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Camões

Almeida Garret

CANTO SEGUNDO

Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido, a cor murchada,
Tal está morta a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva cor coa doce vida

Lusíadas

I

Que sons descompassados troa o bronze
Nas torres do mosteiro? Que ais carpidos,
Que agudos uivos desgrenhadas gritam
Essas mulheres pálidas? Que fúnebres
Alas são essas de homens todos luto,
De escuro vaso e longo dó vestidos?
Que hinos de morte roucos murmurando
Vão esses cabisbaixos sacerdotes?
Que pompa é essa? Um ataúde a fecha.
Orgulho do homem, dás o arranco extremo
Na vaidade da campa. Que grandezas,
Que distinções queres pleitear ainda
Na igualdade terrível do sepulcro?
Desengano da morte, és tu acaso

Outro sonho dos míseros viventes?
Quem desenganas tu? — Viram de longe,
Caminho do mosteiro, os viajantes
Enfiar a porta máxima do templo
Ordem longa de tochas, baço lume,
Clarão triste de mortos. Sons perdidos
Do psalmear monótono lhes trouxe
A gemedora viração da noite;
E o ar pelos ouvidos lh’estremece
Com o dobrar das campas desentoadas.

II

Ruim agouro! Um saimento fúnebre
Ao regressar à pátria! Não se pôde
Conter do involuntário pensamento
O português viajante. Mal conhece
A intrepidez dos bravos esse louco
Terror do vulgo que estremece à vista
Dum gélido cadáver: costumados
A ver a face pálida da morte,
As agonias roxas, e o transido
Suor do passamento, — não se movem
Seus músculos tão fácil. Mas ressumbra
Não sei quê tão solene e grave e augusto
De um funeral entrando a passo lento
As portas do jazigo, que essa pompa
Triunfal da morte, do mais duro peito,
Ao gesto mais tranquilo traz de força
Contracção impossível de encobrir-se.
Não lhe chamo terror, nome lhe assignem
Qual queiram mais; que o sentimento d’alma,
A impressão natural é sempre a mesma.

III

Desta comum fraqueza — se tal era —
Não foi isento o Luso; — e porventura

Um presságio de incógnita desgraça,
Pressentimento vago e mal distinto
De não sabido mal, se uniu àquela.
O Jau supersticioso, como é de Índios,
Fez claro um gesto de terror, a face
Volveu à esquerda, e coa mão fria trava
Da curta capa ao amo:
— «A esquerda, à esquerda,
Meu senhor não encares um finado
Em sua última viage: há mal em vê-lo
Face por face.»
— «Deixa-me, ignorante,
Com teus medos ridículos. »
— «Embora
Embora: mas na Índia...»
— «Não prossigas.»
— «E que há» disse, apontando para o féretro
Que entrava a igreja então, o missionário,
«Que há tão medonho e mau nesses despojos
Da passageira vida? Um tronco seco,
Pelos ventos do outono despojado
Do viço e folhas, — tenda abandonada
Pelo viandante que voltou à pátria.
Oh! seja-lhe piedoso o juiz eterno.»

IV

Chegavam aos cancelos do convento,
E o missionário disse: — «Cavaleiro,
Da casa do Senhor aberta a porta,
Não passarei sem ir ante os altares
Meu tributo de graças of ’recer-lhe
Cuido me seguireis: o humilde cântico
De nossa gratidão irá juntar-se
Com as preces dos mortos. Mas que importa?
Ouvirá Deus a todos. Se lho impedem
Superstições e medo, fique embora
E nos aguarde o escravo.» — Não responde
O guerreiro, mas segue o ancião piedoso.

V

Fosse terror, ou sentimento fosse
De mais oculta origem, pelas naves
Do templo entrou com passos mal seguros
Ele, que tantas vezes há rompido
As cerradas fileiras, — que à guardada
Brecha se apresentou com rosto frio,
E a entrou sem vacilar! — Oh! que ente és, homem,
Incompreensível tu! — Do templo em meio,
Alto e funéreo estrado se levanta,
Negro da cor dos túmulos. Em cima
Poisava um ataúde. Alva capela
De quase murchas, desbotadas rosas
Indicava que a vítima da morte
D’himeneu ilibada sucumbira.
Pesados lutos e arrastados fumos
Cobriam, perto, amigos e parentes
Fúnebre silenciosos. Arde em torno
Renque de brandões pálidos; e afumam
Do embalado turíbulo os vapores
Da resina sabeia. Ecoa o templo
Coas tremedoras notas desses hinos
Que, na solene entrada do sepulcro,
Terrível canta a igreja, — quase um eco
Da profundez do abismo, que reflecte
Pavoroso na terra. — A ponto entravam
Os viajantes no templo quando o coro:
— «Tédio da vida concebeu minha alma;
E é força que desate a própria língua
Contra mim mesmo, — e desabafe o peito
A amargura falando de minha alma.»
«Direi a Deus: não me condenes, ouve-me.
Porque assim me julgaste? Acaso é digno
De ti caluniares-me, avexar-me,
A mim que sou das tuas mãos feitura?»

«São teus olhos de carne como os d’homem?
Como eles vês e julgas? — Porque ao dia,
Do cárcere materno, me hás trazido?
Oxalá que eu não visto perecera
De olho nenhum vivente, e houvera sido
Como se nunca fosse, — trasladado
Do ventre à sepultura!»
«O escasso número
Dos dias meus não será findo em breve?
Deixa-me pois chorar a minha mágoa,
Gemer coa minha dor antes que desça,
Para mais não voltar, à tenebrosa
Terra que a escuridão cobre da morte:
Terra de míngua e trevas, habitada
Pelas sombras da morte, — onde mais ordem
Que o sempiterno horror há i nenhuma.»

VI

As vibrações da música, as palavras
Não menos forte, o lugar, a hora
A grinalda de rosas sobre o túmulo,
Porventura ignoradas circunstâncias
Que às sombras deste quadro dão relevo
Com mais fortidão n’alma, tudo a um tempo
No predisposto cérebro, de embate,
Violento abalo deu ao Lusitano.
Os cabelos na frente se ouriçaram
Como selva de lanças ergue súbito
Ao grito alarma em dia de batalha.
O coração parou-lhe, — e o corpo túrgido
Pesou sobre os joelhos, que vergaram
De golpe a terra. Do que sente ignaro,
E de sua fraqueza envergonhado,
Baixa o rosto, e se encosta à balaustrada
Do coro que por caso tem diante.

VII

Ou não sentiu, ou de sentir não mostra
A turbação que o espírito aliena
Ao companheiro seu, o missionário:
Junto dele ajoelhou, e em voz submissa
Ao Deus dos vivos e dos mortos ora.

VIII

Findava o canto lúgubre das preces:
Quatro enlutados cavaleiros sobem
Os degraus do moimento; da eça tomam,
Levam nos braços o ataúde, e descem.
Todo o cortejo, murmurando os psalmos
Das rogações extremas, se encaminha
Em passo lento a lateral capela
Que ornam vasados, góticos pilares
De mármore tão negro como as vestes
Dos enlutados vultos que os rodeiam.
Da procissão ao cabo, os anojados
Levam de uma das mãos o triste peso,
Coa outra sobre os olhos segurando
O usado emblema do dorido choro.

IX

Junto ao guerreiro ajoelhado, passa
O insensível objecto dessa pompa.
Fosse caso ou tenção, neste momento
Alevantando a face descaída
Coa vista no vizinho cavaleiro
Deu... estremece... ao ataúde os volve:
Já longe o levam; — mas viu inda escudo
De conhecido emblema no arremate.
Céus! que viu!... — A coroa d’alvas rosas,
Nesse instante um baloiço descontrado
Dos cavaleiros, a desprende, — rola

Por terra, e junto dele pára...
Avante
Foram: ninguém nessa grinalda atenta
Que desprendeu do féretro o acaso.
Acaso foi? — Mistérios há na campa
Que em tradições de séculos fundados
Me travam da razão: crê-los não ouso,
Mas desprezá-los... também não: — pensava
O atribulado, incógnito guerreiro...

X

O cortejo passou... — e a c’roa fúnebre
Ergueu convulsa mão, trémula a aperta;
E olhos, que desvairados a contemplam,
Parecem perguntar-lhe: — «Flor de morte,
Em que pálida frente hás tu pousado?»
Quem lhe há-de responder? Em breve a loisa
Se fechará, — como os ferrados cofres
Do avaro, onde nem lágrimas de aflitos,
Nem suspiros de tristes lhes aventam
Luz de esperança mínima. — Segui-lo,
Antes que o cerre a campa, esse ataúde
Em que talvez... Oh bárbara incerteza,
Terrível, cruelíssima! E terrível
A verdade será... Mas antes ela.
Corre ao sítio onde viu encaminhar-se
O funeral; o som das vozes segue,
Entra a capela escura. — Escuro é tudo;
Nem uma luz, nem um vivente. O baço,
Triste clarão da lâmpada que ardia
Longe no mor altar, só lá reflecte
Tanto de claridade quanto as trevas
Desse recinto fúnebre amostrasse.

XI

Foi sonho quanto viu! visão fantástica
Toda a funérea pompa, o canto, o féretro

E essa fatal grinalda!... Ei-la, na destra
Segura ainda a tem. — Escuta: uns ecos
Soterrâneos — como hinos de finados
Por noute aziaga em cemitérios, se ouvem.
Inclina atento a orelha; um passo avante...
Tropeça... Em quê? — Numa revolta loisa.
Aberta está a porta do sepulcro.
Um ténue bruxelear de luz descobre
Na profundez do abismo; os degraus últimos
De húmida escada vê: descerá? — Desce:
Na estância entrou das gerações extintas.

XII

Terra esquecida aí jaz, aí moram cinzas
Por que em vão falam epitáfios, letras.
Sobre a face da terra que deixaste?
Que feitos de virtude ou de heroísmo
Tua passagem nela assinalaram?
Nenhum? Inteiro ao túmulo desceste,
Traga-te o olvido todo. Ergue obeliscos,
Amontoa pirâmides; — embalde!
Livra um mármore só do esquecimento:
É a memória do prestante feito
Que as idades lembradas vão guardando
De geração em geração na terra.

XIII

Ei-lo vai, entre as táitas falanges
De enfileirados ossos caminhando
O atónito guerreiro; — ao cabo extremo
Desse arraial de mortos, dá cos olhos
No cortejo de dó que hóspede novo
Traz à morada eterna. A ponto o féretro
Ia baixar ao perenal encerro
Donde o não moverá senão a tuba


Terrível, quando o sol se erguer do oriente
A dar a extrema luz ao dia extremo.
Dobra o passo; inda é tempo. Argêntea chave
Laçada em fumo negro, um cavaleiro
Tinha na mão: o mais ilustre esse era
Ou o mais anojado: — uso sabido,
E venerada prática dos nossos.
Pela derradeira vez olhos de vivos
Verão a face lívida do morto
Que ao final poiso desce. Despedida
Solene! E que expressão há i na terra
Em língua d’homens, que translade ao vivo
Todo esse acumular de sentimentos
Que em si de tal instante o adeus encerra!

XIV

Já vacilante mão abre o ataúde...
Amortalhavam cândidos vestidos
O corpo ainda airoso duma dama
Não morta no botão d’anos viçosos,
Mas na desabrochada flor da vida,
Tão delicada não, porém mais bela.
Velada a face tinha; mas conhece-a...
Quem? o guerreiro... quem? o seu amante.

XV

Céus! ele mesmo, ele! — Precipita-se
Sobre o cadáver... ergue o véu... — «Natércia!»
— «Natércia» d’eco em eco repetiram
Os ecos dos moimentos, acordados
Do sono sepulcral. Estremeceram
Os do cortejo, e atónitos contemplam
O incógnito. — «É ele» uma voz disse;
— «É ele» em torno remurmuram todos.

XVI

O sangue ao coração atropelado
Recuou, estagna-se, e parou da vida
As funções todas ao guerreiro; — em terra
De mortos semimorto fica. Entanto
Deu a volta fatal e derradeira
A chave do ataúde; cai a lajem.
Sobre a boca do túmulo. — A existência
Se esvaeceu... começa a eternidade.

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