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Camões

Almeida Garret

CANTO QUINTO

Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Cam., Sonet.

I

«Correi sobre estas flores desbotadas,
Lágrimas tristes minhas, orvalhai-as,
Que a aridez do sepulcro as tem queimado.
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?

II

«O viço de meus anos se há murchado
Nas fadigas, no ardor sevo de Marte;
Estranhas praias, ignoradas gentes,
Bárbaros cultos vi; gemi n’angústia,
Penei ao desamparo, em soledade;
Vaguei sozinho à míngua e sem conforto
Pelos palmares onde ruge o tigre:
Tudo sofri no alento duma esp’rança
Que, no instante de vê-la me há fugido...

CANTO QUINTO

Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?

III

«Longe, por esse azul dos vastos mares,
Na soidão melancólica das águas
Ouvi gemer a lamentosa Alcíone,
E com ela gemeu minha saudade.
Alta a noite, escutei o carpir fúnebre
Do nauta que suspira por um túmulo
Na terra de seus pais; e aos longos pios
Da ave triste ajuntei meus ais mais tristes...
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?

IV

«Os ventos pelas gáveas sibilaram;
Duras rajadas d’escarcéu tremendo
As descosidas pranchas semeavam
Pelas cavadas ondas... Feia a morte
Nos acenou coas roxas agonias
Malditas da esperança... — E eu só a via;
Eu só, na cerração da tempestade,
Via brilhar a luz da meiga estrela.
Único norte meu. Por mar em fora
Os duros membros negros estendia
Esse Gigante cujo aspecto horrendo
Primeiro eu vi, primeiro a seus amores
Corri o véu dos interpostos séculos:
Quis-me punir do ousado sacrilégio
Com que os segredos seus vulguei na lira.
As iras lhe arrostei, ouvi sem medo
Os amarelos dentes a ranger-lhe
Por entre os furacões d’atra procela.
Vi-lhe a esquálida barba, de despeito,
Arrepelar-se, e a cor terrena e pálida

Ao clarão dos relâmpagos luzir-lhe
Da sanguinosa cólera inflamada.
Não me aterrou, que do almejado porto
Me alumiava o farol de luz amiga...
Lume consolador, fanal d’esp’rança,
Quando na praia já, sem luz me deixas!
Engano lisonjeiro da existência.
Que verdade cruel te há dissipado?
Que ímpia mão te ceifou no ardor da sesta,
Rosa de amor, rosa purpúrea e bela?

V

«Os ecos das soidões que lava o Ganges,
As veigas onde cresce a palma do Indo
Aprenderam teu nome. E o meigo acento
De minha branda lira repetindo,
No sussurro das folhas recendentes
A filha de Cíniras murmurava;
Seus perfumados troncos, entalhados
Por minhas mãos, embalsamado pranto
Ao receber teu nome derramavam:
A criminosa Mirra parecia
De tão virtuoso amor envergonhar-se...
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?

VI

«Oh gruta de Macau, soidão querida,
Onde tão doces horas de tristeza,
De saudade passei! gruta benigna
Que escutaste meus lânguidos suspiros,
Que ouviste minhas queixas namoradas,
Oh fresquidão amena, oh grato asilo
Onde me ia acoitar de acerbas mágoas,
Onde amor, onde a pátria me inspiraram
Os maviosos sons e os sons terríveis

Que hão-de afrontar os tempos e a injustiça!
Tu guardarás no seio os meus queixumes,
Tu contarás às porvindouras eras
Os segredos d’amor que me escutaste,
E tu dirás a ingratos Portugueses
Se português eu fui, se amei a pátria,
Se, além dela e d’amor, por outro objecto
Meu coração bateu, lutou meu braço,
Ou modulou meu verso eternos carmes.
Pátria, pátria, rival tu foste d’Ela!
Tu me ficaste só, não desampares
Quem por Ela e por ti sofreu constante,
Quem por ti só agora o fio extremo
Ténue conserva da existência aflita...
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?

VII

«Desamparou-me! — Triste e sem conforto
Fiquei só, neste vale de amargura.
Linda, mimosa flor, à sombra tua,
Rasteira grama vegetava apenas
Minha tímida esp’rança. Amareleço,
Desabrigada planta, ao sopro ardente
Do norte queimador. — Quem te há cortado,
Quem, rainha das flóridas campinas,
Te decepou sem dó — que faz, que espera,
Que não leva também, que não arranca
A humilde ervinha que sem ti falece?
Rosa d’amor, rosa purpúrea e bela,
Oh! leva-me contigo à campa fria.»

VIII

Canção, canção de morte era esta sua,
Que em som carpido os montes repetiam
Da umbrosa Sintra. Sobre um calvo serro

Na pedregosa encosta da montanha
Que os mouriscos torreões inda coroam,
Assim cantava aos sossegados ventos,
Qual moribundo cisne gorjeando
Pelas ribas do Eurotas. Parecia
Que manso pelas auras suspirava
A enternecida Inês, vendo seu vate,
Seu imortal cantor gemer como ela.
Ele uma seca, emurchecida c’roa
De desfolhadas rosas apertava
No ansiado peito: a fio e fio as lágrimas
— Embalde! sobre as flores ressequidas
Corriam da grinalda; o acre do pranto
Mais lhe queimava a tez: não torna ao viço
Flor que poisou na loisa do sepulcro.

IX

Nascia o sol: a névoa que rebuça
De húmido manto os cumes das montanhas
No alvorecer do dia, em véu ligeiro
Rara se adelgaçava; resplendiam
No sossegado mar os doces raios
Da recém-nada luz. A amena veiga
Delicioso vale a quem de Tempe
Cede beldade e fama, se estendia
Pelas faldas da serra. As perfumadas
Árvores d’áureos pomos reluzentes
Que à veloz Atalanta o pé ligeiro
Na apostada carreira retiveram,
E o tão ligado cinto desataram;
As verde-escuras, espinhosas plantas
Donde, virgíneas tetas imitando,
Pende o céreo limão, — pendor não grato
No lindo pomo a que o semelha o vate —
Sobre a relva, inda fresco-rociada
Das lágrimas da aurora, se avistavam
Pela imensa campina recolhendo
A aura criadora nas lustrosas folhas


Donde a vida nos troncos se derrama.
Toda se alvoroçava a natureza
À vinda alegre dessa luz benéfica,
Remoçadora eterna da existência,
Cujas são alma e vida do universo.

X

Em toda a pompa e luxo de suas galas
Sintra, a formosa Sintra se amostrava
Ao monarca das luzes, — qual princesa
Do Oriente ao régio noivo se apresenta,
Voluptuosos perfumes exalando
Das longas sedas com que brinca o zéfiro.

XI

Oh Sintra! oh saudosíssimo retiro
Onde se esquecem mágoas, onde folga
De se olvidar no seio à natureza
Pensamento que embala adormecido
O sussurro das folhas, co murmúrio
Das despenhadas linfas misturado!
Quem, descansado à fresca sombra tua,
Sonhou senão venturas? Quem, sentado
No musgo de tuas rocas escarpadas,
Espairecendo os olhos satisfeitos
Por céus, por mares, por montanhas, prados,
Por quanto há i mais belo no universo,
Não sentiu arrobar-se-lhe a existência,
Poisar-lhe o coração suavemente
Sobre esquecidas penas, amarguras,
Ânsias, lavor da vida? — Oh grutas frias,
Oh gemedoras fontes, oh suspiros
De namoradas selvas, brandas veigas,
Verdes outeiros, gigantescas serras!
Não vos verei eu mais, delícias d’alma?
Troncos onde eu cortei queridos nomes

D’amizade e d’amor, não hei-de um dia
Perguntar-vos por eles? Soletrando
Não irei pelas árvores crescidas
Os caracteres que, em tenrinhas plantas,
Pelas verdes cortiças lh’entalhara?
Oh! se inda eu vos verei! se os robres duros,
Se me guardam fiéis os seixos vivos
O humilde nome do esquecido vate
Que em dias de prazer — tão breves foram!
Dias de glória, ternas mãos gravaram!

XII

Há corações ainda que o conservam
Esse ignorado, — mal sabido nome.
Oh! sim que os há! Salvai, salvai, ó musas,
De meus escuros versos estas linhas,
Não para a glória — sonho vão de néscios!
Mas em memória, doce de guardar-se
Nalgum sensível peito. — Onde não gira
Meu sangue... — E o sangue quão diverso corre
Por veias que esquecidas não palpitam,
Desleais! coa memória, mas que rara,
Do infeliz, cujo seio enfraquecido
Sangue, como esse, alenta... Onde não gira
Meu sangue — e o sangue quão diverso corre!
Peitos achei sacrários de amizade,
Corações de anjos...

XIII

Sintra, amena estância,
Tronco da vicejante primavera,
Quem te não ama? Quem, se em teu regaço
Uma hora da vida lhe há corrido,
Essa hora esquecerá? Teu nome soa
Eterno já nos hinos enramados
De imorredouras flores. — Impotente


Aí quebra a fúria do fremente oceano
A raiz de teu firme promontório...
Mas que infrenes um dia as altas águas
Soltas da voz que disse ao mar: Suspende-te
Teu limite é aí — galgá-lo ousassem,
E levar os delfins enamorados
Folgar nos sítios em que geme a rola,
E filomela modelou queixumes,
Suavíssimo encanto da espessura;
Mas que prodígio tal novos trouxessem
Os séculos de Pirra, — inda o teu nome
Não o esquecera transmudado o mundo.
Leva-to além das passadoras eras
Do bordo misterioso o eterno canto,
A harpa sublime agora pendurada
Nos louros do Pamiso, — onde um suspiro
De morte lhe quebrou a extrema corda
Que Eleutéria divina lhe afinara —
Do cantor que no alento derradeiro
Ouviram as cidades contendoras
Pelo berço d’Homero, em canção última
De moribundo cisne, o brado ingente
Alçar da glória aos filhos acordados
De Leónidas que dorme... Não, não dorme;
Vela, co escudo e lança em torno roda
Da arvorezinha tenra que plantaram
Lanças dos bravos. Lanças mil a ameaçam:
Resistirá? — ou do consórcio adúltero,
Ímpia liga da Cruz e do Crescente,
Nascerá monstro que a devore, a trague,
E a queimada raiz lhe exponha ao vento
Da atra ambição dos reis? — Morrei ao menos,
Filhos d’Heleno, perecei com ela.

XIV

A vós já volvo, ó solidões de Sintra,
E ao vate que suspira melancólico
Entre esses que parecem dispersados

Túmulos de gigantes — ou ruínas
D’algum primeiro tempo cujos mitos
Esquecidos aí jazem, desprezados
Nesses brutos lascões. — Últimas notas
De sua triste canção inda zumbiam
Pelas asas dos plácidos favónios,
Quando uma voz: — «Não é de ânimo grande
Sucumbir aos reveses: gema embora
O coração ferido; mas um prazo
Deu a razão às lágrimas. Segui-me.»
— «Onde? a quem?... Ah! sois vós?»
— «Sou eu, amigo;
Cavaleiro, sou eu. Vinde; à justiça
Porta abrimos enfim: ver-vos deseja
E ouvir-vos o monarca.»
— «A mim!»
«Puderam
Chegar ao trono as vozes da verdade.
Sabe quem sois el-rei; louvou com ênfase
O amor da pátria glória que a alta empresa
De perpetuar seu nome há cometido,
Dando aos heróis de Lísia eterna fama.
Vinde, que à hora nona vos aguarda
Impaciente.»
— «Mas o livro?...
— «À corte
Vim por ele e por vós; comigo o trouxe.
Há muito o conhecia: amigos vossos
Dele com grande preço me falaram
Em Goa e Moçambique.»
— «E como ao ouvido
Chegou d’el-rei meu ignorado nome?»
— «Sabereis tudo: dai-vos pressa; é tempo
De preparar-vos à solene audiência
Que havereis do monarca.»

XV

Ambos desciam
A íngreme serra; abordoado o velho


Em seu cajado tosco, lhe dobrava
Trémulos passos caridoso empenho
Do oficioso coração. Renasce
O ardor súpito no inflamado peito
Do guerreiro acordado do letargo
De que o desperta esperançosa a glória.

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