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O Bobo

Alexandre Herculano

As suspeitas dos moços cavaleiros tinham nascido pouco depois da vinda de D. Afonso e de Egas para a corte de Guimarães. Mas semelhantes suspeitas breve se desvaneceram. Inesperadamente Egas Moniz partiu para as guerras de ultramar, ou, como hoje se diz, para a cruzada. Ninguém atinou com o motivo desta súbita resolução. Todavia, se os amores com Dulce existiam realmente, era essa paixão quem o afastava dela. Nascido com espírito ardente, trovador e guerreiro, Egas precisava de obter glórias, porque as almas poéticas daquele tempo não compreendiam o amor sem renome, nem talvez sem este o encontrariam no seio de nobre donzela, digna de sua afeição. A Terra Santa era naquela época o campo mais fértil para os ceifadores de glória: as reputações adquiridas na Palestina retumbavam por todo o orbe cristão. Era o amor quem arrastava Egas para essa vida de riscos, privações e combates? Quem poderia dizê-lo? Ninguém sequer o pensou.

O que é certo é que depois da sua partida, Dulce pareceu mais triste que de costume. Porém, se eram saudades, ou se essa alma enérgica soube esconder o seu martírio e devorar no silêncio e solidão da alta noite as suas lágrimas, ou as saudades se extinguiram no meio da vida risonha e distraída da corte. O moço trovador tinha esquecido a todos: pode ser que também ela.

Entretanto uma nuvem de cavaleiros a cercaram de adorações. Debalde! Só um esperava acender alguma faísca de amor neste coração gelado. Era Garcia Bermudes, cavaleiro aragonês, valido do Conde de Trava, e uma das melhores lanças de Espanha, que com ele viera a Portugal. Dotado de generoso ânimo, mas sobradamente altivo e confiado no próprio mérito, Garcia Bermudes amava a donzela querida de D. Teresa, e esperava ser correspondido; porém no coração de Dulce achara um afeto que lá não quisera encontrar: amor sim, mas amor de irmã. Era ele quem no meio das festas obtinha todas as preferências da filha adotiva da Infanta: a sua conversação a que mais lhe aprazia. Contudo, quando no meio do ruído e da alegria dos saraus, ou cavalgando no ginete possante e correndo ao lado do palafrém de Dulce pelas florestas e sarçais, nas montarias e caçadas, ele buscava ensejo para proferir essas palavras veementes que escutadas sem cólera coroam esperanças de muitos dias, e repelidas entenebrecem o futuro e devoram uma existência. Dulce esquivava sempre com um gracejo esse instante decisivo, e o aragonês, apartando-se dela, amaldiçoava a hora em que amara, para daí a pouco imaginar novo ensejo em que pudesse resolver por uma vez o seu incerto destino.

Dulce era a donzela assentada na extrema almadraquexa do estrado; Garcia Bermudez o cavaleiro com quem ela falava e ria; e o que entre os dous se passava, uma repetição dessas cenas em que tantas vezes a destreza da mulher que não ama sabe triunfar cruelmente da mais terrível entre as mais terríveis paixões, o amor do homem, recalcado no coração pela indiferença daquela a quem no abismo do seu orgulho disse: “tu serás minha!”

Dos três personagens que, em pé no outro extremo do vasto aposento, pareciam alheios a tudo quanto se passava em volta deles, embebidos em disputa violenta, um era o célebre Gonçalo Mendes da Maia, ao qual em verdes anos, estremadas gentilezas d’armas tinham feito dar o apelido de Lidador, de que por toda a sua larga vida ele se havia de mostrar constantemente digno. Era o outro o capelão de D. Teresa, o muito honrado Martim Eicha, filho do mui excelente váli de Lamego, Eicha, que submetido pelo Conde D. Henrique abraçara o Cristianismo2. Martim Eicha seguira o exemplo paterno, e como em todas as opiniões deste mundo os renegados são os mais fervorosos na sua nova crença, achara ele em consciência que para se mundificar das torpezas do Islamismo devia abraçar a pura vida do sacerdócio. Cônego da Sé de Lamego, restaurada por D. Fernando Magno, e que nesta época se achava unida à de Coimbra, o bom do tornadiço não pudera na santidade do seu ministério riscar do espírito a lembrança profaníssima de que nascera filho de um váli. Voavam-lhe os pensamentos altivos para os paços reais, como à gata da fábula fugiam as unhas para o murganho depois de transformada em mulher. Finalmente os seus desejos cumpriram-se. A bela Infanta de Portugal chamou-o à corte, apenas dela saiu desgostoso o Arcebispo de Braga, cujo caráter austero mal sofria os amores de Fernando Peres e de D. Teresa. Martim Eicha era o homem talhado para o caso. O seu evangelho fora, por assim dizer, escrito num palimpsesto do Corão, e as doutrinas do Profeta, relativas à metade mais formosa do gênero humano, reverdeciam-lhe às vezes através da severidade das sacras páginas e confundiam-se a seus olhos com elas. Por esta causa, vinha o Cônego Martim Eicha a ser o capelão mais a ponto naquelas intrincadas circunstâncias em que os princípios de teologia moral andavam em tanta harmonia com os costumes, como neste bendito século décimo nono as sãs doutrinas políticas andam conformes com a realidade dos fatos.

Era, finalmente, a terceira pessoa daquela trindade argumentadora e disputante, o Abade do Mosteiro de D. Mumadona, velho folgazão mas honesto, que na mesa dos banquetes despejava uma taça de vinho e ainda um canjirão de cerveja, ou varria uma palangana de dobrada, iguaria mimosa desse tempo, com o mesmo fervor e devoto recolhimento com que na solidão da sua cela rezava as horas canônicas, ou garganteava no coro salmos e antífonas com os seus frades. Apesar dos benefícios que o ascetério de Guimarães recebera da Infanta; apesar do gasalhado que encontrava no paço, o bom do velho torcia sem rebuço o nariz à tão íntima privança do Conde Fernando Peres com a Rainha. Não porque desse ouvidos aos maldizentes, que ainda nas mais puras ações vertem a peçonha de seus estômagos danados, mas porque não podia negar crédito ao que seus olhos viam e a experiência e razão lhe ensinavam. Enxergava ao longe o crescer da tempestade que ameaçava assolar a terra de Portugal: vira nascer, engrossar e rebentar como um vulcão o ódio entranhável, acumulado por anos, entre o Senhor de Trava e o moço Afonso Henriques: vira dividir-se a fidalguia em dous bandos; e quando o Infante, dous meses antes da época da nossa história, desaparecera dos paços de Guimarães, seguido de vários ricos-homens e cavaleiros da sua parcialidade, o bom do Abade conhecera que uma terribilíssima luta se ia travar entre a mãe e o filho, luta desnatural e monstruosa, cujo desfecho, fosse qual fosse, não podia deixar de gerar muitos crimes. A precipitação com que se fortificara o burgo, e as notícias vagas de que o Infante se aproximava de Guimarães com uma hoste numerosa, e acompanhado do Arcebispo de Braga e dos seus homens d’armas, lhe punham ante os olhos, como iminentes e inevitáveis, as cenas tremendas que de longo tempo previra. O estado dos negócios públicos era o objeto da acesa prática dos três; ou por nos servirmos de uma francesia da moda – eles faziam política.

Era também o perigo que os ameaçava a ambos; era a nuvem procelosa que viam já no horizonte da sua vida, até aí tão povoada de deleites, tão rica de esplendor e de predomínio, o pensamento que turbava a fronte do nobre Fernando Peres, e fazia gotejar pelas faces da bela Infanta as lágrimas, que em vão ela tentava conter. Com olhos enxutos e ânimo de ferro, a filha de Afonso VI tinha vivido, durante dezesseis anos, quase sempre nos campos de batalha, nos arraiais junto aos castelos cercados, ou encerrada nestes defendendo-os. Com olhos enxutos e ânimo de ferro, tinha visto várias vezes as rotas dos seus homens d’armas, e tinha fugido com eles; assistira a muitas cenas de carnificina; ouvira muitas vezes pela alta noite, na tenda de guerra, gemidos de moribundos, e o uivo do lobo descendo das brenhas guiado pelo cheiro do sangue; havia apenas um ano que se vira constrangida a curvar a cerviz à fortuna de seu sobrinho, o Imperador Afonso Raimundes; mas nunca sentira coar-lhe pelas veias o terror ou o desalento: a sua alma era a de guerreiro, escondida debaixo das formas delicadas e suaves de mulher. Criam-no todos: cria-o ela. Mas o prestígio passou. A dura prova a que pusera uma paixão desgraçada revelava enfim a fraqueza feminil. Até então no jogo dos combates apenas arriscara o vasto senhorio de Portugal; mas no que se lhe oferecia agora expunha o amante, expunha todo o futuro, toda a esperança e todos os contentamentos. Por isso as lágrimas da bela Infanta corriam. Quem sabe se também entre estas alguma era por seu filho?

O sarau daquela noite fora para ela um longo martírio. O espetáculo do rir e folgar, o transluzir da alegria em tantos gestos, faziam-lhe mais carregada a negra nuvem da sua tristeza: era um trato doloroso, cruel, dilatado; era como o prelúdio medonho de um cântico infernal; mas cumpria sofrê-lo resignadamente. Dos cavaleiros portugueses, que seguiam ainda a corte, muitos ânimos titubeavam indecisos entre o balsão do Infante e o pendão da Rainha de Portugal; e a hesitação ou o tempo seria o sinal para essa fidalguia brilhante passar ao campo contrário. Fernando Peres contava com os cavaleiros galegos, asturianos e aragoneses, de que pouco a pouco se rodeara: mas seria isto bastante para o salvar e salvar a Infanta? Eis o que era mais que duvidoso. Com a astúcia de fingido desafogo e destemor ele tentava enganar os que vacilavam, e fazer-lhes crer, dançando na borda do abismo, que fácil lhe seria galgá-lo.

Mas o Senhor de Trava não se lembrava nos seus cálculos políticos de uma circunstância que devia influir no resultado final deles. O grande pensamento do Conde Henrique; o pensamento que o audaz borgonhês acariciara por tantos anos, e a que votara a existência – a independência do Condado de Portugal – não morrera com ele: germinou, alimentou-se e cresceu nas guerras com os leoneses, guerras até certo ponto civis, em que D. Teresa prosseguira com tenacidade implacável. As mais províncias da Espanha gradualmente foram parecendo aos olhos dos cavaleiros portugueses uma terra estrangeira, estranhos os filhos delas. Um sentimento de nacionalidade surgiu nos corações, vago e confuso, mas enérgico. E no meio dos seus graves cuidados e das suas previsões profundas, o Conde de Trava não se esquecera de que vira pela primeira vez o Sol sob o céu da Galiza.

Se D. Teresa triunfasse, ele – o estrangeiro – seria o senhor da nobre e livre terra de Portugal. D. Afonso Henriques, porém, nascera aquém do Minho. Assim, muitos daqueles que o ambicioso filho de Pedro Froilaz supunha indecisos na véspera da grande luta, eram já seus inimigos.

É o que o leitor melhor avaliará por si próprio se quiser escutar a conversação travada entre Gonçalo Mendes da Maia, o santo Abade do Mosteiro de D. Mumadona e o mui reverendo Capelão da Rainha. Não será grande o incômodo: basta-lhe lançar os olhos para o capítulo seguinte.

IV

Receios e esperanças

Dom Bibas não era bobo; era o Diabo.

Logo veremos por quê.

Convidamos o leitor para escutar a conversação travada entre Gonçalo Mendes, o Abade beneditino e o mui reverendo Cônego de Lamego, Martim Eicha. Pode ouvi-los agora. Embebidos no seu grave disputar, todos três se esqueceram completamente do lugar onde estavam e do sarau, que, depois do doudejar vívido e alegre ao redor dele, esmorecia já e esfriava em paroxismo final. A noite correra sem que de tal dessem tino. Sobre o tumultuar dos passos, sobre o ruído do falar confuso, sobre as toadas dos instrumentos, que afrouxam, ouve-se primeiro o vozear retumbante do Lidador; depois as palavras flautadas, escandidas, melifluamente hipócritas do Capelão da Infanta; e por último as falas brandas, tardas e suaves do beneditino. Esta gradação corresponde ao progresso do silêncio que principia a predominar na sala: é a medida do tédio que leva de vencida o deleite naquele ajuntamento lustroso.

... “Eis aí – dizia o Lidador voltando-se para Martim Eicha – o que eu havia previsto: eis aí o resultado final do desenfreado orgulho do Senhor de Trava e dessa desgraçada afeição da Rainha. Depois do folgar pacífico em jogos de tavolado e saraus oferecem-nos uma festa de sangue.”

“Mas quem sabe se essas novas são verdadeiras?” – interrompeu o Abade, que parecia olhar duvidoso para o honrado Cônego de Lamego.

“Sei-o eu! – replicou este com um gesto de sobrecenho e de autoridade. – Ouvi-as do escudeiro que as trouxe e – acrescentou com sorriso de mistério – disse-mo quem tão bem como ele o sabia, e acerca disso me perguntava: - “Pois que faremos, D. Elcha?” – É lástima: é na verdade lástima! Não me sofre o ânimo ver assim um moço ambicioso e louco desacatar com armas rebeldes sua mãe, sua senhora. Largo campo de cobiça de honra e domínios, se pretende ganhar nome e poder, se lhe abre em terras de infiéis. Se tem sede de sangue, derrame o sangue dos malditos ismaelitas, moabitas e agarenos. Os campos do sul aí estão patentes à ambição dos ousados. Que vão devastar as searas dos mouros, derribar as suas povoações e castelos, incendiar-lhes as mesquitas, onde diariamente se repetem as blasfêmias, torpezas e imundícies do abominável Alcorão. Deus há de puni-lo: o castigo é infalível, mas para isso a espada cristã encontrar-se-á no ar com a espada cristã, e a lança romperá a cervilheira assinalada com a cruz de Jesus Cristo.”

“Mas – acudiu o Abade – se o Infante traz esse número de cavaleiros e besteiros; se o mui poderoso Arcebispo de Braga o favorece tão claramente; se os burgueses da Sé do Porto e os de Coimbra começam a agitar-se, como deixará a Rainha de vir a concórdia com seu filho?”

“É impossível – interrompeu Martim Eicha. – Ele pretende que o ilustre Conde Trava lhe entregue as honras e préstimos que tem da munificência real, e que saia destes paços. Não contente com isso, pretende também que sua mãe lhe ceda o supremo poder: invoca o exemplo de Afonso Raimundes e o direito de suceder a seu pai, sem se lembrar que jamais Henrique de Borgonha cingiria a coroa de Conde, se não houvera sido esposo de uma filha de Afonso o Grande. Que herdou de feito o Infante de seu pai? Um nome glorioso; mais nada. Portugal não é herança dos Duques de Borgonha, mas dos filhos dos Reis de Espanha, e D. Teresa é filha do último deles.”

O Lidador sentiu subir-lhe às faces o rubor da cólera ao ouvir estas palavras. “É falso – exclamou ele – que a alguém devesse o Conde de Portugal os senhorios que deixou a Afonso Henriques – a Afonso Henriques, di-lo-ei sem receio! - Se o rei leonês lhe disse: - “vai e hasteia o teu pendão de Conde nas fronteiras do ocidente” – era que aos seus ouvidos tinham chegado os gemidos dos cavaleiros do Conde Raimundes de Galiza, passados à espada pelos sarracenos junto de Lisboa. Nunca depois disso, acaudelados por ele, voltaram costas aos infiéis os guerreiros da Cruz. Portugal era até aí um país devastado; era quase um deserto, por onde corriam à rédea solta os almogaures mouriscos: hoje os campos estão cultivados, os castelos seguros, os burgos e cidades renascem das suas ruínas. Respeitai as cinzas do nobre Conde: respeitai-as ao menos diante de mim, que dele recebi as armas de cavaleiro, e que ainda combati entre os seus homens d’armas. Não sei se vos lembrais disso?!”

O Lidador talvez aludia à conquista de Lamego. Era acaso uma injúria que ele dirigia ao filho do váli e não uma pergunta. O certo é que Marim Eicha fitou os olhos no teto, e depois volveu-os lentamente para o chão, como quem oferecia a deus a afronta e se resignava nela. Gonçalo Mendes prosseguiu:

“Chamais ao Infante rebelde contra sua mãe. Não, vos digo eu! – mil vezes não! Por largo tempo o mancebo generoso viveu nestes paços esquecido, desprezado, como um ínfimo homem d’armas. O seu nome escrito nas cartas e doações, acima do nome do Conde de Trava, era unicamente o que ainda recordava de quem ele era filho. Escárnio cruel na verdade; porque esse que aí se chamava Infante de Portugal era obrigado a curvar a cabeça diante do senhor estranho. É a esse que ele vem arrancar o poder, porque o poder está em suas mãos. Credes que aprovo o feito? Não, por certo. Antes os barões e ricos-homens, na cúria, devera requerer seu direito. Mas perdeu-o acaso porque, esgotado o sofrimento com o excesso da opressão, respondeu à violência com o brado de guerra? Os senhores e infanções portugueses não o crêem. Se o cressem não o teriam escutado: não o seguiriam aqueles que ora o seguem.”

O bom capelão não se deu por vencido e com inflexível tenacidade replicou:

“A Rainha D. Teresa domina em Portugal: o Conde de Trava é um conde, um rico-homem, um alcaide; mais ainda. Os barões portugueses juraram-lhe lealdade a ela, e é contra ela que se rebelam. Dizei-me vós, senhor cavaleiro, de quem tendes vossas honras, coutos e préstamos? – De quem, como vós, os têm eles?”

“A Rainha é a viúva do Conde Henrique. Não queirais obrigar-me a dizer-vos o que acerca dela tumultua nesta alma. Basta que responda à vossa pergunta. As honras que possuo herdei-as de meus avós: os prestamos ganhei-os à lança e à espada: foi preço de sangue o que dei por eles. Preito e lealdade? Ricos-homens de Portugal guardam-no a quem lhes guarda seus foros. Têm estes sido guardados? Sabemo-lo nós: sabe-o Deus. Ele será o nosso juiz.”

“O juízo de Deus – tornou Martim Eicha com mal disfarçada raiva – profere-se em repto e combate, segundo foro dos bem-nascidos de Espanha. Por que não ides com os acostados que pelejam debaixo do vosso pendão, e vivem da vossa caldeira, ajuntar-vos com o Infante? Afirmo-vos que entre ele e a filha de Afonso de Leão há repto e haverá combate. Tereis aí o juízo de Deus.”

“Porque eu – atalhou o Lidador cravando nele os olhos indignados – homem afeito à vida de batalhas, trabalharei até o fi, para que irmãos não derramem sangue de irmãos em lutas de mãe e de filho; porque eu, o homem que, ao abrir os olhos no mundo, a primeira luz que vi foi o reflexo brilhante de armas polidas, e que espero, ao cerrá-los para sempre, vê-las reluzir no volver derradeiro deles, tomei a meu cargo o vosso mister, o mister dos clérigos e letrados da corte, dos homens de paz, dos prudentes, que saudais o dia em que lanças cristãs topem em escudos de cristãos; que sorrides à imagem desse dia em que esperais ver satisfeitos ódios e vinganças mesquinhas. Tentarei frustrar o atroz pensamento dos maus, e se o meu tentar sair vão, ao menos a consciência há de ficar-me tranqüila.”

O Capelão, que sabia qual era o caráter violento de Gonçalo Mendes da Maia, julgou acertado não lhe responder: o Abade, porém, que se havia conservado em silêncio durante a disputa, tomou nesse ponto a mão.

“Quanto a mim – disse ele – não me perdoe o Senhor na hora extrema do passamento, se mentem minhas palavras. Sempre e em toda a parte clamei pela paz, e ainda hoje clamo por ela. Também como vós quisera que o Infante na cúria dos barões requeresse direito; mas como vós também quisera que não lho negasse a Rainha, posto que o demande armado. A tal façanha o incitou o orgulho do Conde de Trava, e o generoso e nobre sangue que corre nas veias do nobre mancebo. Com a mão sobre o coração vos juro que me horroriza esta guerra desnatural. Mas como evitá-la? Como ousareis vós tentá-lo; vós, talvez o único rico-homem da corte de Guimarães, que ousa ser francamente inimigo do Conde de Trava?”

“Tentá-lo-ei – replicou o Lidador – como leal cavaleiro. Antes que as novas da vinda de D. Afonso, para acometer sua mãe e seu mortal inimigo, houvessem corrido de boca em boca; antes que os mais íntimos conselheiros do nobre Fernando Peres – dizendo isto Gonçalo Mendes olhava para Martim Eicha – nos pudessem asseverar que o sangue se havia de verter, já eu o sabia: sabia-o porque esses valos alevantados à pressa em volta do burgo; essa couraça que os prende ao castelo; os engenhos postos a ponto nos eirados e torres me diziam sobejamente que nos ameaçava guerra. Guerra de sarracenos? Não vêm tão longe as suas arrancadas. Guerra do Imperador? Não quebramos até hoje nosso preito com ele. A causa do temor existia, pois, em Portugal. O Infante não há três meses que saiu daqui, e já muitos castelos o receberam por senhor. Vi, soube e calei. Mas a cúria dos barões e ricos-homens da corte está convocada para se ajuntar amanhã. Lá, no meio dos que servem e temem, eu, que não temo nem sirvo, falarei bem alto. Mostrarei à Rainha que se perde; que D. Afonso tem por si filhos-d’algo, bispos burgueses e vilões de beetrias. Direi ao Conde: - “Nobre Conde de Galiza, é necessário ceder ao Infante de Portugal.” - Então, se não for escutado...”

“Então?... - interrompeu Martim Eicha.

“Então aceitarei vossos conselhos. No campo do Infante ainda cabem dez tendas para mais cem homens d’armas, besteiros e fundibulários: ainda lá se pode soltar mais um pendão ao vento assolador das batalhas.”

O Abade ia de novo falar, pensando talvez como abrandaria a cólera que se acumulava no gesto carregado do Lidador. Mas uma risada que restrugiu por cima das cabeças dos três lhas fez involuntariamente erguer. A fronte de Gonçalo Mendes desenrugou-se repentinamente. Quase ao mesmo tempo ele e o Abade soltaram uma gargalhada. Só Marim Eicha não ria.

Tinha razão sobeja.

No calor da disputa, nenhum dos três reparara em Dom Bibas que se acercara da coluna junto da qual conversavam. O bobo aplicara por algum tempo o ouvido às palavras violentas do Lidador; mas o burburinho dos passos e do falar contínuo, dos sons retumbantes dos instrumentos naquela imensidão da sala, o não deixavam perceber senão algumas vozes soltas que muito lhe excitavam a curiosidade. Rodeando o feixe de colunelos, que, segundo o gosto árabe, unidos só pela base e pelo cimo formavam a coluna ou pilastra em que vinham repousar os artesões do teto, trepara manso e manso, firmando-se nos lavores da pedra, e se assentara sobre as grandes folhas de lódão, entressachadas de figuras extravagantes de centauros, harpias, demônios e górgonas, em que o arquiteto mostrara ceder às influências da arte normanda, que começava a expulsar a arquitetura sarracena dos edifícios de Espanha. Visto naquela altura, assentado no capitel, com os braços lançados sobre os pescoços de duas figuras horrendas, em que se assegurava, Dom Bibas pareceria também uma criação desvairada da mente do escultor, se, fitando os olhos brilhante no Reverendo Cônego e fazendo-lhe uma visagem truanesca, não começasse a cantarolar com um acompanhamento de risadas estrondosas:

Quem me dera o meu Infante

Nestes seus paços reais

Doravante!

Tra-lirá,

Ah, ah, ah!

Ovençais

Do galego

Só I vejo a cada instante!

Arrenego,

Dom Garcia

Desses teus aragoneses,

E também dos portugueses

Que te fazem companhia!

Capelão,

Canzarrão,

Hão, hão, hão!

Tra-lirá,

Ah, ah, ah!

Vou fazer de ummouro ao filho

Um famoso arremedilho,

Mui de ver,

Em que a ti te hei de meter,

Meu rapado,

Descarado

A comer

Um presunto

Com seu unto,

Apesar de São Mafoma,

E do velho lá de Roma,

Que te toma

Por um santo,

O que és tanto

Quanto o Demo que te leve

Como deve!

Tra-lirá,

Ah, ah, ah!

Dom Bibas fez uma segunda visagem ao Reverendo Martim Eicha, rodeou o capitel, e desceu rapidamente por entre os colunelos. Daí a pouco a sua voz esganiçada ouvia-se no outro extremo da sala d’armas.

O inesperado da jogralidade do bufão tinha feito desatar a rir o Lidador e o Abade. Não assim o honrado Cônego de Lamego, a quem as alusões insolentes espalhadas naquela trova satírica haviam mortificado ao vivo. A cólera fugira da alma do cavaleiro; mas fora reconcentrar-se na do sacerdote. Nunca Dom Bibas ousara tanto: o fogo da revolta lavrava já no espírito de um vil bobo! O bom do Capelão agarrou-se a este pensamento para cerrar os ouvidos à voz da consciência que dizia terem batido no alvo os motejos cruéis do chocarreiro. Assim, com meneios entre hipócritas e altivos, afastou-se dos dous sem os saudar, e desapareceu no meio da turba dos cavaleiros, jurando pela pele a Dom Bibas, e prometendo relatar ao Conde de Trava, nessa mesma noite se pudesse, todas as circunstancias daquela conversação.

A hora, porém, a que o sarau devia acabar soou. A bela Infanta estremeceu ao ouvi-la bater na campa da torre alvarrã. Sentiu alargar-se a mão de ferro, que lhe apertava o coração; a íntima agonia, que a política do Conde lhe obrigava a velar sob o aspecto mentido do contentamento, poderia afinal dilatar-se na soledade em torrentes de lágrimas. Encostada ao braço de Fernando Peres, e seguida das suas donzelas, D. Teresa atravessou os aposentos imediatos e recolheu-se à sua câmara. Os ricos-homens e filhos d’algo começaram a sair, e pouco a pouco a sala ficou deserta. Apenas um cavaleiro com os braços cruzados e encostado a uma das colunas imediatas ao estrado das donzelas, imóvel, e com os olhos cravados na colgadura da porta por onde D. Teresa saíra, parecia entregue a profunda meditação. Uma voz veio tirá-lo daquele torpor: era a de Dom Bibas, que, repotreado na cadeira da Rainha, olhava para ele fito, e lhe salmeava em tom soturno, pela solfa do canto gregoriano, bastas injúrias:

Fora, parvo aragonês,

Dom bulrão,

Tião, tião, tião!

Vai tratar de teus amores

No Aragão.

Tião, tião, tião!

As donzelas portuguesas

Lindas são.

Tião, tião, tião!

E por isso haver quer uma

Dom bulrão.

Tião, tião, tião!

A Dulce

É bela;

Mas flor dalém

Não é para ti.

Kirieleison.

Kirieleison.

Réquiem aeternam dona eis

Et lux lueat eis.

O cavaleiro pôs-se a ouvi-lo sorrindo; mas aqueles derradeiros fragmentos das preces pelos extintos, entoados lugubremente e reboando no aposento sonoro, assemelhavam-se aos ecos das orações por finado repercutidas por abobadas de igreja em trintário cerrado. Sentiu correr-lhe os membros um calafrio – não de temor, porque não o conhecia o seu coração; mas de terror – desse religioso terror que na crédula Idade Média, às vezes, e por mil motivos vãos, vergava os ânimos mais esforçados. Era singular o efeito que nele produzia a voz roufenha de Dom Bibas; mas é certo que essa voz despertava na sua alma lembranças de morte e uma indizível tristeza. Revoou-lhe então lá dentro o pensamento de que no cantar do truão havia o que quer que fosse fatídico, e no seu olhar brilhante o que quer que fosse diabólico. Sentia baterem-lhe com força as artérias frontais, e sussurrar-lhe nos ouvidos um zumbido intolerável. Esqueceu-se de quem era o homem que assim se assentara na cadeira real, para dali lhe repartir as últimas injúrias que naquela noite distribuíra com mão larga. A imaginação lhe transformou o gesto jovial do bobo no aspecto tétrico de um enliçador, e o seu cantarolar ridículo nos acentos sinistros de uma velha estriga. Esta espécie de delírio em que havia caído Garcia Bermudes – era ele o cavaleiro – o obrigou a sair precipitadamente da vasta e já mal alumiada sala, e a descer ao pátio interior, sem olhar para trás, sem encarar o bobo, cujo canto soturno findou numa destas gargalhadas, que não parecem vir da alma e que contristam, porque, naquele que as solta, revelam alienação mental.

Garcia Bermudes parou: o pátio estava deserto: um cavalariço estirado a um canto dormia profundamente, com as rédeas da mula possante enfiadas no braço. O frescor da noite e a serenidade do céu cintilante de estrelas acalmaram o ânimo agitado do cavaleiro; mas o pulso batia-lhe violento e febril. O extravagante pesadelo de homem acordado, que tivera, não procedera do bobo: procedera do lance doloroso por que pouco antes passara. No meio do sarau, na ebriedade da festa, ele ousara finalmente o que até aí não havia ousado. Tudo quanto uma paixão sincera tinha veemente, enérgico, tempestuoso, tudo dissera a Dulce: esse amor, que com tanta arte ela soubera conter nos limites de mistério, deixara de o ser. Mas aquela alma, que parecia tão meiga, tão branda, tão fácil a todos os contentamentos, a todos os afetos, achou-a ele indomável e esquiva a tanto amor. Esta repulsa esmagara o coração de Garcia Bermudes e a sua imaginação delirou. O raio fulminara o cedro: o que muito era que ele balouçasse pendido?

O cavalariço despertou, gemendo, a um rijo pontapé do cavaleiro. Este montou de salto na mula, cravando-lhe os acicates no ventre, galgou pelo portal da torre alvarrã, e, correndo ao longo da couraça, sem saber como, achou-se à porta da sua pousada, no bairro coutado e honrado do burgo. No meio de desesperação profunda, uma luz tênue lhe bruxuleava na alma. Dulce prometeu explicar-lhe o motivo por que recusava tanto amor. Esta revelação seria feita no dia imediato. A hora aprazada fora a do pôr do Sol; o lugar, a galilé contígua à sala d’armas, que dava sobre os adarves do norte, e que a esse tempo devia estar erma. Era uma noite e um dia eternos, que tinha de viver entretanto; mas a esperança mais débil arrosta com a eternidade, e bem que frouxamente o cavaleiro esperava ainda, posto que não ousasse dizê-lo a si mesmo, e talvez nem sequer o cresse.

Daí a pouco tudo parecia dormir no castelo e no burgo. Não era assim: neste velava Garcia Bermudes; naquele o Conde Fernando de Trava, a bela Infanta e Dulce. Eram quatro agonias, tremendas todas, mas todas elas diferentes.

A variedade é o que mais ama na vida o coração humano. A Providência não se esqueceu de conceder-lhe em grau infinito a variedade na dor.

V

A Madrugada

O céu oriental começava a dourar-se com os primeiros raios do Sol que surgiam na vermelhidão da madrugada. Alumiando com serena e ainda frouxa claridade o burgo assentado na baixa, iam refletir-se trêmulos no orvalho pendurado nas folhinhas da relva pelas veigas circunvizinhas; e batendo de soslaio nas muralhas e torres do castelo tingiam as pedras alvas e lisas de cor pálida. Era um alvorecer de manhã de estio no Minho, tão suave, tão poético e pinturesco, que talvez por isso aí colocaram os antigos pagãos o Letes, esse rio cujas águas faziam esquecer as penas e os deleites da vida. Esta virtude, porém, do clima, este deleite que se encontra no aspecto daquelas lindas paisagens, no murmurar dos arroios perenes, nas sombras dos arvoredos frondentes e na risonha verdura dos prados, não tinha podido fazer esquecer ao Conde de Trava os riscos da sua situação. Atormentado pelos receios do desfecho da luta em que lhe era forçoso entrar, tinha-se revolvido toda a noite no seu leito, sem poder dormir, ora arrependendo-se de haver tratado tão duramente o moço Afonso Henriques, ora fervendo-lhe n’alma desejos de vingança atroz contra o mancebo e contra os barões de Portugal, que sucessivamente se declararam pelo bando do Infante. A idéia de se ver cercado em Guimarães por aquele mesmo a quem meses antes fazia esgotar até às fezes o cálix da humilhação, acendia-lhe o orgulho e a cólera a ponto indizível. Então punha-se a calcular as probabilidades de uma batalha campal. Tinha consigo mil lanças entre cavaleiros de Galiza e de Aragão; muitos ricos-homens de Portugal parecia conservarem-se fieis, não a ele, mas a D. Teresa; e os borgonheses, companheiros do Conde Henrique, educados nas idéias da absoluta lealdade, e investidos pela maior parte em tenências de terras e em alcaidarias de castelos, davam-lhe toda a certeza de que não abandonariam aquela de quem as tinham recebido.

Com estes elementos diversos ele podia ir em arrancada contra a hoste de D. Afonso, superior talvez em pionagem e besteiros, mas assaz inferior à sua em homens d’armas. Se, porém, os barões portugueses que ainda se não haviam declarado contra a Rainha a abandonassem, a vitória não seria tão fácil de obter: e posto que o Conde tentasse minguar o valor e perícia dos cavaleiros daquém Minho para se esforçar a si próprio, a lembrança de que um tal acontecimento seria possível era, entre todas as que o assaltavam, a mais importuna, e a que principalmente não o deixara repousar durante as curtas horas de uma noite de junho, a qual para ele fora uma das mais longas da sua vida.

Assim, apenas a luz duvidosa da aurora raiava no oriente, já a ponte levadiça do Castelo de Guimarães descia à voz impaciente de Fernando Peres, , montado no seu ginete andaluz. Os atalaias viram-no sumir-se entre a casaria do burgo, e daí a pouco tornar a aparecer além dos valos alevantados à roda da povoação. Acompanhava-o já outro cavaleiro, cujas feições a escassa luz da madrugada não deixava bem divisar, mas que alguns dos esculcas apostavam ser Garcia Bermudes, o íntimo amigo do Conde; o único homem que sabia moderar os eu caráter violento e altivo, e que parecia senhor de todos os segredos daquela alma dissimulada e ambiciosa. Fosse quem fosse o cavaleiro, o Conde rodeou com ele os valos e, passando perto outra vez do castelo, os dous se embrenharam numa selva profunda, que se estendia a pouca distância deste para a parte do norte.

O cavaleiro era de feito o valido de Fernando Peres. A amizade dos dous se travara e crescera na Palestina. Garcia salvara o Conde em certo recontro, no qual o filho de Pedro Froilaz, a pé e coberto de feridas, mal se defendia já, com um troço da espada partida, da multidão dos sarracenos que o cercavam. Desde então, companheiros de perigos e deleites, nunca mais se haviam separado. Era uma destas fraternidades d’armas de que os tempos bárbaros nos oferecem tantos exemplos, porque ainda então existia a individualidade do homem de guerra, hoje completamente anulada pelo valor fictício a que chamamos disciplina.

Ao passar pelo burgo, o Conde avistara o cavaleiro, de cujos olhos também fugira nessa noite o sono, posto que por bem diverso motivo. Pela primeira vez Fernando Peres de Trava desejou esconder ao seu amigo os pensamentos que lhe vagueavam no espírito. Todos eles se resolviam num sentimento único – o temor. Envergonhava-se de si mesmo, e não ousava confessar a fraqueza do seu coração àquele cujas faces nunca vira demudadas no meio dos maiores riscos. Procurando dar ao semblante carregado uma expressão de alegria, bradou de longe ao cavaleiro, que embebido em cismar profundo nem sequer sentira o tropear do ginete:

“Madrugador sois, Garcia Bermudes. Já vejo que ainda vos lembram as alvoradas de ultramar.”

Garcia sofreou a mula de corpo em que ia montado, e volveu para trás os olhos. No seu gesto estava impressa a mais profunda melancolia.

O Conde esporeou o ginete até emparelhar com o cavaleiro, e estendeu a mão para ele. Garcia Bernardes apertou-a na sua, e Fernando Peres sentiu que estava trêmula e febril.

“À fé que mal te foi a noite passada: a tua mão é ardente: tens no rosto pintado o padecimento.

“Verdade é, nobre Conde; - respondeu tristemente o cavaleiro – duas noites semelhantes à que passei, e estes cabelos estarão brancos, e este braço vergará como o de um velho ao sopesar a lança.”

“Mas por que assim padecendo te diriges para a campina, úmida com o rocio da noite, quando talvez pudesses repousar agora no sono da madrugada.”

“É porque busco o ar e a luz do céu como um refrigério; é porque sinto cá dentro um fogo que me devora, e preciso de respirar livre na solidão.”

O Conde viu duas lágrimas bailarem sob as pálpebras do cavaleiro. Parou espantado. Era inaudito, monstruoso, impossível o que via. Nunca a dor de feridas, a sede nos desertos, a fome nos castelos sitiados, e até a morte de amigos queridos no campo de batalha, lhas haviam arrancado. Ocorreu-lhe então um pensamento súbito, porque Fernando Peres era hábil em conhecer os afetos humanos. Parou e, cravando a vista de lince no rosto de Garcia Bermudes, disse-lhe no tom firme e positivo de quem descobrira um segredo:

“Garcia, tu és infeliz pelo amor!”

O cavaleiro corou levemente e, com a voz afogada, respondeu:

“É verdade!”

O Conde sabia que ele amava Dulce: toda a corte o sabia. Fernando Peres folgava com a idéia de prender por laços mais fortes que os da amizade aquele esforçado homem de guerra à fortuna de D. Teresa e à sua. Dulce seria disso um penhor, e a afeição particular que ela mostrava ao cavaleiro persuadira o Conde e a Infante de que os seus intentos e desejos seriam brevemente cumpridos. A tristeza de Garcia, a que não achava outra razão possível depois de um sarau a que tinham assistido tantos cavaleiros mancebos e gentis-homens, lhe fez crer que entre os dous amantes se levantara alguma destas procelas, com que o suão mirrador do ciúme costuma entenebrecer às vezes o céu risonho desta quadra da vida tão bela e tão passageira. A resposta de Garcia o confirmou nesta idéia.

“Dulce traiu-te, pois?” – prosseguiu o Conde sem tirar dele os olhos.

“Não: - replicou o cavaleiro – porque nunca fui amado por ela!”

Estas palavras eram uma fria e morta expressão, como para representar paixões violentas o é sempre a linguagem dos homens: e todavia no acento com que haviam sido proferidas revelava-se bem o martírio atroz do orgulho ofendido e do amor desprezado, que ralava o coração de Garcia.

“Nunca!?” – interrompeu Fernando Peres. – Cria eu o contrário: tinha talvez razão para o crer. Se, porém, não é Dulce a dama dos teus afetos, ousarei eu perguntar a Garcia Bermudes o nome da sua amada e a causa do seu padecer?”

No tom destas palavras havia o que quer que era de ironia e motejo.

“Conde de Trava, - replicou o cavaleiro – só disse que jamais fui amado por Dulce: não que eu não a amava. Nunca o encobri a ninguém, e vós sabeis que muitos segredos meus, que todos ignoram, nunca de vós os escondi.”

O modo sentido e de amarga repreensão com que Garcia respondera fizeram conhecer a Fernando Peres que a ferida aberta naquele coração era dolorosa e profunda. Então, estendendo de novo para ele o braço, disse-lhe sorrindo:

“Vamos: falemos serio e perdoa o meu gracejar. Se amas Dulce, ela será tua. Cólera de amantes passam como a nuvem varrida do norte: - e que não fosse assim, seria eu o tufão que a afugentasse. Sabes que Dulce é a filha adotiva da Rainha. Será tua esposa a um aceno do Conde de Trava; e não é o Conde de Trava o teu mais verdadeiro amigo?Oh, abre-me o teu coração!”

E apertava entre as suas a mão do cavaleiro.

Garcia Bermudes alevantou para ele os olhos úmidos e tristes. Por algum tempo ficou em silêncio, e por fim exclamou:

“Não sabes o mal que me fizeste; não sabes o bem que ora me fazes! Sufocava-me o peso da minha agonia: deixá-la, enfim, dilatar-se!”

Então, seguindo por meio da selva, narrou ao Conde tudo o que se passara na véspera, e a larga história do seu desditoso amor, que o mundo cria retribuído e feliz. Aquela narração eloqüente, como a paixão lha ensinava, chegou a comover o ânimo de Fernando Peres, que, distraído a princípio, escutara pacientemente essa larga confidência, com o único intuito de tornar mais íntimos pela gratidão os laços que prendiam à sua sorte um homem, de cujo esforço tanto carecia na dificultosa situação em que se achava.

E assim, apenas Garcia cessara de falar, o Conde bradou – e desta vez as suas palavras vinham da alma:

“Cavaleiro, Dulce será tua mulher: juro-o pelas cinzas de meu pai!”

Era o mais grave juramento de Fernando Peres. Poucas vezes o ouvira Garcia Bermudes jurar pelas cinzas de Pedro Froilaz.

“Dulce – prosseguiu o Conde – é órfã e pobre: por foro de Portugal à sua mãe adotiva, senhora dos prestamos de que ela é herdeira, pertence escolher aquele que há de desposá-la. Tu serás o escolhido, e sê-lo-ás talvez hoje mesmo. Afirma-o o Conde de Trava.”

O cavaleiro ficou por largo espaço pensativo. Reflexões encontradas tumultuavam no seu espírito. Nestas eras civilizadas, em que a idéia do amor é mais pura nos corações que o compreendem, nenhum ânimo generoso deixaria de recusar com horror esse meio violento de satisfazer seus desejos. Naqueles rudes tempos, porém, a generosidade e a delicadeza dos afetos morais era mais um instinto confuso que uma doutrina definida, gravada na alma pela educação e pelas crenças sociais. Era por isso que Garcia hesitava entre o íntimo aconselhar de uma nobre consciência e o cego desejo de paixão ardente. A tenuíssima esperança que ainda lhe restava fez triunfar, enfim, a sua natural generosidade.

“Não – disse ele – não quero dever à obediência o que só quisera merecer pelo amor.”

“Que importa? – interrompeu Fernando Peres. – Deixa, Garcia, aos trovadores essas afeiçoes que se pagam de submissão e suspiros. Juramento feito pelas cinzas de meu pai nunca deixei de cumpri-lo. Poderia agora fazê-lo?”

O cavaleiro pareceu meditar um momento: depois acrescentou:

“Bem o sei; mas promete-me uma só cousa.”

“Qual é?” – atalhou vivamente o Conde.

“Que não será hoje que o cumpras.”

“Oh, quanto a isso – respondeu Fernando Peres sorrindo – não o jurei eu. Nem poderia jurá-lo. O conselho dos barões, que vai daqui a pouco ajuntar-se nos paços de Guimarães, deve ser demorado e tempestuoso. Conheces o que lá há de tratar-se; e que não conto com todos os ricos-homens de Portugal, como conto contigo. Teremos brava batalha.”

“Enquanto este braço puder menear uma acha d’armas; enquanto nestas veias houver uma gota de sangue, aquela ferirá sem piedade os teus inimigos, este será derramado para te defender a ti.”

O Conde caíra naturalmente na realidade da vida, e voltara ao habitual egoísmo de que por momentos Garcia Bermudes o fizera sair. Quando o avistara, ao atravessar o burgo, tinha-lhe ocorrido consultar o cavaleiro, cuja mestria de guerra ele conhecia, sobre o sistema que devia seguir ao começar a luta com Afonso Henriques, luta que bem conhecia ser inevitável. Aproveitando o ponto em que tocava quase imprevistamente, foi, sem revelar nunca os receios que o assaltavam, conduzindo a conversação de modo que, depois de haverem rodeado o bosque, ao entrarem no castelo, os dous haviam calculado e disposto todas as traças que julgavam oportunas para chegarem naquela guerra iminente a um desenlace feliz para a bela Infanta de Portugal, e por conseqüência para o ambicioso filho de Pedro Froilaz.

VI

Como de um homenzinho se faz um homenzarrão

O Conde de Trava acertara nas suas previsões: o ajuntamento da cúria fora longo e tempestuoso. Os parciais da Rainha, isto é, aqueles cujo poder e ambição se estribavam na influência do Conde, patentearam aí, com toda a energia e afeto, a sua inabalável fidelidade à filha de Afonso VI, à qual eles não podiam quebrar seu preito sem se cobrirem de opróbrio: por outra parte, aqueles que tinham já posto a mira em alcançarem do moço Infante as alcaidarias, os meirinhados, as tenências e os cargos da corte, acesos no santo amor da justiça, pugnavam para que a ele se entregasse a herança paterna. Era a luta da consciência de uns contra a consciência dos outros, combate desgraçadamente trivial em todas as épocas de dissensões civis, e de que só é culpada a Providência por assim colocar os bandos sob o jugo de persuasões opostas, e estreitá-los entre o desejo da salvação das suas almas e a cruel necessidade de serem inimigos e perseguidores de compatrícios e irmãos, com grande e interior mágoa sua, como nós e o leitor perfeitamente sabemos costuma acontecer em tais casos!

Dos ricos-homens, cavaleiros e clérigos, portugueses por nascimento, que ainda não seguiam abertamente o pendão de Afonso Henriques, alguns neste momento decisivo mostraram a sua resolução firme de confiar na fortuna de D. Teresa; mas a maior parte voltava-se para o sol que nascia, tudo por amor da boa terra de Portugal. Entre os primeiros, nas violentas altercações da cúria, se haviam distinguido os dous infanões, Aires Mendes e Pedro Pais; entre os segundos o Lidador, que cumpriu o que prometera a Martim Eicha. Fernando Peres viu muitas vezes vacilantes as suas esperanças, porque os nobres companheiros do Conde Henrique, vivendo havia tanto tempo na Espanha, começavam a confundir nos seus instintos políticos a idéia das instituições francas com a índole das tradições sociais visigodas, que sempre preponderaram na Península. A Rainha expusera as pretensões de seu filho perante os barões: Veremudo Peres, irmão do Conde de Trava, genro da Rainha e Senhor de Vizeu, que viera assistir àquela espécie de parlamento, tomando a mão, invectivava contra o Infante, seu cunhado, e não poupara feros e ameaças contra os parciais dele. A cólera do Lidador não precisava de tanto para ser excitada, e palavras igualmente violentas saíram da sua boca em resposta às de Veremudo Peres. Acusou o Conde de vexames de todo o gênero e ameaçou também aqueles que o ameaçavam. Pouco a pouco o tumulto, começado pelos dous, dilatou-se e cresceu. As injúrias voaram de parte a parte, os ferros polidos dos punhais principiaram a reluzir meio arrancados dos cintos, e a sala do conselho ia converter-se num campo de batalha, quando dous homens, talvez os únicos que pelo seu caráter público e ainda mais pela sua condição moral o podiam alcançar, atalharam as cenas de sangue de que os paços de Guimarães estavam a ponto de serem teatro. Quase ao mesmo tempo dous sacerdotes se alevantaram a pedir tréguas em nome de Deus. Era D. Telo, Arcediago de Coimbra, um deles: o outro, Fr. Hilarião, o bom velho Abade do Mosteiro de D. Muma, que já o leitor conhece. Àquele dissera muitas vezes D. Teresa que assaz grato lhe seria vê-lo Bispo da sua Sé, a qual então se achava órfã de pastor; a este, a predileção que sempre mostrara pelo seu mosteiro e por ele em especial o moço Príncipe fazia crer com bom fundamento que não eram vãs de todo várias palavras que uma vez lhe ouvira soltar acerca não sabemos de que doação ao santo ascetério de Guimarães, de certa vila ou herdade, com cinqüenta homens de criação, e seus montes e pastos, fontes e lagoas, êxitos e regressos. Não os moviam na verdade estas circunstâncias, que apontamos casualmente, a serem, D. Telo inclinado a favorecer a justiça da bela Infanta, e Fr. Hilarião a justiça de Afonso Henriques. Pregoava-os o mundo por virtuosos: nós ajuntamos o nosso brado ao do mundo. Mas é indubitável que eles ambos estavam persuadidos de que o outro seguia uma causa má, e afligiam-se profundamente de verem assim a virtude desvairada e perdida no meio do campo contrário.

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