Em breves minutos estavam em baixo, à margem do rio. Apeou-se o cavaleiro, e tomando da rédea o cavalo, o fez entrar, sem receio nem sobressalto, para o primeiro saveiro que ali achou. Cruzaram as negras correntes do Douro, desembarcaram à Porta Nobre, e, cavalgando outra vez o mancebo, tomou para as alturas da Sé.
O povo quieto, mas animado ainda, andava aos magotes por aquelas Cangostas, Banharia e rua dos Caldeireiros. Vasco, popular e benquisto apesar de suas intimidades no paço, ia tranqüilo pelo meio deles, desbarretando-se aos mais velhos sinais daquela benevolência e quase entusiasmo que as classes inferiores tem sempre por quem as corteja e considera sem se familiarizar com elas; por quem no seu ar e nos seus modos, não parece dizer-lhes, como os nossos modernos demagogos: “Eu sou tão bom, tão liberal, que desço até vós”; - mas antes: “Não vivo convosco, porque a nossa educação, as nossas idéias da vida são muito diferentes. Mas convosco sou de alma e coração, de braço e de cabeça, porque vosso irmão sou diante de Deus e do Evangelho, das leis da natureza e das leis da razão”.
Além disto os dois irmãos, Rui Vaz e Garcia Vaz, tinham precedido o nosso estudante na sua volta para a cidade, e não tinham perdido o seu tempo. Poucas horas lhes haviam bastado para dar à agitada e confusa efervescência do povo a direção que eles queriam, e que os outros aceitavam com ânsia e entusiasmo.
Há um vazio sempre, um oco de incerteza em todas as comoções populares, de que é fácil aproveitar-se qualquer com mediana habilidade, uma vez que esteja de sangue frio, e lhe lance a tempo um nome, uma palavra, uma frase, seja qual for. E não importa a idéia; o que se quer é o símbolo. Da coisa simbolizada não é tempo de tratar agora, não há sossego para a examinar: depois veremos. Toma-se a palavra, o nome, a bandeirola – um chapéu de três ventos que seja, como o outro dia sucedeu em França – e vai-se para diante.
Fica, é verdade, o direito salvo para chorar depois o erro, lamentar a precipitação do momento, e conspirar cada um contra a sua própria obra; mas é tudo o que fica.
E não obstante isso, assim se fez sempre, assim se há de sempre fazer: porque o povo nunca se excita fortemente pelo bom do que há de vir, senão pelo mau e insuportável do que é.
Por outras palavras: nenhum demagogo fez nunca uma revolução com os seus programas, por mais artigos que eles tenham; todas as fazem os governos, todas as concita o poder por seus abusos e insolências.
Nem o tremendo brado das iras de uma nação diz nunca, senão: “Destruam”. A sentença de seu tribunal sem recurso é sempre: “Morra”.
Mas quem há de viver depois? – porque alguém e alguma coisa é preciso que viva; o que se há de edificar sobre essa destruição? – porque ruínas não se habitam. Aí começa o ofício do demagogo: e Deus lhe perdoe, que rara vez começa, e mais rara vez acaba em bem!
Ora os dois irmãos Vaz, como eu ia dizendo, tão ardentes e zelosos agora na causa da liberdade e dos agravos populares, quanto o tinham sido antes em defender os direitos e os tortos do bispo, cujos eram, meteram-se cada um por seu lado, entre os grupos dos artesãos e dos burgueses; e pouco a pouco tinham ido dando direção àquela imensa força, a que só ela faltava, aplicando aquele vapor, que se desperdiçava em gritarias e exclamações, à tremenda máquina da revolução que iam fazer trabalhar.
Dizia-lhe Garcia Vaz em ar de confidência, com a lástima nos olhos, e a compunção na voz:
_ Que nem eles sabiam todo o mau que o bispo era, as atrocidades que fazia, as novas tiranias que meditava. Que era necessário acudir com o remédio e já. Mas que o povo precisava de proteção, de chefes, e que só el-rei podia dar-lhos. Que para fazer justiça inteira e crua, como tantas maldades careciam, só D. Pedro, o justiceiro e o cru, que tanto 1lhe dava mandar enforcar ou queimar um bispo, como a qualquer servo ou malato que lho merecesse. Que para as excomunhões e interditos de Roma, ele rei lá se haveria com eles, que podia.
_ Mas nós queremos matar o bispo por nossas mãos – respondiam os populares: - que nos violenta as filhas e nos rouba as mulheres. Queremos enforca-lo com as tripas de Pêro Cão seu alcoviteiro: e faremos bispo o arcediago de Oliveira, que é um santo homem que nos não há de roubar nem excomungar. Vamos buscar Paio Guterres, o nosso arcediago. Vamos!...
_ Paio Guterres – tornava o agitador – é um santo velho de quem não havereis mais do que sermões e pregações, palavras de paz e de misericórdia. Não é ele que nunca se há de por à vossa frente, que puxe pela espada e vos capitaneie para ir contra o paço, e tomar aquelas torres da Sé, tão fortes como as de um castelo roqueiro. Nada! Precisamos de um homem moço e resoluto, que seja homem de el-rei e homem do povo, mas bastante senhor para se por à nossa frente, ir buscar o estendarte da Virgem aos paços do conselho, e marchar com ele adiante de nós. E a falar a verdade, nesta terra onde não há fidalgos, que o foral os não deixa morar cá, não temos senão um homem para isto, que é... é o nosso estudante.
_ Qual estudante?
_ Um que foi todo do bispo como eu fui, e que hoje o detesta como eu o detesto.
_ Mas quem?
_ A flor do mancebos, a jóia dos escolares, o noivo da nossa Gertrudinhas.
_ Vasco!
_ Esse é.
_ O sobrinho de Fr. João da Arrifana!
_ O próprio.
_ Mas se ele é do bispo!...
_ De Satanás quisera ele antes ser. Mas é de el-rei: de el-rei é, maus amigos. E sabei um grande segredo...
Chegaram-se todos para Garcia Vaz, que, em tom misterioso de secretário de Estado comunicando gravemente uma frioleira à papalva reunião da sua maioria parlamentar, lhes disse:
_ Sabei, honrados amigos, que o nosso Vasco esteve hoje com el-rei o qual veio aforrado a Grijó para lhe falar.
_ El-rei em Grijó! – exclamaram todos em alto brado.
_ Psiu! Que deitam tudo a perder. Está sim, mas chiu! E não lhes digo mais nada, se me não juram todos de guardar segredo.
_ Juramos.
_ Bem. Agora não o digam a ninguém.
_ Eu só o digo à mulher, que lá essa...
_ Eu só se for a meu compadre Bonifácio.
_ Eu...
_ Bonito modo de guardar segredo e juramento! Digo-lhes que deitam tudo a perder assim.
_ É verdade; é verdade; é preciso guardar o segredo. E até quando, Garcia Vaz? A gente também não pode...
_ Até esta noite à meia noite.
_ Vasco é o nosso homem – continuou o orador das turbas: - ele é quem nos traz as ordens de lê-rei, de cuja própria boca as recebeu. Daqui a pouco , em sendo noite bem fechada, que se arme cada um com as melhores armas que tiver, e aqui ao pé do Arco nos juntaremos para ir aos paços do conselho buscar a nossa bandeira. Lá falaremos e acordaremos no que se há de fazer.
_ Eu cá a minha coisa é que morra o bispo, e que nada de sisas nem de portagens.
_ Eu não é tanto por isso; mas que Gil Eanes não seja mais juiz; que é um asno e um tratante.
_ Pois eu não senhor, eu o que quero é que...
_ Para lá, para lá, meus amigos: agora nada mais. Silêncio! E trate cada qual de se preparar para esta noite.
Assim interrompeu Garcia Vaz a torrente de programas que já começava a formar-se, que prometia engrossar, e que em breve se despenharia, como a catarata de Niagara, por cima da intentada revolução, deixando talvez incólume, debaixo da imensa curva de sua projeção, aquelas mesmas coisas que mais pretendia, mais desejava, e porventura mais devera destruir.
O programa é coisa muito antiga, já vêem, não é pecha dos nossos dias.
Ora pois, se assim fazia Garcia Vaz por um lado, outro tanto fazia seu mano Rui por outro lado. De maneira que, quando o nosso Vasco assomou pelas agora tão concorridas ruas da Banharia e de Sant’Ana, não encontrou senão rostos amigos, sinais de inteligência, um como entusiasmo comprimido que não rompia em vivas porque não era ainda tempo, mas que os dava já com os olhos e com a expressão da fisionomia.
Vasco bem percebia o que andava no ar, e posto que o amor-próprio lhe folgava – como era natural na sua idade, e na virginal ignorância em que ainda estava das coisas políticas – todavia sua alma escolhida e superior sentia aquela invencível melancolia que deixam todos os triunfos deste mundo, sejam eles do fórum ou da academia, da tribuna ou do salão.
Vanitas vanitatum, et omnia vanitas!
Vasco não sabia isso, nem o sabe ninguém antes de experimenta-lo; mas sentia-o, pressentia-o, adivinhava-o. Fatal privilégio das organizações belas e elevadas, que em tudo, até neste funesto adivinhar, tão caro pagam sua tão mal invejada superioridade sobre o vulgar dos homens!
Vasco ia triste e pensativo; e o generoso alazão parecia ressentir o estado de ânimo do seu cavaleiro, balançando as orelhas baixas e caídas, enquanto subia, a passo lento e grave, a tortuosa rua de Sant’Ana.
Iam quase chegando ao Arco, quando um estribeiro do bispo, montado em poderosa mula, vinha trotando largo e rasgado na mesma direção. Conheceu-o Vasco ao passar por pé dele, e fazendo-o parar, saltou do cavalo e lhe atirou com as rédeas:
_ Leva-o às cavalhariças; e que o pensem bem, que o precisa.
O estribeiro seguiu seu caminho, levando de rédea o alazão; e Vasco entrou em casa da nossa boa Gertrudinhas, de quem te confesso, amigo leitor, que já tenho saudades. Se te sucederá a ti o mesmo?
A ser assim, perto estamos todos de as matar, as tais saudades, porque no seguinte vamos entrar em sua casa também nós, ou para falar mais corretamente, na de seu pai, mestre Martim Rodrigues, caldeireiro de seu ofício, juiz e magistrado municipal da muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto, à qual eu fiz dar e confirmar todos esses títulos, eu que copio esta crônica do Ms. Dos Grilos.
Fiz sim, em um decreto por mim lavrado no mais retumbante estilo de proclamação patriótica, reta pronúncia e frase de brasão. Nesse decreto, que o meu amigo M. P. Propôs à régia aprovação, e a obteve, lhe reformamos as Armas, lhe demos a insígnia da Torre-e-Espada, lhe colocamos, em escudo de honra, no meio, o Coração de D.Pedro... Mas dizem os barões do Porto que nem um nem outro honramos a memória de D.Pedro, que somos demagogos e não sei que mais...
Os barões da minha querida terra parece-me que são como os mais barões de Portugal e ilhas adjacentes: convém a saber...
Isto é, são barões, e tudo está dito.
Era já o fim da tarde quando o Sr. Vasco subia as precipitosas escadas de mestre Martim, e batia as palmas junto à porta do primeiro andar. Uma voz bem conhecida, cujo trêmulo trilo, uma vez ouvido, nunca mais esquecia, perguntou de dentro:
_ Em nome de Deus, amém! _ Quem está aí, e a quem é que procura?
_ De paz é – respondeu o nosso estudante.
_ Paz, paz... Bom dia de paz vai este em que tudo é guerra, alvoroto e perdição; em que se roubam as mulheres a seus marido, às próprias barbas da senhora Sant’Ana e do seu arco milagroso; em que o popular anda tão mexido e altanado, que Deus nos acuda!
_ Tia Briolanja, sou eu.
_ Sou eu... e tia Briolanja!... E tão requebrado que ele fala! ?Má hora, que me eu deixe enganar de teus requebros, meliante, quem quer que tu sejas. A boa porta vens bater. Olha quem, eu! Uma casa de duas donzelas... Pois não? E seu pai fora! Que lá estão nas casas do conselho todos ainda, e lá lhe foi seu jantar a mestre Martim, coitado! Que bem pouco lhe havia de prestar com tantos cuidados que lhe caíram em cima. Jantar, jantar... E pelo que estou vendo, lá lhe tem de ir a ceia também...
_ Mas, tia Briolanja, abri-me por quem sois, que preciso falar com Gertrudinhas.
_ Nem Gertrudinhas fala agora a ninguém, nem Briolanja lhe abre a porta. Estamos em câmara, salvando a pátria; talvez nem dormir venhamos a casa; não falamos a ninguém.
_ Mas por isso mesmo, tia Briolanja, por isso mesmo é que é preciso que eu fale já com Gertrudes. Olhai que sou Vasco.
Mas a velha, surda a rogos e expostulações, surda de seu natural, e mais surda ainda do palrear incessante com que a si mesma se aturdia os ouvidos, a velha Briolanja, doida com a idéia de que a viessem roubar a ela... – E aqui aplicará talvez algum maganão o verso de Bocage:
Doida por vê-lo, e doida por não vê-lo;
Isto é, doida com o susto de que sim e de que não lhe sucedesse a fatal aventura – a velha, digo eu, não queria abrir, não reconhecia a voz de Vasco. O mancebo, despeitado e impaciente, já estava resolvido a empregar os meios extremosl, quando Gertrudes, que no andar de cima pensava e acalentava o filho de Aninhas, adivinhando-lhe o coração que aquele parlamentar de Briolanja podia ser com o seu estudante, desceu rapidamente a escada interior, e chegando-se à velha:
_ E Jesus, Briolanja! Com que medo estais, mulher! Irei eu à porta, que me não temo, seja de quem for.
_ Menina, menina, que estais perdida! São eles, menina, gente do popular que anda por aí de porta em porta roubando matronas e donzelas, fazendo mil desacordos e desaguisados para porem depois boca... Deus me perdoe, que não quero dizer em quem. Não abra, menina...
Mas Gertrudes já tinha destrancado a porta, corrido o ferrolho, e já Vasco estava de um pulo dentro da casa, e nos braços quase da linda caldeireira, quando a velha, persignando-se, e repetindo jaculatórias e abrenúncios, tratava ainda de defender a cidadela... Que já era tomada.
Quando digo “tomada”, inda assim, entenda o conspícuo leitor que quero falar das obras exteriores; porque Gertrudinhas era moça de brio e honra; e o que não é mais decerto, mas faz talvez mais ao caso, Vasco soletrava ainda o inocente a-be-ce dos seus primeiros amores.
Os dois já não viam nem ouviam senão um ou outro.
_ Vasco!
_ Gertrudes!
_ Quanto me tardaste!
_ Sim?
_ E o que por cá tem ido desde que partiste!
_ Já tudo sei.
_ E o remédio?
_ Esta noite.
_ Esta noite! Mas aninhas ainda está em poder do bispo...
_ Que lhe não tocará num cabelo de sua cabeça.
_ Por que?
_ Porque a meteu no aljube; e no aljube quem governa é Paio Guterres, que responde por ela.
_ Ai! Não a dou por segura nem assim: o bispo não tem respeito a nada, e Pêro Cão tem unhas e garras de vivo demônio que é, para a sacar pelas mesmas grades do aljube.
_ Descansa; nenhum mal lhe sucederá desta vez. E nunca mais, se as coisas correrem como eu espero. Ouve.
E começaram a cochichar baixinho numa longa conferência, em que, de vez em quando, lá surdia mais alto uma palavras que outra. Gertrudes principalmente, que era mulher, filha e amante, não podi já conter a voz que se não levantasse:
_ E meu pai, se lhe sucede alguma coisa! E tu... ai! Tu, Vasco, se nesses tumultos... Toma vem cuidado nele e em ti. Jesus! Se te atraiçoa essa gente? Atraiçoar, não; não são dados a isso. Mas são tão sujeitos a desanimar, os populares, e a variar de intento. Tem toda a mesma inconstância de que nos acusam a nós mulheres... Mas reparo numa coisa, Vasco: estás triste, pensativo, tão fora do teu natural! Que tens tu?
_ Não sou feliz, Gertrudes.
_ Por que?
_ Oh! Não. Duvidaria antes do sol que me alumia, da terra que me sustém.
_ E dantes dizias tu que eras tão feliz só com essa segurança! Davas-te por tão venturoso só na idéia de te livrares do poder de Fr. João e do bispo, para não seres cônego, e para que meu pai consentisse... Ai Vasco! Agora que tu tens a el-rei por ti, e a meu tio, e que tudo nos corre como nunca nos atrevemos a imagina-lo, agora estás tu triste, agora me dizes que não és feliz!
_ E para maior desgraça, nem te posso contar minhas tristezas, nem te posso dizer... ao menos por agora, não posso.
Ambos puseram os olhos no chão, ambos caíram no desanimado silêncio da melancolia, que tão fácil se comunica de um coração ao outro, entre dois que se amam.
Por que estará triste, que segredos tem ele para mim? – Dizei-me, leitoras belas, se não há neste só pensamento com que fazer pensativos os mais levianos e adoidados dezesseis anos; descorar as faces de Hebe; por jaças de feia tristeza na mais alegre esmeralda, névoas de melancolia na mais risonha safira que se engastem em pestanas de ouro ou de castanho.
A nossa Gertrudes porém não era loira nem castanha, não eram de safira nem de esmeralda os seus belos olhos, senão tristemente negros, negros e longos, como uma longa noite de inverno, tristes como ela, sujeitos, como ela, a variar de uma intensa e inquieta vivacidade, para a languidez da moleza que a alterna.
Não vão agora pensar por isto que era morena a minha Gertrudes. Eu não sou forte em morenas; professo a regra de que – mulher branca, e homem preto... Enfim, Gertrudes era alva e fina, negra de olhos e negra de cabelos; e pudera chamar-se Isaura, Matilde, Urraca ou Mumadona se vivesse em um castelo com ameias e ponte levadiça, porque tinha fidalguia no corpo, no rosto e na alma para mais do que isso. Chamou-se porém Gertrudinhas, e morava na rua de Sant’Ana, nasceu burguesa porque assim tinha de ser. Não é minha culpa. Todos os dias se vêem maiores desacertos do que este por este mundo.
Já disse lorde Byron que a verdade era muito mais estranha que a ficção. E é. Sei de princesas fregonas que tresandam á lójia de mercearia, e tenho visto silfas aéreas balançar-se vaporosamente num balcão de quinto andar perto de céu.
A aristocracia – não falo aqui do nosso sexo feio, senão do belo somente – a aristocracia era uma instituição admirável, se houvesse todos os anos um júri seleto e imparcial para regular quem havia de entrar para ela e sair dela. Peço para ser vogal do júri... Mas declaro desde já que não voto em gordas, nem tolas, nem beatas – mas devotas sim – nem as donzelonas que afetam quinze anos, nem as invejosas, nem nas mexeriqueiras, nem nas que vão ao banho de calcinhas e josézinho curto... Nem nas que polcam depois dos trinta bem feitos, nas que cantam a Saloia, que lêem o Visconde de Arlincourt ou versos de... Alto! De versos não falo por causa daquele telhado de vidro que todos sabem.
Pobre da minha Gertrudes! Que ali está tão triste, e triste o seu Vasco... E eu a entreter-me em semelhantes frioleiras sem lhe acudir! Bem pudera o sábio Artemidoro, supremo juiz dos andantes historiadores, castigar-me severamente pelo mau croniqueiro que sou, que abandono meus heróis em meio de suas aventuras e me vou flanar por essa perpétua feira das vaidades humanas que tanto me diverte.
Tristes estavam os dois, e nem falavam, nem se olhavam, nem sei se muito pensavam; mas sentiam doer-lhes a alma daquela dor surda e mole que mói, mói e não mata – ou se chega a matar, é já tão depois, que nem se sabe de que morreu esse que dela morre. E os médicos dizem: “moléstias do coração!” ou: “apoplexia fulminante no cérebro, no bofe!” – Morreu de penas, Dr. Tirteafuera, morreu de pesares, Dr. Sangrado , morreu de aflições e desgostos, Dr. Sintaxe; mas vós não pescais disso, não curais disso; e a metade dos que morrem, mal da alma os mata, não do corpo.
Gertrudes, como mulher que era, e com mais elasticidade de ânimo portanto, foi a primeira que sacudiu fortemente o seu espírito daquele torpor doloroso, e levantando-se em pé, disse:
_ Vasco, vai, que são horas. Salvas Aninhas e tomo cuidado em meu pai.
_ Gertrudes, adeus! – disse o estudante ainda melancólico e pensativo. Mas com a súbita revulsão de espírito, que é tão fácil e pronta naquelas idades, e tão natural era a seu gênio alegre, e ao temperamento saltitante de seus nervos, já da porta onde estava com a mão no ferrolho, voltou atrás, e sorrindo-lhe os olhos, desanuviada a face, exclamou:
_ Gertrudes, isto são bruxas más que andam entre nós. Leve a breca feitiços e maus olhados, cachopa! E dois trincos para o demo das tristezas, que eu não posso viver sem ti, e sem te ver risonha e alegre como um céu aberto!
_ Meu Vasco!
_ Minha Gertrudes!
_ Querido!
_ Sabes tu, Gertrudes da minha alma, que me tomara eu ver outra vez o descuidado e insignificante estudantinho que eu era? Que me pesa a minha importante pessoa? Que reis e bispos, senhores e comunais, todos eles juntos não valem a pena de se cortar a gente o coração, viver fora de si, e correr após de fantasmas, a qual mais vão, mais falso, mais enganador? Se a glória é assim, se a grandeza não é mais que isto...
_ Querido Vasco, tens razão: mas é da honra da nossa terra que se trata, da sua liberdade, de salvar uma inocente da vergonha e do opróbrio. Desafrontar os oprimidos, castigar o orgulho dos opressores, esta é a glória que não pode ser falsa nem vã. Ânimo, Vasco, e a eles!
_ A eles me vou, a eles me vou!
E saltando e pulando, e rindo e folgando, pela escada abaixo se foi cantando:
E com esta boa folha,
Por minha dama o juro,
Que não fica mouro vivo
Nem alcaide nesse muro.
Vasco, todo inteiro o nosso estudante Vasco, reverdeceu e reanimou naquele instante, e se foi voando nas descuidadas asas de sua feliz juventude.
Gertrudes foi à janela para o ver sair e lhe dizer ainda mais um adeus com os olhos, vê-lo voltar a esquina, e daí outro adeus ainda... o último: port-scriptum de longa carta de amores, que esperdiçou páginas e páginas inutilmente... – peço perdão, minhas senhoras, inutilmente não, mas em repetir e repisar o já sabido e ressabido – e aproveita agora o derradeiro cantinho do papel para dizer, o que mais queria, o que só queria dizer, e não disse, em todo o estirado corpo do imenso e recruzado cartapácio.
Admirado estarás, leitor benévolo, se, com a atenção que ela merece, tens seguido o fio de minha interessante história, admirado e pasmado deves estar de que no precedente diálogo, assaz prolixo e demorado como foi, não viesse intrometer-se nunca terceiro interlocutor, achando-se aí presente em própria pessoa não menos poderosa e palrante criatura do que tia Briolanja Gomes, o vocabulário ambulante, a verdadeira prosódia do bairro e de toda a cidade de Porto. Mas o fato é que aí estava, que não dormia, e que, pela primeira vez, nos sessenta e sete anos de sua palrada existência, consentiu em estar em cena como pessoa muda.
Muda! Como? Impossível. A terra segue a sua rotação ordinária, giram os astros em sua órbita prefixa, os rios correm para o mar, em coisa alguma se transtornou a ordem da natureza, as imortais leis do universo continuam a rege-lo:é inexplicável, impossível a mudez de Briolanja Gomes. Briolanja Gomes respira, Briolanja Gomes fala: a sua língua, os seus lábios, todo o seu aparelho parlatório não podem existir sem funcionar.
É assim era. Com uma enorme almofada de renda no colo, encruzada no estrada ao canto da casa, discriminando bilro de bilro, pregando alfinete contra alfinete, Briolanja fazia renda e rezava:rezava sua interminável série de rezas e jaculatórias, que só ela sabia tantas, tão variadas, e tão eficazes também – porque as havia em seu receituários para todos os casos emergentes, para todos os santos possíveis, para todos os dias do ano, e para todas as horas de cada dia de cada ano.
Naquela espécie de órgão-de-berbeira, havia registros e cilindros para tudo, nem ele podia cessar jamais, senão parando-lhe a manivela por que cessasse a vida.
Briolanja pois vivia e rezava:e o que ela rezava agora era um longo e potente esconjuro contra bruxas, feiticeiras, maus olhados e quebrantos, floreado de seu latim de abrenúncios e vade-retros, não sem algumas pinceladas de grego também em Kyrie Eleisons, Christe Eleisons, Ágios e theos, e outros helenismos de breviário, que a douta Briolanja pronunciava de modo que nem Oxford nem Cambridge são capazes de mais arrepiar a língua de Homero e de Virgílio.
Não tardou Gertrudes em reparar no que nós mesmos estamos reparando, leitor amigo, porque apenas voltou da janela e deu com os olhos na sua dona:
_ Aí estáveis vós, Briolanja?...e sem ninguém vos ouvir a fala! Que sucederia neste mundo?
_ Não falo eu, filha? Não, não falo!...mas com quem devo e posso e mister é que eu fale. Que nos entrou quebranto em casa; e, ou eu não sou quem sou, nem sei o que sei, ou a poder que eu possa, o hei de desfazer. E já ele vai talhado, que esse moço...outro saiu daqui agora do que entrou.
_ Que quereis dizer?
_ Que Vasco, de donde quer que vinha, vinha quebrantado de mau olhar que lhe deram. Renego eu de bruxas e de seus feitiços! São Bento as tolha por maus aranhiços peçonhentos que são, e más teias que tecem! Amém! Mas o rapaz viu a bruxa, isso viu ele; e chupado vinha delas como das carochas. Kyrie Eleison! Deus fale à minha alma!... Vai-te e não tornes, e no tornar te afundas. Olha o inimigo o que havia de enredar! Se lho conhecerá Fr. João da Arrifana, que o benza e vareje logo com boas varas bentas que lhe sacudam o demo bem sacudido!
_ Jesus, Briolanja, que dizeis? Embruxado o meu pobre Vasco!
_ Embruxado vinha; sou eu que vo-lo digo: na cara lho conheci mal que entrou, e no olhar despartido que trzia.Não são meus olhos que em tal se enganem; e por isso lhe pus logo o remédio, que as moí e as ralei aqui as excomungadas.
_ A quem moestes vós, mulher?
_As bruxas, filha, as bruxas, que as martelei a bom martelar. Pudera não! Com três da cova de São Patrício de Irlanda, três do buraco de são Tiago de Compostela, três da Santa Casa Do Loreto, são nove esconjuros que lhe arrumei, a qual mais for te. Vede-me a cara com que se ele daqui foi, e dizei-me se era a mesma com que entrou.
_Verdade é que ele...
_ Outro foi, melhor foi. E se em chegando a casa, Fr. João lhe cumprir com o que deve, grande mal não haverá,porque o rapaz é bom e temente a Deus. Só aquele bem mau sestro que tem, é que...
_ Tem mau sestro! Qual, mulher?
_ Aquela cisma de querer ir às covas de Salamanca. Ai menina! Tirai-lho da cabeça, que é tentação visível de bruxaria, e mostra jeito para as más artes do demônio.
_ Briolanja, Briolanja!..._ exclamou de repente Gertrudes, interrompendo-a: que ruído é este? Tanto tropel de povo! Que teremos agora? Ai; se... Mas já!...
Era na verdade tremendo o estampido que subtamente estalou e foi ecoando pela sinuosa rua, com um rebôo de vozes, de aclamações tumultuárias, que faziam tremer os velhos edifícios.
Acudiram ambas à janela.O tumulto era grande; mas distintamente se ouvia, por entre o confuso alarido das gentes, um brado quase regular de:
_Viva o nosso capitão! Este queremos, e não outro.
Depois outras vozes, que também pareciam concertadas, gritavam:
_ O estendarte da Virgem, o nosso estendarte que o tome ele!
_ Vamos busca-lo. Vamos tirá-lo aquele potrosos dos juízes, aqueles capões sem honra nem vergonha!
_ Que beijaram a mão do bispo!...
_Em vez de o emprazar para que nos fizesse justiça.
_ Abaixo com eles, e viva o nosso capitão!
_ Viva el-rei D. Pedro!
_ Viva, viva, viva!
Aqui os vivas foram estrondosos e furibundos. Bem se via que eram dados a quem tinha poder para os aceitar e retribuir.
Depois dos vivas, os morras:é do ritual.
_ Morra Pero Cão!
_ Morra.
_ E o bispo enforcado.
_ com a cabeça para baixo, por causa dos santos óleos.
_ Isso, rapazes. Respeito à santa madre Igreja,não tocar na cabeça do bispo, que é sagrada.
_ No pescoço, sim. Ah, ah,ah!
Ia crescendo o tumulto, e iam-se ouvindo mais claros e distintos os brados da multidão, porque ela se ia aproximando do Arco da Senhora Sant’Ana, onde parece que todo o movimento daquele dia tinha de concentrar-se: como se a santa, ofendida pelo inaudito desacato que ali se tinha cometido, ali quisesse ver rebentar os tremendos efeitos de sua justa indignação.
_ Ao Arco! _ bradou uma voz de estendor_ AO Arco da santa! Ali o haveremos de alevantar e jurar por nosso caudilho e capitão.
_ Ao Arco! _ respondeu a multidão.
E os arames estridentes dos caldeireiros, que de novo se tinham insurgido, retiniram desacordemente; as padeiras de Avintes e de Valongo traçaram as capas e bateram os socos. E os gaiatos, raça heteróclita de todos os tempos e de todos os países, uivavam, assoviavam e tripudiavam,adiante,atrás, em derredor da bernarda, suas delícias.
A chusma, entalada nas estreitas ruas por onde vinha, redobrava de ímpeto e refervia no aperto; como rio caudaloso que,oprimido em acanhado leito de rochedos, muge e brada turbulento, apressurando sua corrente para o plaino, onde possa espreguiçar as águas à vontade, e folgar desafrontado com as areias da campina.
No intervalo se sossego ou de reflexão que a revolta tinha tido desde que se aquietara às portas da Sé com as promessas de Paio Guterres, era bem visível agora que ela se tinha estado organizável uma revolta_ e que se tinha convertido em revolução.
Nascida, como todas as revoluções verdadeiras e conscienciosas, de uma forte, legítima e justa indignação popular, nascida sem parteiras nem comadres, pelo mero e espontâneo impulso da natureza, _ tinham depois tido tempo as ditas comadres e parteiras de a pensar e enfaixar a seu modo.Não tinha mais força agora do que quando nascera; bem visto, menor seria talvez. Mas então sem objeto distinto, sem direção bem aplicada, as suas forças originais derramavam-se e perdiam-se como as de um grande rio no areal que o serve. Agora, por menores que fossem, vinham concentradas e dirigidas a um ponto dado, o poder de sua presença era imenso, capaz de mover montanhas.
Os irmãos Vaz tinham trabalhado bem; o nome de el-rei valia muito, as suas promessas eram formais e poistivas; enfim, repito, a revolta estava feita revolução.
Já a mesma marcha e compostura da multidão mostrava outro aspecto; os gritos e aclamações tinham certo regulamento; e as próprias vozes do arame agitador, que de manhã retiniam cada uma para seu lado, se misturavam, sem tom nem som, sem compasso nem harmonia, com o vozear do povo, agora tinham seu tal ou qual concertante, tocavam mais fortes nos cheios, nos coros, mais piano quando, para assim dizer, acompanhavam alguma jaculatória revolucionária de poucas vozes; e faziam enfim silêncio, tinham seus compassos de espera, quando algum orador popular executava um solo que devia ser bem distintamente ouvido.
À frente do tumulto marchava uma espécie de São Cristóvão, homem alto e menbrudo, de grenha embaraçada e ruiva, as mangas da camisa arregaçadas e manchadas de sangue, nu de braços e pernas, e o cutelo pendente ao lado. Es te era Brás Marchante, o carniceiro e fressureiro de ao pé da Sé, que levava hasteada em alto poste a cabeça ensangüentada de um enorme dogue ou cão de fila, coroada de uma mitra de cartão bastante bem feita, e daí flutuando em guisa de pendão, muitas varas de assopradas tripas, antigo símbolo de alcunha e de glória, de chacota e de presunção, para a nossa boa terra. O meio horrível, meio burlesco, estendarte, vinha rodeado de uma multidão de gaiatos, que eram como os tiples daquele coro infernal, as requintas daquela orquestra diabólica: todos eles, uns ganiam outros uivavam, outros ladravam e latiam, e logo dirigiam mil injúrias, chufas e vitupérios à mitrada cabeça do dogue. Alguns eram ditos graciosos, não flatos de espírito, e que mereciam nozes e confeitos em um triunfo romano; outros, pragas horríveis que faziam arrepiar as carnes. De vez em quando a solta massa desta ladainha de chufas e maldições se reunia e concentrava numa trova, grosseira sim mas feita de arte, e que bem mostrava não ser inteiramente espontânea aquela demonstração popular, senão que já tinha sua direção e contra-regra.
Ei-la aqui a trova – ou o hino para falar em língua revolucionária moderna:
Béu, béu, béu! Tira o chapéu,
Que aqui vai dom Pêro Cão!
Hão, hão, hão! Só canzarrão!
Tão ladrão é o bispo como o Pêro Cão.
Cain, cain, cain!
Diz-lhe o bispo assim:
_ Por que ganes tu, meu fiel mastim?
São os caldeireiros que vem sobre mim.
_ Deixa-os, deixa-os, Pêro Cão.
Disse o bispo ao mau ladrão:
Que eu te deito esta benção,
E te faço bispo cão.
Se eu sou bispo barregão,
Bispo mouro e mau cristão,
Que importa que o seja um cão?
Hão,hão, hão!
Bispo temos barregão:
Que importa que o seja um cão?
Béu, béu, béu! Tira o chapéu,
Que aqui vem dom Pêro Cão!
Hão, hão, hão, só canzarrão!
Tão ladrão é o bispo como o Pêro Cão.
E aqui um martelar de arames e latões capaz de encher as medidas, de saciar a sede deste metais, bem pouco preciosos, que devora as entranhas do nosso amigo Meyerbeer, cujo tímpano escaldado e gretado creio que nem já o carrilhão de Mafra era capaz de fazer vibrar.
Atrás dos gaiatos, cantores destas loas, marchavam, como de razão, os menestréis caldeireiros. Estes, como digo, acompanhavam e fundamentavam com seus instrumentos a música vocal da revolta.
Bem sabes, amigo leitor, que nós não fazemos revoluções, contra-revoluções ou coisa que o valha, sem hino. Somos uma nação harmônica, essencialmente harmônica, harmônica a ponto que, tanto mais se acha tudo em desarmonia e desacordo entre nós, tanto mais precisamos de nos mover ao compasso de patrióticas cadências.
Nenhum povo do mundo se pode gabar de possuir tão rica e vasta coleção de hinos patrióticos; tão belos todos, tão originais, tão excitantes, que dariam inveja ao próprio Tirteu, ao demagogo Alceu, e cujas palavras – não somenos das notas – deviam passar à posteridade gravadas nas nádegas das sereias do Passeio público de Lisboa, ou na fachada do teatro Agrião, ou embrechadas – que mais seguro era ainda – pela mais be]la das belas artes Eusébias, no mosaico do Rocio. Seja onde for, mas quero vê-las consubstanciadas, associadas por qualquer modo, a um dos grandes monumentos de arte contemporânea que hão de imortalizar o século dos nossos Péricles.
Seguia-se a trubamulta do povo armado; uns de cota e celada, outros só de morrião. Foice este, lança aquele, espada estoutro; de aqui alabarda, de além vinha a escuma ou azevã.
Barbeiro houve que, sem esperar três séculos por D. Quixote, tinha descoberto que a sua bacia era o elmo de Mambrino, e a encaixara na cabeça. Tal taberneiro levava no mesmo sítio um funil; panelas muita gente. Havia um sem-número de tachos servindo de rodelas. O tipo caldeireiro da revolta dominava e predominava em tudo visivelmente. No meio deste labirinto de gente armada, mal armada de suas armas exteriores, fortemente armada da energia interna de sua alma, do seu rancor, e para dizer toda a verdade, da imensa justiça de sua causa – claramente se distinguia um grupo mais saliente e luzido que os outros todos, pela formalidade e elegância do traje em uns, pela regularidade da armadura me outros. Era quase toda a companhia dos alabardeiros do bispo, que Rui Vaz e Garcia Vaz tinham feito desertar para as fileiras populares.
E à frente destes iam os dois irmãos, levando entre si um mancebo guapamente vestido, mas de um traja meio de galã meio de clérigo, o traje de um elegante escolar daqueles tempo – traduzamos em língua de hoje: um estudante leão.
Para logo o conheceu Gertrudes, que estava vendo passar tudo isto da sua janela, e um grande susto a tomou ao ver realizado o concerto de seus planos: como sempre sucede aos maiores entusiastas quando, chegado o momento decisivo, vêem, no perigo até ali buscado e desejado, aqueles a quem mais querem.
Também não tardou a reconhece-lo Briolanja; e acelerando nos dedos o movimento das contas, quase sem interrupção das ave-marias e padre-nossos que ao mesmo tempo rosnava, aia misturando ralhos e rezas, como era seu modo.
_ Que estais no céu, santificado... Não no disse eu, menina? Seja o vosso nome... Ele é, Vasco!... Venha a nós o vosso reino... Gertrudinhas, filha... Seja feita a vossa vontade... Fr. João da Arrifana que o não benzeu... Assim na terra como no céu... Pobre rapaz! Cair no poder dessa gente?... Gloria patri et filio... Ai filho, quem te há de tirar das mãos desses fariseus!...
E assim continuou em seus parêntesis a tia Briolanja, sem quebrar o fio da coroa que rezava, nem deixar as coisas dês-te mundo, que tão fortemente a preocupavam sempre, apesar do outro.
Estava a rua toda apinhada de gente. Defronte do arco e para o lado de que está o altar da Santa, os archeiros fizeram alto e conseguiram arredar a espessura da multidão.
Rui Vaz correu o ferrolho da porta de Aninhas, e subiu com Vasco ao primeiro andar, chegou à janela com êle, e fazendo daí rostrum ou tribuna de suas arengas:
— Aqui — bradou — aqui, meus amigos, diante deste bendito arco, na presença da santa mãe da mãe de Deus, aqui onde o agravo foi feito, aqui juremos a vingança dele, e aqui demos preito e homenagem ao caudilho que escolhermos para nos dirigir e capitanear.
— Bem, bem! isto é falar.
— Bons amigos e vizinhos, juremos obedecer-lhe em tudo e por tudo.
— Isso agora muito é — disse uma voz resmungona dentre as turbas.
— Em tudo, em tudo! — clamou a multidão entusiasmada e sem saber o que clamava.
Enquanto ele fôr por nós — continuou o dos escrúpulos; — e tratar da nossa fazenda como cumprir...
— Está visto: pudera!
— E se não, não.
— E se não, não.
— Alto lá — acudiu Rui Vaz, que viu começar a sacudirem-se pelos ares as ressoantes bexigas da doidice popular:
— Alto lá! Se já começam as desconfianças e ciúmes que sempre danaram e perderam quanto é do povo, e por fim o entregam fraco, dividido e exausto, em mãos dos poderosos, que não precisam mais trabalho para dominar sôbre nós, senão esperar-lhe a vez, que nunca vem tarde... Então deixemo-nos disto. Péro Cão que nos roube quanto quiser, o bispo que nos leve quantas mulheres e filhas se lhe antolharem... Aninhas que se deixe estar no paço ou no aljube ou onde quer que está.., E Afonso de Companhã que se los coma com pan, como diz o castelhano... Ou que os doure e os traga por fora do barrete, como fazem senhores quando el-rei lhos prega... Cada um por si e Deus por todos. Quem lhe comer que se coce; e a quem lhe armarem a testa, que marre onde quiser e em quem quiser; que eu, por mim, já me não quero meter em danças que hão de acabar em certo baile de três paus que eu sei, e Pêro Cão batendo o compasso no meu cachaço, para mais sabor lhe dar.
Um murmúrio geral de descontentamento correu pela multidão.
— Nada, meus amigos — continuou o singelo orador, singelo, mas arteiro ou artista bastante para conhecer o efeito que tinha produzido: — Nada, nada, aqui não há senão pegar ou largar. Precisamos de quem nos acaudilhe nesta arriscada empresa em que nos metemos. Os nossos juizes e vereadores são os que sabeis. Fidalgos nâo os queremos, nem aqui os há. Os nossos não são para isso. Sabeis o que esta tarde vos disse?... O segredo?...
— É verdade, o segredo. Que vem ai...
— Quem é que vem, quem é que vem?
— Silêncio! que ainda não deu meia-noite.
Mas de ouvido em ouvido, e no maior segredo. foi passando a grande nova de que el-rei D. Pedro estava em Grijó, e de que aquela noite entraria disfarçado na cidade, se o povo se apoderasse do castelo da Sé.
— Pois bem — continuou Rui Vaz: — minha tenção era que escolhêssemos um mancebo capaz, amigo de el-rei, com ânimo e coração para se pôr à nossa frente, e puxar pela espada ou pela língua, segundo for mister. Mas corno o não querem...
— Queremos, queremos.
— Pois, se o quereis, e se ele nos há de guiar e governar enquanto durar esta pendência, é preciso que tenha poder, e que lhe obedeçamos todos. Juramos, ou não juramos obedecer-lhe?
— Juramos, sim, juramos.
— E que por dá cá aquela palha, porque se foi assim ou se foi assado, não havemos de entrar em questões e parlamentos, e a esgrimir de língua e de parola, quando é preciso esgrimir coa espada?
— Sim, também juramos. Tem razão Rui Vaz! Viva o nosso capitão!
Qual outro Marco Antônio, Rui Vaz vinha preparado para esta cena da investidura. Mais feliz porem ou mais prudente que o romano orador, ele não ofendeu, com o símbolo do poder que queria conferir, a ciosa majestade das turbas soberanas. Sacou de um pano, em que a trazia envolta, uma formidável espada de cavaleiro, cingiu-a à cintura de Vasco, desembainhou-a depois, pôs-lha na mão; e inclinando-se como quem lhe fazia preito disse para ele:
— Tomai esta espada, senhor Vasco, e jurai pela sua benta cruz, pela Virgem padroeira da nossa cidade, e pela bem-aventurada Sant’Ana que nos ouve, jurai de vingar nossa afronta e de punir por nossos direitos.
O que neste momento passava pelo ânimo de Vasco, não é fácil dizê-lo: tantos eram e tanto se lhe atropelavam os pensamentos encontrados de seu espírito! Gertrudes porem, Gertrudes que estava defronte, cujos olhos animados, cuja fisionomia resplandecente diziam o quanto ela triunfava naquela ovação popular do seu amante — Gertrudes dominava tudo, seu amor vencia todo outro sentimento.
Ver-se ele, estudantinho sem nome ainda, elevado de repente a tanta autoridade e poder na presença daquela mesma cujos olhos mais queria brilhar! - - - Esta grande realidade têm os fátuos sonhos da ambição; este é verdadeiro e certo gozo que vale bem a pena descontar depois por dias e anos de cruéis desapontamentos.