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O ARCO DE SANTANA

Seguia-o a custo seu mais leve e desembaraçado companheiro.

Chegaram à antecâmara, agora sé e sem mais habitantes que o nosso antigo conhecido Rui Vaz o archeiro. Este tinha arrumado a ascuma a um canto, e passeava a largas passadas diante da ponderosa e repregada porta de castanho, murmurando entre dentes o que mais tinha sabor e jeito de juras e imprecações que das rezas devotas da manhã.

Fr. João não ouvia, ou fez que não ouvia, o praguejar do archeiro, e disse com suavidade franciscana:

_ Paz seja nesta casa, e a bênção de nosso padre São Francisco a todos os morantes nela... mui particularmente ao nosso bom Rui Vaz...

_ Paz nesta casa? Seja; e em quem a pode ter aqui. Amém. Nanja eu; que Satanás seja à minha alma, se desta hora já me não vou daqui para onde nunca mais me apareçam frades nem clérigos, nem... nem o próprio Satanás na figura deles. Amém, e re-amém para sempre!

_ Que ruim bicho vos mordeu, Rui Vaz? Maus trasgos há nesta santa casa?

_ Santa!

_ Ou duendes malignos que voa andaram de noite com a cabeça às voltas? Precisais bento.

_ Bento preciso; e a excomunhão levantada com boas varas de marmelo e estola preta... E água da pia qu’o farte, ao demo que eu tenho em mim! Tenho, tenho!

_ Abrenúncio, homem!

_ dizei, dizei; e vade-retro, vai-te para as profundezas!... a ver se me sai Belzebu desta casa.

_ Pois que sucedeu, homem? Falai já, que me tendes em susto.

_ Em susto vós, mestre Fr. João! Ele pode ser... Deus fale à minha alma!... Ele pode ser que vós não saibais nem sejais parte nas malezas do inferno que por aqui vão... Ah excomungado Pêro Cão! No focinho daquele maldito alão negro anda a maldade toda: não duvido. Ora sabei, padre Fr. João, que eu bem no supunha, bem no esperava; mas parecia-me impossível, sempre me parecia impossível que viesse a acontecer. Pois aconteceu... e foi esta noite.

O frade mudou de cor e de tom: e como homem que deseja e teme saber, mas quase que sabe já, a novidade que lhe vão dar, disse:

_ Então o que sucedeu esta noite?

_ Que a trouxeram ai em braços, presa e com mordaças na boca... Jesus, senhor Deus! E para que? A coitada não via nem sentia, vinha desmaiada dos tratos dos fariseus.

_ Quais fariseus homem? Estais sonhando, Rui Vaz.

_ Fariseus! Mais fariseus que os dos fogaréus na procissão de quinta-feira maior. Oh santo Cristo! E lá a levaram a pobre da Aninhas...

_ Aninhas!

_ Sim, Aninhas, a mulher de Afonso de Campanha, a Aninhas do Arco de Sant’Ana.

_ Ah! Prenderam uma mulher, pelo que vejo. Ao aljube a levariam. Não admira: há tantas mulheres más nesta terra em dias de hoje...

_ Má aquela, mestre Fr. João? Tão boa fora a minha alma! – Por não dizer a tua, frade maldito!

A última parte da jaculatória foi dita em à parte, que, segundo é sabido e aceito, fica em segredo entre o ator que o diz e os espectadores que o ouvem; e não pode ouvir ninguém mais esteja em cena... Tirado o ponto no seu buraco.

Fr. João respondeu pois à primeira parte da fala antecedente como bom ator que não ouviu o à parte, e conforme as leis cênicas:

_ Ora vamos ver o que isso é, Rui Vaz. Deus o fará pelo melhor.

_ E o diabo, cujo és, te ampare! – disse o bom do archeiro nas costas do frade, que penetrou, sem mais cerimônia, nos secretos penetrais do Dalai-Lama tripeiro.

XIV

O Gabinete de sua Excelência

Deixemos o honesto Rui Vaz exalar em inúteis imprecações a sua santa cólera, e sigamos Padre Mestre Arrifana ao refeitório particular onde entrou, e daí a outra câmara, e outra, até chegar à própria parte do gabinete que nós diremos em frase vulgar, e traduzindo na língua corrente de hoje, o gabinete particular de sua excelência.

A um toque simbólico, e dado por mão de iniciado que penetra em recinto defeso a profanos, respondeu de dentro um voz conhecida:

_ Entrai, Fr. João, entrai.

Fr. João entrou.

O bispo, em toda a majestade de seus hábitos pontifícios, estava diante dele.

Sobre o longo manto de púrpura, que arrastava no pavimento sua cauda imensa, assentava a muraça de arminhos quase reais. A cruz de pedraria resplandecente que lhe ornava o peito, as luvas bordadas, o anel brilhante, o barrete na mão, tudo indicava que o príncipe da igreja se preparava a ir aparecer como tal, em todas as pompas do sólio, diante do seu povo.

Fr. João pasmava e mirava o bispo dos pés à cabeça, como homem que lhe custa a crer o que vê, e se não atreve a dizer o que sente.

O prelado sorriu com um ar digno e reservado:

_ Diriam que nunca nos viste em nossos hábitos episcopais, Mestre Fr. João, ao espanto com que nos estais contemplando. E todavia, venerável irmão, este é o nosso mais próprio vestir, segundo a apostólica missão que temos do divino Pastor e de seu vigário na terra, por cuja mercê temos o báculo e o anel para reger e governar, não por investidura profana de nenhum poder secular que não reconhecemos, e havemos por vazio e nenhum em quanto a nós e à nossa autoridade é tocante.

_ Certamente, certamente...

_ E assim vamos hoje à nossa festa e ladainhas de São Marcos, e apareceremos, na plenitude da suprema autoridade eclesiástica, ao nosso bom povo, que há muito não vê o seu pastor revestido assim das insígnias desta autoridade que não tem superior na terra, se não é a santa cadeira de Pedro em Roma, diante da qual nos inclinamos, e a outro poder não...

Mal proferira o orgulhoso e ultramontano prelado estas últimas palavras, ouviu-se um confuso, mas tremendo som de muitos brados que estalou de repente – e tornava, e recrescia, e se aproximava, e não parecia já muito longe.

Era o poder popular que proclamava, na rua de Sant’Ana, a sua curta sempre, mas terrível e incontrastável investidura.

_ Que será isto?...

_ Motim do povo? Não pode ser. Porque?... Só se... Agora o saberemos, que sinto os passos de Pêro Cão. – Saí vós, André Furtado – continuou o bispo para o camareiro que o vestira: - deixa-nos em paz, que não preciso mais de vós aqui. Os archeiros que estejam prontos; e os fâmulos que vão avisar o nosso que nos venha buscar segundo é teúdo.

Ficaram sós um momento o bispo e o frade; e os olhos com que se olharam, as perguntas e respostas que naquele só olhar se deram e fizeram em menos dum momento... Não há língua que as descreva.

Pêro Cão entrou logo.

O terror, o susto, um reflexo das angustiadas desesperações do inferno crispava medonhamente as ignóbeis feições do almudeiro.

_ O povo... – exclamou Pêro Cão – o povo!

_ Que tem o povo?

_ Está... está levantado.

_ Por que? Que lhes fizeram?... Alguma das vossas, Pêro Cão...

_ Das minhas, senhor!

_ Das vossas. Pois que outra coisa amotinaria este leal, paciente e bom povo da nossa cidade, se não for alguma vexação nova que lhe vós fizeste? Apertais demais, muito demais às vezes, o torniquete fiscal, meu pobre Pêro. Os pescadores queixam-se, as regateiras ralham, até já os flamengos furtam ao peso dos queijos com medo da portagem... Olhai, Pêro Cão, mugis-me muito a vaca, muito demais... E eu não quero sangue no tarro.

_ Senhor, senhor!... Eu mujo a vaca... E os flamengos... E o tarro com sangue!... Sangue! E o meu sangue é o que eles querem, os desmandados, o ruim populacho que aí se está a juntar mais basto do que bando de sardinhas em Ovar. Mas fale Deus à minha alma... Ou o diabo, cuja ela é já agora... Dai-me perdão que não sei o que digo.

_ Não sabeis, não.

_ Não sei, não sei; é verdade: mas sei que não é a sisa nem a dízima, nem a portagem que amotinou aí esse povo agora. É que souberam... É que adivinharam... Ou o diabo, que me ajudou, lho disse...

_ O que Pêro Cão?

_ O que eu fiz esta noite por vossa ordem.

_ Ah! – disse o bispo, e olhou para Fr. João, que se fez verde, vermelho, amarelo, negro... Um arco íris vacilante e cambiante de todas as cores do medo.

Segui-se um silêncio breve mas profundo.

Um estampido de brados, mais feroz e mais perto já, detonou no ar como trovão de tempestade que se aproxima.

_ Onde está a mal-aventurada? – balbuciou Fr. João – Pode ser que ainda tenhamos tempo de...

O bispo revestiu-se de uma gravidade tão serena que espantou e confundiu os seus trêmulos agentes e conselheiros; e respondeu friamente:

_ A mulher que fizemos conduzir a noite passada ao nosso aljube, por boas e fundadas razões que para isso houvemos, veio esta manhã a perguntas, e está na câmara particular do nosso despacho. Dali voltará para onde veio. Tomai as chaves, Fr. João, e tornai essa mulher às enxovias, donde não sairá senão quando à nossa justiça prouver. Ireis pela passagem secreta.

_ Justiça! Justiça! Justiça Del-rei D. Pedro!

_ E a do povo!

_ Morra Pêro Cão!

_ Aninhas, Aninhas!

_ Ao diabo portagens e portageiros!

_ O nosso foral, o foral da sentença de são Jorge!

_ Que dizem eles?

_ Bradam por...

_ Por el-rei?... Coitados!... E por essa párvoa sentença que lá deram no mosteiro de são Jorge e que meus antecessores tiveram a fraqueza de aceitar?... O ra pois: é um negócio de poucos maravedis que depressa se pode compor. Ide vós, Fr. João, e fazei como vos hei dito. Pêro Cão, os meus archeiros, os meus clérigos. Que venham e me sigam; o reverendo cabido há de estar à porta.

XV

“ Ecce Sacerdos Magnus”

O bispo saiu: na imediata câmara estava a família e séqüito episcopal. O caudatário tomou a longa cauda de púrpura no braço; e o prelado marchou alto e direito pela longa fieira de câmaras e salões da vasta residência. Mudos e pasmados seguiam os clérigos; os archeiros caminhavam adiante. Assim desceram gravemente a escada, e pararam no vestíbulo da porta principal.

Um espetáculo grandioso se oferecia naquele momento à vista em o pequeno largo, ou plaçuela, que fecham dum lado o frontispício da antiga Sé, à sua esquerda os paços do bispo, defronte da catedral as pequenas casas, ocupadas provavelmente então, assim como hoje, por vários membros do seu clero, e à direita o elevado terraço donde descem as escadarias que levam a São Sebastião e a todo o segundo socalco, para assim dizer, da antiga e empinada cidade, cujas ruas e casas direis que se precipitaram desde o alto pináculo da sé até onde é a Porta Nobre e últimas abas do monte ao pé do rio.

O espetáculo era verdadeiramente grandioso e magnífico, e digno dos pincéis de Cláudio Coelho ou de outro grande eternizador das fastuosas grandezas do culto.

À porta do bispo os archeiros, tendo tomado a dianteira do cortejo, formavam duas alas cerradas que se estendiam numa curva quase diagonal, e iam tocar nos degraus do adro da Sé. O prelado, em toda a altivez e suntuosa grandeza da púrpura, a frente alta, a grande estatura direita, era rodeado de seus clérigos e ovençais, de um imenso acompanhamento secular e eclesiástico. Da igreja, ao som estridente e solene do órgão, saía o majestoso clamor da antífona: Ecce sacerdos magnus secundum ordinem Melchisedech. E o cabido, presidido pelo deão com o bento hissope na destra, desfilava em longa e grave coluna, com seus capelos roxos e mantos pretos, arrastando as longas caudas pelas lajes sepulcrais do adro.

O deão chegava ao pé do bispo, e inclinava-se a beijar-lhe o anel antes de lhe entregar o hissope, quando pela pequena rua que vem dos antigos paços do conselho desembocar defronte da porta principal da Sé um tropel imenso de passos, de gritos, de tinir de armas, um estupendo charivari de caldeiras e de toda a sorte de vasos de arame, rebentou descompassadamente no pequeno largo... E logo um golpe de muitos centenares de homens do povo, de regateiras da Foz, de padeiras de Avintes e de Valongo, correndo e vozeando com estupenda grita:

_ Justiça, justiça Del-rei D. Pedro!

_ O nosso foral!... Queremos o nosso foral! A sentença de São Jorge!

_ Aninhas, Aninhas!

_ Morra Pêro Cão!

Todos estes brados que aqui explicamos distintamente, soavam confusos no ar, e tão implicados como, se é licita a expressão, as emaranhadas madeixas de uma trança de fúria – como as diversas línguas de uma mesma flama que só se farpam na extremidade, mas sobem em um corpo aos ares.

Os cônegos recuaram em desordem: o deão largou o hissope bento no meio do chão... Quis erguer-se... Caiu de joelhos diante do bispo, e ficou, como um deus egípcio, sentado sobre os próprios talares; mas, em vez de colocar gravemente as mãos nos joelhos, como o seu tipo hieroglífico, ficaram-lhe esbandalhadas para trás e pendentes. Os archeiros desordenadamente romperam a forma; tal houve que largou a ascuma e fugiu para o sagrado da Sé...

O bispo ficou impassível, ereto, grande e quieto, no meio do alvoroto e desmaio geral!

A torrente da plebe enfurecida parou, involuntariamente respeitosa, diante daquela impassibilidade.

Fez-se um grande silêncio.

Os populares olharam uns para os outros inquietos: a vista direita e segura do bispo fascinava-os. Foi um alívio verem chegar os seus magistrados que, impelidos pela multidão, não tinham enfim remédio senão aparecer na presença do bispo.

_ Mestre Martim Rodrigues, mestre Martim Rodrigues! O nosso juiz, o nosso juiz!

_ Mestre Martim Rodrigues que fale por nós!

Os doutos edis portugalenses desbarretados, coçando a cabeça, metendo as mãos pelo barrete e o barrete pelas mangas... e, olho no povo, olho no bispo, olho no chão, não sabiam o que fazer de si, muito menos o que dizer.

Estavam no que a moderna língua de hoje diz, “uma falsa posição”; em que se não pode estar muito tempo, e de que o mais acanhado e lerdo procura sair quanto antes e seja como for, porque enfim não é posição em que se esteja.

Os padres conscritos caminhavam para o prelado em passo desmanchado e lento: e, sem saber mais nem melhor que fazer, ajoelharam... O bispo estendeu tranqüilamente a mão e ofereceu o anel ao devoto ósculo municipal.

Todavia os órgãos legítimos da opinião popular não davam o mais leve ronquido... E não era falta de fole! Assaz lhe tinha assoprado às orelhas o bradar do povo justamente enfurecido.

Um sorriso quase perceptível mas de expressão imensa... Vislumbrou rapidamente nas feições do altivo príncipe da igreja.

_ Erguei-vos! – disse o bispo com afetada complacência, - erguei-vos, senhores juízes. O que quer, o que deseja esta boa gente em cujo nome me parece que vindes?

_ Trazidos... Obrigados por eles, senhor bispo – acudiu ansiosamente Martim Rodrigues, e repetiu Gil Eanes com não menos ânsia.

_ Bem, bem: para falardes por eles e procurar por suas coisas, vos nomeou e elegeu este bom povo. É vossa obrigação faze-lo. Praz-me de os ver guardar e usar tão bom termo. O que se pretende de nós, e que quer o nosso povo, senhor juiz?

_ Saberá vossa ilustre reverência, que este povo está... Está amotinado...

_ Não vejo eu isso, homem. Antes bem pacíficos e quedos os vejo, aguardando que ponhais vós por eles seu pleito, e exponhais o agravo... se é que o tem...

_ Senhor, começou isto com a má vontade que há na terra contra um oficial vosso, senhor...

_ Pêro Cão? Sei que agravou o povo. Há de ser castigado: merece-o. Tem feito demasias na portagem, e abusado de nossa autoridade, que é toda paternall, e menos de senhor para vassalos, que de pastor que somos e queremos ser para nossas ovelhas. Justiça será feita no vilão.

_ Viva o nosso bispo! Gritou uma voz.

_ Viva o nosso bispo! Responderam umas cem vozes talvez.

Mas um sussurro duvidoso e dubitativo fez eco a esta primeira expressão de reviramento... Da reação que, nas grandes crises, tantas vezes desanda de repente do clímax da irritação popular para os mais opostos e inesperáveis sentimentos.

O bispo continuou:

_ Disto ficai certos; e segurai-o. Em nosso nome, a esta boa gente. Mas, vedes, o nosso espera: e temos de ir longe, como sabeis, com as ladainhas à igreja do evangelista. Voltai pela sesta, e falaremos. – Vamos, meus reverendos irmãos. Porteiro da maça, guiai o préstito. Archeiros, fazei o vosso ofício.

E o porteiro levantou a maça, e marchou; os archeiros, fazei o vosso ofício.

E o porteiro levantou a maça, e marchou; os archeiros, já mais compostos, arredaram com tento a multidão, que cedeu sem violência: e o bispo precedido do seu cabido caminhou a passo grave mas seguro para a porta da catedral. Os sinos tangeram, o órgão levantou a sua voz solene... E as abobadas antigas do vasto templo ecoaram de novo com o – Ecce sacerdos magnus secundum ordinem Melchisedech.

XVI

As Ladainhas

E o povo e a sua tremenda fúria e o seu poder irresistível e formidável?

Parecia ter-se evaporado tudo com a primeira e terrível explosão de brados em que o tumulto se declarara. Ouvia-se apenas um murmurar disperso aqui e ali por alguns grupos. No geral, uns pasmavam sem dizer nada, outros destomavam pelas portas laterais para entrar na Sé; o maior número estava imóvel, sem ação. Caíra naquele estado paralítico que sucede às grandes irritações. Não se podia dizer dissipado, mas era quebrado o tumulto.

De repente uma voz aguda e estridente rompeu da multidão:

_ Aninhas, Aninhas!

Um rufar de caldeiras e de arames de toda aa sorte, tim,tim,tim, respondeu com infernal dissonância àquele grito agudo: a assuada recobrou toda a vida febril e temulenta de sua primeira nascença

Brados, uivos, imprecações, clamores e gritos espantosos deram fé que o braço popular, entorpecido um momento pelo magnetismo da autoridade e sangue frio do bispo, tornava a levantar-se mais irritado e tremendo.

Tudo isso foi obra de um instante. E o bispo, alerta sempre e sem perder a compostura do ânimo e do corpo, viu o perigo em que estava, apressou o passo, deu ordens rapidamente aos seus, e entrou na igreja. Ao mesmo tempo as portas da sé e as do paço se fecharam sobre o povo.

Mestre Martim Rodrigues e seus dignos colegas tinham entrado com o préstito na igreja.

O povo ficou só, único senhor e possuidor do pequeno largo da Sé, e de o estrurgir com seus clamores e berreiros à vontade.

O povo gritava e bradava, e fazia uma bulha insuportável: o motim renascia e recrudescia... de repente a janela de alta empena e vidros multicores que está sobre a porta principal, e olha, como em todas as catedrais antigas, para o ocidente, abriu-se de par em par: Martim Rodrigues e o seu colega, enfiados, trêmulos, os olhos esgazeados, apareceram no grande balcão de donde se publicavam e liam ao povo as bulas, indulgências, excomunhões e todos os grandes atos do poder eclesiástico e civil que na nossa terra do Porto era um quase e indistinto, como todos sabem.

_ Silêncio! – bradou uma voz sobre todas as outras dentre a multidão. – Silêncio! Ouçamos o que diz o nosso juiz.

Fez-se profundo silêncio nas turbas.

Gil Eanes deu sinal que ia falar. O povo assustou-se e tremeu com a ameaça daquela avalancha de palavras que o esperava. O nobre orador, segundo hoje se chama ao maior vilão ruim e mais ludroso calça de couro que se atreve a abrir a boca diante de gente, o nobre orador disse:

_ Meus bons amigos e honrados compatriotas...

_ Bom, bom! Isso é outro modo de falar.

_ Ah, ah! Já nos tratam de honrados...

_ Silêncio! Ouçam.

Tornou-se a fazer grande silêncio.

_ Ouvi-me, bom povo, e sabereis grandes coisas, amigos. O nosso venerável prelado e pastor, o nosso senhor e bispo...

_ Barrabás, Barrabás!

_ Não sou, meus amigos, não sou. Escutai-me.

_ Pedras ao traidor! Acabemos com o Judas que nos vendeu!

_ Ouvi-me, ouvi-me, por Deus que está no céu, e ficareis satisfeitos.

_ Ouçam, ouçam.

_ O nosso bispo e o nosso cabido tem de ir hoje a São Marcos de além do douro.

_ Não, não enquanto justiça não for feita.

_ Não: São Marcos é pelo povo.

_ Grande santo São Marcos evangelista! Nós estamos pela lei de Deus; queremos que se cumpra a lei de Deus. E justiça Del-rei D. Pedro nos valha!... Que antes São Marcos fique sem festa nem procissão, do que lha façam em pecado mortal esses iscariotes.

_ Justiça tereis, boa gente: ouvide. Pêro Cão!

_ Enforcado Pêro cão!

_ Morra, Pêro cão!

_ Morra, morra!

_ Não morra: queremos come-lo vivo.

_ Vivo não; é muito duro.

_ Assado e de molho de vilão, o vilão!... Como el-rei comeu o coellho...

_ O coelho que lhe matou a amiga.

_ Dobra a língua, bruto: a mulher.

_ Pois a mulher: seja. Contanto que o cão vá pelo caminho do coelho.

_ O cão atrás do coelho é razão natural.

_ Ah! Ah! Ah! Ah!

_ Tem razão, bem dito. Venha o cão, morra o cão!

_ Morra Pêro Cão!

_ Morra, morra.

O aturdido orador do alto da sua tribuna emparvecia de susto e confusão. Martim Rodrigues, que não estava muito melhor, mas que, porquanto não era tão papelão como ele, não perdia tão completamente a tramontana, Martim Rodrigues deu-lhe ânimo o excesso do medo, empurrou da varanda o estonteado colega, e bradou agitado da mesma agitação que o rodeava:

_ Seja feito como quereis. Pêro Cão é um enredador, um tredor. O nosso bom prelado o manda entregar nas vossas mãos para que façais nele segundo a vossa vontade.

_ Viva o nosso bispo, e morra Pêro Cão!

Outra vez se abrandava o tumulto; e outra vez surdiu, dentre as turbas quase aquietadas, a mesma voz estridente e magnética:

_ E Aninhas, Aninhas!

Começava-se a irritar de novo a sanha popular; Martim Rodrigues perdeu de novo a cabeça. Como homem que não sabe o que há de responder, e que vê todavia a necessidade de um resposta peremptória, olhava para todos os lados, engolia em seco, fazia gesto de quem ia falar... Mas ficava.

Em que pararia esta pasmosa cena do povo portuense com os seus magistrados, não é possível imagina-lo: grandes desgraças iam acontecer talvez se, ao pé das rotundas e apatetadas figuras de Martim Rodrigues e de seu colega não fosse visto aparecer ao mesmo balcão o homem mais popular e o mais respeitado clérigo que havia na cidade por aqueles tempos. Era um ancião venerando, um daqueles raros homens que, no meio da maior corrução a Providência conserva sempre no mundo para que se não apague nunca de todo na terra a crença na virtude e a fé no poder do céu. Paio Guterres, o arcediago de Oliveira, vigário e penitenciário do bispado, verdadeiro ministro do altar, devoto sem hipocrisia, austero com suavidade, grave sem fasto, era honrado de todos, do próprio bispo que o detestava, do povo que o amava.

Apenas apareceu no balcão Paio Guterres, foi saudado por uma aclamação geral e entusiástica da multidão.

_ Meus filhos, sossegai, e ouvi-me.

Não se ouviu o menor sussurro. Ele continuou:

_ Aninhas, foi presa esta noite... à minha ordem.

Um rumor de espanto e de indizível assombro soou por toda aquela multidão.

_ Sim, à minha ordem. Está acusada de graves culpas... Deus permitirá que falsamente.

_ Falso! ... É falso. Aninhas é uma santa.

_ É, é uma santa, Aninhas.

_ Será: assim o espero. E hoje mesmo há de ser absolvida e posta em liberdade se assim for. Tende confiança em mim. Seu feito está em meu poder; sou eu que o hei de julgar. E eu... Responda da sua pessoa.

_ Ah! Então...

_ Ide, meus filhos: sossegai. São horas de sair a nossa procissão. Mostrai-vos bons cristãos e tementes a Deus; deixai-nos cumprir com os preceitos da igreja. Retirai-vos, meus filhos, com a benção de Deus.

_ E a vossa. Queremos a vossa benção.

_ Em nome do senhor de toda a justiça, do premiador e castigador eterno, do que julga os povos e reis, do que morreu por todos nós, e não mais por uns do que por outros! Meus filhos, eu vos abençôo: ide em paz.

A força de uma voz respeitada, no meio da efervescência popular, é um dos contínuos milagres que atestam o poder de Deus, e justificam da sua glória.

O tumulto sossegou e dissipou-se.

Dali a pouco as portas da catedral estavam abertas, e a procissão saía gravemente, entoando as ladainhas e preces públicas. O bispo, em todo o esplendor da pompa católica, seguia no coice da procissão. A mitra resplandecente carregava-lhe nas altivas rugas da testa; o braço parecia agitado de leve tremor quando se abordava no báculo de ouro; mas o pé caminhava firme, e os olhos iam serenos no livro do cantor que o precedia.

Tomaram para a porta do Sol, desceram o íngreme Codeçal abaixo, e chegaram à escura margem do rio, cantando, rezando e invocando os mártires e os apóstolos, os confessores e as virgens que rogassem por nós!

XVII

A Procissão

Nestes prosaicos e minguados tempos em que nós vivemos, sabe Deus o que lhe custa à excelentíssima câmara municipal de Lisboa a ir a casa de Santo Antônio no seu dia, e à ilustríssima câmara municipal de Coimbra a ir pela festa da Rainha-Santa visitar a sua padroeira de além da ponte. O código administrativo não beatificou mais santos que Santa Urna, e os espíritos fortes do conselho são iconoclastas decididos, que fazem guerra a todas as velhas superstições daquelas desgraçadas e vergonhosas eras em que Portugal estava tão atrasado que apenas descobria a Índia, circunavegava e civilizava a África, povoava a América, escrevia as Décadas de barros, compunha os “Lusídas” de Camões, edificava Belém, e fazia outras soezes ninharias do mesmo jaez.

Pobre Portugal velho e relho, que não tinha agiotas nem lordes do tesouro, nem pontes pênsis nem garantias pênsis, nem barões, nem pedreiros-livres, e eras o escárnio da Europa que hoje pasma de te ver correr como um caranguejo por essa estrada da civilização fora!

Dancemos a polca, e via o progresso!

Inda assim: o progresso do nosso regresso, como diz aquele grande e coruscante orador nosso, cuja eloqüência, de parêntesis seja dito, também dança a polca.

Dançar, dançavam os cônegos do Porto, ainda em tempo de minha avó que o viu, e mo contava quando eu era pequeno: dançavam sim diante do altar de São Gonçalo no seu dia. E era uma devota dança hierática, segundo agora se diz em grego – que nós demos furiosamente em falar grego desde que o não sabemos. Que mandávamos os Teives e os Gouveias ensina-lo a Paris, falávamos português.

Pois dançavam é certo, dançavam os cônegos do Porto diante de São Gonçalo de Amarante, em trinta préstitos e procissões em que iam a muitos oragos e festas de vários santos e santas. E assim mesmo iam os outros cabidos e colegiadas do reino, que hoje nem ao coro vão; e mais, não tem nem sequer o código administrativo a que se apegar.

Entre as muitas festas processionais da nossa boa sé – me dizia um beneficiado velho que andou comigo ao colo, e era a mais santa a1lma de beneficiado que ainda houve – foi talvez a primeira a de são Marcos evangelista que os de Gaia ou Cale pretendiam ser o fundador da santa igreja potugalense, em oposição aos de Miragaia, que a queriam fundado por são Basileu na sua freguesia de São Pedro estra-muros.

Já na minha infância porém, e quando o meu velho beneficiado me enriquecia o espírito e a memória com estas tão interessantes e romanescas arqueologias, já a procissão das ladainhas de São Marcos não passava de São João-novo, e dali de ao pé da ermidinha da Esperança é que os cônegos, incensando para Gaia, cantavam o Boa gente, boa gente! Antífona em vulgar de que nunca pude saber a explicação nem pelo meu beneficiado nem por nenhum outro cronista oral ou escrito, dos muitos que tenho consultado.

O caso é que a cerimônia ainda assim se praticava em nossos dias, e que em eras mais remotas a procissão passava, como a descrevi, de além do douro, a ia à própria capelinha do santo cujas ruínas ainda hoje estão a meia encosta das ribanceiras de Gaia.

E devia ser razão bem ponderosa a que obrigava bispo e cônegos, os senhores da terra do Porto, a passar o rio, e a visitar essa gente de Gaia e Vila-nova que lhes não obedeciam nem pagavam tributo, e que, fortes da proteção real, lhes faziam acintes com a sua pesca livre, o seu comércio franco, e até com o monopólio do sal que tantas vezes lhes dava el-rei só para apoquentar os vassalos e homens do bispo, que eram todos os da cidade.

Fosse ela qual fosse a tal razão, e durasse a prática desde quando e até quando durasse, que o não sabemos ao certo; o certo é, e o sabemos, que ainda durava no tempo desta nossa história, pois aí vai chegando à margem do rio a solene procissão das ladainhas, e ressoando pelos cavos alcantis que lhe emparedam os precipitosos caudais, o sublime e plangente responsar do coro:

Ut nos exaudias!

Te rogamus, Audi nos!

Uma flotilha de saveiros com seus toldos embandeirados e ornados de festões de flores, seus conveses juncados de espadanas, está prolongada com a praia, e recebe a procissão a seu bordo.

As ladainhas não pararam, o canto não cessou: acompanha-o agora o remar certo e compassado dos barqueiros cujas vozes, roucas mas afinadas, se juntavam também ao clamor geral do coro, e bradavam com ele:

Te rogamus, Audi nos!

É impossível imaginar espetáculo mais solene e grandioso, do que esse que então ofereciam as águas e as margens do douro.

Toda a divina poesia da religião e da natureza, todo o pitoresco dos costumes feudais, toda a animação dos grandes ajuntamentos populares, se reuniam e se harmonizavam nesse quadro.

Um sol de primavera batia a prumo sobre águas, rochas e verduras. O ar estava sereno e tépido, o céu azul e transparente, a água corria mansa; de um lado e outro do rio a população da cidade e da vila, prolongada pelo brancos areais que se espelhavam com o sol, contemplava em religioso silêncio a marítima procissão que, em longa diagonal, ia cruzando o rio quase como se o descesse, pois é considerável a distância que vai donde hoje é a Porta Nobre, em que embarcara, até o desembarcadouro de Gaia onde foi ter.

Rio acima, as várzeas de Campanha, de Ramalde e de Avintes resplandeciam com as esmeraldas da jovem primavera; para a banda da Foz os ceiceirais de Val-de-Amores descaíam sobre a água como se ainda estivessem acoitando os traidores e vingativos barcos Del-rei Ramiro quando veio desde Galiza em busca da mulher que lhe tinha o mouro, porque ele tinha a irmã.

Esse Val-de-amores, que depois foi Val-de-Piedade quando os Capuchos aí fizeram seu convento e o beatificaram com o devoto nome que ainda tem – hoje... Oh triste, tristes tempos nossos! É Val de tanoeiros ou Val não sei de que, porque lhe fizeram da igreja um armazém, e da cerca tão viçosa e tão fresca. Algum mau campo de milho talvez.

Eu, ainda me lembra, e era bem pequenos, das tardes da trezena do santo em que aquela linda cerca parecia o jardim de Kesington ou o das Tulherias, de povoada que se fazia pelas mais belas e elegantes damas da cidade, por um concurso imenso de todas as classes e idades: naqueles treze dias o Val-de-Piedade tornava a ser o Val-de-Amores.

Seria o melhor passeio público que o Porto podia ter, e rivalizaria com os primeiros do mundo, se nisso o tivessem convertido. Venderam tudo por não sei quantos mil réis, mas poucos – e em títulos azuis, havia de ser.

Ex digito gigas: ninguém faz melhor a sua transição do antigo para o novo estado social, do que nós a fizemos. Juízo, gosto, proveito, tudo se juntou.

Tornemos à nossa história.

A procissão cantava:

Exaudi nos, domine!

E os saveiros abicavam nas praias de Gaia. Desembarcando e cantando prosseguiam nas ladainhas; e assim foram subindo até o principio da encosta que leva ao castelo, e onde a igreja ou ermida do santo era situada.

Todo o povo da vila e suas vizinhanças acompanhava, como em triunfo, e recebia quase como homenagem à sua independência, a visita do senhor bispo e do senhor cabido, tão senhores do outro dado do Douro – ali hóspedes, respeitados sem por seu caráter sagrado de eclesiásticos, mas sem autoridade nem poder civil de nenhuma espécie.

E contudo ajoelhavam, e o bispo abençoava; e o clero prosseguia cantando e o povo respondendo aos versos da ladainha... A religião do Crucificado á a religião da liberdade e da tolerância, não faz partido com nenhuns ódios e discórdias civis: os que dizem racca a seu irmão desobedecem aos preceitos do Cristo.

Via-se porém nas fisionomias dos vilnoveses não sei que expressão mais altiva do que o costume, mais animada – ao que parecia – pela consciência de sua liberdade e independência. Olhavam para o bispo com certo ar, seguiam os cônegos com tal desgarre, respondiam às preces com uma voz tão segura e folgada, que um amigo de semelhanças clássicas não duvidaria compara-los aos jovens e altivos concidadãos do filho de Réia Sílvia recebendo nos infantes muros de Roma uma procissão de sacerdotes albaneses que lhe trouxesse, em vassalagem, e para futuro paládio de sua grandeza, a cativa imagem de Vesta que já não tem que fazer em Alba-Longa.

A clerezia do Porto eram os albani patres, Gaia afetava as soberbas de alta moenia Romae.

Perdoai-me porém, ó veneráveis irmãos românticos, perdoai-me, que eu prometo não tornar a fazer a mais leve alusão às proscritas reminiscências do meu pobre velho latim...

Mas havia sem, havia o que quer que fosse extraordinário, que animava os independentes populares de Gaia e Vila-Nova. Eles seguiam todavia quietos e devotos a procissão; a assim chegaram todos à capela do santo onde entraram.

O bispo subiu ao seu trono; à volta dele, em círculo, os cônegos; e logo começou a missa com que se ia concluir a festa e rogações daquele dia.

Chegava já a missa ao ofertório, e a congregação de joelhos e inclinada comunicava devotamente no augusto mistério do Sacrifício que nos regenerou e fez livres, quando um mancebo elegantemente vestido mas todo coberto de pó, a afadigado ainda, ao que parecia, de caminhar longo e pressuroso, entrava, com algum disfarce, na igreja. Deitou um relance de olhos percrutador pela variada multidão que ali se juntara, e foi ajoelhar-se a um canto da igreja, detrás de dois homens de madura idade, cujo modo e trajo os inculcava pertencentes a uma como meia gradação entre burgueses e homens da plebe.

É essa espécie que os modernos Rabelais designam hoje pela tão característica denominação – l’épicier: espécie rara dantes, mas que atualmente constitui a maioria das grandes cidades, dos grandes focos de população civilizada.

Mole como a sua manteiga, estúpido como os seus macarrões, pateta como os seus chouriços, e rançoso como o toucinho que vende, o merceeiro – l’épicier – é o tipo dessa bastarda aristocracia da plebe que se propagou e cresceu tão numerosa, e cuja missão política é unicamente engolir as petas de todas as proclamações, dar consumo às sandices das gazetas dos governos, acreditar no sistema que felizmente nos rege, e por luminárias nos dias de gala.

Quando eram poucos, tinham a energia e as grandes aspirações de todas as classes que precisam viver fortemente para viverem, porque se não fiam na bruta segurança do número.

O recém-chegado ajoelhou, benzeu-se, e depois de breve oração, que provavelmente foi mental porque lhe não boliam os beiços, com a ponta da vara que trazia na mão, tocou levemente no ombro de um dos dois homens que lhe ficavam adiante. O homem voltou-se rapidamente, e encarando com o mancebo que assim o interpelava, exclamou em voz baixa:

_ Oh! Vós aqui!... Já?

_ Bem tarde me parece Amim. Vinde: saiamos para fora, que temos que falar.

_ Deixai acabar a missa.

_ Não: já. Viva Deus! Que entre a hóstia e o cálice, na própria presença d’Aquele que está no altar, te quisera eu dizer o que tenho a dizer-te... Mas não pode ser; vem.

_ Vamos. Meu irmão também?

_ Teu irmão?... Eu sei? Não tenho fé em teu irmão. Ele não era?...

_ Era sim; e eu também, por meus pecados. Pouco melhor que ele. Acudiu-nos Deus a ambos. Agora podeis falar diante dele como diante de mim.

_ Pois que venha.

Esta conversação breve, rápida, cochichada a ouvido e ouvido, não foi percebida de ninguém mais na igreja. Os dois populares e o jovem cavaleiro saíram, sem ser vistos, por uma porta lateral.

É tão fino e perspicaz o amável leitor, que, estou certo, já adivinhou quem era o mancebo...

Era sim, senhor, era o nosso estudante, o nosso Vasco. Os dois populares é que não adivinhou seguramente quem seriam.

Tenha a bondade de ler o seguinte, e lá lho diremos.

XVIII

Coalização

O mancebo caminhava silencioso adiante; no mesmo silêncio o seguiam os dois companheiros. De rua em rua, se aquilo são ruas – antes de beco em beco, ou mais exatamente de socalco em socalco, iam saltando pelos informes gradins do pouco esplêndido anfiteatro em que se encastela o triste lugarejo de Gaia.

Chegavam ao pé da romanesca fonte Del-rei Ramiro que, em seu gárrulo correr, vai ainda repetindo o palrear incessante da faladora Peronela, quando ali vinha do castelo buscar água para sua ama – e tardava, tardava, pela trela que dava, enquanto a infusa enchia e a senhora esperava... deixá-la esperar.

Passam essa fonte tão celebrada na tradição popular, passam a antiga casa que o povo apelida também de “Paço Del-rei Ramiro”, mas que visivelmente é uma construção do décimo quarto século, e que talvez fosse naquele tempo a residência dos ciosos reis de Portugal quando ali vinham quase ocultamente – aforrados, diria um purista – conspirar com o povo contra os bispos seus senhores. Conspiração permanente por mais de quatro séculos que os reis foram demagogos, porque precisavam do povo, para resistir primeiro, para destruir depois, a aristocracia eclesiástica e secular que tantos os pejava.

É comparativamente moderna a desinteligência dos reis com os povos. Foi necessária muita má fé, muita traição de coroados tribunos para desenganar o pobre do povo que tantos anos combateu por eles e quase só para eles, cuidando que para si combatia.

Depois da vitória, o leão fez a partilha do costume; e ainda em cima pos-se a devorar o sendeiro que o auxiliara...

Sendeiro que briga com um leão, mas que se deixa albardar depois como quem é...

Vasco, o nosso estudante, pois não há mister de mais mistérios – e perdoem-me o “mister” que aqui veio mais pela graça da aliteração do que por outra coisa: tão safado e sáfaro o trazem por aí os periódicos e os dramatistas, que ninguém já pode com ele! – Vasco, digo, o nosso estudante, tomou por uma estreita viela à esquerda da fonte; e, a poucos passos nela andados, entrou por uma porta baixa e aberta de que pendia tristemente o escuro e emblemático ramo de pinheiro.

Os outros dois entraram após ele.

Era uma taberna de pescadores, de marujos e azeméis. A taberna estava só, as estreitas e mal compostas mesas desertas. Sentaram-se os três a uma delas.

_ Um pixel do melhor! – disse Vasco.

E uma velha, com mais traça de bruxa que de taberneira, ergueu, da baixa lareira onde estava acocorada, a mal-azada cabeça, e tornou logo a descair no que podia ser sono ou letargo.

_ Um pixel, bruxa excomungada! Não ouves?

_ Bruxa, bruxa!... Já ouve bruxas em Gaia, que era a terra delas e sempre o foi. Hoje não há bruxas que valham, onde estão benzedeiras e rezandeiras que todo lo levam e todo lo comem... Má eira as colha!.. Que bruxas? Hum!

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