Facebook do Portal São Francisco Google+
+ circle
Home  Eurico Presbitero - Página 3  Voltar

Eurico, O Presbítero

Alexandre Herculano

Homem de paz - dir-me-ás tu - pela profissão do sacerdócio; tendo buscado o repouso à sombra eterna da cruz, como é que dese­jas só o que nos combates há mais brutal, ignóbil e obsruro, o furor da matança, e recusas o que neles há mais nobre e puro, a inteli­gência com que um único indivíduo move milhares deles e lhes multiplica a força com a rapidez das idéias, com a sublimidade das concepções, com a robustez de uma vontade imutável? Homem de paz cingindo a espada do guerreiro, que outro mister deverá ser o teu?

Busquei, é verdade, o repouso e a paz no santuário de Deus! - Dias e dias, passei-os orando com a fronte unida às lájeas do pavi­mento sagrado, esperando que da morada dos mortos surgisse para mim descanso e esquecimento; mas o sepulcro foi estéril. Noites e noites, vagueei-as pelas solidões: assentei-me ao luar sobre os pe­nhascos dos promontórios, com os olhos cravados no céu ou errantes pela vastidão das águas, e onde todos acham lágrimas de consolo e de esperança eu não achei uma só, porque as minhas morriam ape­nas brotavam. O Senhor não me escutou as preces: não me aceitou a resignação. Este espírito, que tentava erguer-se nas asas da filo­sofia do Cristo para as alturas, despenhava-se de novo para o pélago medonho das recordações amargas. Ainda os homens abençoavam o presbítero, e já a consciência lhe bradava, a todos os momentos: - condenação para a tua alma!

Quando o céu é um deserto para a esperança, onde a acharei na terra? Que pode hoje embriagar-me, senão uma festa de sangue?

Já me teria assentado a esse frenético banquete nas guerras civis, se ainda não vivesse em mim o sentimento moral, sentimento irreflexivo, último, todavia, que se desvanece naquele que por largos anos viveu vida pura de crimes. Mas, sem crime, se pode assentar a ele um desgraçado como eu ao chamar por nós todos, no meio de um grande perigo, a terra de que somos filhos.

Teodomiro, breve virá, talvez, o dia em que vejas que o braço do gardingo não enfraqueceu debaixo das roupas do presbítero; em que ele te prove que a mortiça cor de uma negra armadura pode ser tão bela ao sol das batalhas como as couraças e os elmos res­plandescentes de nobres guerreiros; que o franquisque grosseiro de um obscuro soldado pode contribuir para a vitória como a perícia militar de capitão famoso. Oxalá que entretanto, seja verdade o que dizes! - Oxalá que eu me enganasse, e que a traição não tenha tornado inúteis a inteligência e o braço do homem para salvar as Espanhas!

IX

Junto de Crissus

Congregados todos os godos, opôs-se à entrada dos árabes e valorosamente foi ao encontro da invasão.

Rodrigo de Toledo: Das Coisas de Esp. L. 3º.

Poucos dias haviam passado depois que o duque de Córduba recebera a última carta do infeliz Eurico. A frente das suas tiufadias ele se encaminhara para Híspalís, seguindo as margens do Bétis. Ao chegar à antiga Rômula, o bispo Opas recebeu-o com demonstrações de alegria tais, que as suspeitas de Teodomiro, sus­citadas, malgrado seu, pelas revelações do presbítero, quase se desvaneceram. Na linguagem do sacerdote parecia reverberar-se indignação profunda contra o conde de Septum e contra os demais godos que tentavam unidos com os bárbaros, assolar a terra natal. O metropolita, segundo os costumes daquela época, tinha deposto o báculo de pastor para cingir a espada de guerreiro, e aos paços epis­copais de Hípalis viam-se chegar todos os dias os parentes de Opas e, por isso, de Vítiza, cujo irmão este era. Os nobres que tinham se­guido o bando dos mancebos Sisebuto e Ebas e que, pela maior parte, viviam longe da corte, ajuntavam os seus servos e clientes à hoste do bispo guerreiro, que prometia acompanhar o rei godo com um esquadrão mais lustroso que o de seus sobrinhos, a quem Roderico dera de feito o mando supremo de uma das alas do exército que congregara em Toletum.

Em Híspalis, como por todos os ângulos da Espanha, os martelos dos fundidores e armeiros retumbavam nas bigornas com ruído in­cessante: açacalavam-se as armas, puliam-se e provavam-se as ar­maduras; e os corcéis rápidos e robustos da Bética e da Lusitânia, impacientes nas tendas alevantadas em roda dos muros da cidade, mordiam os freios brilhantes e pareciam adivinhar que estava pró­ximo um dia de combate. Os servos e os libertos, em competência com os homens livres e nobres, corriam a rodear os pendões da independência da pátria, e o sangue generoso dos godos como que se despertava mais ardente e cheio de vigor ao grito da guerra santa, depois de uma sonolência secular, em que à sua antiga ousadia só dera sinais de vida nas lutas sem glória das dissensões intestinas.

E toda esta energia, todo este recordar-se da rica herança de esforço, legado pelos conquistadores setentrionais a seus netos da Ibéria, dir-se-ia que eram suscitados pela Providência para salvar a monarquia gótica, porque de tudo isso ela carecia para resistir aos invasores. Desde que o exército destes, semelhante a serpe monstruosa, tinha cingido estreitamente a montanha do Calpe, não se passara um único dia em que não se fortalecesse e engrossasse. As encostas do Ábila e os despenhadeiros do Atlas, os vales da Mau­ritânia e os areais de Saara e de Barca de contínuo arrojavam para a Europa, através do Estreito, os seus filhos tostados ao sol fervente de África. Sem perícia militar, estes bárbaros são todavia temerosos nas pelejas, porque os capitães experimentados da Arábia os dirigem e movem como lhes apraz, e, porque sectários de uma religão nova, crédulos mártires do inferno, buscam os embusteiros e torpes delei­tes que, além da morte, lhes prometeu o profeta de Iatribe, arre­messando-se com um valor que se creria de desesperados diante do ferro dos seus contrários e contentando-se de acabar, contando que sobre os seus cadáveres se hasteie vitorioso o estandarte do Islame.

A esta gente bruta e indomável, cujo esforço vem das crenças da outra vida, se ajuntam os esquadrões de cavaleiros sarracenos que vagueiam pelas solidões da Arábia, pelas planícies do Egito e pelos vales da Síria, e que, montados nas suas éguas ligeiras, podem rir-se do pesado franquisque dos godos, acometendo e fugindo para acometerem de novo, rápidos como o pensamento, volteando ao re­dor dos seus inimigos, falsando-lhes as armas pela juntura das peças, cerceando-lhes os membros desguarnecidos, quase sem serem vistos, e apesar da sua incrível destreza, pelejando, quando cumpre, frente a frente, descarregando tremendos golpes de espada, topando em cheio com a lança no riste, como os guerreiros da Europa, e assaz robustos para, muitas vezes, os fazerem voar da sela nestes recon­tros violentos: homens, enfim, que sem orgulho, se podem crer os primeiros do mundo num campo de batalha, pelo valor e pela ciência da guerra. É esta cavalaria irresistível que constitui o nervo da hoste dos muçulmanos e em que funda todas as suas esperanças o impetuoso Tárique.

Pouco depois da chegada de Teodomiro a Híspalis, um dia ao romper do sol, viu-se ao longe para a banda das serranias ao norte do Bétis resplandecerem as cumeadas das montanhas, como se um grande incêndio devorasse as brenhas e os carvalhais antigos que povoavam as quebradas das serras. Era a hoste do rei dos godos, que, saindo de Oreto, se encaminhava por Ilipa e Itálica, seguindo a margem direita do rio, para a antiga capital da Bética. Daqui, engrossando com as tiufadias de Teodomiro e com os que seguiam o pendão de Opas, o exército de Roderico devia marchar para aco­meter os árabes e entregar à sorte das batalhas os futuros destinos da Espanha.

Era já tempo. A torrente dos inimigos descera, enfim, do Calpe ou Gebal Tárique, cujo nome de muitos séculos o capitão árabe tinha apagado, para escrever o próprio nome no colar servil das muralhas que lhe lançara. O estandarte do profeta de Meca já flutuava nos campos da Bética, e a sua passagem era assinalada com ruínas, sangue e incêndios. Por onde quer que os muçulmanos tinham atravessado ficavam assentados o silêncio do sepulcro e a assolação do aniquilamento. Tárique era o anjo exterminador man­dado por Deus às Espanhas, e a sua espada o raio despedido do céu para fulminar o império dos godos.

Saindo do seu ninho de águia, construido no promontório do Estreito, os invasores internavam-se no coração da província. De­pois de haverem transposto as montanhas que se alteiam desde as ribas setentrionais do Bélon até Lastígi, onde as serranias se enla­çam com as alturas de Nescânia, tinham-se assenhoreado sem re­sistência da cidade episcopal de Asido e, descendo dali para os vales que serpeiam de Gades a Segôncia, haviam assentado campo nas margens do Críssus. Tárique esperava lá o recontro dos godos. Desde que partira do Calpe, todos os dias, quase todas as horas, se viam chegar à hoste do Islame cristãos vindos do lado de Híspalis, conduzidos pelos caudilhos dos almogaures ou corredores africa­nos. Apenas estes homens desconhecidos eram levados ante o capi­tão árabe, ele enviava um dos seus cavaleiros ao lugar onde tremu­lava o pendão de Juliano, e o conde de Septum não tardava a vir ajuntar-se com Tárique. Por vezes, à sombra de carvalho frondoso, no meio dos bosques cerrados das montanhas ou debaixo do pavilhão alevantado à hora da sesta em campina abrasada do sol, demoravam­-se os dois, por largo espaço, a sós com esses homens, em cujo aspecto era fácil ler estampada a traição e a vileza. Depois, os desconhecidos partiam sem que ninguém ousasse atalhar-lhes os passos; e, quando Juliano voltava para a pequena ala dos soldados da província transfretana, via-se-lhe o rosto, não radiante do contentamento que ressumbra de um coração puro quando folga, mas como sulcado por um raio da alegria feroz do criminoso que vê chegar o momento do crime há muito meditado e previsto.

Havia dois dias que nenhum incógnito atravessava o Críssus para falar a sós com Juliano e Tárique. Estes passavam horas in­teiras vagueando nas alturas vizinhas do acampamento pelo lado do meio-dia e do oriente. Dali olhavam para a montanha em cujo cimo campeava a antiga povoação de Asta, e, depois de a exami­narem por largo espaço, voltavam ao campo ou corriam às atalaias, que se multiplicavam continuamente. Depois, tudo recaía no silên­cio e na escuridão; porque as almenaras ou fogueiras noturnas, que eram de uso entre os árabes, haviam inteiramente cessado desde a primeira noite em que estes assentaram as tendas perto da beira do rio.

Ia em meio a terceira noite após aquela em que os crentes do Islame tinham parado nas faldas setentrionais das cordilheiras de Asido. Eram profundas as trevas que se dilatavam pela face da ter­ra, mas os raios cintilantes das estrelas rareavam o manto negro da atmosfera. Esta luz incerta reverberava trêmula e fugitiva nas pontas das lanças dos atalaias, que, apinhados na coroa dos outeirinhos ou embrenhados entre as sebes dos valados, observavam os picos agudos que, ao longe, para o norte, negrejavam como recortados nas profun­dezas do céu. O Críssus murmurava lá embaixo, e a esteira da corrente faiscava, também, com o reverberar da luz dos astros, en­quanto o vento, passando pelas ramas de algumas árvores solitárias, respondia ao seu murmurar com o gemer da folhagem movediça.

Subitamente, no meio deste silêncio, alguns esculcas e vigias lançados além do rio na margem direita, creram perceber um ruído longínquo, que menos excitados ouvidos não saberiam distinguir do remoto e quase imperceptível despenhar de torrente. Então eles se debruçaram no chão e, unindo a face à terra, escutaram por alguns momentos. Depois, erguendo-se a um tempo, ouviu-se entre eles uma voz sumida que dizia - Os romanos! - e a turba repetiu - Os romanos!

E unindo-se numa fileira, encurvaram os arcos e ficaram imóveis.

Pouco a pouco aquele ruído, mal sentido a princípio, cresceu e tornou-se mais distinto. Brevemente, fácil foi de perceber o tropear de milhares de cavalos e o bater confuso dos pés de milhares de homens. Os esculcas árabes conservavam-se unidos e em silêncio.

De repente o grito de: - Alá! - retumbou de além do Críssus: seguiu-se um estridor de poucas frechas, e num instante os atalaias do campo viram alvejar fitas de escuma que se estendiam através do rio para a margem esquerda. Eram os esculcas que o cruzavam a nado, tendo empregado na dianteira dos godos os seus primeiros tiros.

Uma nuvem de setas respondeu ao sibilar das dos esculcas arábes; algumas das fitas de escuma ondearam, derivaram pela corrente e desvaneceram-se no dorso escuro e cintilante das águas. O Críssus recolhia os primeiros despojos de um terrível combate.

Na principal atalaia dos muçulmanos soou então uma trombeta; centenares delas responderam por todos os ângulos do campo a este convocar para a morte. Os esquadrões uniam-se com a rapidez do relâmpago e, abandonando o recinto das tendas arrojavam-se para as margens do rio.

Os godos, porém, tinham a vantagem de caminharem ordenados e, por isso, haviam topado com a corrente antes que os seus contrá­rios começassem a atravessar a planície fronteira. As frechas caíam sobre os árabes, que se aproximavam, como saraiva espessa; largas e sólidas jangadas, trazidas em carros puxados por mulas possantes da Lusitânia, baqueavam sobre a água e, desdobrando-se com enge­nhosa arte, cresciam até entestar com a margem oposta. Então, os melhores cavaleiros godos, curvando-se para diante, com o franquis­que erguido, corriam para as pontes, vergadas debaixo do peso dos cavalos e dos homens cobertos de armaduras, e vinham bater em cheio nos corredores árabes, que, no meio das trevas, não podiam esquivar-se aos golpes do ferro inimigo. Já, nas bocas de algumas dessas estradas movediças, os cadáveres amontoados começavam a embargar os passos dos vivos; mas por outras, onde os árabes ainda mal ordenados e menos numerosos não tinham podido resistir ao ímpeto dos godos, golfavam torrentes de guerreiros, que, marchando unidos para uma e outra parte, acometiam de lado os árabes, os quais, feridos pela frente e pelas costas, vacilavam e retrocediam. Debalde a voz retumbante de Tárique sobrelevava por cima dos gritos de furor e de agonia de muçulmanos e cristãos. O número dez vezes maior dos godos tornava impossível a resistência, e a passagem do exército de Roderico para a margem esquerda do Críssus só Deus a poderia impedir.

Era quase manhã quando o capitão árabe se desenganou da utilidade de se opor por mais tempo à passagem dos inimigos. As tiufadias godas achavam-se pela maior parte na campina onde se deviam resolver os destinos da Espanha, e bem que a este tempo todo o exército do Islame estivesse já em ordem de pelejar, a noite dava grande vantagem aos godos, cuja cavalaria, coberta de armas defensivas mais sólidas que as dos árabes, resistia facilmente aos cavaleiros do deserto, para quem a maior ligeireza e o mais destro modo de acometer eram baldados no meio das trevas. A um sinal das trombetas os esquadrões muçulmanos começaram a recuar e, alon­gando-se pela frente do acampamento, esperaram o romper do dia, enquanto o exército godo acabava de transpor o rio e vibrava milha­res de frechas perdidas para o lado onde os capilhares alvíssimos dos árabes branquejavam à luz duvidosa do céu recamado de estrelas.

Quando o sol, rompendo detrás dos outeiros de Segôncia, veio com o seu clarão avermelhado inundar as veigas do Críssus, o espe­táculo que elas ofereciam era variado e sublime. De um lado as tendas dos árabes derramadas pelas raízes dos montes e pelos cimos dos outeiros, podiam comparar-se ao acampamento das tribos do deserto, que, emprazadas à voz do profeta se houvessem ajuntado num ponto único das solidões onde vagueiam. Diante desta cidade imensa e movediça, os esquadrões dos muçulmanos, divididos por famílias e raças, estavam firmes e cerrados em frente de seus pendões, que os alferes, montados em ginetes possantes, sustinham erguidos na retaguarda de cada tribo. Os raios matutinos faziam alvejar os turbantes e cintilavam nos ferros das lanças que os cava­leiros tinham em punho, e os leves escudos orbiculares, que os com­pridos saios de malha pareciam tornar inúteis, embaraçados já para o combate, brilhavam com as suas cores vivas e variadas à claridade serena do romper do dia.

Os esquadrões árabes eram a flor do exército de Tárique; mas a catadura selvagem dos africanos seus aliados, neófitos do islamismo, produzia, porventura, mais temor do que o aspecto deles. Torvos e ferozes eram o gesto e os meneios destes homens sem disciplina, cujas paixões se lhes pintavam nos rostos tostados e rugosos, nos olhos banhados de fel e orlados de sangue, e de cuja bruteza e misé­ria davam testemunho os manguais que lhes serviam de armas (armas terríveis, com que abolavam os elmos mais reforçados) e a hediondez dos seus albornozes pardos, imundos, e despedaçados. Tudo, enfim, neles contrastava com as armas brilhantes, com os ricos trajos e com os vultos majestosos dos cavaleiros do oriente, que, conservando-se em silêncio e imóveis, pareciam desprezar as tribos berberes de Zeneta, de Masmuda, de Sanhaga, de Quetama e de Huuara, que for­mavam as alas e que, brandindo as rudes armas, com gritos medonhos se apelidaram para a batalha.

Tal era o espetáculo que oferecia o exército dos muçulmanos. Defronte dele, a hoste goda apresentava os maciços profundos dos seus soldados, cobrindo, como grossa muralha de metal reluzente, a margem esquerda do rio. Rodeado dos mais ilustres guerreiros, Roderico estava no centro das tiufadias formadas pelos espadaúdos soldados da Lusitânia setentrional e da Galécia, em cujas feições se divisava ainda que descendiam dos indomáveis suevos. Unidos com eles sob os pendões reais, estavam os guerreiros veteranos da Narbo­nense, habituados a cruzar diariamente as espadas com os orgulhosos francos, que estanceavam pelas Gálias, além das fronteiras do impé­rio. A ala direita, dividida em dois esquadrões capitaneados pelos dois filhos de Vítiza, Sisebuto e Ebas, continha a flor dos cavaleiros da Cartaginense. Com estes estava o corpo que o metropolitano de Híspalis ajuntara, composto em grande parte dos nobres que haviam deposto a espada desde que Roderico subira ao trono e que a cingiam de novo nesta guerra de independência. A ala esquerda, mais pe­quena que as outras duas, não parecia por isso menos de temer para os árabes. O duque de Córduba, Teodomiro, era o capitão dessa ala, em que estavam todos os veteranos que o tinham ajudado a repelir as primeiras tentativas dos maometanos e que já conheciam por experiência o modo de pelejar deles. Estes velhos soldados deviam levar ao combate os mancebos que, à voz de Teodomiro, tinham corrido às armas de todos os lados da Bética e em cujos corações o afamado guerreiro soubera despertar o sentimento da glória e do amor da pátria. Com ele militavam, enfim, as relíquias dos soldados tingitanos que não tinham querido associar-se à traição do conde de Septum.

Como os árabes, os godos tinham no meio de si uma nuvem de peões armados, não menos bárbaros e ferozes que os filhos da Mau­ritânia. Os montanheses do Hermínio na Lusitânia, aborígines, talvez, daquele país, os quais, na época das invasões germânicas, bem como já na da conquista romana, a custo haviam submetido o colo ao jugo de estranhos e, os vascônios, habitadores selvagens das cordilheiras dos Pireneus, constituíam com os servos um grosso de gente a que hoje chamaríamos a infantaria do exército. As suas armas ofensivas eram a cateia teutônica, espécie de dardo, a funda, a clava ferrada e o arco e a seta. Requeimados pelo sol ardente do estio ou pelo vento gelado dos invernos rigorosos das serranias, inca­pazes de conhecerem a vantagem da ordem e da disciplina, estes homens rudes combatiam meios nus e desprezavam todas as pre­cauções de guerra. O seu grito de acometer era um rugido de tigre. Vencidos, nunca se lhes ouvia pedir compaixão; porque, vencedores, não havia a esperar deles misericórdia. Tais eram os soldados que a Espanha opunha à mourisma que circundava os árabes.

Por algum tempo os dois exércitos conservaram-se em distância um do outro, como dois antigos gladiadores, observando-se mutua­mente antes de começarem uma luta que para algum deles tinha de ser, forçosamente, a última. A consciência da terribilidade do drama que ia representar-se penetrou, por fim, até nos corações dos bár­baros de um e de outro campo; as vozearias que sussurravam ao longe foram pouco a pouco esmorecendo, até caírem num silêncio tremendo, só cortado pelo respirar comprimido de tantos homens ou pelo relinchar dos cavalos, que, impacientes, escarvavam a terra.

X

Traição

A transgressão dos juramentos tem cres­cido despeadamente, e o costume de trair os nossos príncipes cada vez é mais fre­qüente.

Concílio Toledano XVII, c. 10.

O sol ia já em alto quando o grito de Allah hu Acbar! soou no centro dos esquadrões do Islame. Era a voz sonora e retumbante de Tárique. Repetido por milhares de bocas, este grito restrugiu e ecoou, como o estourar de trovoada distante, pelos pendores das serras e murmurou e perdeu-se pelos desfiladeiros e vales. A cava­laria árabe, enristando as lanças, arremessou-se pela planície e desapareceu num turbilhão de pó.

- Cristo e avante! - bradaram os godos: e os esquadrões de Roderico precipitaram-se ao encontro dos muçulmanos. São como dois bulcões enovelados, que, em vez de correrem pela atmosfera nas asas da procela, rolam na terra, que parece tremer e vergar debaixo do peso daquela tempestade de homens. O ruído abafado e bem distinto do mover dos dois exércitos vai-se gradualmente confundindo num som único, ao passo que o chão intermédio se embebe debaixo dos pés dos cavalos. Essa distância entre as duas muralhas de ferro estreita-se, estreita-se! É apenas uma faixa tortuosa lançada entre as duas nuvens de pó. Desapareceu! Como o estourar do rolo de mar encapelado, tombando de súbito sobre os alcantis de extensas ribas, as lanças cruzadas ferem quase a um tempo nos escudos, nos arneses, nos capacetes. Um longo gemido, assonância horrenda de mil gemidos, sobreleva ao som cavo que tiram as armaduras batendo na terra. Baralham-se as extensas fileiras: cruzam-nas espantados os ginetes sem donos, nitrindo de terror e de cólera, com as crinas eriçadas e respirando um alento fumegante. Não se distingue naquele oceano agitado mais que o fuzilar trêmulo das espadas, o relampa­guear rápido dos franquisques, o cintilar passageiro dos elmos de bron­ze; não se ouve, senão o tinir do ferro no ferro e um concerto diabólico de blasfêmias, de pragas, de injúrias em romano e em árabe, inte­ligíveis para aqueles a quem são dirigidas, não pelos sons articulados, mas pelos gestos de ódio e desesperação dos que as proferem. De vez em quando, um brado retumba por cima do estrupido: são os capitães que buscam ordenar as batalhas. Debalde! As fileiras têm rareado: o combate converteu-se num duelo imenso ou, antes, em milhares de duelos. Cada cavaleiro árabe travou-se com um cava­leiro godo, e os dois contendores esquecem-se de tudo quanto os rodeia: são dois inimigos, cujo ódio nasceu e encaneceu num mo­mento, e num momento esse rancor é intenso quanto o fora, se por largos dias se acumulara sem poder resfolegar. Firmes, os guerreiros cristãos vibram a pesada acha de armas que tomaram dos francos, ou jogam a espada curta e larga dos antigos romanos, porque as lanças voaram em rachas tanto das mãos dos godos, como das dos árabes. Estes, curvados sobre os colos dos cavalos e cobertos com os leves escudos, volteiam em roda dos adversários, e, quase ao mes­mo tempo, os acometem por um e por outro lado, tão rápido é o seu perpassar. Nesta luta da força e da destreza, ora o duro neto dos visigodos, deslumbrado pelo incessante dos golpes, esvaído pelas mui­tas feridas, sufocado pelo peso da armadura, vacila e cai, como o pinheiro gigante; ora o ligeiro Agareno vê coriscar em alto o fran­quisque e logo o sente, se ainda sente, embargar-lhe o último grito na garganta, até onde rompeu, partindo-lhe o crânio, e sulcando-lhe o rosto. Assim, os centros dos dois exércitos semelham o tigre e o leão no circo, abraçados, despedaçando-se, estorcendo-se enovelados, sem que seja possível prever o desfecho da luta, mas tão-somente que, ao adejar a vitória sobre um dos campos, terá descido sobre o outro o silêncio e o repouso do aniquilamento.

Os soldados que seguiam a bandeira de Teodomiro tinham-se abalado para o combate apenas viram partir os esquadrões de Rode­rico. A ala direita dos maometanos era capitaneada pelo amir da cava­laria africana, Muguite, a quem a sua origem cristã fizera dar o nome de Arrume. O amir era o mais valente e experimentado dos capitães de Tárique, e por isso este fiara do renegado o mando daquela ala, na qual também esvoaçava o pendão de Juliano, que, se não abanda­nara, como Arrume, a crença do Calvário, tinha, contudo, amaldiçoa­do também a santa religião da pátria. Estes dois guerreiros, ferozes ambos, um por índole e hábito, outro por vingança e ambição, ama­vam-se mutuamente, porque os fizera irmãos uma palavra escrita em suas consciências, a máxima afronta humana, o nome de renegados.

O recontro dessa ala foi semelhante em tudo ao do grosso das duas hostes, salvo que aí o franquisque encontrava no ar o franquis­que, a injúria de godos respondia à injúria proferida por bocas de godos, e as imprecações do ódio trocavam-se com maior violência ainda. Teodomiro combatia à frente das suas tiufadias onde mais aceso ia ser o travar da batalha, sem, todavia, esquecer o ofício de capitão. Era isto; era o exemplo que tornava invencíveis os seus soldados. Guiando os cavaleiros tingitanos, Juliano também rompera primeiro adiante dos árabes. Os dois antigos companheiros de combates haviam topado em cheio, e as lanças voaram-lhes das mãos em rachas. Os cavaleiros passaram um pelo outro como relâmpagos, para logo tornarem a voltar arrancando das espadas.

- Circuncidado! - bradou Teodomiro ao perpassar por Juliano na rapidez da carreira.

- Escravo! - replicou o conde de Septum, rangendo os dentes.

A injúria vibrada pelo duque de Córduba penetrara mui fundo. Semelhante a Judas, o conde de Tingitânia traíra a pátria pela cobiça e, defendendo o estandarte do profeta de Medina, fazia triunfar o Alcorão. Duas vezes a sua ala era a de um circunciso.

Os dois cavaleiros godos acometeram-se com toda a fúria de rancor entranhável: as espadas, encontrando-se no ar, faiscaram como o ferro abrasado na incude: mas a de Teodomiro fora vibrada por braço mais robusto, e, posto que o golpe descesse amortecido, ainda entrou profundamente no escudo que o seu adversário levava erguido sobre a cabeça. Entretanto Juliano, revolvendo ligeiro a espada, rompeu a couraça do duque de Córduba e feriu-o levemente no lado.

- Vencedor dos Vascônios, - gritou, rindo diabolicamente, o conde de Septum - olha por ti! Nas margens do Críssus não há taças de vinho, como aquelas com que te embriagavas nos paços do teu senhor. Aqui o que corre é sangue!

Teodomiro tinha já desencravado a espada do escudo de Juliano, em que ficara embebida. Rapidamente ela descera de novo guiada pela raiva que abafava o guerreiro. O golpe quebrou o escudo já falsado e bateu no elmo brilhante do conde, com tal fúria, que este perdeu a luz dos olhos e curvando-se para adiante, abraçou-se ao colo do cavalo, quase sem sentidos. Outra vez que o duque de Córduba vibrasse o ferro, Juliano estava perdido: o caminho da morte lá lhe ficara indicado no elmo.

- Que olhas para o chão, traidor? - disse Teodomiro, com voz trêmula de cólera e de escárnio e segundando o golpe. - É a terra da pátria que vendeste aos infiéis como tu!

O ferro, porém, não pôde chegar à cimeira do capacete do conde. Outro ferro, seguro por mão robusta, se meteu de permeio. Era a espada de Muguite, o qual, passando, vira o perigo iminente do seu amigo e correra para o salvar.

Então Teodomiro voltou-se contra o renegado, e um violento combate se travou entre ambos. Muguite não era menos destro que o príncipe da Bética. Mais membrudo e robusto que ele, e além disso ainda não ferido, a vantagem era toda sua; mas o esforço de Teodomiro supria essa inferioridade.

Entretanto Juliano recobrara o alento; a vergonha, o despeito, a sede de vingança estorciam-lhe o coração. O nobre ginete em que cavalgava, sentindo seu senhor semimorto, tinha corrido espantado até onde a multidão de cristãos e árabes, travados em peleja sangui­nolenta, lho consentia. O conde, cravando-lhe os acicates, com a espada erguida na mão, arremessou-o para o lugar onde o duque de Córduba pelejava com Muguite. Era um feito cobarde: mas que importava a Juliano a desonra? Assinalado com o ferrete indelével de traidor, havia-se habituado a viver para um sentimento único - a vingança. E a vingança era quem o impelia.

Neste momento, por uma das pontes já desertas lançadas na noite antecedente sobre o Críssus soava um correr de cavalo à rédea solta. Alguns soldados que andavam mais perto da margem volve­ram para lá os olhos. Um cavaleiro de estranho aspecto era o que assim corria. Vinha todo coberto de negro: negros o elmo, a couraça e o saio; o próprio ginete murzelo: lança não a trazia. Pendia-lhe da direita da sela uma grossa maça ferrada de muitas puas, espécie de clava conhecida pelo nome de borda, e da esquerda a arma predi­leta dos godos, a bipene dos francos, o destruidor franquisque. Subiu rápido a encosta de onde Roderico atendia aos sucessos da batalha. Parou um momento e, olhando para um e outro lado, endireitou a carreira para o lugar onde flutuavam os pendões das tiufadias da Bética. Como um rochedo pendurado sobre as ribanceiras do mar, que, estalando, rola pelos despenhadeiros e, abrindo um abismo, se atufa nas águas, assim o cavaleiro desconhecido, rompendo por entre os godos, precipitou-se para onde mais cerrado em redor de Teodo­miro e Muguite fervia o pelejar.

Juliano tinha-se aproximado no entanto do esforçado duque de Córduba, que, ferido e obrigado a combater com o destro e feroz renegado, a custo se poderia defender dos golpes do conde, golpes que o ódio e a cólera dirigiam. Alguns cavaleiros da Bética voaram a socorrer Teodomiro; mas os árabes com que andavam travados tinham-nos seguido de perto e, rodeando Muguite, haviam tornado inútil o socorro dos cavaleiros cristãos. O apertado revolver das armas formava uma selva de ferros em volta dos dois capitães inimigos, através da qual debalde o conde de Septum buscara multas vezes abrir caminho para ferir Teodomiro, até que finalmente, galgando por cima de um árabe derribado, pudera vibrar um golpe. O elmo do nobre godo restrugira, e o guerreiro vacilara. A última página da sua vida parecia escrita no livro dos destinos. Os dois adversários do duque de Córduba iam tingir de negro as que ainda lhe restavam em branco.

Mas o cavaleiro desconhecido havia passado através da hoste goda e chegara à dianteira dos árabes. Com a maça jogada às mãos ambas abalava e rompia as armas mais bem temperadas, e as puas entrando pelas carnes dos que se lhe punham diante iam esmigalhar-lhes os ossos. Por onde ele atravessava, nem as filei­ras se uniam, nem os godos achavam adversários. Como a charrua, tirada com violência em chão batido de planície, deixa após si gros­sas glebas revolvidas, assim aquela arma irresistível deixava, ao passar, uma larga cauda de cadáveres entretecida de moribundos debatendo-se em terra. Os godos, espantados, perguntavam uns aos outros quem seria aquele temeroso guerreiro; mas entre eles ninguém havia que pudesse dizê-lo. Se combatesse pelos muçulmanos, crê-lo­-iam o demônio da assolação; mas, pelejando pela cruz, dir-se-ia que era o arcanjo das batalhas mandado por Deus para salvar Teodomiro e, com ele, os esquadrões da Bética.

No instante em que o cavaleiro negro chegou ao lugar onde já o duque de Córduba só procurava amparar-se contra Muguite e Juliano este, cego de furor, descia com segundo golpe: a espada, porém, voou-lhe das mãos em pedaços, batendo na maça do cava­leiro negro, que deixando depois cair a pesada borda ao longo da efípia, ergueu o franquisque e, descarregando-o sobre o ombro do renegado, lhe fez uma ferida profunda. A dor arrancou um brado a Muguite, a cujo som o seu ginete amestrado o arrebatou para o meio dos árabes, e Juliano, vendo-se desarmado, fugiu após ele. Então o desconhecido disse a Teodomiro algumas palavras sumidas e, sem esperar resposta, internou-se outra vez no meio dos esquadrões agarenos.

Desde este momento a ala direita dos muçulmanos começou de afrouxar, porque Muguite, malferido, se retraíra para o acampamento. Alguns xeques ilustres jaziam moribundos ou mortos às mãos do cavaleiro negro, que parecia escolher as suas vítimas entre os mais nobres guerreiros do Islame. Animados por ele, os godos, cobrando novos brios, procuravam imitá-los e arremessavam-se destemidos através da hoste inimiga, que debalde procurava resistir à torrente. Os sinais da vitória dos godos eram já dolorosamente certos para os muçulmanos.

Roderico viu isto e exultou. O sol inclinava-se para o ocaso e o centro do exército árabe, onde se achava Tárique, estava firme; mas os clamores do triunfo, que já soavam na ala esquerda dos cristãos, começavam a espalhar a incerteza entre os soldados do profeta. Foi então que o rei dos godos ordenou à sua ala direita descesse contra os berberes e, dispersando-os, acometesse os esquadrões de Tárique, que pareciam haver lançado raízes no solo ensangüentado do campo da batalha.

Um qüingentário partiu à rédea solta para levar a ordem fatal aos filhos de Vítiza. A frente dos seus soldados os dois irmãos falavam a sós com Opas e contemplavam o combate. Apenas ouviram o que se lhes ordenava, Sisebuto e Ebas, voltando-se para os esquadrões que lhes obedeciam, clamaram: - "vingança!” - Este brado foi repetido por Opas e pelos nobres que o seguiam. Então, no meio daquela espessa selva de lanças repercutiu um grito que respondia aos dos capitães: - "Glória ao rei Sisebuto! Morte ao traidor Roderico!"

E os filhos de Vítiza e o hipócrita bispo de Hispalis, com as lanças aprumadas e as espadas na bainha, lançaram-se pelo vale abaixo, e a mor parte dos esquadrões seguiram-nos. Apenas Pelágio, duque de Cantábria, ficou imóvel à frente dos soldados vascônios e de algumas tiufadias da Galécia e da Narbonense que, alheias à traição daqueles mal-aventurados, recusaram segui-los.

Roderico viu enovelarem-se nos ares os rolos de pó que se ale­vantavam sob os pés dos ginetes: "Valentes mancebos - exclamou - hoje a Espanha vai ser salva por nós! Vede - acrescentava, sorrindo e falando com os guerreiros que o cercavam, muitos dos quais haviam condenado a sua arriscada confiança na generosidade dos filhos de Vítiza: - vede como eles voam contra os africanos! Quando um grande risco ameaça a pátria não há ódios entre os godos: todos eles são irmãos, porque todos eles são filhos desta nobre terra de Espanha."

E o qüingentário que voltava gritou de longe: - "Somos traídos!".

Roderico empalideceu. A certeza da vitória tinha-se desvanecido.

XI

Dies Irae

Por quantas desventuras a pátria dos godos tem sido abalada: quão repetidos a pungem os golpes dos fugitivos e a nefanda soberba dos trânsfugas, quase ninguém ignora.

Código Visigótico, II - 1 - 7.

A passagem de tão avultado número de godos para os inimigos e o crepúsculo que descia obrigaram Roderico a fazer cessar o combate, enquanto a noite pousava tranqüila sobre aquela campina povoada de aflições e dores.

A aurora rompeu meiga e serena, como nos dias em que vinha trazer as alvoradas alegres às malhadas dos pastores, que, colmadas, amarelejavam outrora pelas margens relvosas do Críssus, em vez das tendas de guerra, que ali alvejavam agora com os primeiros resplendores da madrugada. O homem debatia-se aí nas vascas da morte, e o sol passava envolto na sua glória, indiferente às angústias daqueles que, em seu ridículo orgulho, se chamavam monarcas e conquistadores do mundo; passava, sem lhe importar se os vermes vestidos de ferro chamados guerreiros se despedaçavam uns aos outros, com o delírio insensato das víboras no momento dos seus amorosos ardores.

Pelas trevas, um ruído sumido, mas incessante, de passadas de homens e de tropear de cavalos soara horas inteiras em um e em outro campo. Era que em eles ambos surgira uma idéia idêntica. O rei godo havia resolvido formar um corpo só das relíquias da sua hoste e com ele acometer a principal batalha dos inimigos, para a destruir rapidamente antes que as alas pudessem socorrê-la. O mes­mo pensamento tivera Tárique. Semelhante à trovoada do estio, que se amontoa durante a noite em dois pólos encontrados e ao alvorecer semeia de coriscos as solidões do céu e povoa de estampidos discordes os ecos da terra, assim cada um dos campos se aglomerava em uma pinha gigante; convertia-se num homem só, para em duelo de morte resolver com o seu contendor se os filhos das Espanhas deviam aceitar a lei do Alcorão ou continuar a abrigar-se à sombra da divina cruz.

Tárique lançara na frente da hoste muçulmana os trânsfugas do inimigo. Sisebuto, Ebas, o bispo de Híspalis e o conde de Septum com os seus numerosos guerreiros constituíam a vanguarda. Seguia­-se a cavalaria árabe. Os berberes cingiam este maciço de homens e ginetes, em parte cobertos de ferro, e os indisciplinados cavaleiros da Mauritânia, dispersos como almogaures, deviam vagar soltos para fazer entradas nas alas inimigas e impedir assim que elas pudessem a tempo socorrer o centro do exército, que o general árabe esperava desbaratar no primeiro ímpeto.

Roderico pela sua parte, tinha posto na vanguarda as tiufadias vitoriosas de Teodomiro, os cavaleiros da Cantábria guiados pelo moço Pelágio, filho de Favila, que sucedera a seu pai no governo daquela província, e, finalmente, os guerreiros escolhidos da Lusitânia e da Galécia, que ele próprio capitaneava. Como Tárique, o rei godo colocara de um e de outro lado na hoste apinhada os frecheiros e fundibulários selvagens do Hermínio e os montanheses vascônios, antiga raça de celtas, irmãos em linhagem, em valor, em crueza, em armas e em costumes. Na retaguarda estavam os soldados da província Cartaginense que não tinham seguido o exemplo dos trâns­fugas por andarem derramados em outros lugares ou, talvez, porque, não corrompidos, guardavam ainda no coração vestígios de amor da pátria.

Ao amanhecer, cada um dos capitães inimigos viu com assombro que a mesma traça de guerra de que pretendera valer-se para obter a vitória ocorrera à mente do seu adversário. Era, porém, tarde para alterar a ordem da batalha. Ao mesmo tempo as trombetas godas e os anafis árabes deram o sinal do combate, e o grito de - Cristo e avante! - confundiu-se em estampido medonho com o brado de - AIlah hu Acbar! - o brado de guerra dos pelejadores sarracenos.

O chão pareceu afundir-se com o encontro daquelas duas mós enormes de homens armados, e o eco dos botes das lanças nos escudos convexos e nas armas sonoras dos cavaleiros repercutiu nas encostas fronteiras e desvaneceu-se ao longe, murmurando entre as quebradas. Desde o primeiro embate, não mais fora possível distin­guir os exércitos travados como dois lutadores furiosos. Era um vulto só, indelineável, monstruoso, imenso, cujo topo ondeava, seme­lhante ao de canavial movido pelo vento cujos contornos indecisos se agitavam, torciam, alargavam, diminuíam, oscilavam, como tape­tes de nenúfares sobre marnel revolto pelo despenhar das torrentes. Nuvens de setas sibilavam nos ares: as espadas sarracenas cruzavam-se com as espadas godas: a cateia teutônica ia, zumbindo, abrir fundos regos nas fileiras árabes, e os membros ossudos dos peões lusitanos e cantabros estouravam debaixo das pancadas violentas dos manguais da peonagem mourisca. Muitos ginetes vagueavam sem donos; muitos cavaleiros combatiam a pé. Desgraçado do que, ferido, caía em terra; porque para ele não havia misericórdia: o punhal acabava o que o franquisque ou a cimitarra começara. Dir­-se-ia que os regatos de sangue, serpeando por entre as duas hostes enredadas e salpicando as frontes e corpos, eram as veias descar­nadas e rotas daquele grande vulto, coleando na derradeira agonia.

O cavaleiro negro, ao cessar a batalha do dia antecedente, desa­parecera do campo, sem que ninguém soubesse dizer como ou onde se escondera. Só Teodomiro parecia não o ignorar; porque, ao falarem do desconhecido e das suas quase incríveis façanhas, os tiufados e qüingentários que em volta dele esperavam o romper da manhã e o recomeçar da peleja, o duque de Córduba buscara sempre mudar de conversação ou respondera, carregando-se-lhe o semblante de tristeza: - "É, porventura, algum desgraçado que procura o repouso da morte, e para o homem que resolveu morrer, que feito de valor será impos­sível? Se ele não quer deixar na terra nem o eco vão de um nome glorioso, respeitai-lhe os desejos, porque profundo deve ser o abismo da sua desventura".

Ao som, porém, das trombetas que anunciavam o renovar do combate, o cavaleiro negro não tardara a aparecer onde mais acesa andava a briga. Via-se, contudo, que era principalmente nas fileiras dos árabes, onde as puas agudas e cortadoras da sua temerosa borda ou maça de armas faziam maiores estragos. Mas, quando algum dos godos trânsfugas ousava esperar-lhe os golpes ou tentavam feri-lo, ouvia-se-lhe um rugido como o de maldição preso na garganta por cólera imensa, e o seu miserável contrário não tardava a golfar o sangue na terra da pátria que traíra e a entregar aos demônios a alma tisnada pela infâmia da perfídia. Os árabes supersticiosos quase criam ver nele Ibliz, o rei infernal do Geena, armado da es­pada percuciente, solto por Deus para os punir das ofensas cometidas contra o divino Alcorão. Diante dele recuavam os mais esforçados muçulmanos, e só de longe os frecheiros lhe disparavam alguns tiros, que se lhe empenavam no escudo ou, roçando por este, vinham bater-lhe na armadura, debaixo da qual manava já o sangue de algumas feridas, e os membros lassos começavam a desmentir a impetuosidade do espírito.

Como na véspera, o sol inclinava-se das alturas do céu para o ocaso, e ainda a batalha estava indecisa, se é que o terror que in­cutia o cavaleiro negro no lugar onde pelejava não fazia pender um pouco a balança do lado dos godos. De repente, um grito agudo partiu do mais espesso revolver do combate; este grito gigante, indi­zível, de íntima agonia, era o brado uníssono de muitos homens; era o anúncio doloroso de um sucesso tremendo. O cavaleiro negro, que, impelido pela ebriedade do sangue, e semelhante a rochedo que se despenha pelo pendor da montanha, ia derramando a morte através dos esquadrões do Islame, volveu os olhos para o lugar onde soara o bramido retumbante da multidão. Era no centro do exército godo. As tiufadias vergavam em semicírculos para a banda do Crís­sus, como o açude minado pela torrente, a ponto de desprender-se das margens, oscila e se curva, bojando sobre a veia inferior das águas. A muralha de ferro que, posta entre o islamismo e a Europa, dizia à religião do profeta de Iatribe - não passarás daqui - vacila, como a quadrela de cidade fortificada batida muitos dias por vaivém de inimigos. Por fim, aqueles vastos maciços de homens ligados pela cadeia fortíssima da disciplina, do pudor militar e do esforço, deri­vam rotos ante os turbilhões dos árabes, ondeam e derramam-se na campina. Pelo boqueirão enorme aberto no centro da hoste goda precipitam-se as ondas dos cavaleiros maometanos, e, após eles, a turba dos berberes, com um bramido bárbaro. Debalde as alas tentam ajuntar-se, travar-se uma com a outra, soldar os membros despedaçados do leão ibérico. Passa por lá a impetuosa corrente dos netos de Agar que envolve e arrasta os que pretendem vadeá-la. Deus contara os dias do império de Leovigildo, e o sol do último deles era o que descia já para o ocidente!

O cavaleiro negro vira a fuga das batalhas godas, advertido pelo clamor que a precedera. Voltando as rédeas do seu murzelo, espo­reou-o para aquela parte. Levava lançado às costas o escudo, onde os tiros dos arqueiros africanos ciciavam, como a saraiva no inverno batendo nos troncos despidos do roble. Pendia-lhe da esquerda do arção a borda ensangüentada, da direita franquisque. O ginete tres­folegava na fúria da carreira, açoitando os ares com as crinas ondeantes e atirando-se ao meio da espécie de voragem aberta nas fileiras cristãs, a qual como que tragava uns após outros os esquadrões muçulmanos. Ao chegar à confluência daquelas encontradas torrentes de homens armados, o guerreiro parou, e, olhando em roda por um momento, ouviu-se-lhe um grande brado. Era a primeira vez que a sua voz soava no meio da batalha, e a única palavra que lhe saiu da boca foi o nome de Teodomiro. Esse brado devia chegar longe, reboando como o trovão. Dir-se-ia que o cavaleiro estava habituado à conversação do bramido dos mares revoltos e do rugir das venta­nias pelas fragas das serras; porque naquele grito, conjunto inexpli­cável de cólera e de dor, havia uma semelhança, uma harmonia com o gemido imenso da natureza quando luta consigo mesma no passar da tempestade.

Mas aos ouvidos de Teodomiro não podia chegar a voz do des­conhecido. Arrastado pelos turbilhões de fugitivos, forcejando por obrigá-los a voltar o rosto contra os árabes, ora com palavras de amarga repreensão, ora com o exemplo, o duque de Córduba comba­tia mui longe dele. Em vão o cavaleiro negro lhe repetia o nome: era inútil este chamar e, apenas, servia para atrair os golpes dos agarenos vitoriosos. As achas de armas, as cimitarras, os dardos faziam centelhar a armadura e o escudo do desconhecido, que, toma­do, ao que parecia, de um pensamento doloroso, alongava os olhos por toda a parte em busca de Teodomiro. Com um gemido de desa­lento, o cavaleiro saiu, enfim, da espécie de torpor que o tornava imóvel ante o espetáculo de tanta desventura, e o seu despertar foi tremendo. Erguendo em alto a maça de armas e vibrando-a furiosa­mente em volta de si, começou a partir espadas e a abolar armadu­ras. Em breve, ao redor dele, no meio dos muçulmanos vencedores, o terror invadia os ânimos, como na véspera, como nesse mesmo dia, se espalhara por toda a parte onde haviam reluzido as puas da sua ensangüentada borda ou o ferro do seu cortador franquisque.

Apenas, à força de golpes, o cavaleiro negro abriu no meio dos muçulmanos vencedores uma larga clareira, esporeando o ginete, lançou-se para o lado em que os godos desordenados se retraíam ante as espadas do Islame. No espaço intermédio entre os fugitivos e os árabes flutuava sem recuar o pendão do duque de Córduba. Em volta desse pendão tremulavam as signas das tiufadias da Bética, que, cercadas por todos os lados, resistiam ainda ao embate dos sarracenos. No meio, porém, dos que abandonavam vilmente o campo da batalha nem uma única bandeira se hasteava; mas pelo esplên­dido das armas, o guerreiro conheceu aqueles que não ousavam resgatar com a vida a honra das Espanhas. Eram os soldados esco­lhidos de Roderico; era a brilhante cavalaria que ele próprio capi­taneava! A indignação trasbordou da alma do guerreiro:

- Rei dos godos, rei dos godos! - exclamou ele - és covarde! Embora vás esconder a tua ignomínia nos muros de Toletum. Ainda neste campo de batalha restam homens valentes: ainda Teodomiro combate, não por teu trono desonrado, mas pela terra de nossos pais. Foge tu com os que não sabem morrer pela pátria; que nas margens do Críssus ficam os que hão de perecer com ela! Maldito o godo e cristão que foge para ser servo!

E o cavaleiro apertou de novo as esporas ao possante murzelo.

Não tardou, porém, que o furor se lhe convertesse em tristeza, e que as lágrimas, rebentando-lhe dos olhos, lhe apagassem a mal­dição que haviam murmurado os lábios. O seu valente cavalo galgava na carreira por cima de cadáveres e de moribundos, de cristãos e de infiéis, e a terra, convertida em brejo de sangue, apenas soava debaixo dos pés do ligeiro animal. Passando por meio dos esquadrões sarracenos, podia dizer-se que o desconhecido se asse­melhava ao anjo do Senhor, quando desce por entre os mundos onde habitam os demônios, solitário e temido no império dos filhos das trevas que o odeiam. A fama das suas façanhas tinha-o cercado de uma auréola de terror supersticioso, e, quando passava, os guer­reiros do deserto apontavam para ele e em voz sumida diziam uns aos outros - "Ei-lo que vem! ei-lo, o cavaleiro negro!"

voltar 12345678avançar
Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal