_ E tudo será assim. Mas, senhor meu tio, e senhor meu bispo, o caso é que eu estou guapamente ceado; e agora, tenho uns mancebos, meus particulares amigos e matalotes, que moram para Val-de-Amores, guapos companheiros que estão à minha espera para irmos de além Douro esperar as rolas bem cedo nos pinhais... E eu não tenho nem maravedi que levar na bolsa, nem cavalo que me leve a mim. E se não hei de pensar mais em Salamanca, ao menos...
_ Pêro Cão, dai três doblas a este mau filho, já que assim o querem não sei que maus feitiços que me ele deu... E dizei que lhe aparelhem os estribeiros aquele alazão que me mandou de Cuenca meu venerável irmão. É a mais linda estampa e os mais seguros quatro pés de cavalo que quero que haja em toda a Espanha.
_ Jube, domine, benedicere! – disse em tom e corda coral, o maganão de Vasco, pondo as mãos e inclinando-se ao prelado com ridícula gravidade, como clérigo em coro antes de ir cantar sua lição.
_ Birbante!
_ viva o meu santo prelado! E venha a benção, que já não falta mais nada. E dois trincos para Salamanca e para as suas covas, que não há mais alquimia que esta. Seráfico tio, encomendo-me às vossas penitentes orações. E vós vinde Pêro Cão, que não posso aguardar mais: vamos.
_ Que cavalos são aqueles?
Que além ouço relinchar?
Vossos são, dom cavaleiro,
Que se enfadam de esperar.
E com esta cantarola, partiu empurrando diante de si a mal-azada figura de Pêro Cão, o almudeiro do bispo, que também cumulava as duas altas dignidades e carregos de seu mordomo ostensivo e de seu mercúrio secreto.
Pêro Cão ria contrafeito, que não queria bem ao rapaz; mas voltava a desdentada boca para o bispo, para que ele o visse rir... Rir daquele alvar riso mau dos tolos velhacos – que é o mais detestável riso que há na natureza.
P pouco austero prelado, esse ria de gosto e deveras; e seguindo com os olhos o mancebo:
_ Dá-lhe rédea ao alazão, rapaz, e não o piques, que é de sangue generoso, não sofre castigo. E espera, Vasco, filho: que te dêem da armaria a melhor besta de garrucha que lá houver... a própria com que eu fui às caçadas Del-rei quando...
Mas já o não ouvia o rapaz, que se fora correndo, se bem correra, com Pêro Cão agarrado, e como quem não podia sofrer mais delongas.
_ Bem se vê o sangue que tem! Montear e cavalgar é o seu deleite. Havemos de fazer dele um bom cônego... E agora, amigos e fiéis meus, cada qual aa seus cuidados!... Inda bem que o rapaz teve esta vontadinha de se ir ao monte tão a propósito e de feição: escusamos de o ter por aqui nesta conjuntura...
_ Parece-me, se me dais liberdade, que o deixais senhorear-se demais de vossa afeição, e que lhe não podereis ir à mão quando quiserdes.
_ Não tenhais medo; a raça é boa, e há de acudir por quem é. Asperezas, nem ele as suportava nem as podíamos nós ter com ele. Cuidais que é possível fingir com aquela criança? Conhece-nos por dentro e por fora... Intus et in cute: creio eu que é o latim da sentença, se ainda bem em lembra do meu pobre latim... Boas noites, reverendo irmão. Amanhã conversaremos mais de espaço.
Com suas doblas na algibeira, boas doblas de D. Pedro, que era o melhor e mais leal dinheiro de ouro que nesta terra se cunhou até aos tempos verdadeiramente dourados das dobras e dobrões de D. João V, chegou Vasco às cavalharices episcopais acompanhado do relutante Pêro Cão:
_ Onde está, aonde está ele, este querido alazão?
E sem esperar resposta, foi, por entre muares e cavalares, procurando o apetecido e gabado ginete que lhe tardava de sentir já entre os joelhos a devorar com ele o espaço...
_ Ei-lo aqui, ei-lo aqui!... – E deitou-se aos peitos do generoso animal que parecia entender e responder aos afagos do mancebo, relinchando com simpática inteligência, como por esse magnetismo animal que estabelece aquela inexplicável, mas inquestionável correspondência entre as afinidades de duas naturezas semelhantes.
Atrevidos, generosos ambos, atuados ambos pelo vago desejo de se lançar ao incomensurável espaço, imprudentes, desprevenidos, o jovem cavaleiro e o jovem cavalo sentiam que eram feitos um para o outro, que a um e a outro os chamava o palpitante interesse de correr impensadas aventuras.
Selaram, embridaram o cavalo, que os cavaleriços pasmavam de ver tão manso. Vasco ficou de um pulo sobre ele, tão consubstanciadas as duas formas e naturezas como se as duas partes de um antigo centauro, que estivessem divididas, se tornassem a reunir para viveram sua vida natural e primitiva.
Partiram trotando largo e seguro por aqueles despenhadeiros escorregadios e mal calçados que nossos avós, de tão bom contento, tinham a indulgência de chamar ruas.
Vasco tomou pelo arco da Vandoma, onde os Gascos e seu bispo Nonego colocaram a milagrosa imagem da Virgem, proteção e armas de nossa cidade; veio sair ao que hoje é de São Sebastião, e daí outra vez rua de Sant’Ana abaixo. Parou junto desse arco, viu erguer-se logo um postigo de gelosia, e ouviu que lhe diziam em voz baixa mas clara:
_ Bem. Correr sempre! Agora nem mais palavra.
E viu um lenço branco que lhe acenava. O lenço deixou-se cair: colheu-o no ar, beijou-o com devoção, e o meteu nas pregas do seio. A gelosia fechou-se, e ele partiu.
Já chegava à porta da cidade, que àquela hora se não abriria decerto a qualquer outro: mas a quem vinha dos paços da Sé, montado naquela rica e bem conhecida estampa de cavalo, ao sobrinho do mestre Fr. João de Arrifana, o valido do bispo, quem lhe havia de duvidar de coisa alguma? Abriram-lhe a porta, foram-lhe acordar barqueiros que o passassem de além Douro...
Vasco ficou só na praia, aguardando que viessem passa-lo à outra margem do rio: os pés na areia úmida, os olhos fitos na corrente do Douro que murmurava, encostado ao seu alazão tão imóvel como ele, e que ambos pareciam meditar. Triste e melancólica era a atitude do nosso estudante tristes e melancólicas as suas meditações. Onde ia ele? Que ia ele fazer? Qual seria o resultado destas perigosas aventuras em que, rindo e folgando, se começara a enredar, de que não podia desprender-se já agora, que o levavam em seu remoinho rápido, irresistível a não sei que abismos que nunca sondara, que nem imaginara – que se lhe abriam tremendamente agora para o tragar talvez, para devorar quem sabe, talvez o que lhe é mais caro, o que mais junto está e deve estar de seu coração?
Este cego amor pela bela Gertrudes, este exaltado entusiasmo pela causa dos comunais, que é a dela – e a dele também – este ódio que tem aos opressores da sua terra, e a oculta voz do coração que ao mesmo tempo lhe clama por aquele mau bispo e mau senhor, que para ele Vasco é todavia a bondade, a indulgência mesma, sempre, sempre, e sem jamais se desmentir!...
Como há de a singeleza de um coração jovem e não calejado ainda pelo trilhar das injustiças do mundo, meter-se a conciliar, a abrigar dentro do mesmo peito afetos e sentimentos tão opostos? Virá o tempo, virão os desenganos, virão as perfídias do amor, as traições da amizade e as brutais lições do egoísmo universal, virão todos e tolherão essa alma, que não será já a imagem do Criador que a formou – senão o disforme e aleijado espírito de mau demônio que a contorceu.
Virão: mas não vieram ainda. Vasco está na sua primeira tortura. Agora o sentaram no potro; inda não começaram bem os algozes o seu ofício...
_ Quem é lá? – bradou Vasco a um vulto que se encaminhava para ele dentre umas casinhas térreas junto à muralha.
_ Sou eu , Vasco.
_ Vós aqui, Rui Vaz! Inda agora vos deixei de sentinela no paço!
_ Achei um bom camarada que lá ficasse por mim; e eu vim a toda a pressa para vos encontrar, que não partísseis sem vos eu dizer...
_ O que?
_ Que bem sei onde ides. Tratado está entre os nossos que fosseis; e lá onde ides achareis novas nossas. Mas, senhor, Vasco, mancebo, não vos ponhais a caminho para Grijó sem falar primeiro com ela.
_ Ela! Quem?
_ Quem há de ser? A bruxa de Gaia.
_ Tal não farei. Tenho jurado que não hei de parar nem repousar sem cumprir o que prometi. A Grijó hei de ir primeiro; depois...
_ Depois?... Seja. À volta de Grijó, entrai na capela de são Marcos, e lá encontrareis quem vos diga o que ora não posso eu aqui.
_ Será assim, e...
Mas nisto chegaram os barqueiros; Rui Vaz desapareceu como uma sombra, e Vasco entrou com o seu alazão no saveiro que os transportou ao burgo novo.
E tudo listo que levamos contado, e achar-se o nosso estudante nas praias de Vila-Nova, e daí galopando a toda a brida para o alto agora dito da Bandeira, tudo isso foi obra de poucos quartos de hora. Ainda era noite, noite deveras e escura fechada, quando chegava a esse alto hoje tão célebre por nossas sanguinosas lutas civis.
Deixa-lo ir seu caminho, o senhor estudante: caminho que eu fiz tantas vezes, em muito menos generosas cavalgaduras e me mais moderada andadura, quando, morto de saudades pelo meu pátrio Douro, ia choitando no proverbial macho de arrieiro para as doces margens do Mondego que tento praguejava este ingrato coração, como se em toda a minha vida neste mundo eu houvesse nunca de ter dias mais felizes do que tantos, tantos que ali passei na inocente e descuidada seguridade da vida de estudante.
Deixemo-lo pois ir o senhor estudante; e voltemos nós com a nossa história ao sítio donde ela começou e aonde está o foco, o interesse todo desta mui verídica narração.
Soavam talvez ainda na rua de Sant’Ana, e por baixo de seu bendito arco, as estridentes patadas do alazão episcopal que tão folgado ia descendo com o leve peso de seu jovem cavaleiro, quando um vulto, dois vultos, depois três, seis – eram já bem doze ou quinze, - começaram a surdir das várias ruas e vielas que ali iam dar: vinham, manso e manso, como ladrões que espreitam ocasião de chegar sem ser vistos, ao prazo dado de sua noturna empresa, que de antemão e com todo o artifício fora traçada.
Vinham tão rebuçados todos em longas capas escuras, que nas espessas trevas da noite era quase impossível distinguir o movimento sorrateiro com que se mexiam. Juntaram-se a pouca distância do arco; e, trocando certo sinal que manifestamente viera pactuado, disse então uma voz:
_ Estão todos?
_ Todos, Pêro Cão.
_ Leva rumor! Aqui não há Pêro nem Paio. Quem traz gazua?
_ Eu: e ainda vem quente da lima, por sinal. E mais, escaldei os dedos a forja-la.
_ Não te enfades; é a amostra do pano de Belzebu. Melhor to fará ele quando te pingar a consciência, ferreiro de maldição...
_ Quando eu para lá for... E não digo que não... À boa companhia em que ando. E às boas bulas que hei de levar da Sé e dos seus paços...
_ Não te calarás, excomungado?
_ E quem há de excomungar a mim?... Estou vendo que será o nosso bispo.
Aqui houve gargalhada geral, que mal se abafava nas capas dos embuçados: tão popular foi a observação que a excitou.
Pêro Cão – já está visto que era ele, e os outros, portageiros e esbirros menores, que eram o resto da infame caterva que ali se reunia – fizeram todos, como por simultâneo impulso, um psiu!... Que foi assoviando surdamente pela rua abaixo. Seguiu-se breve calada.
_ Leva rumor agora! – disse Pêro Cão – logo no paço, e depois da fazenda feita, devisaremos dessas coisas todas; e cada um dirá, qual mais e melhor, o que tiver que dizer. Lá está um odre dos que ontem chegaram de dízima, almudado por mim à consciência – bem o heis de crer – para aguçar a língua ao que a tiver mais romba. Agora vamos ao que temos que fazer, que são horas, e o... o... o pastor está impaciente pela ovelha. Avança, meus rafeiros!
_ Pastor, pastor... E quem é lobo então?
_ Que te vai a ti se é lobo ou pastor, contanto que te ele pague?
_ Isso paga ele como um senhor que é.
_ E guapo senhor!
_ Lembra-me uma coisa Pêro Cão...
_ Já te disse que aqui não há Pêro nem Pelaio.
_ Sim, a coisa é arriscada. Quando amanhã se souber em toda a cidade do Porto o vilão feito que esta noite se vai fazer ao pé do arco de Sant’Ana... Estou vendo que há de haver duas opiniões sobre saber quem fez o tal feito. Não há de ser logo uma voz só entre maiores e comunais: Aquilo só Pêro Cão, só o danado de Pêro Cão.
_ Pela Senhora da Silva, que é maior santa e está em mais alto lugar do que esta Sant’Ana – com quem agora não quero nada pela má vizinhança que lhe vamos fazer!... E por quantos santos de vulto e de roca, em osso e em pau, quantos tem a bendita igreja da Sé!... Que esta faca de mato vai pela boca dentro do primeiro que deitar por ela fora o meu nome.
Ninguém tugiu nem mugiu; sabiam que Pêro Cão era homem de palavra... E de obra também.
Mas o rezingueiro. Com quem andava o diálogo que vamos contando, sempre tornou daí a pouco:
_ Pois não se fala mais em nome tão melindroso. Não quero ter que descoser com a tua faca de mato... Nem tu quererás... Nem tu hás de ter muita vontade também de afazer conhecimento com esta choupa, que é forjada, temperada e amolada por minha mão... E não nas costumo fazer das que torcem o fio no melhor peito d’armas de Milão, ou búfalo pespontado de Veneza... Vá! Deixemos isso. O que eu queria saber era: se quando nós, bons populares, que em má hora leve Belzebu como se fôramos fidalgos!... Quando nós, desastrados populares, vendemos a nossa alma a teu senhor... E ao diabo, que tudo foi no mesmo escrito, e ambos lá o tem para nos fazerem pagar cada um a seu tempo... Quero eu saber se quando assim lhes vendemos a alma para apoquentarmos e roubarmos o povo nas casinhas da portagem, se também ficamos obrigados a andar, por noite velha, pelas casas de nosso parceiros e comunais da mesma terra, a roubar-lhes mulheres e as filhas para serviços do mesmo diabo, ou do mesmo...
_ Não batais mais nesse ferro, ferreiro: bem sei onde queres ir ter. Este serviço é de fora parte, e tem seu soldo e comedorias que vão com ele. Não tenhas dúvidas. Compramos-te a alma mais caro do que ela vale. Medo tenho eu que o diabo me não dê quitação por tamanha paga.
O rezingueiro resmungou, disse não sei que meias palavras sobre a sua consciência, sobre a razão que tinham os populares descontentes, e o que devia fazer qualquer burguês e homem honrado que quisesse salvar sua lama e arrepender-se.
Pêro Cão, hábil político e homem quase parlamentar, viu que a discussão se ia tornando séria demais, e podia desmoralizar a maioria. Meteu o caso à bulha com o vulgar ridículo de uma torpe blasfêmia; e, por esta tão sabida e tão imoral estratégia, despegou do sério aquelas almas grosseiras: almas como as há sempre em todas as categorias da sociedade, capazes de rir e mofar no meio das maiores atrocidades.
Em mui semelhantes discussões, preparatórias de não menores infâmias, outros parlamentos, sem ser o do arco de Sant’Ana do Porto, tem visto levantar-se um truão homem de estado a aconselhar, com vileza e crueldade, os maiores flagicios, dizendo sandios gracejos e torcendo-se em visagens de bobo para fazer rir, nos solenes momentos de angústia pública, outros cúmplices tão grosseiros e vendidos como os de Pêro Cão há quatrocentos anos.
Pêro viu, nos compridos e forçados risos dos nobres colegas a quem falava, que tinha conseguido o seu fim parlamentar; e, aproveitando o momento favorável e supremo, fechou a discussão, resumiu os votos, e disse:
_ Vamos a isto, que é tempo de obrar, não de falar. Vós (e separou seis da sua quadrilha) ide por detrás da cassa, não se nos escape daí a ovelha. Nós aqui, calados e quedos como marcos de estrada. Dá cá a chave.
Tomou a chave, embuçou-se mais apertado: e dali a dez ou doze minutos de medonho silêncio, meteu a gazua na porta da casa que pegava com ele da esquerda... A porta abriu-se... E Pêro Cão subiu, com mais dois, pela escada acima, deixando o resto de sentinela e reforço à porta.
Amanheceu o dia seguinte, belo e puro como um dia de abril que era; o toldo de névoa, que a madrugada costuma estender sobre o Douro, tinha levantado mais cedo. Desde o nascer do sol, as mais escuras e tristonhas vielas do Porto se inundavam de claridade. A nossa rua de Sant’Ana não foi das últimas que, em sua estreita e cava sinuosidade, viram penetrar a luz aviventadora daquele dia. Seriam sete horas da manhã: os postigos da gelosia à direita do arco da santa já por vezes se tinham agitado, já os vivos e ardentes olhos da animada Gertrudes foram vistos fixar-se com ansiedade nas janelas ainda fechadas da casa fronteira.
Gertrudes está inquieta, não sabe bem porque: dá-lhe que entender, hoje mais que nunca, o silêncio daquela casa, que todavia não é das mais temporãs a dar sinais de movimento e de vida exterior logo de manhã. Ana bem se ergue cedo, com a aurora, de seu viúvo e desconsolado leito; mas lida muitas horas no interior da casa para satisfazer a seus tantos cuidados domésticos, primeiro que apareça às duas queridas vizinhas que sempre lhe tem valido, a boa santa que a protege e a boa amiga que a conforta.
Mas dão sete, mas dão oito, mas são quase nove horas... E as janelas de Aninhas não se movem. A impaciência, os temores de Gertrudes sobem de ponto... alguma coisa sucedeu... E é preciso saber o que foi.
O honrado Martim Rodrigues, honesto e pançudo caldeireiro da rua de Sant’Ana, pai da nossa Gertrudes, tipo e vera efígie de um abastado burguês desta burguesíssima cidade, saíra, há muito, para as casas do conselho, onde ocupava a primeira cadeira curul como digno juiz da terra que era. Gertrudes está só. A velha dona que, desde que seu pai enviuvara, lhe fazia companhia e a ajudava na labutação da casa, saíra para a missa das almas ainda lusco-fusco, e numa série de missas, jaculatórias, novenas e trezenas que trazia prometidas e em bom caminho andado de satisfazer, se tinha ficado pelas capelas da Sé, onde está São Gonçalo e São Tiago, e a Senhora da Silva, e a Senhora do Ó, com vários outros santos todos de sua particular devoção; com o que, se lhe costumava ir a manhã até às dez horas pelo menos: hora a que ela ainda não começa para a dorminhoca progênie que hoje vive.
Gertrudes não pode esperar mais: desce, a correr, aquelas precipitosas escadas de que ainda há tantos modelos-monstros na nossa boa terra, e vem à lójia onde os oficiais e aprendizes de seu pai martelavam, em sonora dissonância, os arames roxos e amarelos que são a glória e o timbre... timbre que bem retinia!... de mestre Martim Rodrigues.
Gertrudes era a valida, a admiração e o amor de todos os ciclopes da rua de Sant’Ana e da vizinha Banharia. Os de seu pai adoravam-na. Boa, oficiosa para todos, impunha-se-lhes, de mais a mais, por um certo ar de superioridade, e para assim dizer (perdoem-me a aristocracia da frase) de fidalguia natura, que é a mais rara, a mais preciosa e a mais verdadeira, posto que não tenha assentamento na casa nem ande nos livros da mordomia-mor.
Pararam os martelos suspensos no ar, cessou a infernal música dos caldeireiros de mestre Martim, apenas viram as roupas brancas, e a quase mais branca mão de sua linda filha acenar-lhes silêncio.
_ Quem viu hoje entrar ou sair alguém da porta aqui defronte? Ninguém sentiu por aí rumor ainda hoje?
_ Da porta defronte? Da casa do ourives?
_ Sim.
_ Ele... hoje... Eu parece-me... A gente não reparou. Mas é verdade... que ainda está tudo fechado.
_ Vá já um ver, bata à porta, empurre-a... entre já por força...
Não foi um, foram os marteladores todos. E Gertrudes, à porta da sua lójia, aguardava, em expectação ansiosa, o resultado da diligência.
Bateram: nada. Martelaram com seus amotinadores martelos: nada.
_ Arrombem essa porta! – bradou Gertrudes.
Não foi preciso repetir a ordem: o ferrolho era fraco ou estava mal corrido: a porta foi dentro com pequeno esforço.
Dali a dois segundos, um dos cic2lopes abria a janela do primeiro piso, e com uma cara espantadiça e esgazeada, com uma verdadeira “cara de caso” , disse para baixo:
_ Cá não está ninguém.
_ Ninguém!... Repetiu a aterrada Gertrudes. – Bem mo adivinhava o coração... Ah pobre Aninhas! Levaram-na, levaram-na os malditos...
E atravessou a rua, e entrou na casa da sua amiga, e correu-a de baixo a cima num instante. No primeiro piso não viu ninguém... subiu ao segundo. Com que espetáculo foram dar os olhos da boa Gertrudes!
Uma criancinha de dois anos, ainda nua, e como quem tinha saído por seu pé do berço em que dormira, brincava descuidadamente com um gato valido. Que parecia adivinhar o abandono do inocente, e, com o redobrar dos saltos e folguedos, querer entretê-lo que se não carpisse.
Gertrudes tomou a criança nos braços, envolveu-a à pressa em algumas roupas que achou à mão, e disse para a sua gente:
_ Um fique a tomar conta nesta casa; outros vão já chamar meu pai. Oh Aninhas, Aninhas! – E não pode conter mais as lágrimas.
_ Mas que foi isto senhora?
_ Que foi? O que havia de ser? Não conheceis vós Pêro Cão?
_ Ah! Pêro Cão, Pêro Cão... O excomungado bem rondava por aqui estes dias atrás. Foi o desalmado do bispo que a mandou furtar: querem ver? Não foi outra coisa. Foi, foi: nem há mais que ver, nem que dizer.
_ Oh vergonha para a nossa rua!
_ Para a nossa cidade!
_ Para esta terra toda!
_ Isto não há de ficar assim.
_ Não, não!
_ A eles, aos cães, aos Pêro Cães! E aos cônegos, aos bispos, aos portageiros e malsins, e a toda esta cambada de Belzebu!
_ Por menos entramos nós há dez anos nos paços do bispo e lhe matamos dois maus criados seus.
_ Aqui Del-rei, aqui Del-rei, que furtaram a mulher de Afonso de Campanha, a boa Aninhas, a honrada Aninhas!
Um vai buscar o mais sonoro arame que achou na lójia, e a golpes repetidos de martelo começa de soar um rebate tão tangido e tão apressurado, que, de mistura com os gritos, exclamações e imprecações dos companheiros, em breve juntou ao pé do arco da gloriosa Sant’Ana a mais tremenda emeute – alvoroço de populares que ainda se vira desde as guerras do príncipe D. Pedro com seu pai, ou do último levante em que o povo se desenganara a fazer justiça por suas mãos no bispo seu senhor e excomungador.
Gertrudes tinha voltado para casa com o desvalido filho da sua amiga nos braços. E mostrando-o da janela ao povo, concitava aquele generoso entusiasmo que a indignação contra os atos de prepotência excita sempre nas classes menos corrompidas da sociedade... A que chamam as ínfimas: e o são decerto na ordem da vilania, e do egoísmo sem paixões, porque todo é interesses...
O povo ia-se juntando, e uns contavam aos outros o estranho sucesso, e a indignação crescia com o recordar as tantas torpezas e abominações que se tinham feito e sofrido neste últimos tempos... E vinham as queixas dos tributos, e o tão geral quanto desigual das vexações, e tudo o que, nas breves horas da ascendência popular, costuma vir sempre à colação, porque o instinto diz aos perpetuamente oprimidos que é preciso aproveitar a hora da vingança e do castigo, que a opressão dura séculos, e a liberdade é de instantes.
A maior parte das crueldades e injustiças demagógicas – não menos crueldades nem menos injustiças contudo – explicam-se por esta teoria do terrível instinto dos povos, que os não engana, posto que os desvaire.
No mais alto da efervescência e do tumulto, chegava à sua boa rua de Sant’Ana mestre Martim Rodrigues, acompanhado de seu colega e alter-ego, o segundo juiz popular. Eram os dois que no dia de São João antecedente, na forma da concordata ou sentença que servia de foral à cidade, tinham sido escolhidos pelo bispo dentre os oito eleitos do povo.
Os bons e prudentes magistrados resolveram enfim vir ver e prover ao que acontecia.
_ Viva o nosso juiz! – rompeu de toda a multidão: que é outro instinto da multidão ter sempre alguém a quem aclamar e vitoriar... embora o apedrejem depois.
Os dois colegas passaram gravemente por entre as alas de povo, que se dilatou pela estreita rua abaixo, a fazer-lhes praça, e entraram em casa de Martim Rodrigues para ouvirem e consultarem do caso maduramente.
_ Ainda bem que chegastes, senhor pai! Era uma vergonha: todo esse povo aí junto a bradar por justiça, e o seu juiz sem lhe aparecer!
_ Praz-me de vos ouvir, filha: sois atilada e apertinente. Mas tomai tento, Gertrudes, que sois minha filha, e não de qualquer do povo! A filha de um oficial do conselho, dum cidadão a quem os seus comunais entregaram o cuidado e a guarda de seus foros e liberdades, não há de falar assim soltamente. O povo brada?... Deixa-lo bradar.
_ Deixa-lo bradar, meu pai!
_ Quero dizer: o povo não pode bradar nem deve bradar; nós é que somos os seus bradadores.
O venerável colega de mestre Martim deu um meditabundo sinal de assentimento, meneando sua municipal e respeitável cabeça.
Esta teoria constitucional, que se considerava eminentemente conservativa no século XIV, seria hoje havida por completamente demagógica e subversiva, considerado o imenso adiantamento das luzes, os progressos de civilização que temos feito, e os hábitos de liberdade que ultimamente havemos adquirido...
_ Mas se os ferem a eles, senhor, se nos ferem a nós todos, meu pai, esperaremos, para nos queixar, que?...
_ Que em virtude dos poderes que nos confiaram, e dos direitos que em nós renunciaram todos por eleição de alguns poucos, nós sintamos o seu mal, nos doamos por eles... e meditemos, em nossa sabedoria e pausadamente, a queixa que se deve fazer.
_ Oh senhor meu pai! E se este inocente ali morresse ao desamparo, quem lhe havia de acudir, com toda essa prudência tão pausada?
E mostrava-lhe a entusiasta oradora de Gertrudes, o inocente que tinha nos braços e que, com os olhos fitos nos dela, parecia implora-la como seu único refúgio e proteção.
_ Cujo filho é esse, Gertrudes? É um querubim! Vede-mo bem, compadre Gil Eanes. De quem é tão lindo garção, Gertrudes?
_ Ai! O querubim da minha alma! – Exclamou dali outra voz muito conhecida na casa, mas que não conhece ainda o amável leitor. Não era menos nem de menor pessoa que da tia Briolanja Gomes, a boa dona da nossa Gertrudes, que voltava enfim das suas devoções.
_ Ai! O querubim da minha alma! – repetiu ela. – Não o conheceis, mestre Martim Rodrigues? Olha quem! E a perguntar cujo é! Cujo há de ser o anjo do céu, rico Serafim da tribuna do Deus menino! Cujo há de ser, homem, senão daquela santa em corpo e alma, digna afilhada da mais santa madrinha que tem o céu, depois da Virgem Nossa Senhora... E não desmerecendo na bem-aventurada senhora Santa Isabel, mãe do Batista, que a própria Virgem a foi visitar a sua casa, e ambas com os seus benditos ventres para cada hora... Que o precursor se pôs de joelhos (lá diz o Evangelho) dentro das entranhas de sua benta mãe, e disse: “eu te adoro e te arreverencio, porque és o Verbo: Verbum caro fato es...”
_ Oh! Mulher, oh! Mulher, por quantos santos há no céu, e na Sé, calai-vos já em nome de Deus, que me mata e ensurdece, e falta o fôlego... De ouvir o fôlego que tendes. Que criança é esta, Gertrudes?
_ É filha de Aninhas, da triste mulher do ourives ali defronte.
_ Ah! E então como dizem que esta noite?... Não pode ser. Já lá foram a casa da vizinha?
_ Não haviam de ir? Foram, e o que lá se achou de coisa viva, foi este inocente sozinho e desamparado, e o gato branco de Aninhas que folgava com ele.
_ Então é verdade?
_ É verdade, sim, meu pai. E foi ele, foi ele: voou meter as mãos no fogo por que foi ele, o infame, aquele amaldiçoado de Deus, que, em nome de Deus, nos anda deitando bênçãos pelas ruas, como se... e Jesus!... Não houvesse raio de Deus para estes malvados, nem...
_ Gertrudes, Gertrudes, lembra-te o que ainda agora te disse, filha. Bom é ser a gente boa, bom é sentir as injúrias do próximo... Mas primeiro está a prudência, filha, que senhores e prelados podem muito.
_ Oh meu pai, quem quer viver no temor e respeito dos maiorais, não devia aceitar o carrego de punir e zelar pelos pequenos!
As teorias sociais de mestre Martim Rodrigues e de seu digno colega caíram diante desta singular argumentação da cândida Gertrudes. Como quase todas as teorias sofisticadas do nosso tempo, e de todos os tempos, elas são feitas à semelhança do gigante assírio: uma pedra, lançada da funda do inocente que peleja em lisura e verdade diante de Deus, as prosta mortas e estateladas no chão.
Os dois graves senadores calaram-se: não sabiam, não tinham que responder.
E Martim Rodrigues bendisse a palradora língua de Briolanja que o veio tirar de apertos com a sua perpétua serra-madeira-de-carpinteira, que, em a deixando, era de nunca mais acabar.
_ Ai! Filha, apelo eu! Pelo que vejo e vos ouço, quer-me parecer que também vós... Ai! Nome de Deus! Jesus venha à minha alma!... Vai-te para as areias gordas, tentação de mau demônio praguento!... Também vós, Gertrudinhas! Ele era o que faltava. Não ouvirei eu ora mais com estes ouvidos pecadores que a terra há de comer!... E na capela seja da Senhora da Silva, e ali fique eu quieta e descansada, sem que me toquem nem cabelo da cabeça até o dia da ressureição da carne em que lhes farei figas a todos os demos tentadores... Eu e tu, filha, e mestre Martim Também, e todos nós, todos os remidos daquele sangue que é sangue, e é vida eterna, amém Jesus!... Mas tal me não direis vós, filha Gertrudes; não me digais tal, que já estive para esgadanhar a cara a um excomungado de um aprendiz de caldeireiro... Ou latoeiro seria, que é mais ruim raça aquela... Os nossos caldeireiros são gente de outra criação e mais brandura. Pois não me quês dizer o maldito... Abrenúncio de Satanás! Vai-te para as profundezas de tua terra maldita!... Pois não me quis dizer que era... Ai Senhor!... Que era coisa do paço...
_ E daí é, tia Briolanja, em mal que pese a Deus... Que Satanás folgará, por mais que o praguejeis vós aí. Esta noite teve ela folgança e festança de missa nova... Antes velha; que o desamparado de Deus bem velho é já para se meter com raparigas da sorte e primor da minha Aninhas... Ai pobre Aninhas!
_ Pois sempre ele será verdade? Ai terra que me não cobres, ai ouvidos que vos não fechais para tal não ouvir, ai olhos que não cegais para tal não ver! Santo Deus de Israel, que deve de estar perto do dia de Juízo! Aninhas... Aninhas, a filhada da minha senhora Sant’Ana, que lhe acendia a alâmpada todas as noites, que lhe rezava todos os dias!... Aninhas, aquele anjo de lindeza e de bondade!... Ai, o que há de ser de nós pecadoras! Ai, mestre Martim Rodrigues, que amanhã são capazes de me vir buscar a mim também!...
Com toda a sua oficial gravidade, eno meio da sua grande entalação, mestre Martim não teve em si que se não risse; a seriedade do colega desmanchou-se a acompanha-lo na mesma risada; e a própria Gertrudes mal pode apertar os sues pudibundos beiços de donzela para não soltar uma boa gargalhada com os receios da tímida Briolanja.
Mas já nestas desultórias conversações se tinha passado muito tempo, tanto tempo como leva uma daquelas proverbiais questões de ordem de São Bento, que engolem o espaço sem tocar na matéria... E o ministério pede votos, votos! E acabou-se. Resolveu-se tudo sem se decidir nada.
A diferença esteve agora em que desta vez quem pediu os votos foi... o povo; coisa que ele raramente faz, mas quando o faz, tem que se lhe diga...
A émeute tinha esperado pacientemente que os magistrados consultassem, à sua vontade e puridade, do negócio que a todos interessava. Mas esperou, esperou; e não vendo resolução, enfadou-se.
_ Aos paços da Sé, aos paços da Sé! E o nosso juiz que nos venha capitanear, como é de sua honra e obrigação.
_ Aos paços da Sé!
_ Queremos que nos entreguem Aninhas, e já.
_ Já, sem mais detença.
_ E Pêro Cão para o enforcarmos numa figueira de Judas.
_ Não: no arco da portagem.
_ Ah! Ah! Ah!
_ Bem dito! E com a breca todas as portagens e portageiros.
_ Não queremos mais portagem, nem dízima.
_ Não queremos.
_ Não queremos pagar mais.
_ Nada! Não se paga aqui mais nada: não queremos.
_ Os cônegos que trabalhem, se querem comer.
_ E o bispo que vá para Roma, a ver se o padre santo lhe pode dar absolvição, que o não queremos nós cá.
_ Os burgueses do Porto querem bispo com temor de Deus e amor do seu povo.
_ El-rei que nos dê outro.
_ Ainda que seja preto como o bom de D. Soleima que D Afonso Henriques deu aos de Coimbra.
_ E mais, foi bem bom bispo o negro: dizem.
_ Está bem de ver: bispo negro, missa branca.
_ Ah! Ah! Ah!
_ Este é branco, e diz missa negra.
_ Como negra tem a alma, o cão.
_ Cão de bispo! Tu e teu Pêro Cão hoje o pagarão.
_ A ele! Vamos a ele!
E os caldeireiros batiam nos arames estridentes seu infernal rebate. A algazarra, a vozeria, as risadas ferozes e descompostas, a alegria terrível da multidão que se prepara para o festim da carnagem... O profundo revolver das tremendas iras populares, formava tudo medonha consonância: era uma seqüência infernal cantada pelas vozes discordantes dos demônios... Os dies irae que se há de entoar no abismo à véspera do terrível dia do Juízo final.
_ Que lhe diremos, que lhe faremos nós? – dizia, titubeando, o aterrado Martim Rodrigues para o outro conscrito do senado portuense.
_ Que assosseguem, que esperem; que nós vamos ao paço, e veremos... E faremos por que sejam desagravados.
_ Sim, sim; esse é aviso de acerto e de prudência.
_ Por que lho não ides vós dizer, compadre Gil Eanes, vós que sois o mais bem falante homem da comuna?
_ eu compadre! Eu, verdade seja, devia ter sobre esta desatentada gente a influência que os meus serviços, os meus... Ide vós porém, ide que eu...
_ Vós tendes medo.
_ Não é medo, é que nestas ocasiões de distúrbio...
Sorriu-se, e chegou à janela o honesto Martim, e começou perorando às virtuosas massas como homem que não sabia bem o que dizia, nem por que, nem a quem. O que ela sabia bem era o que fazia... Que era coisa nenhuma.
Enfim lá lhe foi acudindo a musa, e por entre as anfractuosidades oratórias, como de um secretário de Estado defendendo as verbas do orçamento que ele bem sabe que se comem, mas não sabe quem, nem para que, lá foi conseguindo o digno magistrado fazer entender às turbas que ia descer abaixo, tomar informações... E que, se preciso fosse, iria ao paço.
_ Pois abaixo, abaixo, e vamos! – respondeu a vozeria das turbas.
E os dois varões senatórios desceram as escadas de Martim Rodrigues com a mesma vontade e apetite com que subiriam as da forca.
Enquanto, desde a primeira manhã, se iam passando estas coisas junto ao memorável arco de Sant’Ana, onde o forte braço popular se levantava em convulsiva energia, apesar da tibieza, da prudência, ou da fraqueza dos magistrados e escolhidos defensores... outras mui diversas e extraordinárias cenas se passavam entre os representantes da oligarquia eclesiástica a quem, para salvação de sua alma, a boa rainha D. Tareja tinha entregue para todo o sempre a muito nobre e sempre leal cidade do Porto.
De uma das altas grimpas do antigo templo, o sino tocava preguiçosamente a laudes: e os cônegos, mal descansados do primeiro trabalho das matinas, que os havia despertado antes d’alva, acudiam mais preguiçosamente ainda às segundas preces do dia.
_ Se não fosse o rabujento do ponteiro – dizia um cônego moço com um bocejo que lhe abriu a boca até as orelhas: - má hora que eu viesse aqui hoje outra vez! E o nosso bispo a dormir regaladamente nas suas almofadas de pluma, enquanto a gente...
_ Deixai-o, deixai-o: não lhe queirais o descanso que ele hoje há de ter – tornava um pobre velho capitular que ai arrastando, com quanta pressa podia, o trambolho de uma perna reumática.
_ Pois que! Permitirá Deus enfim que alguma vez lhe cheguem os incômodos deste mundo! Que sabeis vós dele, vós que tudo sabeis, arcediago Paio Guterres?
_ Não sei nada, não sei nada, Afonso Peres. O que for soará, o que for soará. Vamos que hoje é dia de São Marcos, e o caminho da procissão tem de ser comprido.
_ Se virá o bispo à mais antiga e mais respeitável festividade da nossa igreja?
_ Pois não há de vir, homem? Dia de São Marcos, do fundador desta nossa igreja portugalense – que foi o santo evangelista - deixai falar de Basílios e Basileus, e da sua Sé de Miragaia. Miragaia era um triste burgo, quando já Gaia era cidade romana, e nela foi nossa primeira Sé. Por memória disso lá vamos hoje além do rio à capela do santo onde essa era. Vedes vós? E ali incensamos o bom povo da antiga Cale e lhe dizemos: “Boa gente, boa gente.”
_ Assim será. Mas boa gente os de Gaia e Vila-Nova que são os inimigos naturais da nossa santa Sé, e nos roubam meio rio pelo menos!
_ Deixai isso, deixai.
_ Deixo, deixo; mas é heresia pensar o contrário. Lá estão as bulas no censual. Vamos adiante. Bem sei que homem sois, a indulgência cristã em pessoa, meu bom Paio Guterres. Mal vos escolheram para nosso vigário e penitenciário: sereis um passa-culpas...
_ Folguemos com o que é folgar, mancebo!... Dizei-me cá: se nos terão posto um jantar que se coma, a boa gente da banda de além, ou se teremos de ir escorregando por esse Codeçal abaixo, passar o rio, visitar o bom São Marcos em jejum, cantar-lhe o Boa gente, boa gente, e se ainda em cima nos darão jantar de azevias e caramujos os mestres barqueiros de Gaia, que hão de guardar para si o sável, o capatão...
_ Capazes são eles disso e de mais. Não sabeis as figas que nos fazem os pescadores da outra banda, que não são sujeitos ao foral da cidade? – Mas vede lá: no paço ainda tudo fechado!
_ Deixai o paço, homem, e vamos à sacristia, que já dão as últimas badaladas do sino.
E soavam com efeito as últimas badaladas naquele dom-dom expirante e prolongado, que é como o derradeiro e moribundo arranco de bronze na agonia da momentânea vida que lhe imprimiu o movimento.
Eram em verdade sete horas bem dadas, e não se ouvia, nem via rumor de vida na parte alta ou nobre dos paços da Sé. Cavalheriços e estribeiros pensavam mulas e ginetes no largo alpendre; as vastas cozinhas recendiam com o cheiro confortativo da suculenta comezaina que volteava no espeto, ou palpitava no fervedouro das amplas marmitas. Mas nem Pêro Cão aparecera ainda para fazer conduzir o substancial almoço ao refeitório privado do pouco abstinente príncipe da igreja, nem antes disso se atreveria ninguém a servir no tinelo comum o inferior,mas não menos substancial, alimento dos fâmulos e clérigos de seu estado.
Dois franciscanos chegavam à porta do palácio; um, gordo, anafado e vermelhão, com um sorriso malicioso e contento que lhe brincava nas roscas da barba e das bochechas; o outro, cabisbaixo e humilde, verdadeiro tipo de leigarraz estúpido e servil: é Frei João da Arrifana e o seu companheiro. Desbarretaram-se moços e escudeiros ao valido e amigo íntimo do prelado.
_ A paz de Deus convosco, rapazes! Já por aqui apareceu hoje Pêro Cão, o nosso digno mordomo?
_ Inda ninguém lhe viu hoje a cara bendita, nosso padre. – O focinho excomungado – emendou, à parte, o estribeiro que respondera.
Fr. João impeliu, com o possante galgar das robustas pernas, a enorme barriga pela escada acima, aparentemente sem grande esforço nem canseira. Era a mais desembaraçada e valente gordura que ainda se desenvolveu debaixo do burel seráfico: não havia ali banha nem toucinho; era tudo músculo tuchado, de febra elástica, potente e cheia de vida: há gorduras assim, Pichéis da Bairrada e cansatras de Lamego tinham muita parte na construção daquela sólida e bem arcada máquina que podia servir de modelo ao Hércules Farnésio.