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O Bobo

Alexandre Herculano

XIII

A Boa corda de Cânave de quatro ramais

A situação de D. Teresa, quando o trovador entrou em Guimarães, era na verdade terrível. A cólera que nessa noite trasbordara do coração do Conde, e a sede implacável de sangue e de vingança que o devorava fizeram conhecer claramente à Rainha que para Afonso Henriques não havia esperar dele nem paz nem perdão. Esta certeza avivara, enfim, na sua alma os sentimentos de mãe, sentimentos que já não podiam ser para D. Teresa senão uma nova causa de desventura. Tinha jurado perante os cavaleiros do Conde sair com eles à lide e, quando ousou falar de reconciliação, o Senhor de Trava com palavras de respeito hipócrita e de verdadeiro escárnio lhe recordou a promessa que tão recentemente havia feito. Subjugado pelo predomínio infernal, que nele alcançara Fernando Peres, aquele pobre coração de mulher, que cria sentir em si os brios de um coração de homem, sabia apenas despedaçar-se numa contínua alternativa de afetos. Temendo que as suas palavras revelassem ao mensageiro do Infante a fraqueza materna, o filho de Pedro Froilaz lhe proibira o escutá-lo, reservando para si o rejeitar todas as proposições que não fossem as de completa obediência. Quando, porém, soube quem era o cavaleiro que trazia a mensagem, o Conde não pôde deixar de sorrir da audácia insensata do mancebo. Apesar do silêncio que o generoso Garcia Bermudes guardara acerca dos amores de Dulce, o Conde concebera veementes suspeitas da existência destes. A vinda d’Egas a Guimarães disfarçado podia ter bem diverso motivo: mas a indiferença da filha de D. Gomes Nunes para com a paixão do Alferes-mor, de um homem que aliás ela parecia prezar; a missão inútil que este dera a Tructesindo, e que o falador e inquieto pajem não tardara a relatar ao seu poderoso parente e senhor; o empalidecer de Garcia Bermudes apenas ouvira proferir o nome d’Egas Moniz; tudo isto foi para ele um raio de luz. Resolveu perscrutar o efeito que a presença do cavaleiro produziria no Alferes-mor. Era o modo de verificar as suas suspeitas; e por isso lhe ordenou o acompanhasse com outros filhos-d’algo à sala do conselho, onde devia receber a mensagem do Infante.

Tal é o caráter das almas vingativas que, se nas mais graves situações da vida se lhes oferece o ensejo de uma vingança mesquinha, seguem este ensejo com o mesmo ardor que empregam naquilo a que estão ligados os seus mais importantes interesses. A idéia de atormentar Egas, o pupilo querido do odioso Senhor de Cresconhe, e de achar talvez na revelação do amor do mancebo pretexto para faltar à fé que devia a um mensageiro indefenso, por isso mesmo que era uma idéia vil e maligna, se lhe tornava numa espécie de deleite e remanso no meio da tempestade que lhe agitava o ânimo.

Entrando na sala, onde o Conde, em pé e rodeado dos mais ilustres barões, o esperava, o trovador se dirigiu para ele com passo seguro e gesto altivo. Parou, fazendo uma leve inclinação de cabeça: depois, mirando em roda, os seus olhos se encontraram com os do Alferes-mor, cujo cargo o lugar que ocupava junto ao Conde suficientemente indicava. Tanto os de um como os do outro pareceram lampejar: abaixaram-nos ao mesmo tempo. O rosto de Garcia Bermudes empalideceu: ao d’Egas subiu a vermelhidão da cólera. “O ódio de Garcia Bermudes é mais profundo, pensou Fernando Peres, que os observara. E com razão, ele é desprezado.” As suas suspeitas realizavam-se.

Imóvel, calado, e alçando de novo os olhos para os fitar no Conde de Trava, Egas Moniz esperava que este o mandasse falar.

“Dói-me, Senhor Cavaleiro – disse o Conde – que os paços de Guimarães vos não possam receber como hóspede e amigo. Má demanda voz traz aqui por mensageiro de rebeldes, se não é que em nome deles vindes implorar a piedade da mui excelente Rainha de Portugal, que me ordenou recebesse vossa mensagem.”

“Ao que vim dir-vo-lo-ei, Senhor Fernando Peres de Trava – respondeu Egas. – Pelo antigo foro dos nobres homens de Espanha, e pelo foro dos francos; como filho de um barão leonês e como filho de um barão de Borgonha; por uso e lei daquém e dalém serras, toca a herança da honra de Portugal ao mui ilustre Infante D. Afonso. Não venho em nome de rebeldes. Ricos-homens e infançoes, burgueses e vilões desta boa terra m’enviam dizer à mui excelente Rainha, e a vós, Senhor de Trastâmara, Conde de Trava, prestameiro do Castelo de Faro, nobre-homem de Galiza, que doravante o filho do Conde Henrique é o Senhor de Portugal. D. Afonso oferece a sua mãe os direitos, vilas e caracteres do infantático, e a vós livre passagem para o solar e honras de vossos antepassados. Dói-me também, Senhor Conde, - acrescentou o cavaleiro – de ser eu quem vos houvesse de trazer tão desagradável mensagem.”

“Acabastes?” - interrompeu Fernando Peres com voz presa e um leve tremor de lábios.

“Ainda não – prosseguiu Egas Moniz. – Devo também declarar-vos que, se recusais a paz, amanhã diante deste castelo, ou sobre os seus próprios muros, se pelejará brava lide, lide que durará até que o juízo de Deus resolva de que lado está a justiça, de que lado a iniqüidade.”

“Mais nada?” – perguntou de novo o Conde com um sorriso indizível de escárnio.

“Só uma cousa, Senhor Conde de Trava – respondeu o cavaleiro com alguma perturbação. – A vós e à Rainha era dirigida esta mensagem. Vós tende-la ouvido: resta que ela a ouça: Ser-me-á permitido falar-lhe?”

“Antes disso, cavaleiro, - replicou o Conde, em cujo rosto transparecia a luta que tinha consigo mesmo para conter o furor que lhe cintilava nos olhos – antes disso cumpre advertir-vos uma cousa. Conheço-vos: de sobejo vos conheço eu! Mas não basta vosso simples testemunho e vosso ar altivo para vos crermos mensageiro do mancebo Afonso Henriques, que se intitula Senhor e Infante de Portugal; mensageiro dos ricos-homens, infanções e concelhos que dizeis vos enviaram. Quem pode afirmar que um homem é o que parece? Muitas vezes motivo oculto obriga o cavaleiro a vestir as bragas de almafega e o zorame de burel do peão; muitas vezes o vilão ousa trajar o saio escudado de cavaleiro, e pôr sobre a cabeça o capelo de ouropel. Para responder ao que dissestes, por mercê mostrai-me a vossa carta de crença.”

Estas palavras do Conde foram vibradas com um sorrir tão desusado que o trovador precisou de toda a energia de que naturalmente era dotado para disfarçar a impressão que na sua alma elas haviam produzido. Eram demasiado claras para não as entender. Teria sido atraiçoado por Abul-Hassan? – Tremeu ao pensar em Dulce. Sem replicar tirou do peitilho do saio um pequeno pergaminho dobrado e apresentou-o ao Conde, o qual o passou às mãos do Reverendo Martim Eicha, que exercitava então o oficio de chanceler.

“Em termos, e sem dúvida – murmurou o Cônego examinando a escritura. – Nada falta: sinais, notário e testemunhas.”

“De quem são os sinais?” – perguntou Fernando Peres, sem tirar os olhos do cavaleiro cada vez mais perturbado.

“De D. Afonso – respondeu Martim Eicha. – é o seu rodado e a cruz, tudo ao que parece feito por quem pintou a carta, que diz ser e me parece escrita da mão de Pedro, o chanceler do Infante...”

“Infante?!” - interrompeu em voz baixa o Conde, batendo com força no punho da espada.

“Item – prosseguiu o Cônego – de D. Paio, que louva e confirma...”

“Do Arcebispo de Braga? Vinga-se da prisão em que o teve a Rainha. Como sempre, revoltoso e intrigante. Continuai.”

“E de Fernando Cativo, Alferes-mor de Portugal, diz a segunda regra dos que confirmam do lado direito.”

“Mente! – retorquiu o Conde em tom já mais alto e colérico. – O Alferes-mor de Portugal está a meu lado, e não é um miserável traidor. Lede.”

“E d’Egas Moniz de Cresconhe, mordomo da cúria.”

“Da cúria dos sandeus e vis! – atalhou o Conde, cujo furor continuava a aumentar. – Velho infame, movedor principal da revolta!”

“E de Gonçalo Mendes, rico-homem...”

“Quê!? – bradou Fernando Peres, arrancando pergaminho das mãos de Martim Eicha e olhando espantado para aqueles caracteres, que a sua ignorância de nobre lhe não consentia entender. – Ele no campo de D. Afonso!? Ele também mandou escrever seu nome nesta carta de crença?! Não é preciso ler mais. Mensageiro, que vieste afrontar-me, sai já de Guimarães, porque te juro que não falarás à Rainha; que não falarás aos traidores que talvez buscavas; porque traidores andam no meio de nós! Vai dizer aos vilões que te mandaram, e aos cavaleiros mais vilões do que eles, que eu, Conde de Portugal e Coimbra, os desprezo; que se ousarem aproximar-se de Guimarães os mandarei desarmar pelos meus cavaleiros e arrancar-lhes os olhos pelos meus cavalariços e servos. Entendes? É isto o que lhes deves dizer, e dá graças a Deus de não começar por ti o castigo de desleais.”

Durante a leitura do reverendo Cônego de Lamego a perturbação d’Egas se havia asserenado com as observações violentas do filho de Pedro Froilaz, que pouco a pouco a tinham convertido em indignação. Esta subira de ponto com as suas derradeiras palavras: o cavaleiro conteve-se todavia.

“Senhor Conde de Trava, não creio digno de um nobre-homem de Espanha gastar afrontas inúteis contra os que não podem responder-vos. Pedistes-me as provas do que afirmava. Dei-vo-las. O recusar admitir-me à presença da Rainha podeis fazê-lo; mas faltareis à lealdade que deveis a vossa Senhora.”

“E quem te deu o direito, miserável, de me ensinar meus deveres? – bradou o Conde furioso. – Quem te assegura, vil toupeira que minas no silêncio da noite o chão que pisamos, porque não ousas mostrar à luz do dia a fronte covarde, que sairás a salvo de Guimarães sem que te faça arrancar a língua insolente? Tu, que ousas falar de lealdade, a que vieste ontem a este castelo como um salteador noturno? Mas ontem como hoje os teus passos foram perdidos! A minha resposta aos conselhos que me dás é esta: servirá ao mesmo tempo de resposta aos que te enviaram.”

Ao ouvir as últimas frases, o trovador sentiu fustigarem-lhe as faces os fragmentos do pergaminho, que o Conde despedaçara entre as mãos.

O lume fugiu dos olhos a Egas. Era uma afronta monstruosa a que recebera. Recuou: os dentes rangiam-lhe como num acesso febril.

“Infame e covarde és tu, vilão de Galiza! – gritou ele. Infame porque vendeste o teu corpo como uma mulher perdida: covarde porque só sabes injuriar no meio destes lebréus esfaimados que te cercam. Salteador és tu que roubas a nobre terra de Portugal a seu verdadeiro Senhor. Assassino, levanta esse guante se ousas!”

E atirou a luva aos pés de Fernando Peres.

“Alevantar eu o teu guante, cavaleiro Egas Moniz! – exclamou Garcia Bermudes adiantando-se. – A lança e a espada do nobre Conde de Portugal e Coimbra não devem cruzar-se com as tuas. Senhor Conde, uma estacada e nomeai os juízes do campo.”

A raiva sufocava e tolhia a fala do Conde de Trava, cujos olhos banhados de fel pareciam não lhe caberem nas órbitas: estendeu apenas a mão trêmula e contraída fazendo sinal que recusava. O seu terrível silêncio durou por alguns instantes. Quem se atreveria a quebrá-lo?

Finalmente aquela espécie de espanto terminou por uma risada medonha. Uma escuma ensangüentada borbulhava-lhe nos cantos da boca, e pendurava-se-lhe em glóbulos cor-de-rosa na barba negra e revolta.

“Uma estacada, Alferes-mor? – rugiu ele empurrando para trás com violência Garcia Bermudes. – Estacada e juízes? Uma das ameias da torre alvará será a estacada: o algoz, o reptador e o juiz. O cepo e o cutelo são para ricos-homens: este sandeu, enforquem-no como um cão ismaelita! Homens d’armas, lançai-mo na prisão do alcaide no fundo da cárcova!”

Egas olhara em roda. Estava só: os seis almogaures haviam sido retidos no pátio exterior. Ainda tentou defender-se; mas, oprimido pelo número e desarmado em breve, arrastaram-no para fora da sala. A imagem de Dulce lhe apareceu então serena e pura: um gemido de desespero lhe fugiu do peito. Este gemido de desalento era o derradeiro adeus que lhe enviava. Entre ele e a sua amante a morte e a ignomínia se tinham naquele momento assentado.

O Alferes-mor seguiu com os olhos o trovador. Tinha ficado imóvel enquanto durou aquela luta desonrosa para Fernando Peres e para os seus cavaleiros. No gesto do generoso Garcia pintavam-se ao mesmo tempo a vergonha, o ódio e a piedade. Ele quisera vingança; mas repugnava ao seu coração uma vingança atroz e covarde.

Apenas Egas saiu entre os homens d’armas, o Conde voltou-se sucessivamente para Martim Eicha, para o vílico do castelo e para os cavaleiros que o rodeavam.

“Senhor Capelão-mor, tende pronto um monge de S. Salvador para esta noite confessar um homem que antes do romper d’alva deve ter legado seu cadáver às aves do céu. Senhor vílico, tende prontas três braças de boa corda de cânave de quatro ramais. Que seja sã e forte: não defraudeis por mesquinha essa parte da herança que hoje receberá o algoz do castelo. Bem sabeis que por costume lhe pertencem a corda da justiça e as roupas do justiçado! Senhores cavaleiros, breve nos veremos: agora se voz praz podeis retirar-vos.”

Logo que se achou sozinho, o Conde atirou-se a uma cadeira d’espaldas apertando a fronte entre as mãos: as artérias pulsavam-lhe com violência e o coração, agitado por paixões más e por temores bem fundados, batia-lhe apressado. Havia na série dos sucessos daquele dia e do antecedente algumas circunstâncias ininteligíveis, algumas lacunas tenebrosas que não podia aclarar. Como escapara o Lidador com os seus vinte acostados e com Fr. Hilarião? Alguém favorecera esta fuga. Mas quem? Vinham-lhe à idéia os desejos que D. Teresa mostrara de conciliação, e as diligências que fizera Garcia Bermudes para salvar os cavaleiros presos nessa noite, os quais ele no seu furor quisera meter a cutelo. Chegou a desconfiar da Rainha e do Alferes-mor: e estas desconfianças eram um tormento infernal. Traído por eles, quem lhe restava? Se ao menos pudesse dizer-lho, pedir provas da sua lealdade! Era uma idéia insensata. Refugiu dela com horror. A própria imaginação se lhe convertera em verdugo implacável, e a alma dura e orgulhosa do filho de Pedro Froilaz debatia-se no meio dos seus receios, como se em longo pesadelo visse surgir ao redor de si todos aqueles a quem o prendiam mais estreitos laços, convertidos por feitiçaria diabólica em disfarçados mas implacáveis inimigos. Estas dúvidas terríveis se modificaram, porém, com a lembrança das probabilidades que tinha de triunfar do Infante. Depois da vitória ele obteria facilmente do Imperador Afonso de Leão os condados de Portugal e Coimbra como feudos reais, e então, arrancando a máscara de um amor que expirara, usaria como senhor do poder que muitas vezes se via constrangido a deixar vacilante nas fracas mãos da Infanta-Rainha.

No meio de semelhantes reflexões o Conde não se esquecera do mensageiro cativo. No seu ódio contra a família de Riba de Douro, ódio que naquele momento parecia acumular-se todo sobre a cabeça do desgraçado mancebo, não lhe bastava assassiná-lo: era preciso ajuntar à morte a ignomínia; por isso o condenava ao suplício dos peões e servos. O cadáver d’Egas, pendurado dos muros do castelo, seria uma prova terrível de que entre o Infante e a Rainha estava o Senhor de Trava; e que a significação deste nome era a de uma guerra d’extermínio.

Na série dos pensamentos que em turbilhões passavam pelo espírito de Fernando Peres, surgiu um tenebroso e maldito que fez sorrir o perverso. Era um oásis em que a sua alma, correndo despeada por deserto ardente de temores, incertezas e agonias, se reclinava para repousar voluptuosamente. O momento de entregar Dulce nos braços de Garcia Bermudes tinha, finalmente, chegado.

Quando Egas entrou na sala do conselho, onde já o Alferes-mor se achava, o Conde se confirmara até certo ponto nas suas suspeitas: lera no gesto de um e de outro que eram de feito rivais. A idéia de prender a si o esforçado aragonês, fazendo-lhe obter a mão de Dulce, já não era o principal motivo que obrigava Fernando Peres a ocupar-se de alheiros amores no meio dos sérios cuidados que o cercavam. Havia nisso mais graves razões.

Cumpria-lhe vencer a resistência de uma herdeira ilustre, e fazer calar a repugnância da Rainha diante da sua forte vontade. Naquela época um dos privilégios mais importantes, introduzidos na Espanha pela influência feudal dos costumes francos, tendentes a aumentar o poderio dos príncipes e barões, era o direito d’escolher marido para as órfãs nobres, filhas de feudatários dos seus estados ou senhorios. Este direito, conhecido na França pelo nome de maritágio, estabelecido depois entre nós debaixo da denominação de cartas de casamento, vigorou, estendendo-se às mesmas órfãs plebéias, pelo menos até o século XIII, posto que fortemente combatido pelas cortes ou parlamentos. Fernando Peres considerava-se já como senhor dos condados de Portugal e Coimbra, e por isso devia impedir aquele exemplo de resistência contra um dos direitos de maior valia nos novos costumes feudais, ao passo que lhe importava obrigar a Rainha a ceder do próprio alvedrio num dos afetos mais profundos do seu coração, o amor que tinha a Dulce, a sua filha adotiva.

A estas considerações se ajuntava um prazer mesquinhamente ferino; e por isso no rosto do Conde deslizara um sorriso atroz. Se Egas amava Dulce, ele podia acrescentar-lhe na morte mais um martírio: se Dulce amava o mancebo, ela própria seria o instrumento desse martírio, crendo salvar o seu amante. Era um desígnio bárbaro o que o Senhor de Trava formara; mas por isso mesmo deleitoso para aquela alma repassada de maldade e de fel.

Havendo saboreado por algum tempo a requintada vingança que traçara contra o nobre cavaleiro, que, provocado por uma ação brutal, tão duramente o afrontara, o Conde de Trava passeou durante algum tempo de um para outro lado procurando recobrar aparente tranqüilidade. Depois, encaminhando-se para uma porta exterior, chamou o seu pajem valido que poucas vezes se afastava dele. Tructesindo apareceu.

“Dirige-te aos aposentos da Rainha, meu gentil sobrinho – disse ele ao pajem, pondo-lhe a mão familiarmente sobre a cabeça. – Preciso de falar com Dulce, e importa que seja breve; mas é necessário que não o saiba D. Teresa.

Tructesindo pegou no braço do tio e, levando-o para uma janela, sem dizer palavra, apontou para o jardim pênsil que dali se descobria em grande parte. Dulce, assentada à sombra de um teixo, tinha na mão uma saudade, para a qual olhava sem pestanejar, absorvida em profunda meditação.

“Bulrão! – prosseguiu o Conde rindo. – Dizes que é melhor aquele lugar? Não é assim? Para ti, gentil pajem, talvez! Não para mim, que já não trato de amores, como tu, que matas as lindas donzelas com mil trovas de queixumes. Mas repara que para ser cavaleiro importa mais o jogar pontas e tavolado e encavalgar um ginete, que o aprender os cantares dos jograis e dos trovadores.

“Oh não, meu tio e Senhor!” – replicou o travesso rapaz. – Pelos ossos de S. Cucufate, que com tão finas artes o santo Arcebispo Gelmires furtou de Braga para os levar a Compostela,m vos juro que não pensava de amores. Mas como queríeis que eu pudesse falar a Dulce nos aposentos da Rainha, sem que ela me enxergasse?... Àquela porta que vedes acolá – acrescentou maliciosamente – segue-se um corredor escuro, que vai da sala d’armas ao jardim. Se eu soubesse quem possuía a chave iria por ali chamar Dulce.

“Vilanete! – continuou o Conde no mesmo tom de gracejo. – Essa chave não sai deste cinto senão para esta mão. Querias que a fiasse de ti? Por Santiago, que não, meu gentil pajem! Atravessa os pátios do castelo; acharás provavelmente aberta a porta do jardineiro Abul-Hassan... Mas não – prosseguiu depois de pensar alguns momentos. – Melhor é que eu vá. Tu entretanto vê se encontras Garcia Bermudes, e dize-lhe que me espere nesta sala. Depois vai-te a folgara. Prestes, meu guapo donzel!”

Dizendo isto, o Conde afastou brandamente Tructesindo e encaminhou-se para a porta que o pajem lhe indicara. Tructesindo fez-lhe uma visagem, de modo que ele não o visse, e em dous pulos saiu do aposento, dando um silvo agudo que restringiu pelas abóbadas, e que se confundiu com o som da porta, que Fernando Peres, entrando no corredor escuro, cerrara após si.

O Senhor de Trava entrou no primeiro jardim. Dulce conservava-se ainda no mesmo lugar e na mesma postura. Fernando Peres achava-se já ao pé dela havia alguns instantes, quando esta, alevantando os olhos, encontrou os do Conde, que em silêncio a contemplava com ar risonho. A pobre donzela estremeceu: a saudade que tinha na mão caiu-lhe em terra. Mal pensava a desgraçada que assim devia em breve cair para sempre a sua última esperança de felicidade!

Dulce ergueu-se e ia partir; mas o Conde a reteve e, fazendo-a de novo assentar-se, disse-lhe com brandura:

“Foges de mim, donzela? À fé que não to mereço eu. vinha buscar-te para me queixar de me teres escondido um segredo, cuja revelação te houvera poupado amarguras e a mim um procedimento involuntariamente cruel. Quis ainda há pouco constranger-te a dares a mão d’esposa ao nobre Garcia Bermudes, porque ignorava que amavas um cavaleiro que foi meu inimigo, mas que já ó não é. Cria que o teu refusar nascia de um capricho infantil; não de um amor ardente. Agora sei tudo. Egas Moniz, o nobre trovador que há três anos deixou a terra em que tu respiravas para ir colher louros santos junto ao sepulcro de Cristo, voltou a Portugal, e hoje entrou nestes paços como mensageiro do ilustre Infante D. Afonso. Vinha trazer palavras de amor e paz, e a paz e o amor renasceram entre a Rainha e seu filho. Guerra, ódios, tudo acabou. Muitos me acusam de orgulhoso e inexorável; Egas, porém, não os creu. Declarou-me o seu amor, e D. Teresa por meus rogos lhe concede a sua Dulce e o solar dos Bravais. Disseste-me que não tinhas de mim prestamos: dou-te o que vale mais. Vamos, donzela, agora o rancor fora injusto. Deixa-me beijar-te a mão: é um roubo que faço ao nobre Egas, mas ele me perdoará. O cavaleiro neste momento está com a Rainha, e eu vou conduzir-te aos seus braços.”

De feito, o conde beijava afetuosamente a mão de Dulce. O seu gesto era tão sereno e alegre; as suas palavras pareciam vir tanto da alma, e falava com tanta certeza do amor d’Egas, que a desgraçada caiu no laço infame que Fernando Peres armara. Sucessivamente ela empalidecera e corara, e as lágrimas que lhe rebentavam dos olhos misturavam-se com o sorrir dos lábios: o seu coração abria-se à felicidade depois de tanto padecer devorado em silêncio, como a flor açoutada por noite de ventania desabrocha ao asserenar da manhã com os primeiros raios do Sol.

“Oh que essas palavras são suaves; são para mim o Céu! – exclamou Dulce. – Sou eu que devo lançar-me a vossos pés, Senhor Conde, beijando a terra que pisais, e sois vós que deveis perdoar-me, porque vos detestei e amaldiçoei quando queríeis unir-me a Garcia Bermudes, a esse nobre cavaleiro que eu amaria com todo o amor que ele merece, se o meu coração fosse livre. Era fazer a minha ventura que vós pretendíeis, e eu insensata maldizia e odiava o meu anjo da guarda, o meu segundo pai! Punir-me-ei, fazendo a confissão que mais custa ao pudor: amo Egas; ele tinha de mim o juramento de antes morrer que traí-lo. Há um momento eu tremia, porque soubera parte do que me dizeis: soubera que ele estava em Guimarães como mensageiro do Infante. Era uma angústia intolerável a minha: vós me arrancais de um abismo.”

“Mas tu, minha Dulce, - continuou o Conde no mesmo tom – não dizes tudo. Ontem à noite certo cavaleiro entrou disfarçado em Guimarães...”

“Tendes razão, Senhor Conde – interrompeu a desgraçada. – Aqui neste horto ele veio jurar-me de novo o que me jurara três anos antes, que amava a sua Dulce com o mesmo amor ardente e ilimitado. Perdoar-me-á minha mãe adotiva?”

“E por que não? – atalhou Fernando Peres. – Não sabe ela o que é o amor de uma donzela louquinha? Àqueles que favoreceram a arriscada tentativa d’Egas é que eu não sei se ela perdoará; porque foi falta de lealdade.”

“Deitar-me-ei aos pés da minha boa Rainha – acudiu Dulce – para que perdoe ao pobre Abul-Hassan...”

“É verdade... a Abul-Hassan – interrompeu de novo o Conde com alguma hesitação, como quem começa a achar o fio de um labirinto intrincado. – A esse ainda será fácil... Falou-me nele o bom Egas... Mas cavaleiros que devem preito e menagem a D. Teresa!... Gonçalo Mendes que o seguiu ao arraial de meu Senhor o Infante... Enfim tu sabes o resto: bem vês que em tais casos, apesar de uma reconciliação completa...”

“Não sei mais nada. Desde que Egas partiu ignoro tudo... juro-vos que o ignoro. Mas que importa? A Rainha...”

“Demônio! – bradou o Conde mudando repentinamente de tom e de gesto. – Que não posso achar a urdidura desta negra teia! Não sabes mais nada, mulher? Pois eu sei de ti o que desejava! Miserável, que apenas os olhos de águia se cravaram nos teus, sem rubor lhe patenteaste a tua infâmia! Insensata! Creste que eu podia ter paz com rebeldes, e ouvir pacientemente as amorosas endechas de um jogral da vil e detestável raça dos Gastos de Riba de Douro? Em tudo o que te disse há uma verdade só! Egas está em Guimarães: está em meu poder, e eu já lhe preparei o seu leito de noivado: uma bem segura ameia da torre alvarrã, e uma boa corda de cânave de quatro ramais. Linda e inocente donzela, amanhã ao romper da alva podes ver o teu gentil trovador. Olha para daqui mesmo; aí o hás de divisar dançando ao sopro rijo do vento. Quem canta deve saber bailar.”

Às primeiras palavras do Conde Dulce caíra fulminada. Mas as derradeiras a revocaram à vida com a imagem de uma terribilíssima realidade, como o réu, desfalecido no primeiro trato, se reanima crescendo a intensidade dos tormentos.. de joelhos, com as mãos erguidas, os dentes batiam-lhe com força, e não podia dizer nada. Mas o terror da sua alma melhor o exprimia o gesto, que outra qualquer expressão.

“É a vida do teu querido jogral que me pedes? Não é assim? – disse o Conde. – Pedes ao leal esfaimado do deserto que não devore a zebra que tem nas garras! Afrontou-me, e eu pago a afronta: reptou-me, e eu aceitei o repto. Morrerá morte infame de peão criminoso!...” E depois de uma breve pausa, em que Dulce o abraçava pelos joelhos, prosseguiu: - “Nobre neta dos Bravais, não desonres o sangue de teus avós, arrastando-te aos pés do desprezível estrangeiro! Por quem sois, nobre dama, alevantai-vos.”

“Não peço piedade para ele – murmurou Dulce –: bem sei que fora inútil esperá-la. Peço a morte para mim antes dele morrer.”

“De que me serviria a tua morte? – replicou o Conde depois de cravar alguns momentos os olhos naquela fronte pálida, onde se pintavam todos os extremos do íntimo padecer. - Quero que vivas para chorares o galante jogral, e para com as tuas lágrimas servires de pranteadeira à mui ilustre Rainha, à tua mãe adotiva, que, espero em meus bons cavaleiros, há de amanhã ficar órfã de seu filho.”

“Oh, Senhor, lembrai-vos de que há um Céu, e que no Céu há justiça! Que mal vos fiz eu? Matai-me, matai-me!”

“Sei que há Céu e que há justiça; por isso a faço na terra. Sei mais! Sei que o Céu é clemente. Quero sê-lo também. Egas ainda talvez pode evitar seu fado, o leão ainda pode largar a presa.”

Um vislumbre d’esperança surgiu e desapareceu no rosto demudado de Dulce.

“Meu Deus! – disse ela; e depois, deixando cair a fronte sobre o peito, suspirou: - Ai, é um pensamento vão!”

“És tu que podes restituí-lo à liberdade – prosseguiu Fernando Peres. – Da tua boca pende a sua vida ou a sua morte. Serei misericordioso.”

“Que pretendeis que eu diga? – exclamou a donzela numa espécie de exaltação ou antes de frenesi, e alevantando-se com a energia do peregrino, que se arrasta moribundo de sede por desvios pedregosos e áridos, ao ouvir o súbito murmúrio de uma fonte. – Jurar que vos entregarei minhas terras? Que me sepultarei num claustro? Que nunca mais o verei? – Juro mil vezes! Salvai-o!”

“Não é a pobreza da deserdada e o cativeiro perpétuo de monja que eu te peço em preço da vida de Egas... Sou mais generoso. Quero que vivas no meio dos deleites do mundo, na grandeza de nobre dama; quero que sejas amada por um homem digno de ti...”

“Matai-me, matai-me!” – exclamou a donzela caindo de novo aos pés do Conde.

A imagem de Garcia Bermudes alumiara com a luz medonha do raio as trevas do seu martírio.

O Conde continuou:

“Ontem prometi ante a Rainha que tu serias mulher de Garcia. Esta promessa há de cumprir-se, ou tu serás a assassina daquele por quem trocas o Alferes-mor de Portugal, o mais valente e gentil cavaleiro de toda a Espanha.”

“Mas eu morrerei primeiro, Senhor Conde! Tende dó de uma desventurada.”

“Não te aconselho. Se morreres, Egas te seguirá no sepulcro.”

“E se Garcia de novo recusar a posse da sua vítima?” – interrompeu a infeliz, procurando ainda segurar-se na borda do abismo.

“Egas morrerá” – respondeu tranqüilamente Fernando Peres.

“Vós, homem bárbaro, juraste perder o desgraçado. Por violência nunca o generoso Garcia aceitará a minha mão.”

“Por violência? – interrompeu o Conde em tom d’espanto. – Violento-te eu: Quero esquecer-me do meu ódio por amor de ti: tu não queres esquecer-te de uma paixão louca e impossível. Eis a que tudo se reduz. Cede, e Egas será salvo. Direi a Garcia que te arrependes dos teus desprezos; que queres ser sua. Se as tuas palavras,se o teu gesto não desmentirem meu dito ele será feliz; e Egas, livre e persuadido de que o traíste, breve se esquecerá de ti. Faço a ventura de três; é por isso que me chamas bárbaro?”

Dulce parecia sufocada: o arquejar do seio da infeliz soava como o de um moribundo. Foi o som que se ouviu por alguns momentos sussurrar nos seus lábios. Finalmente, com a energia da última desesperação que simula a tranqüilidade, disse em voz submissa e lenta, mas firme:

“Serei mulher de Garcia Bermudes... Depois!...”

“Depois o que aprouver a Deus e à Virgem Maria” – respondeu o Conde alçando os olhos devotamente e apontando para o céu.”

O malvado saíra com seu intento. Voltou as costas a Dulce, e desapareceu na escuridão do longo corredor que dava para a sala do conselho e para a sala d’armas.

Nessa mesma tarde o muito valente e gentil cavaleiro Garcia Bermudes tinha recebido por sua mulher de bênção na capela dos paços de Guimarães a mui formosa e rica dama D. Dulce, senhora do solar e prestamos dos Bravais. Um banquete de boda estava preparado para festejar os noivos. O aposento para a festa se atulhara de donas, donzelas e cavaleiros. Faltavam apenas D. Teresa e o Conde. Este finalmente chegou, conduzindo pela mão a Rainha até ela se sentar no estrado real. Apenas se assentou, chamou o pajem Tructesindo, que estava em pé atrás da sua cadeira d’espaldar, e disse-lhe:

“Corre, e vai perguntar ao vílico do castelo se está bem segura a ameia do ângulo do norte na torre alvarrã, e se ele tem puída e pronta a boa corda de cânave de quatro ramais.”

XIV

Amor e vingança

Tudo esqueceria na edificação de um castelo do século XI ou XII menos um bom e sólido cárcere, com troneiras bem estreitas e engradadas de grossas barras de ferro. Às vezes os aposentos eram mal reparados contra as injúrias das estações e os muros débeis e pouco vigiados; mas a masmorra sumida debaixo da torre maciça, escassamente alumiada, com seus alçapões de grosso carvalho, suas entradas ocultas, por onde em muitas ocasiões os nobres alcaides e senhores iam, não sentidos, praticar as atrocidades que se lêem nas memórias daquela época, e a que ordinariamente dava origem a vingança ou a cobiça; esse aposento de angústia, dizemos, nunca deixava de ser construído com primor. O cárcere do castelo era quase sempre uma propriedade mais valiosa e produtiva que todas as terras, vilas, herdades e direitos anexos àqueles ninhos de pequenos tiranos: era uma espécie de laboratório de alquimia verdadeira, onde a pobreza de judeu, jurada e tresjurada pela Tora, se convertia em chuva áurea; os argais ou trouxas dos bufarinheiros ingleses ou italianos se derretiam como se fossem de cera, e aquelas abóbadas, frias e úmidas, fossem de metal candente; e até os alforjes do devoto monge, ou do venerável clérigo se convertiam em escarcela bem provida de gastador prestameiro. As prisões dos lugares afortalezados que coroavam diferentes cabeços de Galiza e Portugal eram uma espécie de providência que, em casos apertados, acudia milagrosamente aos donos ou tenentes desses lugares, quando os concelhos vizinhos sabiam defender as suas tulhas e adegas, ou os acostados do fidalgo casteleiro murmuravam por falta das soldadas, ameaçando abandoná-lo indefenso à revendita dos outros nobres com quem trazia guerra de homizio.

Devemos crer, ao menos piamente, que o Conde Henrique, na época em que alevantou o Castelo de Guimarães, não lançou nos fundamentos do seu edifício soberbo um cárcere seguro e vasto com os intuitos de rapina que guiavam o comum dos senhores nestas tristes edificações. Ainda que algum documentinho de má morte provasse o contrário, cumpria-nos pô-lo no escuro ou contestar-lhe francamente a autenticidade, porque o Conde foi o fundador da monarquia, e a monarquia desfunda-se uma vez que tal cousa se admita. Assim é que se há de escrever a história, e quem não a fizer por este gosto, evidente é que pode tratar de outro ofício.

Fossem, porém, quais fossem os motivos do Conde, o certo é que não lhe esquecera o construir nas raízes daquelas torres e muralhas uma forte masmorra, cujo pavimento ficava inferior ao fundo do fosso lançado entre as barbacãs e as quadrelas do muro. Esse lugar úmido e malsão apenas recebia a tênue claridade de duas troneiras que davam para a cárcova. Dentro, uma escada de pedra fechada no alto com um alçapão chapeado de ferro conduzia à escada superior da torre. Ao lado via-se um potro, do qual estavam pendurados alguns tagantes ou açoutes de couro cru, cordas e mais aparelhos de tratos. Defronte uma polé pendente de grossa argola cravada na abóbada, e distante apenas da parede dous ou três palmos, oscilava quase imperceptivelmente com os golpes do vento que murmuravam pelas altas frestas ou troneiras. De um pilar grosseiramente afeiçoado, que sustinha ao meio da quadra o fecho da abóbada, saíam alguns grilhões ferrugentos, chumbados na pedra. Esses grilhões eram, como uma sangria em caso de apoplexia fulminante o é na medicina, um luxo de ciência de carcereiro, ou antes um pleonasmo mais intolerável que todos aqueles que costumam votar à execração pública os gramáticos e retóricos. Cadeias em tão seguro cárcere eram absolutamente inúteis, e de feito bem se mostrava que ali tinham sido postas como simples adereço e casquilharia de terror.

Um largo poial encostado ao pilar e coberto de uma pouca de palha meia podre formava, com os instrumentos de martírio, todo o adorno da masmorra. Deviam contentar-se desse escabelo para se assentarem, desse leito para dormirem, os habitantes desta melancólica morada. E com razão: onde o exercício dos membros só podia ser feito nas dores e angústias dos tratos, era leito de repouso a lajem fria do poial, e a palha já fétida, que o cobria, fofo almadraque de penas.

Um cavaleiro, cuja qualidade se conhecia pelas esporas douradas, que ainda conservava afiveladas sobre os balegões, e pelo cinto de prata que lhe apertava o brial, estava aí assentado. Parecia cogitar profundamente. Quedo, com os cotovelos firmados sobre os joelhos e as faces entre os punhos, o vento, que redemoinhava pela espaçosa quadra, ondeando-lhe os cabelos desordenados lhe fazia cair sobre o rosto algumas madeixas que lho encobriam. Um soluçar comprimido era o único sinal de vida que se lhe percebia: no mais, a sua imobilidade assemelhava-se à de um cadáver.

O Sol inclinava-se para o poente. Os seus raios dourados roçando pela borda do fosso vinham, através de uma das troneiras, pintar um pequeno círculo avermelhado no pavimento da masmorra aos pés do preso, em cujo rosto batia a claridade pálida refrangida da lajem branca. A luz do dia, ao desaparecer, como que se dobrava para afagar e beijar o desgraçado, que talvez não a tornaria a ver. Dir-se-ia que os raios do Sol se prendiam aos cabelos louros do mancebo onde folgavam cintilando trêmulos, e que pediam àqueles olhos mortais e meio cerrados o último olhar de saudade com que o homem costuma despedir-se do astro esplêndido, quando ele se vai mergulhando na extremidade do horizonte.

E parecia que esta linguagem misteriosa achava no coração do cavaleiro uma dessas harmonias inexplicáveis que Deus estabeleceu entre a natureza e o homem no grande concerto do Universo. Afastou os cabelos da fronte: depois pôs os olhos no Sol, e um sorriso quase imperceptível lhe fulgurou através do véu de melancolia que se lhe estendia sobre as faces, como através do sudário delgado unido a um corpo morto parece às vezes haver um rápido movimento de vida, que cessa no mesmo instante em que a vista pretende fixar essa ilusão passageira.

O mancebo alevantou-se, cruzou os braços e ficou por algum tempo com os olhos fitos na troneira iluminada. Finalmente levou a mão à fronte, e os seus passos vagarosos soaram de um para o outro lado do calabouço. Pouco a pouco os lábios agitaram-se-lhe como a superfície do mar que se encrespa aos primeiros sopros da procela. A tempestade acumulada naquela alma rebentou por fim dolorosa e terrível.

“Oh! – exclamou ele – como a vida é rápida e ao mesmo tempo eterna para o que sabe que vai morrer! Eternidade pelo infinito dos pensamentos que passam tumultuosos pelo espírito do condenado: rapidez pela ligeireza com que para ele se encaminha a hora tremenda! E que importa? Aqui entre injúrias, como um vil criminoso; no Oriente, misturando o sangue com a terra que bebeu o do Salvador; lá fora dessas muralhas, em nobre lide de cavaleiros: tudo é morrer! Que importa?...” – E depois de um brado de agonia como respondendo a si mesmo: - “Muito, muito! porque amo; porque a vida é doce para mim por ela! porque a morte ignominiosa é ignomínia para o amante do homem que expirou em suplício infame. Um cavalo e uma espada! Que me dêem um cavalo e uma espada, e depois dez, vinte, cem guerreiros que me acometam, que me despedacem ferindo-me a um tempo! Cairei com honra! Dirão dela: “eis a que amava um cavaleiro d’esforço que bem soube morrer!...” Ao menos assassinai-me aqui!... nos tratos... como vos aprouver... mas não mancheis de opróbrio a minha hora derradeira!... Infante de Portugal, Infante de Portugal! Vem salvar-me! Olha que querem cobrir de infâmia o teu Egas!”

E Egas, porque era ele, parecia aspirar o ruído longínquo dos ginetes de Afonso Henriques precipitando-se para os muros de Guimarães; mas nos seus ouvidos apenas sussurrava aquele zumbido duvidoso que se crê escutar no meio de completo silêncio. Então atirou consigo de novo ao poial, e alevantou os punhos cerrados para o céu com um gesto indizível de desesperação. Depois os braços descaíram-lhe, a fronte pendeu-lhe sobre o peito, e as lágrimas que revia o seu coração, queimadas pelo fogo que lhe lavrava lá dentro, secaram de todo. Uma lembrança suave de amor convertera a agitação da amargura na triste e ainda mais dolorosa tranqüilidade do desalento.

“Dulce, Dulce, nunca mais te verei! – murmurou o mancebo. - Se ao menos pudesse dizer-te que te amei leal e puro até o meu último dia, e que este amanheceu porque viu cumprir, como cumpri todas, a minha derradeira promessa! Se eu pudesse antes de deixar a terra antever o Céu a teus pés!... Mas entre ti e mim estão estas pesadas abóbadas, que me esmagam o coração; e a minha voz não as pode romper para te chamar, para te repetir mil vezes que morro porque te amava como mulher nenhuma foi amada! Dulce, Dulce, nunca mais te verei!”

E o desditoso, caindo de bruços sobre a palha imunda e fétida do calabouço, arquejava violentamente.

Naquela postura, exaustas as forças d’alma, o trovador se conservou horas largas. À vista dos homens ele saberia esconder o seu delírio, e morrer com firmeza; mas na solidão, a saudade de uma existência cheia de amor e d’esperanças, a vergonha de suplício afrontoso e o temor da morte lhe não consentiam velar-se diante de si próprio com a máscara que a vaidade e o orgulho põem na face humana ainda nas mais terríveis situações, para que a vida seja uma contínua farsa, da qual o coração é o ator mentiroso desde o berço até o sepulcro.

Tinha anoitecido, e o silêncio continuava profundo: a frouxa claridade das estrelas não penetrava no cárcere cujas trevas eram densas, cuja atmosfera era grossa e úmida no meio da secura de um ardente mês de junho. Cevando-se na amargura, o senso íntimo de Egas reconcentrara na dor toda a sua energia, e este devorar-se a si próprio era ajudado pelo repouso dos sentidos externos, inúteis para o pobre preso na sua imobilidade e no silêncio e escuridão que o rodeava.

Daí a pouco, porém, uma toada longínqua de harpas, doçaínas e saltérios sussurrou a espaços trazida nas lufadas do vento. Insensivelmente o trovador pôs-se a escutá-la, e sentiu correr-lhe nas veias, que pulsavam ardentes, um frescor que refrigerava. A melodia que se ouve ao longe na solidão noturna é como bênção de Deus para o infeliz, porque é consoladora e santa. Quando aqueles sons vibravam mais distintos, Egas sentia dentro d’alma uma certa voluptuosidade na dor, e a imaginação lhe pintava a imagem de Dulce como visão aérea que descia ao horrível calabouço, trajando alvas roupas, cingida a fronte de cecéns virginais, e que apertando-o ao seio o arrebatava no meio de hinos de anjos para as delícias eternas da pátria do verdadeiro repouso. Era um sonho febril o seu; mas havia nele um êxtase indizível que lhe apagava da memória a situação em que viera lançar-se. Enfim, a toada cessou e o cavaleiro caiu de chofre na realidade. Esse tombar repentino do Céu no abismo fez-lhe manar sangue de todas as feridas do coração. O vento sussurrava ainda; porém o seu agreste sibilar só lhe fazia lembrar o ruído do verme que no cemitério devia lentamente devorar os membros do justiçado.

E então ele despedaçava entre as mãos confrangidas os punhados daquela palha úmida do seu leito de pedra; e os dentes rangiam-lhe em longo espasmo que terminavam por suor frio manando-lhe em bagas da fronte.

Quantas vezes ele na sua desesperação acusaria a Providência por o haver tornado o maior dos infelizes! E contudo uma agonia, que valera por todas as outras, ainda não viera roer-lhe o coração. As toadas que haviam alegrado por algum tempo a noite da sua alma partiam das salas iluminadas dos paços, onde em banquete esplêndido o Conde e a Rainha celebravam as bodas da real pupila e herdeira dos Bravais com Garcia Bermudes, o nobre Alferes-mor de Portugal. E ele não o sabia!

o som dos instrumentos começara a ouvir-se de novo, quando por cima daquelas melodias vibraram brados agudos mas longínquos, que pareciam o grito d’alarma d’esculcas que se punham sucessivamente de sobreaviso. Estes brados aproximavam-se cada vez mais, até que restrugiram nas barbacãs, depois nos andaimos das quadrelas, depois nos eirados das torres. Repetidos por muitas vozes, conglobados numa grita confusa e indistinta, formavam um ruído medonho, mas, para o cavaleiro que maquinalmente se pusera a escutá-los, ininteligível.

Para alguém, todavia, a significação deste bradar fora bem clara e distinta. Uma almenara se acendeu subitamente no cimo da torre alvarrã, e pouco tardou que as outras torres lhe correspondessem acendendo as suas. O trovador não as via; mas a luz avermelhada dos fachos resinosos, jorrando do alto, caiu obliquamente no fundo encharcado do fosso e refletiu-se pelas troneiras na abóbada da masmorra. Do meio das trevas, recalcadas por essa claridade frouxa para o pavimento da quadra, Egas distinguia a argola brilhante da polé, semelhante ao olho reluzente de um Demônio, que mirava atento o pobre cativo como se lidasse por enxergá-lo nas trevas.

De repente uma estrupida de cavalos, um tinir d’espadas roçando por armaduras, a princípio de poucos, depois de mais, depois de muitos, veio distrair a atenção do trovador que, fascinado por aquele olhar maldito da polé, não despregava dela a vista. Este novo ruído soava na banda do portal do castelo, e à luz triste das almenaras Egas viu passar como sombras além do fosso um fio de cavaleiros, que despegando ao que parecia da ponte levadiça se dirigiam ao burgo. Era uma cena rápida e fantástica o coriscar contínuo e fugitivo dos capelos de ferro e das lanças aprumadas, e o desaparecer dos meios corpos dos homens d’armas, que a aresta da cárcova apenas deixava descortinar. Aquela linha de vultos negros e lampejantes precipitava-se para as barbacãs.

Uma esperança duvidosa alumiou então a alma do cavaleiro. O bradas dos atalaias, o repentino arrojo dos homens de guerra anunciavam um perigo iminente; e que outro seria este perigo, que não fosse a aproximação do Infante?... Pela mente d’Egas passou uma idéia refrigerante de liberdade e de vida. Alevantou as mãos ao céu, e as lágrimas lhe borbulharam dos olhos, até aí enxutos, ao murmurarem seus lábios: - “Meu Deus, tu podes salvar-me! Salva-me, se não da morte, ao menos da ignomínia.”

Mas quando se lembrou de que a noite correria sem combate, enquanto talvez não passasse sem que o desejo de vingança atroz se realizasse; quando refletiu que o receio dos esculcas porventura fora vão, e que até mil outros sucessos podiam dar motivo àquela revolta, a idéia de salvação desfez-se de novo no espírito do prisioneiro, que um momento vacilara na certeza do suplício.

Encostando-se outra vez na sua dura jazida, Egas sentiu alongar-se a estrupida dos cavaleiros e voltar tudo gradualmente ao anterior silêncio, no meio do qual a alcaridade das altas almenaras, refrangida nas guardas da cárcova, penetrava no calabouço, como em igreja deserta os raios da luz das tochas penetram pelas juntas mal unidas do ataúde à roda do qual ardem os brandões gigantes. Às vezes dentro do ataúde há ainda vida, como a havia no negro calabouço; mas o que aí faltava, como na tumba da igreja, era um raio de esperança.

Passara mais de uma hora. A calada da noite fora apenas interrompida por algum raro correr de ginete atravessando a ponte levadiça, e pelo sussurro do falar e mover de muitos homens para o lado do burgo; sussurro quase imperceptível, mas que às vezes estrepitava como um trovejar ao longe. Então o cavaleiro escutava aquele som confuso como o enfermo que se revolve em seu leito e crê achar alívio nessa mudança de situação.

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