrastada em ferros para Castela, por aqueles mesmos que chamara a assolar o seu país, a Lucrécia Bórgia portuguesa é, na história dessa época, uma espécie de fantasma diabólico, que aparece onde quer que haja um feito de traições, de sangue ou de atrocidade.

FIM

Fonte: virtualbooks.terra.com.br

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