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Eurico, O Presbítero

Alexandre Herculano

1

Mais de sete séculos são passados depois que tu, ó Cristo, vieste visitar a terra.

E as tuas palavras foram escutadas pelos indomáveis filhos da Gótia, e eles ajoelharam aos pés da cruz.

Era que nessas palavras divinas havia uma poesia celeste, a qual as almas rudes mas virgens do Setentrião sentiam casar-se com as suas primitivas virtudes.

Tu evangelizavas a liberdade e condenavas todo o gênero de tirania: tu restituías ao valor a sua generosidade, à generosidade a sua modéstia; tu revelavas inauditos mistérios no esforço do mor­rer: a constância dos teus mártires escurecia a dos nossos guerreiros quando, debaixo do punhal de inimigo vitorioso, recusavam confes­sar-se vencidos.

Tu convertias o amor, esse afeto delicioso, até então limitado ao gozo material da mulher, em sentimento grande e sublime: alar­gavas o âmbito do coração por toda a terra, por tudo quanto nela vive e respira, e davas-lhe para conquistar todas as existências dos céus.

A generosidade, o esforço e o amor, ensinaste-os tu em toda a sua sublimidade: só nas almas dos bárbaros estavam eles em germe. Não para os romanos corrompidos, mas para nós, os selvagens setentrionais, era o cristianismo. Para estes o evangelho assemelhava-se ao sol que rompe de além das serras e que ilumina, aquece e alegra; para os escravos abjetos dos césares assemelhava-se ao sol mergulhando-se no mar, que só deixa nos campos escuridão, frialdade e tristeza.

Por isso, enquanto eles voltavam as costas à tua cruz ou a lan­çavam de envolta com os ídolos nos seus mesquinhos larários, nós quebrávamos no fundo das selvas ou no topo das montanhas as imagens de Odin, de Tor e de Freda e corríamos a abraçar-nos com ela.

Tem compaixão de nós, ó Cristo; lembra-te de que os ossos dos que assim o fizeram ainda não são inteiramente cinzas debaixo das lousas; porque só quatro séculos têm passado por cima deles.

2

Quem é hoje cristão e godo nesta nossa terra de Espanha?

Uma geração degenerada pisa os restos de heróis: homens sem crença, blasfemos ou hipócritas, sucederam aos que criam na gran­deza moral do gênero humano e na providência de Deus.

Dantes, os príncipes do povo eram os capitães das hostes: a espada dos reis, a primeira que se tingia no sangue dos inimigos da pátria.

Dantes, o sacerdote era o anjo da terra: os que passavam curva­vam-se para beijar a fímbria da sua estringe; porque a paz e a esperança entravam em todas as moradas sobre que desciam as bênçãos dele.

Dantes, o juiz era o pai do oprimido, o tribunal o abrigo do inocente, a justiça o nervo do império gótico.

Dantes, nos conselhos dos prelados, dos nobres, dos homens livres as leis iam buscar a sanção da sabedoria e aferir-se pela utilidade comum. Lá o rei sabia que o poder lhe vinha de Deus e da vontade dos godos, que o cetro era cajado de pastor, não cutelo de algoz, e a coroa uma carga pesada, não uma auréola de vanglória.

Hoje, nos paços de Toletum só retumba o ruído das festas, os francos e os vascônios talam as províncias do norte, e a espada dos guerreiros só reluz nas lutas civis.

Hoje, os príncipes na embriaguez dos banquetes esqueceram-se das tradições de avós; esqueceram-se de que era aos capitães das hostes da Germânia que os romanos imbeles davam o nome de reis.

Hoje, a prostituição entrou no templo do Crucificado, os claus­tros das catedrais velam com o seu manto de pedra as abominações da torpeza, e as mãos do sacerdote deixam muitas vezes umedecida a tela que veste os altares com vestígios do sangue derramado covarde e vilmente.

Hoje, a cobiça assentou-se no lugar da eqüidade: o juiz vende a consciência no mercado dos poderosos, como as mulheres de Babi­lônia vendiam a pudicícia nas praças públicas aos que passavam, diante da luz do dia.

Hoje, a espada substituiu o conselho dos prelados, dos nobres e dos homens livres: a coroa é uma conquista, a lei vontade do desonra­do vencedor de pelejas domésticas, a liberdade palavra mentida.

Império de Espanha, império de Espanha! por que foram os teus dias contados?

3

O sol oriental que ora bate ridente no pavimento da igreja aflige a minha alma, porque me parece que, alumiando esta terra condenada, se assemelha a homem cruel que viesse dar uma risada junto ao leito do moribundo.

Por que te havia eu de amar, ó sol, se tu és o inimigo dos sonhos do imaginar; se tu nos chamas à realidade, e a realidade é tão triste?

Pela escuridão da noite, nos lugares ermos e às horas mortas do alto silêncio, a fantasia do homem é mais ardente e robusta.

É então que ele dá movimento e vida aos penhascos, voz e entendimento às selvas que se meneiam e gemem à mercê da brisa noturna.

É então que ele colige as suas recordações; une, parte, transmuda as imagens das existências que viu passar ante si e estampa nas sombras que o rodeiam um universo transitório, mas para ele real.

E é belo esse mundo de fantasmas aéreos, por entre cujos lábios descorados não transpiram nem perjúrio nem dobrez, e a cujos olhos sem brilho não assoma o reflexo de ânimos pervertidos.

Aí há o repouso, a paz e a esperança que desapareceram da terra; porque o mundo das visões cria-o a mente pura do poeta: ela dá corpo e vulto ao que já só é ideal, e o passado, deixando cair o seu imenso sudário, ergue-se em pé e, pondo-se diante do que medita, diz-lhe: - aqui estou eu!

E este o compara com o presente e recua de involuntário terror:

Porque o cadáver que se alevanta do pó é formoso e santo, e o presente que vive e passa e sorri é horrendo e maldito.

E o poeta atira-se chorando ao seio do cadáver e responde-lhe: - esconde-me tu!

É lá que esta alma, árida como a urze, sente, quando aí se abriga, refrescá-la como um orvalho do céu.

VI

Saudade

Cristo! - dá-me o perdão, dá-me re­médio; que entre tão vário mal fraqueia a mente!

Eugênio Toledano, Opúsculos - XI.

Na Ilha Verde. Ao pôr-do-sol das calendas de abril da era de 749.

1

O mar estava tranqüilo, e o ar puro e diáfano. As costas de África fronteiras, lá na extremidade do horizonte, pareciam uma orla escura bordada no manto azul do firmamento.

A aragem do norte encrespava suavemente a superfície das águas; as ondas vinham espraiar-se preguiçosas no areal da baía.

O barqueiro Ranimiro dormia na sua barca amarrada na foz do Palmônio. Uma saudade indizível atraía-me para o mar.

Saltei na barca; o ruído que fiz despertou Ranimiro. - "Ao largo" - disse-lhe eu. Empunhou os remos, e partimos.

- Para onde, presbítero? - perguntou o barqueiro, depois de vogar alguns momentos em silêncio.

- Quero respirar o ar puro e fresco da tarde; mais nada repliquei. - Leva-me, para onde te aprouver.

- Se vos parece - tomou Ranimiro - rodearemos a Ilha Verde, entraremos no canal, e saltareis na margem. Pelo tempo que vai, ela estará agora esmaltada de verdura e boninas.

Calei-me: o barqueiro tomou por aprovação o meu silêncio. Voltando a proa para poente, corremos ao largo da ilha e, rodeando a sua margem ocidental, abicamos em terra pelo lado da enseada que a separa do continente.

Ranimiro não se enganara: como uma tapeçaria riquíssima lan­çada ao som das águas, a superfície da ilha agitava-se trêmula com a aragem da terra, que curvava brandamente as flores e as folhinhas lanceoladas da relva.

Assentado à sombra de uma rocha que formava um promonto­riozinho do lado do sul, lancei os olhos em volta até onde se des­cobria o horizonte. Lá, no extremo do Estreito para a banda do mar interior, viam-se na ponta da África os cimos das torres de Septum, fronteiras aos cerros escalvados do Calpe. De Septum para o ocidente as costas africanas contrastavam nas suas ondulações suaves com a penedia áspera das ribas hispânicas, e, confrangido entre os dois continentes, o mar balouçava-se resplandecente com os raios já inclinados do sol.

De roda de mim a atmosfera estava impregnada de um hálito perfumado: era a natureza que sorria afagada pela primavera. As aves aquáticas redemoinhavam nos ares ou pousavam sobre as águas, e pareciam, nos seus vôos incertos, ora vagarosos, ora rápidos, fol­garem com os primeiros dias da estação dos amores.

Uma melancolia suave se me erguia lentamente no coração, debaixo daquele céu puro, naquela atmosfera balsâmica, ante aqueles horizontes saudosos. As lágrimas rebentaram-me involuntariamente dos olhos.

Era feliz neste momento, porque repousava de amarguras. Olhei para a barca: Ranimiro adormecera de novo à proa. Repousavam bem perto um do outro a matéria e o espírito.

Bem-aventurado, pensei eu comigo, aquele em quem os afagos de uma tarde serena de primavera no silêncio da solidão produzem o torpor dos membros; porque nessa alma dormem profundamente as dores no meio do ruído da vida!

E este pensamento trouxe-me pouco e pouco à memória as tem­pestades do passado! Ai de mim! Logo se me enxugaram as lágri­mas, porque eram de consolação, e essa lembrança as estancou!

2

Por que não adormeço eu, como o rude barqueiro, ao murmúrio das vagas sonolentas, ao sussurro da brisa do norte?

Porque mulher bárbara não entendeu o que valia o amor de Eurico; porque velho orgulhoso e avaro sabia mais um nome de avós do que eu, e, porque nos seus cofres havia mais alguns punha­dos de ouro do que nos meus.

As mãos imbeles de uma donzela e de um velho esmagaram e despedaçaram o coração de um homem, como os caçadores covardes assassinam no fojo o leão indomável e generoso.

E, todavia, este coração sentia a voz da consciência pregoar-lhe largos destinos! Por que não emudeceu essa voz quando do pórtico do templo lancei ao mundo a maldição da despedida?

Por que me lembra com saudade, aqui, a estas horas, o tempo das minhas esperanças?

É porque o viver é o ecúleo do espírito: a alma estorce-se como agonizante no meio dos mais incomportáveis tormentos, sem nunca poder expirar, e os seus afetos profundos são como ela; não lhes é dado o morrer.

Paz e esquecimento, ó meu Deus!

3

Os raios derradeiros do sol desapareceram: o clarão avermelhado da tarde vai quase vencido pelo grande vulto da noite, que se ale­vanta do lado de Septum. Nesse chão tenebroso do oriente a tua imagem serena e luminosa surge a meus olhos, ó Hermengarda, se­melhante à aparição do anjo da esperança nas trevas do condenado.

E essa imagem é pura e sorri; orna-lhe a fronte a coroa das virgens; sobe-lhe ao rosto a vermelhidão do pudor; o amículo alvís­simo da inocência, flutuando-lhe em volta dos membros, esconde­-lhe as formas divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos belas que a realidade.

É assim que eu te vejo em meus sonhos de noites de atroz sau­dade: mas, em sonhos ou desenhada no vapor do crepúsculo, tu não és para mim mais do que uma imagem celestial; uma recordação indecifrável; um consolo e ao mesmo tempo um martírio.

Não eras tu emanação e reflexo do céu? Por que não ousaste, pois, volver os olhos para o fundo abismo do meu amor? Verias que esse amor do poeta é maior que o de nenhum homem; porque é imenso, como o ideal, que ele compreende; eterno, como o seu nome, que nunca perece.

Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te muito! Adorava-te só no santuário do meu coração, enquanto precisava de ajoelhar ante os altares para orar ao Senhor. Qual era o melhor dos dois templos? Foi depois que o teu desabou, que eu me acolhi ao outro para sempre.

Por que vens, pois, pedir-me adorações quando entre mim e ti está a cruz ensangüentada do calvário; quando a mão inexorável do sacer­dócio soldou a cadeia da minha vida às lájeas frias da igreja; quando o primeiro passo além do limiar desta será a perdição eterna?

Mas, ai de mim! esta imagem que parece sorrir-me nas solidões do espaço está estampada unicamente na minha alma e reflete-se no céu do oriente através destes olhos perturbados pela febre da loucura, que lhes queimou as lágrimas.

Tu, Hermengarda, recordares-te?! Mentira!... Crês que morri, ou porventura, nem isso crês; porque para creres era preciso lembra­res-te, e nem uma só vez te lembrarás de mim!

Lá, no tumulto dos cortesãos, onde o amor é cálculo ou sentimento grosseiro, terás achado quem te chame sua, quem te aperte entre os braços, quem tivesse para dar a teu pai o preço do teu corpo e te comprasse como alfaia preciosa para serviço doméstico. O velho estará contente, porque trocou sua filha por ouro.

A isto chama prudência o mundo estúpido e ambicioso; a isto, que não é mais do que uma prostituição abençoada sacrilegamente perante as aras sacrossantas.

Oh, quantas vezes esse pensamento repugnante me tem feito vaguear louco pelas montanhas, uivando como o lobo esfaimado e tentando despedaçar os rochedos com as mãos, donde me goteja o sangue!

E tu folgas e ris! Oxalá nunca saibas quão imenso e atroz é o meu tormento, que devo velar diante dos homens debaixo de aspecto tranqüilo, como se, em vez de martírio, ele fosse um abominável crime.

4

E quem te disse, presbítero, que o teu amor não era um crime?

Tens razão, consciência! Quando aos pés do venerável Siseberto o gardingo Eurico jurou que abandonava o mundo, devia despir as paixões que do mundo trouxera.

A luz brilhante de afeições e esperanças a que vivia e que me povoava o coração de felicidade devia apagar-se então, como a lâmpada do templo ao amanhecer; porque eu voltava-me para o céu, buscando a luz do Senhor.

Mas o sol, apenas nasceu para mim, logo desapareceu no ocaso, e os que me crêem alumiado mal pensam que vivo em trevas!

As minhas paixões não podiam morrer, porque eram imensas, e o que é imenso é eterno.

E assim, nem ouso pedir a paz do sepulcro; porque para mim

não haveria paz, senão no aniquilamento.

O aniquilamento! Que mal te fiz eu, ó meu Deus, para não me deixares cá dentro mais que uma idéia risonha, mais que um desejo capaz de encher o abismo da minha desventura? Que mal te fiz eu para que esse desejo, essa idéia seja a que unicamente resta ao precito que se revolve em perpétuas angústias?

Mas para mim, como para ele, tal pensamento é vão e mentido! Eternidade, eternidade, a alma do homem está encerrada e cativa no ilimitado do teu império!

VII

A Visão

No espelho da visão está a segurança da verdade.

Código Visigótico - 1 - 1 - 2.

Presbitério. Antemanhã. Oito dos idos de abril da era de 749.

1

O sono ou a vigília, que me importa esta ou aquele? As horas da minha vida são quase todas dolorosas porque a imaginação do homem não pode dormir.

Para o povo, ignorante e impiamente crédulo, a noite é cheia de terrores; em cada folha que range na selva ele ouve um gemido de alma que vagueia na terra; em cada sombra de árvore solitária que se balouça com a aragem sente o mover de um fantasma; as exalações dos brejos são para ele luz de demônios, alumiando folgares de feiticeiras.

Mas, quando jaz no leito do repouso, o seu dormir é tranqüilo. Ao cruzar os umbrais domésticos, esses terrores sumiram-se com os objetos que os geraram. A sua alma parece despir-se da fantasia grosseira, como o corpo se despe da estringe áspera que lhe res­guarda os membros.

Não assim eu. Quando as pálpebras cerrando-se me escondem o mundo das realidades, os olhos do espírito volvem-se para o mundo das existências ideais. Às vezes a felicidade e a esperança vêm consolar-me então; muitas mais, porém, os sonhos maus me perse­guem; e por bem alto preço me saem os instantes de ventura transi­tória, trazidos por visões consoladoras.

Esta foi para mim uma noite cruel. Ainda o suor frio que me corria na fronte se não secou; ainda o coração parece mal caber no peito, e o pulso bate desordenado e violento.

Terribilíssimos foram os sonhos que Deus mandou ao prebístero; mas, porventura, mais terrível é a sua significação.

Diz-me voz íntima que esse doloroso espetáculo a que assistiu minha alma é, ó Espanha, o mistério dos teus destinos.

E esta foi a visão:

2

Eram as horas das trevas profundas. Sem saber como, achava­-me no viso mais alto do Calpe: traspassava-me a medula dos ossos o vento frio da noite, e parecia-me que os membros hirtos se me haviam pregado no topo da penedia.

Olhava fito ante mim, e os meus olhos rompiam a escuridão do horizonte, como se a luz do sol o iluminasse.

O espetáculo maravilhoso que se passava nesse espaço insondável fazia-me erriçar os cabelos, que o norte me açoitava com o sopro gelado.

Eis o que eu vi nessa hora de agonia, depois de estar ali alguns não sei se instantes ou séculos.

O mar cessou de agitar-se e rugir, semelhante ao metal fervente destinado para a feitura de estátua colossal que resfriasse de súbito em vasta caldeira.

Era horribilíssimo ver convertido em cadáver, de todo imóvel e mudo, o oceano; aquele oceano que há mais de quarenta séculos nem um só dia deixou de revolver-se e bramir em torno dos continentes, como o tigre ao redor da rês que jaz morta.

O sibilar das rajadas também cessou completamente. Parado sobre a face da terra, o ar era semelhante ao lençol do finado a quem recalcaram a gleba que o cobre, frio, úmido, pesado, sem ranger, sem o movimento, cosido sobre o peito, onde acabou o bater do coração e o arfar compassado dos pulmões.

Então, muito ao longe, uma vermelhidão tenuíssima foi avultando pouco a pouco, derramando-se pelo horizonte e repintando a abóbada imensa dos céus.

Depois, esse clarão sinistro reverberou na terra: as cimas agudas, dentadas, tortuosas, alvacentas das fragas marinhas tinham-se aba­tido e livelado, como os cerros informes de neve amontoada, que, derretidos nos primeiros dias do estio, vão, despenhando-se, formar um lago chão e morto na caldeira mais funda do vale fechado.

Tudo a meus pés era um plano uniforme, ermo, afogueado, como a atmosfera que pesava em cima dele: e, além, jazia o cadáver do mar.

Eu, o Silêncio e a Solidão éramos quem estava aí!

3

Subitamente, naquele vasto horizonte, até então puro na sua luz horrenda, dois castelos de nuvens cerradas e negras começaram a alevantar-se, um da banda da Europa, outro do lado de África.

Os bulcões conglobados corriam um para o outro e multiplicavam-se, vomitando novos castelos de nuvens, que se difundiam, flu­tuando enoveladas com formas incertas.

E aquelas montanhas vaporosas e negras rasgaram-se de alto a baixo em fendas semelhantes a algares profundos, e os seus fragmen­tos informes e cambiantes vacilavam trêmulos em ascensão diagonal para as alturas do céu.

Ao aproximarem-se, os dois exércitos de nuvens prolongaram-se em frente um do outro e toparam em cheio, Era uma verdadeira batalha.

Como duas vagas encontradas, no meio de grande procela, que, tombando uma sobre a outra, se quebram em cachões que espada­nam lençóis de escuma para ambos os lados, antes que a menos violenta se incorpore na mais possante, assim aquelas nuvens tenebrosas se despedaçavam, derramando-se pela imensidão da abóbada afogueada.

Então, pareceu-me ouvir muito ao longe um choro sentido misturado com gritos agudos, como os do que morre violentamente, e um tinir de ferro, como o de milhares de espadas, batendo nas cimeiras de milhares de elmos.

Mas este ruído foi-se alongando e cessou: os bulcões alevantados da banda de África tinham embebido em si os que subiam da Europa, e desciam rapidamente para o lado dos campos góticos.

Depois, senti lá embaixo, na raiz da montanha, um rir diabólico. Olhei: o Calpe esboroava-se ao redor de mim, e os rochedos sobre que eu estava assentado vacilavam nos seus fundamentos.

Despertei. Tinha os cabelos hirtos, e o suor frio manava-me da fronte aquecida por febre ardente.

Senhor, Senhor! foste tu que deste a ler à minha alma a última página do livro eterno em que a Providência escreveu a história do império godo?

Contam-se coisas incríveis desses povos que assolam a África, chamados os árabes, e que, em nome de uma crença nova, pretendem apagar na terra os vestígios da cruz. Quem sabe se aos árabes foi confiado o castigo desta nação corrupta?

Já as nossas praias foram visitadas por eles, e para os repelir cumpriu que desembainhasse a espada o ilustre Teodomiro, o último guerreiro, talvez, que mereça o nome de neto dos godos.

Terra em que nasci, se o teu dia de morrer é chegado, eu morrerei contigo. Na procela que se alevanta de África deixarei submergir o meu débil esquife, sem que a esses gemidos que ouvi se vão ajuntar os meus. Que me importa a vida ou a morte, se o padecer é eterno?

VIII

O Desembarque

E eu estava em um ângulo, observando com temor.

Paulo Diácono: Vidas dos PP. Emeri­tenses.

DO PRESBÍTERO DE CARTÉIA

AO DUQUE DE CÓRDUBA

Ao Duque Teodomiro, saúde!

Quando Vítiza reinava, na corte esplêndida de Toletum, havia dois tiufados que a todos serviam de exemplo de íntima e sincera amizade. Opiniões e intentos, alegrias e tristezas eram comuns para ambos. Chamava-se Teodomiro o mais velho, Eurico o mais moço. Nas suas esperanças de mancebos, as Espanhas foram-lhes, muitas vezes, acanhado teatro para ilusões de ambição. A glória era o seu perpétuo sonho, e as recordações das façanhas dos antigos godos embriagavam-lhes os ânimos ao lembrarem-se de que as armas dos seus avós da Germânia tinham brilhado vitoriosas sempre sobre os membros despedaçados do império romano. Quando o grito da rebelião soou na Cantábria, as tiufadas dos dois mais irmãos que amigos acompanhavam Vítiza na expedição contra os montanheses rebeldes e contra os francos seus aliados. Então, nessa guerra de extermínio, os dois mancebos viram saciada a sua sede de renome. Como os maciços de neve que se despenham das montanhas escar­padas da Vascônia, as duas tiufadias de Teodomiro e de Eurico apareciam, às vezes, subitamente, nos visos das serras e, apenas os primeiros raios do sol faziam reluzir as armas, semelhantes no brilho trêmulo ao alvejar da geada, ei-las que pareciam rolar-se pela en­costa, e dentro de pouco, os acampamentos dos francos e cantabros ficavam esmagados debaixo do ímpeto irresistível dessas pinhas de soldados que eram arremessados sobre o inimigo por duas vontades êmulas de glória. Expulsos os estrangeiros e submetidos os rebelados, a hoste real entrou vitoriosa em Tárraco. O duque Favila recebeu em triunfo os pacificadores da Cantábria, e Teodomiro e Eurico obti­veram a recompensa do que combateu pela pátria, a gratidão dos seus naturais.

Foi aí que o destino preparou a separação dos dois guerreiros que parecia só a morte poder dividir. Favila tinha dois filhos, Her­mengarda e Pelágio. Pelágio saía apenas da infância, mas para Hermengarda despontavam já então os risonhos dias da juventude. A sua formosura era celestial: Eurico viu-a e amou-a. Quando as tiufadias foram chamadas a Tolentum, Eurico voltou triste à terra da sua infância. Dir-se-ia que eram os contentamentos da pátria que ele trocava pelas tristezas do desterro. Debalde buscou Teodomiro apagar aquela paixão violenta no coração do seu amigo, lan­çando-se com ele nas festas ruidosas de uma corte dissoluta. A embriaguez dos banquetes era para Eurico tristonha; as carícias feminis, facilmente compradas e profundamente mentidas, atrás das quais correra loucamente outrora, tinham-se-lhe tornado odiosas; porque o amor, com toda a sua virgindade sublime, lhe convertera em podridão asquerosa os deleites grosseiros que o mundo oferece à sensualidade do homem. Teodomiro acreditava na eficácia da brute­za para matar o mais formoso dos afetos humanos; mas o amor devorou na mente de Eurico todos os outros sentimentos, como a lava candente devora tudo o que encontra, quando o vulcão a vomita, alagando a superfície da terra.

Favila veio à corte: Hermengarda acompanhava-o. Teodomiro recordar-se-á ainda de qual foi o desfecho do amor de Eurico, que ousou dizer ao velho prócer: - "Dá-me por mulher tua filha". - A amizade de Teodomiro salvou então o desprezado gardingo da morte do corpo, mas não pôde salvá-lo da morte da alma. Razões, rogos, lágrimas; quanto a eloqüência da afeição mais que fraterna tem de veemência; quantas cordas do coração sabe fazer vibrar a mão de um amigo, tudo ele tentou debalde! Não há palavras que possam erguer um espírito que deu em terra; mão nenhuma tira sons de cordas que estalaram. Eurico ou, antes, a sua sombra, fugiu do lado de Teodomiro, e da porta do santuário disse-lhe um adeus eterno, como ao resto do mundo.

Mal sabia o desgraçado que nesse adeus a sua consciência mentia a si própria! Teodomiro, tu hoje és duque de Córduba: entre os povos sujeitos ao teu império; entre os que abençoam a tua justiça e bondade, num ângulo da vasta província da Bética, em Cartéia, vive um pobre presbítero que para ti pede ao Senhor tanto o renome e o poderio quanto para si deseja a obscuridade e o esquecimento.

Este presbitero é quem te escreve; quem limitou a bem poucos anos a eternidade do adeus que te dissera; é aquele que se chamava no mundo o gardingo Eurico, aquele de quem foste amigo, e que foi teu rival de glória.

Duque de Córduba - não creias que o meu espírito se volte hoje para as misérias da terra, impelido por uma tardia saudade. Não! De que me serviriam o ouro, o poder e a grandeza? Para tomar um punhado desse lodo não se curvaria o presbítero. O único afeto eterno, que, talvez, resta a este coração depurado pelo fogo da desdita, o amor da pátria, sentimento confuso e indefinido, mas indelével, é quem obriga Eurico a dizer-te o lugar em que veio coar gota a gota as horas aborridas da sua tormentosa existência.

Teodomiro! Teodomiro! Um dia tremendo se aproxima, em que a Espanha deve ser o túmulo da raça goda. Em sonhos antevi esse dia, e, após os sonhos, a medonha realidade aí se me alevanta diante dos olhos. Cartéia está deserta, como as demais povoações vizinhas. Apenas eu ouso demorar-me nas imediações do Calpe; porque sei, passo a passo, todas as veredas que guiam ao topo dos desfiladeiros, tendo-as regado muitas vezes com lágrimas, tendo-lhes muitas mais confiado a história das minhas agonias. As cidades despovoam-se, e, como elas, os campos convertem-se em ermos. Embora ainda sorriam no vicejar das searas, no florescer dos pomares, no murmu­rar das fontes: semelhante sorrir consterna; porque o homem desa­pareceu no meio desta cena formosa, e o ruído da vida converteu-se em silêncio de morte. - Os árabes! - eis o único grito que o interrompe; e esta palavra maldita é como a peste quando passa: seguem­-na o susto e o desacordo. A vileza do coração humano surge após ela em toda a hediondez do seu aspecto. O terror acabou com os mais santos afetos e, até com o amor filial e paterno. Cada qual busca salvar-se a si próprio. Os netos dos nobres godos converteram­-se num bando desprezível de covardes egoístas.

Há três dias, ao romper da manhã, um grande número de velas branquejavam sobre as águas do Estreito: vinham do lado de Septum. Corremos à praia. Dentro de poucas horas entraram na baía de Cartéia e algumas entestaram com a Ilha Verde. Via-se distinta­mente o reluzir das armas, e vários soldados que tinham ajudado a repelir os primeiros assaltos dos africanos nas costas de Espanha reconheceram logo os trajos e as armas dos árabes. Entre estes, porém, divisavam-se muitos godos, pelas armaduras pesadas, pelos largos ferros dos franquisques e pelas estringes mais curtas que as amplas vestiduras dos filhos do Oriente. Daí a pouco, toda a frota velejou para o lado do Calpe, e, quando anoiteceu, as faldas da montanha apareceram alumiadas por muitos fachos. Os árabes tinham desembarcado.

A ansiedade era indizível. Demudadas as faces, olhávamos uns para os outros. Eles tremiam por si; eu pela sorte da Espanha. Mas por que entre esses que pareciam inimigos se achava tão avultado número de godos? Esta pergunta significava a nossa derradeira esperança.

Ao entenebrecer, alguns barqueiros saíram ao largo e, vogando surdamente, foram espiar a frota. Tomando os atalhos mais curtos, eu encaminhei-me sozinho para o Calpe, cujo vulto gigante, rodeado de fachos ao sopé, negrejava no topo sobre o fundo alvacento do céu limpo de nuvens, onde a lua passava tranqüila, embargando com o seu clarão pálido o cintilar das estrelas.

Era alta noite quando cheguei à montanha. Subindo pelas que­bradas, salvando precipícios, cosendo-me com as fragas tortuosas, descendo pelos leitos das torrentes, cheguei a um rochedo contíguo à planície que das raízes da serrania vai morrer no rolo do mar, na costa oriental da baía. Era aí que os árabes, desamparando a frota, se haviam acampado. Comprimindo o alento, aproximei-me insen­sivelmente de uma tenda mais vasta, alevantada junto do penhasco a que eu chegara sem ser percebido. Por uma fenda que deixavam as telas mal unidas do pavilhão, descortinei o que se passava no interior à luz das tochas que tinham nas mãos dois etíopes, cujos rostos negros contrastavam com a brancura das suas roupas. Assen­tado no chão, com os braços cruzados, um árabe mancebo parecia escutar atentamente um guerreiro godo que, em pé no meio dos outros dois, tinha as costas voltadas para mim. Com espanto e ao mesmo tempo com alegria, percebi que se exprimia em romano rústico, o qual, daí a pouco, vi que o moço árabe falava como se fosse a própria linguagem. Comecei então a escutar atentamente.

- Tárique - dizia o godo - amanhã ao romper da alva é necessário que todos estes penhascos empinados sobre nossas cabeças se coroem dos teus soldados e que não tardes em fortificar essa estreita passagem que une o promontório do Calpe com o resto do continente. É aqui, nesta serra inacessível que deves esperar o resto dos libertadores da Espanha; é daqui que deves sair com os teus irmãos do deserto para quebrar o cetro do tirano Roderico. Se a sorte das armas nos for contrária esperaremos neste lugar novos socorros de África. Septum nos fica fronteiro, e Septum entreguei­-to eu...

Tárique nao o deixou continuar. Como o leão, pulando subitamente dos juncais da Mauritânia, o moço árabe pôs-se em pé, com o gesto colérico, e exclamou:

- Váli dos cristãos! quem te fez crer que Tárique podia ser vencido? Vi em sonhos o profeta de Deus, que me disse: - "a Espa­nha curvar-se-á ao Alcorão" - e Maomé não mente! Ainda sem ti, eu me teria arrojado sobre o império godo, e a minha lança o faria cair a meus pés moribundo, quando Sebta me tivesse fechado as portas; quando todos vós os godos estivésseis unidos contra mim. Deus é grande, e Maomé o seu profeta!

As palavras violentas do árabe revelaram-me quem era o guer­reiro godo. Juliarto, capitaneou, como nós, uma tiufadia na guerra cantábrica e foi valente soldado. Sabia que ele fora elevado à digni­dade de conde de Septum, e que aí se cobrira de glória, repelindo os inimigos do império, que já tinham tentado conquistar aquela pro­víncia. Como e por que atraiçoou a terra natal? Ódios civis o leva­ram a tanta infâmia, segundo entendi das suas palavras. Parricida e fratricida a um tempo, buscava vingar-se talvez de bem poucos de seus irmãos, esmagando-os debaixo das ruínas da pátria. A memória deste mal-aventurado será réproba e maldita das gerações remotas!

Juliano parecia querer responder ao mancebo, quando um sol­dado entrou com um rolo de pergaminho na mão e, entregando-o a Tárique, proferiu algumas palavras em árabe. Tárique olhou então para Juliano com um sorriso e, estendendo-lhe a destra, disse-lhe em voz baixa:

- Vali de Sebta! perdoa-me este ímpeto, como me tens perdoado tantos outros. Bem sei que não podes compreender o que é a fé viva de um muçulmano na proteção de Deus: mas eu seria réu do inferno, se duvidasse um instante das promessas do Profeta. O judeu Zabulão acaba de chegar com essa carta do que vós chamais bispo de Híspalis. Lê-a e dize-me que novas há de Roderico.

Juliano desdeu o nó da carta e leu. Batia-me o coração de furor; mas procurei tranqüilizar-me. Importava-me assaz conhecer o que ela continha para dever prestar toda a atenção possível às palavras do Conde Juliano.

- Rodrigo - disse este, acabando de correr com os olhos o rolo de pergaminho - entregue aos banquetes e festas, não acredita que o dia da vingança amanhecesse para a Espanha; todavia, logo que a notícia indubitável da nossa vinda retumbar sob os tetos dourados dos paços de Toletum, ele convocará os seus numerosos soldados, as suas tiufadias veteranas, e arremessar-se-á contra nós; porque Roderico é dissoluto e perverso, mas nunca foi covarde. O prudente Opas pensa, como eu, que importa fortificar-nos no Calpe. Aconse­lha-o a ciência da guerra, e, se como crente confias no teu profeta para contar com a vitória, como capitão deves seguir os conselhos da prudência humana. Também eu espero no Deus das batalhas - proferiu o conde em tom de mofa, batendo no punho da espada; - também eu tenho a minha Providência; mas a águia, quando se arroja sobre a preá, tem já construído o seu ninho no penhasco da montanha, e as penedias do Calpe devem ser os ninhos das águias que pairam sobre o trono de Roderico.

Tárique ficou por alguns momentos calado e pensativo:

- Seja como te aprouver: - disse por fim. - Busca no exército os melhores artífices árabes e com eles e com os teus godos alevanta esses valos em que põe sua confiança o teu coração descrido.

- Houve um tempo em que não a foi: - replicou Juliano com o acento da cólera misturada de indignação e tristeza: - mas Vítiza dorme debaixo de uma lousa o sono da eternidade, e o seu assassino chama-se o rei dos godos. Ele folga e ri assentado no trono que lhe deu a traição e o perjúrio. Tárique, o teu profeta inspira-te em sonhos; mas a vingança é mais segura inspiração, porque é o sonho perene do homem desperto, quando vê assim falhar a justiça do céu, se é que nele há justiça.

Proferindo estas palavras blasfemas, Juliano saiu da tenda. Tárique bateu as palmas, e um guerreiro etíope, cujos olhos lhe re­luziam sangüíneos na pretidão do rosto, entrou com os braços cruza­dos e ficou imóvel e curvado diante de Tárique. Pareceu-me que este lhe ordenava o que quer que fosse; mas falava na sua linguagem bárbara, e não o pude entender.

Sabia assaz qual era a situação e quais os acidentes do solo de todos os desvios do Calpe para perceber que a minha demora naqueles sítios podia tornar-me impossível a saída. A defensa do promontório consistia unicamente em cortar com valos e cavas o istmo que o liga ao continente. Juliano, começaria, talvez, a alevantar as tran­queiras nessa mesma noite; era, portanto, necessário partir.

Quando atravessei a serra pelos trilhos mais curtos e escusos, conheci que o meu receio fora bem fundado. Parando no topo de uma penedia, donde se divisava ao redor quase toda a montanha, vi centenares de fachos que vacilavam, correndo tortuosamente pelas ladeiras, sumindo-se, tornando a aparecer, retrocedendo. O todo daquela iluminação terrível estendia-se em volta da montanha, formando uma extensa meia-lua, cujas pontas cresciam para o istmo, ao passo que se aproximavam uma da outra, estreitando o cume da serrania. Era visível que alguém, prático nas apertadas gargantas, nas sendas intrincadas do promontório, guiava os bárbaros. Con­vinha fugir, não porque me importasse morrer, mas porque, talvez, a Providência me guiara à tenda de Tárique para que as Espanhas fossem salvas, se é que ela não escreveu irrevogavelmente a sua condenação no livro dos eternos desígnios.

Teodomiro, vê que a traição, semelhante ao veneno recentemente bebido, que gira nas veias e ainda não aparece no aspecto, está por toda a parte e, até, penetra no santuário. É necessário esforço e vigilância, já que as dissensões civis quiseram que os golpes do franquis­que godo hajam de se vibrar sobre a fronte de godos que combatem ao lado do estrangeiro infiel; já que a perfídia pode abrir as portas das nossas cidades aos africanos, sem que estes tenham de passar por cima dos cadáveres de seus irmãos, para se assenhorarem delas. Cumpre que avises Roderico. Em Híspalis está Opas, e Opas tem consigo numerosos clientes, que porventura, entregarão aos invasores a mais formosa e opulenta entre as povoações da Bética. Não tarda­rá que os árabes desçam do Calpe e se derramem pelas províncias de Espanha. Há dois dias que vagueio, quase só, nas imediações de Cartéia: durante eles não se passou uma hora sem que os navios de África viessem vomitar na baía novos esquadrões de soldados. Seme­lhante aos estos do mar, é rápido o seu ir e voltar. Dentro de oito dias, bem custoso seria resistir a Tárique com todo o poder do impé­rio, quanto mais divididos os godos em dois bandos, um dos quais pelejará ao lado dos inimigos.

Dir-to-ei, duque de Córduba: também eu não amo Roderico; porque a memória de Vítiza nunca morrerá no coração do seu antigo gardingo. Sei por quais meios Roderico subiu ao trono, que não obteria pela eleição dos godos. Mas não é a sua coroa que os filhos das Espanhas têm hoje que defender; é a liberdade da pátria; é a nossa crença; é o cemitério em que jazem os ossos dos nossos pais; é o templo e, a cruz, o lar doméstico, os filhos e as mulheres, os campos que nos sustentam e as árvores que nós plantamos. Para mim, de todos estes incentivos, apenas restam dois: o amor da terra natal o a crença do evangelho. No dia do combate, Eurico despirá a estringe inocente do sacerdócio e vestirá as armas para defender estes objetos queridos dos seus derradeiros afetos. Que, também, esses que ainda se enlaçam às ilusões e esperanças, como a hera às ruínas, se ergam para pelejarem batalhas tremendas, porque o serão, por certo, as que nos aguardam; e oxalá que os meus tristes sonhos sejam desmentidos pelo esforço dos guerreiros godos; oxalá que não esteja para bater a derradeira hora do domínio da cruz nesta terra do ocidente regada pelo sangue de tantos mártires!

De Melária, aonde me acolhi com grande número dos moradores de Cartéia e dos seus arredores, continuarei as minhas correrias noturnas para as bandas do Calpe, com os homens mais ousados que quiserem acompanhar-me, até que os árabes desçam da sua guarida, e seja inútil vigiá-los; até que chegue o dia em que os desgraçados, como eu, achem na morte honrada das pelejas o re­pouso das amarguras da vida, se é que além do morrer há o repouso do espírito.

DO DUQUE DE CÓRDUBA

AO PRESBÍTERO DE CARTÉIA

Ao Gardingo Eurico, saúde!

Vives ainda, Eurico! Perto de Córduba, onde existia o seu antigo irmão de armas, o herói da guerra cantábrica nunca teve um impulso de afeto que o levasse a revelar o mistério do seu retiro, em que enviasse uma palavra de consolação para a saúde fraterna. Acusas de egoísmo e fereza os filhos da Espanha, e caíste na mesma culpa: foste egoísta e cruel. Não podias crer, por certo, que eu me houvesse esquecido de ti: larga experiência te ensinou que as minhas afeições são duradouras e profundas. Mas aquele que te amou tanto; aquele que poria a vida para salvar a tua; que nunca teve contenta­mento ou mágoa que fosse para ti segredo, trataste-o com o mesmo desprezo com que, no teu nobre orgulho de desgraçado, trataste o resto do mundo; e do limiar do templo disseste-lhe, talvez, o mesmo adeus de ódio e despeito que disseste ao resto do gênero humano.

É nos dias em que se abre para a pátria uma longa carreira de desventuras, que tu surge, gardingo, como a lembrança querida dos formosos dias da nossa mocidade; é na véspera de uma luta, em que se vai resolver se há de ser livre ou serva a terra dos godos; em que mil cogitações tristemente solenes me assaltam o espírito e me obri­gam a não me afastar de Córduba, onde incessantemente trabalho por ajuntar os valentes companheiros de nossas glórias de outrora; é quando a voz do dever me tem como cativo, que de um ângulo da Bética me dizes - eu vivo! - Embora! Já que não me é dado buscar-te, serás tu que virás lançar-te nos braços do teu amigo.

Sim, gardingo! - Hoje que o império é abalado nos seus funda­mentos; que os pagãos de África ameaçam derribar a cruz erguida no cimo das nossas catedrais; hoje, tu despirás a estringe sacerdotal e cingirás de novo a deposta e esquecida espada. Em Córduba, onde se ajuntam já as tiufadias da Bética, Eurico achará bom número dos seus antigos guerreiros, e os mais ousados mancebos, que ora encetam a vida dos combates em defesa da pátria e da fé, aceitarão com júbilo para seu capitão o homem que deixou um nome que não morrerá enquanto durar a memória do desbarato dos vascônios e francos. Na ebriedade da glória que te espera, porventura, achará o teu pobre coração, despedaçado pelas paixões que aí passaram, o alívio e conforto que vejo teres buscado debalde nos braços de uma piedade austera, de uma vida de humildade e abnegação. Esta glória será tanto maior, quanto é certo que nunca o império godo se viu tão perto da sua última ruína, e que nunca foram postos a tão dura prova o esforço e a lealdade dos seus filhos.

As novas que me dás da traição do bispo de Híspalis são assaz graves: mas são necessárias a circunspeção e a prudência. Os teus ouvidos podem ter-te enganado. Se essa trama horrível existisse, estender-se-ia por toda a Espanha. Sabes que Opas é tio dos moços Sisebuto e Ebas, cujas pretensões à coroa são conhecidas, pretensões que os benefícios de Roderico ainda, por certo, lhes não fizeram esquecer. Diz-se que o rei dos godos lhes confiará o mando de uma das alas do exército com que se encaminha à Bética. Este procedimento generoso obstaria a que rebentasse a conjuração. Não se trata agora de satisfazer ódios de parcialidades civis: trata-se de salvar o im­pério. Fora mais que infâmia; não tem nome imolar a Espanha no altar de ambiciosa vingança. Não. Embora estejamos corruptos: o exemplo do conde de Septum não será entre nós seguido.

Vem, Eurico, para que reverdeçam os louros da tua glória. Ouves a voz da pátria? É ela que te brada: - Vem combater por salvar-me, tu, o mais valente dos meus filhos!

DO PRESBÍTERO DE CARTÉIA

AO DUQUE DE CÓRDUBA

Eurico a Teodomiro, saúde!

Não alcançaste, duque de Córduba, quão fundo é o abismo cavado neste coração pela desventura. Não me queixo de ti; porque nem a ti, nem a ninguém é dado concebê-lo. Medes o meu espírito pelos afetos humanos; mas é porque não sabes como ele saiu depu­rado do crisol de padecer infernal.

Glória! Que me importa a mim a glória?

Que posso fazer dessa riqueza, inútil como as outras riquezas?

Examina bem a consciência, e dize-me qual é para os corações puros e nobres o motivo imenso, irresistível das ambições de poder, de opulência, de renome? É um só - a mulher: é esse o termo final de todos os nossos sonhos, de todas as nossas esperanças, de todos os nossos desejos. Para o que encontrou na terra aquela que deve amar para sempre, aquela que é a realidade do tipo ideal que desde o berço trouxe estampado na alma, a mira das mais exaltadas paixões é a auréola celestial que cinge a fronte da virgem, ídolo das suas adorações. Para o que anda, por assim dizer, perdido nas so­lidões do mundo, porque ainda não descobriu a estrela polar da sua existência, o astro que há de iluminar-lhe a noite do coração, como o sol com os seus primeiros raios ilumina as trevas de um templo, para esse, a mulher é uma idéia vaga e confusa mas formosa e querida. Não a conhece, não sabe onde esteja a imagem visível da filha da sua imaginação, e, todavia, é para lhe pôr aos pés glória, poderio, riqueza, que ele cobiça tudo isso. Tirai do mundo a mulher, e a ambição desaparecerá de todos as almas generosas.

Realidade ou desejo incerto, o amor é o elemento primitivo da atividade interior; é a causa, o fim e o resumo de todos os afetos humanos.

Teodomiro, eu amei como ninguém, talvez, ainda amara. Este amor foi desprezado e ludibriado, e, depois, comprimido pelo desprezo e pelo ludíbrio no fundo do coração do teu pobre amigo. Sabes o que faz um amor imenso assim recalcado? - Devora e consome o futuro e entenebrece para sempre o horizonte da vida. Nada há, depois disso, que possa restaurar o que ele tragou; nada que possa rasgar as trevas que ele estendeu. No mesmo sepulcro não há porvir de esperança, nem porventura, luz de consolação; porque ao passamento do corpo precedeu a morte do espírito.

Não, eu não quero a glória inútil e ininteligível hoje para mim. Não, eu não quero o mando e o poderio, porque já não sei para o que eles prestam. Como o febricitante em dia ardente de estio, que aspira a brisa da tarde, a qual não pode sará-lo, mas que lhe refrigera por momentos o ardor do sangue, assim eu ainda me deixo afagar pela idéia de me atirar ao maior fervor das batalhas pelejadas em nome da pátria. Esse delírio dos perigos; essa loucura que o cheiro de sangue produz é um respiradouro por onde resfolegará a indignação e a cólera entesourada por anos neste coração. Tiufado, seria constrangido a vigiar as ações dos outros, a usar do valor tranqüilo que afronta imóvel a morte; mas que tal valor para aquele a quem a vida serve só de martírio? Uma hipocrisia mais; mais um meio de enganar o mundo. E que tenho eu com o mundo para curar de enganá-lo?

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