Facebook do Portal São Francisco Google+
+ circle
Home  Eurico Presbitero - Página 4  Voltar

Eurico, O Presbítero

Alexandre Herculano

Mas, por que parou ele, sofreando subitamente o ginete? Que há aí, nessa extensa seara ceifada de homens de guerra, que possa atrair os olhos do mais incansável dos segadores? No sítio em que parou estava, poucas horas antes, hasteada a signa real: era o centro da hoste goda; mas dos que aí pelejavam, uns lá vão ao longe preci­pitar-se no abismo da ignomínia; outros, os mais felizes, adormece­ram no seu último sono no regaço da pátria. O guerreiro fitou os olhos no chão: a foice da morte, passando por ali, cerceara a derradeira esperança do império de Teodorico. O espetáculo que se lhe anto­lhava era a explicação do terror que se apossara de tantos homens valentes. Fugiam: Roderico, porém, estava aí! mas retalhado de golpes; mas sem vida! Já não seria debaixo de seus pés que o trono da Espanha se desfaria aos golpes do machado dos árabes. Um cetro sem dono em Toletum e mais um cadáver junto às margens do Críssus, eis o que restava do último rei dos godos! Com a sua morte fenecera ao redor dele a esperança, e com a esperança dera em terra o esforço dos ânimos mais robustos. As alas ignoravam este triste acontecimento e por isso pelejavam ainda.

Mas pouco tardou a ser geral a rota; porque pouco tardou a espalhar-se aquela nova fatal. Um dia bastara para aniquilar o império que durante quatro séculos fora o mais poderoso e civilizado entre as nações germânicas estabelecidas nas diversas províncias romanas. A corrupção dos últimos tempos concluíra a sua obra, e o edifício da monarquia gótica, ainda rico de majestade exterior, mos­trara, enfim, desconjuntando-se e desabando, o fervor dos vermes que interiormente o roiam. A cruz, derribada com ele, só devia tornar a hastear-se triunfante em todos os ângulos da Espanha depois do combater de oito séculos.

Uma parte do exército godo ainda pudera salvar-se atravessando o rio: mas as pontes lançadas na véspera tinham por fim estalado, derivando pela corrente debaixo do peso dos fugitivos, e as águas devoravam muitos que o ferro havia poupado. Teodomiro, que não perdera o ânimo no meio daquela desventura, alcançara fazer passar à margem oposta as relíquias dos soldados da Bética e os restos de muitas tiufadias de outras províncias. Nos arraiais, os árabes, senhores do campo, saudavam a vitória com o som dos instrumentos bárbaros, e com clamores de alegria que iam sussurrar ao longe pelos vales e campos, desertos dos seus moradores. Um homem só comba­tia ainda daquele lado à beira do rio. Era o cavaleiro negro. Cercavam-no muitos sarracenos, mas de longe, porque os que ousavam aproximar-se dele caíam a seus pés moribundos. Às vezes, como que tentava romper por entre os inimigos, mas era tentar o impos­sível. No volver dos olhos inquietos para um e para outro lado, parecia buscar descobrir alguma coisa naquele vasto campo onde só descortinava os cadáveres dos vencidos e os vultos ferozes dos ven­cedores. Por fim, voltando o rosto para a margem oposta, viu flutuar sobre uma eminência o pendão de Teodomiro. Uma expressão fugi­tiva de contentamento lhe assomou então ao gesto. Despedindo das mãos a borda ensangüentada, que sibilou por meio dos árabes apinhados em volta, o guerreiro arrojou-se à torrente. A luz do sol que se punha, viu-se-lhe umas poucas de vezes reluzir o elmo, alon­gando-se pela superfície das águas e desaparecendo por largos es­paços. As trevas, que já desciam densas, e a impetuosidade da cor­rente que o arrastava não permitiram prever-se qual seria a sua sorte. Eurico era a última e tenuíssima esperança que bruxuleava nos horizontes do império godo: como estrela cadente que se imerge nos mares, aquele esforço brilhante se desvanecera na escuridão que tingia as águas do Críssus!

XII

O Mosteiro

Se a todos se convertessem todos os mem­bros em línguas, ainda assim não caberia nas forças humanas o narrar as ruínas de Espanha e os seus tão diversos e multipli­cados males.

Isidoro de Beja: Chronicon.

O mosteiro da Virgem Dolorosa estava situado numa encosta, no topo da extrema ramificação oriental das que a dilatada cordi­lheira dos Nervásios estende para o lado dos Campos góticos. A pouca distância do vale onde se viam as ruínas de Augustóbriga, caminho de Légio, no meio de uma solidão profunda, aquela silen­ciosa morada de virgens inocentes achava-se convertida em praça de guerra. Edifício suntuoso, construído no tempo de Recaredo, as suas grossas muralhas de mármore pareciam, na verdade, quadrelas de castelo roqueiro; porque na arquitetura dos godos a elegância roma­na era modificada pela solidez excessiva do edificar germânico ou saxônico, que os rudes visigodos do tempo de Teodorico e de Ataúlfo haviam introduzido no meio-dia da Europa. Os restos dispersos das tiufadias da Galécia tinham-se encerrado em todas as povoações e lugares fortificados ou por qualquer modo defensáveis, e os habitantes dos povoados, acolhendo-se aí com eles, deixavam desertas as suas moradas, incertos do dia em que veriam reluzir ao longe as lanças dos agarenos, que já devastavam o norte da Lusitânia e parecia encaminharem-se para o lado de Tude. Os muros fortíssimos daquele vasto edifício, as suas portas tecidas de ferro e carvalho, as estreitas frestas, que apenas lhe deixavam penetrar no interior uma luz duvidosa, os tetos ameados e, finalmente, os fossos profundos que o circundavam, tudo o tornava acomodado para larga defensão. Com algumas decanias de veteranos que no meio do terror pudera ajuntar, o qüingentário Atanagildo havia-se acolhido aí, e com ele um grande número dos mais abastados habitantes daqueles contor­nos. Protegido pela vizinhança das serras das Astúrias, ainda livres, Atanagildo cria que o mosteiro seria sempre inexpugnável barreira contra a violência e cobiça dos árabes. Entretidos em submeter e pôr a saco as opulentas cidades do meio-dia, contentes com as veigas feracíssimas da Bética, da Lusitânia, e da Cartaginense e com o sol quase africano que as aquecia, que viriam eles buscar nas brenhas intratáveis e frias da Galécia, e da Cantábria? Seriam, apenas, alguns troços dos inquietos e selvagens berberes os que se derramavam por estas partes; mas, contra esses, eram de sobra os tiros de catapulta arrojados das torres do mosteiro e as cateias e frechas despedidas de entre as ameias que lhe cingiam a fronte, como a coroa de um rei gigante, e que não podiam ser derribadas pelos manguais bru­tescos, únicas armas dos broncos e seminus montanheses do Atlas.

No centro do imenso edifício erguia-se o templo monástico: peça quadrangular, construída de grossos cantos de mármore, arrancados das pedreiras inesgotáveis que se estendem desde os Nervásios até as cercanias de Légio. No exterior do templo, do meio de um vasto pátio que o rodeava, viam-se negrejar na sua cinta de estreitas celas as vestiduras severas das monjas, cuja oração contínua, quer em comum no santuário, quer na solidão das suas breves moradas, só era interrompida por sono curto, dormido sobre a dura enxerga da penitência. Esta parte do mosteiro era a que elas unicamente ocupavam havia alguns dias. Os seus claustros pacíficos e saudosos, onde nunca soara o ruído tormentoso da vida, onde nunca as dolo­rosas realidades do mundo haviam penetrado, salvo nos sonhos pas­sageiros e dourados de algum coração mais ardente, restrugiam com o bater das armas, com o amontoar das provisões, com o carpir dos que abandonavam os seus lares, com a violenta e brutal linguagem da soldadesca. No meio daquela vasta mole de pedra, em que os sons discordes reboavam, ecoando soturnos nas arcadas e corredores pro­fundos, o templo, aonde se acolhera a quietação monástica era como um oásis frondoso e abrigado pelos seus palmares no meio do deserto que o sopro infernal do simum revolve, fazendo redemoinhar nos ares aquele oceano de areia fervente.

Era ao anoitecer de um dia de novembro. Por entre o nevoeiro cerrado que, alevantando-se do vale vizinho, trepava pela encosta, deixando apenas livres as negras agulhas dos cerros, lá no viso da montanha divisavam-se a custo as ameias e muralhas à luz baça do crepúsculo, refrangida em céu pardo e úmido. A brisa morna de oeste gemia nos troncos dos castanheiros nus, nas ramas esguias dos pinheiros bravos, e as passadas monótonas dos vigias ao longo dos adarves formavam um concerto acorde com o aspecto melan­cólico do céu e da terra.

A esta hora duvidosa entre a claridade e as trevas, uma nume­rosa cavalgada atravessava o ribeiro no fundo do vale e encaminha­va-se para o mosteiro da Virgem Dolorosa. Dez cavaleiros, cujas barbas alvas lhes caíam sobre o peito, saindo por baixo das redes de ferro que lhes serviam de gorjal rodeavam uma dama cujo rosto ocultava o comprido véu que, pendente do retíolo, lhe descia sobre o alvo amículo, mas cujos meneios airosos e talhe esbelto revelavam nela o viço e as graças da idade juvenil. Seguiam-na alguns pajens desarmados, cujos rostos imberbes já o temor e o desalento que se pintavam em todos os semblantes nesta época desastrada haviam sulcado de rugas. Vadeado o rio, a cavalgada encaminhou-se por uma senda tortuosa que ia dar à entrada do mosteiro, aonde, ao que parecia, desejavam chegar antes que de todo se fechasse a noite. Ao aproximar-se aquela comitiva, os vigias conheceram que eram godos (provavelmente alguns desgraçados que vinham buscar o abri­go daqueles muros fortificados) e as grossas portas não tardaram a abrir-se para recolherem mais esses pobres fugitivos.

Apenas os recém-chegados, atravessando o átrio do fundo portal, saíram à cerca interior, o que parecia mais autorizado entre os ve­lhos cavaleiros pediu para falar a sós com Atanagildo. Levado o ancião à torre onde o qüingentário habitava, não tardou este em descer à cerca, no meio da qual, ainda a cavalo e sem erguer o véu, a dama desconhecida esperava rodeada dos seus. Com todos os sinais de respeito, Atanagildo dirigiu-lhe algumas palavras em voz sub­missa e, tomando a rédea do palafrém, guiou-o para uma porta con­tígua ao frontispício da igreja. A um sinal seu a porta abriu-se, e um vulto negro de monja apareceu no limiar dela.

O qüingentário, tomando pela mão a desconhecida e apresentan­do-a à monja, disse-lhe: - "Venerável Cremilde, acolhei entre as puras virgens que vos obedecem uma das mais nobres donzelas de Espanha: é por uma noite apenas, que ela vos pede abrigo; amanhã ao romper da alva partirá para Légio".

- Amanhã ou depois, que importa? - replicou a monja, cujo semblante austero descobria, não tanto a decadência dos anos, como os vestígios da penitência: - enquanto Cremilde reger o mosteiro da Virgem Dolorosa, nunca a hospitalidade será refusada nele ao que a implorar. E quando a virtude de nobre donzela tiver um fiador tal como vós, esta achará sempre em mim o carinho de mãe e nas escolhidas do Senhor, que me alevantaram do meu nada ao tremendo ministério de sua abadessa, encontrará o amor e o agasalhado de irmãs para com irmã querida.

Dizendo isto, a boa abadessa tomou pela mão a desconhecida e, internando-se com ela pelas arcadas que diziam para o interior do edifício, alumiadas escassamente pelas lâmpadas turvas que de es­paço a espaço pendiam das abóbadas achatadas, desapareceu aos olhos de Atanagildo.

A noite vai no seu fim: a campa do mosteiro dá o sinal do terceiro noturno. Subitamente, o santuário ilumina-se, e os vidros multicores jorram nas trevas externas a claridade dos candelabros e tochas, como de dia deixam transudar a luz do sol no âmbito in­terior da igreja; esto perpétuo de resplendores, que ora descem do céu para a terra, ora tentam, subindo da terra para as alturas, des­fazer o manto das trevas. Numa extensa fileira, a cuja frente vem a venerável Cremilde, as monjas entram no coro e, tomando para um e outro lado, param voltadas para o altar. Junto da abadessa uma donzela de trajos brancos sobressai entre as monjas vestidas de negro, não tanto pela alvura das roupas, como pela formosura: e todavia, são formosas muitas das virgens que a rodeiam, pela maior parte ainda no viço da vida. É a nobre dama recém-chegada, à qual nem o cansaço de trabalhosa jornada, nem o hábito dos cômo­dos do mundo puderam impedir acompanhasse na oração aquelas que o trato de poucas horas já lhe fazia amar como irmãs. Cremilde prostra-se com a face no chão; as monjas e a dama vestida de branco seguem o seu exemplo. Através desses lábios inocentes que beijam o pavimento do templo murmuram durante alguns instantes as orações submissas. Depois, a abadessa ergue-se, e pouco a pouco aqueles semblantes, que cobre uma palidez de inefável repouso e brandura, vão se alevantando da terra, com os olhos voltados para o céu, semelhantes aos de anjos de mármore ajoelhados em roda de um túmulo, que surgissem pouco a pouco animados por vida re­pentina e, cheios de saudade da morada celeste, enviassem aos pés do Senhor o seu primeiro suspiro. Então a salmista começa a entoar um dos hinos sacros do presbítero de Cartéia que havia pouco se tinham introduzido no ritual gótico, e as demais monjas respondem em coros alternos. O hino dizia assim:

"As asas da tua providência, ó Senhor, expandem-se por cima da terra, e o justo desgraçado acolhe-se debaixo delas:

"Porque aí moram os santos contentamentos; esquecem as dores da vida; vive-se à luz da esperança.

"Confiado em ti, o fraco afronta as tiranias do forte: o humilde ri das soberbas do poderoso.

" Quem revelou aos pequeninos e opressos esta divina guarida? Quem nos ensinou a esperar? Quem a ser feliz pela fé no meio das agonias?

"Foi Cristo, o teu filho querido. A tua justiça condenava à dor o gênero humano ainda no berço: ele nos conquistou para a felicidade no meio dos tormentos da cruz.

"Nós tomaremos, também, esta em nossos ombros: ela é a guia da bem-aventurança.

"O seu peso é suave: porque sob ela os espinhos da existência que ensangüentam os membros do peregrino sem repouso, chamado o homem, convertem-se em prado macio de relva e boninas.

"Que reine para sempre a cruz!

"Erguei-a sobre todos os píncaros das serranias, gravai-a em todas as árvores dos bosques, hasteai-a sobre as rochas marítimas, estampai­-a nas muralhas das cidades, na fronte dos edifícios, apertai-a ao coraçao.

"E depois, que o gênero humano se prostre e adore nela a reden­ção que nos trouxe o Ungido de Deus.

"A cruz triunfará eterna."

Neste momento aquelas vozes harmoniosas cessaram, como se de súbito nos lábios de todas as monjas se houvesse posto o selo da mor­te. A porta do templo, aberta com violento impulso, rangera nos gonzos, e um velho ostiário viera cair de bruços sobre as lájeas do pavimento, soltando o grito doloroso que por tantos milhares de bocas diariamente se repetia na Espanha: - "Os árabes!"

As vozes confusas dos vigias, misturadas com o tinir do ferro, responderam, como uivar de feras, às palavras do ostiário: as faces pálidas das virgens empalideceram ainda mais.

A alvorada começava a repintar na terra a claridade do sol escondido ainda no oriente. Os godos, com as armas nas mãos, coroavam as ameias. Do alto de uma das torres Atanagildo obser­vava a campanha, e a fronte entenebrecia-se-lhe com um véu de tristeza.

Naquela noite muitos nobres senhores de terras tinham chegado ao mosteiro, vindos da banda de Légio. Um numeroso exército de árabes aparecera subitamente na véspera junto aos muros da cidade, que logo fora acometida pelos pagãos. Era o que sabiam. Fugitivos desde o aparecimento dos inimigos, ao anoitecer haviam enxergado para aquela parte um clarão grande e duradouro. Se eram as fo­gueiras dos arraiais árabes, se o incêndio de Légio, não o podiam resolver: só, sim, que seria impossível resistir por largo tempo cidade tão mal defendida a tamanha cópia de infiéis, que não tardariam a derramar-se para o lado do mosteiro, prosseguindo nas suas devasta­doras conquistas pela Galécia e pela Tarraconense.

Era esta triste profecia dos fugitivos que se tinha verificado ao romper da manhã. Atanagildo, do alto da torre principal, vira ao longe um vulto negro que descia dos outeiros, onde já alumiava tudo a luz matutina. Esse vulto assemelhava-se a serpe monstruosa que, rolando-se do monte para a planície em colos tortuosos, se lhe refletissem nas duras conchas os raios solares; porque naquele corpo gigante havia um continuo e rápido cintilar. Atanagildo percebera o que era, e por isso a tristeza lhe obscurecia a fronte.

Como a faísca elétrica, o terror espalhara-se no mosteiro apenas se dissera que os árabes se aproximavam. Mais de um coração de guerreiro batia apressado, como o do pobre ostiário que buscara na piedade de Deus o amparo que mal podia esperar das muralhas do forte edifício; do pobre ostiário, que, sem o saber, fora desmentir o hino triunfal da cruz, diariamente derribada dos altares nos tem­plos profanados da Espanha.

Dentro em breve, o exército do Islame chegara a tão curta dis­tância, que facilmente se distinguiam os esquadrões dos filhos do deserto e as turmas dos berberes. Também os árabes tinham obser­vado o reluzir das armas através das ameias do mosteiro. A hoste inteira parou no vale, e alguns cavaleiros encaminharam-se pela senda tortuosa que findava na ponte levadiça contígua ao grande portal, erguída desde que pelos fugitivos constara que os muçulmanos se avizinhavam.

Quando o qüingentário conheceu que os árabes paravam no fun­do do vale, o seu coração generoso verteu sangue com a lembrança de que o esforço dos soldados que coroavam os adarves do mosteiro, por muito que houvera sido, não fora bastante para salvar os des­graçados que tinham buscado abrigo à sombra daquelas muralhas. Viu o desalento pintado nos semblantes dos mais valorosos, e a últi­ma esperança varreu-se-lhe da alma. Todavia, esperou com rosto seguro a chegada dos cavaleiros que subiam a encosta.

Estes aproximaram-se, enfim. Por seu aspecto e trajo via-se que na maior parte eram godos. Com as espadas nas bainhas, pareciam vir em som de paz: também, por isso, nem uma frecha só se dispa­rou contra eles dos muros.

Pouco antes de chegarem ao fosso profundo que circundava o edifício, um cavaleiro que parecia o principal daquele pequeno es­quadrão, adiantando-se aos demais, veio topar com a entrada da ponte e, olhando para as muralhas, onde reluziam imóveis as lanças dos cristãos, chamou:

- Atanagildo!

Ao ouvir aquela voz, o qüingentário empalideceu: com visível ansiedade, voltou-se para um centenário que estava junto dele, e disse-lhe:

- Mandai descer a ponte e dai passagem franca a esse cavaleiro que proferiu o meu nome; mas a ele, unicamente a ele!

O centenário obedeceu. Daí a pouco as armas do guerreiro tiniam pelas escadas da torre. Apenas subiu ao terrado, encaminhou­-se para Atanagildo e, estendendo-lhe a destra, exclamou:

- Meu irmão!

O qüíngentário, em cujas faces pálidas passara um relâmpago de vermelhidão, recuou e, com voz afogada, respondeu:

- Atanagildo teve um irmão; mas esse morreu para ele; porque entre ele e Suintila está a cruz quebrada aos pés dos pagãos; está o céu e o inferno. A minha herança é a ignomínia do vencimento, os ferros de escravo e as promessas de Cristo: a tua as riquezas, a vitória e a maldição de Deus. Não troco os nossos destinos, nem quero a amizade do precito. Arrepende-te, abandona os infiéis, e então Atanagildo te apertará ao peito e te dará aquele nome tão suave da nossa infância, o santo nome de irmão.

- Estás louco! - replicou - Suintila - ... Porém, não foi para disputar contigo que vim aqui: vim para te salvar. Olha para o vale: àquela hoste numerosa que lá vês poucas horas poderão resis­tir estes muros mal guarnecidos. Abdulaziz, o invencível filho do amir de África, é quem a capitaneia: Légio caiu ontem em nosso poder, e de parte nenhuma podes ser socorrido. O bispo de Híspalis e o conde de Septum, que vêm conosco, oferecem-te o mando de um dos seus esquadrões. Os árabes pedem aos godos que os seguem fidelidade ao estandarte do califa, não à crença do Islame: podes guardar tua fé. Eis o que Suintila, alcançou a teu favor. Estas velhas muralhas e as donzelas encerradas nestes claustros, que Abdulaziz soube serem pela maior parte formosas e que ele destina para enviar a Cairuão, são o vil preço da tua salvação. Suintila aconselha-te que o entregues; porque, apesar das injúrias, ainda se não esqueceu de que é irmão de Atanagildo. Resolve e responde. Que devo dizer a Juliano e a Opas, a quem supliquei para ser man­dado aqui?

- Dize-lhes - atalhou o qüingentário, cujos olhos faiscavam de indignação - que eu respeito a vida de um arauto, ainda quando este é um miserável renegado, como tu ou como eles, aliás não fora Suintila quem lhe levaria a minha resposta. Dize-lhes que as suas infames ofertas são para mim tão abomináveis como eles. Dize­-lhes que antes de um sacerdote sacrílego e de um conde traidor po­derem estampar o ferrete da prostituição na fronte das inocentes virgens do Senhor terão de passar por cima das ruínas destes muros e dos cadáveres dos meus e dos seus soldados. E tu, renegado, sai daqui! Possa eu nunca mais ver-te o rosto e esquecer-me na hora de morrer de que nessas veias gira o sangue de nossos nobres e generosos avós.

- Como te aprouver, meu irmão! - replicou Suintila, e um sorriso lhe deslizou nos lábios, descorados por mal disfarçada cólera. Proferidas estas palavras, desceu as escadas da torre.

A cavalgada, que lenta subira a encosta, descia-a rapidamente enquanto Atanagildo, visitando os muros, exortava os guerreiros da cruz a pelejarem esforçadamente. Quando estes souberam quais eram as intenções dos árabes acerca das virgens do mosteiro, a atrocidade do sacrilégio afugentou-lhes dos corações a menor sombra de hesitação. Sobre as espadas juraram todos combater e morrer como godos. Então o qüingentário, a quem parecia animar sobrenatural ousadia, correu ao templo. Era necessário que as monjas soubessem qual futuro as aguardava. Resignado a acabar defendendo-as, Ata­nagildo nem por isso esperava saIvá-las das mãos dos agarenos. Dolorosa era a nova; mas cumpria não lhes esconder o seu horrível destino.

As mulheres e os velhos que tinham vindo buscar asilo no mos­teiro enchiam já o templo, em cujas abóbadas murmuravam e re­percutiam os gemidos e as preces. Rompendo pela multidão, o qüingentário encaminhou-se para o coro e chamou por Cremilde, que com as monjas acompanhava o povo nas suas orações fervorosas. A abadessa aproximou-se das reixas douradas que a separavam do guerreiro.

- Cremilde - disse Atanagildo em voz baixa - é necessário valor! Dentro de poucas horas sobre os muros do mosteiro da Vir­gem Dolorosa estará hasteado o pendão dos infiéis, e eu terei deixa­do de existir, porque jurei sobre a cruz desta espada ficar sepultado qebaixo das ruínas dele. O exército dos árabes é irresistivel, e a única esperança que me resta é que o Senhor aceitará o meu sangue, derramado em seu nome, como um testemunho da minha fé.

- Os infiéis - acudiu a abadessa, procurando dar às palavras que proferia um tom de firmeza que o trêmulo da voz lhe desmen­tia - contentar-se-ão, talvez, com as riquezas aqui amontoadas im­prudentemente e com a posse destes lugares. Se é isto o que pre­tendem saiamos e cedamos ao culto ímpio de Maomé o templo de Deus vivo, já que para o salvar seria inútil todo o sangue que se vertesse. Com as virgens esposas do Senhor buscarei os ermos das serras do norte, e, como as monjas primitivas, aí acharemos a paz e o repouso, enquanto o pai celestial não nos chama à nossa verda­deira pátria.

- Prouvera a Deus, venerável Cremilde - tornou o qüingentário - que nos fosse lícito desamparar estes muros: deixar só en­tregues às profanações dos infiéis a pedra e o cimento! Mas uma atroz mensagem acaba de me ser mandada por quem, como eu, devia horrorizar-se dela. Repelia-a, porque se me ofereciam vida e honras a troco da perpétua infâmia. Agora resta-me unicamente morrer como godo e como soldado da cruz.

- E qual era essa mensagem? - perguntou a abadessa ansiosamente. - Em nome de quem vinha ela?

- Do bispo de Híspalis e do conde de Septum; de um sacerdote e de um nobre. O preço da nossa liberdade era a prostituição das vossas filhas queridas, das monjas consagradas à Virgem Dolorosa, que esses mal-aventurados destinam para saciar as paixões brutas daqueles a quem venderam a terra de Espanha. Para o obter cum­pre-lhes, porém, passar por cima dos membros despedaçados dos guerreiros que povoam estas muralhas. Pela cruz assim o jura­mos todos. Havemos de cumpri-la.

As palavras de Atanagildo vibraram no coração de Cremilde, como vibra o primeiro dobre pelo finado que ainda jaz em seu leito da derradeira agonia na alma do bom filho, que reza, chorando, ajoelhado ao pé dele. Recuou aterrada e, volvendo para o céu os olhos enxutos, porque a aflição neles estancara as lágrimas que despontavam, ficou por alguns momentos com as mãos erguidas, como implorando uma inspiração de cima. Pouco a pouco, porém, as suas faces tingiram-se da cor da vida, o sorriso da esperança ro­deou-lhes os lábios, e as lágrimas, consolo supremo das maiores má­goas e, também, expressão eloqüente dos contentamentos mais íntimos, lhe rebentaram com força e lhe orvalharam a negra estamenha do hábito.

- O martírio! o martírio! - murmurou a abadessa. - Oh Cristo! bendito seja o teu nome.

- O martírio, sim: - Interrompeu o qüingentário - mas depois do sacrilégio; mas depois que as vítimas da corrupção dos traidores tiverem sido arrastadas para longe da Espanha e depois que nos haréns do oriente houverem sido poluídas pela sensualidade brutal dos conquistadores. Eu, ao menos, não verei esta última ofensa à santa religião de nossos pais...

- Ide: - prosseguiu a abadessa, que parecia não o haver escu­tado, embebida em meditação profunda: - Quando os infiéis se aproximarem, enviai-lhes mensageiros de paz. Que vos deixem acolher às montanhas com essa multidão de infelizes que vieram buscar o abrigo destes muros. Não cureis das monjas da Virgem Dolorosa, nem receeis por elas. Achei um meio para as salvar da sorte medonha que as ameaça. Desamparai-nos; porque o arcanjo do esforço é o nosso defensor. O meu arbítrio será aceito pelas escolhidas de Cristo; sê-lo-á, porque o Senhor mo inspirou. Nada mais é preciso dizer-vos.

E, de feito, o seu olhar e gesto eram de uma inspirada: mas nesse olhar e gesto havia o que quer que era de severa aspereza misturado com alegria suave, como em céu que varre o noroeste as nuvens tenebrosas remendam o azul puríssimo do firmamento, de onde, por entre elas, jorram torrentes de luz.

- Mas o juramento? - tornou tristemente o qüingentário. – Devo respeitar o vosso segredo; todavia parece-me lícito duvidar da eficácia dos meios que imaginais para vos salvardes das mãos dos muçulmanos.

- O vosso juramento é inútil. - acudiu Cremilde - e eu vos escuso dele. A resistência só servirá para arrastardes convosco à morte os velhos inermes e as criancinhas inocentes. Ide, e abri paci­ficamente as portas aos pagãos. Se tanto é preciso, eu vo-lo ordeno. Atanagildo, um dia nos veremos no céu.

Ditas estas palavras com toda a firmeza de resolução inabalável, a abadessa afastou-se da reixa e encaminhou-se para o meio das freiras, que, entretanto, haviam estado imóveis com os olhos crava­dos no pavimento. O qüingentário ficou por alguns momentos pen­sativo: depois, agitado pela luta cruel dos afetos e pensamentos opostos que tumultuavam no seu coração, atravessou vagarosamente o templo e desapareceu.

A um sinal de Cremilde as monjas saíram do coro; a donzela vestida de branco, ao lado da venerável abadessa, apertava-lhe a mão entre as suas; mas os seus meneios eram firmes como os dela e mais do que os dela altivos. Desde que a última freira passou, as preces misturadas de soluços que sussurravam na igreja converteram­-se num som único de choro perdido, como se a última esperança houvera desaparecido delas.

A campa do mosteiro bateu três pancadas com largos intervalos: é o sinal que convoca as monjas a capítulo. Para lá se encaminham. A donzela que nessa noite chegara acompanha-as, também, aí. Entraram. As pesadas portas da casa capitular rangem nos gonzos cerrando-se, e o correr dos ferrolhos interiores reboa ao longe pelos corredores monásticos. Ao mesmo tempo a ponte levadiça cai sobre o fosso que rodeia as muralhas do vasto edifício; um cavaleiro se arroja sozinho ao meio dos esquadrões do Islame, que já subiram a encosta, e pede para falar com o conde de Septum em nome de Atanagildo. Dentro de poucos instantes ei-lo que volta, e os muçul­manos param a curta distância. Então um grande número de crian­ças, de velhos e de mulheres, saindo, como torrente comprimida, do portal profundo do mosteiro, atravessam por meio das duas fileiras de soldados de Juliano e de guerreiros árabes que vieram colocar-se aos lados da ponte. Esta multidão desordenada ondeia, separa-se, apinha-se de novo, para tornar a espalhar-se, até que desaparece ao longe, caminho das montanhas. Após ela, cobertos dos seus saios de malha, mas sem armas, os soldados de Atanagildo seguem com gesto melancólico as mesmas trilhas por onde se vai escoando a turpa, até que também, como esta, se derramam pelas selvas densas dos montes e pelos barrancos escarpados que, retalhando os Nervásios, dão passagem através deles para as regiões setentrionais da Espanha.

Apenas o qüingentário, que fora o derradeiro a atravessar a ponte levadiça, volvendo os olhos arrasados de lágrimas para aquela santa morada, desceu a encosta, as duas fileiras de soldados arremessaram-se ao fundo portal, cujas abóbadas pela primeira vez re­boaram com os gritos discordes de homens desenfreados, e o edifício solitário respondeu-lhes com um silêncio lúgubre. Diante deles esta­vam patentes as vastas arcarias e escadas, os longos corredores, os pátios espaçosos. Lá, no centro, o templo solitário, com as portas abertas de par em par, amostra-lhes aos olhos ávidos as suas rique­zas, ao passo que parece querer vedar ao sol, com as cores sombrias das vidraças das janelas, o espetáculo das profanações de que na sua existência secular vai ser teatro e testemunha pela primeira vez.

Como o tufão rugindo se abisma nas galerias tortuosas de mina extensa, assim os godos renegados e os muçulmanos, que os seguem de perto, se precipitam dentro do mosteiro. Pelas arcadas e corredores, pelas salas e aposentos ouve-se o rir e falar desentoado, o ruído de passadas rápidas, o tinir das armas, o estourar das portas. Arabes, mouros, soldados godos da Tingitânia misturam-se, disputam, ameaçam-se, dividindo o saco. Os xeques e os capitães do conde de Septum vedam-lhes unicamente a entrada das habitações interiores, onde a riqueza do templo lhes promete à cobiça mais avultada presa. Eles sós se encaminham para essa parte e desaparecem nos claustros monásticos, onde se não ouve outro sinal de vivos, senão os sons de seus pés e, a espaços, o tinir das próprias armaduras, que roçam pelos pilares de mármore. Suintila, o desonrado irmão do virtuoso Atanagildo, era do número dos capitães que haviam primeiramente penetrado no claustro solitário. Tinha-se adiantado mais e descia por uma escadaria lôbrega que terminava, segundo parecia, numa quadra alumiada por muitas tochas. Esta circunstância, que lhe excitava viva curiosidade, obrigou-o a apertar o passo. A meia descida parou. Crera ouvir um cântico entoado por muitas vozes acordes, que a espaços era interrompido por gemidos dolorosos. Escutou: não se enganava! Então o terror começou a apoderar-se dele, e, porventura, teria retrocedido, se não sentira que alguém mais o seguia. Eram dois xeques árabes e um centenário do conde de Septurn que o acaso guiara para aquela parte. Interposto entre o clarão avermelhado que sala do subterrâneo e os três que se aproximavam, Suintila fez-lhes sinal de silêncio e continuou a descer mansamente até chegar à porta que dava da escadaria para o aposento iluminado. Então conheceu onde estava. Era um desses lugares misteriosos e santos que a primitiva arquitetura religiosa construía debaixo dos templos - templos também, mas da morte; porque aí, sobre os altares, re­pousavam as cinzas dos mártires, e aos pés deles os fiéis que obtinham para última jazida uma pouca de terra onde ainda fossem afagar­-lhes as cinzas o sussurro longínquo das preces e o perfume dos sacrifícios. - Suintila achava-se na cripta do mosteiro da Virgem Dolorosa. O clarão que vira era o de muitos lumes, acesos em lam­padários gigantes, e reverberando nas estalactites penduradas das junturas do mármore: era o reflexo das tochas que ardiam diante dos crucifixos únicas imagens que se viam sobre as aras nuas. Em cada um dos túmulos das monjas antigas, enfileirados ao comprido dos muros, negrejavam apenas uma data e um nome. Era o que restava para memória de muitas virtudes naqueles anais do mosteiro, naquela cronologia de pedra. O sepulcro da viúva de Hermenegildo, o desgraçado irmão de Recaredo, elevado mais que os outros à en­trada do templo subterrâneo, semelhava um trono de rainha em palácio de sombras, porque o ambiente grosso e frio e o hálito das sepulturas revelavam que aí era o império da morte.

As torrentes de luz, que inundavam esta morada de terror não permitiram a Suintila enxergar no primeiro volver de olhos os obje­tos que estavam ante ele. Espantado, tentava descobrir no meio daquela resplandecente solidão algum vulto humano, quando os can­tos e gemidos, suspensos momentaneamente, romperam de novo: primeiro as vozes harmoniosas; depois o gemido íntimo, doloroso, afogado; logo outra vez o silêncio.

Os dois xeques e o centenário tinham chegado ao pé de Suintila. Animados uns pela presença dos outros, encaminham-se para o grande túmulo e dali olham para o lugar de onde haviam soado os cânticos. Eis o temeroso espetáculo que têm diante de si:

Grossos e altos cancelos de roble separam do resto do templo um extenso recinto sem sepulcros, imediato ao altar principal: er­gue-se no topo cruz agigantada: por um e outro lado daquele espaço além das grades negrejam duas fileiras de monjas: muitas estão de joelhos e debruçadas sobre o primeiro degrau do altar: em pé, entre as duas fileiras, uma delas, cujos olhos desvairados reluzem à claridade das tochas e cujo aspecto severo infunde uma espécie de terror, tem na mão um punhal, cujo ferro sem brilho parece tinto em sangue. Junto da monja um vulto de mulher vestida de branco sobressai no meio das virgens cobertas de luto: unido às grades que defendem a entrada daquele recinto, um velho, cujas melenas e longa barba lhe alvejam sobre os ombros e peito, está de joelhos com os braços estendidos através da balaustrada: agita-o uma convulsão horrível de pavor, que lhe embarga na garganta os sons articulados e só lhe consente murmurar um ruído confuso, semelhante ao respiro ansioso de agonizante. Um dos dois coros de freiras começa a entoar de novo os salmos: a monja do punhal estende a mão, ordenando silêncio. Vai falar. Suintila, a ponto de arremessar-se para aquele lado, pára e escuta as suas palavras. São lentas e lúgubres, como as de espectro que se alevantasse de alguma das campas derramadas ao longo da cripta. Dirige-as ao vulto branco que está ao seu lado:

- Ainda uma vez, nobre dama, atendei às súplicas do velho bucelário que tenta salvar-vos. Para vós há esperança na terra: a nossa mora no céu. Quando os infiéis souberem que ainda existe na Espanha quem possa quebrar com ouro o vosso cativeiro ou vingar com ferro a vossa afronta, respeitarão a pureza de nobre virgem. A nós, que não temos ninguém no mundo, restava-nos unicamente o tremendo arbítrio que o Senhor nos inspirou. O martírio não tardará a cingir-nos a fronte de uma auréola de glória: os anjos de Deus nos esperam.

- A minha última resolução, venerável Cremilde, é acabar junto de vós e de vossas irmãs. O meu ânimo sairá, como o delas, ileso da última prova que Cristo nos pede na vida. Como elas, darei sem hesitar testemunho da cruz. O velho bucelário de meu pai mente à própria consciência quando afirma que os infiéis respeitarão a pu­reza de uma donzela goda: a infâmia tem sido escrita por eles na fronte das famílias mais ilustres da Espanha: o cutelo ou a prosti­tuição é o que os árabes oferecem à inocência. Eu escolho o cutelo: a morte vale mais que a desonra. Porventura, para a evitar me guiou o Senhor ao mosteiro da Virgem Dolorosa.

- Seja feita a vontade do Altíssimo - respondeu a abadessa ale­vantando ao céu as mãos, entre as quais apertava o punhal.

Depois de um momento de silêncio, Cremilde disse, voltando-se para o lado esquerdo: "Hermentruda, aproximai-vos!"

Uma das monjas saiu de entre as outras e veio ajoelhar aos pés da abadessa: as suas companheiras ajoelharam também voltadas para o altar; e o hino que Suintila ouvira ao descer para a cripta murmurou de novo naquelas curvas abóbadas.

Como lá no horizonte o sol trêmulo e sereno se reclina ao fim da tarde no seio tenebroso dos mares, assim o canto melancólico e melodioso das virgens foi pouco a pouco enfraquecendo até expirar no cicio de orações submissas. Apenas cessou de todo, um gemido de ago­nia agudo e rápido soou junto da abadessa. Aos olhos de Suintila afigurou-se que o punhal de Cremilde descera duas vezes sobre a monja que estava a seus pés. Um brado de cólera e horror, saindo involuntariamente da boca do godo, restrugiu pelo templo. Crera o renegado que Hermentruda havia sido assassinada. Pareceu-lhe então claro o sentido das palavras misteriosas que ouvira. As monjas fugiam ao cativeiro do harém pelo ádito do sepulcro. Ele assistia a uma cena horrenda de suicídio, e o braço mais robusto de Cremilde apenas era o instrumento cego movido por todas essas vontades, conformes para morrer.

- Mulher ou demônio, detém-te! - bradou Suintila, correndo com os xeques e o centenário para o recinto fechado e procurando abrir os fortes cancelos que lhe embargavam os passos.

Embebidas no seu drama cruel, nem as monjas, nem Cremilde volvem sequer os olhos para os quatro guerreiros, cujas armas reluzem ao fulgor das tochas: Hermentruda não está morta. Ergueu-se. Tem a cabeça descoberta, os louros cabelos esparzidos, o colo nu. Bem como o aspecto do formoso arcanjo de luz no dia em que, rebelde, a espada de fogo lhe estampou na fronte a condenação eterna, o seio e o rosto da monja, suavemente pálidos, estão sulcados por betas escuras, que serpeiam por aquele gesto, como às víboras estiradas ao sol sobre um busto grego tombado entre as ruínas de antigo templo pagão. É que, semelhantes ao nordeste frio e agudo, que, passando pela bonina viçosa, lhe desbarata os encantos, os fios do punhal de Cremilde correram por lá violentos e rápidos, e num momento aniquilaram a formosura da virgem.

As grades fechadas interiormente balouçam aos empuxões de Suintila: mas não cedem. "Ocba - diz o godo a um dos xeques - correi! Chamai os mais robustos zenetas e os negros de Tacrur ar­mados dessas achas a cujo primeiro golpe nunca resistiu elmo de bronze. Prestes! chamai-os aqui. Abdulaziz deve ter chegado. Que venha! Mulher infernal lhe vai destruindo peça a peça os despojos mais ricos, os que ele destinava para si e para o califa. Que venha salvá-los! Que venha! Prestes, xeque de Hoara!"

E, enquanto o xeque galga a extensa escadaria, os três tentam muitas vezes estourar os grossos ferrolhos, que resistem às suas dili­gências. Arquejando, Suintila abandona a tentativa inútil. Ameaça Cremilde: as injúrias acompanham as ameaças: seguem-nas as súplicas, as promessas. e logo, de novo, as pragas e as afrontas. Baldado é tudo. Cremilde lançou ao renegado um olhar de com­paixão e conservou-se em silêncio.

Mas os cânticos cessaram de todo: as monjas saem sucessiva­mente de ambos os lados e vêm ajoelhar aos pés da abadessa: vêm despir as galas da formosura e comprar à custa delas a pureza da virgindade e a palma do martírio. Cada vez mais rápido range o punhal nos colos puríssimos das virgens do mosteiro. O gemido que expira comprimido pela constância, já se prende com o que a dor e a fraqueza mulheril arrancam dos seios das vítimas ao descer do primeiro golpe, e a fileira das que se vão debruçar sobre os degraus do altar cresce de instante a instante, ao passo que rareiam as outras duas.

A terrível sacerdotisa parou. Está o seu braço cansado de tão largo sacrifício? Não! Braço e ânimo são robustos, porque os forta­lece o espírito do Senhor. É que o momento supremo da morte se aproxima. A mourisma jorra subitamente pelo portal estreito, como o rio caudal na caverna que se lhe estendia debaixo do leito e cuja abóbada fendeu tremor de terra. Os guerreiros negros das tribos de Tacrur, à voz de Abdulaziz que os precede, precipitam-se contra os sólidos cancelos do lugar vedado: vinte machados ferem a um tempo nas grades, que gemem sob a fúria dos golpes e mal resistem às pancadas violentas dos negros possantes, aos quais redobra os brios a presença do amir, cuja cólera resfólega em maldições e blasfêmias.

Entre as monjas e os árabes bem curta distância medeia: e todavia, lá no mais pequeno recinto onde soam os gemidos de dores atrozes, onde só ri uma esperança, a da morte, há paz íntima, há o céu: aqui, na vasta cripta, onde a ebriedade de fácil triunfo, a riqueza dos despojos, o futuro de uma larga existência de glória e deleites sorriem na mente dos infiéis, está o furor insensato, está o inferno. O evangelho e o Alcorão estão frente a frente no resultado das suas doutrinas. É sublime a vitória do livro do Nazareno!

Os golpes de machado redobram: os troncos afeiçoados do roble começam a estourar nas suas junturas. A última freira fora já cur­var-se junto aos degraus do altar; a donzela vestida de branco vai ajoelhar aos pés de Cremilde, exclamando:

- Para mim também o martírio! Salvai-me do opróbrio.

- A tua constância, filha, na dura prova de agonia por que tens passado, te purificou. Sê uma das monjas da Virgem Dolorosa e vai com tuas irmãs receber a coroa de mártir.

O ferro, porém, que descia sobre o colo da donzela foi cair com a mão de Cremilde aos pés da cruz gigante do altar. Um revés do alfanje de Abdulaziz lha cerceara: as sólidas grades estavam despedaçadas.

A abadessa vacilou e, ao cair, só pôde murmurar: "Jesus, recebe a minha alma!"

Foram as suas palavras extremas: um segundo golpe lhe atalhou na garganta o derradeiro suspiro.

As freiras ergueram-se e encaminharam-se para o lugar em que jazia o cadáver destroncado da abadessa. Ajoelharam junto dela com a face voltada para a turba dos infiéis. Os seus rostos inchados, emanando sangue, eram disformes e horríveis.

- Ao menos, tu serás minha! - exclamou o amir, lançando a mão ao braço da donzela vestida de branco, a quem o terror desta cena rapidíssima tornara imóvel, como uma dessas estátuas que parecem orar sobre os sepulcros nas catedrais da Idade Média. - Filhos valentes do Açudane, conduzi-a à minha tenda. As outras, que as asas do anjo Asrael se estendam sobre os seus cadáveres.

Daí a poucas horas a cripta estava em silêncio. As monjas da Virgem Dolorosa jaziam degoladas em volta da venerável Cremilde, e as suas almas puras abrigavam-se no seio imenso de Deus.

XIII

Covadonga

Ao sopé daquele monte um penhasco defendido pela natureza e não por arte, dilatando-se vasto, resguarda uma caverna inteiramente inexpugnável para qualquer ardil de inimigos.

Monge De Silos: Chronicon, c. 3º.

A vitória do Críssus assegurara aos árabes a conquista da Espanha inteira, porque o desalento entrara em todos os corações, e o terror quebrara todos os brios. O Duque de Cantábria, Pelágio, fora o único em cuja alma não morrera inteiramente a esperança. Errante pelos cerros quase inacessíveis que se elevam no extremo oriental da Galécia, e que, passando ao norte da Cartaginense, vão encontrar­-se no vulto gigante dos Pireneus, o mancebo não dobrara a cerviz ao fado cruel que pesava sobre seus irmãos. Poucos o haviam seguido naquela vida quase selvagem: mas esses poucos eram homens a quem a aura da liberdade parecia a única atmosfera em que os seus pul­mões robustos poderiam resfolegar; homens a cujos olhos as afrontas da cruz derribada do cimo das catedrais seria espetáculo incrível e insuportável. Uma caverna servia de paço ao jovem rei das monta­nhas e de templo ao Crucificado. Os domínios de Pelágio eram as serranias e os vales profundos onde, porventura, até então nunca soara a voz humana. O urso ferocíssimo, o javali indomável, a leve corça abasteciam a grosseira mesa desses godos a quem a desgraça e a vida dura das solidões fizera mais feros, mais indomáveis e mais ligeiros do que eles. Às vezes, Pelágio e os seus soldados desciam das montanhas para largas correrias, semelhantes à tempestade noturna, e, como a tempestade, passava elas tendas dos árabes ou pelas aldeias, despovoadas de cristãos, onde os infiéis começavam a fazer assento. Alta noite ouvia-se aí um gemer de moribundos, via-se o brilhar do incêndio. Era o bulcão do deserto que rugia por lá. Ao amanhecer tudo estava tranqüilo; porque, bem como a procela, Pelágio era repentino e destruidor, e só escrevia na terra com os caracteres sanguinolentos de ruínas e mortes a notícia da sua quase invisível passagem.

Não assim Teodomiro. Depois da batalha, os restos das tiufadias desbaratadas haviam-no proclamado sucessor de Roderico. Era de ferro e de espinhos a coroa que se lhe oferecia sobre a campa do império godo. Aceitou-a; porque em aceitá-la havia mais abnegação que orgulho. Enquanto Tárique, rendida Tolentum, subjugava uma parte da Cartaginense, Muça, o amir de África, desembarcando nas costas da Espanha com um novo exército, rendia Híspalis e, atra­vessando o Ana, submetia ao jugo do califa todo o ocidente da penín­sula ibérica. As relíquias do exército godo que não haviam podido resistir a Tárique, muito menos poderiam impedir a passagem do amir. Assim, Teodomiro, ajuntando esses soldados dispersos, aco­lhera-se às serranias de Ilipula, na extremidade oriental da Bética. Muça, porém, enviara contra ele seu filho Abdulaziz, um dos mais famosos guerreiros do Islame. Apesar da superioridade do exército árabe, a luta fora longa e terrível. Teodomiro sucumbira por fim; mas, posto que vencido, o seu valor obrigara os muçulmanos a conce­derem-lhe vantajosas condições de paz. Os vastos domínios que ainda possuía foram-lhe conservados, reconhecendo ele a suprema­cia do amir, e os godos puderam, ao menos nesse canto da Bética, achar uma parte da segurança e repouso que faltava no resto da Espanha, onde o alfanje da conquista assinalava todas as frontes com o ferrete da servidão e reduzia a montões de ruínas as cidades, nas quais o espírito do cristianismo e da liberdade ousava relutar contra o domínio do califa e contra a religião do Alcorão.

Teodomiro reinou largo tempo nos distritos orientais da Bética, mas abandonado pelos mais nobres guerreiros, para quem a paz com os infiéis seria incomportável desonra. As montanhas das Astúrias eram o verdadeiro e único refúgio da independência goda. Em volta de Pelágio, ajuntavam-se todos os homens esforçados que não tinham ainda desesperado da Providência e da própria espada. Muitos deles adormeceram para sempre nas solidões daqueles agrestes esconderi­jos, sem que vissem verificar-se as suas esperanças; outros, porém, saudaram ainda a aurora do dia da vingança e puderam dizer, mor­rendo: - "A Espanha será salva!"

Era passado um ano depois da batalha do Crissus. O número dos companheiros de Pelágio aumentava diariamente com os homens generosos que, depois da paz de Teodomiro com os árabes, deixavam este, para salvarem a sua independência nos fraguedos das Astúrias e da Cantábria. Esses contínuos socorros fortaleciam a constância do moço guerreiro, que via crescer e sussurrar a torrente dos invasores em volta das suas montanhas. Abdulaziz, o valente filho de Muça, subjugara a Lusitânia e a Cartaginense e, saqueando as cidades opu­lentas do norte que lhe abriam as portas, metia a ferro e fogo as que tentavam resistir-lhe. Os rolos de fumo que se alevantavam das povoações incediadas mostravam aos cavaleiros de Pelágio que já pelos campos góticos flutuava triunfante o estandarte de Maomé. Rugindo de cólera ao contemplarem este espetáculo, apertavam contra o peito a cruz das espadas. Então, sentiam escorregarem-lhe as lágrimas pelas faces tostadas, e descer-lhes com elas aos seios da alma a resignação e a esperança na piedade de Deus.

voltar 12345678avançar
Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal