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O Bobo

Alexandre Herculano

E parara bem perto dele! – Egas aspirava o perfume de seus cabelos, cria ouvir-lhe o cicio do respirar, o ranger das roupas negras, e nos olhos o brilho de uma lágrima. Escutou. A donzela alçou a fronte para o céu e murmurou:

“Desventurado! – desventurado!”

O trovador descobriu nestas palavras a angústia do remorso: era por certo o remorso quem arrancara esta expressão de piedade àquela que o traíra. Quem havia aí, se não ele, que fosse desventurado?

“Toda a afeição de uma irmã eu guardarei para ti – prosseguiu Dulce. – Hei de cumprir essa promessa que fiz perante o Senhor que me ouve! mas o meu amor é já de outrem: como o repartirei contigo?”

A donzela parecia delirar: tinha os braços estendidos e as mãos unidas como implorando a piedade de algum ente só para ela visível.

Nesta postura, à luz duvidosa da note, em silêncio profundo, e no meio da atmosfera recendente e tépida agitada por leve aragem d’estio, a fascinação do amor era irresistível.

Aquela espécie de delírio em que Dulce caíra trocou-se repentinamente em impensada realidade. Um leve rugir de folhas secas a despertou do seu devaneio. No mesmo momento um cavaleiro coberto de saio e cervilheira de malha estava a seus pés, e segurando-lhe trêmulo uma das mãos lha cobria de beijos ardentes.

Todo o ciúme, toda a procela acumulada por dias de intenso martírio no coração de Egas, desaparecera.

“Meu Deus!” - quis bradar Dulce, aterrada. Os lábios não puderam todavia repeti-lo.

Mas instintivamente recuara.

O encanto que havia subjugado por um instante o mancebo quebrou-se então: a sua alma reconquistou o esforço da desesperação, que tão de súbito o abandonara.

Ergueu-se e recuou também; mas em pé, e cruzando os braços, olhou para a pupila de D. Teresa como o juiz para um réu.

“Faz agora três anos e um dia – disse ele com voz lenta e na aparência tranqüila – que neste mesmo lugar te jurei estar hoje aqui a teus pés! Meus juramentos cumpriram-se. Dulce, lembras-te dos teus?”

“Meu Deus! Egas! Tu aqui? Oh! que mal te fiz eu, para me matares com o inesperado da tua vinda?” – murmurou Dulce desfalecendo, e vindo cair nos braços do trovador.

Mas estes braços não se uniram para a estreitar contra o peito! O cavaleiro afastou-a de si brandamente, e prosseguiu:

“Não é minha a culpa se um raio caído do céu vem partir a cadeia dos teus dias risonhos tecida pela traição. Meus juramentos cumpriram-se. Dulce, que fizeste dos teus?”

O caráter de Dulce era um misto inexplicável de candura e de energia, em que a fraqueza própria do seu sexo era muitas vezes subjugada pelo sangue nobre e generoso que lhe girava nas veias – o sangue dos Bravais. A alegria súbita de ver Egas poderia ser-lhe fatal, se as palavras gélidas que ele lhe dirigia não houvessem temperado o delírio do primeiro instante. Nessas palavras conheceu a donzela que o ciúme era quem as ditava. O sentimento de injustiça com que o cavaleiro repelia a sua ternura a fez recobrar a consciência da situação em que se achava. Durante alguns momentos um silêncio profundo reinou entre os dous amantes, que olhavam fitos um para o outro. Dulce, por fim, tirando do seio um pequeno punhal, deu dous passos para diante, e arrojando para longe a bainha tomou-o pelo ferro, e oferecendo-o a Egas disse-lhe com voz a princípio firme, mas que brevemente as lágrimas cortaram:

“Quando há três anos, Egas, o nobre trovador, partiu para o ultramar, a sua amante na hora cruel da despedida pediu-lhe uma lembrança, que bem dizia com os seus tristes pressentimentos. Esta memória foi o punhal toledano que ele trazia consigo. Dulce era uma pobre órfã: podiam constrangê-la a ser infiel; e então cumpria-lhe morrer: foi para morrer que ela o pediu... Egas! - prosseguiu a donzela – os meus juramentos guardei-os até hoje: juro-o por Deus que nos ouve! Mas se me crês culpada, ou que eu possa vir a sê-lo, vinga-te da traição, ou embarga-me o trair-te.”

E estendia o punhal para o cavaleiro.

“Sabes que eu não poderia assassinar-te! – replicou Egas. – Nem para te assassinar vim aqui. O meu intento era outro... Qual?... Nem eu mesmo o sei... Trouxe-me mau grado meu a loucura da desesperação. Oh, sim!... agora me recordo... vinha para te dizer: - “Dulce, fizeste bem em trocar o foragido, o homem que só possui a pouca terra que lhe deixaram seus pais, que não ganhou ainda nos enredos cortesãos um único préstamo, pelo cavaleiro estranho que pode e vale tudo com o senhor destes prostituídos... vinha dizer-te que cumpri a promessa de estar outra vez a teus pés dentro de três anos. Estive a teus pés!... - Agora nunca mais perturbarei a tua dita. Escusas de perjurar ao Céu para negar o perjúrio...”

Dulce deixou cair o punhal, e estendendo para o cavaleiro as mãos confrangidas e trêmulas de aflição, interrompeu:

“A minha dita cifrava-se em tornar a ver-te; em ouvir de tua boca palavras de ternura: estas converteram-se em injúrias e escárnio. Caluniaram-me, e tu acreditaste a calúnia... Não devias fazê-lo. Perdôo-te; mas escuta-me!”

“Escuta-me tu ainda mais algumas palavras - replicou o mancebo -: são as derradeiras que me ouvirás! Tu foste a única imagem que eu via enquanto combati, e padeci, e sofri além-mar: para ti sonhava em sonhos de glória: por ti fiz ressoar as minhas endechas melancólicas debaixo dos cedros do Líbano, e com lágrimas de saudade refrigerei estes lábios queimados pelo sol ardente do deserto. O teu nome invoquei-o em mais de cem recontros, e ao invocá-lo aumentavam-se-me na alma o esforço e a constância. Tu eras a senhora dos meus pensamentos, a divindade do meu coração. - Voltei a Portugal, onde esperava achar a recompensa de tanto amor. Qual foi ela? O meu futuro inteiro caiu-me hoje aos pés desfeito em cinza; porque este futuro estava nas mãos de Dulce, e Dulce, que eu cria anjo, era apenas mulher!”

“Mata-me antes com esse ferro que jaz a ateus pés, - exclamou a donzela com voz débil e travada de choro - mas não me faças expirar nos tormentos intoleráveis das tuas palavras. Tem piedade de mim, Egas, e ouve-me! - que se me ouvires hás de arrepender-te, e dizer: “Dulce, tu és inocente!... Os que te acusaram mentiram-me!” - “Oh! escuta-me por piedade!”

E o tom daquelas expressões, e a postura suplicante da formosa órfã abrandariam o instinto de um tigre: o cavaleiro vacilou.

“Houvera eu, desgraçada, de dizer-te essas palavras; houvera de achar no horizonte da minha vinha uma beta de luz e esperança! Mas a boca de homem que nunca mentiu me confirmou sem o querer o que a fama confirmava”. - E depois de olhar para ela fito alguns momentos, prosseguiu: - “Não amas tu um desses aventureiros que oprimem a boa terra de Portugal? - Não vais ser em breve esposa...”

“Não acabes essa idéia terrível – atalhou Dulce com ânsia, que tocava quase as metas do frenesi. Esposa?! Só tua ou do túmulo. Nem o mundo, nem Deus teriam força para me constranger a tanto. As aparências enganam, Egas! Saberás a verdade - só a verdade -e sê tu o meu juiz.

O acento com que a donzela proferira estas palavras parecia tanto vir da alma, que a persuasão da infidelidade de Dulce, que tudo conspirara para arraigar no ânimo do cavaleiro, começava a trocar-se em hesitação porventura mais dolorosa que a certeza dessa infidelidade em que até aí estivera.

“Crês tu – replicou ele – que o peregrino expirando no meio das ânsias da sede devoradora recusasse a taça de água cristalina? – que o supliciado, no meio dos tratos de algozes, não quisesse ouvir a palavra basta! Da boca do juiz? – que o condenado rejeitasse o Céu pelo Inferno?... Oxalá que os últimos oito dias que tenho passado, e que devoraram anos e anos de meu viver, não houvessem sido mais que um pesadelo maldito. Anjo que vi despenhado, pudesse eu adorar-te ainda como anjo de luz! Se neste mundo há para Egas futuro e para ti inocência, salva-me de mim mesmo.”

Então Dulce apertando com um movimento convulso a mao do cavaleiro a encostou entre as suas ao peito, como se esperasse que no pulsar do coração ele pudesse conhecer que saía de lá pura e sincera a narração que lhe ia fazer.

Esta narração era a história do amor de Garcia Bermudes, amor a que ela respondera sempre com a dissimulação, como o leitor já sabe. Dulce nem disfarçou a espécie de afeição inocente que consagrava ao aragonês, e que dera origem às suspeitas que tão de leve o ciúme de Egas acreditara, nem os desejos do Conde e da Infanta de a verem unida àquele nobre e esforçado cavaleiro. Não lhe esqueceram os acontecimentos do último sarau, e a repulsa positiva que se vira finalmente constrangida a dar. Conhecendo o caráter altivo e ao mesmo tempo generoso de Garcia, entendera dever-lhe explicar a causa daquela repulsa, e fiar dele os segredos mais íntimos do seu coração, dando-lhe assim uma prova d’estima em lugar de amor. “Era esta derradeira consolação – concluiu Dulce – que eu acabava de dar àquele desventurado, quando tu vieste cego pelo ciúme despedaçar o coração da tua amante, que te sacrificava o homem que por certo amaria, se para ela houvesse neste mundo amor, pensamento, esperança, que não fosse Egas, que não fosse aquele que vai pedir-me perdão das suas suspeitas que tão tristes me tornaram os instantes que deviam ser os mais deliciosos da minha vida”.

As mãos do cavaleiro apertavam já com amor as de Dulce; por isso, enquanto falara, no rosto da donzela as lágrimas se haviam desvanecido pouco a pouco no deslizar de um sorriso.

“Dulce, Dulce! – exclamou o cavaleiro. – Oh! repete-me que só amas o teu Egas! Jura-me que é verdade tudo isso!”

“Farei mais – atalhou a donzela num êxtase de alegria. Arranca-me destes paços se há para isso algum meio. Abandonarei aquela que me criou como filha querida e seguir-te-ei a ti, que não podes abusar do meu amor, porque és um leal cavaleiro. Seguir-te-ei por toda a parte; no esplendor ou na miséria; na terra da infância ou nas solidões do desterro, na liberdade ou em ferros. Junto ao altar o nosso amor será santificado pela bênção de Deus, e eu serei tua, tua só, tua para sempre!”

E Dulce caiu nos braços do guerreiro trovador, que desta vez a estreitou contra o peito, e lhe imprimiu na fronte um beijo ardente e puro como os pensamentos de ambos. Naquele instante os seus corações trasbordavam de celeste e inefável ventura: não cabiam neles as grosseiras sensações terrenas.

“Tens razão! – disse o cavaleiro – de cima me veio a inspiração de buscar-te antes de morrer, porque tu me restituis a vida. Sim, irás comigo. Amanhã ao cair das trevas eu serem aqui. Todos os meios de fuga estarão preparados; no arraial do Infante, que não vem longe, acharemos brevemente abrigo, e aí seremos unidos pelo venerável Arcebispo de Braga.”

“Mas no meio de tantos homens d’armas, dos atalaias e vigias que guardam pontes, barbacãs e muralhas, não correrás grande risco?”

“Oh! não o receies – interrompeu o cavaleiro – o ouro e, se for preciso, o ferro nos abrirão caminho até o vau do Madroa. Esperar-me-ão no bosque os meus homens d’armas. Para transpor a barbaça talvez nos baste vestir as esclavinas de romeiros. Ninguém haverá tão ímpio que nos pergunte: - “Peregrinos do Santo Sepulcro, para onde é que vós ides?” - O romeiro é livre como a ave do céu: respeitam-no o besteiro e o homem d’armas: dá-lhe abrigo o vilão sob o seu colmo, o abade no seu mosteiro, o nobre no seu castelo. Quando ouvires cantar lá em baixo junto à torre aquela trova que eu fiz ao despedir-me de ti:

Vai-se o vulto do meu corpo;

Mas eu não;

Que a teus pés cá fica morto

O coração.

Serei eu que virei arrancar-te destes odiosos paços: e então serás minha, minha para sempre!”

“Mas se te descobrirem?... Oh, que é uma idéia terrível...”

Neste momento um silvo agudo soou na corredoura contígua ao jardim.

“É Abul-Hassan que me faz sinal – disse o cavaleiro estremecendo. – Devo deixar-te, minha Dulce.”

“Já!?” - murmurou a donzela.

“Sim, - replicou Egas – para poder sair ainda hoje de Guimaraves. Sem isso a tua partida fora amanhã impossível.”

Um véu de melancolia cobriu o coração de Dulce. Terror inexplicável se apossara dela, como se houvera de ser aquela a última vez que visse o cavaleiro.

“Parte pois; - disse com voz débil – mas ama-me sempre muito!”

Egas então caindo a seus pés, e pegando-lhe na mão com uma alegria que tocava quase as raias da loucura, cobriu-lha de beijos.

“Oh, amar-te!? – dizia ele. – mil vezes mais que a vida; cem vezes mais que a honra de cavaleiro! Amanhã! Amanhã... e para sempre!”

E erguendo-se rapidamente desapareceu no passadiço escuro, que dava saída para a corredoura.

Dulce parecia petrificada olhando para o sítio por onde Egas saíra, como quem tentava ainda descobrir a sua imagem, escutar a sua voz, do meio das trevas da noite e do silêncio profundo que a rodeada.

Não ouvia, porém, mais que o tropear de um cavalo que partia a galope, nem viu mais que a luz reflexa da sala do banquete que, batendo pelo interior das muralhas do castelo, tingia um grande lanço da cerca com a claridade baça e variegada que jorrava pelas vidraças de mil cores do festivo aposento.

Dulce ajoelhou e, alevantando as mãos juntas para o céu, onde cintilavam miríadas de estrelas que mal podia distinguir através das próprias lágrimas, exclamou com um gesto de íntima agonia:

“Meu Deus, meu Deus! Por que me desfalece a esperança?!”

Era o coração que lhe predizia algum sucesso terrível? – Quem sabe?

IX

O Desafio

O banquete que pôs termo ao memorável dia do ajuntamento solene dos barões e senhores de Portugal prolongou-se até alta noite. D. Teresa tinha aí aparecido rodeada de todo o esplendor real. Num estrado sobranceiro ao pavimento da sala, e debaixo de dossel formado das telas mais ricas saídas dos teares de Jaen e de Valencia, a bela Infanta viera presidir ao banquete dos seus ricos-homens. Assentada em uma cadeira, à qual o espaldar primorosamente lavrado de bastiães e arabescos e os braços e supedâneo dourados davam o aspecto de um trono, a Rainha de Portugal, da mesa que tinha ante si e em que particularmente era servida, enviava ora a um, ora a outro cavaleiro notável por sua linhagem, influência ou renome, alguma das iguarias mais delicadas que rapidamente faziam suceder umas às outras os peritos cozinheiros do paço de Guimarães, quase todos mouros ou servos ou libertos. Estas provas de distinção eram sempre acompanhadas de graciosas mensagens, que lisonjeavam o amor-próprio dos nobres senhores. Escusado talvez fora dizer que semelhante distinção a mereciam só aqueles que no conselho, por seu voto ou opiniões, se haviam mostrado firmes na causa da mãe contra o filho. Para aqueles que, como Gonçalo Mendes, se tinham mostrado parciais do Infante, apenas lançava a Rainha um olhar rápido, em que se misturava a cólera e ao mesmo tempo o desprezo, como se previsse já a hora do triunfo e, por conseqüência, do castigo. D. Teresa, que a partida de seu filho se mostrara triste e irresoluta, parecia nesta noite reassumir toda a sua energia. No seu rosto, banhado de uma alegria algum tanto forçada, conhecia-se-lhe o desejo de que lhe cressem o ânimo tranqüilo ao aproximar da procela. Dir-se-ia, até, que intentava fazer sobressair a sua formosura, que os anos, os cuidados do governo e os trabalhos das longas guerras que sustentara contra D. Urraca, e depois contra o Imperador, tinham assaz desbotado, mas que ainda faziam realçar os ricos trajos que naquele dia vestira. Eram estes um epitógio de grisisco orlado de peles mosqueadas, e apertado com um cordão entrançado de prata e seda de várias cores; uma coifa ou rede adornada de pedras preciosas que lhe retinha as longas tranças; um colar de ouro, o qual lhe caía sobre a camisa de ranzal alvíssimo, que em pregas miúdas lhe vinha fechar na garganta; e um amplo manto de ciclatom vermelho, que pendente dos ombros lhe rojava pelo chão. Com este vestuário, e no porte e meneios altivos, a Rainha trazia de certo modo à lembrança a nobre e majestosa figura de seu pai, o grande Afonso VI.

A causa desta repentina mudança estava nas novas que haviam chegado poucas horas antes. A audácia do Infante, a licença desenfreada com que os seus homens d’armas assolavam as vilas e honras do infantático, isto é, do que constituía propriamente o apanágio de D. Teresa, as violências que praticavam contra os vilões e homens de criação desses mesmos testamentos ou herdades, o furor com que derribavam os seus castros ou lugares fortificados, e sobretudo a intenção com que, segundo afirmavam os espias, o moço Príncipe se acercava dos muros de Guimarães, e que era nada menos do que lançar em prisão perpétua Fernando Peres e a própria mãe, tinham finalmente sufocado no coração desta a voz do amor materno. Quando o Conde de Trava, obedecendo às ordens que lhe transmitira o Capelão-mor, se apresentou perante ela, os olhos de D. Teresa faiscavam de cólera e de indignação. Debalde Fernando Peres lhe ponderou os inconvenientes de arriscar a sua fortuna e, o que mais era, a liberdade ou a vida em uma batalha campal: a violência do caráter varonil da Rainha que triunfara, ao menos momentaneamente, do mais profundo afeto, o amor maternal, não podia ceder às considerações da prudência. Declarou que a sua resolução inabalável era ir ao encontro dos rebeldes com os cavaleiros, besteiros e peões, pela maior parte estrangeiros, que de contínuo chegavam a Guimarães, atraídos pelos grossos censos ou soldos que lhes oferecia o Conde. Os instintos guerreiros de D. Teresa, que os anos e os reveses haviam amortecido, despertavam de novo vigorosos na hora em que era necessário encarar face a face os perigos que até este momento ainda pareciam remotos.

Assim, esta noite passava bem diferente daquela em que no meiode alegre sarau só a bela Infanta, mau grado seu, se mostrara triste e aborrecida. Aqui eram os cavaleiros que pareciam inquietos e desconversáveis: os dous bandos bem sabiam que não tardava o dia em que se encontrassem novamente, não na mesa do banquete, mas no campo das lides, onde o escorrer do sangue nos ferros substituiria o escumar do vinho nas taças de prata. Para eles esta festa brilhante correspondia à ceia do algoz e do sentenciado debaixo das abobadas de um cárcere na véspera do suplício. Qual era o saião? – qual a vítima? Eis o que ninguém sabia.

Mas talvez nenhum gesto dava mostras, não de melancolia mas de inquietação, como o do Conde de Trava. De instante a instante ele volvia os olhos para o portal da sala d’armas, como se esperasse alguém; e de feito um lugar à sua esquerda ficara vazio na esplêndida mesa ao começar do banquete. Era o do novo Alferes-mor. Este, desde que se apartara do Conde, ninguém mais o tinha visto.

Muito havia já que era noite, e as taças, que os escanções, correndo por detrás das longas fileiras de cavaleiros com os pichéis nas mãos, enchiam de novo apenas eram esgotadas, começavam a fazer o seu oficio: as frontes iam-se pouco a pouco desenrugando e soltando-se as línguas. Nos banquetes daquela idade rude e feroz às vezes o sangue corria como pospasto, e quase sempre a conclusão do festim era uma orgia infernal em que o convívio se tornava a cena abjeta de embriaguez. Não era raro em semelhantes ocasiões ver os paços dos nobres, e ainda dos reis, convertidos numa cousa hedionda e duvidosa entre a taberna, em que os filhos dos bem-nascidos mostravam que a distância moral, que eles supunham separá-los da mais vil gentalha, na realidade não existia. Se, porém, os longos sanguinolentos homizios entre linhagem e linhagem se originavam facilmente das festas mais pacíficas, em meio das taças cheias pela mão de cordial hospitalidade, muito mais de recear era alguma rixa funesta entre homens, que guardavam no coração, uns contra os outros, os mais profundos ódios humanos, os ódios dos bandos civis.

Estas considerações que haviam ocorrido ao Conde ao perceber a conversação, no principio lânguida, ir-se tornando viva e veemente; considerações em que não reparara a tempo, atento ao sistema que adotara d’esconder os seus receios e o perigo da sua situação com as aparências de tranqüilidade, eram agora para ele motivos de sérios temores. A tardança, porém, do Alferes-mor o inquietava ainda mais. A Rainha não devia dar o sinal de acabar o festim, sem que ele soubesse com certeza se tudo estava disposto para impedir a saída de Guimarães àqueles que a tentassem. As masmorras do castelo deviam povoar-se nessa noite de todos os ricos-homens da corte com quem o Infante contava; mas a segurança deste golpe, que iria transtornar as esperanças do moço Príncipe, dependia inteiramente da execução daquilo que tinha ordenado a Garcia Bermudes.

Este entrou enfim na sala; mas em vez de se dirigir ao lugar que parecia haver-lhe sido guardado, rodeando a multidão de pajens enfileirados em pé atrás de seus senhores, e passando por entre o tropel dos sergentes, escanções, uchões e outros ovençais, que atendiam ao serviço do esplêndido banquete, buscou aproximar-se do Conde, mas de modo tal e colocando-se em sítio onde dele fosse visto, sem que os cavaleiros, nos quais as amplas libações do pospasto começavam a produzir ruidosa alegria, o pudessem observar. Dali esperou que Fernão Peres se apercebesse da sua chegada.

Como ele viera, não da sala d’armas, porém da galeria contígua, que comunicava exteriormente com ambos os aposentos seguindo todos os ângulos e sinuosidades daquela face do edifício, correu algum tempo antes que o Conde reparasse no cavaleiro; tanto mais que a sua atenção era distraída pelo que se passava no topo da mesa fronteira a ele.

Era aí que o Lidador se vira obrigado a ir assentar-se quando voltara com Fr. Hilarião de falar ao homem do zorame: os outros lugares estavam já povoados de cavaleiros, e por um acaso bem desagradável ele se achava ao lado de Veremudo Peres, de quem no conselho recebera injúrias que retribuíra com mão larga. Assim durante muito tempo conservou-se em silêncio; mas o respeitável exemplo de Fr. Hilarião, que vivia numa horrorosa incerteza sobre as verdadeiras dimensões da hemina, incerteza que se convertia em confusão completa ante as copas de prata de um jantar opíparo, o havia incitado a imitar o santo monge; e quando o banquete começou a aproximar-se do seu termo, Gonçalo Mendes, com aquela filosofia e equanimidade, que inspira às vezes o sumo da vide, parecia arrostar alegremente com o olhar malévolo da Rainha e com as demonstrações de favor que dava aos senhores seus parciais, favores que antes eram uma injúria para aqueles que se mostravam favoráveis às pretensões do Infante, que uma recompensa de fidelidade a ela. O licor de Baco, como diria um poeta da Arcádia, fizera, porém, mais do que isso: fizera soltar a língua do Lidador, e, sem saber como, ele se achou envolvido numa disputa com Veremudo Peres, a qual chamara a atenção não só dos cavaleiros que se achavam mais próximas, mas até do Conde de Trava e de D. Teresa.

Foi por tal motivo que ninguém reparou na entrada do Alferes-mor. O gesto carregado deste exprimia uma tristeza profunda, e o seu olhar incerto dava indícios de que lhe revoavam na alma grandes cuidados. Quais estes eram sabe-os já o leitor. Garcia Bermudes antes de correr as torres, adarves e barbaças, e de ter disposto tudo para que nenhum dos cavaleiros que deviam assistir ao banquete pudesse afastar-se do castelo e do burgo, viera ter com Dulce no lugar aprazado. A declaração que ela lhe fizera de que amava Egas Moniz tinha apagado no seu coração o último raio de luz. Esse momento fora terrível, mas ao menos o seu amor desprezado podia converter-se em ódio, e a sua desesperação em sede de vingança. Entre ele e Dulce não estava a indiferença, estava outro amor, um rival, um cavaleiro da linhagem de Riba do Douro! As suas paixões convertiam-se todas numa só, o ódio; e por esta como que lhe resfolegava o espírito. Era esperança tenebrosa e sanguinolenta a que lhe sorria, mas, enfim, era uma esperança!

Fernando Peres tentava escutar o que se dizia na outra extremidade da mesa, quando sentiu puxarem-lhe pela orla do brial. Voltou-se: era Tructesindo. O esperto pajem tinha notado quão freqüentes vezes seu tio lançara os olhos inquietos para a porta: isto lhe provara que esperava alguém, e a falta do Alferes-mor que esse alguém era ele. Atento então a ver se o descobria no meio dos sergentes que entravam e saíam da sala, vira-o chegar. O modo por que se postara atrás dos escudeiros confirmou-lhe as suspeitas. Hesitou algum tempo, mas finalmente resolveu-se a sair da fileira dos pajens e a chegar-se ao Conde.

“Meu Senhor e tio, - disse o rapaz em voz baixa – vede Garcia Bermudes que despreza o seu lugar de cavaleiro: - e acrescentou - não o faria eu, se como ele calçasse acicates dourados.”

“Por essa nova que me deste os mereces, meu sobrinho – respondeu Fernando Peres no mesmo tom. – Tê-lo-ás mais cedo do que esperas, se bem desempenhares o que te vou ordenar.”

Fitara os olhos no Alferes-mor: o sinal que este lhe fez desoprimiu o coração do Conde.

“Tructesindo, - disse ele ao pajem – aproxima-te da Rainha o mais que puderes, e dize a qualquer dos seus donzéis de modo que ela te ouça: é tempo de acabar o festim.

Daí a pouco, o mordomo da cúria descendo do estrado, onde estava em pé a pouca distância de D. Teresa, acercou-se do topo da mesa dos cavaleiros, e parando junto de Fernando Peres:

“Senhor Conde de Portugal e Coimbra – disse – nobres ricos-homens destes senhorios, infanções de além Douro e aquém Minho, cavaleiros, prestameiros e alcaides, a mui excelente Rainha dos portugueses vos roga espereis o romper da alvorada para voltardes a vossos castelos e solares. Os chefes de linhagem, que possuem paços ou bairros coutados e honrados no burgo de Guimarães, não recusarão guarida por uma noite aos de seu sangue: os outros serão albergados neste mesmo castelo. São as ordens que recebi de minha graciosíssima Senhora.”

Ninguém respondeu; porque D. Teresa ergueu-se imediatamente e, fazendo uma leve cortesia aos cavaleiros que se tinham posto em pé, saiu do aposento.

Este acontecimento preveniu talvez algum caso funesto entre o Lidador e Veremudo Peres. A sua disputa política tinha chegado a tal ponto, que debalde havia tentado pôr-lhe termo o mui pacífico Abade beneditino. A confusão, porém, que produziu na sala tanto a oferta da Rainha como a sua repentina partida separou os dous contendores, a quem a cólera ia brevemente fazer esquecer o lugar onde se achavam.

Os senhores e cavaleiros apenas a Rainha partira se haviam espalhado pela sala do banquete e pela sala d’armas. O sino de recolher ainda tardaria a soar na torre alvarrã do castelo, e a maior parte deles saiu pouco a pouco do paço e desapareceu pelas ruas torcidas do burgo, onde nas pousadas dos de sua ou de alheia linhagem foram no meio do jogo e da embriaguez concluir o festim subitamente interrompido.

O Conde de Trava ficara. Quando viu quase ermo o aposento, dirigiu-se para Garcia Bermudes, que entregue a distração melancólica se encostara à balaustrada que dividia em parte o estrado da Rainha do resto da sala. Chegando junto dele, o Conde, pondo-lhe a mão sobre o ombro, perguntou em voz baixa:

“Estão de feito tomadas todas as portas do burgo? Não poderá sair cavaleiro algum?”

“Nenhum – respondeu o Alferes-mor. - Os roldas e sobre-roldas giram nas quadrelas das barbaças: vinte besteiros de pé, lançados entre estas e as barreiras e junto das pontes levadiças da cárcova, vigiam exteriormente: um troço de corredores almogaures corre no campo em volta do castelo e do burgo. Ardiloso e valente precisa de ser o que tentar evadir-se.”

“Excelente! – replicou o Conde, sorrindo com a idéia de reter em lugar seguro uma parte dos seus inimigos. – Agora – prosseguiu ele – dize-me ainda: o nobre Alferes-mor, que enquanto nós folgávamos nas delícias de um banquete velava por nós lá fora como leal cavaleiro, não viu luzir no céu, por entre as trevas da noite, a sua estrela feliz?”

“A minha estrela é maldita – respondeu o cavaleiro com aspecto carregado. – Não há para mim luzir no céu a esperança! Felicidade? Não é no mundo que eu a hei de encontrar?”

“Quem sabe? – tornou o Conde, em cujas faces passara fugitivo sorriso – e, voltando-se para Tructesindo que se conservava a alguma distância com os olhos no chão, continuou: - Vem cá, meu gentil pajem, hoje será uma noite aziaga para os traidores, porque será a da justiça, mas de justiça reta e imparcial: a recompensa corresponderá ao méritos. Repete o que de relance me disseste ao começar o banquete: busquemos achar o fio desta teia infernal.”

Então o pajem narrou o que percebera da conversação entre Gonçalo Mendes, homem do zorame e o Abade do Mosteiro de D. Muma. A sua narração era incompleta, mas ouvira o nome d’Egas Moniz, e que este viera do campo do Infante. Quem duvidaria já de que existisse uma vasta conjuração dentro do próprio recinto de Guimarães? Que outros motivos trariam ali um dos mais ilustres cavaleiros da linhagem do implacável e manhoso aio de Afonso Henriques? Estas reflexões ocorriam de tropel ao Conde escutando a narração do seu pajem.

Quando este chegou a proferir o nome d’Egas, um grito fugiu dos lábios do Alferes-mor. Fernando Peres alçando os olhos encontrou os dele, que pareciam faiscar. Era a cólera, o ciúme, a sede da vingança? Era talvez tudo. O Conde interpretou este grito e este olhar pelos próprios pensamentos.

“Tens razão, Garcia – disse ele. Indignas-te de ver que homens, cheios de benefícios e honras pela Rainha de Portugal, venham nos seus paços dela urdir o trama dos seus pérfidos desígnios. Mas estão em meu poder, e nada há aí que os salve. Possa eu encontrar ainda em Guimarães o audaz cavaleiro que ousou entrar na caverna do tigre! O algoz e o cepo selarão com sangue a fiel amizade dos infames. Egas, não te esconderá teu disfarce! Gonçalo Mendes, não te valerá nem a espada nem o orgulho de rico-homem! Monge hipócrita, não te salvará tua mortalha de homem vivo. Roma o que pede é ouro, quando defende o seu rebanho de garnachas e cogulas, e a tua cabeça não a cedera eu agora a a troco de mil áureos mouriscos.”

Assim a profunda indignação, que o Conde acreditara ler no gesto do Alferes-mor, saía como uma torrente do seu próprio coração.

Depois refletiu um momento, e reassumiu outra vez o seu aspecto habitual de serenidade. Não fora para vibrar vãs palavras de ameaça que se aproximara de Garcia Bermudes. Após breve pausa prosseguiu gravemente e em voz assaz alta para ser ouvido no outro extremo, onde ainda restava um pequeno grupo de cavaleiros:

“Senhor Alferes-mor, esperai aqui as ordens da nossa mui excelente Rainha, que tem de comunicar-vos importantes negócios. Eu voltarei a chamar-vos, quando assim lhe aprouver.”

Proferidas estas palavras saiu da sala, e encaminhou-se para os aposentos interiores pela mesma porta por onde a Rainha saíra.

Apenas Fernando Peres desapareceu, Garcia Bermudes travou do braço de Tructesindo, e em tom solene disse-lhe:

“Pela minha fé juro que o pajem Tructesindo amanhã cingirá sobre o brial a espada de cavaleiro, se cumprir o que lhe vou dizer, e se jurar também guardar sobre isso perpétuo silêncio.”

“Juro, juro! – interrompeu o donzel. - Dizei depressa o que pretendeis. Seja o que for, e venham as esporas douradas.”

Era a idéia fixa do diabólico pajem.

Garcia Bermudes arrancou violentamente uma bolsa de couro dourada que, segundo a moda do tempo, lhe pendia do cinto: abriu-a; tirou de dentro um pequeno pergaminho, e entregando ao donzel uma e outra cousa continuou:

“Vai, e busca encontrar o incógnito que ontem falava a sós com Gonçalves Mendes e Fr. Hilarião. Afirmas que lhe viste o rosto: o seu nome já o sabes. Faze vigiar o mosteiro e a pousada do Senhor da Maia: não poupes nem diligências nem almorabitinos, que essa bolsa vai bem recheada. Se o descobrires entrega-lhe este pergaminho: que o mostre aos vigias e roldas, e eles o deixarão sair da cerca do burgo, o que sem isso lhe fora impossível. Em recompensa disto, dize-lhe que Garcia Bermudes exige que amanhã, duas horas antes do Sol posto, esteja com suas armas e a cavalo no Souto que se dilata além do vau de Madrosa; e que se não o fizer é desleal e covarde.”

“A causa é dificultosa – replicou o malicioso donzel. – E se hoje não o descobrir?”

“Demônio! – respondeu o Alferes-mor batendo o pé no chão de impaciência. – Procura-o toda a noite, toda a manhã, todo o dia! É preciso que o encontres, se queres a nobre dignidade de cavaleiro. Entendes? Sem isso, enquanto Garcia Bermudes for Alferes-mor, conta que não a obterás.”

Não havia remédio: Tructesindo agarrou na bolsa e no pergaminho. Depois atravessou vagarosamente a sala, levantando a touca pelo lado de trás com o índex e coçando o toutiço. Ele tinha razão: a empresa era dificultosa.

Garcia Bermudes caiu então no seu habitual cismar. “Ao menos – pensava o cavaleiro – nunca ela dirá que a minha vingança foi vil e desleal.”

Daí a pouco uma voz que soava da porta dos aposentos interiores veio despertá-lo dos seus devaneios. Era o Conde que com aspecto risonho dizia:

“A mui excelente Rainha ordena venha imediatamente perante ela o nobre Alferes da hoste de Portugal.”

X

Generosidade

Acompanhando o Conde de Trava, Garcia Bermudes atravessou a série dos aposentos que precediam o quarto da Rainha, até uma pequena sala imediata à antecâmara real. Apenas os dous cavaleiros chegaram ali, um donzel que estava em pé junto da porta fronteira à da entrada, afastando um rico pano que mascarava esta e curvando-se respeitosamente, proferiu algumas palavras que os dous não perceberam. Pouco tardou que D. Teresa aparecesse. Trajava ainda o vestuário esplêndido com que assistira ao banquete, e a viveza desacostumada que conservava no olhar fazia crer que a irritação do seu espírito, despertada pelas últimas novas recebidas do arraial do Infante, não havia inteiramente cessado. O numeroso séqüito das suas donas e donzelas não a acompanhava, e com tremor involuntário Garcia notou que Dulce era quem unicamente a seguia.

Apenas entrou, a Rainha encaminhou-se para os dous, que sucessivamente lhe beijaram a mão ainda formosa. Depois, dirigindo-se a Garcia Bermudes, mas volvendo rapidamente os olhos de quando em quando para o Conde, lhe disse:

“Cavaleiro, leal é o teu coração, o teu braço esforçado, tua condição nobre a altiva: por isso te escolhi para Alferes da minha hoste. Houve um tempo em que a filha de Afonso de Leão mal sofrera que outra voz diferente da sua surgisse no meio do silêncio dos cavaleiros de Portugal atentos ao brado de acometer. Esse tempo já lá vai! Hoje não sou mais que pobre viúva a quem o filho ingrato quer privar da herança que recebi dos Reis de quem descendo. A ti e ao nobre Conde de Portugal e Coimbra pertence o salvar-me. Ele será o teu primeiro homem d’armas, e como ele todos os que ainda não desmentiram o preito que me devem te obedecerão. Assim começo eu a provar-te quanto prezo um dos mais ilustres cavaleiros de Espanha.”

A Rainha fez uma pausa. O Alferes-mor aproveitou aquela interrupção e respondeu visivelmente perturbado:

“Demais, Senhora, me tendes provado a vossa talvez infundada estima: maior do que a realidade me tendes feito acreditar o esforço do meu braço. Encontrando por vós uma honrada morte no campo da batalha eu só poderei mostrar que era, pela lealdade, se não digno de tantas honras, ao menos digno da vossa confiança.”

“Não falemos de morte” – atalhou D. Teresa. – Tais pensamentos são de mau agouro nas vésperas de combater. A tua vida me é cara, e brevemente ela te não pertencerá toda a ti. A mais grata recompensa da tua lealdade, Alferes-mor de Portugal, vais tê-la.”

D. Teresa tomou então pela mão a filha de D. Gomes Nunes e, fazendo-a adiantar alguns passos, prosseguiu:

“Esta é a recompensa!”

O Conde, que preparara aquela cena, dava todos os sinais de contentamento ao ver o espanto de Garcia Bermudes, que recuara ao ouvir semelhantes palavras. Fernando Peres obtivera com grande dificuldade que D. Teresa assim constrangesse Dulce a dar a mão d’esposa a um homem que não amava. Não lhe escondera ele que isto era uma violência; e sem o desgraçado predomínio que tinha no coração da Rainha as suas diligências sairiam baldadas. Por isso com sobeja razão exultava.

Uma palidez mortal cobrira o rosto de Dulce ao ouvir as palavras da sua mãe adotiva, que lançara para ela o olhar que o algoz noviço volve para a sua vítima antes de desfechar o golpe. A Rainha sentiu-lhe palpitar o terror na mão que tinha apertada na sua.

“Oh Senhora!” – murmurou a donzela alevantando os olhos para a Rainha, com uma inflexão de voz tão meiga, tão tímida e tão dolorosa, que a bela Infanta sentiu apertar-se-lhe o coração.

“Vamos, formosa Dulce, - interrompeu Fernando Peres, que leu no gesto de D. Teresa o vacilar da sua alma – sê conosco sincera. São mal cabidas aqui palavras fingidas de desamor. Certo que tu suspiravas pelo momento em que pudesse chamar teu um dos mais gentis e esforçados cavaleiros de Espanha. Esse momento chegou...”

“Mas... Senhor Conde!” - interrompeu balbuciando o Alferes-mor.

“Basta, Garcia Bermudes – prosseguiu o Conde, carregando o sobrolho. – És meu amigo, e a mui excelente Rainha oferece-te para mulher a sua filha adotiva, a herdeira do nome dos Bravais. Não é digna de ti? Não és tu digno dela? Esta união prender-te-á, se é possível, à terra que tomaste por pátria, e eu assim to ordeno. Sei que era esse o pensamento contínuo do teu espírito, o alvo a que tendiam todos os afetos do teu coração.”

O leitor conhece já o caráter de Dulce: o primeiro instante de uma situação arriscada era para ela o da fraqueza mulheril, mas era só um instante. Mediu o abismo que se lhe abria debaixo dos pés... Um dia mais e estava salva! Era necessário resistir: era necessário coligir todas as roças da sua alma. Trêmula, mas com energia, atalhou Fernando Peres:

“Não, Senhor de Trava! Aquela que foi segunda mãe de Dulce; aquela que sempre se lhe mostrou generosa e indulgente; a Rainha de Portugal tem direito a dispor da sua mão; tem direito a recalcar-me no fundo d’alma todos os afetos, a fazer-me devorar em silêncio as minhas lágrimas. Se não pudesse dobrar-lhe a vontade, se ela fosse inflexível, obedecer-lhe-ia... ou morreria talvez! Mas vós, Senhor Conde, qual é vosso título para constranger minha vontade? Fostes vós que honrastes o solar dos Bravais? Recebeu D. Gomes Nunes algum préstamo de vossa mão? Que vale que vós digais – “ordeno-o” – se eu, nobre e livre, se eu, neta dos godos, vos responder: - “não será?”

A Rainha olhava atônita para Dulce, cuja palidez e voz trêmula desmentia a resolução das suas palavras. O furor do Conde, cujo ânimo os acontecimentos desse dia tinham sobejamente irritado, ouvindo aquelas expressões que tocavam as raias do desprezo, rebentou subitamente. Esqueceu-se do fingido respeito que em toda a parte mostrava pela Rainha, e principalmente na sua presença, para só se lembrar de que realmente ele era o verdadeiro senhor nos paços de Guimarães, desde que D. Teresa lhe entregara corpo e alma.

“Quem é que ousa aqui dizer – “não será” – ao Conde de Portugal e Coimbra? – bradou ele com um rugido feroz que fez tremer a donzela. – Quem ousa nestes paços resistir à minha vontade? – E depois de uma breve pausa, prosseguiu, dando uma risada: - Ah, sois vós, nobre herdeira dos Bravais, vós a que não tendes nenhum préstamo de minhas mãos?Sois vós a que recusais obedecer-me?

Depois de outra vez ficar alguns momentos calado, continuou em tom de mofa: - Podeis, Senhora, ordenar que soem as trombetas e timbales nos vossos castelos e honras; que os vossos alcaides juntem os cavaleiros, os vossos vílicos os besteiros, archeiros e fundibulários; que os vossos alferes desenrolem os balsões dos Bravais, para marcharem contra o mísero Conde de Portugal em lide de homizio! - “Não, Senhor de Trava!?” - Sim, vos digo eu, donzela! Sim, que é força assim seja! Dizei-me só por muita mercê: é o pudor virginal quem vos obriga a rejeitardes a mão de tão gentil cavaleiro?”

Fernando Peres cruzou os braços e cravou na donzela o seu olhar de gerifalte. Dulce, aterrada com as palavras e gestos daquele homem orgulhoso, tinha caído de joelhos aos pés da Rainha e, apertando-lhe com as mãos convulsas a barra do epitógio, exclamou:

“Oh! Salvai-me-salvai-me!”

Dolorosa era a situação de D. Teresa. Amava sinceramente Dulce; mas entre ela e o Conde havia laços que não podia, que não quisera quebrar. Aquelas expressões insolentes de Fernando Peres, a audácia com que ele substituía a própria vontade à sua, tinham uma significação terrível; despertavam-lhe recordações e remorsos!

O primeiro impulso do seu espírito altivo foi a indignação; mas a vergonha, talvez o temor, lhe embargou o manifestá-la. Abaixou o rosto, e duas lágrimas lhe escorreram pelas faces.

O Alferes-mor, porém, a fez sair daquele estado violento.

“Não, - disse ele aproximando-se de Dulce – não serás minha vítima! Garcia Bermudes nunca se esquecerá do dever de cavaleiro. Seria acaso a minha vida mais risonha possuindo-te, quando o teu coração... me rejeita? – Sê livre! – Recuso a posse de Dulce, Rainha de Portugal!”

A pobre donzela largou os vestidos de D. Teresa e, pegando na mão do cavaleiro, beijou-a soluçando!

“Eu te amarei como um irmão – exclamou ela! – Eu te adorarei como um Deus. Oh! tu sabes que só assim...”

“Silêncio!...” – interrompeu nobremente o cavaleiro; porque percebeu que Dulce na agitação em que se achava ia trair-se a si própria e revelar o seu segredo.

O Conde continuava a contemplar esta cena com os braços cruzados e com um riso cruel nos lábios. Dirigindo-se então à Rainha, prosseguiu no mesmo tom de ironia amarga:

“Bem se vê, Senhora, que o vosso Alferes-mor foi armado cavaleiro pelo Cid Rui Dias. Guarda puras as tradições daquele espelho brilhante de todas as cavalarias. Mas eu, fraco mortal que não ponho tão alta a mira, penso mais tranqüilamente! Garcia Bermudes! Dulce! Escutai o que vos digo: são as minhas derradeiras palavras. Amanhã a estas horas o Alferes-mor de Portugal terá uma esposa, e esta esposa será a nobre e rica herdeira dos Bravais.”

E voltando-se para D. Teresa ajoelhou, beijou-lhe as mãos, e disse:

“Espero que a mui excelente Rainha, no momento em que vai recolher-se à sua câmara, permitirá que o mais leal dos seus vassalos se retire também para não perturbar os colóquios de dous amantes na véspera do seu noivado.”

A inflexão que o Conde dera a estas últimas frases tinha o que quer que era atroz e diabólico. D. Teresa estremeceu como sacudida por uma corrente elétrica e, atravessando vagarosamente a sala, desapareceu.

Fernando Peres, encaminhando-se para o lado oposto, ouviu Garcia Bermudes repetir com voz firme:

“Não: tu nunca serás minha!”

O Conde voltou a cabeça sem parar, encolheu os ombros e saiu.

Dulce, que ficara na postura em que se achava com a mão do Alferes-mor entre as suas e a fronte pendida sobre ela, alevantou então os olhos e fitou-os no cavaleiro: o rosto deste era solene e triste.

“Estás satisfeita, Dulce?” – perguntou o aragonês.

“Tu és bom e generoso, Garcia! Tu és bom e generoso! – murmurou a filha de Gomes Nunces. - Pudera eu oferecer-te um coração ainda virgem! Oh, de quanto amor eu cercaria os teus dias!”

“Basta! – interrompeu o cavaleiro perturbado. - Que te importa, anjo do Céu, se ao passares na terra os raios da tua luz devoraram uma existência? Que importa?!... Oh, que nesta idade de vida e de esperanças custa muito a morrer!”

O Alferes-mor levou as mãos ao rosto. Era porventura uma lágrima, e o mancebo envergonhava-se dessa lágrima, neste doloroso momento; porque não era só doloroso, mas também grave e solene.

“Ó Garcia, Garcia! – replicou Dulce. – Qual gratidão poderá exceder a nossa para contigo?! Tu me salvaste e o salvaste a ele. Egas ser-te-á amigo, irmão, servo...”

“Que nome saiu da tua boca?! – bradou o aragonês, com olhos subitamente acesos de furor. - Irmão! amigo! Amaldiçoada a hora em que entre nós se dissessem essas infernais palavras! Cuidas tu que o amar-te, a ponto de renegar áa minha alma, da minha perpétua felicidade, é não detestar a ele?...”

Aqui, apertando com força o braço de Dulce e fazendo-a erguer, continuou com voz presa:

“Olha, Dulce, amanhã... Mas não!... Se a sua vida for assaz larga para te possuir... e essa vida provará talvez que ele é um covarde... dize-lhe que, se algum dia duas hostes estiverem frente a frente em lide ou arrancada, e eu for em uma e ele noutra, que fuja do sítio onde vir esvoaçar o balsão de Garcia Bermudes... Que fuja! porque há aí uma espada que tem sede do seu sangue; porque há aí lábios que lhe beberiam; porque bate aí impetuoso o coração de um seu inimigo mortal! E dize-lhe mais... que este inimigo sou eu! Dize-lhe que não há sobre a terra um lugar onde caibam ele, eu, e o meu ódio!”

Proferindo estas palavras, o gesto do cavaleiro estava demudado. Afastou de si a donzela com violência e dirigiu-se rapidamente à porta dos aposentos exteriores.

Um gemido de profunda agonia bateu ainda nos seus ouvidos ao atravessar a sala imediata; e o desgraçado fugiu. Arrastava-o a desesperação.

Aquele gemido partira do seio de Dulce, que dera em terra como se fora morta.

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