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Camões

Almeida Garret

CANTO PRIMEIRO

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o céu me dá que eu sem perigo
Torne com esta empresa já acabada.

Acabe-se esta luz ali comigo.

Lusíadas

I

Saudade! gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito
Com dor que os seios d’alma dilacera,
— Mas dor que tem prazeres — Saudade!
Misterioso númen, que aviventas
Corações que estalaram, e gotejam
Não já sangue de vida, mas delgado
Soro de estanques lágrimas — Saudade!
Mavioso nome que tão meigo soas
Nos lusitanos lábios, não sabido
Das orgulhosas bocas dos Sicambros
Destas alheias terras — Oh Saudade!
Mágico númen que transportas a alma
Do amigo ausente ao solitário amigo,
Do vago amante à amada inconsolável,

E até ao triste ao infeliz proscrito
— Dos entes o misérrimo na terra —
Ao regaço da pátria em sonhos levas,
— Sonhos que são mais doces do que amargo,
Cruel é o despertar! — Celeste númen,
Se já teus dons cantei e os teus rigores
Em sentidas endechas, se piedoso
Em teus altares húmidos de pranto
Depus o coração que inda arquejava
Quando o arranquei do peito malsofrido
À foz do Tejo — ao Tejo, ó deusa, ao Tejo
Me leva o pensamento que esvoaça
Tímido e acovardado entre os olmedos
Que as pobres águas deste Sena regam,
Do outrora ovante Sena. Vem, no carro
Que pardas rolas gemedoras tiram,
A alma buscar-me que por ti suspira.

II

Vem; não receies a acintosa mofa
Desta volúvel, leviana gente:
Não te conhecem eles. — Eia, vamos!
Deixa o caminho da infeliz Pirene:
Tais mágoas, como aí vão, poupa a meus olhos;
Assaz tenho das minhas. — Largo! aos mares;
Livres corramos sobre as ondas livres
Do Oceano indomado por tiranos,
Livre como saiu das mãos do Eterno,
Sua feitura única no globo
Que ímpias mãos d’homens não puderam inda
Avassalar, destruir. Aí d’entre as vagas
Surge a princesa altiva das armadas,
Pátria da lei, senhora da justiça,
Couto da foragida liberdade.

Salve, Britânia, salve, flor dos mares.

Minha terra hospedeira, eu te saúdo!
Se ora pousando em tuas ricas praias,

Pudesse ir abraçar fiéis amigos
Que pelas ribas desse nobre Thamesis
Vivem à sombra da árvore sagrada
De abençoada independência a vida!
Não posso; mas sobeja-me a lembrança
Indelével, e a voz não morredoura
Da amizade gratíssima e sincera.

III

Certo amigo na angústia, que aos tormentos
Mirradores que a vida me entravavam,
Adoçaste o amargor, e com benigna
Destra cravaste à roda do infortúnio
Cravo que o giro bárbaro lhe impeça;
A ti, a quem a vida, que se me ia
Em desalento, em desconforto, devo,
A ti minhas endechas mal cantadas
Nas solidões do exílio, onde as repetem
Os ermos ecos de estrangeiras grutas,
A ti meus versos consagrei na lira:
Quebrada sobre o escolho da desgraça
Inda lânguidos sons desfere a medo,
Que a teu fiel ouvido vão memórias
Lembrar da pátria e recordar do amigo.

IV

Ouves? Rija celeuma aos ares sobe
E fere os ventos que nas ondas folgam.

— «Terra, terra!» bradou gajeiro alerta.

— «Terra!» ecoa confusa vozearia
Da marítima turba: Oh! voz querida,
Doce aurora de gozo e de esperança
Ao coração do nauta enfraquecido,
Do alquebrado sequioso passageiro,
Que a esposa, os filhos, ou talvez a amante,
Nessa voz doce e grata lhe alvejaram.

V

Terra, e terra da pátria! Debuxada
Se vê pulando a mágica alegria
Nos semblantes de todos. Já contentes,
Um se afigura surpreender o amigo,
Outro à esposa fiel cair nos braços;
Este da velha mãe, que há tanto o chora,
Ir enxugar as lágrimas aflitas;
Aquele, entre alvoroços e receios,
Não ousa de pensar se ao pai enfermo
Na descarnada mão rugosa e seca
Ósculo filial lhe é dado ainda
Respeitoso imprimir, — ou se a ternura,
Se o amor de filho sobre a laje avara
Se irá quebrar de gélido sepulcro
Que em sua ausência — tão longa — lho
roubasse.

Qual da amada, que sempre foi constante,
— Ou sempre, ao menos lha pintou de longe
A namorada ideia — perto agora
Começa de temer que tal distância,
Separação tamanha e tão comprida,
Novo amante mais perto... — Mas quem sabe?
Talvez... E esse talvez é de esperança
Sempre querida, sempre lisonjeira

VI

Um só no meio de alegrias tantas
Quase insensível jaz: calado e quedo,
Encostado à amurada, os olhos fitos
Tem nesse ponto que negreja ao longe
Lá pela proa, e cresce a pouco e pouco.

Era esse o extremo promontório
Que dos montes de Cynthia se projecta
Sobre o fremente Oceano que na base
Tremendo quebra as enroladas vagas No gesto senhoril, mas anuviado
De sombras melancólicas, impresso
Tem o carácter da cordura ousada
Que os filhos enobrece da vitória:
Gesto onde o som da belicosa tuba
Jamais a cor mudou, nem feito indigno
Tingiu de pejo vil. Na tez crestada
Honrada cicatriz, que envergonhara
Adamados de corte, dá realce
Às feições nobres do gentil guerreiro.

Desses olhos que a luz ateou do engenho,
Quem um dos lumes apagou? — A guerra
No campo das batalhas. Um que resta
Vivaz centelha, e ávido se alonga
À recobrada pátria. — «Pátria» disse
Em voz tão baixa, que a tomaras antes
Pelos ecos do interno pensamento
Falando ao coração sem vir aos lábios,
«Pátria, alfim torno a ver-te» — E lacerando
Entre os lábios mordidos o ai sentido
Que as piedosas palavras lhe seguia
Recaiu na tristeza taciturna
De que a ideia da pátria o despertara.


VII


Galerno e fresco o vento sussurrava
Pelas inchadas velas. Já na terra,
Que a olho se avizinha, as mal distintas,
Diversas cores surdem; — logo o escuro
Dos pardos sulcos discrimina a vista
Dos arrelvados campos; depois vêem-se
As casas alvejando entre a verdura:
Eis claro o porto amigo. — Tal observas,
Sob os pincéis de artífice divino,
Primeiro a incerta cor de vagas tintas
Que aos toques mestres, nesse caos d’arte,
Se desenvolvem claras, se aviventam;

Azula o céu, alteia-se a montanha,
Copa-se o bosque, escarpam-se os rochedos,
De amenas flores se recamam prados
Que pisam ninfas belas... Pasma absorta,
Admirando-se n’arte a natureza.

VIII

O sol descia rápido, e já perto
De seu diurno termo, começava
A destingir no verde-mar das águas
A açafroada cor de que se adorna
No ocaso derradeiro. Leves giram,
Do seguido baixel cruzando em torno,
Como um bando de loucas mariposas
Em derredor da chama, as destemidas
De férrea proa rápidas muletas.

Grosseiros parabéns em brado rudo
Dos leves barcos soam: modulada
Ao rouco som das vagas nos cachopos,
A voz do pescador brama como elas.

— «Piloto!» gritam; e a um sinal de bordo
Do alteroso galeão, dum salto pula,
— Qual delfim namorado nas campinas
Do azul-escuro mar — o palinuro
Nos segredos do Tejo iniciado.

Rege a manobra falador apito:
— «Alá... amaina!» Eis passada a estreita boca
Por onde seus tributos d’água e d’ouro
Leva ao Oceano o rio d’Ulisseia.

Junto da torre antiga e veneranda,
— Hoje tão profanado monumento
Das glórias de Manuel — âncora desce;
E aos ingratos, inóspitos baloiços
Do longo velejar, sucede o brando
Meneio da suavíssima corrente,
Que no remanso de seguro porto
Tão doce é de sentir ao nauta exausto
Dos repelões irados de Neptuno.

IX

À monótona grita compassada
Da festiva companha se ala o esquife
Ao bordo erguido, donde desce às águas.

Alegres, — como a noiva que franqueia
O limiar da paternal morada
No risonho cortejo que em triunfo
A leva às casas do ansiado esposo,—
Ao pintado escaler velozes saltam
Dos passageiros a ávida caterva.

Desce último o guerreiro pensativo.

X

— «Rema!» Da popa, onde modera o leme,
Brada o mestre: obedece à voz o remo;
E ao golpe certo resvalou dum pulo
Pela corrente lisa o leve esquife.

Um sentido clamor, como suspiro
De amargurado tom, vem da amurada
Do alteroso galeão. Volvem-se os olhos
Maquinalmente ao sítio donde veio.

Quem viram nele? Um pálido semblante,
Onde à malaia cor requinta o cobre
Viva expressão de angústia. Os olhos negros,
Nessas faces tostadas do sol d’Ásia,
Brilham por entre as névoas duma lágrima,
E parecem dizer na muda súplica:
— «Oh! não abandoneis o pobre escravo!»

XI

Do homem, que é mau do berço à sepultura,
Uma só coisa à natureza deixam
Os hábitos ruins que não pervertam:
Do coração é o primeiro impulso.

O gesto aflito do Índio suplicante
Dos remeiros contrai as mãos calosas,
E involuntária a compaixão se pintaNo parecer de todos. — Mas não tarda
A sufocar a débil voz do instinto
O que chamaram reflexão no mundo:
Melhor dirias reacção dos hábitos
Que um instante vergou a natureza.

— «Avante!» clama o torvo mestre. «Avante!»
Como que envergonhado do momento
Que involuntário ao coração cedera.

— «À fé que não» gritou co acento austero
Que tão bem fica aos lábios da virtude,
Quando ante a prepotência ousam de abrir-se,
«À fé que não» bradou, e em pé se erguia austero
O nobre, melancólico soldado,
Sem desfitar do humilde escravo a vista,
«Encontrai a tomá-lo.»
— «O quê, amigo?
Por vida minha, o que quereis ao Índio?
Neste meu escaler dessa fazenda
Não levo a terra».

— «Tal fazenda é ela,
Que desse estofo a não vereis amiúde.»
— «Grão valor é o do escravo!»
— É meu amigo.»
— «Amigo! amigos tais trazeis ao reino!
Rico vindes da Índia.»
— «Rico!... certo:
De feridas ao menos...»
Suspendeu-se,
Corrido das palavras que soltara
Diante de tal gente: a cor do rosto
Claro lhe indica o pejo que envergonha
O homem honrado se indiscretos lábios
No calor da disputa lhe caíram
Em repreensível gabo de si próprio.

XII

No gesto do guerreiro se fixaram
Os olhos circunstantes; e o respeitoQue uma acção generosa inspira ao vulgo,
Por aqueles semblantes se pintava.

Mas o grosseiro mestre não se corre
Do feito descortês: e os sinais tantos
Da desaprovação geral o irritam.

Rudas imprecações, que rudas soam
Como os calabres que reger costuma,
De novo os remos a vogar excitam.

D’alta amurada do galeão suspira
O desprezado escravo. — Um movimento
De involuntária cólera e despeito
Leva a mão do guerreiro malsofrido
Da espada ao punho. — Olhou-o e c’um sorriso
Que parece dizer: «Quem sobre as ondas
Vida de p’rigos vive, não enfia
Aos lampejos da espada» — só responde
O carrancudo mestre. — Nesses tempos,
Que heróicos chama o entusiasta ardente,
Bárbaros o filósofo, e que ao certo
Foram pasmosa mescla de virtudes
E atrocidades, — de honra e de crueza,
Era o sangue juiz de tais pendências
E ao defeito da lei supria a espada.

Bárbara usança!... porém nobre ao menos.

Hoje que hemos sofrido de covardes,
Sem pejo, que nos roube a prepotência
Dos tribunais as leis, das mãos a espada...

Degenerados netos, ousaremos
Nossos livres avós taxar de bárbaros?

XIII

Vira o Tejo suas águas cristalinas
Roxas ali de sangue; e o breve espaço
Do curvo esquife não tivera as iras
Da mal-avença aos dous, se um poder alto,
Tão forte quanto é meigo, não viera
Intervir na disputa malferida.

Num canto do escaler, humilde e absortoEm pensamentos que não são da terra
Um velho, em que até’li não atentaram
Indiferentes olhos, se assentara.

Alvejavam-lhe as cãs das longas barbas
No burel negro que lhe cobre o peito.

O tempo, que tão longo tem passado
Pela acurvada frente, lhe ceifara
Messes em que talvez a mocidade
Viçosa lourejou: hoje o que resta,
— Raro respigo ao segador caído —
Tira à cor baça do ligado argento.

Como que a humanas cousas retirados,
Se encovaram nas faces descaídas
Os olhos, onde a luz quase assemelha
À lâmpada que ardeu no tabernáculo
Inteira a noute, e ao arraiar do dia
Falece à míngua d’óleo. A mão tremente
Em viageiro bordão arrima; e calçam
Nus os pés as sandálias costumadas
A sacudir o pó da terra do ímpio.

Rico de afrontamentos e trabalhos,
Vinha do longe Oriente à ocídua praia,
Não ao repoiso plácido à velhice,
Mas a solicitar novas fadigas
Em recompensa d’outras. Destes eram
— Antes de se enredar em vãs disputas
De orgulho e presunção mais que mundana —
Os que n’Ásia opulenta, África adusta
Levavam depós si nações inteiras
Ao culto de um só Deus, da lei mais santa,
Que — tirai-lhe o que os homens lhe hão mesclado —
Jamais na terra apregoaram homens.

XIV

Foi este o anjo de paz que em tal fermento
De azedas iras verteu mel suave
Da branda persuasão que as amacia.

— «Cavaleiro, essa mão na cruz da espada»

Disse grave e solene o missionário
«Quer dizer inimigo, à frente, — na aze
Da batalha, em pendência generosa
Pelo rei, pela pátria... Aqui amigos,
Cristãos, mercê de Deus, somos nós todos
Quantos somos aqui. E ao céu não praza
Que um cavaleiro português arranque
Contra seu natural armas de sangue.

Perdoai as lhanezas de um soldado
Que cercos também viu, e jogou lanças
Com mouros e gentios: — neste velho
Corpo nem sempre andou burel de monge;
Malha também vestiu... — mas uma espada
Ou na batalha em mãos de cavaleiros,
Ou fora dela a rufiões só cabe».

— «Tão covarde não sou que a tal contrário...»
Balbuciou, serenando o cavaleiro:
«Mas» — e de novo a voz se lhe animava,
«Mas o meu Jau fiel, o meu amigo,
Único amigo!»
«Honra-vos dizê-lo,
Honra-vos, cavaleiro» torna o velho,
«Que andrajos e pobreza vos não pejam,
E ousais chamar amigo ao desgraçado.

Mas, filho... mas, senhor, não há bom feito
Que justifique um mau.»
Ao duro nauta
Voltando-se lhe diz:
— «Amigo, é justo
O que pede este nobre cavaleiro.

Duros de coração Deus não ajuda.

Que pesa o pobre escravo? Ir-me-ei a bordo,
E o meu lugar lhe cederei com gosto.

Que tem? Filho de Deus como nós somos.

Mal enroupado? Corações bem nobres
Encobre amiúde o saio remendado.

Se o cavaleiro te ofendeu, seguro
Que não é ele de negar o justo
A quem devido for»«Não sou por certo:»
O guerreiro acudiu; e mal pesada
Tirou pequena bolsa:
— «Aí tendes, mestre;
Poucos pardaus contém... (Menos me ficam,
Talvez nenhuns...» em tom mais baixo e trémulo,
Quase de não se ouvir; nem certo o ouviram.)
«Porém daqui à praia não vai muito,
E a passagem do Jau...»
— «Guarda a tua bolsa»
Ruda interpôs a voz rouca do nauta,
«Cavaleiro orgulhoso; tanto quero
Os teus pardaus, como a tua espada temo.

Mas este padre fala como um anjo;
E o que ele disse, é dito. Atraca a bordo;
E abaixo o amigo Jau. — Rema!»
Dum salto
O Índio na lancha; e a lancha em mores pulos
De oito nervosos braços compelida
Sobe do Tejo a límpida corrente.

XV

Após o disputar veio o silêncio,
Que em finda altercação, mal repoisado
O ânimo pede, — e aos na contenda estranhos
Por simpatia natural se estende.

Era então noite: rápidos se esvaem
Em nossos doces climas os momentos,
Que entre as trevas e a luz vacilam curtos.

A natureza, pródiga em beldades
Por tão risonhas terras, lhe há negado
A mágica ilusão que os véus estende
Nessa hora de saudosos pensamentos
Sobre os campos boreais: — hora tão triste,
Mas de tal suavidade melancólica!
— Não te hão formado o coração no peito
As maternais entranhas, se não ouves,

Nessa hora misteriosa do crepúsculo,
Uma voz que te diz: Estes momentos
Consagrou natureza a doces mágoas.

O amigo ausente, a solitária amante,
O pai longe, o filhinho em terra estranha,
Imagens são que do vapor das terras
Amigas fadas no crepusc’lo formam.

E ante os olhos volteiam d’alma absorta
N’hora sagrada ao génio da saudade.

Oh! serei eu nos sonhos do sepulcro,
Entre o nada das cinzas, — quando a noute,
Qualquer que seja o ângulo do mundo
Em que meus pés se poisem, me não traga
Lembranças dos momentos deliciosos
Que, nesse intercalar de dia e noite,
Da nebulosa Álbion gozei nos campos,
Quando no berço teu, bardo sublime,
Inimitável, único, espraiava
Por infindas planícies d’alvo gelo
Os desleixados olhos, e topava,
Ao cabo lá da vastidão, coas cimas
Das elevadas grimpas que se aguçam
Sobre as arcadas símplices do templo,
Entre as choupanas da vizinha aldeia;
E se me afigurava à mente alheada
Ouvir o canto fúnebre das harpas
Que da sensível Julieta ao túmulo
As nénias acompanham.

XVI

Mas quão longe
Me tornou a volver do Tejo ao Thamesis,
Cortado de memórias que o confundem,
O pensamento vago! — Escura a noite
Suas roupas de dó tinha estendido
Pelas torres da ínclita Ulisseia.

Naquele puro céu nem leve sombra:

Ausente era Diana e seu modesto,
Sereno brilho: mas, sem luz que as vexe
Com mais vivo fulgor, se esparze doce
O alvo lume das cândidas estrelas,
Que em trémulos reflexos pelas águas
Do cristalino rio se espelhavam;
Donde consoladora se exalava,
Como um sussurro de viçosas folhas,
A alma brisa da noute, refrescando
Os corpos então áridos das chamas
Com que o touro celeste em fúria ardia.

Raras começam a brilhar nas trevas,
Pelas estreitas góticas janelas,
As veladoras luzes: acalmava-se
O vivaz burburinho da cidade,
E no sossego plácido da noute,
Pouco a pouco, insensível se perdia.

XVII

Esta se abria majestosa cena
D’ante os olhos dos nautas que surcavam
Áureos caudais do Tejo. Silenciosos
Se derramavam de olhos satisfeitos
Por quadro tão magnífico, e buscava
Cada qual, pelas trevas mal cortadas
De froixo lume aqui, ali aceso,
Descobrir o paterno, amigo tecto.

E o leve fumo que do lar se eleva,
Onde a ceia frugal, que o não espera,
Apronta à cara esposa, mal cuidosa
Que há-de aquinhoá-la o pai cos tenros filhos.

XVIII

Tão vivas se pintavam nos semblantes
Estas ideias aos calados nautas,

Que lhas leu neles quem tais pensamentos
Triste não participa. — Quem é esse?
O filho melancólico da guerra.

Leu-lhas; e um sentimento quase inveja...

Não é tão baixo — e amarga, oh! mais do que ela!
Lhe trouxe do mais íntimo do peito
Um suspiro que morre à flor dos lábios.

E sufocado ao coração reflecte.

Aguda foi a dor, acerbo o espinho
Que esse ai lhe pungiu d’alma. — Quem soubera
Os mistérios desse ai! Quem revelara
Os segredos do incógnito guerreiro!
Consome-o acaso a eiva da doença?
De mal vingada afronta a injúria o rala?
Injustiças dos homens o perseguem?
Ou são penas de amor? — Silêncio! deixa
Ao coração do triste o seu segredo.

Espreitar indif ’rente os pensamentos
Que os lábios do infeliz fecham no peito,
Curiosidade é vã, mal generosa
E de ânimo insensível: não exijas,
Se o podes consolar, preço tão duro
Por teus confortos. Pouco vale a destra
Que não enxuga as lágrimas do aflito,
Sem lhe rasgar primeiro os seios d’alma
Para Ilhe esquadrinhar do pranto a causa.

XIX

O escaler abicou na praia amiga;
E a suspirada terra enfim pisaram
Os desafeitos pés. Quantas penúrias,
Quantos perigos, desalentos, sustos
Em viageiras fadigas se hão penado,
Este momento só, esta alegria,
Oh quão sobejo as paga! O sentimento
Quase devoto com que beija o nauta As areias da pátria, é porventura,
Na peregrinação da nossa vida,
— Se exceptuas a morte — o mais solene.

XX

Separaram-se; e foi caminho usado
Cada um de seu lar. Ledos se foram...

Todos? — Não: três diviso sobre a areia,
A quem parecem vacilar na mente
As ideias penosas que acometem
O viajante isolado em terra alheia.

São estrangeiros? — Dous. Que pátria, longe
Do país lusitano, os trouxe ao dia?
— Entre as palmeiras do cheiroso Oriente
Um na infância folgou: deu-lhe ímpia guerra,
Em troco pela pátria e liberdade,
Ferros de escravidão: — mas há nos ferros
Vínculo às vezes que té prende o ânimo.

Raro o caso verás; porém não chora
O Jau pelos palmares do seu ninho:
Prende-o a amizade, não grilhões de escravo,
A seu senhor, amigo e companheiro.

— E ess’outro? — Deu-lhe o ser matrona do Ebro;
E os pendões de Isabel hasteou nos muros
Da vencida Granada: mas a frente,
Hoje de raras cãs mal povoada,
Nem só das murtas se coroou da Alhambra;
Capelas de magnólia em mundos novos
Lhe deram sangue e crimes... Crimes foram,
Que o sócio de Cortez cobriu do saco,
E humilhou nas cinzas a cabeça
Dos louros da vitória descingida.

Pardo burel lhe roça a penitência
Nos membros que luziram d’aço e d’oiro.

Voto solene e zelo d’outra glória
O levou d’além cabo das tormentas
Da aurora aos roxos seios. — Estes eram Os que junto ao guerreiro silencioso
Mudos como ele e quedos o fitavam.

XXI

Longo o calar não foi: com passo trémulo
Do jovem se aproxima o ancião guerreiro:
— «Nesta grande cidade ambos estranhos
Somos, ao que parece.»
— «Estranho eu?... Quase.

Sou e não sou estranho.»
— «Não me é d’uso
O meter mão curiosa nos segredos
De quem os tem.»
— «Segredos não nos tenho:
Sou português, e de ser tal me... prezo.»
— «Mas de Lisboa não?»
— «É minha pátria.

Desejais saber mais?»
— «Minhas perguntas,
Cavaleiro, não são de curioso;
Outra vez o repito: um pobre monge
Tem uma pobre cela e magra ceia,
Mas ambas oferece d’alma e gosto.

É tarde; e se outro hospício à mão não tendes,
Sereis benvindo a um gasalhado humilde
De quem melhor, a tê-lo, o oferecera.

Má noute passareis; mas um soldado
Não teme estrados maus nem leitos duros.

Soldado fui também: ser-me-á ventura
Em meus quartéis d’inverno receber-vos.»
— «A cortesia é de ânimo sincero;
Nem sou homem, senhor, que a desvalie.

Mas um desconhecido, e porventura
Dela não mer’cedor, deve aceitá-la?»
— «E porque não, se lhe é mister e a preza?»
— «Conheço...»
— «A noite passa. Horas são estas Impróprias de ir buscar outra pousada.

Se vos não peja de aceitar a minha,
Vinde. E pejo de quê? Mesquinha e pobre
É, já vos disse; mas senhores grandes
Em mais pobres mosteiros albergaram.»
— «Ancião venerando, sou convosco:
Honra-me, não me peja a oferta amiga.

Uma só coisa... Nada. Eu já vos sigo.»

XXII

À parte chama o escravo, e da pequena
Bolsa tirou porção pouco avultada
De seu módico haver. — «Busca poisada
Para esta noite; e amanhã bem cedo...»
— «O que fazeis, senhor!» acode ansioso
O velho que os intentos lhe percebe,
«O que fazeis, senhor. Sou eu mais bárbaro
Que o mestre do galeão? Pude com ele
Que de um servo fiel não separasse
O senhor generoso, e havia agora
De fazer eu pior! Envergonhais-me...

Ofendeis-me talvez. Amigo, vinde,
Segui vosso bom amo; para todos
Em nossa humilde casa há tecto e abrigo».

XXIII

Ao Jau fiel caiu de puro gosto
Uma furtiva lágrima que havia
Rebentando de tímido receio,
Mágoa de se ver só, deixar seu amo,
E ir procurando por tamanhas ruas
A quem?... — Ninguém conhece o pobre escravo.

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