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ARRAS POR FORO DE ESPANHA

- Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha, rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das ruínas dela! Não me peças Lisboa, que talvez amanhã deixe de um chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quiseres.

- Quero que me dês as minhas arras: quero o preço do meu corpo, conforme foro de Espanha.

- Vila Viçosa é alegre como um horto de flores, e Vila Viçosa dar-ta-ei eu. O Castela de Óbidos é forte e roqueiro, são numerosos e prestes para defesa os seus engenhos, e o Castelo de Óbidos será teu. Sintra pendura-se pela montanha entre lençóis de águas vivas, e respira o cheiro das ervas e flores que crescem à sombra das penedias: podes ter por tua a Sintra. Alenquer é rica no meio das suas vinhas e pomares, e Alenquer te chamará senhora.

- Guarda as tuas vilas, Dom Fernando, que eu não tas peço em dote; quero, apenas, uma promessa de coisa de bem pouca valia.

- De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-ei o que me pedires.

Dª Leonor estendeu a mão para a espécie de portada romana que se erguia solitária no meio do terreiro deserto.

- É ali que tu me darás o preço do meu copo, se um dia a cerviz da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo do teu jogo real.

El-rei lançou um rápido volver de olhos para onde Leonor Teles tinha o braço estendido, mas recuou horrorizado. O vulto que negrejava no meio do terreiro era o patíbulo popular e peão: era a forca, tétrica, temerosa, maldita!

- Leonor, Leonor! - disse el-rei com som de voz cavo e débil -, porque vens misturar pensamentos de sangue com pensamentos de amor? Porque interpões um instrumento de morte e de afronta entre mim e ti? Porque preferes o fruto do cadafalso às vilas e castelos de que te faço senhora? Porque trocas a estola do clérigo que há-de unir-nos pelo baraço áspero do algoz?

- Rei de Portugal! - respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha, com um brado de furor -, ainda me perguntas porque o faço? Tu nunca serás digno do ceptro de teu pai! Queres saber porque junto pensamentos de sangue a pensamentos de amor? É porque esses de quem eu o peço pediram também o meu sangue. Queres saber porque interponho entre mim e ti um instrumento de morte e de afronta? É porque o teu bom povo de Lisboa quis também interpor entre nós a morte e saciar-me de afrontas. Queres que te diga porque prefiro o fruto do cadafalso às vilas e castelos que me ofereces? É porque para os ânimos generosos não há vender vinganças por ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva! Jura-me que um dia os teus vassalos que me perseguem serão também perseguidos, e que essa vil plebe que cobre de injúrias e pragas o meu nome, porque te amo, o amaldiçoem porque levo os seus caudilhos ao patíbulo. Este é o preço do meu acorpo. Sem esse preço, a neta de Dom Ordonho de Leão nunca será mulher de Dom Fernando de Portugal.

E com um braço estendido para o lugar sem nome do suplício e com o outro curvado, como quem afastava de si el-rei, esta mulher vingativa era sublime de atrocidade.

- Tens razão, Leonor - disse por fim D. Fernando, depois de largo silêncio, em que se afectos inconstantes do seu carácter volúvel mudaram gradualmente. - Tens razão. A futura rainha de Portugal terá o seu desagravo: as línguas que te ofenderam calar-se-ão para sempre; os corações que te desejaram a morte deixarão de bater. No meu trono, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-á a crueza. Com Judas, o traidor, seja eu sepultado no Inferno, se faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a minha injúria.

A estas palavras, o aspecto severo de Dª Leonor Teles mudou-se em um sorrir de inexplicável doçura.

- Ah, como te hei-de amar sempre! - murmurou ela. E estas palavras caíam dos seus lábios meigos e suaves como o arrulhar de pomba amorosa. Um beijo ardente, que sussurou levado nas asas da brisa fresca da noite, selou esse pacto de ódio e de extermínio.

III

Um bulhão e uma agulha de alfaiate

O Sol, que havia mais de meia hora subira do Oriente, cingido da sua auréola da vermelhidão, no meio da atmosfera turva e acinzentada de um dia dos fins de Agosto, dava de chapa no rossio ou praça onde avultava o Mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas oriente, e pelo de Valverde, ao norte. Já muitos besteiros e peões armados de ascumas se derramavam ao longo da parede dos paços de Lançarote Pessanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas de Almafala, outros do arrabalde da Pedreira ou bairro do Almirante, outros da banda da alcáçova, outros, enfim, desembocando das ruas estreitas e irregulares que iam dar à opulente e célebre Rua Nova. Homens e mulheres apinhavam-se, aos dez e aos doze, no meio da praça, e às bocas das ruas; falavam, meneavam-se, riam, chamavam-se uns aos outros. Às vezes, aquela mó de gente, cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como a superfície de um pego, passando o tufão. Incerta, vacilante, informe, sùbitamente se configurava, alinhava-se e, semelhante a triângulo enorme, a quadrela gigante desfechada de trom monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro, cujas portas ainda estavam fechadas. Aí hesitava, ondeava e retraía-se, como ressaltaria a folha cortadora de uma acha de armas quando não pudesse romper as portas chapeadas de forte castelo. Então aquela multidão tomava a forma de meia-luz, cujas pontas se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria e vinham topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira, de onde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam pela vastidão do terreiro. O povo, que dorme às vezes por séculos, fora acometido de uma das suas raras insónias e vivia essa possante vida da praça pública, em que de ordinário é ridículo e feroz, mas em que não raro é sublime e terrível.

Era a manhã imediata à noite em que ocorreram os sucessos narrados antecedentemente. O povo preparava-se para uma luta moral com seu rei; mas não se descuidara de vir prestes para uma luta física, se D. Fernando quisesse apelas para esse último argumento. Era a primeira vez neste reinado que a arraia-miúda dava mostras da sua força e reivindicava o direito de dizer armada “não quero!” O elemento democrático erguia-se para influir activamente na monarquia; enxertava-se nela, como princípio político, a par da aristocracia, que com a manopla de ferro arrojava a plebe contra o trono, sem pensar que brevemente este, conhecendo assim a força popular, se valeria dela para esmagar aqueles que ora sopravam os ânimos para a revolta e davam nova existência ao vulgo.

A hora aprazada para a vinda de el-rei ainda não havia batido: mas o povo orgulhoso da importância que sùbitamente se lhe dera, embevecido na ideia de que obrigaria el-rei a quebrar os laços adulterinos que o uniam a Leonor Teles, não media o tempo pelo curso do Sol, mas sim pelo fervor da sua impaciência. Duas vezes se espalhava a voz de que D. Fernando chegara, e duas vezes o povo correra para o alpendre do mosteiro. As portas da igreja estavam, porém, fechadas, bem como a portaria e as estreitas e agudas frestas do mosteiro gótico que, formado apenas de um pavimento térreo e humilde, contrastava com a magnificência do templo, em cujas portadas profundas, sobre os colunelos pontiagudos que sustinham os fechos e chaves da abóbada, os animais monstruosos e híbridos, os centauros, os sátiros e os demónios, avultados na pedra dos capitéis por entre as folhagens de carvalho e de lódão, pareciam, com as visagens truanescas que nas faces mortas lhes imprimira o escultor, escarnecerem da cólera popular, que, lenta como os estos do oceano, começava a crescer e a trasbordar. Apenas, lá dentro, se ouviam de vez em quando as harmonias saudosas do órgão e do cantochão monótono dos frades, que ofereciam a Deus as preces matutinas. Era então que o povo escutava: e retraía-se arrastado pelas blasfêmias e pragas que saíam de mil bocas e que eram repelidas do santuário pelo sussuro dos cânticos que reboavam dentro da igreja, e que transudavam por todos os poros do gigante de pedra um murmúrio de paz, de resignação e de confiança em Deus.

O povo, porém, era como os homens robustos do génesis: era ímpio, porque era robusto.

O dia crescia, e crescia com ele a desconfiança. As notícias corriam encontradas: ora se dizia que el-rei cedia aos desejos dos seus vassalos e dos peões, e que viria anunciar ao povo a sua separação de Leonor Teles; ora, pelo contrário, se asseverava que ele era firme em sustentar a resolução contrária. Havia, até, quem asseverasse que na alcáçova e no terreiro de S. Martinho se começavam a ajuntar homens de armas e besteiros. A cólera popular crescia, porque a atiçava já o temor.

No meio de uma pilha de galeotes, carniceiros, pescadores, moleiros, lagareiros e alfagemas, dois homens altercavam violentamente. Eram Airas Gil e Frei Roy: objecto da disputa Fernão Vasques; arguente o petintal; defendente o beguino.

- Que não virá vos digo eu - gritava Airas Gil. - Disse-mo Garciordonez, o mercador de panos que mora ao cabo da Rua Nova, aos açougues, defronte das taracenas del-rei.

- Mentiu pela gorja, como um perro judeu - replicou Frei Roy. - Não era Fernão Vasques homem que faltasse a este auto, tendo-o a arraia-miúda elegido por seu propoedor.

- Medo ou dobras do paço podem tapar a boca aos mais ousados e fazê-los dormir até desoras - retrucou o petintal.

- Que fazem falar as dobras do paço, seu eu - tornou o beguino com riso sardónico, lembrando-se do que nessa noite passara -: medo sabeis vós que faz fugir; inveja sabemos nós todos que faz imaginar...

- Descaro e gargantoíce que faz mendigar - interrompeu Airas Gil, vermelho de cólera, cerrando os punhos e descaindo para o echacorvos como galé que vai aferrar outra em combate naval.

- Ecommunicabo vos - murmurou Frei Roy, fazendo-se prestes para resistir ao abalroar do petintal.

E o vulgacho que estava de roda ria e batia as palmas.

Nisto os gritos de alcácer!, alcácer!” reboaram para outro lado da praça: o povo correu para lá. Os dois campeadores voltaram-se: era o alfaiate.

Sem dizer palavra, o beguino olhou com gesto de profundo desprezo para Airas Gil e, tomando uma postura entre heróica e de inspirado, estendeu o braço e o índex para o lugar onde passava Fernão Vasques. Depois, partiu com a turbamulta que o rodeava, enquanto o petintal o seguia de longe lento e cabisbaixo.

O alfaiate, cercado de outros cabeças do tumulto da véspera, encaminhou-se para alpendrada de S. Domingos. Trazia vestida uma saia de valencina reforçada, calças de bifa, sapatos de pele de gamo, chapeirão de ingrês com fita de momperle e cinta de couro, tudo escuro, ao modo popular. Com passos firmes subiu os degraus do alpendre. Dali, em pé, com os braços cruzados, correu com os olhos a praça, onde entre o povo apinhado se fizera repentino silêncio. Depois tirando o chapeirão, cortejou a turbamulta para um e outro lado; os seus gestos e ademanes eram já os de um tribuno.

- Alcácer, alcácer pela arraia-miúda! Alcácer por el-rei Dom Fernando de Portugal, se desfizer nosso torto e sua vilta, senão!...

Esta exclamação de um alentado alfageme que estava pegado com a balaustrada do alpendre foi repetida em grita confusa por milhares de bocas.

De repente, do lado da Rua de Gileanes, sentiu-se um tropear de cavalgaduras, que parecia correrem à rédea solta. Todos os olhos se volveram para aquela banda: muitos rostos empalideceram.

Uma voz de terror girou pelo meio das turbas. “São homens de armas de el-rei!” Aquele oceano de cabeças humanas redemoinhou, a estas palavras, e começou a dividir-se como o mar Vermelho diante de Moisés. Num momento viu-se uma larga faixa esbranquiçada cortar aquela superfície móvel e escura: era ampla estrada que se abria por entre ela, desde a Rua de Gileanes até S. Domingos. As paredes dessa estrada adelgaçavam-se ràpidamente. Para as bandas da Mouraria e da Pedreira, os becos e encruzilhadas apinhavam-se de gente, e os reflexos dos ferros das ascumas populares, que erguidas cintilavam ao sol, começaram a descer e a sumir-se, como as luzinhas das bruxas em sítio brejoso aos primeiros assomos do alvorecer. Fernão Vasques olhou em redor de si: estava só. Descorou, mas ficou imóvel.

Entretanto, o tropear aproximava-se cada vez com mais alto ruído. Os besteiros do concelho postados ao longo dos Paços do Almirante eram, talvez, os únicos em quem o terror não fizera profunda impressão: alguns já haviam estendido sobre o braço da besta os virotes ervados e, revolvendo a polé, faziam encurvar o arco para o tiro. Os besteiros de garrucha tinham já o dente desta embebido na corda, prontos a desfechar ao primeiro refulgir dos montantes nus dos cavaleiros e escudeiros reais. Do resto do povo, os ousados eram os que recuavam; porque o maior número voltava as costas e internava-se pelas azinhagas dos hortos de Valverde e das vinhas de Almafala ou trepava pelas ruas escuras e mal-gradadas do bairro do Almirante.

Mas, no meio deste susto geral, aparecera um herói. Era Frei Roy. Ou fosse imprudente confiança no cargo oculto que lhe dera Dª Leonor, ou fosse robustez de ânimo, ou fosse, finalmente, a persuasão de que o hábito de beguino lhe serviria de broquel, longe de recuar ou titubear, correu para a quina da rua de onde rompia o ruído e, mirando pela aresta do ângulo um breve espaço, voltou-se para o povo e, curvando-se com as mãos nas ilhargas, desatou em estrondosas gargalhadas.

Tudo ficou pasmado; mas, vendo e ouvindo o rir descompassado do echacorvos, o povo começou a refluir para a praça. Aquelas risadas produziam mais ânimo e entusiasmo que os “quarenta séculos vos contemplam” de Napoleão na batalha das Pirâmides. Os amotinados recobraram num instante toda a anterior energia.

Esta cera tinha sido rapidíssima: todavia, ainda grande parte dos populares hesitava entre o ficar e o fugir, quando se reconheceu claramente a causa daquele temor que apertara por algum tempo todos os corações. Era a Corte que chegava.

Montados em mulas possantes, os oficiais da casa real, os ricos-homens, conselheiros e juízes do Desembargo vinham assistir ao auto solene em que da boca de el-rei a nação devia ouvir ou uma resolução conforme com os desejos tanto da arraia-miúda como dos senhores e cavaleiros, ou a confirmação de um casamento mal agourado por muitos nobres e por todos os burgueses, e condenado, de não duvidoso modo, por estes últimos. No meio das variadas cores dos trajos cortesões negrejavam as garnachas dos letrados e clérigos do paço, e entre o reduzir dos esplêndidos arreios das mulas alentadas e fogosas dos vassalos seculares, dos alcaides-mores e senhores viam-se rojar os gualdrapas dos mestres em leis e degredos, dos sabedores e letrados que constituíam o supremo tribunal da monarquia, a cúria ou desembargo de el-rei.

A numerosa cavalgada atravessou o terreiro por entre o povo apinhado. Em todos os rostos transluzia o receio acerca de qual seria o desfecho deste drama terrível e imenso, em que entravam representantes de todas as classes sociais.

Entre os membros daquela lustrosa companhia distingui-a por seu porte altivo o conde de Barcelos, D. João Afonso Telo, tio de Dª Leonor, a quem nos diplomas dessa época se dá por excelência o nome de “fiel conselheiro”. Quando os amores de el-rei com sua sobrinha começaram, ele fizera, sincera ou simuladamente, grandes diligências para desviar o monarca de levar avante os seus intentos. D. Fernando persistia, todavia, neles, e então o conde, juntamente com a infanta Dª Beatriz e com Dª Maria Teles, irmã de Dª Leonor, suscitara a ideia de a divorciar de João Lourenço da Cunha. O povo sabia isto e, posto que houvesse estendido a sua má vontade a todos os parentes de Leonor Teles, odiava principalmente o conde, como protector daqueles adúlteros amores. Foi, portanto, nele que se cravaram os olhos dos populares, que, tendo-se em poucas horas elevado até à altura do trono, ousavam, também, dar testemunho público do seu ódio contra o mais distinto membro da fidalguia.

- Velha raposa, em que te pese, não será a adúltera rainha da boa terra de Portugal! - gritava um carniceiro, voltando-se para uma velha que estava ao pé dele, mas olhando de través para o conde, que perpassava.

- Leal conselheiro de barreguices, por quanto vendeste a honra do compadre Lourenço? - perguntava um alfageme, fingindo falar com um vizinho, mas lançando também os olhos para D. João Afonso Telo.

- Que tendes vós com o lobo que empece ao lobo? - acudiu um lagareiro calvo e curvado debaixo do peso dos anos. - Deixai-os morder uns aos outros, que é sinal de Deys se amercear de nós.

- O que eles mereciam - interrompeu uma regateira - era serem atagantados com boas tiras de couro cru.

- E ela, tia Dordia? - acrescentou um ferreiro. - Conheceis vós a comborça? Às vezes a quisera eu: uma do alcaide no chumaço; outra do coitado nas costas dela!

- É costume, ergo direita a pena - notou um procurador, que gravemente contemplava aquele espectáculo e que até ali guardara silêncio.

Estas injúrias, que, como o fogo de um pelotão, se disparavam ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir os ouvidos do conde de Barcelos, que, fingindo não lhes dar atenção, empalidecia e corava sucessivamente e mordia os beiços de cólera.

De quando em quando, o vociferar afrontoso da gentalha era afogado no ruído de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que as injúrias; porque no rir do vulgo há o que quer que seja tão cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior coração e o ânimo mais robusto.

Entre os parciais de Dª Leonor que vinham naquela comitiva viam-se, porém, muitos fidalgos e letrados que ou eram pessoalmente seus inimigos ou, pelo menos, desaprovavam alta e francamente a sua união com el-rei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre eles, e o povo, ao vê-lo passar, saudou-o com um murmúrio que foi como a recompensa do velho pelas desventuras da sua vida, desventuras que devera a um caso análogo, a morte de Dª Inês de Castro.

Quando os fidalgos, cavaleiros e letrados da casa e conselho de el-rei se apearam junto aos degraus do alpendre do mosteiro, o alfaiate, que viera misturar-se com o povo logo que desembocaram na praça, subiu após eles e esperou que se sentassem no extenso banco de castanho que corria ao longo da alpendrada. Depois voltou-se para a multidão apinhada em redor:

- Se el-rei ainda não é presente - disse em voz inteligível e firme - aí tendes para ouvir vossos agravamentos os senhores de seu conselho: porventura que eles poderão dar-vos resposta em nome de sua senhoria, e ele virá depois confirmar o seu dito.

- Senhor Fernão Vasques, sois o nossos propoedor: a vós toca falar - replicou um do povo.

- Assim o queremos! Assim o queremos! - bradou a turbamulta.

O alfaiate voltou-se então para os cortesãos, conselheiros e letrados do Desembargo de el-rei e disse:

- Senhores, a mim deram carrego estas gentes que aqui estão juntas de dizer algumas cousas a el-rei nosso senhor que entendem por sua honra e serviço; e porque é direito escrito que, sendo as partes principais presentes, o ofício de procurador deve cessar no que elas bem souberem dizer, vós outros que sois principais partes neste feito, e a que isto mais tange que a nós, devíeis dizer isto, e eu não: porém, não embargando que assim seja, eu direi aquilo de que me deram carrego, pois vós outros em elo não quereis pôr mão, mostrando que vos doeis pouco da honra e do serviço de el-rei...

- Cala-te, vilão! - bradou, erguendo-se, o conde de Barcelos, com voz afogada da cólera, que já não podia conter -, se não queres que seja eu quem te faça resfolgar sangue, em vez de injúrias, por essa boca sandia.

O velho Pacheco pôs-se também em pé, exclamando:

- Conde de Barcelos, lembrai-vos de que os burgueses têm por costume antigo o direito de dizerem aos reis seus agravamentos, de se queixarem e de os repreenderem. Nós somos menos que os reis.

Fernão Vasques tinha-se entretanto voltado para o povo apinhado ao redor do alpendre, com o rosto enfiado, mas era de indignação, e havia feito um sinal com a cabeça. No mesmo instante o povo abrira uma larga clareira, e quando os fidalgos e conselheiros, atentos para o conde e para Diogo Lopes, voltaram os olhos para o rossio, ao tropear da multidão, um semicírculo de mais de quinhentos besteiros e peões armados fazia uma grossa parede em frente dos populares.

Fernão Vasques encaminhou-se então para D. João Afonso Telo e, com a mão trémula de raiva, segurando-o por um braço, disse-lhe:

- Senhor conde, vós sois que doestais os honrados burgueses desta leal cidade em minha pessoas; porque eu nada fiz, senão repetir em voz alta o que cada um e todos me ordenaram repetisse. O que propus não é meu. Eis seus autores! Pelo que a mim toca, senhor conde, não receio vossas ameaças. Quando o nobre despe o gibão de ferro para vestir o de tela, não sei eu se este é mais forte que o do peão e se, também, a sua boca não pode golfar sangue, como a de um pobre vilão.

D. João forcejava por desasir-se do alfaiate, procurando levar a mão à cinta, onde tinha o punhal; mas Fernão Vasques era mais forçoso, e o conde já tinha entrado na idade em que costuma minguar a robustez do homem. Não pôde chegar com a mão ao cinto.

- Conde de Barcelos - prosseguiu o alfaiate, com um sorriso -, não recorrais a esse argumento; porque eu também estou habituado a lidar com ferros azerados, ainda que mais delgados e curtos que o vosso bulhão.

Estas últimas palavras, ditas em tom de escárnio, mal foram ouvidas: a grita na praça era já espantosa; ares, produziam aquele rouco e grande brado da fúria abismando-se por cavernas imensas.

Os fidalgos e letrados tinham rodeado os dois contendores: os parciais de Dé Leonor, o conde; os outros, cujo número era muito maior, o alfaiate. E tanto estes como aqueles trabalhavam em apaziguá-los, posto que todos os ânimos estivessem quase tão irritados como os dos dois contendores.

Finalmente, o conde cedeu. O aspecto da multidão, que se agitava furiosa, contribuiu, porventura, mais para isso que todas as razões e rogativas dos fidalgos e cavaleiros, atónitos com o espectáculos da ousadia popular: desta ousadia que, menoscabando as ameaças do primeiro entre os nobres, era mais incrível que a da véspera, a qual apenas se atrevera ao trono.

Que fazia, porém, o nosso beguino no meio destes prelúdios de uma eminente assuada? É o que o leitor verá no seguinte capítulo.

IV

Mil dobras pé-terra e trezentas barbudas

Mal Fernão Vasques travara do braço do conde de Barcelos, e a grita popular começara a atroar a praça, Frei Roy, escoando-se ao longo da parede do mosteiro, dobrara a quina que voltava para a Corredoura e, seguindo seu caminho por vielas torcidas e desertas, chegara à Porta do Ferro, de onde, atravessando o contíguo e mal-assombrado terreirinho que os raios do sol apenas alumiavam poucas horas do dia, embargados, ao nascer, pelos agigantados campanários da catedral e, ao declinar, pelos panos e torres da muralha mourisca, chegara esbaforido a S. Martinho. A porta do paço estava fechada, mas a da igreja estava aberta. Entrou. Ao lado direito uma escada de caracol descia da tribuna real para a capela-mor, e a tribuna comunicava com o palácio por um passadiço que atravessava a rua. O beguino olhou ao redor de si e escutou um momento: ninguém estava na igreja. Subindo ràpidamente a escada, Frei Roy atravessou o passadiço e encaminhou-se, sem hesitar no meio dos corredores e escadas interiores, para uma passagem escura. No fim dela havia uma porta fechada. O monge vagabundo parou e escutou de novo. Dentro altercavam três pessoas: Frei Roy bateu devagarinho três vezes, e pôs-se outra vez a escutar.

Ouviram-se uns passos lentos que se aproximavam da porta, e uma voz esganiçada e colérica perguntou:

- Quem está aí?

- Eu - respondeu o beguino.

- Quem é eu? - replicou a voz.

- Honrado Dom Judas, é Frei Roy Zambrana, indigno servo de Deus, que pretende falar a el-rei ou à mui excelente senhora Dona Leonor, para negócio de vulto.

- Abre, Dom Judas, abre! - disse outra voz, que pelo metal parecia feminina e que soou do lado oposto do aposento.

A porta rodou nos gonzos, e o echacorvos entrou.

Era o lugar onde Frei Roy se achava uma quadra pequena, alumiada escassamente por uma fresta esguia e engradada de grossos varões de ferro, a qual dava para uma espécie de saguão, ainda mais acanhado que o aposento. A abóbada deste era de pedra; de pedra as paredes e o pavimento: ao redor viam-se por único adereço muitas arcas chapeadas de ferro. O monge entrara na casa das arcas da Coroa - do “recábedo do regno”. As duas personagens que ali estavam, afora a que abrira a porta, eram D. Fernando e Dª Leonor. El-rei, de pé, curvado sobre uma das arcas, com a fronte firmada sobre o braço esquerdo, folheava um desconforme volume de folhas de pergaminho, cujas guardas eram duas alentadas tábuas de castanho, forradas exteriormente de couro cru de boi, ainda com pêlo. Dª Leonor, também em pé por detrás de el-rei, olhava atentamente para as páginas do livro. O que abrira a porta era o tesoureiro-mor, D. Judas, grande afeiçoado de Dª Leonor e valido de el-rei. O judeu apenas voltara a ponderosa chave, sem volver sequer os olhos para o recém-chegado, tornara imediatamente para o pé da arca a que el-rei estava encostado e prosseguira a veemente conversação cujos últimos ecos Frei Roy ouvira ao aproximar-se...

- Mil dobras pé-terra e trezentas barbudas são todo o dinheiro que o vosso fiel tesoureiro vos póde apurar neste momento, respigando, como a pobre Rute, no campo do vosso tesouro, ceifado e bem ceifado (aqui o judeu supirou) por aqueles que, talvez, menos leais vos sejam. Jurar-vos-ei sobre a toura, se o quereis, que não fica em meu poder uma pojeia.

El-rei não o escutava. Apenas Frei Roy entrara, Dª Leonor havia-se encaminhado para o echacorvos e, lançando-lhe um olhar escrutador, perguntava com visível ansiedade:

- Beguino, a que voltaste aqui?

- A cumprir com minha obrigação, apesar de vós me terdes dado ontem por quite e livre. Vim a dizer-vos que, a estas horas, talvez tenha já corrido sangue no rossio de Lisboa, e que é espantoso o tumulto dos populares contra os do conselho e contra os senhores e fidalgos da casa e valia de el-rei.

Fora à palavra “sangue” que D. Fernando havia cessado de atender à voz esganiçada do tesoureiro-mor, que continuava em tom de lamentação:

- Bem sabeis, senhor, que tenho empobrecido em vosso serviço e que hoje sou um dos mais mesquinhos e miseráveis entre os filhos de Israel. Aonde irei eu buscar dois mil maravedis velhos de Além-Douro, que são, em moeda vossa, trezentos e noventa mil soldos?

- Sangue, dizes tu, beguino? - exclamou el-rei. - Oh, que é muito! A quem se atreveram assim esses populares malditos?

- Eu próprio vi o nobre conde de Barcelos travar-se com Fernão Vasques; mui grande número de besteiros e peões armados de ascumas rodeavam já o alpendre de São Domingos, e os clamores de “morram os traidores” atroavam a praça.

- Que me dêem o meu arnês brunido, a minha capelina de camal e o meu estoque francês - gritou D. Fernando, escumando de cólera. - Eu irei a São Domingos e salvarei os ricos-homens de Portugal ou acabarei ao pé deles. Pajens!, onde está o meu donzel de armas?

- O teu donzei de armas, rei Dom Fernando - interrompeu com voz pausada e firme Dª Leonor -, segue com os outros pajens caminho de Santarém, montado no teu cavalo de batalha. Aqui, só tens a mula do teu corpo para seguires jornada.

- Mas o conde de Barcelos! O meu leal conselheiro, deixá-lo-ei despedaçar pelos peões desta cidade abominável? Lembra-te de que é teu tio; que foi o teu protector, quando o braço de Dom Fernando ainda se não erguera para te coroar rainha.

- Rei de Portugal, és tu que deves lembrar-te dele, quando o dia da vingança chegar. Então cumprirá que os traidores e vis te vejam montado no teu ginete de guerra. Hoje não podes senão deixar entregue à sua sorte o nobre Dom João Afonso e os senhores que são com ele; mas não te esqueça que, se o seu sangue correr, todo o sangue que derramares para o vingar será pouco, como serão poucas todas as lágrimas que eu verterei sem consolação sobre os seus veneráveis restos. Combateres? Ajudado por quem, numa cidade revolta? Os homens de armas do teu castelo quebraram seu preito e tumultuam na praça: muitos de teus ricos-homens estão conjurados contra ti: teu próprio irmão o está. Partir!, partir! Há quantas horas sabes tu que a última esperança está no partir breve? Porque, depois de tantas hesitações, ainda hesitar uma vez? Asseguremos ao menos a vingança, se não pudermos salvar aqueles que, leais a seu senhor, se foram expor à fúria da vilanagem para esconder nossa fuga... fuga; que é o seu nome!

O furor e o despeito revelavam-se nas faces e nos lábios esbranquiçados da adúltera, e a aflição e o temor comprimidos atraiçoavam-se numa lágrima que lhe rolou insensìvelmente dos olhos. Era uma das raríssimas que derramara na sua vida.

El-rei tinha escutado imóvel. Desacostumado de ter vontade própria, desde que (como dizia o povo) esta mulher o enfeitiçara, ainda mais uma vez cedeu da sua resolução, se não de homem cordato, ao menos de valoroso, e respondeu em voz sumida:

- Partamos. E seja feita a vontade de Deus!

- Ámen! - murmurou o echacorvos.

- Beguino - interrompeu Dª Leonor, voltado-se para Frei Roy -, corre já no rossio de São Domingos e diz em voz bem alta aos populares amotinados que me viste partir com el-rei caminho de Santarém. Talvez assim o conde seja salvo, porque a fúria desses vis sandeus se voltará contra mim. Dize-o, que dirás a verdade: quando lá houveres chegado o meu palafrém terá transposto as Prtas da Cruz. Guardai-vos, mesquinhos, que ele a torne a passar com sua dona. Echacorvos!, esse dia será aquele em que a “adúltera” pague todas as suas dívidas.

Frei Roy sentiu pela medula dorsal o mesmo calafrio que sentira na noite antecedente; porque o olhar que Leonor Teles cravou nele era diagólico, e a palavra “adúltera”, proferida por ela, soava como um dobrar de campa e vinha como envolta num hálito de sepulcro: o beguino arrependeu-se, desta vez mui sèriamente, de ter sido tão miúdo e exacto na “parte oficial”, que apresentara na véspera. Calou-se, todavia, e saiu com o seu ademã do costume, cabeça baixa e mãos cruzadas no peito.

Os três ficaram outra vez sós.

- Dom Judas, meu bom Dom Judas - disse el-rei com gesto de aflição -, não entendo estas embrulhadas letras mouriscas da tua aritmética. Estou certo de que não deves ao tesouro real uma única mealha e de que nas arcas do haver não existe senão o que tu dizes: mas, decerto, não queres que um rei de Portugal caminhe por seu reino como romeiro mendigo. Ao menos os dois mil maravedis de ouro...

- Ai - suspirou o tesoureiro-mor -, juro a vossa real senhoria que me é impossível achar agora outra quantia maior que a de mil dobras pé-terra e trezentas barbudas.

- Fernando - atalhou Leonor Teles -, ordena aos moços do monte que aí ficaram que enfreiem as mulas: devemos partir já. É tão meu afeiçoado Dom Judas que, com duas palavras, eu obterei o que tu não pudeste obter com tantas rogativas.

Ela sorriu alternativamente com um sorriso angélico para el-rei e para o tesoureiro-mor. D. Fernando obedeceu e, alevantando o reposteiro que encobria uma porta fronteira àquela por onde entrara o beguino, desapareceu. O tesoureiro ia a falar; mas ficou com a boca semiaberta, o rosto pálido e como petrificado, vendo-se a sós com Dª Leonor. Era que já a conhecia havia largos tempos.

- Dom Judas - disse esta em tom mavioso -, tu hás-de fazer serviço a el-rei para esta jornada. Darás os dois mil maravedis velhos.

- Não posso! - respondeu D. Judas com voz trémula e afogada.

- Judeu! - replicou Dª Leonor, apontando para um cofre pequeno que estava no canto mais escuro do aposento, coberto de três altos de pó -, o que está naquela arca?

O tesoureiro-mor, depois de hesitar por momentos, balbuciou estas palavras:

- Nada... ou, a falar verdade... quase nada. Bem sabeis que, dantes, guardava ali algumas mealhas que me sobejavam da minha quantia; mas há muito que nem essas poucas mealhas me restam.

- Vejamos, todavia - tornou Dª Leonor, cujo aspecto se carregava.

- Misericórdia! - bradou D. Judas com indizível agonia. Mas, reportando-se, por um destes arrojos que os grandes perigos inspiram, procurou disfarçar o seu susto, continuando com riso contrafeito:

- Misericórdia, digo; porque fora mais fácil achar entre os amotinados do rossio um homem leal a seu rei, do que eu lembrar-me agora do lugar onde terei a chave de uma arca há tanto tempo inútil e vazia.

- Perro infiel! Eu te vou recordar quem pode dizer onde a havemos de achar.

- Estais hoje, mui excelente senhora, merencória e irosa - replicou o tesoureiro-mor, trabalhando por dar às suas palavras o tom da galantaria, mas, visìvelmente, cada vez mais enfiado e trémulo. - Assim chamais perro infiel ao vosso leal servidor, por causa de uma chave inútil que se perdeu? Todavia, dizei quem sabe dela, que eu a irei procurar.

- Generoso e leal tesoureiro! - interrompeu Dª Leonor, imitando o tom das palavras do judeu, como quem gracejava -, não te dês a esse trabalho, por tua vida. Quem pode fazê-la aparecer é um velho cão descrido que mora na comuna de Santarém. Eu sei de um remédio que lhe restituirá à língua a presteza de uma língua de mancebo de vinte anos. O seu nome é Issachar. Conhece-lo?

- Alta e poderosa senhora, vós falais de meu pobre pai! - respondeu o tesoureiro-mor, redobrando-lhe a palidez. - Mas tratemos agora do que importa. Com mil e quinhentos dobras pé-terra e trezentas barbudas, que eu disse a meu senhor el-rei estarem prestes...

Dª Leonor lançou para o judeu um olhar de escárnio e prosseguiu:

- Do que importa é que eu trato. Sabes tu, meu querido Dom Judas, que, sejam as tuas dobras mil ou quinhentas, amanhã, a estas horas, eu Dona Leonor Teles, a rainha de Portugal. estarei em Santarém? Ouviste já dizer que, em não sei qual das torres do alcácer, há um excelente potro, capaz de desconjuntar num instante os membros do mais robusto vilão? Veio-me agora à ideia de que o velho Issachar, amarrado a ele, deve ser gracioso; porque, tendo vivido muito, constrangido a falar, há-de contar cousas incríveis, quanto mais dizer onde está uma chave cujo paradouro ele não pode ignorar. Não achas tu, também, que é folgança e desporto digno de qualquer rainha o ver como estouram os ossos carunchosos de um perro de noventa anos?

Um suor fio manou da fronte de D. Judas, cujas pernas vacilantes se esquivavam a sustê-lo. Quando Dª Leonor acabou de fazer as suas atrozes perguntas o judeu tinha caído de joelhos aos pés dela.

- Por mercê, senhora - exclamou ele, em transe horroroso de angústia -, mandai-me açoutar como o mais vil servo mouro: mandai-me rasgar as carnes com os mais atrozes tormentos; mas perdoai a meu velho pai, que não tem culpa da pobreza de seu filho. Se eu tivera ou pudera alcançar mais que as duas mil dobras e as quinhentas barbudas que ofereci a meu senhor el-rei...

- Judeu atalhou Dª Leonor -, tu deves saber três cousas: a primeira é que os tratos do potro são intoleráveis; a segunda é que eu costumo cumprir as minhas promessas; a terceira é que, se, neste momento de aperto, eu teu pudesse aplicar o remédio, não o guardaria para a ossada bolorente de um lebréu desdentado.

- Vendido cem vezes - prosseguiu o tesoureiro-mor, lavado em lágrimas e procurando abraçá-la pelos joelhos - eu não poderia apresentar neste momento mais que a soma já dita de duas mil e quinhentas dobras e quinhentas barbudas, ainda que vossa mercê me mandasse assar vivo.

- És um louco, Dom Judas! - interrompeu Dª Leonor, afastando de si o judeu, com um gesto de brandura. - Por uma miséria de pouco mais de quinhentos pés-terras, consentirás que Issachar, que teu pai, honrado velho!, pragueje, nas ânsias do potro, contra o Deus de Abraão, de Jacob e de Moisés?

O tesoureiro-mor conservou-se por alguns momentos calado e na postura em que estava. Depois, passando o braço de revés pelos olhos, enxugou as lágrimas e ergueu-se. A resolução que tomara era a de um desesperado que vai suicidar-se.

- Aqui estarão, senhora - murmurou ele -, os dois mil maravedis quando os quiserdes. Procurarei obtê-los; mas ficarei perdido. Agora podeis dar ordem à vossa partida.

- Adeus, meu mui honrado Dom Judas - disse Dª Leonor, sorrindo. - Não perderás nada em ter cedido aos meus rogos.

Dito isto, saiu pela mesma porta por onde saída el-rei.

O judeu estendeu os braços, com os punhos cerrados, para o reposteiro, que ainda ondeava, e levou-os depois à cabeça, de onde trouxe uma boa porção de melenas grisalhas. Feito isto, tirou da aljubeta uma chave, abriu o cofre pequeno e pulverulento, sacou para fora um saquitel pesado, selado e numerado, e os dois mil maravedis rolaram sobre o grande livro, que ainda estava aberto sobre uma das arcas. Contou-os quatro vezes, empilhou-os aos centos e, como se as forças se khe tivessem exaurido no espantoso combate que se passava na sua alma, atirou-se de bruços sobre a pequena arca e, abraçado com ela, desatou a chorar.

Meu pobre tesouro, junto com tanto trabalho! - exclamou por fim, entre soluços. - Guardei-te neste cofre com medo de te ver roubado, e os salteadores vim encontrá-los aqui! Mas que se livrem de eu tornar a receber os direitos reais das mãos dos mordomos. Meus ricos dois mil maravedis de bom ouro, não voltareis sòzinhos quando vos tornardes a ajuntar com os vossos abandonados companheiros!

Esta ideia pareceu consolar de alguma modo D. Judas. Levantou-se, tornou a contar os dois mil maravedis: desconfiou de que havia engano, e que eram dois mil e um: tornou-os a contar, e, quando el-rei entrou no aposento, já prestes para cavalgar, tinha o bom do judeu obtido a certeza de que não dava uma pojeia de mais da soma que lhe fora requerida em nome do potro da torre de Santarém.

- Oh - exclamou el-rei, lançando os olhos para cima do desalmado fólio, sobre cujas páginas amareladas estava empilhado o dinheiro -, temos os dois mil maravedis?!

- Saiba vossa real senhoria que, felizmente, tinha em meu poder uma soma pertencente a Jeroboão Abarbanel, o mercador da Porta do Mar, soma de que não me lembrava: ao vasculhar as arcas, dei com ela; a quantia está completa, e o honrado mercador não levará, por certo, mais de cinco por cento ao mês, enquanto os ovençais de vossa senhoria não vierem entregar no tesouro o produto dos direitos reais vencidos. Então pagar-lhe-ei, até à última mealha, a quantia e os seus lucros, se vossa senhoria não ordena o contrário.

- Faze o que entenderes, Dom Judas - respondeu el-rei, que não o ouvira, atento a meter numa ampla bolsa de argempel, que trazia pendente do cinto, os dois mil maravedis. - Tudo fio de ti, honrado e leal servidor.

E, recolhendo os maravedis, saiu. O judeu ficou só.

- No Inferno ardas tu, com Datã, Coré e Abirão, maldito nazareno!,,, - murmurou ele. - Porém não antes de eu haver colhido os dois... quero dizer, os três mil e duzentos maravedis que me tiraste com tanta consciência quanta pode ter a alma tisnada de um cristão.

Feita esta jaculatória ao Deus de Israel, D. Judas aferrolhou interiormente a porta do reposteiro, atravessou o aposento, saiu pela porta fronteira, que também aferrolhou, e a bulha dos seus passos, que se alongavam, soou através dos corredores por onde passara Frei Roy, até que, por aquela parte do palácio, tudo caiu em completo silêncio.

V

Mestre Bartolomeu Chambão

Frei Roy, saindo da casa das arcas, atravessara os corredores vizinhos: mas, em vez de seguir o que dava para o passadiço de S. Martinho, tomara por uma escadinha escura aberta no topo da estreita passagem anterior a esse passadiço. Esta escadinha descia para o átrio do paço. O beguino, habituado, pelo seu ministério, a entrar na morada real às horas mortas e a sair nas menos frequentadas, sabia por diuturna experiência que a porta principal devia estar aberta, mas ainda erma, ao mesmo tempo que a igreja, por onde entrara, já começaria a povoar-se de fiéis, porque, como é fácil de supor, as igrejas eram naquela época mais frequentadas do que hoje. Desceu, pois, com passo firme, resolvido a encaminhar-se ao rossio e a espalhar entre os amotinados a notícia da partida de el-rei.

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