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Eurico, O Presbítero

Alexandre Herculano

Um alarido de muitas vozes o interrompeu: eram os infiéis, que a meia encosta haviam enxergado os fugitivos e que se atiravam para o vale.

- Não há entre vós um que o ouse? - reperguntou o misterioso guerreiro, fitando o olhar sucessivamente em todos. - Vai seguro o que o tentar. A entrada deste recinto é estreita, e os pagãos antes de chegarem ao Sália passarão por cima do meu cadáver. Direis depois a Pelágio que somente o cavaleiro negro lhe pede, a ele e a sua irmã, algumas lágrimas em memória de um tiufado de Vítiza, que deixou de viver... Chamava-se Eurico... Ele nos tenros anos ainda o conheceu em Tárraco... Fruela, Gudesteu, e tu, Sancion, qual de vós será o mensageiro? qual de vós será o salvador de Hermengarda?

Todos calaram de novo; mas aqui não houve silêncio: ouvia-se já o ruído dos corredores sarracenos, bem de perto, no fundo do vale.

E ao proferir o cavaleiro negro o nome de Eurico, a irmã de Pelágio soltou um gemido e deu em terra como se fora morta.

- Nenhum! - rugiu o guerreiro quase sufocado de furor e de angústia; e, alongando a vista pelo portal do recinto, viu alvejar os turbantes, e, depois, surgirem rostos tostados, e depois reluzirem armas. Os árabes começavam a galgar a ladeira. Astrimiro descera de um pulo do valo.

A contração da agonia que neste momento passou nas faces do cavaleiro negro, estendendo para o céu os punhos cerrados, não ha­veria aí palavras humanas que a pintassem. Não disse mais nada. Tomou nos braços aquele corpo de mulher que lhe jazia aos pés e encaminhou-se para a estreita ponte do Sália. Era o seu andar hirto, vagaroso, solene, como o de fantasma: parecia que as suas passadas não tinham som; que lhe cessara o coração de bater, e os pulmões de respirar.

Viram-no atravessar, lento como sombra; como sombra, lento, hirto, solene, internar-se com Hermengarda na selva da outra mar­gem.

Era um corpo ou um cadáver que conduzia? Estava morta ou estava salva?

Sancion e os demais godos tinham ficado imóveis de espanto e de susto. Aquele homem, menos habituado a transitar por meio dos precipícios das montanhas, cometera um feito, para o qual lhes falecera o ânimo. Mal sabiam eles quanto os alcantis do Calpe eram mais ásperos, os seus despenhadeiros mais freqüentes, os seus córregos mais fundos, e quantas vezes esse homem os havia galgado na escuri­dão da alta noite, por entre o redemoinhar e bramir do vento e das tempestades!

Foi por um momento rapidíssimo que durou a imobilidade dos godos, porque tanto bastou ao cavaleiro negro para transpor a breve largura do Sália e sumir-se na floresta que, descendo das montanhas fronteiras, vinha quase tocar na borda dos alcantis pendurados sobre as águas.

Os dez guerreiros, uns após outros, galgaram ligeiros por cima do roble nodoso, sem abaixarem os olhos para a espécie de sorvedouro negro, revolto, ruidoso, que, mugindo lá embaixo, parecia, com seu estrépito violento, tentar atraí-los e devorá-los.

Sancion foi o derradeiro a passar: a meio rio sentiu após si o tumulto dos árabes que se precipitavam dentro dos arruinados valos romanos. Não titubeou e seguiu avante. Chegando à margem oposta, volveu os olhos e viu que alguns dos inimigos punham pé em terra e, cegos na sua fúria, se arrojavam para a ponte fatal.

- Godos, aqui! - gritou ele: e o primeiro golpe de franquisque deu um som baço entrando nas raízes ainda vivas da velha árvore.

E, manso e manso, os agarenos, lançando-se ao comprido sobre o cepo que estremecera ao golpe de Sancion e segurando-se às cavi­dades do velho tronco e às asperezas do seu grosseiro córtex, se aproximavam, semelhantes ao estélio que se arrasta, nas ruínas de Balbeque, ao longo de coluna tombada.

Cristãos e infiéis fizeram silêncio: era uma destas situações em que a voz expira na garganta; porque o viver parece quase para­lisar-se.

E os árabes avançavam sempre, e os golpes das pesadas secures godas batiam roucos e cada vez mais violentos e repetidos nas raízes que estalavam, lascando; e já os olhos esverdeados de cólera, faiscantes, desvairados dos infiéis, cujas barbas negras varriam o tronco, se encontravam com o olhar torvo de Sancion, curvo, vibrando golpes sobre golpes, e cercado de alguns companheiros que o imitavam - aqueles a quem o consentia a apertura do sítio, enquanto os outros, com os franquisques nas mãos, se preparavam para repelir os inimi­gos, que só um a um poderiam transpor a estreita passagem.

Subitamente estouram as últimas fibras do lenho; a árvore monstruosa despenha-se da sua base de pedra, escapa da riba fronteira, tomba pelas pontas dos rochedos limosos, fá-las voar em rachas e bate sobre o dorso da torrente, cujo ruído não pôde devorar inteiramente o alarido dos infiéis precipitados, que deixam os fragmentos das armas, dos vestidos e dos membros pendentes dos bicos das rochas. As águas, espadanando, trepam em lençóis de escuma pelas paredes anfractuosas do precipício e lambem o sangue que por instantes as tingiu. Depois, o grosso madeiro flutua, deriva pela corrente e lá vai, de envolta com ela, em demanda das solidões do mar.

Os árabes que enchem o recinto das ruínas recuam diante de tão horroroso espetáculo: os godos enviam-lhes uma risada feroz de insulto e desaparecem na espessura das brenhas que se dilatam até às raízes das montanhas de Auseba, onde deve ser o termo da sua viagem.

XVII

A Aurora da Redenção

Desprezamos essa multidão de pagãos, e nenhum temor há em nós.

Sebast. de Salamanda: Chronicon.

O espetáculo que oferecia a caverna de Covadonga na noite ime­diata àquela que se despediu com os sucessos das margens do Sália era mui semelhante ao dessa outra noite em que Pelágio rece­bera a nova do cativeiro de Hermengarda; - espetáculo semelhante, mas personagens, em parte, diversas. Na vasta lareira, próxima da entrada da gruta e a que servia de chaminé uma larga fenda dos rochedos superiores, ardiam alguns cepos de carvalho, que, repassa­dos de fogo durante longa noite de novembro e abrasados até à me­dula, davam apenas uma chama tênue e azulada, cujo fraco esplen­dor se perdia na claridade brilhante de cinco ou seis fachos, encos­tados pelas paredes irregulares da caverna. Do numeroso tropel de guerreiros que naquela memorável noite se tinham erguido à voz do moço duque de Cantábria, travando das armas, apenas se viam agora, estendidos nos grosseiros leitos formados das peles de animais bra­vios, dez cavaleiros, que no seu profundo sono, no transfigurado gesto e no desalinho dos trajos faziam antes lembrar o jazer de cadáveres, que o repousar de vivos. Perto do lar aceso, assentado em escabelo tosco e com a cabeça encostada ao braço firmado numa anfractuosidade do rochedo, via-se, também adormecido, um guerreiro em cujo rosto os sulcos das rugas e o cavado das faces davam, porventura, mostra de mais dilatada vida do que, na realidade, era a sua. O sono parecia nele unicamente o entorpecimento das forças físicas exaustas e não o repouso do espírito; porque, de quando em quando, os membros se lhe agitavam por estremeção violento, ou se lhe descerravam os olhos, e moviam os lábios, como se tentasse falar: mas sussurrava apenas alguns sons inarticulados, e cala de novo em torpor, que não tardava em ser outra vez interrompido. Num recesso da gruta, formado pelos ressaltos das rochas e que ser­via como de câmara ao jovem capitão dos foragidos, parecia também jazer um vulto sobre telas mais delicadas que os despojos de animais silvestres, as quais eram, talvez, ainda restos do anterior luxo dos paços de Tárraco; talvez, vestígios da passada grandeza dos duques de Cantábria e da antiga civilização gótica. Um pano de púrpura franjado de ouro pendia da abóbada natural, preso nas estalactites seculares que dela desciam, semelhantes aos pendurões do teto de um templo normando-árabe. A luz dos fachos mal alumiava aquele recanto afastado; mas nessa meia-claridade branquejavam roupas alvas de mulher, que também parecia agitada por sonhos dolorosos, se é que o seu gemer de espaço a espaço, o soluçar contínuo, o agitar­-se de instante a instante não eram antes indícios dessa modorra febril, dessa hesitação entre o dormir e a vigília, semelhante ao arquejar do moribundo que já perdeu a consciência da vida que vai fugindo. No meio desta cena de duvidosa quietação uma personagem velava. Era o moço Pelágio, que, atravessando a caverna a passos lentos e cautelosos, de um para outro lado, ora aplicava o ouvido aos movimentos irrequietos e ao respirar agitado do vulto branco, ora parava à entrada da gruta, fitando os olhos na escuridão exterior e escutando com todos os sinais de impaciência de quem espera alguém que tarda. Depois, dirigia-se para o lado do vermelho brasido e, cruzando os braços, punha-se a contemplar o torvo aspecto do cavaleiro do escabelo com um olhar de simpatia e compaixão, misturado do que quer que fosse de admiração e de terror involuntário.

Estes movimentos sucessivos do mancebo repetiram-se umas pou­cas de vezes: por fim, a figura membruda e selvática do lusitano Gutislo assomou no arco irregular que servia de pórtico àquela habitação roubada pela desventura às feras.

- Voltaram? - perguntou em voz baixa ao bárbaro do Hermínio o duque de Cantábria.

- Desmontam agora - respondeu Gutislo: - Vélido, o centenário, disse-me viesse ver se repousavas.

- Repousar! - replicou Pelágio, sorrindo tristemente e olhando para o sítio onde o pano de púrpura ocultava o vulto branco.

- Que venha: que venha já.

Gutislo desapareceu. Daí a alguns momentos, o centenário en­trava.

Era um guerreiro, cujos cabelos brancos, cujos meneios pausa­dos e cujo olhar penetrante davam testemunho de prudência e discrição. Parecia inquieto e assustado.

- Que novas nos trazes, Vélido? Qual caminho seguem os árabes?

- O que prouvera a Deus eles nunca houvessem encontrado. Ao amanhecer os cavalos africanos beberão as águas do Deva; os sons das trombetas agarenas ouvir-se-ão retumbar pelas encostas de Concana e ecoarão nos alcantis do Auseba. Vagueamos dispersos a tarde inteira e a maior parte da noite. Pelas alturas do sul e do oriente reluziam ao longe as armas dos infiéis, e depois as suas almenaras. Os pastores astúrios, que já nos esperavam no vale de Onis, onde todos os esculcas se ajuntaram à hora da terça noturna, nos relataram então o que, sumidos por entre as brenhas, tinham podido observar de perto...

- E quais foram as novas dos pegureiros? - interrompeu vivamente Pelágio. - São muitos ou poucos os inimigos? A que distância se acham?

- Pouco depois do amanhecer devem ter descido os últimos outeiros do Vínio, e quando o sol brilhar em todo o seu esplendor poderão pisar o solo, até hoje livre, do vale de Covadonga. Os pas­tores viram os nossos cavaleiros transporem o bália: viram des­penhar-se o roble, e os infiéis recuarem espantados. Mas, esquadrões após esquadrões desciam das montanhas, e dentro em breve na margem do rio não descortinavam por grande espaço senão tropéis de árabes. Ao pôr do sol ainda as gargantas das serranias golfavam torrentes de infiéis, e as selvas retumbavam com os golpes de ma­chado. Antes de anoitecer, uma ponte espaçosa estava lançada sobre o Sália num sítio menos profundo, e os inimigos começavam a atra­vessá-la. Entre os primeiros que passaram aquém, asseguram os zagais terem visto muitos cavaleiros que, pelos elmos e couraças, pelas cateias e franquisques, eram, sem dúvida, godos.

- São as tiufadias da Tingitânia: são os soldados réprobos do conde de Septum, que Deus conduz aos desertos das Astúrias para que os abutres e javalis tenham lauto banquete de cadáveres.

Pelágio e o centenário voltaram-se: a voz que proferira estas palavras soara atrás deles. Era o cavaleiro do escabelo, que desper­tara às primeiras palavras do capitão dos esculcas e que, firmados os cotovelos sobre os joelhos e com a cabeça entre os punhos, escuta­ra todo o diálogo.

- Quê?! - exclamou o mancebo - ainda há pouco havíeis cerrado as pálpebras, e já despertastes, Eurico?

- Duque de Cantábria, desde muito que o sono é sempre breve para mim: há muito, que nestas veias ele não derrama consolação nem frescor. Adormecido ou desperto, o meu espírito vê sempre ante si imutável a realidade, e a realidade é medonha. Oxalá pudesse esta alma dormir!

- Bem o sei - replicou o filho de Favila. - A imagem da pátria, santa e melancólica, se misturava sanguinolenta nos vossos sonhos do dormitar. Algumas palavras soltas que proferieis...

- Ah! - interrompeu o cavaleiro, pondo-se em pé rapidamente, com um gesto de espanto. - Eu falava?! Eram tão extravagantes os meus sonhos!... Que palavras me ouvistes? Delírios, loucuras!... dizei; não é assim?

E olhava inquieto para o mancebo, como se receasse que um segredo importante lhe houvesse fugido dos lábios.

- As vossas palavras eram quase ininteligíveis - respondeu Pelágio. - Perdida para sempre; para sempre! - Eis o que repetíeis muitas vezes; e depois: - Não resta uma esperança!... Oh, tão formosa e gentil!... Homem infame, que tinhas em mais o ouro que a virtude e a glória, maldito sejas tu! - E então os dentes vos ran­giam, e, entreabrindo os olhos, o vosso aspecto era terrível! Pensáveis, por certo, na Espanha, na formosa terra dos godos, e a indignação vos arrancava maldições, contra Opas e contra os que venderam pelo ouro dos árabes as aras de Cristo e a liberdade dos seus irmãos. Engariaram­-vos, porém, os sonhos, cavaleiro! A esperança resta ainda, e a Espanha não se perdeu para sempre! Vós mesmo agora o dissestes. Abundante cevo de cadáveres humanos vão ter os abutres e javalis das montanhas.

- Tendes razão! - replicou o guerreiro, deixando-se cair de novo sobre o escabelo e voltando à postura anterior. - Os meus lá­bios mentiram ao coração, se disseram que para a Espanha não havia esperança. Mas a mentir não tornarão eles, porque estes olhos só hão de cerrar-se, já agora, em sono bem profundo, no qual não haja sonhar! Depois dos combates é que se dorme bem placidamente! É então que eu dormirei.

Era sinistro e lúgubre e, todavia, tranqüilo o modo com que ele o dizia. Pelágio, preocupado pelas novas que o centenário trouxera, não reparou no sorriso doloroso que enrugava as faces de Eurico e, voltando-se para Vélido, prosseguiu:

- Oh! Abdulaziz busca a última guarida dos cristãos, os últimos aripenes de terra livre da Espanha; persegue-nos como a bestas­-feras?... Pois bem! Vai, e dize aos nossos cavaleiros que antes de romper a manhã estejam a cavalo com a lança em punho prontos a marcharem para a entrada do vale. Os fundeiros e mais bucelários de pé que se preparem para subir aos píncaros sobranceiros por ambos os lados do arraial. Dize-lhes também, a uns e a outros, que sem demora eu serei com eles.

O centenário saiu.

Pelágio chegou-se então aos que dormiam e, despertando-os um a um, fê-los aproximar da boca da gruta:

- Vede vós a estrela matutina que empalidece? - disse, apontando para um breve espaço do firmamento, onde, através do portal irregular, se via fulgir o planeta Vênus. - Não tarde muito que ela desapareça mergulhada na vermelhidão da aurora. Essa verme­lhidão tingirá em breve o céu, como o sangue há de hoje tingir a terra: mas confio em Deus que, também, como após ela há de surgir o sol envolto no seu fulgor glorioso, assim a cruz e o nome dos godos se alevantarão triunfantes, após o sangue vertido por esses dois objetos santos e queridos, que nos têm alimentado a energia da alma no meio dos trabalhos e perigos. Guerreiros! os árabes seguiram as vossas pisadas. Abdulaziz e Juliano, um insensato e um renegado, ousaram aproximar-se ao antro dos leões de Espanha, e os leões hão de despedaçá-los. O céu condenou-os: diz-me íntima voz que ele os condenou, inspirando-me um estratagema a que os infiéis não poderão resistir.

No gesto de Pelágio, ao proferir estas palavras, estava estampada a expressão da confiança, do esforço e do entusiasmo; daquele en­tusiasmo que ele sabia comunicar aos que o ouviam e que, na situa­ção quase desesperada em que se achavam os foragidos das Astúrias, fizera com que lhe cedessem voluntariamente o mando supremo os mais velhos e experimentados guerreiros.

Pelágio expôs em breves palavras os seus desenhos para obter dos árabes um triunfo completo. O caminho que seguiam devia forçosamente trazê-los às gargantas das serras. Colocados na entrada do vale, uma parte dos cavaleiros oferecer-lhes-iam débil resistência, cedendo pouco a pouco e retirando-se para o topo daquela espécie de caldeira cortada nas montanhas: apenas aí chegados, abandonando os ginetes, precipitar-se-iam para a caverna, aonde já se teriam acolhido as mulheres, crianças e velhos dispersos pelas tendas do campo, e em cujo estreito e escarpado portal poucos pelejadores basta­vam para resistir à multidão dos inimigos. Então o grosso dos cava­leiros, em cilada nas selvas que se dilatavam para as alturas, à esquerda da garganta do vale, acometê-los-iam pelas costas, enquanto os bucelários, sumidos pelas penedias, lá no alto dos barrocais que formavam como um muro de ambos os lados do arraial, fariam chover sobre os infiéis as armas de arremesso, sem que a estes fosse possível repeli-los, ignorando os caminhos que conduziam àqueles lugares, na aparência só acessíveis às águias e aos abutres, que ali tinham, de feito, a sua guarida solitária.

- Mas a vós, cavaleiros - concluiu Pelágio - que provastes extremos de esforço na correria a que devo a salvação de minha pobre irmã, a vós pertence o acabar a vitória que o Senhor nos vai dar. Há mais de um ano que as nossas mãos se têm calejado a aluir os penhascos que coroam o teto desta caverna; há mais de um ano que raro dia se passa sem que o suor das nossas frontes os ume­deça, ao arrastarmo-los lentamente para a borda do despenhadeiro que se eleva a prumo sobre o ádito deste recinto. Aí, acompanhados dos meus robustos cantabros, e dos bárbaros do Hermínio, será o vosso pelejar: aí, quando os inimigos, apinhados ante aquele portal, se arremessarem contra os guerreiros que o hão de defender; quando as trombetas dos que os ferirem pelas costas soarem uma toada de morte, e os invisíveis bucelários fizerem chover sobre os infiéis os tiros de funda, as setas e os dardos, cumpre que esses rochedos que, lá no cimo, parecem embebidos na penedia, calam rapidamente e esmaguem os esquadrões cerrados dos inimigos da Espanha. Pelo caminho talhado na rocha sobre as nascentes subterrâneas do Deva, ireis assentar-vos, no cume do Auseba, e o anjo do extermínio pairará junto de vós: sereis a inteligência que guie o duro braço dos canta­bros e dos lusitanos para lhes dirigir os golpes, para os reter quando, rareados, confundidos, esmagados os troços da serpente maldita que ousa colear junto de Covadonga, nós pudermos arremessar-nos ao meio deles e fazer cair sobre a cabeça dos pagãos os golpes dos nossos franquisques, não menos destruidores que os rochedos despenhados.

- Como assim?! - replicou Sancion, que por vezes estivera a ponto de interromper o mancebo. - Nós, próceres e gardingos; nós que meneamos a acha de armas e a espada; nós que trajamos o ferro, combateremos, como os servos e vis, de longe e sem risco? Nós, que por tantas milhas através das serras demos as costas aos infiéis, não poderemos, embebendo-lhes as espadas nos peitos, dizer­-lhes enfim: - Eis-nos aqui! - Pelágio, isso é impossível!

- Impossível! - repetiram todos os outros cavaleiros apinhados ao redor de Sancion.

- Impossível é - interrompeu o duque de Cantábria com gesto severo - que haja guerreiros cristãos que recusem obedecer-me, no momento em que se trata, não de ambições de glória, mas da re­denção da Espanha. Cavaleiros, o esforço de vossos corações vos engana! Exaustos pela correria da próxima noite, os braços vos desmentiriam o ânimo, e eu não consentirei jamais um sacrifício inútil, quando de outro modo podeis contribuir para salvarmos as Astúrias. Gutislo! - clamou ele aproximando-se da boca da caverna - dize aos teus irmãos do Hermínio que venham aqui e ao qüin­gentário da minha tiufadia que vos siga com os soldados cantabros. Sancion, Gudesteu, Astrimiro, Ênecon, vós todos que me cercais, eis ali o vosso caminho! Parti.

E apontava para um lado da gruta, onde quem chegava ao perto via, lá em cima, o céu estrelado, por uma espécie de clarabóia natu­ral, e, quase debaixo dos pés, um como sorvedouro escuro, em cujas profundezas se percebia o ruído das nascentes do Deva. Na circun­ferência daquele abismo, desde o chão da caverna, os foragidos, apro­veitando as escabrosidades das paredes circulares, tinham formado uma escada tosca, ora cavada na pedra, ora firmada sobre troncos de árvores fixos nas fendas e cavidades da rocha, e, que, lançada em espiral, saía perto do cimo calvo do Auseba. Assim, quando o vale fosse ocupado dos sarracenos, os cristãos poderiam defender-se por largo tempo, obtendo por esse caminho oculto os socorros dos montanheses.

Entre os cavaleiros a quem Pelágio dirigira aquelas palavras houve alguns instantes de hesitação, e um murmúrio de descontenta­mento; mas, por fim, Sancion, pegando em um dos fachos, encami­nhou-se para a escada subterrânea, e os outros seguiram-no. Os quase selvagens filhos do Munda, vestidos de peles de alimárias, e os cantabros, cujas feições e trajos também revelavam a sua origem céltica, não tardaram a entrar na caverna. Pelágio então lhes orde­nou obedecessem aos guerreiros que os haviam precedido, e em breve o som das passadas daquele tropel desordenado, alongando-se pelo abismo, morreu em silêncio total.

Eurico parecia indiferente ao que se passava ao pé dele, assen­tado no escabelo e com os olhos cravados no cepo candente que se consumia no afumado lar. Pelágio voltou-se para ele, e disse-lhe:

- Vós, Eurico, ficareis aqui: vós que salvastes minha irmã, sereis o seu guardador. Quem melhor vigiaria por Hermengarda do que esse homem que nela tem um testemunho perene do mais indizível esforço, da mais pura e generosa lealdade? Desejaria ver junto de mim no combate o melhor guerreiro de Espanha: ter-vo-lo-ia, até, pedido quando o mistério em que vos envolvieis nos fazia suspeitar a todos que vós, o cavaleiro negro, éreis um ente privilegiado e não um mortal como nós. Agora, porém, depois que no transe horroroso das margens do Sália, nos revelastes quem sois, quando, resolvido a morrer, pedíeis apenas algumas lágrimas para a vossa memória àqueles que vos sobreviviam, pedir-vos-ei eu, também, que não quei­rais encontrar o primeiro ímpeto dos sarracenos. Se na defensão desta nossa triste morada, aonde cumpre atraí-los, for necessário o auxílio do vencedor dos vascônios, do mais ilustre dos tiufados de Vítiza, ou se a cólera de Deus ainda não está satisfeita, e devem hoje perecer os últimos homens livres da Espanha, vireis vós morrer co­nosco. Entretanto, continuai a ser o anjo da guarda da pobre filha de Favila. Ela parece mais tranqüila, e o monge Baquiário, em cuja ciência têm achado alívio tantos de nossos irmãos, recomendou o repouso como o melhor remédio para a febre que a devora. Retarda­rei quanto puder o instante de se acolherem aqui as mulheres, as crianças e os velhos inúteis para o combate. Fazei, entretanto, que nestes lugares reine profundo silêncio.

Silêncio guardava o cavaleiro: no seu olhar incerto e cintilante descobria-se que lá, naquela alma, tumultuavam paixões violentas e opostas. Não respondeu; nem Pelágio lhe dera para isso tempo. Crendo ler no seu gesto perturbado a mesma repugnância que tinham mostrado os outros guerreiros em não assistir ao primeiro recontro dos infiéis, o duque de Cantábria atravessou apressado a boca da gruta e desceu a senda tortuosa que conduzia ao fundo do vale. Daí a pouco, sentiu-se o galopar de um cavalo à rédea solta, que se confundiu, por fim, no sussurro longínquo do arraial que se agitava, preparando-se para o temeroso dia que pouco tardaria a nascer.

Eurico estava, enfim, só.

XVIII

Impossível!

Nada neste mundo me agita o seio, senão o teu amor.

Lenda de S. Pedro Confessor, 9.

Apenas Pelágio transpôs o escuro portal da gruta, Eurico alevantou-se. Aspirava com ânsia, como se aquele ambiente tépido não bastasse a saciá-lo. O desgraçado resumia num pensamento devorador, numa síntese atroz, o seu longe e doloroso passado e o seu torvo e irremediável futuro. Como voltara àquele lugar? Como, sem lhe vergarem os joelhos, tinha ele descido das alturas do Vínio com Hermengarda nos braços? Que tempo durara essa carreira deli­ciosa e ao mesmo tempo infernal? Não o sabia. Imagens confusas de tudo isso era apenas o que lhe restava, - do sol, que pouco a pouco lhe viera alumiar os passos, dos ribeiros que vadeara, das penedias agras, dos recostos dos montes, das selvas que recuavam para trás dele, dos cabeços negros que, às vezes, lhe parecera de­bruçarem-se no cimo dos despenhadeiros, como para o verem correr. No meio destas recordações incertas e materiais, outras passavam íntimas, ardentes, voluptuosas, negras, desesperadas. Por horas, que haviam sido para ele uma eternidade de ventura, o respirar daquela que amava como insensato se misturara com o seu alento; por horas sentira o ardor das faces dela aquecer as suas, e o coração bater-lhe contra o seu coração. Depois, avultavam-lhe no espírito a imagem veneranda de Sisberto e o altar da sé de Híspalis, junto do qual vestira a pura estringe de sacerdote, e Cartéia, e o presbitério e as noites de agonia volvidas nos ermos do Calpe. E tudo isto se contra­dizia, se repelia, se condenava, o amor pelo sacerdócio, o sacerdócio pelo amor, o futuro pelo passado; e aquela alma, dilacerada no combate destes pensamentos, quase cedia ao peso de tanta amar­gura.

Eurico deu alguns passos e encostou-se à boca da gruta; porque os membros exaustos lhe fraqueavam, apesar de que nem um mo­mento o abandonasse a força da sua alma enérgica. A brisa frigidís­sima da madrugada consolava-o, como ao febricitante a aragem de um sol posto do outono. A seus pés estavam as trevas do vale, sobre a sua cabeça as solidões profundas e serenas do céu semeado dos pontos rutilantes das estrelas e mal desbotado ao ocidente pela última claridade da lua minguante que desaparecia. Era a imagem da sua vida. Serena e esperançosa, como o crepúsculo do luar fugitivo, lhe fora a juventude. Desde que um amor desditoso o fizera alevantar uma barreira entre si e o ruído do mundo; desde que se votara às solenes tristezas da soledade e a derramar benefícios e consolações sobre a cabeça dos miseráveis e humildes; pela alta noite do seu viver muitas vezes fulgurara uma luz de alegria, como esses astros que brilham a espaços nos abismos do firmantento. Lá, ao menos, havia instantes em que se esquecia do seu destino. Mas, depois que o frenesi das batalhas o arrastara; depois que trocara as harmonias das tempestades do Calpe e o rugido das vagas do Estreito pelo ge­mer de moribundos nos combates e pelo retinir dos golpes, nunca mais descera um raio de cima a alumiar-lhe o espírito. O seu pre­sente e o seu porvir eram, como esse vale, um precipício sem fundo, indelineável, tenebroso e maldito.

E pelo céu tão plácido e melancólico; pelo céu, que ele às vezes se punha a contemplar às horas mortas no pobre presbitério de Car­téia ou assentado em algum promontório, a sua imaginação voou até os desvios do sul, e as lágrimas de saudades começaram a rolar­-lhe mansamente pelas faces. O desventurado tinha saudades das tristezas do ermo, porque já não podia ter desejos dos contentamentos humanos.

Engolfado naquelas cogitações dolorosas, o guerreiro conservou­-se por algum tempo imóvel e com os olhos cravados nos astros cin­tilantes, que pareciam sorrir-lhe e chamá-lo para o seio imenso do Senhor. As lágrimas correram-lhe então mais abundantes, e o co­ração parecia dilatar-se-lhe com o pensamento da morte. Insensivel­mente ajoelhou e estendeu as mãos para o firmantento: os seus lábios murmuravam com cicio quase imperceptível. Era a ação de alma, férvida, procelosa, que os agitava: era essa oração que todos nós sabe­mos no momento de suprema agonia e que nenhumas palavras, nenhuma escritura poderiam representar: oração que é um mistério entre Deus e o homem e que nem os anjos compreendem: gemido enérgico de todas as misérias terrenas, cuja intensidade só a Providência, que as acumula ou dissipa, sabe pesar nas balanças da justiça e da piedade divinas.

A morte; esta idéia, tremenda, indiferente ou formosa, segundo a vida é risonha, pálida ou negra, veio suavizar o martírio daquela alma atribulada, como em estio ardente as grossas águas da trovoada refrigeram a terra, que estua sob os raios aprumados do sol. Tinha­-a buscado; buscado com a placidez horrível da desesperança; como um remédio de cuja eficácia a consciência da imortalidade o fazia duvidar. Seria não mais do que ir deitar-se em leito de dores externas? Talvez: mas a mudança podia ser refrigério: tanto bastava. A morte parecia, contudo, fugir a ele para que nem este último desejo se lhe cumprisse. Houve um instante em que lhe ocorreu o pensamento de subir ao pináculo escarpado do Auseba e despenhar-se no vale. Refugiu desta idéia, porque era covarde. Eurico, o sacerdote soldado, não devia fenecer ímpia e vilmente; devia depor o peso intolerável da vida no campo das batalhas pelejadas em nome da cruz e da Espanha. E no recontro daquele dia, uma voz íntima lhe murmurava que o havia de obter.

Este anelar pela morte era uma bem triste cobiça! E quando se lembrava de que essa mulher que aí jazia a poucos passos dele; essa mulher, em cuja adoração concentrara todos os afetos dos mais formosos dias da vida; cuja imagem sonhada nas solidões do Calpe, desenhada de contínuo diante dos olhos da sua alma, gravada com um selo de saudade e de amargura em todas as suas cogitações; essa mulher que, pouco havia, por horas de delicioso delírio, apertara contra o peito, e que pudera, outrora, torná-lo o mais feliz dos ho­mens; quando se lembrava de que sobre isso tudo ele deixara cair a campa de bronze do sacerdócio, que ninguém podia erguer, o des­graçado sentia estalarem-lhe uma a uma todas as fibras do coração, e fugir-lhe do seio um grito semelhante ao que rebenta dos lábios do condenado ao suplício do potro, no primeiro movimento da mão pesada do algoz.

E, como se quisesse ainda mais saciar-se de dor, encaminhou-se para o lado onde Hermengarda repousava. Ao clarão da tocha que espargia uma luz mortiça, o guerreiro contemplou-a naquele inquieto dormir. Era bela; mais bela que nos tempos da primeira mocida­de! O seu gesto angélico, desbotado pela palidez, emagrecido pelos pesares e terrores, ganhara em expressão, em reflexo dos íntimos pensamentos o que perdera em viço e em toques de inocência. Bonina desabrochada nos campos da vida, brilhara com todas as pompas do seu vicejar à luz da manhã; o ardor intenso do meio-dia a fizera pender; a viração da tarde lhe traria, talvez, ainda frescor e viveza; mas a sua fragrância perdia-se nas auras que passavam; nas suas cores harmoniosas revia-se, apenas, o céu! Aquela alma fugia soli­tária pela terra num viver incompleto e volveria aos abismos da criação sem conhecer o mais profundo e enérgico dos afetos huma­nos, o amor, que une dois espíritos como dois fragmentos de um todo, os quais a Providência separou ao lançá-los na terra, e que devem buscar-se, unir-se, completar-se, até irem, depois da morte, formar, talvez, uma só existência de anjo no seio de Deus.

Mas quando Eurico se lembrou de que, porventura, isto era sonho; de que podia ser que essa alma não passasse na vida tão vazia e solitária como ele julgava, e que esse coração, que poucas horas antes pulsara tão perto do seu, batia, acaso, por outrem, sentiu o suor frio manar-lhe da fronte. A tocha baça e fúnebre que mal alumiava a irmã de Pelágio pareceu-lhe retinta em sangue; e, como cedro arrancado por tufão repentino, foi encostar-se à rocha lateral, cuja superfície irregular lhe escondia Hermengarda. O vê-Ia des­pertara todo o delírio do seu primeiro amor, e aquela idéia intolerável, que tantas vezes o atormentara nas solidões do Calpe, espremia-lhe agora o coração com redobrado furor.

E assim ficou por alguns momentos mudo, anelante, aniquilado. Quem era, onde estava, por que viera ali, não o saberia dizer. Os pensamentos revolviam-se-lhe na mente, como as ondas num sorve­douro marítimo, tempestuosos, rápidos e indistintos.

De repente, um ai comprimido veio acordá-lo daquela espécie de torpor doloroso. Estremeceu. Era a voz de Hermengarda. Aproxi­mou-se manso e manso, de modo que ela não o visse. Assentada sobre o leito, demudado o gesto, e com o susto pintado no olhar, a irmã de Pelágio estendia os braços voltando o rosto para o lado, como quem tentava afastar visão tão medonha. Pelas suas palavras incoerentes e truncadas, o guerreiro conheceu que um sonho mau a agitava, até que, inteiramente desperta, essas palavras confusas se começaram a coordenar em períodos inteligíveis. O pular do coração de Eurico redobrava de violência, ao passo que o seu respirar se ia tornando cada vez mais imperceptível.

- Sempre ele! sempre esta visão de remorso! - murmurou Hermengarda. - meu pai, meu pai! Perdoe-te o céu o orgulho com que repeliste o gardingo... Perdoe-te o céu o haveres-me obrigado a sacrificar aos pés desse orgulho o sentimento de amor que se ale­vantara neste coração. Nós ambos assassinamos o desgraçado; mas a punição caiu inteira sobre mim! Embora. Eu não te amaldiçoarei, ó meu pai! A tua filha nunca te acusará ante o supremo juiz.

Depois, ficou por alguns instantes calada, com os olhos fitos no rochedo fronteiro, em cuja face escabrosa as sombras pareciam dan­çar e agitar-se à luz da tocha que ardia a curta distância, e que a aragem movia. Crera perceber perto de si um gemido abafado, cor­tando fugitivo o grande silêncio noturno.

- Vai-te, vai-te! - prosseguiu ela. - Que posso eu fazer-te, infeliz?... Bem longo e atroz tem sido o meu martírio, porque ainda não achei no mundo alma com quem me fosse dado repartir o cálix do infortúnio; a quem houvesse de contar os tormentos que há tanto tempo me varreram dos lábios o sorrir. Se vivesses, seria tua; tua esposa, tua escrava!... mas a bênção nupcial não pode descer entre o túmulo e a vida. Favila!... meu pai!... diante do trono do Senhor, onde são iguais o duque e o gardingo, jura-lhe que tua filha repeliu o seu amor por obedecer-te: dize-lhe que o pranto correu destes olhos ao ouvir a nova da sua morte. Oh, dize-lhe, dize-lhe que não fui eu que o assassinei.

E aqui, deixando pender a cabeça sobre o peito, pareceu voltar ao sentimento da realidade mas aquela espécie de terror febril, que lhe haviam gerado no espírito os transes, qual mais doloroso, por que sucessivamente passara, tornou a apossar-se dela. Favore­ciam-no o lugar, a hora, o silêncio. Hermengarda alevantou de novo os olhos desvairados e, firmando-se no rochedo, tentava erguer-se.

- Era Eurico! - murmurou ela. - Depois de dez anos, bem conheci a sua voz! Mais triste, só: triste como tantas vezes a tenho ouvido nos meus sonhos de remorsos! Bem conheci o seu gesto! Mais pálido e carregado, só: pálido e carregado, como tantas vezes tem surgido do sepulcro para vir mudamente acusar-me silencioso e quedo ante mim, por longas e não dormidas noites. Era ele!... um espectro cujo coração eu sentia bater, cujos braços me aperta­ram por cima do abismo revolto, através da floresta, pelos recostos das serranias. Dos seus olhos caiu sobre o meu seio uma lágrima! As lágrimas dos mortos queimam... devoram a vida; porque bem sinto a morte chamar-me...

Tinha-se posto de joelhos, com as mãos estendidas, parecia implorar piedade.

- Morrer! tão cedo! Quando apenas torno a ver meu irmão?!.. Pelágio! Pelágio! por que me deixaste? Vem despedir-te da tua pobre Hermengarda. Eurico a espera para o noivado do sepulcro, e eu não posso tardar.

E desvairada, pôs-se em pé, chamando por Pelágio com voz su­focada. Apenas, porém, dera os primeiros passos, soltou um gemido agudo e ficou imóvel. Diante dela, realidade ou fantasma, estava a origem dos seus terrores secretos. Era o gardingo que a amara, que ela cria morto, e cuja imagem vingadora vinha mais uma vez ator­mentá-la. O vulto cravara nela um olhar ardente, que a fascinava. Sorriso doloroso lhe pousava nos lábios. Estendeu o braço, seguran­do a mão de Hermengarda, que pretendeu recuar e não pôde. Como petrificada, parecia que os pés se lhe haviam enraizado no chão da caverna. Aquela mão, que segurava a sua escaldando de febre, era gelada como a de um morto. A vida do gardingo tinha-se concen­trado toda no coração, que lhe despedaçavam duas idéias, horríveis porque associadas: o amor correspondido e tomado ao mesmo tempo maldito, monstruoso, impossível por uma palavra fatal, que lá estava escrita em caracteres de fogo, e que ele via, escutava, sentia - o sacerdócio!

- Oh, Deus to pague! - disse Eurico em voz baixa e lenta - que lançaste na tão longa noite da minha alma um raio fugitivo de luz, luz santa e pura de contentamento e felicidade!... Há dez anos que não me alumia, e ela é tão bela, ainda quando passa como o relâm­pago! - E, depois de estar calado alguns instantes, com o gesto do íntimo e angustiado cogitar, prosseguiu: - Não, Hermengarda, não! Os vermes ainda não receberam a parte da sua herança que eu lhes retenho. Morri; porém não para isso que, na linguagem mentirosa do mundo, se chama a vida. Durante anos dei-a a devorar à deses­peração, e a desesperação não pode consumi-la. Pendurei-a alta noite, pela espessura das trevas, nas rochas escarpadas do mar do ocidente, à beira dos precipícios, e o mar e os precipícios não quise­ram tragá-la. Atirei-a à torrente impetuosa das batalhas, e o ferro embotou-se nela. O céu guardava-me para te ouvir palavras de amor e arrependimento; essas palavras de inefável doçura que nunca es­perei escutar. É que na minha fronte está gravada a maldição de cima: é que ainda me faltava o derradeiro martírio... Ao menos posso acabar o teu: o pensá-lo é um refrigério. Hermengarda, eu vivo ainda! Vivi para te salvar da desonra, e todo o meu passado esque­ci-o. Só uma coisa não, porque me subverteu para sempre o futuro; porque, depois de passageira alegria, me recalcou mais violentamente esperanças que ousaram um momento agitar-se no fundo desta al­ma, tranqüila na desesperança. Agora, se há repouso debaixo da campa, posso ir buscar lá meu repouso. Mas dize-me; oh, dize-me ainda outra vez, que amas Eurico! Repete diante do que respira aquilo que proferiste diante da sombra criada pelo teu terror. Essas palavras, e o morrer!... O teu amor e a morte; eis para mim a única ventura possível, mas que não tem igual na terra.

E Hermengarda sentia ao contacto daquela mão fria e trêmula apertando a sua, no acento dessas frases, tempestuosas como o oceano, tristes como céu proceloso, que lá, no peito do vulto que tinha ante si, havia um coração de homem vivo, onde chaga antiga e cancerosa vertia ainda sangue. A espécie de pesadelo em que se debatia desaparecera com a realidade. O repentino impulso da sua alma foi lançar-se nos braços de Eurico. Fora ele o objeto do seu quase infantil e único amor, amor condenado ao silêncio antes do primeiro suspiro, antes do primeiro volver de olhos; era o cava­leiro negro, cujo nome se tornara conhecido e glorioso por todos os ângulos da Espanha; era ele, finalmente, o homem que duas vezes acabava de salvá-la. Reteve-a, todavia, o pudor e, talvez, aquela misteriosa tristeza que escurecia as idéias desordenadas vindas de tropel aos lábios do guerreiro. Procurando asserenar a violência dos afetos que a agitavam, Hermengarda respondeu com uma voz fraca e trêmula:

- Bendita a mão do Senhor, que te salvou, Eurico, leal e nobre entre os mais nobres e leais filhos dos godos! Graças à piedade do céu, que por meio de tantas desventuras e perigos nos uniu nos paços que restam ao filho do duque de Cantábria! No devanear do terror revelei-te, sem querer, o segredo do meu coração: a sua histó­ria, ouviste-a. Perdoa à memória de meu pai, e, se de mim depende a tua felicidade, as palavras que me saíram involuntariamente da boca te asseguram que serás feliz. O orgulho que a ambos nos fez desgraçados, não o herdou Pelágio. Que o herdasse, mal caberia nestas brenhas, na caverna dos fugitivos. E depois, que nome há hoje na Espanha mais ilustre que o do cavaleiro negro, o nome de Eurico? Morreres?!... Oh, não! Salvaste Hermengarda do opróbrio: se nunca te houvera amado, ela te diria como te diz hoje: Sou tua, Eurico!

A filha de Favila, cujo profundo e enérgico sentir mal poderia compreender quem só a houvera visto no momento em que tímida recuava diante do perigo mais aparente que real das margens do Sália, proferiu estas palavras com um tom de entusiasmo, com uma expressão afetuosa tão íntima, que o guerreiro caiu a seus pés. A ventura embargava-lhe a voz. O que lhe tumultuava no coração não tem nome na linguagem dos homens; era mais que a loucura. Com um movimento delirante, apertou contra os lábios a mão da donzela. Queimavam! Depois de largo silêncio, ele murmurou en­fim:

- Minha! ... Quem há na terra que possa roubar-ma?... Anos de tormentos, fostes como um dia de bonança e deleite! Imagem que absorveste esta existência inteira; anjo que me fazes surgir do meu inferno para o teu céu, tu foste que me salvaste a mim! Oh, como é bom ser feliz!... Tinha-me já esquecido!... Como o sol deve agora ser belo, serena a aragem da tarde, meigo o murmu­rar do ribeiro, viçosa a verdura do prado!... Tínha-me também esquecido! Tens razão, Hermengarda. Quero viver: o viver é de­licioso, delicioso porque será contigo... ao pé de ti... a adorar-te sempre, sem me lembrar do que existe, além de ti, no universo. Vem, minha amante, minha esposa! vem jurar que me pertences, perante o altar e aos pés do sacerdote...

A esta palavra fatal, um grito semelhante ao de homem ferido de morte, rompeu agudo e rápido do seio do cavaleiro. A mão de Eurico abandonou a mão de Hermengarda, e os seus olhos brilharam com fulgor infernal. Recuou, afastando de si a irmã de Pelágio, sobressaltada por aquele gesto subitamente demudado, por aquele olhar ardente e vago. Ela não podia compreender a causa de seme­lhante mudança... Com o braço esquerdo estendido, o guerreiro parecia querer arredá-la de si, enquanto com a mão confrangida apertava a fronte, como se buscasse esmagar um pensamento atroz que lhe surgia lá dentro.

- Afasta-te, mulher, que o teu amor me perdeu! - murmurou enfim. - Há entre nós um abismo: tu o abriste; eu precipitei-me nele. Um crime, só um crime, pode unir-nos... - Fez uma pausa, e prosseguiu: - E por que não se cometerá ele? Talvez obtivéssemos perdão!... Perdão? Oh meu Deus, não o terias para o sacrílego... não! Afasta-te, Hermengarda. Diante de ti tens um desgraçado, um desgraçado que fizeste!

A donzela uniu as mãos lavadas em lágrimas, e exclamou:

- Eurico! Eurico! enlouqueceste?... Por piedade, explica-me este horroroso mistério? Por que me repeles? que te fiz eu... eu que te amo, que sou tua, tua para sempre?!

Mas os olhos cintilantes do cavaleiro tinham amortecido: derribado na luta que travara com o destino, o seu combater de tantos anos terminava, finalmente. Um sorriso insensato substituiu-lhe no rosto as contrações habituais de melancolia. Afigurava-se-lhe que em roda dele balouçava a caverna, e a luz fumosa da tocha que ar­dia segura no braço de ferro cravado na pedra parecia-lhe faiscar em fitas cor de sangue. Esvaído, vacilante, assentou-se num frag­mento da rocha e, estendendo a mão para Hermengarda, pegou de novo na dela e, com um sorriso indizível, continuou em voz submissa:

- Dez anos! ... Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver? Sabes tu o que são mil e mil noites consumidas a espreitar em horizonte ilimitado a estrela polar da esperança e, quando, no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar na morte, ver essa estrela reluzir um instante e, depois, des­fechar do céu nas profundezas do nada? Sabes o que é caminhar sobre silvados pelo caminho da vida e achar ao cabo, em vez do marco miliário onde o peregrino de tréguas aos pés rasgados e san­guentos, a borda de um despenhadeiro, no qual é força precipitar-se? Sabes o que isto é? É minha triste história! Estrela momentânea que me iluminaste, caíste no abismo! Arbusto que me retiveste um instante, a minha mão desfalecida abandonou-te, e eu despenhei-me! Oh, quanto o meu fado foi negro!

Hermengarda contemplava-o com assombro e terror... Como o entenderia ela? Eurico prosseguiu...

- Olha tu! ao pôr do sol, no estio, ia eu assentar-me sobre um cerro marítimo, alongando a vista pelo oceano tranqüilo, e parecia­-me divisar-te desenhada na atmosfera, a sorrir-me. Então, as lá­grimas de felicidade começavam a brotar-me dos olhos: depois, lem­brava-me de quem eu era, e essas lágrimas condensavam-se a meio das faces e queimavam como se fossem metal candente. A horas mortas, correndo pelos desvios, quando o vento açoitava os arbustos enfezados da montanha, cada sombra que se meneava ao luar, sobre o chão pardacento, era a tua sombra que eu via. Outras noites, em que mais tranqüilo podia, a sós comigo, engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpor-se entre mim e a lâmpada mortiça que me alumiava, e o hino do presbítero de Car­téia, que devia, talvez, escrever-se nos hinários das catedrais da Es­panha, ficava incompleto ou terminava por uma blasfêmia; porque também te via sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu tinha então sede... sede de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas, na imensidade das águas, no silêncio do presbitério, nos raios esplêndidos do sol, no reflexo pálido da lua e, até, na hóstia do sacrifício... sempre tu!... e sempre para mim impossível!

- Mas deliras!... - interrompeu Hermengarda... - Que tens tu com o presbítero de Cartéia; com esse ilustre sacerdote, cujos hi­nos sacros reboavam ainda há pouco pelos templos da Espanha, e a quem, decerto, o ferro ímpio dos árabes não respeitou? A tua glória é outra e mais bela; a glória de seres o vencedor dos vencedores da cruz. A sua era santa e pacífica. Deus chamou-o para si, e tu vives para ser meu. Ninguém existe hoje no mundo que possa em­baraçá-lo. Esquece o passado; esquece-o por amor de mim!

O cavaleiro sorriu de novo dolorosamente e disse-lhe:

- Que tenho eu com o presbítero de Cartéia?!... Hermengarda, lembras-te do seu nome?

Os lábios da donzela fizeram-se brancos ao ouvir esta pergunta: um pensamento monstruoso e incrível lhe passara pelo espírito. Com voz afogada e quase imperceptível replicou:

- Era... era o teu, Eurico!... Mas que pode haver comum en­tre o guerreiro e o sacerdote? Que importa um nome... uma palavra?... que...

O cavaleiro pós-se em pé e, deixando descair os braços e pender o rosto sobre o peito, murmurou:

- Há comum, que o guerreiro e presbítero são um desgraçado só!... Importa, que esse desgraçado é neste momento um sacerdote sacrílego. O pastor de Cartéia...

- Oh, não acabes! - interrompeu Hermengarda, com indizível aflição.

- Era Eurico, o gardingo!

Proferindo estas palavras, que explicavam o mistério da sua exis­tência, o cavaleiro negro viu cair como fulminada a filha de Favila. E ele não se moveu. A sua imaginação tresvariada afigurou-lhe per­to de si o vulto suave e triste do venerável Sisberto, que estendia a mão mirrada entre ambos, como para os dividir em nome da religião, que os devia salvar, e do sepulcro, a quem pertenciam.

Neste momento uma grande multidão de crianças, de velhos, de mulheres penetraram na caverna com gritos e choros de terror. No coração das Astúrias, entre alcantis intratáveis, no fundo de um vasto deserto, repetia-se o grito que mil vezes tinha soado na devas­tada Espanha: "Os árabes!"

Amanhecera.

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