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O ARCO DE SANTANA

O nosso estudante sentiu por todo o seu corpo aquele es­tremeção nervoso que dá a faísca elétrica da ambição, quando é a nobreza, quando é a poesia dos sentimentos elevados que sobre nós a descarrega. Os olhos ardentes, o rosto afo­gueado, o coração batendo-lhe forte na arca do peito, levan­tou o braço da espada e erguendo-a acima da cabeça, pro­nunciou com voz sonora e vibrante:

— Que me ouça Deus e me ajude! Assim juro aqui, on­de a nossa cidade foi desonrada e insultada, diante da santa imagem que nos ouve... Aqui onde está o melhor de meu coração, e onde eu quisera ter mil vidas para asselar com elas a minha fé e o meu juramento — juro que hei de levar a cabo esta empresa, desafrontar os nossos vizinhos e amigos, vingar a nossa injúria, e restituir a liberdade ao povo opri­mido­.

O gesto, o som de voz, o ar inspirado e comovido do jo­vem orador — mais ainda que as suas palavras — entusiasma­ram a multidão. Uma torrente de vivas, de aplausos furio­sos rebentou do seio das turbas, e foi a solene aceitação do juramento com que o tomaram por seu caudilho e capitão.

— Agora ácasa do conselho! — disse Rui Vaz. — Vamos buscar o nosso pendão, o estendarte da Virgem.

— Vamos! — bradaram todos.

— E de caminho, — disse um daqueles salvadores da pátria que nunca faltam para dar alvitres infames quando lhes pa­rece que o podem fazer sem risco de suas pessoas: — de ca­minho deitaremos das janelas abaixo os nossos potrosos juizes.

— Quem foi esse que falou? — bradou Vasco: — quero ver-lhe a cara, e que saia bem a claro com a sua infâmia.

— Este foi, — disseram três robustos caldeireiros que para logo filaram e sacaram a terreiro a ingoiada e mal roupida figura de um alfaiate remendão que todos conheciam por viver das migalhas do tinelo do bispo, e por ser quem mais se curvava a caía de ambos os joelhos no chão para receber a apostólica bênção quando o despótico prelado sucedia de passar. Também logo ali se soube — o que é que se não sabe neste mundo! — que morava numas casinhas de Rio­-de-Vila que lhe dava a caridade de mestre Martim, um dos tais juizes por ele condenados á Rocha Tarpéia, a troco de um mau chapeirão que alguma vez lhe fazia, de algum fer­ragoulo velho que por acaso lhe consertava.

— Que me desarmem esse mau homem — disse Vasco —e mo prendam. O povo não quer tais defensores.

— Bem dito! E viva o nosso capitão!

Se todos os chefes populares soubessem e ousassem repri­mir assim os aduladores das más paixões, os sicofantas do povo — que os há nas praças como nos paços, e onde quer que está o poder, estão eles — há muito que o despotismo nãoexistia na terra. Bem nasce em todos os climas a se­mente da liberdade; mas desde que lhe germinam as folhas seminais, há de haver um Washington que a monde, a am­pare, ou os espinhos são tantos logo, tantos os cardos e abro­lhos, que a afogam.

Gertrudes, a nossa entusiasta Gertrudes, calam-lhe as lá­grimas de satisfação ao ver como o seu Vasco sabia usar ge­neroso de um poder de que tãonatural é sempre abusar-se.

Sorriu-se para ela o amante, e fazendo-lhe um sinal de adeus que só dos dois foi percebido, alçou a voz para as turbas e clamou:

— Marchemos, amigos. Ordem! e que não haja desman­do, nem se faça desaguisado a ninguém.

— Viva, viva! Marchemos! — respondeu a multidão entu­siasmada.

Vasco desceu rapidamente a escada da casa de Aninhas; qual foi a sua admiração, ao chegar à porta da rua, de en­contrar ali aparelhado e pronto, o seu nobre, o seu querido alazão que ainda há pouco entregara ao palafreneiro do bis­po, e que tãolonge estava de o tornar a ver tãocedo!

Não foi por certo maior a alegria de Palmeirim ou de Amadis, ou do próprio Florismarte de Hircânia, quando, ao sair de longo encantamento, ao desembocar de alguma ca­verna de leões, de algum antro de ogres polifemos, davam com seus queridos ginetes que tinham deixado dali umas duas ou três mil léguas, e agora lhes apareciam selados, em­bridados e prontos, batendo o pé de contentamento, e sacu­dindo as flutuantes clinas com o prazer de tornarem ver seus donos.— Como aqui, meu nobre alazão! — dizia Vasco amiman­do-o, correndo-lhe a mão pelo asseado colo: — meu destemi­do, meu valente! Quem te tornou a minhas mãos em tãoboa hora e quando mais te desejava e te preciso?

— Eu, que o não deixei levar para o paço — respondeu Garcia Vaz. — Pudera! Em tempo de guerra, cavalos são muniçôes e bastimento de guerra, não se deixam passar para o inimigo. O nosso capitão não nos havia de comandar a pé; e outro potro como este não o há em toda a cidade, nem talvez em toda a comarca de Entre-Douro-e-Minho. Sabe­mos da afeição que lhe tendes... E assim, boa presa! —Largue-lhe as rédeas, tia.

Vasco, enlevado em mirar o seu querido alazão, não havia até ali atentado no estranho pagem em que lhe tinha a ré­dea. Era uma velha muito velha, mais velha que o seu recosido mantéu, encolhida, corcovada, e com a cabeça to­da envolvida num capuz enorme cuja extremidade lhe caía pelas costas, como capuz de dó; e ela atordoada num cajado retorcido e enverrugado como ela; uma verdadeira bruxa em pele e osso — não possodizer em carne, porque a não tinha.

— Sim, sim — regougou a velha: — as rédeas lhe largo e em bem as solto a quem tão bem as sabe tomar e governar! Benza-o Deus! E que gentil moço que ele é, o nosso capi­tão!

Mal tinha dito a velha as primeiras palavras, que já o bom do estudante, suspenso, tomado como de um assombra­mento repentino, punha nela os olhos espantados, e nem já o alazão, nem mais nada já via de quanto o cercava.

— Tomai, tomai as rédeas — disse a velha com uma certa inflexão significativa na voz, que o advertiu de pôr tento em si: — tomai, e cavalgai, que são horas.

Ninguém mais percebeu esta inteligência que passava en­tre a velha mendiga e o caudilho da revolta. Ele caiu em si com efeito, montou rapidamente a cavalo, e tomando a frente de seu pouco ordenado exército, se pôs em marcha para as antigas casas do Senado portugalense.

— Bendito sejas e bendito vás, — ficou murmurando a velha — que assim enches de luz e de alegria os olhos da mãe que te criou!

E sumindo-se entre a multidão, e por alguma viela bem esconsa se escapou, não sei por onde nem para donde, que ninguém mais a tornou a ver.

CAPITULO XXVI

E ANINHAS?

E Aninhas? E a pobre Aninhas que está no aljube? Que é feito dela, senhor historiador? Deixa-se assim por tanto tempo nas asquerosas enxovias de uma prisão a uma bela ra­pariga tão interessante, tãoboa, a amiga da nossa Gertrudes, a Helena enfim desta Tróia, por cujo roubo arde já ainvicta cidade nas labaredas da revolta, da guerra civil quase? E passam-se s e s — a qual mais peque­no, é verdade, mas são muitos — sem nos dizer o descuidado cronista o que é feito dela?

Contesto, amigo leitor: a culpa não é minha. Cervantes não podia ser responsável dos descuidos e lapsos de Cid Ha­mete Benengeli. Se Dulcinéia está mal-encantada, e tãodepressa a vemos trotando na sua burra pelos campos de To­boso, como passeando com suas donzelas nos deliciosos jar­dins da Cova de Montezinos; se o nosso amigo Sancho apa­rece aqui montado no seu ruço, que duas páginas antes lhe subtraira tão sutilmente dentre os calções o honrado Ginez de Passamonte — é o cronista mouro, não o seu ortodoxo editor, quem tem a culpa desses lapsos.

O mesmo me sucede a mim com esta verídica história do meu Arco. Traduzo umas vezes, copio outras, segundo a vetustade da linguagem o pede, no precioso Ms. que tive a fortuna de achar. E se alguma reflexão ou ponderação mi­nha lhe ajunto em forma de glosa, nunca me meti a alterar a ordem da história, e sigo fielmente o douto Grilo a quem devemos estas incomparáveis memórias que tanto ilustram e engrandecem a nossa cidade e a história do senado e povo portucalense.

Tenha pois paciência a bela Aninhas; por ela e com ela a tenha o leitor benévolo, que antes de corrermos os ferro­lhos e de abrirmos os cadeados do aljube episcopal, temos de subir outra vez as escadas do paço, de atravessar suas longas salas, e de tornar a entrar naquele misterioso e reca­tado gabinete onde, pouco há, vimos revestir-se da púrpura e arminhos, adornar-se de todas as fastosas insígnias da au­toridade eclesiástica e feudal o arrogante senhor da nossa terra.

Antes que, nas vizinhas ruas de Sant’Ana e Banharia, se passassem os estrepitosos acontecimentos que nestes últimos s foram relatados, tinha acabado em Gala, na antiga capela de São Marcos, da outra banda do rio, a solenidade religiosa do dia: e cônegos, capelães, cantores, ministros su­periores e inferiores, cada qual como pôde, e fora de toda a forma de procissão, como é de uso, tinham voltado para a cidade. Nem esperaram pelo costumado jantar que as au­toridades do Burgo-novo eram teúdas de dar, senão por foro escrito, ao menos por usança e vêzo antigo: jantar que lhes valia os três dutos de turíbulo e a jaculatória de Boa gente, boa gente que na primeira parte desta história menciona­mos, e que ainda em nossos dias se davam e rezavam, como aí refiro. Pois desta vez a boa gente de Vila-nova ou Burgo­-novo, lá se comeria as suas fanecas e azevias, porque nem um menino do côro, nem o maceiro do cabido lhe quis fazer honra ao seu jantar das ladainhas: tão assaralhopados anda­vam todos, e tanta pressa tinham de vir meter-se em suas casas.

O bispo fora dos primeiros a retirar-se. Cavalgando sua mula branca, de rica gualdrapa de veludo carmesim com passamanes e franjas de ouro, acompanhado de seu alcaide-mor que trazia à direita, seguido de muitos ovençais, fami­liares as mais pessoas de seu trem e estado secular, todos ar­mados — e ele com todos— entrara senhor temido e podero­so na sua boa cidade do Porto, de donde, há pouco, saíra pastor de povos e apostólico prelado. Passou o rio na sua grande barca, dita a “barca da Sé”, subiu até o paço, deu ordem ao alcaide-mor para que tivesse tudo em armas e em som de guerra, mas caladamente e que o não suspeitassem na cidade; e ele tornou para o seu gabinete.

— Que me chamem Fr. João, que me avisem em voltando Vasco, e por agora que me deixem só. Ficai vós, Pêro Cão.

Assim disse o bispo, entrando para o seu gabinete: e as­sim fizeram todos como ele disse.

Só está o príncipe da igreja. Só com o seu primeiro mi­nistro, e esperando o seu principal conselheiro, O prelado parece alegre e de bom ânimo, Pêro Cão menos triste que esta manhã. Talvez ainda na face patibular do ministro, se possa divisar uma tentativa de sorriso; amarelo sempre, é verdade, e torcido de ruim torcer... Mas não entravam de outros sorrisos naquela cara.

— Com que, — disse o amo, reclinando-se a gosto no alto espaldar de sua cadeira confortável. . . tão confortável quan­to cadeira o podia ser no décimo quarto século. — Com que, estás melhor, Pêro Cão, com menos medo?

— Agora vamos andando: a arraia-miúda sossegou. Mas esteve danada!

— Se lhe tinhas mordido tu!

— Morderia, morderia: mas se fui eu que os danei, al­guém me danou a mim primeiro.

— Não desatines, Pêro. Estás por saber ainda que há ali­márias ferozes e cervais, de tão ruim sangue e tão perversos humores, que, sem que a baba de outro nenhum animal as toque, com sua própria maldade enraivecem e se danam?

__ Hum!

— Hum! Isso mesmo: rosnas como dogue velho e comi­do de tua má rabuge peçonhenta. Eu, é verdade, que te di­go: “Fila!” e tu filas: cão és, para isso te comprei. Mas não te digo: “Rasga, fere, despedaça!” como tu fazes. Por tua conta e risco o fazes, à lei da tua má e perversa natureza que nunca pude domar nem ensinar. E olha que disse:

“por tua conta e risco’. Risco disse, Pêro Cão; e desejo que saibas que eu te não torno a livrar das garras do povo, como hoje fiz. Para outra vez lá te avirás com eles. Que te en­forquem à sua guisa e que me deixem.

— Enforcar!

— Enforcar. Pois que pensas tu, homem? Entre esse pescoço e a corda de esparto há uma atração tão visível e poderosa, que, mais dia menos dia, Pêro, não te vejo outro remédio senão ires bailar onde tens feito bailar a tantos.

— Tendes um modo de gracejar!... E quando estais de bom humor, dizeis coisas que de verdade fazem rir a gente!

E riu... Pêro Cão riu. Mas que riso! Se a boca do in­ferno rir, como eu espero e creio, quando por ela entrarem certos maganões que nós sabemos, há de ser assim que ela há de rir.

— Não gracejo — tornou o bispo, — falo sério e de muitas veras. Faze por ter amigos no povo, porque se eles me vem outra vez pedir essa feia cabeça. ela é tão feia, Pêro, que te juro...

— Para me eu fazer amigos no povo... é a coisa mais fá­cil que há.

— Como assim?

— É fazer-me eu inimigo de.

— De quem?

— Inimigo vosso.

— Ah!

— Como fez Rui Vaz e seu irmão Garcia Vaz, que fugiram do paço, como sabeis, e se desquitaram de homens vossos; e não queria senão que vísseis as palminhas em que os traz o povo por essa cidade.

— Os traidores! — exclamou o bispo, levantando-se e pas­eando a grandes passos a cólera que o fazia saltar. — Os traidores!... Olho neles, meu Pêro Cão. E em sendo tem­po, e que eu te diga: “Fila”

— Não filarei.

— Como? não filarás!

— Hum!

— Ah! também tu?...

— Eu não quero ser enforcado.

— Não? Pois o teu querer faz pouco ao caso: porque se­ja o povo que te pendure, como Judas, no cano de algu­ma figueira; ou eu que te mande balouçar em certa árvore seca de três paus — a coisa não faz muita diferença para ti, creio eu. E de um modo ou de outro, a doença de que hás de morrer, já a sabes tu. Assenta a tua alma nisso, deixa-a nas mãos do demo, cuja é desde que nasceste; e vamos a outro conto.

Pêro Cão tornou a sorrir de seu verdadeiro sorriso de en­forcado: por modo que lhe quadrou o dilema do bispo, e o deixou tranquilo, O prelado fixou nele seu olho perscru­tador, e sentando-se outra vez mais sossegado, disse:

— Toma esta chave, abre aquela porta, e vai, pela pas­sagem oculta que sabes, às enxovias do aljube.

— E a quem quereis que?... — tornou o monstro, esbu­galhando-se-lhe os olhos de hiena, e completando a reticên­cia com um acionado horrível que significava estrangular; o sonho constante, o ideal sempre desejado de sua negra vida.

— A ninguém, magarefe — respondeu o bispo assustado:

— A ninguém! E sobre tua cabeça, que te não atrevas a tocar um só cabelo da sua.

— Ah! já entendo, — tornou o canibal, adoçando — que adoçar! — numa expressão de malicia crapulosa os enrija­dos músculos daquela cara de leopardo: — Já entendo. — E piscou obscenamente um olho injetado de sangue que fazia mal ver assim. Oh! antes vê-lo arder com a sanha da car­nificina, do que amolgar e derreter-se asquerosamente na torpe e brutal lascívia que aí chameja agora... — Já enten­do: quereis que a traga com boas palavras, que lhe diga...

— Não quero que lhe digas nada, senão que mando eu que venha à minha presença.

— E se não quiser por bem, já se sabe...

— Nada de violências, dogue! Nem são precisas. Virá logo: sei que o deseja.

— Ah! ah! se tendes um jeito, uma lábia para as levar...

— Silêncio, bufão, e andar.

A má besta descaiu o focinho e a orelha com esta rebuta­da do dono; e levantando o pano-de-rás no sítio que ele bem conhecia, abriu a porta secreta e desapareceu nas trevas da obscura escada de caracol que levava aos subterrâneos do pa­ço, às enxovias do aljube e aos outros criptos episcopais, só dele sabidos e de seu amo, que a ninguém mais confiava aquela chave nem revelava os negros mistérios que ela fe­chava.

XXVII

PECADOS VELHOS

Só ficou o bispo, só com seus maus — e por que não tam­bém com algum de seus bons pensamentos? Rara é a alma perdida que, na solidão e longe do olho do mundo, não sen­te, quando menos, picar-lhe o remorso numa asa do cora­ção, e dizer-lhe: Que fazes!... — ou: Que fizeste!... O remorso é o bom pensamento dos maus; é o último dom que à despedida nos deixa, quando se vê obrigado a desamparar-nos, o anjo que desde o berço tomou conta de nossa vida. E jamais o instinto, o desejo do bem se chega a apagar de todo no homem: é o fogo santo que até o derradeiro ins­tante o alimenta. Se amortiça com a cinza das maldades, se não vemos a sua luz com o negrume dos vícios, ele lá está contudo sempre vivo no fundo do coração. Um sopro que de longe lhe dê o anjo que de nós fugiu, e que do céu nos contempla com lágrimas de dó e de entranhável piedade. um sopro só basta para o reanimar e avivar.

Oh! e na solidão é que mais sentimos o sopro celeste avi­var a santa luz de nossa alma. Pena do mal feito, temor do mal que se intenta fazer, saudades da perdida inocência, fastio dos tristes gozos do vício, travor amargo dos crimino­sas deleites, suaves recordações da infância, lembranças dos conselhos paternos... E vós, mais que tudo, queridas memórias da mãe que nos teve nos braços, o que sois vós todos, pensamentos que acudis nas horas da solidão? Oh! que sois senão o lampejar que se anima, o luzir que se revive da ce­leste luz do Bem que Deus pôs inextinguível em nossa alma?

Este homem, que desonra o augusto caráter de sacerdote e de prelado, que enxovalha a mitra do apostolado evangé­lico nas torpezas de Babilônia, e com a mesma mão com que toma, no cálice, o sangue de Cristo para o beber no altar, empunha a taça das prostituições do Egito, para a sorver nas temulentas orgias dos lupanares — este homem sagrado ao pé da cruz no alto do Calvário, e que desceu aos vales de Sodoma e Gomorra, a banhar-se no lago de betume arden­te, queimando em suas mãos excomungadas o óleo santo com que o ungiram em pontífice do Crucificado, este gran­de criminal, este pecador escandaloso não era contudo um monstro: era una homem perdido do vício, cego do poder, corruto pela riqueza, gafo da má lepra que, naqueles tem­pos de soltura e prepotências lavrava tão geral pelos pode­rosos da terra, seculares e eclesiásticos, a lepra era a mesma. Piores foram depois os Bórgias, e sentaram-se na cadeira de São Pedro: a Sé portucalense não chegou a ver, como a ro­mana, Nero e Heliogabalo com a cruz ao peito, a mitra —ou a tiara — na cabeça, e os fiéis prostrados aos seus pés.

Não. E desta mesma devassidão que tanto nos escanda­liza, e ainda hoje faz execrar a memória deste mau bispo, raros, raríssimos exemplos houve na nossa terra. O que se­rá daqui em diante não sei, desde que o episcopado se tornou eletivo — dizem as revelações do mano Licurgo — o conclave noturno, e que os cardeais dele são o irmão terrível, e os irmãos mais ou menos vigilantes que têm o exclusivo de velar pela salvação e salvatério da Igreja e do Estado. Não sei, não sei; e não sou eu que o digo, são eles. Mas se esta­mos condenados a ter bispos feitos assim, que vão Suas Ex­celências Reverendíssimas pregar aos peixinhos do mano Afonso de Albuquerque, porque as homílias deles acho que será pecado mortal ouvi-las a gente.

Pois, nem mau homem sequer era aquele mau bispo; per­doem-me dizê-lo, mas com o próprio demo se deve ser justo.

Sua mocidade leviana e solta tinha-se passado nos campos tumultuosos e indisciplinados da guerra civil, palestra a mais desmoralizadora de quantas há. A opressão, a violên­cia, o latrocínio e o homicídio são virtudes às vêzes, no cre­do faccioso, são ações indiferentes, quando menos, se pratica­das contra os do partido contrário. Vizinhos, amigos, pa­rentes que sejam, quanto mais perto de nosso coração está a vitima, tanto mais se exalta por virtude o crime, porque mais desnatural é.

Vem depois o descanso da paz — que não é descanso, mas o cansaço da guerra — e são os homens criados nessa escola os que têm de ir exercer os cargos todos da república, sentar-se nas cadeiras curuis do senado, julgar nos tribunais, mi­nistrar nos altares... Santo Deus!

Tal fora feito este bispo, só porque da facção dominante, filho de uma família poderosa, e ele menos ignorante que o resto de sua ilustre família. Elevaram-no ao episcopado as intrigas dos nobres, tão onipotentes então como as dos merceeiros hoje. A cruz que trazia ao peito, não a tinha porém no coração. O Evangelho, que lhe puseram às cos­tas, não lhe pesava porque o não entendia nem o sentia. Acreditava piedosamente que nascera para mandar e gastar, os povos para servir e pagar. A el-rei, seu senhor susera­no, estava pronto a servir com tantas lanças e bestas, quantas lhe eram devidas: em nada mais se julgava teúdo de obedecer-lhe, ele, príncipe da Igreja, e só dependente do papa. De suas devassidões e orgias brutais, tinha um pe­queno, um tal qual remorso, porque enfim era eclesiásti­co, era prelado: mas bestialmente pensava que uma absol­vição de Fr. João da Arrifana, ou de outro frade seu cúm­plice nas mesmas torpezas, bastava para o remir desses pecadilhos, porque enfim, enfim, não eram condessas nem ricas-donas as que ele tinha roubado — seduzido ou compra­do pela maior parte... Violência não a fizera a nenhuma.

Oh! sim fizera... E com vil traição, com pérfida aleivo­sia!... Uma vez, há muito, e não era bispo ainda, mas sim­ples cavaleiro, soldado, comandando uma partida de faci­norosos, com o título de aventureiros, ou de voluntários, ou do que quer que então se chamava a essa peste. Eram uns bons patriotas (estilo de todos os tempos) que pelos verdes campos de entre Lis e Lena, faziam a guerra, em nome de el-rei, e contra o infante, mas por sua própria conta deles, contra os porcos, as galinhas, as vacas e as searas dos lavradores.

Uma noite escura, que não havia lua nem estrelas no céu, iam soltos e em grande algazarra pela campina e perto já dos antigos pinhais que por ali entestam. Senão quando, ao chegar-se mais a eles, foram cair numa emboscada de homens do infante — outros que tais facinorosos como eles — que os destroçaram e retalharam sem dó nem piedade, e que, tendo feito o seu feito, fugiram. Quase toda a alca­téia ou guerrilha, do que hoje é bispo, ficou estendida de­baixo dos pinheiros; os poucos escapos deitaram a bom cor­rer para bem longe; e entre os mortos e moribundos ficou o próprio capitão. Estava ele ainda com vidas mas já quase sem alento, e derramando de muitas e largas feridas o últi­mo sangue das veias golpeadas. Vinha alvorecendo a ma­nhã que ele já não via, e despontando detrás das colinas o sol que não tornaria a alumiá-lo, se àquele tempo ali não passasse um homem ancião de longas barbas e longas ves­tes, calva a fronte, mas coberta de uma touca alva e alaran­jada que bem denunciava sua origem oriental. Abordoava­-se num bordão branco, trazia pendentes ao peito uns rolos de pergaminho, e à cinta uma larga bolsa de couro em que tiniam redomas, utensílios de vidro e de metal, ao que pa­recia.

Voltava o velho de uma aldeia perto, onde fora acudir a um seu parente que se morria de febres malignas, e recolhia agora aos subúrbios de Leiria, sua ordinária residência. Pa­rou ao ver aqueles homens mortos à beira do pinhal; e se parecia um levita venerável no trajo e ademã, um velho dou­tor da lei — o seu coração era o do samaritano caritativo; porque não pensou, não hesitou, nem se pôs a rezar, senão que, um por um, se foi percorrendo aqueles mutilados cadá­veres, ou que tais pareciam, a ver se algum podia salvar ain­da, administrando-lhe o vinho e o óleo da parábola do Evan­gelho — em que ele não cria porque era israelita o velho,sincero e estrênuo professor da lei antiga.

Tudo achou morto; só vivia ainda o cavaleiro, mas pró­ximo a finar-se de exausto e abandonado. Conheceu po­rém o velho que havia esperança e remédio possível, tirou da sua bolsa fios e bálsamos com que lhe pensou as feridas:depois um elixir milagroso de que lhe deu algumas gotas a beber; e reanimado assim, o levou consigo, meio de rastos, meio às costas, porque mais não podia o velho.

E felizmente que não morava longe: era à outra beira do pinhal, perto dos muros de Leiria, nuns barracões baixos, sem aparência alguma exterior, mas que por dentro tinham mais cômodo e conforto, mais luxo, mais elegância e rique­za, respiravam mais civilização e mais gosto do que nenhum palácio de rei cristão em toda a península das Espanhas.

Saíram a recebê-lo seus criados e família que o estavam es­perando e que de longe o viram vir. Veio a velha Sara, sua esposa, e Ester a sua querida, a sua única e adorada filha. Quando o viram assim curvado sob o enorme peso daquele homem meio morto, vestido de ferro, e ambos escorrendo em sangue:

_ Bendito seja o Deus de Abraão! — exclamou Sara: —porque tu não vens assim, amado de aninha alma, senão por­que algum bom anjo te deparou a ocasião de fazeres bem a teus irmãos. Salvaste esse homem da morte?

— Ainda não; mas espero.

— Já nisto lho tinham tomado os criados em braços, e o le­vavam para o melhor quarto da casa senão esperar ordens do amo: era sabido e costumado aquilo. O velho acompanhou o moribundo, e o viu deitar na cama, e ajudou a colocá-lo na posição mais conveniente, e de novo e com mais tento lhe visitou e pensou melhor as feridas, duas das quais pare­ciam mortais.

Mas a Caridade é uma virtude que não desacompanham jamais suas duas irmãs, a Fé que dá o ânimo, e a Esperan­ça que alenta o coração.

— Veremos, veremos ao levantar do aparelho. Deus nos acudirá.

E o ancião e a sua velha esposa e a sua jovem filha entre si repartiram logo as horas da vigia em que haviam de reve­zar-se junto ao leito do homem... E nenhum sabia, e ne­nhum perguntou que homem era.

Em poucas horas se declarou uma febre tremenda, e o ve­lho desanimou. Assustou-se, digo. não desanimou; mas as­sustou-se muito. Junto ao leito do infeliz que, de olhos fe­chados, prostrados exânime, apenas soltava uns gemidos sur­dos e abafados — ele com a mão no pulso do enfermo, e os olhos ora no rosto que lhe afilava, ora no livro que folheava inquieto, parecia disputar com a morte que lho queria rou­bar, e afugentá-la com o poder sobrenatural da ciência, com a fé ardente da religião.

E venceu o velho; venceu ao cabo de horas e horas, de dias e de noites de susto e de incessante desvelo, em que um só instante não deixou o doente, ministrando ele por sua mão os vários remédios que ia aplicando; e ora a mulher, ora a filha o ajudavam. que de seu lado não saíram. De­clarou-se uma crise subitamente, a febre cedeu, e o mori­bundo escapou à morte.

Abraão Zacuto, que este era o nome do velhos prostrou a sua face por terra; Sara e Ester se prostraram ao pé dele, e juntos clamaram:

— Bendito seja o senhor nosso Deus, porque salvou o ho­mem estrangeiro, e deu glória e honra à casa de seus servos!

Passam dias, semanas, as feridas vão-se fechando, as dores acalmando-se; e quase não havia já no enfermo outro mal senão uma debilidade extrema. E Abraão disse a Ester:

— Filha, o nosso hóspede está curado. Eu tenho de ir a Granada, porque os nossos irmãos precisam de mim ali. Tu velarás nele, e dirigirás sua convalescença, que há de ser longa e difícil. Tua mãe precisa descanso, porque os seus dias são muitos e o seu corpo está débil e enfraquecido. Adeus, e que o Senhor te abençoe!

O velho partiu, e Ester ficou à cabeceira do enfermo.

XXVIII

MAIS PECADOS

As horas do dia são longas para quem jaz prostrado num leito de dores. Mais longas as da noite que ali se velam. Que seria do cavaleiro se não fosse a companhia de Ester?

E ela era bela, de uma beleza toda judaica, toda árabe. A figura alta e esbelta, as formas severas, sem moleza nenhuma nos contornos, o rosto oval, a tez morena, os olhos negros, faiscantes, a testa breve, mas perfeitamente desenhada, os sobrolhos um tanto juntos, o cabelo, preto, fino — fino de uma fartura e formosura surpreendente. Uma túnica alvís­sima de linho orlada e cingida de cramesim era o seu trajo habitual e único.

Imaginem esta visão arrebatadora entrando a cada instan­te no quarto do convalescente, volteando nele para mil coi­sas, dando-lhe os remédios, os alimentos, trazendo-lhe ora flores para lhe refrescar o olfato, lendo-lhe ora para o dis­trair, outras vezes cantando-lhe daquelas cantigas simples e magoadas, quais lhas ensinara sua mãe, e a sua mãe a dela, e assim, de geração em geração, tinham vindo desde séculos remotíssimos; ecos perdidos das velhas memórias daquela pátria para sempre perdida, daquela Sion santa de que o Is­raelita foi expulso, e que terá de chorar em perpétuo exílio até à consumação dos tempos.

O cavaleiro bebia a longos tragos neste filtro que o em­briagava, e lhe tinha em contínua excitação os sentidos que ia recobrando com a saúde. Ester não o percebia, nem lho dizia ele. Seus olhos fuzilavam de desejos; e os dela fica­vam tranquilos e inocentes como se aquele homem que ali estava fosse seu irmão. Algumas noites, que lhe ele parecia mais agitado, não queria descansar ela, nem deixá-lo entregue à vigilância, todavia bem cuidadosa, dos servos; mandava pôr no chão uma camilha, e ali se recostava vestida para lhe acudir, a suas horas bem certas, com as bebidas cal­mantes que o pai deixara prescritas.

Foi numa dessas noites que ele pareceu mais agitado do que nunca, e que ela mais quis velá-lo. A noite era de calma, o dia tinha sido afadigado, pesava no ar uma eletrici­dade opressora... Ester caiu em profundo sono.

E sonhou, sonhou — era uma opressão, um pesadelo!... Depois uma dor agudíssima... misturada de inexplicáveis deleites...

Ester despertou fatigada, moída, meia morta. Veio a razão, veio a reflexão, o instinto, veio a recordação confusa do que lera e mal entendera nos livros de seu pai... Pouco a pouco rompeu e se fez em seu espírito um clarão medonho, alumiou todas as misteriosas sensações dessa noite. Santo Deus!

Era dia claro. A desgraçada não disse uma palavra, não deitou um volver de olhos para o cavaleiro, que dormia tran­quilamente em seu leito. Concentrou em si aquela dor in­finita, aquele opróbrio sem nome.

Saiu do quarto, e foi dizer a Sara:

— Minha mãe, eu estou doente, e o estrangeiro não tem já nada. Deixai-me ir deitar; e despedi-o, se vos praz.

Naquele dia saiu o futuro sacerdote de Cristo da desonra­da casa do médico israelita. E desde aquele dia Ester nunca mais riu nem folgou nem viveu como dantes. Enferma do corpo, a razão fugindo-lhe a espaços, não sabia a mãe que lhe fizesse; e Abraão tardava em voltar de Granada, tardava e não acabava de chegar.

Passaram muitos meses. Ester ia a pior; Sara escreveu ao marido que voltasse, que viesse salvar sua filha que lhes morria. EIe cortou por tudo, partiu logo e veio, trazido por aquele amor que não tem igual na natureza. Mas, à véspera de sua chegada, Ester desapareceu de casa, e nunca mais puderam saber dela.

Dias depois Abraão Zacuto dormia com seus pais, e Sara junto a seu marido para sempre.

Um parente arredado, mas único que aí havia, tomou con­ta dos imensos bens e riquezas da família, como curador da ausente. Era esse um honrado judeu que administrou a he­rança com fidelidade e consciência, que não queria acredi­tar na morte de Ester, e que protestou que havia de esperar por ela enquanto não tivesse plena certeza de que era fa­lecida.

A morte de Zacuto foi sentida por toda a parte, e até sin­ceramente chorada na corte de Afonso IV. Queria-lhe el-rei de simpatia e de obrigação; e poucos ali havia que lhe não devessem muito: a saúde que lhes ele recobrara, os di­nheiros que lhes emprestara. Mas a morte de que morrera, ninguém na sabia.

Ao chegar à corte aquela nova, um fidalgo dos que aí andavam pareceu mais impressionado com ela do que nenhum; e mais que nenhum perguntava, queria saber a causa de tão inesperada e sentida morte. A corte estava em Coimbra, ele montou uma noite a cavalo e tomou o caminho de Lei­ria, só, sem escudeiro nem homens de armas, e ia triste, pen­sativo, carregado de profunda melancolia. E contudo esse era o mais leviano e descuidado de quantos calçavam esporas de ouro e cingiam cinto de cavaleiro naquela corte.

Sete dias andou por lá; mas a Leiria não chegou. E di­zem que, pouco além de Condeixa, pernoitando em casa de um lavrador abastado, por nome Gil Guterres, que ai tinha suas granjearias — dera com uma mulher meia morta num palheiro, onde por caridade lhe haviam dado pousada; que se doera de seu desamparo e a tratara com desvelo, mas que fechado com ela estivera toda a noite e todo o dia seguinte, sem consentir que ninguém mais lá entrasse. Ao cabo do outro dia houve longa e animada conversação entre o cava­leiro e o filho da casa, Paio Guterres, moço de prol e grande escolar, isto é, grande estudante, a quem todos queriam mui­to por ali. E dessa conversação veio a sair que a mulher do palheiro foi transportada para uma casinha mui linda que ficava na encosta do outeiro, muito para lá da igreja, ao pé dos sicômoros e quase à beira do regato. A casa era do filho, que lha tinha dado o pai, para ele ali fazer sua estu­daria, e ter seus livros, por onde lhe chamavam a "estudaria da Granja”.

O cavaleiro voltou para a corte; e a pobre mulher ficou na Estudaria, só ela, com uma criancinha linda como um anjo, que em pouco tempo cresceu em força e em graças, e era o amor e o encanto de toda a gente. Quando digo “a pobre mulher”, é de lástima e dó que tenho de a ver tão só, tão triste e desconsolada sempre; que pobreza era o úni­co mal que ela não tinha. O seu trajar era singelo e de pe­sado luto; mas não havia galas nem riquezas que se não es­perdiçassem no berço e no vestir de seu filho. Filho de rei nunca teve tais mantilhas. E demais, ela dava — dava tudo e a todos quantos necessitavam e lhe pediam, dava com mãos largas, perdidas, como quem não deitava conta ao dinheiro ou lhe não sabia o valor.

Parentes, amigos, nem visitas nenhumas parecia não nas ter. Em dois anos que ali morou, só duas vezes lá foi um judeu velho que vinha das bandas de Leiria; e esse ia e vi­nha, não parava. Também uma ou duas vezes por semana ia passar meia hora com ela o dono da casinha, o estudante Paio Guterres, que lhe tomara grande afeição — outros di­ziam que a conhecia de há muito. Fosse como fosse, ele ia vê-la de quando em quando, como digo, levava-lhe brincos e gulosices para o pequeno, chorava com ela de seus males que parecia conhecer, folgava com a criança que ambos amavam ternamente, e ele quase tanto como a mãe. E assim se pas­sava aquela vida isolada, e como apagada do mundo, senão só que acesa à animadora luz do amor maternal por cuja virtude únicamente existia.

Passaram, como digo, dois anos assim; mas ao cabo deles, sendo já falecido Gil Guterres, e seu filho ausente por negó­cio a que fora a Lisboa, uma noite feia e negra de dezembro. que chovia, fuzilava, e o vento gemia e bradava nos pinhais que metia susto, apareceu à porta da Estudaria o mesmo ca­valeiro da outra vez. Não lhe queriam abrir, ele arrombou a porta e entrou. E no outro dia foram achar a boa mulher desmaiada no chão; a criança faltava; e durante um mês de febre e delírio, ninguém pensou que a mãe escapasse.

Trataram-na com muito amor e caridade as criadas da granja que para lá foram, e que sabiam quanto seu amo lhe queria. E a doente recobrou a saúde do corpo: a do espíri­to não lhe voltou nunca mais de todo. E tanto que, apesar da maior vigilância, um dia desapareceu; e por mais que a buscaram, não tornou a haver novas dela.

Disseram, daí a tempos, que para as bandas do Porto fora vista em trajos de mendiga. E até não faltou quem jurasse que se tinha feito bruxa, e que por tal a mandara queimar o senhor bispo do Porto; mas que lhe perdoaram por fim, e se contentaram de a açoitar no pelourinho. Também ou­tros disseram que ela sempre fora judia ou moura ou coisa assim, e mulher má e de ruins artes, e que por isso lhe tira­ram o filho, em donde se volvera louca, de mau olhado e feiticeira. Tudo diziam da pobre mulher desde que ela desa­pareceu dali. Mas Paio Guterres, quando soube de tais mur­murações, fez uma fala ao povo e lhe protestou que a mu­lher da Estudaria era uma santa, e mártir de piores tiranos que o miramulim de Marrocos. E daí, ninguém mais falou dela, porque Paio Guterres, esse é que era um santo verda­deiro, de bom, de sábio, de temente a Deus; tanto que, dai a pouco se ordenou e se fez grande pregador, e que o fize­ram arcediago de Oliveira, no Porto, em mal que pesasse ao bispo que por então veio a ser; o qual bispo lhe tinha muito má sanha e pior vontade; mas, não se sabe por que, também lhe tinha medo.

Ora o tal senhor bispo, quem havia de ele ser? O mesmo dito cavaleiro que aquela noite descobriu a mulher meia morta no palheiro da granja, que tão caridosamente a so­correra e salvara de morrer, a ela e ao filho que trazia em seu ventre, e que dois anos depois — caso estranho e inex­plicável! — lhe roubara esse mesmo filho, e fora causa de que a pobre mulher perdesse a razão, ou se perdesse na má vida que ora diziam que tinha.

Fosse ele como fosse, o que era certo e sabido é que esse cavaleiro nunca mais foi o que dantes era. Pesado, triste, melancólico e como possesso de um negro pensamento que o avexava, nem as festas nem as batalhas o viram mais. Ti­nha estudado em criança os rudimentos das ciências daquele

tempo com os monges de Alcobaça; deu-se agora de novo aos livros e abandonou todo o trato e exercícios de cavaleiro.

Seria vocação divina? Seria remorso de algum mau feito que o pungia para melhor vida? — Mas ele não era nem mais austero em seus costumes, nem mais temperado em seus apetites. Desgostoso da vida parecia, — disposto a emendá­-la, não.

Sem embargo disso, pensaram seus parentes que ali esta­va um bom bispo para a santa Sé portucalense, porque ele tinha deixado as armas, afetava querer seguir as letras, era seu parente, e enfim porque o bispado do Porto, pingue, de muita dignidade e poder, era mais próprio para um senhor que condescendia em se fazer clérigo, do que para algum fra­de vilão que pretendesse ser bispo por suas doutorices e san­tidades — de pouco preço em vilões a quem nada custam.

Assim o entenderam os do conselho de el-rei; e ou o en­tendessem ou não, assim o aconselharam a el-rei. E o fidal­go, até ali pobre cavaleiro de poucas lanças, foi feito grande senhor, poderoso e rico, bispo do Porto — que é dizer tudo nadou na opulência e se fartou de mandar, de satisfazer suas vontades e apetites.

Era feliz então? Não era. No âmago daquele coração ti­nha-se cravado um espinho agudo, que lho mordia inces­sante, que por acessos o desesperava e o fazia mais mau, mais sobranceiro, mais déspota e cruel do que ele por natureza era.

Na solidão sobretudo, quando o não via ninguém senão a sua consciência, aquele espinho era farpão envenenado que lhe dilacerava as entranhas com uma dor que oh!... Deve ser a pior dor da vida e mil vezes mais acerba que a da morte.

Demos graças ao anjo protetor da nossa existência os que temos a fortuna de não conhecer essa dor.

CAPITULO XXIX

POBBE ANINHAS

Num dos seus mais horríveis, mais tenebrosos momentos estava agora o poderoso bispo do Porto, esperando que o al­goz de Pêro Cão lhe trouxesse a infeliz vítima de seus em­botados apetites.

Lançaria sobre ele do céu, neste feio momento, um derra­deiro olhar de compaixão, o fugido anjo de sua guarda? Veria na mão do Eterno cheia a medida das maldades desse homem, e lhe doeria não clamar um último brado à sua consciência? Devia de ser assim, porque o remorso, o re­morso hoje mais salutar, menos acerbo, porém mais pun­gente que nunca, lhe estava recortando na memória as feições daquele homem velho de alvas barbas que o salvara da morte, que o levara às costas moribundo para sua casa, que o velara noite e dia, que o entregara a sua filha. Sua filha tão bela!... De uma beleza estranha... Mas tão subli­me, tão espiritual, tão pouco para ter excitado nele o bruto apetite da sensualidade! Apetite infame, e com que infa me vilania satisfeito!

Oh! e aquela mulher que embalava uma criança tão linda num berço dourado!... E a quem ele tirou o filho, e o criou, e logo lhe tomou tanto amor, que era o único ser, o único objeto nesta vida que ele soubera e pudera amar!.

Arrasaram-se-lhe os olhos com este pensamento, levantou-se inquieto, abriu a porta que dava para as salas exteriores, chamou por seus fâmulos, um depois do outro, e a todos e a cada qual perguntou sobressaltado:

— Vasco, Vasco? Não o viram voltar ainda? Tornem-me a chamar Fr. João, perguntem-lhe se sabe dele. Vão-me à ribeira saber se há novas de Vasco. Que monte um estribeiro a cavalo, que siga para os altos de além Douro, e que se informe de uns caçadores. Oh! e o alazão!... Que desacerto deixá-lo ir naquele potro... Quem

montou já aí o alazão? Ninguém, estou vendo. É que ninguém mais se atreve com ele. E o alazão conhece-o: é um nobre animal!... E Vasco é cavaleiro para ele.

E mais sossegado com esta reflexão, veio-lhe o arrependi­mento de ter dito tanto, de ter mostrado tanto interêsse. E despediu os fâmulos, e tornou a encerrar-se em seu gabinete.

Aparentemente estava tranquilo agora, mas o ânimo re­volvia-se-lhe de sobressalto em sobressalto.

— Se lhe sucede alguma ao rapaz? Se me tomam vingan­ça nele os excomungados burgueses? Oh! mas não se atre­vem. Malditas mulheres! E que me importa a mim com a tal Aninhas? Uma sensaborona, uma D. Lagrimosa sem sal nem graça! Mas os tontos fizeram tanto, excitaram-me por tal modo os ditos soezes desse vulgacho de tendeiros, tanto me irritou hoje essa canalha com suas altanarias, e tanto farão ainda, estou vendo, que me hão de parecer divinos os olhos pretos da tal Aninhas do Arco... Mas a pobre rapa­riga que culpa tem?... Pois não! Dó dela agora! Era o que faltava. A honesta dama que me diz a mim que não, sem dúvida porque esta farta de dizer que sim a algum aprendiz do marido... algum desses que ai andaram na as suada desta manhã. Pois voto a Satanás.

Nisto bateram com tento à porta secreta detrás da tapeçaria; e o bispo respondeu com impaciência:

— Entre!

Pêro Cão entrou sorrindo de seu infernal sorriso, e pondo­-se a um lado, afastou com muito acatamento o pano-de-ras, e se inclinou — que nem sumilher de cortina a príncipe — a uma pálida e desgrenhada figura de mulher que vinha de­trás dele.

Era Aninhas.

Quanto se pode imaginar de gracioso, de molemente fe­minino e suave, tudo isso era Aninhas. As feições pouco pronunciadas de seu rosto, as formas arredondadas mas débeis de seu corpo alto, fino, e dobradiço como uma vergôn­tea de primavera, tudo nela caracterizava aquela debilidade quase infantina, aquela dependência, aquela fraqueza, que são a maior força de um sexo nascido para obedecer e ser guiado, mas que é ele quem manda e governa — quando quer, quando sabe.., quando a mulher é verdadeira mu­lher, e de seu próprio desvalimento tira o valor imenso que tem.

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