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Eurico, O Presbítero

Alexandre Herculano

Aquele sobressalto, tão impensado, revocou o cavaleiro ao senti­mento da sua situação. Ajoelhou junto de Hermengarda e, pegando­-lhe na mão já fria, beijou-lha. Nas raias da vida, aquele beijo, primeiro e último, era purificado pelo hálito da morte que se apro­ximava: era inocente e santo, como o de dois querubins ao dizer-lhes o Criador: - "Existi!"

Depois ergueu-se, vestiu a sua negra armadura, cingiu a espada, lançou mão do franquisque e, rompendo por entre o tropel, que fize­ra silêncio ao vê-lo, desapareceu através da porta da gruta, cujas rochas tingia cor de sangue a dourada vermelhidão da aurora.

XIX

Conclusão

Da morte às trevas,

Imortal, te diriges!

Merobaudes: Poema de Cristo.

A ventura das armas muçulmanas tinha chegado ao apogeu, e a sua declinação começava, finalmente. E na verdade, a ira celeste contra os godos parecia dever estar satisfeita. O solo da Es­panha era como uma ara imensa, onde as chamas das cidades in­cendiadas serviam de fogo sagrado para consumir aos milhares as vítimas humanas. O silêncio do desalento reinava por toda a parte, e os cristãos viam com aparente indiferença os seus vencedores poluírem as últimas coisas que, até sem esperança, ainda defende uma nação conquistada - as mulheres e os templos. Teodomiro pagava bem caro o procedimento que o desejo de salvar os seus súditos o movera a seguir. O pacto feito por ele com os árabes não tardou a ser por mil modos violado, e o ilustre guerreiro teve de se arrepender, mas já debalde, por haver deposto a espada aos pés dos infiéis, em vez de pelejar até a morte pela liberdade. Fora isto o que Pelágio preferira, e a vitória coroou o seu confiar no esforço dos verdadeiros godos e na piedade de Deus.

Os que têm lido a história daquela época sabem que a batalha de Cangas de Onis foi o primeiro elo dessa cadeia de combates que, prolongando-se através de quase oito séculos, fez recuar o Alcorão para as praias de África e restituir ao evangelho esta boa terra de Espanha, terra, mais que nenhuma, de mártires. Na batalha de junto do Auseba foram vingados os valentes que pereceram nas margens do Críssus; porque mais de vinte mil sarracenos viram pela última vez a luz do sol naquelas tristes solidões. Mas, nesse dia de punição, esta devia abranger assim os infiéis, como os que lhes haviam ven­dido a pátria e que ainda vinham disputar a seus irmãos a dura liberdade de que gozavam nas brenhas intratáveis das Astúrias.

O ardil de Pelágio para resistir com vantagem aos muçulmanos, cem vezes mais numerosos que os cristãos, surtira o desejado efeito. Ainda que muito a custo, os cavaleiros enviados em cilada para a floresta à esquerda das gargantas de Covadonga puderam chegar aí sem serem sentidos dos árabes, que se haviam aproximado mais cedo do que o fizera crer a narração do velho Vélido. Os infiéis pararam nas bordas do Deva, no sítio em que rompia do vale, e os seus almogaures tinham ousado penetrar avante. Os cavaleiros da cila­da, que a pouca distância passavam manso e manso, ouviram distin­tamente o tropel dos ginetes inimigos.

Mas, quando, ao primeiro alvor da manhã, Pelágio se encami­nhava com o seu pequeno esquadrão para a garganta das serras, já os árabes rompiam por ela e começavam a espraiar-se, como ribeira que, saindo de leito apertado, se dilata pela campina. Os cristãos recuaram, e os infiéis, atribuindo ao temor esta fuga simulada, pre­cipitaram-se após eles. Pouco a pouco, o duque de Cantábria atraiu­-os para a entrada da gruta de Covadonga. Chegado ali, pondo à boca a sua buzina, tirou um som prolongado. Imediatamente os cimos dos rochedos, que pareciam inacessíveis, cobriram-se de fundi­bulários e frecheiros, e uma nuvem de tiros choveu de toda a parte sobre os africanos e sobre os renegados godos. Vacilaram; mas o desejo da vingança levou-os a apinharem-se, esquadrões após esqua­drões, à entrada da caverna, onde, finalmente, encontravam deses­perada resistência. Então, como se despegassem do céu, grandes rochedos começaram a rolar sobre eles dos cimos do precipício que lhes ficava sobranceiro. Mãos invisíveis os impeliam. Cada rocha traçava no meio daquele vulto informe que oscilava, naquela vasta planície de alvos turbantes e de capacetes reluzentes, uma escura mancha, semelhante a chaga horrível. Eram dez ou vinte guerrei­ros, cujos membros esmagados, cujos ossos triturados, cujo sangue confundido espirravam por cima das frontes dos seus companheiros. Era medonho! - porque a esse espetáculo se ajuntava o grito de rai­va de desesperação dos pelejadores, grito feroz e agudo, só compa­rável a bramido de cem leoas a quem os caçadores do Atlas hou­vessem, na ausência delas, roubado os seus cachorrinhos.

Pela volta da tarde, apenas do numeroso e brilhante exército dos árabes alguns milhares de cavaleiros fugiam desalentados diante dos foragidos das Astúrias, que os perseguiam incansáveis além de Can­gas de Onis.

Fora no momento em que Pelágio penetrava, na sua fingida fu­ga, sob o vasto portal da gruta, que o cavaleiro negro saía. O jovem guerreiro viu-o e estremeceu. Eurico tinha as faces encovadas, o rosto pálido e transtornado, e havia em todo o seu gesto uma tão singular expressão de tranqüilidade que fazia terror. Enquanto os cristãos defendiam a entrada ele esteve quedo, como indiferente, ao combate; mas, logo que os árabes, acometidos já pelas costas, prin­cipiaram a recuar; e que Pelágio pôde combater na planície, o ca­valeiro, abrindo caminho com o franquisque, desapareceu no meio dos inimigos. Desde esse momento, debalde, o duque de Cantábria o buscou: nem ele, nem ninguém mais o viu.

Era quase ao pôr do sol. Seguindo a corrente do Deva, a pouco mais de duas milhas das encostas do Auseba, dilatava-se nessa época denso bosque de carvalhos, no meio do qual se abria vasta clareira, onde sobre dois rochedos aprumados assentava um terceiro. Era, provavelmente, uma ara céltica.

Em frente da tosca ponte de pedras brutas lançadas sobre o rio, uma senda estreita e tortuosa atravessava a selva e, passando pela clareira, continuava por meio dos outeiros vizinhos, dirigindo-se, nas suas mil voltas, para as bandas da Galécia. Quatro cavaleiros, a pé e em fio, caminhavam por aquele apertado carreiro. Pelos traios e armas, conhecia-se que eram três cristãos e um sarraceno. Chegados à clareira, este parou de repente e, voltando-se com aspecto carregado para um dos três, disse-lhe:

- Nazareno, ofereceste-nos a salvação, se te seguíssemos: fiamo­-nos em ti, porque não precisavas de trair-nos. Estávamos nas mãos dos soldados de Pelágio, e foi a um aceno teu que eles cessaram de perseguir-nos. Porém o silêncio tenaz que tens guardado gera em mim graves suspeitas. Quem és tu? Cumpre que sejas sincero, como nós. Sabes que tens diante de ti Muguite, o amir da cavalaria árabe, Juliano, o conde de Septum, e Opas, o bispo de Ríspalis.

- Sabia-o - respondeu o cavaleiro: - por isso vos trouxe aqui. Queres saber quem sou? Um soldado e um sacerdote de Cristo!

- Aqui!?... - atalhou o amir, levando a mão ao punho da espada e lançando os olhos em roda. - Para que fim?

- A ti, que não eras nosso irmão pelo berço; que tens combatido lealmente conosco, inimigos da tua fé; a ti, que nos oprimes, porque nos venceste com esforço e à luz do dia, foi para te ensinar um caminho que te conduza em salvo às tendas dos teus soldados. É por ali!... A estes, que venderam a terra da pátria, que cuspiram no altar do seu Deus, sem ousarem francamente renegá-lo, que ganha­ram nas trevas a vitória maldita da sua perfídia, é para lhes ensinar o caminho do inferno... Ide, miseráveis, segui-o!

E quase a um tempo dois pesados golpes de franquisque assina­laram profundamente os elmos de Opas e Juliano. No mesmo mo­mento mais três reluziram.

Um contra três! - Era um combate calado e temeroso. O cavaleiro da cruz parecia desprezar Muguite: os seus golpes retiniam só nas armaduras dos dois godos. Primeiro o velho Opas, depois Juliano caíram.

Então, recuando, o guerreiro cristão exclamou:

- Meu Deus! Meu Deus! - Possa o sangue do mártir remir o crime do presbitero!

E, largando o franquisque levou as mãos ao capacete de bronze e arrojou-o para longe de si.

Muguite, cego de cólera, vibrara a espada: o crânio do seu adversário rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno.

Como tomba o abeto solitário da encosta ao passar do furacão, as­sim o guerreiro misterioso do Críssus caía para não mais se erguer!...

Nessa noite, quando Pelágio voltou à caverna, Hermengarda, dei­tada sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendo-a tranqüila, o mancebo adormeceu, também, perto dela, sobre o duro pavimento da gruta. Ao romper da manhã, acordou ao som de cântico suavíssimo.

Era sua irmã que cantava um dos hinos sagra­dos que muitas vezes ele ouvira entoar na catedral de Tárraco. Dizia-se que seu autor fora um presbítero da diocese de Hispalis, chamado Eurico.

Quando Hermengarda acabou de cantar, ficou um momento pensando. Depois, repentinamente, soltou uma destas risadas que fazem eriçar os cabelos, tão tristes, soturnas e dolorosas são elas: tão completamente exprimem irremediável alienação de espírito.

A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.

Notas do Autor

1 - Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro; nem isso me aflige demasiado. Sem ambicionar para ele a qualificação de poema em prosa - que não o é por certo - também vejo, como todos hão de ver, que não é um romance histórico, ao menos conforme o criou o modelo e a desesperação de todos os romancistas, o imortal Scott. Pretendendo fixar a ação que imaginei numa época de transição - a da morte do império gótico, e do nascimento das sociedades modernas da Península - tive de lutar com a dificuldade de descrever sucessos e de retratar homens que, se, por um lado, pertenciam a eras que nas recordações da Espanha tenho por análogas aos tempos heróicos da Grécia, precediam imediatamente, por outro, a época a que, em rigor, pode­mos chamar histórica, ao menos em relação ao romance. Desde a primeira até a última página do meu pobre livro caminhei sempre por estrada duvidosa tra­çada em terreno movediço; se o fiz com passos firmes ou vacilantes, outros, que não eu, o dirão.

Conhecemos, talvez, a sociedade visigótica melhor que a de Oviedo e Leão, que a do nosso Portugal no primeiro período da sua existência como indivíduo político. Sabemos melhor quais foram as instituições dos godos, as suas leis, os seus usos, a sua civilização intelectual e material, do que sabemos o que era isso tudo em séculos mais próximos de nós. O esplendor dos paços, as fórmu­Ias dos tribunais, os ritos dos templos, a administração, a milícia, a proprie­dade, as relações civis são menos nebulosas e incertas para nós nas eras góti­cas, que durante o longo período da restauração cristã. E, contudo, o repro­duzir a vida dessa sociedade, que nos legou tantos monumentos, com as formas do verdadeiro romance histórico temo-lo por impossível, ao passo que o representar a existência dos homens do undécimo ou dos seguintes séculos será para o que os tiver estudado, não digo fácil, mas, sem dúvida, possível.

Qual é a origem disto?

É que nós conhecemos a vida pública dos visigodos e não a sua vida ín­tima, enquanto os séculos da Espanha restaurada revelam-nos a segunda com mais individuação e verdade que a primeira. Dos godos restam-nos códigos, história, literatura, monumentos escritos de todo gênero, mas os códigos e a literatura são reflexos, mais ou menos pálidos, das leis e erudição do império romano, e a história desconhece o povo. O goticismo espanhol, ao primeiro aspecto, parece mover-se. Palpamo-lo: é uma estátua de mármore, fria, imóvel, hirta. As portas das habitações dos cidadãos cerram-nas os sete selos do Apocalipse: são a campa da família. A família goda é para nós como se nunca existira.

Não cabe numa nota o fazer sentir esse não-sei-quê de majestade escul­tural que conserva sempre a raça visigótica, por mais que tentemos galvanizá-la, nem o contrapor-lhe as gerações nascidas durante a reação contra o islamismo, que surgem e agitam-se e vivem quando lhes aplicamos a corrente elétrica e misteriosa que, partindo da imaginação, vai despertar os tempos que foram, do seu calado sepulcro.

Desta diferença, que é mais fácil sentir que definir, nasce a necessidade de estabelecer uma distinção nas formas literárias aplicadas às diversas épocas da antiga Espanha, a romano-germânica, e a moderna.

O período visigótico deve ser para nós como os tempos homéricos da Península. Nos cantos do presbítero tentei achar o pensamento e a cor que convém a semelhante assunto, e em que cumpre predominem o estilo e for­mas da Bíblia e do Eda, as tradições cristãs, e as tradições góticas que, par­tindo do oriente e do norte vieram encontrar-se e completar-se, em relação à poesia da vida humana no extremo ocidente da Europa.

O romance histórico, como o concebeu Walter Scott, só é possível aquém do oitavo - talvez só aquém do décimo século; porque só aquém dessa data a vida da família, o homem sinceramente homem, e não ensaiado e trajado para aparecer na praça pública, se nos vai pouco a pouco revelando. As for­mas e o estilo que convém aos tempos visigóticos seriam, desde então, absurdos e, parece-me, até, que ridículos.

A Espanha romano-germânica transformou-se na Espanha rigorosamente moderna no terrível cadinho da conquista árabe. A obra literária (novela ou poema - verso ou prosa - que importa?) relativa a essa transição deve combinar as duas fórmulas - indicar as duas extremidades a que se prende; fazer sentir que o descendente de Teodorico ou de Leovigildo será o ascen­dente do Cid ou do Lidador; que o herói se vai transformar em cavaleiro; que o servo, entidade duvidosa entre homem e coisa, começa a converter-se em altivo e irrequieto burguês.

E a forma e o estilo devem aproximar-se mais ou menos de um ou e outro extremo, conforme a época em que lançamos a nossa concepção está mais vizinha ou mais remota da que vai deixando de existir ou da que vem surgindo. A dificultosa mistura dessas cores na paleta do artista nenhuma doutrina, nenhum preceito lha diz: ensinar-lha-á o instinto.

Tive eu esse instinto? - É mais provável o não que o sim. - Se a arte fora fácil para todos os que tentam possuí-Ia não nos faltariam artistas!

2 - Hesitei muito tempo sobre se conviria usar dos nomes próprios, quer de pessoas quer de lugares, como as sucessivas alterações da linguagem na Espa­nha os foram transformando, a ponto de muitos deles se acharem hoje total­mente diversos do que eram na sua origem. Destas mudanças, aquelas que apenas consistiam no aumento ou diminuição de uma letra, ou na diversidade das desinências, podiam, talvez, ser admitidas sem darem um aspecto anacrônico ao livro. Outros nomes, porém, havia, sobretudo nas designações coro­gráficas, tão completamente alterados, que me repugnava o substituir o mo­derno ao antigo. Assim, Toletum, Emérita seriam sem dificuldade representa­dos por Toledo e Mérida; mas, como substituir, sem anacronismo na expressão, Sevilha a Híspalis, Leão a Légio, Guadalete a Críssus, e, finalmente, Burgos a Augustóbriga, quando, como neste caso, até a situação da moderna cidade não é exatamente a da antiga povoação? Preferi, portanto, conservar os nomes primitivos, os quais, não influindo de modo algum na ordem e cla­reza da narrativa, podem facilmente encontrar-se em qualquer dicionário ou tratado de geografia antiga.

Aos nomes individuais dos primeiros visigodos procurei conservar, quando aludi a eles, os vestígios da origem gótica: aos dos personagens do meu livro conservei as formas alatinadas que se encontram nos monumentos contemporâneos, porque, segundo todas as probabilidades, já nesta época o elemento romano de todo havia triunfado na língua.

3 - Uma das coisas mais disputadas na história das instituições góticas é a natureza dessa classe de indivíduos, que tantas vezes figuram nos monumen­tos daquelas épocas, chamadas gardingos (gardigg em língua gótica). Masdeu e com ele Romey, que o traduz quase sempre acerca da história dos visigodos, posto que não o cite senão neste lugar, são de parecer que o gardingato não era um título de nobreza, mas do cargo de substituto do duque, (governador de província) como o vicarius o era do conde (governador de cidade). Asch­bach deriva a palavra de gards, que significa solar com terras adjacentes, e parece querer confirmar assim a opinião de Vóssio, que pretendia fossem os administradores ou almoxarifes dos palácios reais, opinião que seria mui difícil de sustentar à vista de vários monumentos hispano-góticos. Segui o parecer de Grimm e Lembke, que supõem formarem os gardiggs uma classe de curiales (cortesãos) ou nobres. Neste caso, não serviria a etimologia gards para indicar no gardingato uma nobreza estribada sobre certa extensão e importância de propriedade territorial, formando a terceira classe de nobreza depois dos duces e comites? Rosseeuw-Saint-Hilaire pensa-o assim e faz o gardingo sinônimo de Prócer. Prócer, todavia não indicava em especial o gardingo, mas era deno­minação genérica da nobreza.

Quanto ao cargo de tiuphado ou tiufado, deve saber-se que o exército godo se dividia em corpos de mil homens, e estes em companhias e esquadras de cem e de dez. Abaixo do tiufado (thiud ou theod, povo, e fath, conduzir, ou, segundo outra derivação, taihunda, mil, e fath) que, também, se chamava milenário (da etimologia latina mille) estava o qüingentário, segundo uns, capitão de quinhentos homens, espécie de major dos regimentos modernos, ou, segundo outros, substituto do tiufado ou semelhante aos nossos tenentes-coro­néis. A companhia de cem homens (centúria) era regida por um centenário, e a de dez (decania) por um decano.

4 - O vestido civil dos visigodos era uma espécie de túnica chamada Stringe ou Strigio, já d'antes conhecida pelos romanos. O clero usava deste trajo, como os seculares, com a diferença de ser branco ou de outra cor modesta, porque o havia, até, cor de púrpura, o uso da qual era severamente proibido aos sacerdotes. Veja-se Masdeu, Hist. Crít. de Esp., t. II, p. 63 e 197, e Ducange e Carpentier às palavras Stringes, Strigio.

5 - A igreja goda empregava oito ministros na celebração do culto: 1º o Ostiário, que abria e fechava o templo, cuidava da conservação dos objetos do culto e vigiava que não assistissem ao sacrifício hereges ou excomungados; 2º o Acólito, que iluminava os altares e tinha na mão um candelabro en­quanto se lia o evangelho; 3º o Exorcista, a quem incumbia o expulsar o de­mônio dos possessos; 4º o Salmista, que levantava no coro as antífonas, sal­mos e hinos; 5º o Leitor, que lia em alta voz as profecias do Antigo Testamento e as Epístolas e as explicava ao povo; 6º o Subdiácono, que recebia as oblações dos fiéis e dispunha as vestiduras e vasos sagrados para a missa; 7º o Diácono, que ajudava a esta e dava a comunhão; 8º o Presbítero, que sacrificava, pregava e dava a bênção ao povo.

6 - Poetas célebres hispano-godos do século V. - De Dracôncio resta-nos o Carmen de Deo e uma epístola dirigida a Guntrico, rei dos vândalos. De Merobaude subsiste um fragmento do Poema de Cristo. De Orêncio, tão elogiado pelo poeta Fortunato e por Sidônio Apolinário, apenas resta uma pequena poesia na Bibliotheca Veterum Patrum.

7 - A raça dos godos, asiática na origem e germânica na língua, que, antes de ocupar uma parte do território romano, habitava ao norte do Ponto Euxino (Mar Negro), dividia-se em duas grandes famílias, cujas denominações provieram da sua situação relativa. Os que estanceavam ao oriente chamavam­-se ost-goths (godos de leste) e depois, corruptamente, ostrogodos; os que de­moravam ao ocidente eram os west-goths (godos do oeste) ou visigodos, que depois de ora servirem o império como aliados, ora assolarem-no como inimigos, vieram fazer assento no sul das Gálias e na Península, estabelecendo, afinal, em Toledo o centro do seu império.

8 - A célebre batalha dada por Teodoro, rei dos visigodos, e pelo general romano Aécio, seu aliado, ao feroz Átila nos Campi Catalaunici (planícies de Châlons-sur-Marne) é o mais célebre entre os terríveis combates que custou à Europa no V século a dissolução do grande cadáver romano. Podem ver-se em Jornadas e no Panegírico de Avito por Sidônio Apolinário as particula­ridades deste sucesso.

9 - Aljeziras. Este nome foi posto pelos árabes ao lugar onde Tárique aportara saindo de Ceuta para a conquista de Espanha. O ilhéu, hoje chama­do das Pombas, fica a um tiro de espingarda daquela povoação, à qual pas­sou o nome que os árabes tinham dado à ilhota, vendo-a verdejar ao longe: - Jazira Alcadra (ilha verde). Ignorando-lhe o nome antigo, supus que essa denominação de origem arábica era anterior e que já os godos lha atribuíam. O anacronismo é, a meu ver, assaz desculpável.

10 - O amículo, que entre os romanos era próprio das mulheres de baixa esfera, tornou-se em Espanha trajo comum das mais honestas e nobres: era uma espécie de manto, com que cobriam as vestiduras inferiores. Os cabelos, encerravam-nos numa como coifa, denominada retíolo. Veja-se Masdeu, Hist. Crít., t. II, p. 6.

11 - Os visigodos tinham dado em especial o nome de Campi gothici às planícies de Leão e da Estremadura Espanhola. Daí, contraída a menor território, veio a denominação da terra de Campos.

12 - Váli: Prefeito, caudilho principal, governador de província, general de exército. Conde, Declar. de Alg. Nom. Árabes. Juliano era, segundo parece, o governador da província gótica de além do Estreito, chamada Transfretana: cabia-lhe por isso entre os árabes o título de Váli. Sebta é a corrupção ará­bica do nome de Septum, corrupção de onde os nossos antigos formaram Cepta e, depois Ceuta.

13 - O frankisk ou frankiska era uma espécie de machadinha de dois gumes, usada pelos francos, de quem os godos a tomaram. Consulte-se Masdeu, Hist. Crít., t. II, p. 52 - e Ducange, vb. Francisca. A cateia, de que adiante se há de falar, era uma lança curta ou dardo, a origem, talvez da ascuma dos tempos posteriores.

14 - Sevilha no tempo dos romanos tinha dois nomes - Romula e Hispalis. Este último veio a prevalecer, enfim. Veja-se Flores, Esp. Sagr., t. 9, p. 87.

15 - Mafoma era natural de Medina. Esta cidade chamava-se latribe. Foi ele quem lhe pôs o nome de Medina Anabi - Cidade do Profeta. (N. A.)

16 - Os árabes, tendo desembarcado nas costas de Espanha, e vendo que a montanha do Calpe era um lugar grandemente defensável, fortificaram-se aí, porventura enquanto esperavam o resto do exército que passava de África. A montanha recebeu então o nome de Gebal Tarik (Monte de Tárique) e, também o de Gebal-al-Fetah (Monte da Entrada). Da palavra Gebal Tárique se formou depois a de Gibraltar.

17 - Islam em árabe, o islamismo ou religião do Alcorão. Significa, propria­mente, esta palavra resignação; resignação em Deus.

18 - Esculcas eram, nos templos bárbaros, chamadas as rondas ou sentinelas noturnas dos arraiais. Esta palavra encontra-se nos escritores do VI século e dos seguintes, como em S. Gregório Magno: sculcas, quos mittitis solicite requirant: Epist. 12.23. A forma pura do vocábulo, Exculcatores, aparece já em Vegécio: depois por abreviatura exculcae e sculcae. Sculcas são contra­postos aos atalaias nas leis das Partidas, P. 2, tit. 26, onde estes significam guardas de dia.

19 - Os árabes designavam os cristãos, ou antes, em geral, qualquer europeu pelo nome de arrume, o romano, quer fosse grego, franco ou espanhol. Aque­les mesmos que abraçavam o islamismo conservavam este apelido. Tal era o amir ou general da cavalaria, Muguite, um dos mais famosos companheiros de Tárique. Quando, em especial, os pretendiam designar, não pela diferença da raça, mas pela de crença, denominavam-nos Nassrani (nazarenos).

20 - Deus só é grande! era para os árabes a voz de acometer, como, depois, foi para os cristãos o grito de Santiago!

21 - A ephippia era uma espécie de sela de lã que os godos haviam imitado da cavalaria romana.

22 – “As armas deles (dos berberes e árabes africanos) quase se limitam a paus compridos a que se prendem pequenos toros atados pelo meio, que no combate descarregam sobre os inimigos com ambas as mãos." Alcatibe, Pleni-Lunii Splendor, em Casiri, t. 2, p. 258.

23 – Como a palavra latina senior (o mais velho) veio a significar no latim bárbaro e no romance ou línguas vulgares das nações modernas, o principal, o senhor, assim a palavra árabe (Cheik, Chek), Xeque, isto é, o ancião, tomou entre os sarracenos a significação de senhor ou chefe de uma tribo.

24 - No império godo os bucelários vinham a ser o mesmo que os clientes dos romanos, homens livres aditos às famílias poderosas, por quem eram patrocinados e, talvez, sustentados, se, como pretende Masdeu e o seu, nesta parte, quase tradutor Romey, o nome buccellarius lhes; provinha de buccella (migalha de pão). O Código Visigótico (Liv. 5, tit. 3º) estabelece os deveres e relações destes homens com seus amos e patronos. A obrigação mais im­portante do bucelário parece ter consistido no serviço militar: Si ei... arma dederit. É por isso que se me afigura mais provável a etimologia que a se­melhante denominação atribui com preferência o erudito Canciani (Barbar. Leg. Ant., vol. 4, p. 117) derivando-a da palavra escandinava bukIar (o es­cudo), transformada no idioma germânico em bukel e nas línguas modernas em bukIer, bouclier, broquel. Neste caso bucelário corresponderia ao armígero ou escudeiro dos séculos XII e XIII, que, significando na sua origem o que trazia as armas ou o escudo do seu senhor ou amo, veio a tomar-se por um homem de armas de certa distinção, a quem, todavia, faltava o grau de cavaleiro.

25 - O fato narrado neste capítulo é histórico. O lugar da cena e a época é que são inventados. Foram as monjas de Nossa Senhora do Vale, junto de Ecija, que, em tempos posteriores, praticaram este feito heróico, para se esquivarem à sensualidade brutal dos árabes. Parece que o procedimento das freiras de Ecija foi imitado em muitas outras partes. Consulte-se Berganza, Antiguidades de España, t. I, p. 139, e Morales, Cron. Gener., t. III, p. 105.

26 - Segundo Lembke, cuja opinião assenta no testemunho de lbn Saide e de Ahmede Almacari, os árabes conheciam a Espanha, antes da conquista, pelo nome de Andalôs ou Andalúz, nome que, depois, aplicaram em especial ao território entre o Wadi-AI-Kebir e o Wadi-Ana (Guadalquivir e Guadia­na), isto é, à moderna Andaluzia. O nome de AI-Gharb (o ocidente) que, igualmente, deram à Península para a distinguir da Mauritânia (AI-Moghreb) veio, também, a contrair-se à nossa província do Algarve.

27 - Alfaqui. É o título que os africanos dão aos seus sacerdotes e sábios da lei. Moura, Vestíg. da Líng. Árab., p. 38.

28 - As grandes divisões da Espanha, segundo a geografia árabe, eram quatro - Algarbe o ocidente; Axarque o oriente; Alquibla o meio-dia; Aliufe o norte. Era esta, por isso, a designação dos territórios cristãos das Astúrías e Cantá­bria.

29 - O aripennis, arapenis, agripennis ou arpentum, donde veio a palavra fran­cesa arpent, era uma medida de extensão igual à metade do jugerum, donde tomamos a palavra geira. O aripene media-se em quadro e tinha de cada lado 12 pérticas, medida que equivalia a dois palmos. Masdeu afirma que o aripene era medida especial da Bética, o que é inexato; porque ela se acha mencionada em muitos documentos, não só de outras províncias de Espanha, mas também de diversos países, como se pode ver em Ducange, à palavra Arapennis.

30 - Nas mil tradições diversas, quer antigas, quer inventadas em tempos mais modernos, sobre o modo como se constituiu a monarquia das Astúrias procurei cingir-me, ao menos no desenho geral, ao que passa por mais proxi­mamente histórico. Todavia, cumpre advertir que Pelágio viveu, segundo to­das as probabilidades em tempos um pouco posteriores à conquista árabe, e que a morte de Opas e de Juliano na batalha de Cangas de Onis, sucesso narrado por alguns escritores, tem sobrado caracteres de fabulosa. A minha intenção, porém, foi, como já notei, pintar os homens da época de transição, digamos assim, dos tempos heróicos da história moderna para o período da cavalaria, brilhante ainda, mas já de dimensões ordinárias. O meu herói do Críssus é como o último semideus que combate na terra; os foragidos de Covadonga são os primeiros cavaleiros da longa, patriótica e tenaz cruzada da Península contra os sarracenos. Deste modo, sendo hoje dificultoso sepa­rar, em relação àquelas eras, o histórico do fabuloso, aproveitei de um e de outro o que me pareceu mais apropriado ao meu fim.

FIM

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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