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O Bobo

Alexandre Herculano

Alguém que subitamente entrasse no lugar em que se ajuntara aquela espécie de parlamento, e visse os dous sacerdotes, pálidos e trêmulos, proferirem palavras de razão e de paz no meio do tumultuar e vozear dos ricos-homens e infançoes, cujos olhos chamejavam de cólera, cujas mãos confrangidas apertavam os punhos dos bulhões que reluziam já meio arrancados, atribuiria forçosamente a sua linguagem melíflua e cheia de unção ao temor de serem vítimas indefensas dos brutais homens de guerra , se porventura o sangue começasse a correr, visto que nem a cogula do beneditino, nem a garnacha do Arcediago eram apertadas com o cinto de couro recamado, que cingia os briais dos cavaleiros, e com que eles apertavam ao peito, da esquerda a espada e da direita o punhal. Enganar-se-ia, contudo, quanto a nós, quem a tais motivos atribuísse as palavras dos dous homens de Deus. Ainda cremos na virtude dos cultores da política: sabemos por experiência que a maior parte das vezes as suas expressões são singelas, e nascem de crenças mui fundas; sabemos também que as suas opiniões são em geral desinteressadas, e que jamais é o medo que os incita a pregarem a concórdia e a paz. E se isto é assim nestes tempos de perversão moral, com bom fundamento afirmamos que eram puras e generosas as intenções daqueles dous ministros do Senhor, num século em que as doutrinas do Cristianismo estavam vivas e a caridade era fervorosa e sincera.

É certo, porém, que apesar das diligências que fazia cada um deles para aquietar o furor da respectiva parcialidade, por muito tempo o alarido dos cavaleiros, que se doestavam com bastas e grosseiras injúrias, cobriu as débeis vozes dos varões apostólicos. Finalmente foram ouvidos. A reputação de santidade de que ambos gozavam – no seu bando já se entende – porque em épocas de ódios civis as reputações facilmente tocam o extremo, dizemos, mais ainda que a força das suas ponderações, fizeram pouco a pouco asserenar a tempestade. Os ricos-homens, infanções e cavaleiros vieram enfim a uma conclusão razoável; isto é, saíram daí cada vez mais aferrados às suas opiniões e sem concluírem nada.

Um resultado importante produzida, todavia, aquela assembléia: as máscaras haviam caído de todas as faces: todas as equações políticas estavam resolvidas. Cada rico-homem sabia em qual das hostes havia de hastear seu pendão, e cada simples cavaleiro a que pendão se havia de unir. A sorte de Portugal ficava escrita nas pontas das lanças e nas puas das maças d’armas. A cúria ia traçar a derradeira sentença à luz do céu – no campo de batalha.

Como se fosse alheio aos acontecimentos daquele dia, o dissimulado e manhoso Fernando Peres saíra da cúria dos barões com o sorriso nos lábios e a raiva no coração. Ficara sabendo que o poder da Rainha, ou antes o seu, quase exclusivamente se estribava no braço dos cavaleiros estranhos, e que a fidalguia dos dous condados de Portugal e Coimbra, que ainda não erguera o estandarte da revolta, não tardaria a seguir o exemplo dos que já se haviam declarado pelo Infante. Atribuía à influência de Gonçalo Mendes da Maia este sucesso, e o seu ódio contra ele tinha subido de ponto. O lidador foi, portanto, aquele a quem neste dia mostrou mais prazenteiro rosto.

Um banquete esplendido havia de terminar a convocação da cúria ou cortes. Os graves cuidados, que durante a manhã tinham ocupado os cortesãos e ricos-homens vindos àquela assembléia, deviam dissipar-se no meio das delicadas iguarias e das taças de vinho escumante. Na mesma sala d’armas, onde na véspera ressoara o tripudiar do sarau, ia restrugir naquela noite o folgar do banquete, mais ruidoso ainda, porque nesse dia havia chegado a Guimarães grande número de fidalgos de Galiza, que em Portugal tinham prestamos e alcaidarias da bela Infanta, ou antes do Conde de Trava. Os vastos aposentos do paço brilhavam com toda a pompa de um dia de festa na Idade Média. As calças de muitas cores, as plumas das toucas dos senhores, os ricos briais e cotas, onde já a armaria, que as guerras de ultramar começavam a converter em moda, estreara as suas divisas e bordaduras fantásticas, davam um aspecto de alegria àquele concurso, que debalde se buscaria nas reuniões modernas, monótonas e tristes em trajos como em quase tudo. Pelos eirados e miradouros, pelos adarves e torres do castelo, pelas frestas e balcões do palácio viam-se olhar, gesticular, correr, sumir-se, aparecer de novo, centenares de cavaleiros. As escadas, os pátios, referviam de escudeiros e pajens, que subiam, desciam, apinhavam-se e dividiam-se em agitação contínua. E o ruído e confusão não se limitavam ao castelo: as ruas e quelhas tortuosas do burgo sussurravam com o perpassar dos homens d’armas, dos besteiros e da pionagem, que seguiam para toda a parte os ricos-homens e infanções, em maior ou menor número, segundo a graduação e poder de cada um deles. Era este um distintivo da nobreza que raras vezes o fidalgo daquelas eras esquecia, e muito menos quando era, como então se dizia, chamado a cas del-rei. Assim nestas assembléias políticas, donde nasceram as antigas cortes, mais freqüentes do que geralmente se crê, a povoação destinada para elas oferecia um espetáculo de desordem e de motim impossíveis de descrever; por tal arte que se inimigos houvessem tomado de assalto a cidade ou vila, onde tais cenas se passavam, a alarida não seria maior nem a confusão mais completa; e a única diferença seria que neste último caso o sangue jorraria em tanta quantidade, como naquele jorrava o vinho, e os gritos de dor e angústia substituiriam os brados e risadas convulsas da embriaguez.

No meio deste burburinho, por toda a parte atroador, mas infernal nas salas principais do paço, era notável o cuidado com que o Conde de Trava procurava não perder de vista o Lidador. Se a alguém fosse possível reparar nisso, fácil lhe fora adivinhar os motivos de semelhante procedimento, depois do que se passara na cúria, e atento o caráter dissimulado, mas cauteloso, do Conde. Era um inimigo que devia causar-lhe sérios receios, e, apesar das diligências que fazia para os encobrir sob um gesto festivo, lá se divisava no seu olhar inquieto o susto e a cólera que lhe ralavam o coração.

Assim vigiando os passos de Gonçalo Mendes, Fernando Peres o tinha seguido de sala em sala, procurando escutar o que ele dizia nos diversos grupos de cavaleiros a que se ajuntava. Mais de uma hora havia que o conselho se apartara, e ainda o Conde não tinha deixado um instante de o ver e ouvir, quando um escudeiro do Lidador, rompendo pela turba dos fidalgos, se chegou ao seu amo e lhe disse em voz baixa:

“Senhor, um peão, que afirma ser chegado há pouco da Terra Santa, pretende falar-vos e ao mui reverendo Fr. Hilarião. Diz que voz traz mensagem de amigos vossos, que ora andam em demanda do Santo Sepulcro. Um homem de sua reverência o busca por toda a parte, e eu vim entretanto avisar-vos.”

“Um peão vindo da Palestina com mensagem para mim? – replicou o Lidador em voz alta. – À fé que me parece estranho caso! Não disse quem o mandava?”

“Não, meu nobre Senhor, - respondeu o escudeiro - nem eu me esqueci de lho perguntar: a sua resposta única foi que a vós, e só a vós o diria.”

“Bem! Talvez assim lho ordenassem.”

Proferindo estas palavras, o Lidador saiu, encaminhando-se para as largas escadas que davam para o grande pátio do castelo em frente dos paços.

O Conde de Trava percebera, posto que imperfeitamente, este diálogo. Um pensamento de desconfiança lhe passou pelo espírito, e o seu primeiro impulso foi continuar a seguir Gonçalo Mendes. Mas esta insistência era já demasiada e podia excitar as suspeitas do cavaleiro. Hesitava ainda entre o ir e o ficar, quando viu perto de si Tructesindo, seu sobrinho e seu pajem, filho de Veremudo, e que muito lhe queria. Deus ou o Demônio era quem ali lho enviava. Uma idéia ocorrera subitamente ao ver o mancebo.

“Ouve cá, Tructesindo” – disse ele ao gentil pajem, acenando-lhe com a mão e sorrindo.

“Que ordenais, meu Senhor e meu tio?” - perguntou Tructesindo, chegando ao Conde e cravando nele os olhos, em que se pintava toda a malícia possível num rapaz da sua idade.

Fernando Peres afagou-o pondo-lhe a mão sobre a cabeça, donde se lhe esparziam em ondas sobre os ombros os louros e anelados cabelos.

“Apraz-te, meu sobrinho o ver esta grão peça de cavaleiros, que muitas vezes se acharam já em lides de mouros, e que outras tantas têm ganhado o preço de justas e torneios, e sido proclamados vencedores por formosas damas, ao som de címbalos e trombetas, nos jogos da argolinha e do tavolado? Que me deras tu por ser um deles, e cingires uma espada e adaga?”

“Dera, meu bom tio - respondeu o pajem – dez ou vinte anos de vida para se acrescentarem à vossa, e não vos daria nada. Bem podíeis vós, se quisésseis, armar-me já cavaleiro, como me prometestes para daqui a um ano. Tenho dezessete e os dezoito vêm tão tarde!”

“Por minha alma que respondeste avisado!” - replicou o Conde. - Não quisera eu anos da tua vida para ajuntar aos meus, que doravante me vêm aborridos e trabalhados. Brevemente eu te armarei cavaleiro; talvez em poucos dias ao som do tinir de golpes em fera arrancada. Basta que a paga de minha mercê seja cumprires o feito de que vou encarregar-te.”

“E fá-lo-ei de bom grado – tornou Tructesindo. – Mandai, meu tio, que eu vos obedecerei.”

“Um peão, vindo de longes terras, buscava há um momento Gonçalo Mendes da Maia e o Abade de D. Muma. O cavaleiro e o monge devem ora estar com esse mensageiro lá em baixo. Acerca-te deles por meio do tropel que flutua apinhado por toda a parte, e procura saber quem é, o que quer, donde veio. Escuta também, se puderes, suas palavras.”

“E depois?” – perguntou o gentil pajem.

“Vem prestes dizer-me o que lá se há passado.”

Ligeiro como um gamo, Tructesindo desapareceu. O Conde, chegando daí a pouco a um dos balcões da imensa sala d’armas, viu ainda o Lidador e o Abade que encaminhando-se para uma viela, que corria entre os paços e o laço ocidental da muralha, pareciam atentos às palavras de um homem, cujo rosto ele não pôde bem divisar, porque o levava meio escondido no capuz de um amplo zorame de lã parda e grosseira, que quase até os pés o cobria. Perto porém dos três viu Tructesindo, que fingia retouçar com os outros pajens, ora travando-se a braços com eles, ora fugindo com grandes apupos e risadas, mas girando sempre, como a borboleta ao redor da fogueira, em volta de Gonçalo Mendes, do desconhecido e do Abade.

Satisfeito da habilidade com que o seu pajem parecia desempenhar a comissão que lhe dera, Fernando Peres voltou-se para dentro sorrindo de contentamento. Achou-se então face a face com Garcia Bermudes, tão triste no aspecto como nessa manhã o encontrara. Além disso, porém, no carrancudo do gesto dava mostras de que idéias mui graves o preocupavam. No seu ar o Conde percebeu que ocorrera algum acontecimento extraordinário.

“Preciso de falar-vos à puridade” – disse Garcia Bermudes procurando não ser ouvido dos cortesãos que perpassavam.”

“Vinde comigo” – respondeu o Conde de Trava no mesmo tom e travando-lhe do braço.

À esquerda da sala d’armas uma pequena porta dava passagem para extenso e escuro corredor, em cujo topo havia outra porta fechada: o Conde tirou uma chave, abriu-a e, cerrando-a após si, os dous cavaleiros se acharam em uma espécie de jardinzinho pênsil, assentado sobre uma alta arcaria, que ligava uma das torres do castelo com os paços da bela Infanta. As câmaras desta, e os aposentos habitados pelas suas damas e donzelas, cercavam por dous lados este pequeno terrado coberto de flores e arbustos viçosos. Um desses engenhos árabes, que ainda hoje cobrem o solo da Península e fertilizam as nossas veigas e pomares, ministrava constantemente àquele ameno horto, de um poço profundíssimo talhado no rochedo em que repousavam os fundamentos do castelo, água cristalina, que ao cair num tanque de mármore sussurrava brandamente. Junto dele um salgueiro copado formava uma espécie de caramanchão sobre um banco de pedra. Foi para aquele sítio que o Conde conduziu Garcia Bermudes, dizendo-lhe: “Aqui podes seguro falar”.

“Acaba de chegar um dos esculcas, que andam disfarçados em besteiros da beetria de Gotingem no arraial do Infante – disse o cavaleiro -: dá rebate de que a hoste rebelde caminha para estes sítios. O velho Egas Moniz de Riba de Douro veio a ela com cem lanças. São já perto de mil homens d’armas os que D. Afonso capitaneia. Segundo se diz, ele pretende dar-vos batalha, e conta com alguns dos senhores da corte que espera tomem sua voz: o mui Reverendo Martins Eicha, a quem incumbistes juntamente comigo de introduzir aforradamente o mensageiro ao postigo de ábrego, foi dar conta destas novas à mui excelente Rainha, enquanto eu vos buscava.”

“Que esse louco mancebo venha, e achará meus pendões tendidos no campo. Aí receberá o preço de sua ousadia insensata. Mas engana-se contando com os falsos que o cercam. Conheço-os, e aos leais! Eu deceparei o colo da serpente... Gonçalo Mendes! Gonçalo Mendes! Em hora aziaga vieste à corte, em hora aziaga te demoraste! Garcia Bermudes, a Infanta de Portugal, a filha dos Reis de Leão, acaba de escolher-te para seu alferes: a ti pertence o governo de todos os seus homens d’armas. Ao acabar do banquete devem estar levantadas as pontes das barbaças, estas guarnecidas de vigias, e em cada lanço uma rolda e uma sobre-rolda. A ninguém é permitido sair do recinto do burgo; nem a mim próprio. Alferes-mor de Portugal, são estes os mandados da Rainha D. Teresa: vós fareis que sejam cumpridos à risca!”

Ao proferir estas palavras, todas as paixões cruéis, tençoeiras, furiosas, que ferviam comprimidas no coração do Conde, se lhe pintavam no demudado das faces, no trêmulo dos lábios brancos, nas rugas profundas da fronte carregada. Depois de um momento de silêncio, saindo arrebatadamente do caramanchão, prosseguiu:

“Se tendes mais que dizer, dizei-o. No momento do perigo nunca hesitei. Tereis uma resolução pronta.”

“Só, que obedecerei pontualmente ao que ordena minha Senhora e Rainha” - respondeu o novo alferes.

Neste momento um vulto apareceu no limiar da porta entreaberta por onde os dous haviam entrado. Era o bufão, que olhava fito para o Sol que se punha, fazendo-lhe visagens e cantarolando sem reparar nos cavaleiros:

Tu vais-te: mas voltas.

E eles ir-se-ão,

E não voltarão?

Froilas ou Froilão;

Fernando de Trava,

E o seu valentão,

Dom Bulrão,

D’Aragão,

Que de Dulce,

Bela Dulce,

Quer a mão...

Diabo!...

Engolfado na sua trova Dom Bibas, a quem algum gênio avesso impelira a escoar-se pelo corredor escuro e a entrar no jardim, voltara de repente a cara e dera ao pé de si com os dous cavaleiros, que o escutavam.

“Que dizias tu de Dulce, bufão?” – perguntou o Conde com gesto severo e lançando de relance os olhos para Garcia Bermudes.

O bobo leu no aspecto de Fernando Peres que se achava num daqueles transes arriscados, em que as suas injúrias em vez de aplausos só lhe acarretavam maus tratos. Todavia o dito estava dito. Pôs-se a mirar os balegões dos cavaleiros: eram de pele de gamo, e de sola delgada, revirados na ponta em compridos bicos, segundo a moda do tempo. Fez rapidamente o seguinte dilema: ou a extrema ousadia me salva, ou o que já disse me perde. Em todo o caso, preso por mil, preso por mil e quinhentos. Avante! E fazendo uma profunda cortesia, respondeu:

“Dizia esta humilde criatura que vós, mui nobre D. Garcia, sois parvo em perseguir com vossos ridículos amores a minha boa Dulce; e que vós, senhor Conde de Galiza, nos faríeis especial mercê em irdes visitar as corujas do vosso Castelo de Faro...”

“Dom Bibas!” – interrompeu o Conde.

O bobo continuou:

“Deixando, com os vossos galegos brutais e com os vossos aragoneses estúpidos, os nobres paços de Guimarães àquele que os herdou de seu pai, o tio D. Henrique, antigo truão de minha corte...”

“Dom Bibas! - atalhou de novo o Conde, cuja cólera tinha chegado ao seu auge, sorrindo ferozmente – os que te enviaram para me dizeres o que eles guardam nos corações covardes esqueceram de vestir-te um saio de malha bem estofado!...”

Neste momento abriu-se uma das portas dos aposentos da bela Infanta, e o Capitão Martim Eicha, acompanhado de dous donzéis de D. Teresa, dirigiu-se para o Conde:

“Senhor de Trava – disse o reverendo Cônego – a Rainha quer imediatamente falar-vos.”

“Eu ia pedir isso mesmo – respondeu o Conde. – Mas antes de partir quero mostrar a traidores, na punição de seu mensageiro, que também saberei puni-los. Donzéis, arrastai este miserável daqui, e entregai-o ao vílico do castelo, que o mande açoutar pelo mais robusto dos meus cavaleiros, até que o sangue lhe brote das costas, como da língua vilíssima lhe brotam insolências alheias.”

O pobre Dom bibas tinha errado completamente o dilema, por não meter nele os tagantes ou tiras de couro cru com que se castigavam os homens de criação, e que ele nunca provara. Posto que já com voz trêmula, tentou ainda uma bufonaria, e atirando ao chão aquele seu vulto de pipa pôs-se a gritar:

“Não, que eu não vou.”

“Donzéis, obedecei!” – bradou o Conde, encaminhando-se para os aposentos da Infanta.

Dom Bibas desenganou-se então de que o caso era sério. Dando largas ao temor, arrastou-se após Fernando Peres, exclamando com todos os sinais de viva aflição:

“Piedade, senhor Conde! Prometo...”

O Conde desaparecera.

“Levai-o, donzéis” – disse de novo o Alferes-mor.

“Também vós, Garcia Bermudes? Não! Não! Vós salvar-me-eis destes...”

Garcia saíra pela porta fatal do corredor escuro, que fora a perdição do bobo. Só ficara ali o Cônego de Lamego, que parecia observar como os donzéis executavam as ordens do Conde.

Estes, de feito, tinham posto mãos violentas no roliço vulto do respeitável Dom Bibas e, travando-lhe cada qual do seu braço, se assemelhavam a dous mastins pouco dispostos a largar a preia. O bufão com voz truncada de soluços acorreu-se então à tênue e última esperança que lhe restava.

“Assassinos malditos, deixai-me!” – gritou ele dando um empuxao aos dous mancebos que levou após si. E, agarrando-se à garnacha de Martim Eicha com toda a ânsia do susto e da desesperação, começou uma ladainha de súplicas:

“Boníssimo e reverendíssimo senhor Capelão-mor, que vossa virtuosa reverência valha a um miserável jogral, que a terra Dante vossos pés beija! É dos caridosos e de grande coração perdoar aos que os ofenderam. Eu tenho pecado contra vós. Peccavi! Estou contrito. Contritus sum! Pedi por mim, santíssimo e venerabilíssimo Padre. Ninguém me incitou para dizer o que disse. Foi o Diabo que me tentou. Abrenuncio!... Podeis asseverá-lo a meu ilustre Senhor, o nobre Conde de Trava!...”

“Filho, - respondeu Martim Eicha, fazendo um ademã entre hipócrita e de escárnio – o castigo é muitas vezes caminho para o arrependimento. Resigna-te, meu filho. Se nisso não houvera vanglória, dir-te-ia que no sofrimento de injúrias podias aprender de mim a ser resignado.”

Proferindo estas palavras, Martim Eicha alcançara soltar o vestido da mão do bobo, e com um sorriso de vingança satisfeita seguira os vestígios do Conde.

Dom Bibas perdeu a derradeira esperança.

Então o excesso de terror e da desesperação produziu naquele espírito, onde por anos se desenvolvera e alimentara constante irritação, uma destas revoluções morais em que, no meio de tormentosa crise, o homem se transmuda em outro homem. Ergueu-se e com gesto desvairado bradou:

“Está bom! Ninguém se compadece de mim! Serei açoutado como um vil servo judeu! O bobo receberá essa afrontosa pena; mas ele se converterá num Demônio...”

Neste ponto Martim Eicha, que cruzava o limiar da porta, voltou os olhos e fitando-os no bufão deu uma risada. Dom Bibas prosseguiu, cerrando os punhos e mordendo-os:

“Ris, vil renegado?! Ris, alcaiote paceiro?! Um dia virá em que chores!... Vamos, escravos! À risca as ordens do Conde covarde!”

Dizendo isto o bobo, com passo firme e no meio dos dous donzéis que nunca o haviam largado, atravessou o corredor escuro. Daí a pouco, em um pátio interior, ouviam-se-lhe os gritos dolorosos por entre o som dos açoutes e apupos e gargalhadas de pajens, serventes e cavalariços.

VII

O Homem do zorame

Os três personagens que o Conde de Trava vira encaminharem-se para a corredoura contígua aos muros do castelo, e cujos passos e conversação mandara observar pelo pajem, iam demasiado preocupados para haverem de reparar nos jogos e brincos de Tructesindo e dos seus companheiros; e tanto mais que na viela perpassavam também às vezes os ovençais, uchões e sergentes ocupados nos preparativos do banquete, tornando assim menos notável a pessoa do pajem, cujas feições, até, já não seria fácil divisar na estreita passagem, a certa distância e à luz duvidosa do longo crepúsculo, que no verão vem após o Sol posto, e que era a hora a que esta cena se passava.

Essa claridade do fim da tarde seria contudo ainda bastante forte para o Lidador e Fr. Hilarião conhecerem o mensageiro que os buscava, se não fora o grande capuz do zorame, onde tinha como sumido o rosto, do qual apenas eram bem visíveis dous olhos brilhantes e uma espessa barba loura. Quase ao mesmo tempo os dous haviam chegado ao pé do desconhecido, e lhe tinham perguntado donde vinha e quem o mandava. A resposta do peão foi tirar um pequeno rolo de pergaminho, atado com fio negro, de uma bolsa de couro que trazia pendente do cinto, e pô-lo nas mãos de Gonçalo Mendes.

O Lidador recebeu a carta e perguntou de novo:

“Mas quem te mandou, peão?”

“Um cavaleiro português - respondeu o desconhecido - que encontrei mui malferido na albergaria dos hospitalários em Gaza. O triste e cativo quase que se morria.”

Estas palavras excitaram ao mesmo tempo curiosidade e receios no espírito de Gonçalo Mendes; e quebrando rapidamente o fio negro entregou a carta a Fr. Hilarião, dizendo-lhe:

“Como a vós vem também a mensagem, lereis esses riscos pretos que aí estão. – Por minha boa espada! – cousa é que nunca entendi.”

Não era raridade: quase toda a fidalguia d’então se podia gabar de outro tanto.

Fr. Hilarião desenrolou o pequeno pergaminho e começou a ler. Entretanto o Lidador fitou os olhos no peão, cuja voz lhe pareceu ter já muitas vezes ouvido.

“Pobre mancebo!” – exclamou o Abade, trêmulo e empalidecendo.

“Quem” – interrompeu Gonçalo Mendes voltando-se para ele sobressaltado.

“Um cavaleiro – replicou Fr. Hilariao – que amei como filho; e que o desejo de oferecer à dama que requestava um nome glorioso levou à Palestina. Só talvez eu soube a causa da sua partida, de que muitas vezes tentei dissuadi-lo; porque previa o que sucedeu. Oh! que enquanto o pobre trovador assim morria por Dulce, ela folgava em seus novos amores com Garcia Bermudes. - Mulheres, mulheres!”

“Egas Moniz é, pois, morto?” - interrompeu tristemente o Lidador, que das palavras do Abade conhecera de quem era a carta. – Mensageiro, que dizes tu? Sabes certo que é finado?”

Um gemido involuntário do peão que recuara ouvindo as palavras do Abade fora a causa desta pergunta.

“Digo-vos, Senhor, – tornou o peão com voz afogada – que ora é ele morto.”

Mas o cavaleiro não reparou na sua perturbação; o monge começava a ler alto oo pergaminho que tinha nas mãos. A mágoa do Lidador era profunda; porque a sua afeição por Egas fora constante e sincera. Pôs-se a escutá-lo, e, bem como ao velho Fr. Hilariâo, as lágrimas lhe rolaram pelas faces.

“Escrevo-te, Gonçalo Mendes, - lia o Abade – nas vésperas talvez de morrer. Deus porventura não quer que meus olhos tornem a ver o lugar onde nasci. Novas são aqui vindas de que Fernando Peres de Trava tem reduzido à condição de vassalo o nobre filho de meu Senhor, o Conde Henrique. Criei-me com o Infante: sei que ele não o sofrerá largo tempo, nem os ricos-homens de Portugal sofrerão também. A minha espada pertence àquele de quem a recebi em Zamora: resolvi-me por isso a atravessar os mares. Um recontro com os infiéis me cortou, porém, os passos. Tu, Lidador, acorrerás ao Infante melhor que o seu Egas, que o seu irmão d’armas. Cem lanças, entre acostados e homens de tuas honras, podes pôr em seu campo: eu a custo lhe levaria cinqüenta. E, além disso, não vale a tua espada dez vezes mais que a minha? Se a guerra for começada sei certo que já estarás com D. Afonso. Um pobre romeiro português me jurou sobre a cruz dar-te esta carta onde quer que te encontrasse. Faze-lhe mercê por minha alma.”

Durante a leitura do pergaminho, umedecido pelas lágrimas do velho, o desconhecido havia procurado conter as paixões que lhe agitavam o espírito. Gonçalo Mendes ficara em silêncio, apertando com a mão a fronte. O homem do zorame dirigiu-se então ao Abade:

“Quanto a vós, venerável monge, o nobre cavaleiro me ordenou vos buscasse em vosso mosteiro; que vos pedisse um trintário cerrado de vossos frades, e que vos lembrásseis dele em vossas orações. Agora que mandais de mim?”

“Vais partir?” - perguntou o Lidador, com um tom em que parecia revelar-se a desconfiança.

“Já – tornou o romeiro. – É noite; e não sei ainda se é longe se perto o termo da minha jornada.”

E de feito havia anoitecido: os paços começavam a iluminar-se, e os candelabros e tochas vertiam através das fretas e balcões dos aposentos reais uma luz brilhante, cujos raios batiam de chapa no vulto rebuçado do mensageiro. O cavaleiro e o monge olhavam fitos para ele. Depois Gonçalo Mendes disse algumas palavras ao ouvido de Fr. Hilarião, e prosseguiu o seu interrogatório.

“Para onde, pois, te diriges?” - disse ele ao desconhecido, hesitando, e como quem já a custo continha na alma bem diversos pensamentos.

“Para onde Egas Moniz – respondeu com veemência o homem do zorame – cria que eu vos encontrasse, meu senhor cavaleiro: para o campo de D. Afonso. Peão como sou, irei pelejar por ele, que é meu senhor natural. Que os ricos-homens folguem entretanto nos paços onde estranhos governam, onde D. Teresa se esquece de que o Infante é filho de D. Henrique.”

Então Gonçalo Mendes, fazendo recuar o capuz que cobria a cabeça do suposto mensageiro, olhou para ele alguns instantes. À luz noturna que o alumiava reconheceu-o então. As suas vivas suspeitas se haviam realizado.

“Egas! Egas! – exclamou apertando-o ao peito – pensavas que o som da tua voz podia nunca esquecer-me? – Como ousaste entrar em Guimarães; - tu, sobrinho do senhor de Cresconhe; tu, um dos da linhagem de Riba de Douro? - ... Para que esta carta cruel que veio arrancar lágrimas ao bom Fr. Hilarião, que te ama como um filho? Cria-se ainda na Síria.”

“De lá cheguei há poucos dias – respondeu o mancebo, lançando um dos braços à roda do pescoço do velho monge que tentava também abraçá-lo chorando, mas de contentamento. – Às primeiras novas de que o Infante e os infanções de Portugal tentavam sacudir o jugo do Conde de Trava, dirigi-me ao arraial de D. Afonso que se encaminhava para aqui. Lá o teu nome era afrontado com o título de desleal pelos teus inimigos. Estavas em Guimarães: as aparências condenavam-te, e o meu coração padecia. Vim pois pedir-te – “Lidador, é tempo de combater!” - Queria, porém, saber primeiro se as minhas palavras tinham na tua alma a mesma força que dantes: queria saber se a tua amizade havia expirado como o amor de Dulce, que eu já sabia se esquecera de mim: foi para isso esta carta. Sei agora ao certo que ainda te posso dar o suave nome de amigo: sei enfim que a amizade dura mais que o amor. Vós – acrescentou ele voltando-se para omonge – perdoais-me por certo a mágoa que vos causei!”

“Ó meu filho, meu filho! – replicou Fr. Hilarião – para que vieste expor-te à vingança de Fernando Peres, que mortalmente odeia a linhagem de Riba de Douro? Podias tu duvidar da lealdade do mais generoso e valente dos ricos-homens de Portugal?”

“Não; mas era necessário que pudesse dizer aos que de desleal o acusam: - “Vós mentis, e sobre isso porei meu corpo; e mentis porque de sua boca ouvi eu que na hora do combate o seu pendão se hasteará junto da signa do Infante.” - Não direi nisso a verdade, meu bom e leal cavaleiro?”

“Egas, - respondeu o Lidador - que te importam a ti ou a mim os ditos de alguns sandeus? Quando eles ousarem vir a Guimarães dizer o que ainda hoje Gonçalo Mendes disse na cúria ao Conde de Trava, tê-los-ei então por mais esforçados e mais leais do que ele. Até o fim procurei evitar esta guerra atroz de irmãos. Perdi a derradeira esperança. Agora volta ao arraial; e podes afirmar a Afonso Henriques que dentro de dous dias oitenta homens d’armas e sessenta besteiros da terra da Maia estarão no seu arraial. Dize-lhe mais, que o traidor Gonçalo Mendes espera com vinte cavaleiro que ele chegue para se unir a seus pendões, não de noite como salteador covarde, mas à luz do meio-dia, em que pese ao Conde de Trava.

A indignação do rico-homem rompera como torrente; o monge, porém, confrangia-se, lembrando-se do perigo a que se expusera o imprudente Egas Moniz. Assim, interrompendo-o, disse ao mancebo:

“É necessário que partas já. No meio do ruído e confusão do banquete; entre a multidão de gente que vagueia ainda pelo castelo e pelo burgo, ninguém te conhecerá. Mas qualquer imprudência pode perder-te: qualquer imprudência!... Repara bem, Egas. Estes paços encerram para ti a morte.

Eram o amor e o ciúme do moço trovador que o bom do monge mais receava. Sabia quanto ele amava Dulce; conhecia a violência das suas paixões, e que a do ciúme devia ser terrível naquele coração. Porventura o motivo da sua vinda a Guimarães não fora só o que dizia. Estas idéias, que de golpe tinham ocorrido a Fr. Hilarião, lhe faziam desejar com tanto afinco a partida breve do cavaleiro.

“Não sei porque a minha vida periga dentro destes muros – replicou Egas Moniz. – Há mui poucos dias que cheguei a Portugal; e o Conde de Trava não sabe se o meu balsão flutua no arraial do Infante...”

“Esqueceste depressa na Terra Santa, - interrompeu o monge – que quando há um cadáver de assassinado entre família e família, a vingança, segundo o brutal foro de Espanha, que os santos cânones ainda não puderam destruir, dura de pais a filhos; convoca, sob pena de desonra, todos os parentes do morto e do assassino a lides atrozes e a ódios implacáveis. A linhagem de Riba de Douro segue todos os pendões do Infante. O Conde folgaria com que a de Trava e Trastamara fosse chamada a defender os dele pela voz imperiosa do que ricos-homens e infanções crêem brio e dever. Lembra-te, meu filho, da linhagem a que pertences, de que o Conde é homem feroz, e que tu serias uma vítima ilustre para pretexto de perpétua guerra de homizio entre Portugal e Galiza.”

O mancebo ficou por algum tempo pensativo e murmurou: - “Cumprir-se-á meu destino!” - Depois voltando-se para o Abade disse-lhe: - “Ficai tranqüilo, bom Fr. Hilarião, esta mesma noite sairei de Guimarães.”

“E breve! – acudiu o Lidador. – O esforço não exclui a prudência. Se todavia alguém tentar embargar-te os passos, não te esqueças de que Gonçalo Mendes está aqui, e que tem consigo vinte escudeiros valentes.”

Neste instante as trombetas tocavam pelos eirados do paço e pelos adarves do castelo, e ouviam-se romper da banda da sala d’armas os sons ásperos e vibrantes das charamelas.

“É o sinal de que começa o banquete – notou o Abade, a quem semelhantes sons eram suaves, ainda nas maiores angústias. - É necessário apresentarmo-nos a tempo, para não causarmos suspeitas.”

Egas apertou a mão ao Lidador, abraçou o monge e, puxando o capuz do zorame para diante, seguiu ao longo da viela, enquanto os dous retrocediam e se encaminhavam para a escada principal do palácio, com passos lentos e conversando em voz baixa. Antes de chegarem acima, viram passar por eles um pajem galgando os degraus de quatro a quatro e rindo como um perdido.

“Estes rapazes são doudos!” – disse o monge para o seu companheiro de modo que o pajem o ouvisse.

Este olhou para trás, fitou os olhos em Fr. Hilarião com gravidade cômica e deu uma gargalhada, continuando a galgar a escadaria.

Era Tructesindo.

VIII

Reconciliação

Apenas Fr. Hilarião e o Lidador voltaram costas para se dirigirem à sala do banquete, na qual se achavam reunidos já quase todos os ricos-homens e infanções vindos à solenidade daquele dia, o cavaleiro cruzado se encaminhou apressadamente ao longo da corredoura onde falara com eles. Aquela passagem estreita ia por todo o circuito do castelo, acompanhando o edifício irregular dos passos e suas acomodações e oficinas.de espaço a espaço alargava-se nuns terreirinhos onde se viam amontoados instrumentos e arremessos de guerra. Para esta espécie de pátio desciam escadas de pedra que davam comunicações aos adarves ou andaimos da grossa muralha exterior, e ao lado de cada um deles bojavam para dentro as torres maciças e quadrangulares que me defendiam as quadrelas do muro. Nesse ponto a senda, geralmente estreita e soturna, se tornava ainda mais apertada, e às vezes mais tenebrosa, porque algumas das torres se ligavam ao palácio por largos passadiços lançados por cima dela.

Egas Moniz passou sucessivamente três dos terreirinhos, até que afinal parou debaixo do escuro arco de pedra, que se abria na extremidade do terceiro. Este, diferente dos outros, em vez de topar nas lisas e altas paredes dos paços, entestava com uma casaria baixa, rota por sete ou oito portais singelos que davam para o terreiro. O teto daquele corpo saliente era um espaçoso terrado que o passadiço ligava com o primeiro andar da torre. Sobre esse terrado, quando a escuridão o permitia, viam-se negrejar os topos dos arbustos e as pontas esguias dos caramanchões de verdura, e sentia-se o cheiro balsâmico das flores, que se dilatava na aragem quase imperceptível de uma noite de estio. O cavaleiro achava-se junto ao jardim onde se passara, pouco havia, a cena que tão fatais resultados tivera para o honrado e jovial Dom Bibas.

Tudo por aquele lado do palácio parecia tranqüilo, e o reflexo da luz escassa que alumiava os aposentos contíguos ao piso do jardim, rompendo a custo as vivas cores das vidraças, vinha morrer nas trevas a pouca distância delas. O cavaleiro ao atravessar o terreirinho parara um momento e cravara os olhos naquela tênue claridade. Um suspiro mal contido lhe sussurrou nos lábios. Depois, como arrastado por um pensamento irresistível, continuou a caminhar rápido para o escuro vão junto da torre, e envolto no zorame coseu-se com a parede, como quem receava ser ali visto.

Não tardou que do lado da corredoura, oposto àquele por onde o cavaleiro viera, se aproximasse um vulto trazendo um cavalo de rédea. Este vulto vinha também coberto de uma espécie de zorame, porém alvacento como albornoz mourisco. Deu um silvo, a cujo soído Egas pareceu reconhecê-lo, porque, saindo-lhe ao encontro, perguntou em voz baixa e em árabe:

“És tu, Abul-Hassan?”

“É o vosso servo” – respondeu o vulto na mesma língua, parando e sofreando o cavalo.

“Falaste com teu irmão? A que horas se erguem as pontes das barbaças?” – perguntou de novo o cavaleiro.

“Apenas acabar o banquete – tornou o mouro. – Os vigias receberam ordem para não deixarem sair ninguém do burgo passado esse momento.”

“O meu saio de malha, - prosseguiu Egas - a cervilheira e a espada?”

Sem dizer palavra Abul-Hassan tirou as três peças de sob o albornoz. O cavaleiro vestiu à pressa o saio, pôs na cabeça a cervilheira, afivelou sobre os ombros aquela espécie de camisa de ferro que vestira, cingiu sobre esta a espada e, atirando o zorame para cima do cavalo, disse ao mouro: - “Deixa-te aí ficar. Se vier alguém que te não conheça e pergunte o que és e o que fazes neste sítio, responde que és um cavalariço do Senhor de Trava, que te ordenou esperasses aqui com um corredor folgado. Depois de assim responderes ninguém ousará perguntar-te mais nada.”

Proferidas estas palavras, Egas desapareceu numa escada de caracol aberta no fundo da torre, e que dizia para o primeiro pavimento dela. Chegado ao alto tirou do seio uma chave e abriu uma porta, não a que dava para a quadra principal da torre, mas outra lateral e pequena. Cruzou o passadiço, e num momento achou-se no jardim pênsil.

Naquele lugar e hora, as paixões tumultuosas que lhe agitavam o espírito o obrigaram a refletir alguns momentos, e a procurar restabelecer no coração a possível tranqüilidade.

Que pretendia? A que vinha ali como um salteador noturno? Ele mesmo não o sabia ao certo. Era apenas uma vaga esperança de ainda ver Dulce, de lhe exprobrar a sua leviandade, de lhe dizer tudo quanto o ciúme e a desesperação lhe ensinassem. Desde que a fama dos amores da donzela com Garcia Bermudes chegara aos seus ouvidos, não houvera para ele repousar um instante. Buscando qualquer pretexto plausível para se dirigir a Guimarães, logo que chegara ao arraial do Infante se oferecera para indagar da própria boca de Gonçalo Mendes qual seria a sua resolução final na luta que se ia travar. Vestindo os trajos de vilão – o arbim e o zorame de burel – entrara no burgo ao romper d’alva, e dirigindo-se à mouraria perguntara por Abul-Hassan. Entre os mouros que, ao tirar a grossa cadeia de ferro lançada de noite à entrada do seu bairro, saíam de golpe para os trabalhos rurais, divisou brevemente aquele que buscava. Deu-se-lhe a conhecer, e antes que a alegria que o mouro mostrou ao vê-lo se revelasse por sinais, que gerassem desconfianças, pediu-lhe o guiasse à sua pousada. Aí entregando-lhe uma bolsa de couro com alguns almorabitinos disse-lhe:

“Far-me-ás tu, Abul-Hassan, ainda uma vez o serviço que tantas te devi antes de partir para o ultramar?”

“Posto que o ódio contra os meus irmãos – respondeu sorrindo o árabe – vos levasse tão longe para lhe derramar o sangue, como se vos não bastasse o dos muslins da Espanha, nem por isso vos perdi a afeição, porque sei por experiência que ao menos não seríeis cruel para com os vencidos, como são quase todos os guerreiros cristãos. O serviço de que falais, sem que mo dissesses já eu o adivinhei. A chave da porta secreta da torre do miradouro ainda está em meu poder, porque ainda me não tiraram o cargo do jardim da Rainha. À hora da quinta oração podereis vir buscá-la aqui.”

“Não é isso só – interrompeu o cavaleiro; - é necessário que ainda hoje vás ao soveral que se estende junto ao vau do Avicela. Aí estará um escudeiro com o meu cavalo de batalha e as minhas armas: mostrando-lhe este anel ele te entregará tudo. Conduze-me aqui o ginete e as armas ao cair do dia. Depois esperar-me-ás junto ao passadiço da torre para o jardim. O anel, esse guardá-lo-ás para ti.”

Abul-Hassan ia propor algumas dificuldades: as últimas palavras d’Egas Moniz as haviam aplanado. O anel era assaz rico.

“Na confusão que hoje vai em palácio, ninguém reparará na minha falta. Assim poderei obedecer-vos.”

“Ainda mais – prosseguiu o cavaleiro. - Quando atravessei a barbaça vi sinais de que as pontes levadiças se costumam erguer de noite. Preciso de saber até quando se poderá sair do burgo e por onde. Tu o indagarás com certeza. Se desempenhares bem tudo o que te ordeno, recolherás depois mais larga recompensa.”

No rosto do mouro ria o contentamento.

“Meu irmão, o tornadiço, ainda é um dos mestres dos trons e engenhos. Estão a seu cargo os que de novo se assentaram no cubelo do topo da couraça. Ele deve sabê-lo; e há de por certo dizer-mo.”

“Bem! - tornou Egas. - Agora vai executar o que te mandei, e entretanto eu ficarei aqui. Mas volta ao Sol posto; porque me será necessário a essas horas deixar a tua guarda.”

Daí a pouco o mouro atravessava a barbacã por meio da comitiva de ricos-homens, que começavam a entrar no burgo para assistirem à convocação solene da cúria.

Havia largos anos que Abul-Hassan estava incumbido do jardim pênsil. Naquele século os diferentes misteres, para os quais se requeria ou ciência ou indústria, eram quase exclusivamente exercitados por mouros e judeus. Na agricultura, porém, a raça árabe era a única entre a qual se encontravam homens profundamente versados em todos os ramos dela. Abul-Hassan, cativo em uma arrancada, obtivera pela sua ciência agronômica não só um tratamento menos duro do que era usual entre os cristãos para com os servos, mas até por fim a liberdade, e com a liberdade um cargo que se casava com a sua educação e hábitos – o de jardineiro do horto pênsil. O toque principal do caráter de Abul-Hassan era a avareza: à força de ouro Egas alcançara dele muitas vezes, antes de partir para a Terra Santa, o ter entrada naquele lugar vedado, onde podia ver Dulce, quando ou as noites festivas ou os cuidados do governo retinham D. Teresa longe de sua filha adotiva. A experiência que tinha do poder do ouro na alma de Abul-Hassan fez com que entrando em Guimarães o buscasse, para com o socorro dele levar ao cabo o principal intento que ali o trouxera.

Tais haviam sido os meios de que usara o cavaleiro para se aproximar de Dulce. Por este modo era que ele se achava ali.

A recordação dessa época em que naquele mesmo sítio passara horas deliciosas aos pés da sua amante, que então inocente e pura era para ele como o anjo de Deus, que inspirava ao cavaleiro esforço e generosidade, e ao trovador os seus mais poéticos e harmônicos cantares; essa recordação, dizemos, devorava agora como um pensamento infernal o coração do pobre mancebo. Os riscos que naquele tempo dourado correra para ouvir promessas e juramentos de amor, palavras de esperança e de felicidade, ia-os correr de novo para receber talvez o último desengano. Que lhe importava? Sem ao menos ver uma vez Dulce é que ele não podia morrer. Morrer - que, traído, lhe seria a consolação derradeira!

Egas se havia dirigido ao mesmo lugar onde poucas horas antes o Conde de Trava ouvira da boca de Garcia Bermudes as desagradáveis novas da aproximação do Infante. O reflexo do tanque em que as estrelas se espelhavam guiara o cavaleiro para aquele sítio. Pelas ruas tortuosas que giravam por meio dos arbustos, e por entre os canteiros das flores, Egas chegara junto ao poial escondido no caramanchão fechado. Em vez de se acalmar a agitação que lhe despedaçava o coração, este bateu com mais violência ao entrar ali. Tudo estava como dantes, o céu, a noite, o jardim: só um amor de mulher mudara: mas esse amor fora para ele o universo, e o que via em redor de si não era mais que uma imagem mentirosa da realidade, lançada sobre o túmulo do passado, sobre as ruínas da sua íntima existência. Nas recordações de outrora havia para ele indivivel saudade, mas saudade árida e atroz, sem consolação nem lágrimas.

Assentado no poial, com a fronte entre os punhos, o pobre trovador engolfado em pensamentos tenebrosos parecia esquecido dos próprios intentos, do tempo que fugia, e dos riscos que o cercavam, quando, no meio do silêncio profundo que reinava no jardim, um tênue ruído veio despertá-lo da imobilidade externa em que o lançara o intenso viver da sua alma.

Este ruído o fez erguer a cabeça e lançar os olhos para o lado donde partia aquele som duvidoso: defronte dele, e bem perto, uma porta rodava lentamente sobre os gonzos; era a do corredor que dava para a sala d’armas. Egas pôs-se de pé, apalpou o punho da espada. Lembrava-se perfeitamente de uma noite – fazia nesta três anos – em que assim a vira abrir, e passar um cavaleiro, cujo vulto semelhava o do Conde de Trava. Esta noite lhe ficara gravada indelevelmente na memória, porque fora aquela em que vira Dulce pela última vez, partindo para o Oriente. A dous passos dele se aproximara o vulto encaminhando-se lento para os aposentos reais. Egas recordava-se bem desses instantes de receio e delícias, em que na mão de Dulce unida aos seus lábios sentira palpitar o amor e o susto; em que ele vira cruzar-lhe o delírio celeste da felicidade a imagem de um assassínio. Agora esta imagem, então negra e maldita, como que lhe sorria, porque não se misturava com idéias de ventura, mas com as agonias da desesperação. Daquela vez um suor frio lhe manara da fronte ao arrancar o punhal do cinto: desta o seu espírito quase folgava ao imaginar que alguém se encaminhava para ali da sala d’armas, e que ele tinha uma espada. Talvez Dulce aqui mesmo jurara a outro o amor que lhe mentira a ele! Talvez o seu rival a buscava!... refúgio deste pensamento; porque era um pensamento que parecia esmagar-lhe o coração.

Enquanto tudo isto indistinto, travado, doloroso, fugia pela sua alma com mais rapidez do que nós o exprimimos, a porta em que o cavaleiro tinha os olhos fitos, através da ramagem do caramanchão, acabou de rodar nos gonzos, e um vulto saiu para o jardim. A figura e o trajo eram de mulher. O seu andar vagaroso e incerto, o arquejar comprimido, o volver contínuo do rosto, como quem observava se era seguida, davam claros sinais da viva inquietação que a agitava. Trazia vestido singelamente um epitógio escuro, e os cabelos envoltos em rede tenuíssima de ouro. À escassa claridade, que derramava longínquo fulgir das estrelas, aquele vulto de mulher semelhava-se a um anjo perdido nas trevas do mundo e da noite, tanto as suas formas eram suaves e ao mesmo tempo severas, os seus meneios nobres e modestos. O cavaleiro olhou mais atentamente... Era Dulce! Um grito de amor, de cólera, de prazer, de indignação, conglobados em gemido infernal, esteve a ponto de lhe fugir por entre os dentes cerrados: mas uma vontade de ferro conteve aquele primeiro impulso. Dulce havia parado.

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