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Camões

Almeida Garret

CANTO QUARTO

Já a vista pouco e pouco se desterra
Daqueles pátrios montes que ficavam;
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam
E já, depois que toda se escondeu.
Não vimos mais enfim que mar, e céu.

Lusíadas

I

— «Quem não teme ir de encontro a seu destino,
E provar-se homem... nas desertas rocas
Do castelo mourisco, sobre a serra
Da Lua, achará prémio, o maior prémio!
E castigo também de sua audácia.
Amanhã no expirar da luz.» — A carta
Mais não dizia. — «Qual estranho enigma!
Prémio, castigo a mim!... A mim! Duvidam
Se tenho coração!... Exigem provas!
Quem? Para quê... Irei? Porque não?... Vamos.
Espera-me talvez a hora querida
Da vingança... Amanhã?... Amanhã!... hoje.

CANTO QUARTO

II

— «Irei sim» rompe o vate, continuando,
Alto, o discurso que até’li na mente
Consigo meditando revolvera,
«Irei sim. Não achais que devo, amigo?»
— «Deveis o quê?»
— «Ir».
— «Onde»?
— «Onde é meu fado.»
— «Quereis dizer à corte? Ouvi que a Sintra
Se fora el-rei com o conselho e cabos
Principais do exército. É voz pública
Que hão-de aí resolver graves projectos
D’alta valia: mas...»
— «E que me importa
A mim corte e conselho? Outros motivos
Tenho, outras razões...»
— «Tenhais embora.
Mas, já que estais na corte, ou perto dela,
Avisado seria aproveitar-vos
Da ocasião. Por boca anda de todos
Que do jovem monarca se prepara
Nova jornada às costas africanas.
Em bem o fade o céu!»
— «Dizem-no? É certo?
Um mancebo inexperto, única esp’rança
Do reino, que, inda mal! já tanto inclina
Da primeira grandeza! — Ah! confiança
Tenho que inda haverá nesse conselho
Um português que português lhe fale,
E com a respeitosa liberdade
Que é nossa natural e um bom rei preza...
Preze ou não, deve ouvi-la: mau conselho
Dará sempre o que, ao dá-lo, se arreceia
Da verdade que diz. — É tarde, é tarde;
Fomos, não somos já.» Continuaram
Em práticas iguais os dois amigos;
Mas o Luso, a quem n’alma se alevantam

Ideias que as da pátria suspenderam,
Dest’arte diz — «Amigo, um dever triste
Me chama, a quê não sei: cobre-o mistério
Com véu impenetrável. Minha vida
Toda há sido de estranhas aventuras.
Quem sabe? — acabará por esta agora.
É de fracos temer, mas de prudentes
Acautelar-se é lei. Meu haver único,
Todos os meus tesouros são um livro.
Pouco valor, — nenhum tem porventura;
Mas de longas fadigas, do trabalho
Da vida inteira é fruto. Escrito em partes
Com lágrimas há sido, e bem pudera
Com sangue em muitas. Sobre os calvos serros
Das montanhas, nos vales deleitosos,
No campo em tendas, na guarita em praças,
No mar entre o arruído das procelas,
Ao dos grilhões nos cárceres — contínuo,
Incessante, indefesso hei trabalhado
Para levar ao cabo a empresa ardida
Deste livro que tanto me há custado.
Já náufrago nas águas desse rio
Onde tudo perdi, de um braço a vida,
Nadando, às ondas confiei revoltas,
Para no outro o salvar. — Este depósito
Em vossas mãos confio. Se mais novas
Não houverdes de mim... quem sabe? acaso
Útil poderá ser à minha pátria.
Ela, e o seu amor, todo o inspiraram,
À sua glória inteiro é consagrado.»
— «Tão longa viagem, tão p’rigosa é essa?»
— «Longa não; perigosa... Eu sei? Não, certo.»
— «Quando intendeis partir?»
— «Eu? esta noite.»
— «Assim que, em nada mais servir-vos posso...
Nem já de vossa história interessante
Ataremos o fio?»
— «Oh sim: nem longo

Será ele.»
Suspenso alguns momentos,
Como buscando, entre outras, uma ideia
No tumulto confusa, assim prossegue:

III

— «Falei-vos, se a turbada fantasia
Me não engana, da tenção tomada
Por quase inspiração — vão sonho acaso.
Com pensamentos tais saí do templo:
Escondia-se o sol d’além dos montes
Da outra margem do Tejo: alva e sem lume
Parecia no azul dos céus tranquilos
Infante a lua, como o arco ebúrneo
Que ao númen que nesse astro afiguraram,
Deram antigos vates. Mais sereno,
Mais belo pôr do sol jamais o hei visto
Nos desvairados climas decorridos
Em minha incerta vida. Ao longo vinha
Da solitária praia respirando
A fresca viração que mal das águas
Leve encrespava a superfície apenas;
Uma voz me chamou, — voz que em meu peito
Ouve inda o coração — voz doce e meiga,
Que nunca mais... oh! nunca mais na terra
Escutarei dos vivos... — volvo o rosto:
De baixa gelosia me acenava
Com um cândido véu, mais nívea e cândida,
Formosa e breve mão. Flutuando ao vento
O véu caiu, e a dextra desaparece.

IV

«Ergui-o palpitando: um nó o atava.
Trémulo o desabrocho — era oiro puro,
Oiro daquelas tranças tão queridas,

Rica jóia d’amor. Coa doce prenda
Vinha um bilhete: abri-o, li: — «Roubado
Foi este instante a bárbaros tutores.
Insensatos! vigia mais do que eles
Amor, que pode tudo. A minha glória,
Pu-la em teu coração; minha ventura,
Minha vida, o meu ser de ti confio.
Parte — é força partir... — Ausência dura,
Separação cruel só pode unir-nos.
Sai a frota amanhã; vai alistar-te.
Campo no oriente a grandes feitos se abre.
Volta com nome tal que tudo vença
Eu viverei de lágrimas... — Embora.
Matar-me-ão saudades... Não, não hão-de.
Ver-me-ás ainda; um anjo ontem mo disse
Num sonho tão feliz! — Era eu vestida
De riquíssimas galas... e alva c’roa
De rosas me toucava... tu a um lado,
Triste — não sei porquê, outros de luto:
Não me admirou, que nosso amor não querem.
E o anjo assim me disse. E mais, que um dia
Tamanho se fará teu nome e glória,
Que encha o universo. — Vai: adeus!... Terrível,
Amargo adeus é este... Não importa.
Parte... e jamais te esqueças...»

V

«Uma lágrima
Delira o mais das letras; — quente ainda
A senti no papel... — Mudo e sem vida
Horas longas fiquei parado, extático,
No coração a carta, os olhos fitos
Na avara gelosia. Alta ia a noute;
Água acima passava uma falua:
Bradei, acodem, a Lisboa volto,
E ao outro dia, na maré da tarde,
Da popa dum galeão via fugindo


O Tejo, as suas ribas deliciosas,
Depois a terra; — alfim o céu e as águas
Sós com minhas tristezas me ficaram.

VI

Próspero o vento foi. Por esses mares
Que humana geração jamais abrira,
Seguindo fomos o atrevido esteiro
Do grande Vasco. À sestra nos ficavam
As mauritanas várzeas tão regadas
De sangue luso. Vimos a frondosa.
Vicejante Madeira, a primogénita
De nossas descobertas, e a mais bela
De quantas pelo Atlântico dispersas
O generoso Henrique adivinhara.
Massília estéril, e os queimados serros
Donde o Sanagá negro se despenha,
Passámos, o Arsinário cabo vendo,
Que Verde em seu extremo apelidámos.
Vimos também as Fortunadas ilhas,
E entrando as que d’Hespério o nome tomam,
As orientais costas africanas
Rodeámos de Jalofo e de Mandinga,
Donde o curvo Gâmbia ao Tejo manda
As ricas páreas do caudal luzente.
As Dorcadas passámos, que dos silvos
Das víboras na areia inda retinem:
Crespas tranças outrora que inflamavam
O cérulo Neptuno. Ao austro a proa,
No imenso golfo entrámos, transcorrendo
A Leoa serra aspérrima, e o cabo
Que dissemos das Palmas, e a frondente
Ilha que do incrédulo discípulo
O apelido tomou. Ali a fértil,
Vastíssima região que lava o Zaire,
Ganha por nós à fé, e conquistada
Por armas só de paz. Assim transposto

O que divide o mundo, ardente término,
À dextra nos ficava a plaga imensa
Não sonhada de antigos sabedores,
Por onde o velho mundo dilataram
Os nossos e os que após dos nossos foram:
Que ousar e perfazer tamanho feito
Fora a humanos esforços impossível
Se o braço português não ajudasse.

VII

«O astro novo, não visto d’outra gente
Antes que o luso nauta lho amostrasse,
Já no hemisfério oposto nos brilhava.
Víamos-lhe essa parte menos bela
Onde raras estrelas pasce a pólo
Ali, pesar de Juno e de seus zelos,
Vimos banhar nas águas de Neptuno
As inflamadas Ursas. Pelos topes
Dos mastos, e no horror da tempestade,
Claro avistámos a azulada chama
Do santo, vivo lume. Oh! recontar-vos
As maravilhas tantas, os prodígios
Que hei visto, longo fora; e conhecidas
Serão elas de vós que os largos mares,
Que as vastíssimas plagas descobertas
Pela nobre ardideza lusitana
Corrido haveis também. Destas paragens
Velas demos ao noto que soprava
Rijo, em vão, contra a força descontrada
Da impetuosa corrente. Ia uma noute
Na cortadora proa vigiando,
Quando atra cerração medonha e feia
Nos fecha o claro céu; amaina o vento,
E em tanta escuridão batendo as velas
Em podre calma, à pavorosa cena
Dobram tremendo horror. — O mar ao longe
Dá longos, ocos brados que rebramam,
Como se desse em vão nalgum rochedo.

VIII

«Éramos cerca do famoso cabo
A que mudou boa esperança o nome
Que primeiro lhe demos, das tormentas.
Ao pensar em tão ásperas fadigas,
Tanto sangue perdido, tanta morte,
Tanto naufrágio cru, desgraças tantas
Que a dobrar esse cabo nos custaram
Para ir edificar sublime império,
Novo reino entre gentes tão remotas,
Se me alargava o coração no peito,
Vendo-me português. E é pois tal feito
Feito d’homens?... — O vento repentino
Soprou, rasgaram-se as fechadas nuvens,
E retremeu nos mares o estampido
Dum trovão temeroso. Alheada a mente
Na majestade da procela horríssona,
E em tamanhas ideias confundida,
No ar se me afigurou troar de irada
A potestade imensa d’algum génio
Que os cancelos do oriente ali guardasse;
Cuidei ver a grandíssima estatura
De disforme gigante a quem as chaves
Confiara d’Ásia o árbitro do mundo,
E que de tanta audácia portuguesa
Irritado, ao primeiro que franquear-lhe
Assim ousou seu passo tão defeso,
Da boca negra, e pálido de cólera,
Fatídico dissesse — «Ó gente ousada,
Mais que tantas no mundo hão cometido
Empresas grandes, não te basta o mundo
D’homens sabido para tantas guerras,
Tais e tão cruas, com que, tão pequenos,
Fatigais o universo? De tão longe
Vindes quebrar meus términos vedados,
A demandar em regiões ignotas
Onde cevar essa ambição de glória,

Essa implacável sede de conquistas
Que no inquieto peito vos referve?
Acabareis por fim coa empresa ardida;
Sim, vencereis; mas a vitória cara
Tem de custar-vos. Inimigo eterno,
Aqui em meu tremendo promontório
Vos espero; aqui áspera vingança
De quem me descobriu tomarei. — Morte.
Morte é o menor dos males que vos guardo.
Nem da beldade as lágrimas formosas,
Nem suspiros d’amor, nem ais carpidos
De maternal ternura hão-de amolgar-me...
E não se acabará só nisto o dano;
Antes por vossas mãos o mor castigo
Recebereis: do império cimentado
Com tanto sangue e com virtudes tantas
(Breve as heis-de perder) medonhos crimes,
Devassa tirania, infandos vícios,
Superstição cruel minarão cedo
Os nobres fundamentos. Aluído
Baqueará por terra o sólio altivo
Que sobre as ruínas erguereis dos povos.
Vis descereis pelos degraus do vício
Do trono a que a virtude vos alçara.

IX

— «Assim na extasiada fantasia
Um eco misterioso me soava:
Di-lo-ei presságio triste em já gran’ parte
De seu fadar cumprido!...
«Enfim dobrado
O imenso, proceloso promontório,
Vogámos, longo, os mares interpostos
Que do índico lago aquém separam
As requeimadas costas africanas.
Saudámos a dura Moçambique,
Porta do Oriente que a Ásia lusitana
Parece unir aos áfricos domínios,



Por onde, desde a Europa às partes quatro
Se dilatou o português império.

X

«Do longo navegar alfim ao termo
Desejado chegámos; da soberba
Cidade d’Albuquerque os muros entro.
De sobressalto o coração batia-me
Ao pisar essas praias que o triunfo
Viram do forte Castro. — Aqui da guerra
No duro trato, ora ao Gentio rudo,
Ora ao pérfido Mouro combatendo,
Longo continuei; porém do marte
Português quão diversa é hoje a sorte!
Não glória já, mas frívolas contendas,
Injustas opressões nos arrancavam
A preguiçosa espada da bainha.

XI

«Cheia a imaginação do misterioso
Sonho ou visão que, no moimento sacro
De Manuel, me incendiara a fantasia,
Embalde aos p’rigos, ao furar das ondas,
Ao mais cru das batalhas me arrojava.
Se era meu fado a glória, mais potente
Foi que o meu fado a inveja de inimigos,
Ódios, perseguições. — Já malferido
De eiva de morte arqueja o império d’Ásia.
Os devassos costumes, a impiedosa
Sede de mando, a sórdida cobiça
Dos ministros da lei, e até — sincero,
Franco é meu discorrer, e em mal! bem certo...
Dos que, indignos do altar, o altar profanam
Com sacrifícios bárbaros de sangue,
A um Deus só de paz e de bondade,
Em vez do puro incenso de virtudes,


Negro vapor de pálidos cadáveres,
Suspiros da viúva, ais do órfão triste,
Lágrimas, sangue e morte oferecendo...
Tudo, a golpes contínuos, redobrados,
Vai prostrando o glorioso monumento
Dos Pachecos, dos Castros e Albuquerques.
Qu’é desse esp’rito que animava os fortes?
Qu’é desse vivo ardor de fama honrada
Que faiscava em lusitanos peitos,
E a arriscadas acções, a empresas grandes,
A mais que humanos feitos os levava?
Extinguiu-se, acabou. Já fomos Lusos;
Fomos: — de nossa glória o brado ingente
Breve será clamor que geme longe,
Como voz de sepulcros esquecidos
Balda soando no porvir que a ignora.

XII

«Que me restava a mim, que me era dado
Em tal descaimento, em tal baixeza,
Cometer, perpetrar? — Inúteis p’rigos
Em guerras mais inúteis, cicatrizes
Mal prezadas de quem valia ignora
Do sangue desparzido em prol da pátria
Que podiam valer-me? De indignado
Ergui a voz, clamei contra a vergonha
Que o nome português assim manchava,
Esconjurei as sombras indignadas
Dos heróis fundadores dum império
Que tão bastardos netos destruíam.
Em vão clamei; minhas verdades duras
Mole ouvido os tiranos ofenderam:
Puniu desterro injusto a minha audácia.

XIII

«Anos sete vaguei de terra em terra
Ora vendo essas ilhas escaldadas

Do eterno fogo que as consome e anima,
Ora os deliciosos habitantes
Da malaia península. — Um repoiso,
Plácido quanto o gozam desgraçados,
Encontrei na escalvada penedia,
Onde na roca estéril se alevanta
Macau, fértil agora das riquezas
Que o manancial do tráfico lhe verte.
Ali, só com meus tristes pensamentos,
Livre ao menos dos homens, só comigo,
Coas lembranças da pátria, co’as saudades
Que lá me tinham coração e vida,
Se não vivi feliz, sequer tranquilo.

XIV

«Nas penhas dessa ilha abriu natura
Cava na rocha, solitária gruta,
Onde as náiades frias vão coitar-se
Do ardor da sesta: à entrada lhe vicejam
Recendentes arbustos, heras crespas;
E no vivo rochedo lhe entalharam
Misteriosas mãos ignotas letras.
Talvez em longes eras meditasse
Solitário discip’lo de Confúcio
Nessa caverna as eternais verdades
Do grande Tien, do deus da Natureza,
Que ao Sócrates da China se amostrara
Mais temporão, se lhes não mentem crónicas,
Que ao amante de Fédon. — Vem quebrar-se
Perto o mar, que se espraia longo e longo,
Té se perder no extremo do horizonte.
Ali de soledade amarga e doce
Esquecidas passei horas ditosas:
Ditosas — se jamais fio d’areia
Na voadora ampulheta me há corrido
Horas que tais se chamem. — Nesse poiso
De suave tristeza me acudiam



À memória as lembranças do passado,
Magoadas coas ideias do presente,
De envolta com receios do futuro;
E acaso de esperança verdejava
Leve folha dos ventos assoprada.

XV

«Pátria, oh pátria! — dizia — é pois um sonho
Essa visão, que por celeste a tive?
Teu nome eternizar, dar brado à fama,
Que de ti digno, digno de Natércia
As gerações pasmadas me aclamassem!...
Assim vos dissipais, visões de glória,
Como fumo que se ergue da choupana
Para subir aos céus, — que Euros dispersam,
Quase punindo-o de tenções tão altas!
Que pode em pró da pátria um desgraçado,
Perseguido, no exílio imerecido?...

XVI

«Uma voz cá do íntimo do peito
Cuidei ouvir que assim me respondia:
— Pode mais do que a espada, a voz e a pena;
Feitos de glória imortaliza o canto,
Salvam do olvido as musas. Viva a fama
Que em versos divulgaram numerosos
Vates de Grécia e Roma. É menos digno
De eterno carme o peito lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram?
Um Nuno fero, um Egas, um dom Fuas
Não excedem os sonhos mal fingidos
De Orlandos falsos e de vãos Rugeiros?
De incerto Eneias para si não toma
Fama e renome aquele Gama ilustre
Que ousado em p’rigos firme e duro d’alma



Mais do que permitia esforço humano
Cometeu e perfez acção tamanha?

XVII

«Na mente, como um ímpeto invencível,
Me dava abalo o altivo pensamento.
Grande é o arrojo, desmedida a altura
Onde me afoita de subir a ideia.
Embora, embora! seguirei meu fado.
As ninfas invoquei do Tejo ameno,
Que em mim criassem novo engenho ardente
Que a tão subida empresa se elevasse.
Cometi, persev’rei no ousado intento;
Trabalho d’anos foi: e enfim completo,
Com ele à doce pátria me voltava
No benigno favor esperançado
De meus concidadãos, no de um monarca
Prezador das virtudes, do heroísmo
Que em meus versos cantei. — Mais doce ainda,
De mais subido prémio outra esperança
Me alentava... Ai de mim! um longo sonho
Minha existência há sido. — E pois que nada,
Nada já’gora me ficou na terra...
Ei-lo, senhor, o livro: apresentá-lo
Cuidei outrora à esperançosa prole
Do grande Manuel; cuidei depô-lo
Aos pés d’outro monarca mais potente,
Que melhor galardão pudera dar-me
Por quanto hei merecido... — Hoje...»

XVIII

Suspenso

Nesta voz, som confuso e mal formado
Que vinha depós ela, se disperde
Em longo e cortadíssimo suspiro.

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