Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Alice No País Das Maravilhas - Página 4  Voltar

Alice no País das Maravilhas
Lewis Carroll

Capítulo 9

A História da Tartaruga Falsa

"Você não pode imaginar como eu estou feliz em vê-la novamente, minha queridinha", disse a Duquesa, tocando afetuosamente o braço de Alice, passando a caminhar junto com ela.

Alice ficou feliz por encontrá-la de bom humor, e pensou consigo mesma que talvez fosse a pimenta que a deixava tão selvagem como quando as duas se conheceram na cozinha.

"Quando eu for uma Duquesa", ela disse para si mesma (não em um tom muito esperançoso), "não vou usar pimenta em minha cozinha de jeito nenhum. Sopa cai muito bem sem isso talvez seja a pimenta que deixe as pessoas mal-humoradas", ela continuou, bem feliz de ter descoberto um novo tipo de regra, "e o vinagre as deixa azedas...e a camomila as deixa amargas...e...e as balas de cevada e este tipo de coisas é que deixam as crianças tão doces. Eu queria que as pessoas soubessem disso: então, eles não, seriam tão sovinas com doces, sabe..." Ela quase se esqueceu da Duquesa nessa hora e levou um pequeno susto quando ouviu sua voz perto dos ouvidos.

"Você está pensando em alguma coisa, minha querida, e isso faz você esquecer de falar. Eu não posso lhe dizer agora qual é a moral disso mas vou lembrar num instante." "Talvez não haja nenhuma", Alice aventurou-se a observar.

"Ora, ora, criança!", retrucou a Duquesa. "Tudo tem uma moral, se você encontrá-la." E foi se apertando contra Alice enquanto falava.

Alice não gostou muito de estar tão perto dela, em primeiro lugar porque a Duquesa era muito feia, e em segundo lugar porque era do tamanho exato para apoiar o queixo sobre o ombro de Alice, e possuía um queixo muito pontudo. Entretanto, Alice não queria ser rude e por isso agüentou o quanto pôde.

"O jogo parece estar bem melhor agora", disse para manter a conversa.

"Perfeito", respondeu a Duquesa, "e a moral disso é..." Oh!, é o amor, é o amor que faz o mundo girar!" "Alguém disse", Alice murmurou, "que ele gira quando cada um cuida dos seus próprios negócios." "Ah! Bem! Isto quer dizer quase a mesma coisa", disse a Duquesa enfiando o queixo pontudo nos ombros de Alice, completando, "e a moral disso é...Tome conta do sentido e os sons tomarão conta de si mesmos." "Como ela gosta de achar uma moral em tudo!", Alice pensou consigo mesma.

"Aposto como você está pensando porque eu não coloco meu braço na sua cintura", a Duquesa falou, depois de uma pausa. "A razão é: tenho dúvidas em relação ao humor do seu flamingo. Posso experimentar?" "Ele pode bicar", Alice cautelosamente replicou, não se sentindo nem um pouco a fim de que ela tentasse.

"Bem verdade", disse a Duquesa, "flamingos e a mostarda bicam. E a moral disso é...Pássaros da mesma plumagem voam juntos." "Só que a mostarda não é um pássaro", Alice observou.

"Certo. Como sempre", disse a Duquesa, "você tem uma maneira muito clara de colocar as coisas!" "É um mineral, eu acho", disse Alice.

"É claro que é", disse a Duquesa, que parecia pronta para concordar com tudo que Alice dissesse. "Há uma grande máquina de mostarda perto daqui. E a moral disso é...Qaunto mais tenho para mim, menos sobra para os outros." "Ah!, já sei!", exclamou Alice, que não tinha prestado atenção à última observação da Duquesa. "É um vegetal. Não parece com um mas é." "Eu concordo com você", disse a Duquesa, "e a moral disso é...Seja o que você parece ser...ou, se você prefere colocar isso de um jeito mais simples...Nunca se imagine diferente do que deveria parecer para os outros o que você fosse ou poderia ter sido não seja diferente do que você tendo sido poderia ter parecido para eles ser diferente." "Eu acho que poderia entender melhor", disse Alice polidamente, "se eu tivesse isso por escrito: não consigo seguir com você falando." "Isso não é nada em comparação com o que eu poderia dizer, se quisesse", replicou a Duquesa num tom de prazer.

"Por favor, não se dê ao trabalho de dizer isso mais complicado que já disse", falou Alice.

"Oh, não fale em dar trabalho", disse a Duquesa. "Dou-lhe de presente tudo o que já falei até agora." "Um tipo de presente bem barato!", pensou Alice. "Fico feliz que as pessoas não costumem dar presentes de aniversário como esses!". Mas ela não se aventurou a dizer issso em voz alta.

"Pensando novamente?", perguntou a Duquesa, com outro cutucão do seu queixo pontudo.

"Eu tenho o direito de pensar", disse Alice asperamente começando a se sentir aborrecida.

"Tem tanto direito", disse a Duquesa, "quanto os porcos têm de voar, e a mo..." Mas nesse instante, para grande surpresa de Alice, a voz da Duquesa sumiu, bem no meio da sua palavra favorita, moral, e o braço que estava grudado no seu começou a tremer. Alice olhou para cima e lá estava a Rainha diante dela, com os braços cruzados, franzindo o cenho como uma tempestade de raios e trovões.

"Um belo dia, não é, Majestade?", a Duquesa começou, com uma vozinha débil, frágil.

"Agora, eu vou lhe dar um aviso sincero", gritou a Rainha, batendo os pés no chão enquanto falava, "ou você ou a sua cabeça devem sair daqui, e já! Faça sua escolha!" A duquesa fez sua escolha e sumiu no mesmo instante.

"Vamos continuar com o jogo", a Rainha disse para Alice, e a menina estava assustada demais para dizer qualquer coisa, por isso seguiu-a lentamente em direção ao campo de críquete.

Os outros convidados tiraram vantagem com a ausência da Rainha e estavam descansando na sombra: entretanto, tão logo a avistaram correram apressados para o jogo, pois a Rainha tinha reforçado que um minuto sequer de atraso iria lhes custar a vida.

Todo o tempo em que eles estiveram jogando a Rainha não parou nem um minuto de discutir com os jogadores e gritar "Cortem a cabeça dele!", ou "Cortem a cabeça dela!". Aqueles que eram sentenciados ficavam sob custódia dos soldados, que, é claro, tinham que deixar seus postos de arcos do jogo para isso, daí, lá pelo final da primeira meia-hora de jogo, já não havia mais arcos e todos os jogadores, com exceção do Rei, da Rainha e de Alice estavam presos e sob sentença de execução.

Então a Rainha abandonou o jogo, quase sem fôlego e perguntou para Alice: "Você já viu a Falsa Tartaruga?" "Não", respondeu Alice. "Eu nem mesmo sei quem é a Falsa Tartaruga." "É com o que se faz a Sopa de Falsa Tartaruga", completou a Rainha.

"Nunca vi uma, nem mesmo ouvi falar", disse Alice.

"Venha, então", disse a Rainha, "e eu vou lhe contar a história dela." Como todos caminhavam juntos, Alice ouviu o Rei dizer em voz baixa para os condenados: "Vocês estão todos perdoados." "Bem, isso é uma boa coisa!", Alice disse para si mesma, pois estava se sentindo muito triste com as execuções que a Rainha ordenara.

Logo eles chegaram junto a um Grifo, que jacarezava ao sol. (Se você não sabe o que é um Grifo, olhe a figura) "Levante-se, preguiçoso!", disse a Rainha. "E leve esta senhorita para ver a Falsa Tartaruga e ouvir sua história. Eu preciso voltar para verificar algumas execuções que ordenei", e afastou-se, deixando Alice sozinha com o Grifo.

Alice não gostou muito do visual da criatura, mas ela pensou que no fim das contas estaria mais a salvo ficando com ele do que seguindo com a selvagem Rainha. Pelo menos era o que esperava.

O Grifo sentou-se e esfregou os olhos, olhando a Rainha até que ela sumisse de vista. Então começou a rir por entre os dentes.

"Qual é a graça?", perguntou Alice.

"Ela", disse o Grifo. "Tudo é fantasia dela. Eles nunca executam ninguém, sabe. Vamos!" "Todo mundo diz ‘vamos’ por aqui", pensou Alice , ao mesmo tempo que começou a segui-lo lentamente. "Eu nunca fui tão mandada em toda minha vida antes, nunca!" Eles ainda não tinham ido muito longe, quando avistaram a Falsa Tartaruga ao longe, sentada triste e solitária sobre a pequena saliência de uma pedra e, ao chegarem mais perto, Alice pôde ouvi-la suspirar como se seu coração estivesse partido. Alice sentiu uma grande pena dela.

"Porque ela está triste?", perguntou ao Grifo. E o Grifo respondeu com quase as mesmas palavras que dissera em relação à Rainha: "É tudo fantasia dela, ela não tem pelo que entristecer, sabe. Vamos!" Eles foram então na direção da Falsa Tartaruga, que olhou para eles com seus grandes olhos cheios de lágrimas, mas não disse nada.

"Esta jovem", disse o Grifo, "quer saber sua história, quer sim." "Eu vou lhe contar", disse a Tartaruga, com uma voz profunda, cavernosa.

"Sentem-se os dois, e não digam nenhuma palavra até eu terminar." Então eles sentaram-se e ninguém falou nada por alguns minutos.

Alice pensou consigo mesma. "Eu não sei como ela pode terminar se nem mesmo começa." Mas esperou pacientemente.

"Uma vez", disse a Falsa Tartaruga afinal, com um suspiro profundo. "Eu era uma Tartaruga de verdade!" Estas palavras foram seguidas de um grande silêncio, quebrado apenas por uma ocasional exclamação "Hjckrrh!", vindo do Grifo e os constantes e fortes soluços da Falsa Tartaruga. Alice já estava a ponto de levantar e dizer "Obrigada, Senhora, pela sua interessante história", mas ela não podia deixar de pensar que deveria haver mais algo a ser dito e então ficou sentada e não disse nada.

"Quando nós éramos pequenos", a Falsa Tartaruga continuou afinal, mais calmamente, embora ainda soluçando um pouquinho, "íamos para a escola no mar. O professor era uma velha Tartaruga. Nós costumávamos chamá-la Tartenruga.

"E por que chamá-la de Tartenruga se ela era uma Tartaruga?", perguntou Alice.

"Nós a chamávamos assim porque tinha rugas", a Falsa Tartaruga respondeu com irritação. "Você é mesmo muito tonta!" "Você deveria envergonhar-se de fazer uma pergunta tão boba", completou o Grifo, e então os dois sentaram-se e ficaram em silêncio olhando para a pobre Alice, que sentiu-se a ponto de enfiar a cabeça no chão de vergonha.

Finalmente o Grifo disse para a Falsa Tartaruga: "Vai em frente, velha amiga! Não vamos ficar aqui o dia inteiro!".

Ela então prosseguiu: "Sim, nós íamos para a escola no mar... mas parece que você não acredita mesmo..." "Eu não disse nada!", interrompeu Alice.

"Disse sim!", retrucou a Falsa Tartaruga.

"Segure sua língua", completou o Grifo, antes que Alice pudesse retrucar.

A Falsa Tartaruga continuou: "Nós tivemos a melhor educação...na verdade, nós íamos à escola diariamente..." "Eu também ia à escola todos os dias", falou Alice, "você não tem porque ficar orgulhosa disso." "Com aulas extras?", perguntou a Falsa Tartaruga um pouco ansiosa.

"Sim", respondeu Alice, "nós aprendíamos Francês e música." "E lavagem?", mais uma vez perguntou a Falsa Tartaruga.

"É claro que não", disse Alice indignadamente.

"Ah! Então a sua escola não era realmente boa", acrescentou a Falsa Tartaruga em um tom de grande alívio. "Agora, na nossa tinha, afinal, ‘Francês, música e lavagem’...extra." "Vocês não precisavam muito disso", retomou Alice, "vivendo no meio do mar." "Eu não tinha recursos para pagá-los", insistiu a Falsa Tartaruga com um suspiro. "Eu só freqüentava os cursos regulares." "E quais eram?" indagou a menina.

"Enrolação e Contorção, é claro, para começar", a Falsa Tartaruga replicou, "e depois os diferentes ramos da Aritmética: Ambição, Distração, Enfeiação e Derrisão." "Eu nunca ouvi falar em ‘Enfeiação’", Alice atreveu-se a dizer. "O que é isso?" O Grifo levantou as patas em sinal de surpresa. "Nunca ouviu falar em ‘Enfeiação’!", exclamou, "Você sabe o que é embelezamento, acredito eu!" "Sim", respondeu Alice sem muita certeza, "significa...fazer...alguma coisa...mais bonita..." "Bem, então", o Grifo continuou, "se você não sabe o que é enfeiação, você é muito boba mesmo." Alice não teve coragem de perguntar mais nada sobre o assunto. Virou-se então para a Falsa Tartaruga e disse: "O que mais você aprendeu?" "Bem, havia Mistério", e a Falsa Tartaruga começou a enumerar as matérias nas patas. "Mistério antigo e moderno, com Marografia: também Arrastamento...o professor de Arrastamento era um velho congro, que vinha uma vez por semana. Ele nos ensinava Arrastamento, Esticamento e ainda Desmaios em Bobinas." "E como é isso?", disse Alice.

"Bem, eu não vou poder mostrar para você", completou a Falsa Tartaruga.

"Ando meio fora de forma. E o Grifo não aprendeu isso." "Não tive tempo", disse o Grifo. "Eu estudei com o mestre das Clássicas.

Ele era um velho caranguejo, se era." "Nunca tive aulas com ele", retomou a Falsa Tartaruga com um suspiro. "Ele ensinava Risando e Desgosto, dizem." "É isso mesmo, isso mesmo" disse o Grifo, suspirando também. Os dois esconderam as caras nas patas.

"E quantas horas vocês estudavam por dia?", perguntou Alice, apressando-se em mudar de assunto.

"Dez horas no primeiro dia", respondeu a Falsa Tartaruga, "nove no segundo e assim por diante." "Que coisa estranha!", exclamou Alice.

"É por isso que chamávamos as aulas de lições (lessons)", o Grifo explicou, "porque elas diminuíam (lessen) cada dia." Aquela era uma idéia nova para Alice, e ela parou para pensar um pouco antes da sua próxima observação. "Então o décimo-primeiro dia tinha que ser feriado?" "Claro que era", respondeu a Falsa Tartaruga.

"E como era no décimo-segundo?", perguntou com vivacidade Alice.

"Chega de lições", o Grifo interrompeu em um tom decidido. "Conte a ela sobre os jogos agora."

Capítulo 10

A Quadrilha da Lagosta

A Falsa Tartaruga suspirou profundamente e enxugou os olhos com o dorso de uma patinha. Ela olhou para Alice e tentou falar, mas, durante um ou dois minutos, soluços impediram-na de dizer qualquer coisa.

"Parece que ela tem um osso na garganta", disse o Grifo e pôs-se a caminhar mexendo-se pra lá e pra cá, lançando-se para trás. Afinal a Falsa Tartaruga recobrou a voz e, com lágrimas escorrendo pelas faces, recomeçou: "...Você talvez não tenha vivido muito no fundo do mar..." ("Não mesmo", disse Alice ) "...e talvez não tenha sido apresentada jamais a uma lagosta... (Alice começou a dizer "Uma vez eu experimentei..." mas conteve-se rapidamente e respondeu "Não, nunca") "... daí você não deve ter idéia de que coisa deliciosa que a Dança da Lagosta é!" "Não, realmente", disse Alice. "Que tipo de dança é?" "Bem", disse o Grifo, "você primeiro forma uma fila na praia..." "Duas filas!", gritou a Falsa Tartaruga. "Focas, tartarugas, salmões, e todo o resto então, depois de tirar todas as água-vivas do caminho..." "O que normalmente leva um bom tempo", interrompeu o Grifo.

"... você dá dois passos para frente..." "Cada qual com sua lagosta fazendo par!", gritou o Grifo.

"Exatamente", disse a Falsa Tartaruga, "dá dois passos para frente, vira-se para seu par..." "... troca de lagosta e anda dois passos para trás...", continuou o Grifo.

"Então, sabe", a Falsa Tartaruga continuou, "você atira as..." "As lagostas!" o Grifo exclamou, com um salto no ar.

"... o mais para longe no mar que você possa..." "E nada atrás delas!", gritou o Grifo.

"E dá um salto mortal no mar!", gritou desta vez a Falsa Tartaruga, dando cambalhotas para todos os lados.

"E troca de lagosta novamente", berrou o Grifo o mais alto que pôde.

"Daí volta para a terra de novo, e... assim completa-se a primeira figura", terminou a Falsa Tartaruga, repentinamente abaixando a voz; e as duas criaturas, que estavam pulando como dois malucos antes, sentaram-se muito tristes e quietinhas, olhando para Alice.

"Deve ser uma dança muito bonita", disse Alice timidamente.

"Você gostaria de ver um pedacinho dela?", perguntou a Falsa Tartaruga.

"Claro, gostaria muito", respondeu Alice.

"Venha, vamos tentar fazer a primeira figura!", disse a Falsa Tartaruga para o Grifo. "Nós não podemos fazer isso sem as lagostas, você sabe muito bem. Quem iria cantar?" "Oh, você canta", disse o Grifo. "Eu esqueci as palavras." Então eles começaram a dançar solenemente ao redor de Alice, às vezes pisando na ponta dos seus pés quando passavam muito perto dela, e agitando as patas dianteiras para marcar o tempo da música. A Falsa Tartaruga começou, então, a cantar esta música, muito lenta e triste: "Não dá pra ir mais rápido?" disse a enchova para o caracol Tem um delfim atrás de mim, e ele está me empurrando.

Olha só as lagostas e as tartarugas, todo mundo tá andando! O pessoal tá esperando lá na areia – quer vir e juntar-se à nossa dança? Você quer, ou não quer, você quer, ou não quer, você quer se juntar à nossa dança? Você quer, ou não quer, você quer, ou não quer, você quer se juntar à nossa dança? "Você não pode acreditar como vai ser bom, Eles vão nos pegar e nos rodar e vão nos atirar com as lagostas para o mar!" Mas o caracol respondeu: "Muito longe, muito longe!" E deu uma olhadela de lado...

Agradeceu o gentil convite mas não, ele não queria se juntar à nossa dança.

Não queria, ou não podia, não queria, ou não podia se juntar à nossa dança! Não queria, ou não podia, não queria, ou não podia se juntar à nossa dança! "E daí que seja longe?" disse a amiga enfastiada, Tem outra praia, você sabe, outra praia do outro lado, Quanto mais longe da Inglaterra, mais perto se está da França.

Não fique nervoso, querido caracol, e sim venha e se junte à nossa dança.

Você quer, ou não quer, você quer, ou não quer, você quer se juntar à nossa dança? Você quer, ou não quer, você quer, ou não quer, você quer se juntar à nossa dança? "Muito obrigada, é uma dança muito interessante para se assistir", disse Alice bastante aliviada por tudo ter acabado afinal, "e também achei muito curiosa esta canção sobre a enchova!" "Oh, a enchova", retrucou a Falsa Tartaruga, "elas...você já viu uma delas, não?" "Sim", respondeu Alice, "eu sempre as vejo no jan..." e calou-se na hora.

"Eu não sei onde fica este Jan", disse a Falsa Tartaruga, "mas, se você as vê lá sempre, é claro que você sabe como elas são." "Acho que sim", Alice replicou pensativamente. "Elas têm o rabo na boca...e são cobertas de farinha de rosca." "Você está errada sobre a farinha de rosca", disse a Falsa Tartaruga.

"Iria se dissolver toda no fundo do mar. Mas elas têm o rabo na boca, e a razão para isso é...", aqui a Falsa Tartaruga bocejou e esfregou os olhos.

"Conte para ela a razão e tudo o mais", finalmente a Falsa Tartaruga disse para o Grifo.

"A razão é", disse o Grifo, "que elas queriam de qualquer maneira ir dançar com as lagostas. Daí elas foram atiradas ao mar. Daí a queda foi muito longa. Daí elas colocaram os rabos nas bocas. Daí elas não conseguiram tirá-los mais. Isso é tudo." "Obrigada", disse Alice, "isso é muito interessante. Eu nunca aprendi tanto sobre enchovas antes." "Eu posso contar mais, se você quiser", disse o Grifo. "Você sabe porque elas são chamadas de enchovas?" "Eu nunca pensei nisso. Por quê?" "Por causa das botas e sapatos", o Grifo replicou solenemente.

Alice estava totalmente confusa. "Por causa das botas e sapatos?", ela repetiu em um tom interrogativo.

"Ora, como você dá lustre em seus sapatos?", perguntou o Grifo. "Eu quero dizer, o que os faz brilhar?" Alice olhou para os sapatos e pensou um pouco antes de dar sua resposta.

"Acho que são lustrados com uma escova, eu acho. São escovados." "Botas e sapatos no fundo do mar", o Grifo continuou com uma voz profunda, "são enchovados. Agora você sabe." "E do que são feitos os sapatos no mar?", Alice perguntou com grande curiosidade.

"Linguados e enguias, é claro", o Grifo retrucou um pouco impacientemente, "qualquer camarão poderia lhe dizer isso." "Se eu fosse a enchova", disse Alice, cujos pensamentos ainda estavam passeando pela canção que ouvira, "teria dito ao delfim...Vá embora, por favor. Não queremos você conosco..." "Mas elas eram obrigadas a aceitá-lo", a Falsa Tartaruga disse. "Nenhum peixe sensato vai a lugar nenhum sem um delfim." "Não, de verdade?", disse Alice em um tom surpreso.

"É claro que não", disse a Falsa Tartaruga. "Por exemplo, se um peixe vem a mim e diz que vai fazer um passeio, e digo logo ‘Com que delfim?’" "Você não está querendo dizer ‘com que fim?’" "Eu quero dizer o que disse", a Falsa Tartaruga replicou em um tom ofendido. E o Grifo completou, "Venha, agora queremos ouvir algumas das suas aventuras." "Eu posso contar-lhes minhas aventuras... começando por esta manhã", disse Alice um pouco timidamente. "Mas não adianta contar desde ontem, porque eu era uma pessoa diferente ontem." "Explique isso melhor", disse a Falsa Tartaruga.

"Não, não! As aventuras primeiro", disse o Grifo em um tom impaciente.

"Explicações tomam um tempo louco!" Então Alice começou a contar suas aventuras desde a primeira vez que viu o Coelho Branco. Ela estava um pouco nervosa porque logo que começou a falar as duas criaturas sentaram-se bem perto da menina e abriam os olhos e e boca de uma maneira tão enorme... mas ela ganhou coragem e seguiu em frente. Os ouvintes estavam em perfeito silêncio até que ela chegou na parte sobre ela recitar Você está velho, Pai Joaquim para a Lagarta, e as palavras vindo todas diferentes, e então a Falsa Tartaruga soltou um longo suspiro e disse: "Que curioso!" "Tão curioso quanto poderia ser", disse o Grifo.

"Saiu tudo diferente", a Falsa Tartaruga repetiu pensativamente. "Eu gostaria de ouvi-la tentar repetir agora." "Diga a ela para começar", e olhou para o Grifo como se pensasse que ele tinha algum tipo de autoridade sobre Alice.

"Levante-se e recite Esta é a voz do malandro", disse o Grifo.

"Como as criaturas gostam de mandar aqui, e fazer-nos recitar lições!", pensou Alice. "Parece que estou na escola, afinal". Apesar de reclamar, ela levantou-se e começou a recitar, mas sua mente estava tão repleta da Dança da Lagosta, que mal sabia o que estava dizendo; e as palavras saíram realmente muito estranhas: Essa voz é da lagosta. Eu a ouvi declarar: "Você me deixou muito bronzeada, preciso açucarar meus cabelos." Como um pato cuidando das sobrancelhas, ela cuida do nariz Arruma o cinto e os botões, e revira seus sapatos.

Quando a maré está baixa, ela canta uma canção, Vai falando com a voz forte de tubarão, Mas, quando a maré enche e os tubarões aparecem, Sua voz fica fininha e trêmula.

"É bem diferente do que eu costumava dizer quando era criança", disse o Grifo.

Bem, eu nunca ouvi isso antes", disse a Falsa Tartaruga, "mas soa sem pé nem cabeça." Alice não disse nada, apenas sentou-se com o rosto entre as mãos, pensando se alguma coisa aconteceria de maneira normal novamente.

"Eu gostaria que isso fosse explicado", disse a Falsa Tartaruga.

"Ela não pode explicar nada", o Grifo retrucou rispidamente. "Siga para o segundo verso." "Mas e os botões?", insistiu a Falsa Tartaruga. "Como é que ela poderia tê-los arrumado com o nariz, você sabe?" "Esta é a primeira posição na dança", Alice respondeu. Mas ela estava tão confusa com a coisa toda que queria mudar logo de assunto.

"Siga para o segundo verso", o Grifo repetiu. Ele começa com ‘Ao passar pelo jardim’".

Alice não pensou em desobedecer, embora sentisse que tudo iria dar errado, e começou com uma vozinha trêmula...

Eu passava pelo jardim e vi, com uma olhada de um só olho, Que a Pantera e o Mocho estavam dividindo uma torta; A Pantera comia a massa, o molho e a carne, Já ao Mocho o prato é que sobrava no trato.

Quando a torta estava finda, ao Mocho, com muita educação, Ofereceu a Pantera uma colher.

Já a Pantera ficou com o garfo e a faca, E assim pôde completar o banquete...

"Qual é a graça de ficar repetindo esta besteira toda?", a Falsa Tartaruga interrompeu. "Se você não explica enquanto vai dizendo? Esta é, de longe, a coisa mais confusa que eu já ouvi na vida!" "Sim, acho melhor você parar", disse o Grifo e Alice estava muito feliz por isso.

"Vamos tentar outra figura da Dança da Lagosta?", continuou o Grifo. "Ou você preferia que a Falsa Tartaruga cantasse outra canção?" "Ah, outra canção, por favor, se a Falsa Tartaruga não se incomodar", Alice replicou, tão em cima que o Grifo disse, com uma cara de ofendido: "Gosto não se discute! Cante a Sopa de Tartaruga, você poderia, velha amiga?" A Falsa Tartaruga suspirou profundamente, e começou com uma voz entrecortada por soluços, a cantar isso: Que bela sopa, tão rica e verde, Esperando no caldeirão a ferver! Quem consegue parar de comer? Sopa do jantar, bela sopa! Sopa do jantar, bela sopa! Que be....la so....pa! Que be....la so....pa! Soooo...pa do jantar! Bela, bela sopa! Que bela sopa, quem liga para um peixe, Carne ou outro prato? Quem não daria tudo o que tivesse por essa bela sopa? Sopa do jantar, bela sopa! Sopa do jantar, bela sopa! Que be....la so....pa! Que be....la so....pa! Soooo...pa do jantar! Bela, bela sopa! "O coro novamente!", gritou o Grifo, e a Falsa Tartaruga estava justamente começando a repeti-lo quando ouviu-se um grito à distância: O julgamento está começando!.

"Vamos", berrou o Grifo, pegando na mão de Alice e saiu apressado, sem esperar pelo fim da canção.

"Que julgamento é esse?", Alice ofegava enquanto corria. Mas o Grifo apenas respondeu: "Venha!" e correu mais rápido ainda, enquanto cada vez mais longe, trazido pela brisa, ouvia-se o melancólico estribilho: Soooo...pa do jantar! Bela, bela sopa!

Capítulo 11

Quem Roubou as Tortas?

O Rei e a Rainha de Copas estavam sentados em seus tronos quando eles chegaram, com uma multidão em volta...todo tipo de pequenos pássaros e animais além de todas as cartas do baralho: o Valete estava parado na frente deles, acorrentado, com um soldado em cada lado o guardando; e perto do Rei estava o Coelho Branco, com uma trombeta em uma mão e um pergaminho na outra. Bem no meio da corte havia uma mesa, com um grande prato de tortas sobre ela: elas pareciam tão deliciosas que Alice ficou com fome só de olhá-las e pensou: "Tomara que o julgamento termine logo e eles sirvam o lanche!". Mas parecia que a coisa não tinha chance e então, para passar o tempo, ela começou a olhar para tudo em volta.

Alice nunca estivera numa corte de justiça antes, mas já tinha lido sobre elas nos livros e estava satisfeita por perceber que sabia o nome de quase tudo em volta. "Aquele é o juiz", ela disse para si mesma, "por causa da sua grande peruca." O juiz, aliás, era o Rei, que vestia a coroa sobre a peruca (vejam o frontispício do livro, se vocês quiserem ver como ele fazia isso). Ele não parecia muito confortável e com certeza não estava muito charmoso também.

"E aquele é o lugar destinado aos jurados", pensou Alice, "e aquelas doze criaturas" (ela foi obrigada a pensar "criaturas" , sabe, porque algumas eram animais e outras eram pássaros), "suponho que sejam os jurados". Ela repetiu a última palavra duas ou três vezes para si mesma, bastante orgulhosa disso: pois pensava, com razão, que muito poucas meninas da sua idade sabiam o significado dessa palavra. Entretanto se ela tivesse dito "membros do júri" também estaria certa.

Os doze jurados estavam escrevendo muito ocupados em suas lousas.

"O que eles estão fazendo?", Alice sussurrou para o Grifo. "Eles não tem nada para escrever ali, antes de o julgamento começar." "Eles estão colocando seus nomes", o Grifo sussurrou em resposta, "pois estão com medo de esquecê-los antes do julgamento terminar." "Que estúpidos!", Alice começou a falar de alto e bom som, mas logo parou pois o Coelho Branco gritou "Silêncio na corte!" e o Rei colocou seus óculos para olhar ansiosamente em volta, procurando quem estava falando.

Alice podia ver, tão bem como se estivesse olhando por cima dos ombros, que todos os jurados tinham escrito "Que estúpidos!" em suas lousas e pôde ver também que um deles estava em dúvida sobre a grafia correta de "estúpidos" e tinha pedido para seu vizinho dizer para ele. "Uma bela bagunça vão estar as lousas até o final do julgamento!", Alice pensou consigo mesma.

Um dos jurados tinha um giz que rangia. Isso, é claro, Alice não agüentava, e então ela deu a volta na corte até chegar atrás dele e na primeira oportunidade arrancou-lhe o giz. Alice fez isso tão rápido que o pobre pequeno jurado (era Bill o Lagarto) não pôde perceber o que tinha acontecido: então, depois de procurar por toda parte ele foi obrigado a escrever com o dedo o resto do dia. É claro que não adiantava nada, pois não deixava marca nenhuma na lousa.

"Arauto, leia a acusação!", ordenou o Rei.

Nesse momento, o Coelho Branco assoprou três vezes a trombeta e a seguir desenrolou o pergaminho, lendo o que se segue: "A Rainha de Copas fez algumas tortas, Em um dia de verão: O Valete de Copas roubou todas elas, E levou embora sem hesitação." "Pensem no veredito", disse o Rei para o júri.

"Ainda não, ainda não!", o Coelho interrompeu com pressa. "Há muito o que fazer antes disso!" "Chame a primeira testemunha", o Rei disse, e o Coelho Branco assoprou três vezes sua trombeta, chamando a seguir: "Primeira testemunha!" A primeira testemunha era o Chapeleiro. Ele chegou com uma xícara de chá em uma das mãos e um pedaço de pão com manteiga na outra.

"Eu peço-lhe desculpas sua Majestade", ele começou, "por trazer estas coisas, mas eu ainda não tinha terminado meu chá quando fui chamado." "Você deveria ter terminado", disse o Rei. "Quando você começou?" O Chapeleiro olhou para a Lebre de Março, que o tinha seguido até à corte de braços dados com o Leirão.

"Catorze de março, eu acho que era", ele respondeu.

"Quinze", disse a Lebre de Março.

"Dezesseis", disse o Leirão.

"Escrevam isso" o Rei disse para o júri; e os jurados apressaram-se em escrever as três datas em suas lousas, somando-as e chegando a uma conta maluca que incluía valores em dinheiro.

"Tire seu chapéu", o Rei ordenou ao Chapeleiro.

"Não é meu", respondeu o Chapeleiro.

"Roubado!", o Rei exclamou, virando-se para o júri, que no mesmo instante anotaram o fato.

"Eu os tenho para vender", o Chapeleiro continuou com sua explicação.

"Nenhum deles é meu. Eu sou um chapeleiro." Nesse instante a Rainha colocou seus óculos e começou a encarar o Chapeleiro, que empalideceu e inquietou-se.

"Faça seu depoimento", disse o Rei, "e não fique nervoso, ou eu mandarei executá-lo imediatamente." Essa frase parece que não encorajou a testemunha, que começou a ficar sobre apenas um pé, alternando, olhando inquietamente para a Rainha. Na confusão acabou mordendo um pedaço da sua xícara de chá ao invés de morder seu pão com manteiga.

Exatamente nessa hora Alice teve uma curiosa sensação, que a perturbou bastante até que ela percebesse o que se estava passando: Alice estava começando a crescer novamente. No início ela achou que deveria levantar-se e deixar a corte, mas depois decidiu ficar enquanto houvesse espaço para ela.

"Eu queria que você não me espremesse tanto", disse o Leirão, que estava sentado ao seu lado. "Eu quase não consigo respirar." "Eu não posso ajudá-lo. Eu estou crescendo." "Você não tem o direito de crescer aqui", disse o Leirão.

"Não fale bobagens", respondeu Alice destemidamente, "você sabe que você está crescendo também." "Sim, mas eu estou crescendo em uma velocidade razoável", retrucou o Leirão, "e não desse jeito ridículo." A seguir ele levantou-se com irritação e atravessou a sala até chegar do outro lado da corte.

Todo o tempo a Rainha não tirou os olhos do Chapeleiro e, no instante que o Leirão atravessou a corte, ela ordenou a um dos oficiais da corte: "Tragam-me a lista dos cantores no último concerto!". O coitado do Chapeleiro começou a tremer tanto que seus sapatos escorregaram dos pés.

"Dê seu depoimento", o Rei repetiu muito bravo, "ou você será decapitado, esteja você nervoso ou não." "Eu sou um homem pobre, Majestade", o Chapeleiro começou com uma voz trêmula, "e eu nem bem tinha começado a tomar meu chá ... há mais ou menos uma semana...e como a fatia de pão estava ficando tão fina...e a cintilação do chá..." "A cintilação do quê?", perguntou o Rei.

"Ela começa com C", o Chapeleiro retrucou.

"É lógico que cintilação começa com C", disse o Rei agudamente. "Você acha que eu sou burro? Vá em frente!" "Eu sou um homem pobre", o Chapeleiro continuou, "e quase tudo começou a cintilar depois que...e a Lebre de Março disse..." "Eu não disse nada", a Lebre de Março interrompeu rapidamente.

"Disse", replicou o Chapeleiro.

"Eu nego isso!", disse a Lebre de Março.

"Ela nega", disse o Rei. "Deixemos o tema de lado." "Bem, de qualquer maneira, o Leirão disse...", e o Chapeleiro continuou, olhando ansiosamente ao redor para ver se ele iria negar também; mas o Leirão não negou nada, já que dormia a sono solto.

"Depois disso", continuou o Chapeleiro, "eu cortei algumas fatias de pão..." "Mas o que o Leirão disse?", um dos jurados perguntou.

"Isso eu não lembro", disse o Chapeleiro.

"Você precisa lembrar", observou o Rei, "ou você será executado." O coitado do Chapeleiro derrubou sua xícara de chá e o pão com manteiga e colocou-se de joelhos.

"Eu sou um homem pobre, Majestade", ele começou.

"Você é um muito pobre orador", disse o Rei.

Nesse instante um dos porcos-da-índia começou a aplaudir, mas imediatamente foi abafado pelos oficiais da corte. (Como essa palavra abafar pode ser difícil para alguns, eu vou explicar como eles fizeram a coisa. Eles tinham um grande saco de lona, com a boca que fechava com cordões: eles enfiaram lá dentro o porco-da-índia, de cabeça para baixo e depois sentaram sobre ele).

"Eu estou muito feliz de ver como eles fazem isso", pensou Alice. "Já tinha lido tantas vezes no jornal, que no fim dos julgamentos... Houve uma tentativa de aplauso, que foi imediatamente abafada pelos oficiais da corte... e nunca tinha entendido direito o que isso significava." "Se isso é tudo o que você sabe a respeito do caso, pode descer", continuou o Rei.

"Eu não posso descer mais", disse o Chapeleiro. "Eu já estou no chão, como o senhor pode ver." "Então pode sentar-se", replicou o Rei.

Outro porco-da-índia começou a aplaudir e também foi abafado.

"Bem, com isso se acabam os porcos-da-índia", pensou Alice. "Vamos ver se agora melhora." "Eu preferia terminar meu chá.", disse o Chapeleiro, olhando ansiosamente para a Rainha, que estava lendo a lista dos cantores.

"Você pode ir embora", disse o Rei. E o Chapeleiro deixou a corte apressadamente, sem nem mesmo esperar para calçar seus sapatos.

"... e cortem-lhe a cabeça lá fora", a Rainha complementou para um dos oficiais; mas o chapeleiro já sumira de vista antes que o oficial chegasse até à porta.

"Chamem a próxima testemunha!", ordenou o Rei.

A próxima testemunha era a cozinheira da Duquesa. Ela trazia a pimenteira na mão, e Alice adivinhou quem era antes mesmo dela entrar na corte, pois as pessoas perto da porta começaram a todas a espirrar.

"Faça seu depoimento", disse o Rei.

"Faço não", disse a cozinheira.

O Rei olhou ansiosamente para o Coelho Branco, que disse, em voz baixa: "Vossa Majestade deve o senhor mesmo submeter essa testemunha ao interrogatório." "Bem, se é necessário, eu faço", o Rei respondeu com ar melancólico, após cruzar os braços e franzir as sombrancelhas até que seus olhos quase sumissem. Ele perguntou então, com uma voz profunda: "De que são feitas as tortas?" "Principalmente de pimenta", respondeu a cozinheira.

"Melado", dise uma voz sonolenta atrás dela.

"Prendam esse Leirão!", a Rainha gritou esganiçada! Retirem esse Leirão da corte! Sufoquem esse Leirão! Abafem! Cortem-lhe os bigodes!" Começou então a maior confusão, e até que eles conseguissem expulsar o Leirão e todos se sentassem novamente, a cozinheira sumira.

"Não importa!", disse o Rei, com um ar de alívio. "Chamem a próxima testemunha". Ele completou, à meia-voz para a Rainha, "Realmente, minha querida, você precisa interrogar a próxima testemunha. Isso tudo está me dando a maior dor de cabeça!" Alice estava olhando para o Coelho Branco, que remexia na lista de testemunhas, curiosa para saber quem seria a próxima, "pois até agora ainda não consegui entender nada do caso". Imaginem sua surpresa quando o Coelho Branco leu bem alto, com sua vozinha esganiçada o nome "Alice!".

Capítulo 12

O Depoimento de Alice

"Presente", gritou Alice, esquecendo na excitação do momento o quanto tinha crescido nos últimos minutos. Ela saltou com tamanha pressa que acabou virando o banco do júri com a barra da saia, deixando os jurados de cabeça para baixo, esperneando. Alice lembrou-se muito do aquário de peixinhos dourados que tinha virado acidentalmente na semana anterior.

"Oh, eu peço mil perdões!", ela exclamou consternada, e começou a levantá-los o mais rapidamente que podia, pois o acidente com os peixinhos ainda estava em sua mente e ela estava com a sensação de que se não os recolocasse nos seus lugares eles poderiam morrer.

"A audiência não poderá prosseguir", disse o Rei, com uma voz grave, "até que os jurados estejam de volta a seus lugares... todos", ele repetiu com grande ênfase, olhando duramente para Alice ao falar.

Alice olhou para o banco dos jurados e percebeu que, em sua pressa, tinha colocado o Lagarto de cabeça para baixo e a pobre coisinha estava lá, agitando melancolicamente a cauda, incapaz de se mover. Ela apanhou-o novamente e colocou o pobre de cabeça para cima. "Não que isso mude alguma coisa", disse para si mesma, "eu penso que de uma maneira ou de outra ele tem a mesma utilidade." Tão logo o júri recuperou-se do choque e que suas lousas e lápis foram encontrados e devolvidos, eles sentaram-se e começaram a trabalhar diligentemente no relato do acidente. Todos, exceto o Lagarto, que parecia muito chocado para fazer outra coisa que ficar com a boca aberta, olhando para o teto da corte com os olhos esgazeados.

"Que você sabe a respeito do caso?", o Rei perguntou a Alice.

"Nada", respondeu Alice.

"Nada de nada?", insistiu o Rei.

"Nada de nada", disse Alice.

"Isso é muito importante", disse o Rei, voltando-se para o júri. Os jurados estavam começando a escrever em suas lousas quando o Coelho interrompeu: "Desimportante, é o que Vossa Majestade quer dizer, claro", ele disse, em um tom respeitoso, mas franzindo o cenho e fazendo caretas.

"Desimportante, é claro, foi o que eu quis dizer", o Rei retomou rapidamente, e continuou falando consigo mesmo a meia-voz "importante...

desimportante... desimportante... importante..." como se estivesse procurando qual palavra soava melhor.

Alguns dos jurados escreveram "importante" e alguns "desimportante". Alice pôde ver porque estava perto o suficiente para ver as lousas. "Mas isso não tem a menor importância", ela pensou consigo mesma." Nesse momento o Rei, que estivera ocupado por algum tempo escrevendo alguma coisa em um caderno de anotações, gritou: "Silêncio!" e leu o que estava escrito.

"Artigo Quarenta e dois. Todas as pessoas com mais de um quilômetro e meio de altura devem abandonar o tribunal." Todo mundo olhou para Alice.

"Eu não tenho mais de um quilômetro e meio", disse Alice.

"Tem sim", disse o Rei.

"Quase três quilômetros", completou a Rainha.

"Bem, de qualquer jeito, não vou embora", disse Alice. "Além do mais, esse artigo não é legal, pois vocês acabaram de inventá-lo." "É o artigo mais antigo do código", retrucou o Rei.

"Então deveria ser o Número Um", argumentou Alice.

O Rei empalideceu, fechando seu livro de notas rapidamente.

"Façam seu veredito", o Rei ordenou ao júri, com uma voz baixa e trêmula.

"Por favor, Vossa Majestade, ainda há evidências a serem examinadas", disse o Coelho Branco, levantando-se apressado. "Esse papel acabou de ser descoberto." "O que há nele?", perguntou a Rainha.

"Eu ainda não abri", respondeu o Coelho Branco, "mas parece ser uma carta, escrita pelo prisioneiro para...para alguém." "Para quem ela é endereçada?", perguntou alguém do júri.

"Não está endereçada a ninguém", disse o Coelho Branco. "Na verdade, não tem nada escrito do lado de fora. "Ele foi abrindo o papel enquanto falava e completou: "Não é uma carta, afinal, são apenas versos." "E é a letra do prisioneiro?", perguntou outro jurado.

"Não, não é", respondeu o Coelho Branco, "e isso é o mais estranho." (Os jurados pareciam confusos.) "Talvez ele tenha imitado a letra de outra pessoa", disse o Rei. (O júri ficou alegre novamente.) "Por favor, Vossa Majestade", pediu o Valete. "Eu não escrevi isso e ninguém pode provar que fui eu: não há nenhum nome assinado no final." "Se você não assinou", disse o Rei, "apenas torna a situação pior para você. Com certeza você estava fazendo alguma coisa errada, senão teria assinado seu nome como um homem honesto." Houve um aplauso geral: aquilo fora a primeira coisa inteligente que o Rei tinha falado naquele dia.

"Isso prova sua culpa, logicamente", continuou a Rainha, "portanto, cortem-lhe a ..." "Isso não prova coisa alguma", gritou Alice. "Vocês nem ao menos sabem o que dizem os versos!" "Leia-os", ordenou o Rei.

O Coelho Branco colocou seus óculos. "Por onde devo começar, se Vossa Majestade permite?", ele perguntou.

"Comece pelo começo", disse o Rei com muita gravidade, "e siga até o fim: daí pare." Fez-se um silêncio mortal na corte enquanto o Coelho Branco lia estes versos: Eles falaram que você chegou perto dela E de mim para ela falou Ela achou que eu era um bom caráter Mas não me deixou nadar ainda assim.

Ele deu sua palavra que não tinha sido eu (E todos sabemos, isso é verdade) Se ela quisesse mesmo saber O que aconteceria com você? Eu dei para ele um, eles lhe deram então dois, Você para nós deu três ou mais Eles todos devolveram os seus Mas todos eram meus antes Se houvesse chance de ela ou eu Estarmos envolvidos nesse problema Ele pediria a vocês para libertá-los E fomos libertados.

Eu achava que era o que tinha sido (Antes de ela dar seu estrilo) Um obstáculo que apareceu Entre ele, nós e aquilo.

Não o deixe ver que ela a eles tem amado Para sempre deve ser Um segredo, de todos mantido a parte Entre você e eu.

"Esta é a prova mais importante que já ouvimos aqui", disse o Rei esfregando as mãos, "portanto, vamos agora aos jurados..." "Se algum deles for capaz de entender os versos", disse Alice (a menina tinha crescido tanto nos últimos minutos que não estava com medo nenhum de interromper o Rei), "eu lhe darei seis pence. Eu acho que não há um mínimo de sentido em nada." Todo o júri escreveu, em suas lousas. "Ela acha que não há um mínimo de sentido em nada". Mas nenhum deles se habilitou a explicar os versos.

"Se não há sentido neles", disse o Rei, "isso livra o mundo de um incômodo, você sabe, não precisamos procurar um. E eu não sei não", ele continuou desdobrando o papel sobre os joelhos, olhando para ele de rabo de olho, "eu até diria que há algum sentido neles, afinal de contas ‘...

Mas disse que eu não sei nadar...’ Você não sabe nadar, sabe?", ele perguntou virando-se para o Valete.

O Valete balançou a cabeça tristemente. "Eu pareço com alguém que sabe nadar?", ele respondeu (Certamente que não, pois ele era uma carta de baralho feita de papelão.) "Tudo bem por enquanto", disse o Rei, que continuou a falar sobre os versos para si mesmo: "E isso, nós sabemos, é verdade... isso é o júri, claro... Porém, se ela quisesse ir ao fim... isso deve ser a Rainha... Que seria de ti, saber quem há de?... O quê, afinal?... Deram duas a ele, a ela dei uma... ora, isso deve ser o que ele fez com as tortas, certo?" "Mas os versos continuam com Todas voltaram, não faltou nenhuma", disse Alice.

"Certo, lá estão elas!", disse o Rei com ar de triunfo, apontando para as tortas sobre a mesa. Nada poderia ser mais claro que isso. Depois vem...Antes dela dar seu estrilo... você nunca deu estrilo algum, não é, minha querida?", ele disse para a Rainha.

"Nunca!", respondeu a Rainha furiosamente, jogando um tinteiro em cima do Lagarto enquanto falava. (O infeliz pequeno Bill tinha parado de escrever na lousa com o dedo, pois percebera que de nada adiantava; mas depois do ataque começou a escrever novamente usando a tinta que lhe escorria pela cara, enquanto não secava.) "Então suas palavras têm estilo", disse o Rei olhando para o tribunal com um sorriso. Havia um silêncio de morte.

"É um trocadilho!", o Rei completou com raiva, e então todo mindo começou a rir. "Deixemos o júri considerar seu veredito", disse o Rei, mais ou menos pela vigésima vez no dia.

"Não, não!", disse a Rainha. "A sentença primeiro... depois o veredito." "Que disparate!", disse Alice em voz alta. "Que idéia imbecil esta da sentença antes!" "Dobre sua língua", gritou a Rainha, vermelha de raiva.

"Não dobro não!", respondeu Alice.

"Cortem-lhe a cabeça!", a Rainha berrou o mais alto que pôde. Ninguém se mexeu.

"Quem se importa com você?" Disse Alice (que acabara de voltar ao seu tamanho normal). Vocês não passam de um baralho de cartas!" Nesse instante todo o baralho voou no ar, começando depois a cair sobre Alice; ela deu um gritinho, meio com medo, meio com raiva, tentando rebatê-las. A menina achou-se então deitada no barranco com a cabeça no colo da irmã, que gentilmente afastava algumas folhas secas que tinham caído da árvore sobre elas.

"Acorde, Alice querida!!", disse a irmã. "Nossa, que sono pesado você teve!" "Puxa, que sonho estranho que eu tive!", disse Alice. Então ela contou para a irmã, tão bem quanto pôde lembrar, as estranhas Aventuras que vocês acabaram de ler. Então, depois que terminou, sua irmã deu-lhe um beijo e disse "Foi um sonho curioso, querida, certamente; mas agora apresse-se, é hora do chá: está ficando tarde." Alice levantou-se e saiu correndo, pensando enquanto corria que aquele tinha mesmo sido um sonho maravilhoso.

Mas sua irmã ficou lá mesmo, com a cabeça entre as mãos, pensando na pequena Alice e em suas maravilhosas Aventuras, até que ela mesma começou a sonhar e este foi seu sonho...

Primeiro, ela sonhou com a pequena Alice: mais uma vez sua mãozinhas estavam pousadas nos joelhos e seus olhos brilhantes olhavam para ela...

ela podia até mesmo ouvir os diferentes tons da sua vozinha e ver aquele jeito só dela de atirar a cabeça para trás e afastar as mechas de cabelo que sempre teimavam em lhe cair sobre os olhos... e enquanto escutava, ou parecia que escutava, todo o espaço en volta dela ia ficando repleto daquelas estranhas criaturinhas do sonho da irmãzinha.

A grama farfalhava sob os pés do apressado Coelho Branco... o Rato assustado espalhava água para fora da lagoa... ela podia ouvir o tilintar das xícaras de chá enquanto a Lebre de Março e seus amigos partilhavam da sua refeição que nunca acabava, e a vozinha aguda da Rainha ordenando a execução dos seus infelizes convidados... mais uma vez o bebê-porco estava espirrando no colo da Duquesa, enquanto pratos e travessas se espatifavam em volta... e mais uma vez o guincho do Grifo, o ranger do giz do Lagarto e os tais aplausos sufocados dos porcos-da-índia enchiam o ar, misturados com os soluços distantes da miserável Falsa Tartaruga.

Sentada, com os olhos fechados, quase acreditou estar ela mesma no País das Maravilhas, mesmo sabendo que quando abrisse os olhos novamente tudo voltaria a ser a chata realidade de sempre... a grama se mexeria apenas com o vento e a lagoa estaria se movimentando apenas com os juncos... o tilintar da xícaras novamente seria o badalar dos sinos pendurados nos pescoços dos carneiros... os gritos agudos da Rainha seriam apenas os berros do pastor... o espirro do bebê, o guincho do grifo, e todas as outras coisas esquisitas iriam transformar-se (ela sabia) no confuso clamor da vida no campo... assim como o mugir do gado à distância iria tomar lugar dos pesados soluços da Falsa Tartaruga.

Finalmente, ela imaginou como sua irmãzinha, no futuro, transformar-se-ia em uma mulher adulta: e como ela iria manter, através da sua maturidade o mesmo coração simples e afetuoso da sua infância: como também ela sempre estaria cercada de criancinhas e faria os olhos delas brilharem com muitas histórias estranhas, talvez até mesmo com o sonho do País das Maravilhas de há muito tempo atrás; como ela adoraria compartilhar com suas tristezas simples e alegrar-se com suas brincadeiras ingênuas, lembrando-se da sua própria infância e daqueles felizes dias de verão.

Fonte: www.alfredo-braga.pro.br

voltar 1 2 3 4 avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal