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Camões

Almeida Garret

CANTO TERCEIRO

Por meio destes hórridos perigos,
Destes trabalhos graves, e temores
Alcançam os que são da fama amigos
As honras imortais e graus maiores
Lusíadas

I

— «Ah! meu senhor... bem o disse eu: mal trazem
Vistas de mortos.»
— «Sossegai, amigo;
Deixai-o repoisar: sono propício
Já lhe acalmou o sangue; e mais tranquilo
D’ânimo acordará.» — Submissas vozes
Murmuravam assim em baixo acento
Junto do leito em que prostrado e plácido
Por benigno Morfeu jaz o guerreiro.
De roxas violetas se toucava
No horizonte primeiro o alvor do dia,
E a claridade ténue da arraiada,
De estreita fresta os vidros penetrando,
À morredoura luz de exausta lâmpada
Vinha juntar sua luz na humilde cela
Onde este curto diálogo passava.

CANTO TERCEIRO

II

Pranchas de escuro til, rudo lavradas,
Do aposento as paredes guarneciam.
Sobre uma banca de igual custo e obra
Poisava antiga cruz donde pendia
Agonizando o Cristo: lavor fino
Que no índico dente a mão devota
Dum neófito d’Ásia executara,
E fora dom do grato catecúmeno
Ao que nas águas místicas do Ganges,
Por novo rito e lei, lhe consagrara
Antigas abluções. Único um livro
De pesado volume ao pé do lenho,
O livro dos cristãos: dois férreos broches
As grossas pastas fecham. Pende, a um lado
Da parede, enfumado, antigo quadro
Que os rudes traços do pincel recorda
De Perugino ou Vasco, à infância da arte:
Em cujo parecer traslado brando
Deram tintas fiéis dessa virtude
Que o filósofo disse humanidade,
Caridade o cristão. — Dispute em nomes
Quem de palavras cura: o homem sincero
Sem vaidades de língua, obra e não fala.
Pintado estava ali um nobre velho
Que a angélica beleza de sua alma
Toda tinha no rosto retratada.
Alvo-negro saial o ancião vestia;
Junto dele, de penas variegadas
Cingido a frente e rins, imberbe um homem
De brônzea tez, jazia malferido.
Convulsa dor em contracções se exprime
No requeimado gesto; mas nos olhos,
Se é lágrima essa nuve’ imperceptível
Que rara os cobre, — não lha choram dores
Mas de sensível gratidão desliza.
Letra o painel não tem; mas claro amostra
Novo Tobias no hemisfério novo.


III

Do habitador da cela amigo e mestre
Las-Casas fora, quando guerra injusta
Seu braço, d’ímpio ferro outrora armado,
Levou cruel aos povos mal defesos
Que ajoelhavam pávidos, devotos
Ante homens numes, dos trovões senhores.
De tal amigo o comoveu o exemplo.
Pensada reflexão, não voto incauto,
Extorquido à fraqueza ou cega infância,
Lhe trocou no burel o azero e malha

IV

Mas já no leito o adormecido acorda.
Seus mal abertos olhos se descerram
Ao primeiro luzir do sol, que é nado
Neste momento, agora: froixamente,
Mas não turbados, derredor os volve
Pelo aposento. Como quem se afirma,
Um e outro dos dous que o acompanham
Fita admirado, e a modo que procura
Reconhecer feições que há visto algures:
Com vagarosa mão correndo a frente
Uma vez e outra vez, dá parecenças
De querer ajudar o envolto cérebro
A desligar ideias mal distintas.

V

Assim ao que tomou gelado spasmo
Toda a aparente vida, os membros rijos,
Sem cor os lábios, preso o sangue... é morto:
Ergue-se o carpir d’órfãos, da viúva...
Já no sudário envolto, já nas andas
Os doridos amigos o conduzem


À morada dos findos... Repentino,
Do coração começa o calor vivo
A devolver-se, manso e manso, às veias;
Longes de esvaecida cor lhe tingem
Os beiços... pestaneja froixa a pálpebra...
Abre os olhos... que atónitos duvidam
Se inda é mundo o que vêem. — Tal contemplava
Com pasmado semblante os que o rodeiam
Do castelhano cenobita o hóspede.

VI

Risonho, e com sossego apropriado
A sossego inspirar, lhe disse o monge:
— «Bons dias, cavaleiro; em pobre cama
Ricos sonos se dormem — diz o adágio,
E hoje o provastes bem. O sol já nado
Convida a erguer-vos; e este sino, que oiço,
Às preces matinais me chama ao coro.
De refeição tereis mister; sadia,
Se não mui esquisita, vou buscar-vos.
No entanto levantai-vos: pouco tempo
Do vosso Jau fiel na companhia
Vos deixarei: não tardo.»
— «E aonde... estamos?
Não me recordo...»
— «Estais em casa amiga.
A nossa cela é esta: sossegai-vos.
Atribulado há sido vosso espírito:
Inseparável condição da vida
Padecimentos são; todos penamos.
Mas a constância é a virtude do homem.
E a paciência a do cristão. Mais largo
Conversaremos logo: a dor do peito
Quer-se desabafada em peito amigo.
Por ora conservai tranquilo o ânimo:
Breve aqui sou.»



VII

E cobre o manto, e parte.
O silêncio o seguiu; e o tardo piso
Apenas se escutava das sandálias
No longo dormitório ressoando.

VIII

— «Devo», dizia o incógnito guerreiro,
Quando, à volta do coro, com seu hóspede,
Leve repasto da manhã tomavam:
«Devo a tão bondadoso e terno amigo,
Às solícitas penas e cuidados
Que vos hei dado, confissão sincera...
Quero explicar-vos o sucesso estranho
Que ontem presenciastes; — e do escândalo,
Se a meu pesar o dei, perdão vos peço.»
— «Demasiado avaliais fracos serviços.
O segredo é a rica jóia d’alma,
Que não se mostra assim a olhos de todos.
O coração é cofre precioso
De que, raro, confia homem prudente
A chave a seu mais íntimo. Guardai-vos
De baratear assim o ouro cendrado
Da amizade fiel (confiança entendo)
A qualquer que sorrindo vos estende
Talvez curiosa mão, que não de amigo.
Em barda os achareis... — oh! perdoai-me,
Sou velho, e pronta sempre a dar conselhos
É minha idade — se prestar-vos pode
Este nada que valho, se ajudar-vos
De obra ou de aviso imaginais que posso,
Ouvir-vos-ei de gosto e de vontade.
Sou vosso amigo, sou: provas nenhumas
De mim tendes; mas Deus, que une as vontades,
E a quem prouve no peito gravar do homem
Esse invisível quê, essa lei mística


Que atrai o coração dum ente ao outro,
Deus sabe se, de quando em Moçambique
Vos conversei primeiro, senti n’alma
Não sei que voz dizer-me: — «Segue esse homem,
Deves amá-lo, é infeliz e honrado.»

IX

Do Lusitano ao descorado gesto
Esvaecido rubor assoma, — e foge,
Qual foge aos olhos o lampejo rápido
Da trovoada longínqua. — Um tanto a face
Descaiu sobre o peito amargurado,
E com voz, firme não, porém serena,
Disse: — «Luís de Camões tinha um amigo
Único só na terra. — Não te escondas,
Meu fiel companheiro: um feito honrado,
Generoso te peja? — O pobre António
Foi até aqui, senhor, o único vivo,
Único ser na face do universo
Em quem meu coração achou abrigo.»

X

Pelas faces do escravo, baga a baga,
Enternecidas lágrimas caíam,
E peito sufocado comprimia
A custo grande o soluçar que o arfava.
Não pode mais: aos pés se deita do amo,
E sem conter o choro:
— «Oh! não me digas
Não me digas, senhor, que sou amigo.»
— «Não o diga! Porquê?»
— «Porque isso parte
O coração do escravo. Amigo é falso.
Os de Macau, de Goa e Moçambique,



Todos faltaram; e eu fui sempre...»
Corta-lhe
Um mar de pranto a voz.
— «Tu foste sempre
O meu fiel António».
Humedeceram-se
Os olhos do guerreiro; e como a efeitos
De simpático influxo, ao velho austero
Pelas rugas das faces deslizaram
Gotas de suave, enternecido pranto.

XI

Serena a reflexão comoções d’alma.
O Lusitano continua: — «Certo
Que hás dito bem: tão profanado e abjecto
De amigo o santo nome hão posto os homens,
Que mal sei eu se injúria ou honra é ele.
Parou aqui, como assombrado n’alma
Da amarga observação. Depois, volvendo-se
Menos aflito ao missionário, disse:
— «Embora! pois que enfim tenho encontrado
Consolação tão doce a minhas mágoas.
O meu nome — inda mal! bem conhecido
Por esse novo império do oriente —
É Luís de Camões. Em tenros anos
Ânsia ardente de glória e de renome,
Porventura outra causa mais violenta,
Mais nobre... e mais funesta — me levaram
Às africanas praias, dura escola
Da portuguesa mocidade. Alegre,
Que me sorria então verde esperança
No enganoso porvir, — entrei os muros
Da veneranda Ceuta, insigne preço
De sangue régio e dum martírio ilustre.
Paternas mãos as armas me cingiram.
Oh! pai tinha eu ainda... Honrado velho,
Na vereda da honra me puseste;
Fui, como tu, caminho da desgraça.

XII

«Ah! se um filho que há visto na batalha
O paterno valor, que ouve entre a grita
Aquela voz que o acariciou na infância,
Bradar-lhe: «Avante!» — aquele braço amigo
Que o embalou nos dias da inocência
A apontar para a estrada da vitória;
Oh! se a tal homem covardia pode
Entrar no peito vil... Não é possível.
Eu aprendi a combater com ele,
Lembra-me o dia — porventura o máximo
De minha vida, se ontem, se outro ainda
Nos de minha existência não contara —
Quando no Estreito a barbaresca frota
Nossas naus vitoriosas derrotaram.
Era a minha primeira lição d’armas.
Foi a primeira vez que o mauro alfange
Por d’ante os olhos me cruzou coa morte.
Junto a meu pai — à frente o viram sempre...
Sobre o imigo baixel a pano cheio
Caía a nau de seu comando... Um silvo
De peloiro soou. — Mirado a ele
Certeiro mouro tinha. — Estendo o escudo...
Movimento feliz! salvei-lhe a vida.
A bala resvalou, — e já sem força,
Leve aqui me feriu na sestra face,
E fria aos pés me cai.»
— «Leve ferida
Que um dos olhos!...»
— «Oh! dous nos há dado
Liberal natureza. — Que vale isso!
Salvei meu pai.»

XIII

«Voltei por fim à pátria
Outra vez de esperanças iludido.
Alguns serviços, por benignos chefes


Exagerados sim, mas não mentidos,
Nada obtiveram, — nem o esquecimento
Dum inimigo cru, jurado, injusto,
Que jamais o ofendi, jamais. — Se é ofensa
Ter olhos para ver a formosura
Coração para a amar, alma de fogo
Para mandar aos lábios anelantes
Faíscas desse amor; se o dom da lira
— Di-lo-ei funesto ou chamar-lhe-ei ditoso? —
Que me outorgara o céu, votei às aras
Desse amor que foi única ventura
De minha vida, — única, inocente
Causa de meus acerbos infortúnios,
E agora...»
Sobre o peito a destra aperta,
Como em chaga dorida a mão do enfermo
Para acalmar a dor; pendeu-lhe a frente
Para o seio agitado. Instantes breves
As mostras de aflição se patenteiam.

XIV

— «Se é crime» continuou «ter alma e vista,
Foi essa a única ofensa que lhe hei feito
Ao vingativo conde. Por má sorte,
Laços fatais de sangue lhe prendiam
De meus suspiros o adorado objecto.
O nascimento igual, a igual fortuna,
Tudo por mim, tudo por nós falava.
Cobiça empederniu seu duro peito:
E o soldado só de honra herdeiro rico
Que podia esperar? Seu vão orgulho
Se envileceu, de baixo, a perseguir-me.

XV

«Nada na corte obtive contrastado
Por tão forte inimigo, eu sem fortuna,


Sem arrimo, sem pai. — Como eu, perdido
Entre o obscuro tropel dos desvalidos
Que o sangue pela pátria hão barateado
Para perder à míngua o resto dele,
Meu pai, de pura mágoa e de despeito,
Fenecera em meus braços. — Só no mundo,
Que me restava? Perecer como ele,
Ou por um nobre feito despicar-me,
Vingar a afronta duma pátria ingrata.

XVI

«De tais ideias combatido o ânimo,
Um dia às margens do formoso Tejo,
Curtindo acerbas dores, passeava,
E os olhos desvairados estendia
Por essa majestade de suas águas
Coalhadas de baixéis que as ricas páreas,
Que os tributos do oriente vêm trazer-lhe
Andando, meu espírito agitado
Se enlevava nas glórias, nos prodígios
Que a tão pequeno canto do universo
A metade da terra avassalaram.
Transportava-me o ardente pensamento
Aos palmares do Ganges envergados
De troféus portugueses; via o nauta
Que ousou galgar o tormentório cabo,
E nos balcões da descoberta aurora
Hasteou as Quinas santas. Retiniam-me
Nos trémulos ouvidos os trabucos,
Que, a golpes crebos, as muralhas prostram
Do rico Ormuz, da próspera Malaca,
E da soberba Goa, empório novo
Do novo império imenso. Ajoelhados
Via os reis de Sião e de Narzinga
Aos pés do vencedor depor os ceptros,
E render, suplicantes, vassalagem
Ao ferro lusitano. Os nobres muros

Vi de Diu estalar, saltar aos ares
Por infernal ardil; e entre as ruínas
Dos inflamados bastiões, — dispersos
Os palpitantes membros desse filho
Por quem não correm lágrimas paternas;
Não, que mártir da pátria é morto o filho.

XVII

«Desse pai venerando — esse Fabrício
Da lusitana história, renovando
Sob os arcos triunfais da ínclita Goa
Altas pompas de Roma, e altas virtudes
Que só geraram Lusitânia e Roma! —
De Vasco, de Pacheco, de Albuquerque
Inflamavam num êxtase de rapto
Meu peito português memórias grandes.
Quem tais milagres d’heroísmo e de honra,
Quem tanta glória a tão pequeno berço
Foi tão longe ganhar? Quem a um punhado
D’homens, à mais pequena nação do orbe
Deu mares a transpor, veredas novas
A descobrir na face do universo;
Povos a subjugar, reis a humilhá-los,
Ignotos mundos a ajuntar ao velho.
E, a dilatar-lhe a superfície, a terra?
Eles. — E a pátria, por quem tanto hão feito,
Que digno prémio lhes há dado? — A fome
Num hospital galardoou Pacheco;
A Albuquerque a desonra ao pé da campa;
Castro a pobreza, que os socorros últimos
Sobre o leito da morte mendigava.

XVIII

«Ingrata... Ingrata pátria! — Fatigado
Como de tanta glória e tal vergonha,
Parei. Junto me achava então do templo

Que a piedade e fortunas apregoa
De Manuel o feliz; padrão sagrado
De glória e religião, esmero d’artes
Protegidas dum rei que soube o preço
— Alguma vez ao menos — ao talento,
À lealdade, ao valor, ao patriotismo.
— Nem sempre; mas tão pouco de virtude
Basta num rei para esquecer-lhe os crimes!

XIX

«Aberta em par do templo estava a porta;
Entrei. Naquelas pedras animadas
Por cinzel primoroso se pasciam
Meus olhos admirados: as erguidas
Colunas, as abóbadas altivas,
As palmas, as cordagens enlaçadas,
E o sinal santo que as remata e une,
E que por toda a parte está marcando
As vitórias do Lenho triunfante,
O vexilo da glória portuguesa,
Nunca, nunca tão alto me clamaram
Que sós sem Deus, sós pelo esforço humano
Não fariam jamais os portugueses
O que hão feito no mundo... Dei co túmulo
De custoso lavor que aí resguarda
As cinzas do monarca afortunado.
Afortunado em vida; — a morte, fecha-lhe
Selo do Eterno os lábios descarnados:
São segredos de Deus os do sepulcro.
Mais cansado que pio, ajoelhei-me
Sobre os degraus do túmulo; insensível,
No recostado braço a frente inclino,
E descaí num lânguido delíquio
Que nem morte, nem sono, mas olvido
Suavíssimo é da vida. Sono embora
Lhe chamaria, se as visões tão claras,
Mais rapto d’alma em êxtase sublime
Que imagem vã de sonhos, as não visse.

Talvez seria natural efeito
De agitados sentidos, porventura
Mui crédulo serei... mais alta causa
Do fenómeno estranho então a tive.

XX

«Oh! sonho não foi esse. — Afigurou-se-me
Ver do moimento erguer-se um vapor leve,
Raro, como de nuvem transparente
Que mal embaça o lume das estrelas
No puro azul dos céus: — foi pouco a pouco
Condensando-se espesso, e longes dava
De humana forma irregular — qual soem
Ao pôr do sol fantásticas figuras
As nuvens debuxar pelo horizonte.
Logo mais certas, mais distintas formas,
Qual mole cera em mãos d’hábil artífice,
Tomando foi. Já claro ante mim era.
Roupas trajava alvíssimas e longas;
Seus braços de extensão desmesurada,
Um sobre o peito co índice apontava
Ao coração, que as vestes resplendentes
Transparecer deixavam. Viva chama,
Como luz de carbúnculo, brilhava
Na víscera patente; e em radiosas
Letras lhe soletrei: Amor da pátria.

XXI

«Da maravilha como por encanto,
Sem receio ou terror a contemplava,
Quase por tal prodígio enfeitiçado;
Quando estes sons, entre áspero e suave,
Mas solenes ouvi: — «Jovem ousado,
Grande empresa te coube, — acerba glória,
De que não gozarás! Desgraças cruas

Fadam teus dias... Mas a fama ao cabo.
A pátria, que foi minha, que amei sempre,
Que amo inda agora, gran’ serviço aguarda
De ti. Um monumento mais durável
Do que as moles do Egipto, erguer-lhe deves.
Pirâmide será por onde os séculos
Hão-de passar de longe e respeitosos.
Galardão, não o esperes. — Fui ingrato
Eu, fui! Ingrato rei, ingrato amigo.
E a quem! — Maiores de meu sangue ainda
Ingratos nascerão. Tu serve a pátria:
É teu destino celebrar seu nome.
Os homens não são dignos nem de ouvi-las,
As queixas do infeliz. Segue ao oriente,
Salva do esquecimento essas ruínas
Que já meus netos de amontoar começam
Nos campos, nos alcáceres de glória
Preço de tanto sangue generoso.
Um dia... Em vão perante o excelso trono
Do Eterno me hei prostrado; irrevogável
A sentença fatal tem de cumprir-se —
Um dia inda virá que, envilecido
Esquecido na terra, envergonhado
O nome português... Opróbrio, mágoa,
Dura pena de crimes! — tábua única
Lhe darás tu para salvar-lhe a fama
Do naufrágio. Tu só dirás aos séculos,
Aos povos, às nações: Ali foi Lísia
Como o encerado rolo sobre as águas
Único leva à praia o nome e a fama
Do perdido baixel. — Parte. Salvá-lo!
Salvá-lo, enquanto é tempo! — Extinto... Infâmia!
Extinto Portugal... Oh dor!...» — Rompeu-lhe
O derradeiro acento destas vozes
Em som de pena tal e tão tremendo,
De tão profunda mágoa, que inda agora
Nos cortados ouvidos me ribomba.
Estremeci, olhei; já nada vejo:
Ou acordei, ou a visão se fora.

XXII

Dir-vos-ei que serena a mente e plácida,
Que as ideias distintas conservava,
Não é como d’uso ao despertar dum sonho?
Fé não me prestareis: mas em minha alma
Tão claramente li como um reflexo
De inspiração maior que humana coisa,
Que, sem hesitar mais, sem um momento
De incerto duvidar, assentei firme
No pressuposto de seguir meu fado,
E às descobertas plagas do oriente
Ir demandar essa escondida sorte,
Esse feito, essa glória prometida
De engrandecer o ninho meu paterno.
Uma só coisa — confessá-lo é força,
Mas que dizê-lo peje — acobardava
A tenção resoluta. Ir mar em fora
A terras lá tão longes, e deixá-la,
Deixá-la... e sem esp’ranças, nem ao menos
De inda a tornar a ver!... Sabeis quem digo;
Poupai-me a dor de proferir seu nome.
Dura e ferida n’alma se travavam
Batalha, amor e pátria. Amor vencia
Quase... não triunfou...

XXIII

Aqui chegava
O contar de sua história, quando à porta
Da cela redobrados golpes batem.
O missionário abriu; um pajem moço
E de custoso dó ataviado
Uma carta fechada a fio negro
De seda traz.
— «Um cavaleiro busco
Ontem da Índia vindo.»

— «Ontem chegaram
Os galeões da frota: cavaleiros
Muitos viriam.»
— «Santa-Fé se chama
O galeão; e o cavaleiro... Lede.»
Do pajem se aproxima o Lusitano
Da inesp’rada mensagem curioso.
No sobrescrito leu que assim dizia:
A Luís de Camões — logo Escudeiro;
Mais abaixo — Em mão própria.
— «Entregai, pajem:
Sou esse. De quem vem?»
— «De quem não manda
Mais palavras que as letras vos não digam.»
Corteja e parte logo. — Que será?

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