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Camões

Almeida Garret

CANTO NONO

Mas quem pode livrar-se porventura
Dos laços, que amor arma brandamente
Lusíadas

I

Não sabia em que modo lhe mostrasse
Ao vate sublimado o rei mancebo,
O entusiasmo, o vivo prazer d’alma
Que lhe inspiraram as canções divinas.
Louva a escolha do assunto, a arte engenhosa
Que num só quadro majestoso e grande
Todos uniu da portuguesa história
Os memorandos feitos, varões dignos
De eternidade e fama: louva o stilo
Nobre e tarso, de pompa ou singeleza,
Qual o pede a matéria; o sacro fogo
Do pátrio amor, de glória, de heroísmo
Que, dum por um, nos versos lhe cintila
De cortesãos, aplaudem co monarca
Alguns; outros sinceros congratulam
O trovador moderno que descanta
Na doce lira o que perfaz coa espada
Trasborda em júbilo a alma generosa


CANTO NONO


Do honrado Menezes. Mas não faltam
Ao pé do sólio nunca — inda mal! nunca —
Peitos vis, corações à glória alheios.
Por esses lavrou logo a inveja, o ódio
Ao cantor dos Lusíadas: não sofre
Vício e ignorância que virtude e mérito
Apreciados sejam, conhecidos.
Fingem no entanto, que fingir é arte
Máxima de palácios...

II

— «Folguei muito»
Dizia o rei, e o gesto abraseado
A verdade do dito afiançava:
«Folguei de ouvir-vos; nunca tal virtude
Em versos cri para exaltar o ânimo
Ao sublime entusiasmo da virtude,
Aos feitos grandes. Sinto que me bate
Com mais vigor o coração no peito.
Alma terá pequena e bem mesquinha
O português que não mover tal canto.»
Assim dizia o rei: caminho vinham
Dos paços, despediu-se o heróico vate;
E o mancebo real: — «Voltai a ver-me,
E vos farei mercê, como é devido.»
Entrou a corte pelos átrios régios.

III

Rápido ia o sol no céu descendo:
O guerreiro cantor volve a embrenhar-se
Pela espessura e bosques. Não esp’ranças
De melhor sorte, não lisonjas doces
De amor próprio, mais doces quando ouvidas
De lábios de monarcas: não promessas
De merecido prémio, — nada agita

O sangue do esforçado navegante.
Se ideias tais despontam, breve as sorve
Remoinho de encontrados pensamentos
Que do ansiado espírito lhe travam.
A mensagem, a carta misteriosa
Revolve, e as circunstâncias; as palavras,
Interpretá-las quer. — Em vão; não podem
As conjecturas mais: força é do dia
Aguardar impaciente o lento ocaso.

IV

No mais erguido cume da alta serra
Que disseram da Lua eras antigas,
De fábrica mourisca se alevanta
Castelo hoje em ruínas derrocado.
Escassa ameia vês em pé suster-se
No escalavrado muro. Já trabucos,
Dos séculos depois vaivém mais duro
Pelas íngremes rocas dispersaram
As pedras que talhou a mão dos homens
Outrora dessas rocas, para alçá-las
Em torreões de morte: — ímpia fadiga
Trabalho improbo e duro! A asa do tempo
Voando passa, e varre a obra do homem
De sobre a face da esquecida terra.

V

E disseras que de homens como os de hoje
Não puderam ser obra esses vestígios
Do imenso Babel que vês prostrado.
A braços de gigante sobreposto
Monte a monte parece; arrebatada
Por anjos infernais a roca antiga
Que ao prumo a descaíram — e fixada
No encantado equilíbrio, desafia


Forças da natureza e arte dos homens.
Mouro é o mais do que vês, e a doble cerca
Do castelo, e a cisterna que às devotas
Abluções, ali perto da mesquita,
Suas águas filtradas ministrava.
E essa que, de tão longe a Meca olhando,
Ouviu as derradeiras coxas preces
Que ao surdo Alá mandava aflito crente
Quando já sobre as asas da vitória
Cruz inimiga remontava à altura,
As humilhadas Luas arrojando
De precipício em precipício ao abismo;
Essa inda em pé, no meio das ruínas
Desmanteladas, seu fiel cimento,
Tenaz na antiga fé, guardando ainda,
No azul que em sua glória lhe vestiram,
As estrelas do Yaman e os enlaçados
Caracteres do Hydjaz!...

VI

Árabe é todo
O aspecto que estás vendo. Mas atenta
Aí nessas quebradas menos duras
Como a pique se tem negro, inteiriço
Céltico dólmin recordando o culto
Do sanguento Endovélico, o terrível
Irminsulf dos ferozes Lusitanos.

VII

Talvez permite AQUELE que de tudo
É norma eterna e lei, assim durarem
Quaisquer memórias que o respeito, a crença,
Errada embora, dos mortais levante
Em Seu nome... Das fábricas dos homens
Morredouras como ele — estas resistem
Mais do que nenhumas ao minar do tempo.


VIII

Ali, no mais solene das ruínas
E no mais alto, ali num canto ainda
Sólido da muralha fabricara
Solitário habitante desses ermos
Mansão tranquila e só. Musgosas plantas
Crescem nas fisgas do cimento antigo.
Tapeçaria de heras verdejantes
Forra a cortina da parede bronca
E em caídos festões se balanceia
Sobre a entrada do lôbrego retiro.

IX

Tradição é que nomeado vate
D’alta beldade misterioso amante,
Entre as fragas erguera a mansão triste,
Onde cevou de tristes pensamentos.
O coração cortado de saudades.
Saudade pelas pedras entalhada
Se lia em caracteres bem distintos;
E o nome de Beatriz, também gravado
Na sílica do monte, lhe responde,
Como eco das endechas namoradas
Do cantor da soidão. Sentado viram
O génio da montanha, alvas trajando
Roupas de nuvem, dar ouvido atento
Às canções magoadas e suavíssimas
De Bernardim saudoso e namorado.
Bernardim, que das musas lusitanas
Primeiro obteve a c’roa d’alvas rosas,
Com que — em seu mal — romântico alaúde
Engrinaldou para cantar amores
Doces d’alta princesa, — inda mais doces
Favores, que indiscretos revelaram
Êxtase d’alma em derretidos cantos.
Fragueiros inda vivem que de vê-lo


Se acordam pela noite andar vagando
Por os picos da serra no mais alto,
Ora ternas carícias dando ao vento,
Ora imprecando com furor as rocas,
E a miúdo suavíssimas cantigas
De apaixonado assunto modulando.

X

Súbito um dia, de bordão na dextra,
Na opa de peregrino disfarçado
Desce os montes da Lua, e mais erguidas
Serras demanda; em romaria aos Alpes
Parte, a levar o coração votado
A quem talvez, na púrpura, suspira
Pelos andrajos do mendigo amante.
Vê-lo-á, o objecto de suspiros tantos,
De saudade tão longa, da romagem
Devota; mas só vê-lo, — e adeus eterno,
E para sempre adeus!... Cruéis lhe vedam
Mais que esse adeus. Voltou à pátria, e morre.

XI

Este foi da poisada solitária
O fundador e o único vivente
Que desde então as frias cumeadas
E ruínas habitou da antiga torre.
E este era o sítio que aprazava a carta
De incógnita mensagem ao guerreiro.

XII

Alfim no oceano se mergulha a lâmpada
Do firmamento máxima. Descia,
Como um véu, a nebrina sobre a serra;


Já lhe toucava a frente, e ia ligeira
Pela espalda, insensível devolvendo,
Té lhe poisar as orlas na planície.
No meditar profundo embevecido,
O guerreiro, que aguarda há muito a hora
Lenta da noite, não deu fé da névoa
Que húmida todo em derredor o fecha.
Despertou-o a frieza inesperada
Que no alto das montanhas vem coa noite.
Como no seio envolto de uma nuvem
Misteriosa se cuida; — olha d’em torno,
Nada vê, tudo encobre a névoa espessa;
Nada vê, mas distinta uma voz ouve:
— «Cumprido é o sonho, mas quebrando o encanto:
Ainda a viste, — única vez na terra!
Nunca mais a verás. O véu, qu’é dele?
E a trança que, ao sepulcro sonegada,
Prenda foi de ternura?»
— «Ei-la comigo,
Sempre comigo. Restituí-la à campa,
Quando à campa descer, a mim só cabe.
Mas quem de meus segredos sabe tanto?
Quem d’amor os mistérios e os da morte
Penetra assim? Do número dos vivos
És tu, ou do moimento há suscitado
Poder fatal as cinzas dos finados
Para me interrogar!»
— «Vivo eu, sou vivo:
Conhece-me, sou eu, teu inimigo,
Teu inimigo hei sido; e eterna a vida,
Se cruz, para tormento, os céus ma dessem.
Toda a odiar-te, inteira a aborrecer-te
Pouca seria. Tu só me roubaste
Aquele coração: tu sim, tu foste.
Tu mo roubaste, que, sem ti, meu fora.
Em vida te adorou; na morte... A morte,
Quem, senão tu, à ingrata lha há causado?
Saudades a privaram da existência.


Consola-me que ao menos não gozaste
Tanto amor, tanta fé, tanta beleza,
Que não mer’cias não. Se digno dela
Houve mortal, a mim, que não a um...»
…………………….«Conde!»
Bradou convulso, e a mão ao ferro leva
O insofrido guerreiro. Mas tranquilo
O rival lhe tornou: — «Sois ofendido?
Desafrontai-vos; ferro e braço tendes.
Nem vos fujo eu: porém a minha espada
Jamais demandará um peito que ela...
Sim, que ela amou. Transviou-me a paixão d’alma;
Bebera o sangue que essas veias gira,
Que nesse coração bate coa vida:
Mas veda-o juramento sacrossanto;
Guardá-lo-ei. — Maior é o sacrifício
Que prometi, maior.»

XIII

Tira um retrato
Do seio: olhos sanguíneos, arrasados
De despeitosas lágrimas, cravava
Na pintura; — com ímpeto os afasta
Logo, e diz — «Cumprirei o que hei jurado
Houve-o de suas mãos este depósito
Nas derradeiras horas: confiada
A um rival generoso foi a extrema
Vontade sua; força é dar-lhe inteira
Execução, qual à minha honra cumpre.
Ei-lo aqui, o legado precioso;
Pela mão do inimigo amor to entrega.»

XIV

Comovido do íntimo do peito,
Magoada vista punha no retrato
O guerreiro, em cuja alma combatiam
Paixões tão desvairadas, tão confusos

Sentimentos e afectos, que expressá-los
Não saberia o coração que os sente.
— «Prenda cruel d’amor, dádiva infausta...
Antes querida!...» Aqui parou cortado,
Coas ideias, o fio das palavras.
Mas continuou depois:
— «Forçais-me, conde,
Mais que a admirar-vos: o ódio que me tendes,
Generoso rival, não me é possível
Abrir-lhe o peito, não. Odiai-me embora,
Que vos amarei eu, mau grado vosso.
O retrato... Oh! jamais não será dito
Que em pontos de honra e generoso brio
Fique Luís de Camões de outrem vencido.
Guardai-o vós, senhor, guardai-o: é vosso:
A um inimigo tal amor o cede.»

XV

Suspensos, mudos ambos se entr’olhavam
Os dous rivais briosos que alta prova
Assim do nobre peito heróica davam
Em magnânimo duelo de virtude.
No rosto ao conde as rugas se alisavam
Que ciosos rancores lhe frangeram;
E bem se via que os jurados ódios
Ao generoso feito se rendiam.
Lutaram todavia; mas vitória
Em peito bem nascido há sempre o brio.
— «Venceste, cavaleiro; as armas ponho.
Façanha heis feito de homem, que imitada
De muitos não será. Meu rapto é nulo,
Por vencido me dou em leal batalha;
De mim disponde.»
Avaliar o preço
De tais momentos, corações só podem
Grandes como esses dous tinham no seio.
O guerreiro estendeu os braços. — Cai-lhe
Nos braços o brioso antagonista.



Palavras não disseram: onde há língua
Com próprios termos para instantes desses?

XVI

Como inimigos foram, são amigos.
Juntos choraram; juntos, esse objecto
Que em vida os desuniu, na morte carpem.
Separaram-se alfim. — «Não deis ouvidos»
Disse o conde ao guerreiro, à despedida:
«A louvainhas tredas de palácios,
E a promessas de corte. Hoje estivestes
Com el-rei; grande fama heis alcançado
E favor do monarca: mas dobradas
Serão as malquerenças de inimigos,
Os ódios da ignorância e vis conluios
Da inveja negra e má. Por dom Aleixo
Entrast’ a el-rei; — mal acertada porta.
Contai co desfavor dos precatados
Validos que governam. Por honrado
Vos terão e virtuoso: abonos tendes
Em qualidades tais para seu ódio.»

XVII

Próximo o dia não tardou no oriente;
Volve ao paço o guerreiro. Era partida
Para Lisboa a corte. Na poisada,
Cuidadoso da delonga, o missionário
Com ânsia o aguardava: ambos caminho
Da lusitana capital se foram.

XVIIl

Correra a fama do louvor, do preço
Que dera o rei ao sublimado canto.

Pronto se oferece quem germanas artes
Em dar-lhe vida e propagá-lo empregue.
Doutos e indoutos com geral aplauso
Viram do novo Homero o canto insigne
Que à pátria glória monumento augusto
Sublime erguia. Soa o brado ingente
Já pela Europa; e o nome lusitano
Ao nome de Camões eterno se une.

CANTO DÉCIMO

«Que exemplos a futuros escritores»
Lusíadas

I

O Tejo o ouviu no algoso de suas grutas,
E em despeitoso brado lhe responde.
Gemem as ninfas que o lidado canto
Inspirado lhe haviam, e em suas telas
Com tristes, negras cores debuxaram
A injúria, o crime, a ingratidão tão feia
Que indelével nos fastos portugueses
É mancha horrenda e vil...

II

Arqueja exangue,
Definha à míngua, só, desamparado
Dos amigos, do rei, da pátria indigna,
O cantor dos Lusíadas. — Ah! como!
Qu’é das gratas promessas do monarca?
Qu’é de tanta esperança lisonjeira?
Perfídia baixa e crua, onde hás pousado?
No coração da inveja e da ignorância,

Do fanatismo bárbaro. Soaram
Tremendos nos ouvidos criminosos
Dos cortesãos hipócritas e astutos
Os livres sons do nobre patriotismo
Com que a treda impostura d’ímpios bonzos
E a tirania infame de validos
O guerreiro cantor asseteara.
Nas cavernas do peito refalsado
Ódio cego lh’entrou; os beiços roxos,
Áridos com a sede da vingança,
Mordem convulsos. Nunca tão terrível,
Nua a verdade lhes mostrou seus crimes,
Como na boca desse vate ousado.

III

Vingar-se é força; mas vingança negra,
Feia e covarde a querem. — «Sem amigos,
Sem protectores, pobre, sem arrimo,
À indigência, à miséria aí sucumba,
E de sua ousadia o crime expie.»
Assim no coração lhes fala o ódio;
E o cumpriram assim. Todo no apreste
Da jornada fatal andava o ânimo
Do malfadado moço que em sua cólera
Rei dera o céu ao povo lusitano.
Só armas cura, só vitórias sonha:
Geme entanto a nação, quase pressaga
Do desastre que a aguarda. Em Sintra fora
Resolvida afinal pronta partida,
Que o monarca impaciente apressurava.

IV

De tal resolução ignaro o vate
A Lisboa chegara; o paço busca,
Ninguém o atende; o virtuoso Aleixo
Procura... No palácio já não vive:


Tão livre sustentou, tão nobre e firme
Seu parecer contra a jornada infausta,
Que irado Sebastião de si o aparta;
E triunfando da virtude a intriga,
Por traidor e revel, ao cego jovem
Seus inimigos infames o afiguram.
Triste deixou as casas venerandas
De seus reis, onde quase um sec’lo o viram,
Não coitar-se na púrpura, mas dar-lhe
Mais brilho e honra com leais virtudes.

V

Ao guerreiro cantor foi esta nova
Triste presságio, corte d’esperanças.
Corre audiências em vão; — vazio é o trono.
Frio ministro em nome do monarca
Ouve indiferente as súplicas do povo.
Entre a ignorada turba é confundido
De tristes, desprezados pretendentes
O divino Camões...

VI

Entanto as velas
Já pelo Tejo undívago branqueiam;
As falanges de intrépidos guerreiros
Cobrem suas longas praias. Lamentando
Estão d’em torno as mães, estão esposas
Os filhinhos nos braços amostrando
Aos pais, que o gesto angustiado voltam
Para os não ver, que se lhes parte alma.

VII

Mas quem são esses dous, que aí na praia
Tão estreitos se abraçam? Correm lágrimas

Por olhos que a vertê-las não costumam;
Em peitos se reprime o adeus sentido,
Peitos que o não contêm.
— «Adeus!... A vida
É mais difícil, filho, do que a morte:
Suportai-a; mostrai-lhes que sois homem,
Que sois cristãos: perdoai...»
— «Perdoar eu!... Nunca.
Malvados que me roubam tal amigo!
Único amparo só que me restava;
Que d’envolta coa pátria, coas esp’ranças
Dum povo inteiro, a vil sepulcro o levam!
Oh! perdoar-lhes, nunca: o derradeiro
Acento de meus lábios moribundos
Será de maldição sobre essas frentes
Carregadas de crime.»
— «Perdoai-lhes,
Perdoai: a afronta própria é juiz suspeito.»
— «A minha afronta, oh essa, eu lha perdoo.
Mas a da pátria...»
— Adeus, adeus!

Chegava

El-rei então; sinal de partir soa:
E o vate e o missionário assim findaram
Sua triste despedida; — que mandado
Acompanhar a armada o monge fora
Repentino, essa noute. O tredo fio
Descobrira o cantor da vil intriga;
Mas o paciente filho do Evangelho
Resignado se inclina à Providência,
E seus decretos humilhado adora.

VIII

Fora em efeito o ódio dos validos
Que ao infeliz Camões arrebatara
Protectores e amigos. Desterrado
Por eles o virtuoso e nobre Aleixo;


Por eles enviado à certa ruína
Que ao malfadado rei, à flor do exército,
À Pátria, nas areias escavaram
De África adusta, o missionário fora.

IX

Já se movem as naus; e as altas pontes
Se ouriçam de belígeras falanges.
Redobra o pranto — âncora sobe, antenas
Se expandem... Lá te vás, e para sempre!
Nas pandas asas dos traidores ventos,
Independência, liberdade e glória.

X

— «Que me resta j’agora?» os olhos longos
Para a frota que perde no horizonte,
Consigo o vate diz «O que me resta
Sobre a terra dos vivos? Um amigo,
Um amigo, neste árido deserto
Da vida me falece. Um bordão único
A que me arrime na escabrosa senda,
Me não ficou. O número está cheio
De meus dias, contados por desgraças,
Marcados, um por um, na pedra negra
De fado negro e mau. Posso eu acaso
Nos corações contar dos homens todos
Uma só pulsação que por mim seja?
Posso dizer...» — Gemido, que ouve perto,
O interrompeu: era o seu Jau que aflito
O escutava: do humilde e pobre escravo
O coração fiel se retalhava
De ouvi-lo assim queixar: — «Ah! se eu não fora»
— Com os olhos e as lágrimas dizia;
Com os olhos, que os lábios não ousavam —
«Ah! se eu não fora um desgraçado escravo,
Que coração que eu tinha para dar-lhe!»

XI

Tu, generoso amo, lhe entendeste
Seu falar mudo, seu dizer de lágrimas,
— «Tens razão; injustiça é grande a minha:
Inda tenho um amigo.»
Pausa longa
Seguiu estas palavras; e no peito
Ao generoso António desafoga
O coração que lhe apertava a mágoa;
Nos olhos, rasos do chorar ainda,
A alegria lhe ri por entre o pranto,
E o amo, a quem sinais de tanto afecto
Movem no íntimo d’alma, sente um golpe
De bálsamo cair-lhe sobre as chagas
Do coração lanhado, a dextra lânguida
Poisa no ombro fiel, o peito encosta
Sobre o peito leal do amigo... — Amigo
Direi, amigo sim: peja-te o nome,
Orgulho do homem vão, por dado ao escravo?
E que és tu mais? — Era de ver, e digno
Espectáculo adonde se cravassem
Os olhos todos dessa raça abjecta
Que se diz de homens, a figura nobre
Do guerreiro, em que toda se debuxa
A altivez, a grandeza, a força d’ânimo,
Com o andrajoso, humilde e pobre escravo
Em atitude tal. Rira-se o mundo;
O homem de bem, de coração, chorara.

XII

— «Oh meu amigo, oh meu António» disse,
No remendado seio a face altiva
Escondendo, o guerreiro. «Oh! esta noite
Aonde, em que poisada a passaremos?»
— «Meu bom senhor, um gasalhado tenho
Achado já; que bem vi que não íeis
Nunca mais ao mosteiro. Digno, certo,
De vós não é; mas sabeis...»


— «Sei, amigo,
Que só tu, neste mísero universo,
— E o sepulcro também — alfim me restam»

XIII

Juntos à margem vão do Tejo andando
A lento passo. A noite era formosa,
Clara e brilhante a lua. Oh! que memórias
N’alma do vate, esse astro, a hora, o sítio
Não suscitam amargas? Perto passa
Daquela gelosia, aquela mesma
Donde os doces penhores, donde a carta
Recebera fatal. Quão demudada,
Quão diferente está do que já a vira,
Essa praia tão plácida e saudosa!
Um plátano frondoso que i crescia,
Em cujo liso tronco tantas vezes
Se encostou, aguardando a hora tardia,
— Prazo dado d’amor, que é tardo sempre!
Cuja sombra, em luar pouco propício
A amantes, o ocultou de agudas vistas
De curiosos profanos e inimigos...
Ai! seca jaz em terra, e despojada
De viço e folhas a árvore querida.
Tudo, tudo acabou, menos a mágoa,
Menos a saudade que o consome.

XIV

Sua pobre habitação os dous entraram;
E tristes horas, dias, meses passam
Arrastados e longos, — qual o tempo
Para infelizes anda — sem que a sorte
Mais ditosos os visse, ou a amizade
Menos unidos. — Mas a mão tremente,
Encarquilhada e seca já sobre eles
Ia estendendo a pálida indigência;
E a fome... a fome alfim. — Clamor pequeno

Que de minhas endechas ténue soa,
Se junte aos brados das canções eternas
Com que o teu nome, generoso António,
Já pelo mundo engrandecido ecoa.
Vêde-o, vai pelas sombras caridosas
Da noite, de vergonhas coitadora,
De porta em porta tímido esmolando
Os chorados ceitis com que o mesquinho,
Escasso pão comprar. Dai, Portugueses,
Dai esmola a Camões. Eternas fiquem
Estas do estranho bardo memorandas,
Injuriosas palavras, para sempre
Em castigo e escarmento conservadas
Nos fastos das vergonhas portuguesas


XV

Não pode mais o coração coa vida;
E lenta a morte co enfezado sangue
Caminho vem do peito. O espaço mede
Que lhe resta na arena da existência;
Perto a barreira viu... Aí jaz o túmulo,
Chegado é pois o dia do descanso...
Bem-vinda sejas, hora do repoiso!
Com a trémula mão tenteia as cordas
Daquela lira onde troou a glória,
Onde gemeu amor, carpiu saudade,
E a pátria... — oh! e que pátria os céus lhe deram!
Of’rendas recebeu de hinos celestes:
Pela última vez as cordas fere,
E este adeus derradeiro à pátria disse,
Cortando-lhe o alento enfraquecido
Agora os sons, agora a voz quebrada:

XVI

— «Terra da minha pátria! abre-me o seio
Na morte ao menos. Breve espaço ocupa


O cadáver dum filho. E eu fui teu filho...
Em que te hei desmer’cido ó pátria minha?
Não foi meu braço ao campo das batalhas
Segar-te louros? Meus sonoros hinos
Não voaram por ti à eternidade?
E tu, mãe descaroável, me enjeitaste!
Ingrata... Oh! não te chamarei ingrata;
Sou filho teu: meus ossos cobre ao menos,
Terra da minha pátria, abre-me o seio.

XVII

«Vivi: que me ficou da vida, agora
Que baixo à sepultura? Não remorsos,
Vergonhas não. Para a corrida senda
Sem pejo os olhos de volver me é dado,
E tranquilo direi: vivi; — tranquilo
Direi: morro. Não dormem no jazigo
Os ossos do malvado? Não: contínuo,
Na inquieta campa estão rangendo
Ao som das maldições, deixa de crimes,
Legado ímpio dos maus. Eu sossegado
Na terra de meus pais hei-de encostar-me...

XVIII

«Já me sinto ao limiar da eternidade:
Véu que enubla, na vida, os olhos do homem,
Se adelgaça; rasgado, os seios me abre
Do escondido porvir... Oh! qual te hás feito,
Mísero Portugal!... oh! qual te vejo,
Infeliz pátria! Serves tu, princesa,
Tu senhora dos mares!... Que tiranos
As águas passam do Guadiana? A morte,
A escravidão lhes traz ferros e sangue...
Para quem? Para ti, mesquinha Lísia.

XIX

«Que naus são essas que ufanosas surcam
Pelo esteiro do Gama? Pendões bárbaros
Varrem o Oceano, que pasmado busca,
Em vão; nas popas descobrir as Quinas.
Em vão; da hástea da lança escalavrada
Roto o estandarte cai dos portugueses.

XX

«Cinza, esfriada cinza é todo o alcáçar
Da glória lusitana... Uma faísca,
Esquecida a tiranos, lá cintila:
Mas quão débil que vens, sopro de vida!
Um só momento com vigor no peito
O coração te pulsa. Exangue, enferma
Só te ergues desse leito de miséria
Para cair, desfalecer de novo.

XXI

«Onde levas tuas águas, Tejo aurífero?
Onde, a que mares? Já teu nome ignora
Neptuno, que de ouvi-lo estremecia.
Soberbo Tejo, nem padrão ao menos
Ficará de tua glória? Nem herdeiro
De teu renome?... Sim: recebe-o, guarda-o,
Generoso Amazonas, o legado
De honra, de fama e brio: não se acabe
A língua, o nome português na terra.
Prole de Lusos, peja-vos o nome
De Lusitanos? Que fazeis? Se extinto
O paterno casal cair de todo,
Ingratos filhos, a memória antiga
Não guardareis do pátrio, honrado nome?
Oh pátria! oh minha pátria...»


XXII

A voz, que afrouxa,
Interromperam sons desconhecidos
De voz de estranho que a estância humilde
Entra do vate: «Perdoai se ousado
Entrei, senhor, mas...»
— «Quem sois vós? Há inda
Homem no mundo que a poisada obscura
Dum moribundo saiba?»
— «Cavaleiro,
Desde o alvor da manhã que vos procuro:
De África hoje cheguei...»
— «Ah! perdoai-me.
Sois vós, conde? Voltaste? E que novas
Me trazeis?»
— «Tristes novas, cavaleiro.
Ai! tristes. Desta carta, que vos trago,
Sabereis tudo.» — Ao vate a carta entrega:
Do missionário era, que dos cárceres
De Fez a escreve. Saudoso e triste,
Mas resignado e plácido, lhe manda
Consolações, palavras de brandura,
De alívio e de esperança. — «Extinto é tudo
Nesta mansão de lágrimas e dores»
— As letras o dizem — «Tudo; mas a pátria
Da eternidade, só a perde o ímpio.
Deus e a virtude restam: consolai-vos...»

XXIII

— «Oh! consolar-me» exclama, e das mãos trémulas
A epístola fatal lhe cai: «Perdido
É tudo pois!... «No peito a voz lhe fica;
E de tamanho golpe amortecido
Inclina a frente... como se passara,
Fecha languidamente os olhos tristes.
Ansiado o nobre conde se aproxima



Do leito... Ai! tarde vens, auxílio do homem.
Os olhos turvos para o céu levanta;
E já no arranco extremo: — «Pátria, ao menos
Juntos morremos...» E expirou coa pátria.
«Onde jaz, Portugueses, o moimento
Que do imortal cantor as cinzas guarda?
Homenagem tardia lhe pagastes
No sepulcro sequer... Raça d’ingratos!
Nem isso! nem um túmulo, uma pedra,
Uma letra singela! — A vós meu canto,
Canto de indignação, último acento
Que jamais sairá da minha lira,
A vós, ó povos do universo, o envio.
Ergo-me a delatar tamanho crime,
E eterna a voz me gelará nos lábios.
Lira da minha pátria onde hei cantado
O lusitano — envilecido — nome,
Antes que nesse escolho, em praia estranha,
Quebrada te abandone, este só brado
Alevanta final e derradeiro:
Nem o humilde lugar onde repoisam
As cinzas de Camões, conhece o Luso.

Fonte: www

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