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Camões

Almeida Garret

CANTO OITAVO

Em perigos, e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana
Entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram
Lusíadas

I

Aqui chegava o canto: houve crestadas,
Guerreiras faces que enrugou Mavorte,
E onde aflição, nem dor, nem transe d’alma
Jamais colheram lágrimas, houve delas
Mal enxutas do pranto involuntário
Que ais d’amor, que entusiasmo de virtude,
Patriotismo ou glória destilaram
De olhos torvos por centos de batalhas.
Mas d’alma ao rosto vai canal aberto
Que só entopem vícios, ou fingido
Orgulho do homem vão. Porque te escondes
Na toga consular o vulto austero,
Libertador de Roma? Já suspensas
As segures estão... Tão firme peito
Que faz, que não sustenta o rosto ao golpe?
Roma é salva... Mas eles são seus filhos;
E Bruto, o cidadão, também é homem.


CANTO OITAVO



II

Louvor ao vate insigne! — Pouco dizem,
Que sentem mais. O jovem rei aplaude
Com franco entusiasmo, e entre si pensa:
— «Um dia ofuscarei toda essa glória,
E a mais altas canções darei assunto.»

III

Trazem no entanto moços de pelote,
Em ricas salvas d’ouro alto-lavradas,
— Páreas de avassalados reis do Oriente —
A casquinha gulosa e delicada,
Da selvosa Madeira arte e renome,
Luxo de lautas mesas; amplas jarras
De louçã, transparente porcelana,
Raro produto do Chinês longínquo
— Raro na Europa ainda, e então condigno
Ornato de reais copas. — Ali se enchem
Ao límpido jorrar de fresca fonte
Da fria água de Sintra, e saborosa
Mais que o licor do Reno, ou que as sulfúreas
Lágrimas de Parténope. Tomaram
Refeição leve a nobre companhia
E o vate prosseguiu.

IV

Está contando
O Gama ao rei amigo os mais famosos
Feitos dos nossos. — Diz-lhe de Fernando
Os amores adúlteros, e o tíbio.
Froixo governo que indefeso o reino
Deixa ao furor imigo castelhano,
E de total destruição em p’rigo:
Que um fraco rei faz fraca a forte gente.


V

Mas do letargo vil em que o prostaram,
À voz de Nuno o português acorda.
Com palavras mais duras que elegantes
Glória bradou e liberdade e pátria,
Nomes que outrora em peitos lusitanos
Eram de chama eléctrica cintilas
Que os corações briosos lh’inflamavam.
Embalde o poder todo de Castela,
Por sustentar Beatriz, feroz se ajunta.
Joane por seu rei levanta o povo;
E o eleito do povo é digno dele
Não curva a jugo estranho o colo altivo
A nação, indomável quando livre.

VI

Campos de Aljubarrota, inda em vós soa
O eco da trombeta castelhana
Horrendo, fero, ingente e temeroso.
Guadiana, tuas águas de assustadas
Vejo-as atrás volver. — Que anjo de morte
É esse que discorre d’ala em ala
Coa fulminante espada? Jorra o sangue,
Treme a terra debaixo dos pés duros
Dos ardentes cavalos, soa o vale,
Lanças escalam, os broquéis sonoros
Estalando retinem — «Sant’ Tiago!»
— «San’ Jorge e avante!» cada qual rebrama.
— «Vitória! A quem?» — «Ao Lusitano, a Nuno.»

VII

Já não cabe na Europa o ânimo grande
Dos Portugueses: treme a África adusta,
E a triunfada Ceuta abre suas portas


Aos infantes magnânimos. — Mas cara
Custa a vitória: vês, o novo Régulo
Só pelo amor da pátria está passando
A vida, de senhora, feita escrava:
Fernando expira em tenebrosos cárceres;
Vive porém seu nome e claro brilha
Para glória da pátria, e eterno opróbrio
De príncipes covardes que hão descido
A ignorado sepulcro em leitos d’ouro.

VIII

Glorioso João, foi teu reinado
Alto começo à lusitana glória
Que, do extremo ocidente, a longes terras,
A mundos novos, mares não sabidos
Triunfante correu. — Jamais no mundo
Se viu trono real assim rodear-se
De generosa prole. Não se acoitam
Molemente na púrpura paterna
Os filhos de João, nem se crêem grandes
Em torpe ociosidade vegetando
À sombra do diadema que em suas frentes
Descuidadas não pesa: — Henrique o grande,
O sábio Henrique, o protector filósofo
Das ciências que honrou; Fernando, o santo
Mártir da pátria; Pedro, o virtuoso
Legislador e justo; João, o austero,
Alma romana em coração de Luso,
E Duarte, o pacífico, o piedoso
Que tão breve reinou.

IX

Tenro inocente
Vestiu manto real o quinto Afonso:
Nas virtudes de Pedro achou tutela

Sua idade inexperta. Ingrato e feio
Caso, digno das torres de Bizâncio,
Viram de Alfarrobeira infames plainos
Roxos do sangue das civis discórdias.
Toda a tua glória, vitorioso Afonso,
Esse apelido insigne que hás tomado
Ao destruidor da desleal Cartago,
Nódoa tão negra à fama te não lavam.
Teu nome, e o de teus pérfidos validos,
Todo o bom português detesta. — Esconde,
Esconde, Afonso, a púrpura sanguenta
Traz a glória imortal que resplandece
D’em torno ao filho teu. Se há i rei justo
Rei cidadão, monarca magistrado,
Rei que obedeça à lei, que a guarde ao povo,
Que o ceptro, vara augusta de justiça,
Equilibre entre grandes e pequenas,
Puna opressores, oprimidos erga,
Abata o orgulho vão, premeie o mérito,
Busque a virtude em sótãos de humildade
Para a exaltar sobre arrasados paços
Do crime audaz e da soberba inútil;
Rei que o ofício de rei preencha e saiba;
João segundo o foi. Celebrem-te outros
Pelo valor que Toro inda pregoa,
Por domadas regiões, arados mares,
Por descobertos cabos, — esperanças
De futuras riquezas e conquistas:
Eu só coroarei teu sacro busto
Com a cívica folha imarcescível
Do carvalho, mais nobre e mais glorioso
Que o louro dos heróis. Sanguíneas gotas
Mancham sempre a grinalda das vitórias;
E o clamor da viúva, o grito do órfão
Quebra a harmonia dos clarins da fama:
Mas as bênçãos dum povo agradecido
São melodia de suaves notas
Que por eras e eras se prolonga
Às gerações por vir. Um rei como este,




Dai-lhes um rei como João segundo;
E esquecido o tenaz republicano
De Brutos e Catões, ajoelha ao ceptro.
— Este fez explorar d’aurora os berços
Com baldados trabalhos, — que essa dita
Ao feliz Manuel o céu guardava.

X

Então reconta o sonho misterioso
Do venerando Ganges, do rei Indo
Que ao ditoso monarca, ao romper d’alva
Em visão bem fadada apareceram.
Diz a intentada, perigosa empresa
Que ousou de cometer; trabalhos, riscos
Na longa e lassa via suportados:
Moçambique, a traidora, castigada
Para escarmento e pena; e o temeroso,
Namorado gigante em dura terra
Por seus atrevimentos convertido,
E, por dobradas mágoas, rodeado
De Tétis formosíssima que amava:
Tétis que já cuidou de ter nos braços
Louco d’amores, única, despida,
Quando se achou c’um árido rochedo
De hórrido mato e de espessura brava.

Xl

Enfim chegados com ditoso auspício
Às melindanas praias, aqui finda
O ilustre Gama a narração pedida.
Já pazes finda e aliança amiga
Com o africano rei; e alfim nos mares
Índicos voga, demandando a terra
Que desejada já de tantos fora.


XII

Consumou-se a alta empresa; aberto é o Ganges
Aos galeões do Tejo. Em vão comprimem
Na treda Calecut traidores ferros
Ao Gama invicto os denodados pulsos:
Tudo vence a constância e nobre audácia
Do forte capitão. Coa alegre nova
Do descoberto Oriente, à meta austrina,
Outra vez cometendo os duros medos
Do mar incerto, põe a aguda proa.

XIII

Agora os sons do canto embrandecidos
Coas delícias de Pafos e Amatunte
Por namorados bosques, águas límpidas,
Fresquidões deleitosas vão soando.
— Eis vês a filha das cerúleas ondas,
A bela Vénus, que repoiso amigo,
Delicioso lhes traz; ilha divina
Onde quanto espalhou a natureza
Por mares, céus e terra em formosura,
Tudo ajuntou ali: capados bosques,
Coutos d’amena sombra; vicejantes
Relvas em que o primor de seus matizes
Esmerou Flora, e lhas bordou mais lindas
Que o próprio leito onde com doces beijos
Zéfiro lhe mitiga o ardor da sesta;
Murmurantes arroios, mansamente
— Em seu correr, de amores conversando
Coas as dríades do bosque; os rubicundos
E dourados tesouros de Pomona...
Oh! que cena de lânguidos prazeres,
Que paraíso de deleite, ó Vénus!
Pelo travesso filho asseteadas
As esquivas nereidas suspirando,
Seguem a bela deusa, que promete
A suspirar tão doce um doce prémio.


XIV

Mas em mar leite navegando alegres,
Os esforçados nautas já descobrem
Entre a alva espuma das ambientes águas
Viçar a ilha formosa: — qual no seio
Lácteo-tremente da modesta noiva
Puro verdeja o sponsalício ramo.
Já proa e rumo para ali apontam;
Eis chegam, eis do encanto e maravilha
Absortos pasmam... pela sombra amena
Se embrenham, caça agreste procurando.
Mas ferida lha tinhas, Ericina,
Menos áspera já, mais doce e linda.
Correndo vão após as ninfas belas,
Que fogem, que se escondem, mas fugindo,
Nem tudo escondem; fogem, mas tão leve
Não corre o lindo pé que não tropece...
E caem... Certa amor canta a vitória,
Se lhe cai sobre a relva o fugitivo.
Oh! que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão macios!... Breve e rápido,
No seio do prazer se esvai o dia.

XV

Harpa sublime que n’altura soas
Das cumeadas da glória, harpa que os hinos
Fatídicos, nos ecos alongados
Do porvir enublado, obscura tanges,
Donde só vagos sons confusos coam
Na terra, esperdiçados por vulgares
Orelhas d’homens, — harpa misteriosa!
Clara te ouvia o vate sublimado
Quando as notas proféticas repete
Na remontada lira. — Etérea ninfa
Os porvindouros feitos e virtudes


Dos heróis Lusos no domado Oriente
Ao céu com doce voz está subindo.

XVI

Já voadores lenhos povoando
O vasto oceano que lhe abrira o Gama,
O senhorio dos frementes mares
Vitoriosos ocupam. Reis que ousados
A orgulhosa cerviz não dão ao jugo,
Do braço provarão que, forte e duro,
Os faz render-se a ele ou logo à morte.
O grão Pacheco, o lusitano Aquiles,
No passo Cambalão soberbas naires
Do Samorim potente desbarata:
Por vezes sete em áspera batalha
Triunfa em terra e mar. Eia, as coroas
Rei dos Lusos, os carros lhe prepara,
Que à pátria volve com despojos cento
A humilhar a teus pés. Que vejo! é essa
A púrpura que o cinge! é esse o templo
Onde em triunfo o conduzis, ingratos!
Num hospital, de andrajos vis coberto
Morre Pacheco do seu rei na corte...

XVII

Almeida vem depois co nobre filho,
Que do índico oceano as águas tinge
Do sangue imigo e seu. Atroz vingança
Corre co iroso pai: Dabul, Cambaia,
Enseadas de Diu, ei-lo no ferro
Destruidor vos traz exício e morte.
Inveja vil de pérfidos validos,
Não é tua esta vítima; seus ossos,
Não lhos possuirás, ingrata pátria.
Seu fado negro foi, mas antes ele;


Antes perder a vida às mãos selvagens
Do rudo cafre na deserta areia,
Que à fome... à fome, e no seu pátrio ninho!

XVIII

Mas oh! que luz tamanha que abrir sinto!
Luz é do fogo e das luzentes armas
Com que Albuquerque vence o altivo Persa.
Rende-te Ormuz, Gerum, Mascate e Goa.
Tu, Malaca opulenta, em vão te assentas
Lá no grémio da Aurora onde nasceste;
Em vão embebes venenosas setas
No arco certeiro, e os crises refalsados
Com peçonhas mortíferas temperas:
Malaios namorados, Jaus valentes,
Todos ao luso vencedor sucumbem.

XIX

Medina abominável, Meca tremem
Co nome de Soares; as extremas
Praias de Abássia tremem. Cede a nobre
Ilha de Taprobana; hasteado impera
Luso pendão nas torres de Columbo.

XX

Sequeira, os dous Menezes, e tu, forte
Mascarenhas, depois vireis de glória
Colmar, a mais e mais, o pátrio nome.
Pelo famoso Heitor, Sampaio vence
Frotas arábias. Baçaim se entrega
Ao Cunha ilustre. Ergue os altos muros
Sousa da insigne Diu; Castro o forte
O honrado, o vencedor, o triunfante,

Castro os defende. Maior nome em glória,
Em virtude, inteireza e amor de pátria
Jamais pronunciarão homens da terra.

XXI

Tágides belas, que em meu verso humilde
Os ecos reflectis da voz celeste,
Das imortais canções que lhe inspirastes,
Não mais, não mais que me falece o alento.
Na extenuada lira os sons se quebram,
Como suspiros de oprimido peito.
Diga Urânia bela aos seus validos
Que segredos lhe disse das esferas,
Da vastidão dos orbes, do mistério
Da criação inteira: eu vate humilde
Que só de longe respeitoso sigo
O divino cantor, não ouso a tanto

XXII

Da ilha namorada o Gama invicto
Singrando vem para o seu pátrio Tejo;
E o Tejo recebeu do Indo e Ganges
Preito rendido e tributário feudo.

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