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O ARCO DE SANTANA

Naquele estado agora, no desalinho do seu trajo, no susto que a descora, na aflição que a perturba, Aninhas está mais bela ainda. O gênero de sua beleza é dos que se não trans­tornam com estas ânsias mortais: antes nelas se apura, se afina a suave, e por assim dizer, lenta fascinação de seus en­cantos. O cabelo castanho ondeado caia-lhe desentrançado e longo pelas espáduas mal cobertas de uma túnica de bran­co e de roxo vivo, que era o seu único vestido. Os olhos pardos, grandes, lustrosos, mas sem muita vivacidade, pare­ciam mais os de uma virgem consagrada ao altar. Ninguém pediria paixão àqueles olhos, eles não tinham senão pieda­de, indulgência, uma expressão de bondade que vinha da al­ma. Branca era, mas como é branca a prata fosca: um branco puro sem brilho.

Beleza para a cobiçar a grave, a pesada, a calculada sen­sualidade de um turco. A quem lhe nascem os desejos na alma, a quem não sabe gozar, sentir, senão porque se lhe resolve, se lhe reflete nos órgãos da vida o que lhe vem lá do intimo do pensamento — a esses não creio que os pudesse inflamar muito.

— Senhor, — disse Aninhas, cruzando quase devotamente os braços sobre o seio branco e sereno: — Senhor, vim a vosso mandado; e venho mais tranquila agora, porque as últimas palavras que esta manhã vos ouvi foram quase de paz e de esperança. Que vos mantenha Deus assim, e me deixeis ir para o meu filhinho, que bem sei que está seguro e a bom recado... Mas falto-lhe eu, senhor! Vós não sa­beis o que é faltar a mãe a seu filho. A pobre criança é capaz de morrer de saudades.

— Retira-te, Pêro Cão.

Foi-se a besta feroz, deitando de esguelha, à saída, uns olhos de riso incrédulo à pobre suplicante, uns olhos de grosseira obscenidade que diziam: — Ora basta de pieguices!

O bispo, sentado, com a testa nas mãos, e os cotovelos sobre uma banca diante de si, não parecia ouvir, e decerto não podia ver Aninhas. Estiveram assim algum tempo, sem mais fazer nem dizer.

— Não me respondeis, senhor? — insistiu a desgraçada.

— Calai-vos, mulher: eu não creio uma sílaba de quanto dizeis. Para que é tanta palavra? O que quereis de mim? Ouro, jóias, riquezas, galanices? Tereis tudo isso. E que mais? Ah! sim: vosso marido... Afonso de?... Afonso de Campanhã creio que se chama — dar-lhe-ei um bom em­prego. Fá-lo-emos nosso almudeiro, se tanto é preciso. Pê­ro Cão é um bruto, compromete a minha autoridade, e...

— Senhor, eu não quero nada, senão que me solteis, que me deixeis ir livre para meu filho, cuidar da minha casa. E rezarei por vós à bendita santa, minha padroeira...

Com um gesto de soberano enfado e fastio, o prelado le­vantou o rosto das mãos, e pondo na súplice Aninhas uns olhos ainda mal-assombrados dos dolorosos pensamentos que o tinham estado consumindo:

— Ah!... — disse: — És bonita com efeito. És, és bonita deveras. Não se fez para burgueses râncios tão fina flor de formosura. É que te não vi bem esta manhã. . - és bo­nita.

— Senhor!

— Eu gosto de ti, e te farei quanto quiseres. Sabes? Mas assenta o coração numa coisa: que hás de ser minha, e que sem isso, não sais daqui. Toda a burguesia e populares do Porto que se armem para te vir buscar, el-rei D. Pedro que venha em pessoa pôr-me cerco a meu castelo... Jurei-o, ju­rei-o a este demônio negro que trago em meu peito... Por­que o trago, Aninhas; um demônio negro, implacável, que me destrói as entranhas.. ­

— Misericórdia, meu Deus! — bradou a desgraçada arro­jando-se de joelhos diante do indigno pontífice: — Miseri­córdia, piedade, meu senhor. Oh! deixai-me ir, deixai-me ir, e Deus vos perdoará, e vos livrará desse mau demônio que dizeis. Fazei esta boa ação e vereis. Alguma coisa bem mal feita faríeis, que deu poder ao inimigo para vos ator­mentar. Ponde-o fora de vós assim.

— Cala-te, mulher, que não sabes o que dizes; cala-te, que me exasperas ainda mais recordando-me... ah!

Aninhas chorava, a as suas lágrimas aflitas, mas serenas como a inocência de sua alma, calam aos pés do bispo e lhos regavam abundantemente. EIe parecia amolgar-se-lhe o coração: levantou-lhe a cara, e se pôs a contemplar aque­las feições tão suaves, banhadas naquele pranto tão sentido, e tão mais lindas, tanto mais interessantes assim.

— Que bela és! Que bela estás! Não posso renunciar a ti; bem o vês, Aninhas. É impossível. E para quê? Para que venha outro...

— Outro, senhor, outro! Em que vos mereço que me afronteis assim? O meu pobre Afonso mais justiça me faz: bem sabe ele...

— Sabe, sabe, o que todos os maridos sabem, Mas que seja ele esse portento de nunca vista felicidade conjugal... e que até hoje... vamos! que até hoje mais ninguém tocas­se num tesouro tão difícil de guardar, achas tu que ele, por ser marido, deixa de ser outro para mim? E eu hei de ser tão parvo? Ora vamos, Aninhas, juízo!

— Senhor, — disse a atribulada inocente, pondo as mãos como se fora fazer alguma devota oração a um santo: — eu vos prometo e dou solene palavra que, se me deixais ir livre e sem mancha... Oh! sim, deixai-me, senhor, e eu vos pro­meto — ainda que não sei se é pecado o que vos prometo — mas prometo que me votarei a Deus e à bem-aventurada Sant’Ana do meu Arco, e viverei até o último dia de minha vida, não como mulher casada — pobre de meu Afonso coi­tado! mas enfim — não como mulher casada, senão como se me emparedara viva, e tão só para servir a Deus, e nada mais haver com o mundo!

— Estás louca, mulher!

— Não estou, senhor. Juro...

— Não jures sandices. Vamos, levanta-te.

— Não me levanto enquanto me não prometerdes. ..

— Pois levanta-te daí dos meus pés... Não te quero aí, mulher, anjo ou demônio ou o que quer que tu sejas, le­vanta-te: não te quero aí... não é aí o teu lugar... Levanta-te, ou nada prometo.

Aninhas levantou-se. O seu ar composto e virginal... Por que não virginal? Não chamou Virgilio infelix virgo à outra que disso não tinha nem?... E a minha Aninhas, quanto é na alma e no coração — o mais raro e difícil de achar — pura e inteiramente estava como baixara do céu a este mundo trazida pela mão do seu anjo da guarda. Di­go e redigo, o seu ar composto e virginal impunha ao bispo, acanhava-o. Aquela promessa de se votar a Deus, coisa co­mum nesses tempos; aquela idéia de se emparedar uma ra­pariga tão bonita, tão inocente, como se fora uma velha feia e pecadora — o que todos os dias se via — rompeu-lhe a crus­ta viciosa e endurecida em que trazia envolto o coração, e entrou-lhe pela febra sã, viva e sensível que ficara lá dentro, e que, tanto mais desafeita de sentir, mais profundamente sentia agora.

Olhou para ela com os olhos quase enternecidos, quase paternais, e por momentos lhe esteve a escapar da boca: —Vai-te, anjo, vai-te em paz; e que por amor teu, por tua in­tercessão me perdoe Deus a mim!

Mas o demônio — o tal demônio negro de que era possessa a sua alma, que lha destorcia e arredava de todo bom pen­samento, o demônio vencido aqui, foi chamar a batalha para terreno mais de sua vantagem. Tocou-lhe no orgulho, no amor-próprio e o feriu com uma recordação que Ihos pungia no mais vivo.

— Mas é verdade, — disse o bispo, ferido subitamente da idéia diabólica: — Tu, esta manhã, não me falavas assim. Eram violências, eram brados, eram desconcertos que me ir­ritavam, me exasperavam, e me fizeram jurar que nem an­jos nem demônios te haviam de tirar de meu poder. Como é que tu soubeste, como adivinhaste que esse artifício agora era mais poderoso comigo?

— Artifícios eu, senhor!

— Pois não seja artifício. Mas tu mudaste de tom, de modos; e alguém to insinuou... Oh, oh! já caio em quem foi. Aqui anda São Paio Guterres, o meu bem-aventurado,. o meu beatificado penitenciário.

— É verdade, senhor, que é um santo, um homem de Deus, e que as suas devotas práticas me consolaram e ani­maram naqueles cárceres tão medonhos.

— Ah, sim?... O hipócrita, o impostor é que te ensi­nou essa cantilena? Pois voto ao diabo, cujo sou já agora,. Que...

E remetendo à indefesa vítima, a tomou de repelão nos vigorosos braços, e ia levá-la...

De repente o pano-de-rás estremeceu, e se arredou com o empuxar violento da porta secreta que se abriu de par em par; um clérigo velho, curvado e macilento entrou no ga­binete do bispo, e deitando-lhe as mãos às mãos, conseguiu, pelo inesperado do ataque, vencer a força com que as aper­tava, e desprender Aninhas, que desatinada, confusa, espa­vorida, deitou a fugir para o fundo do aposento, e se foi esconder, como uma criança, detrás de umas cortinas onde havia um grande Crucifixo, com o qual se abraçou choran­do de alegria a pobre — e dizendo: — Milagre, meu Deus!

E por que não seria milagre aquele? Não é grande sacri­fício para a razão humana acreditar na interferência divina, quando a Providência aparece tanto a tempo a proteger o desvalido e a salvá-lo da brutalidade do poder.

Toda a Torre do Tombo fica desafiada em peso para me disputar a autenticidade deste milagre da minha crônica.

O bispo tremulo de cólera e despeito, apenas pôde bal­buciar:

— Vós aqui... vós aqui!... Que atrevimento é este?

— O do vigário e penitenciário desta diocese, senhor bis­po, que entrou no aljube quando acabavam de lhe roubar um preso seu, que suspeitou, que adivinhou quem Iho rou­bava, e veio por esses obscuros subterrâneos...

— Vós! vós só! Impossível. Alguém vos encaminhou por esse labirinto em que eu mesmo talvez me perderia.. . Quem foi o traidor? dizei-mo.

— Bem sabeis que eu não sou homem de traições, que me não sei servir de traidores.

— Não há senão Pêro Cão que saiba... ou a bruxa... Foi a bruxa? Dizei.

— Bruxas, eu!

— Aquela mulher que... Ah, morte de minha vida! Vós e ela, Paio Guterres, jurastes perder-me: bem o sei. Mas eu juro que hoje daqui não haveis de sair, e que...

— Podeis acabar hoje o que há alguns anos começastes. Eu não tenho senão quarenta e bem vedes que me pesa o dobro nesta cabeça. Que mãos me quebraram, me curva­ram, me trouxeram à decrepitude tão cedo, vós o sabeis. E pouco vos custará agora extinguir um resto de vida que está por tão pouco. Mas enquanto o não fizerdes, eu hei de...

— Que fareis vós?

— Lutar com o meu prelado para lhe tirar das mãos esta vítima, para o salvar.

— A mim me quereis vós salvar! E de quê?

— De maiores perigos do que pensais.

— Deixai-me com os meus perigos.

— E de novos remorsos... Também quereis que vos dei­xem com eles? Não tendes já bastante nos que tendes?

— Paio Guterres, — disse o bispo, começando a abater-lhe e espuma da cólera: — vós sabeis toda a fatal história da minha vida, tivestes não pequena parte nela; e permite Deus que eu seja obrigado a aturar a vossa presença na minha ca­tedral, no meu palácio, como a de um remorso vivo e ex­cruciante que me persegue sem cessar. Mas que não abuseis da permissão divina, ou juro a Anás e a Caifás...

— Não jureis tanto, senhor bispo: lembrai-vos que juras­tes, pelos mais tremendos juramentos e imprecações, na mi­nha pobre Estudaria da granja, a uma infeliz mulher que se finava, jurastes de lhe restituir o seu filho...

— Arcediago, essa mulher era uma judia; e eu sou maldito de Deus porque a conheci.

— Era judia, sim, como foram muitos santos patriarcas que nós cristãos veneramos e invocamos. Era judia ela, e seu santo pai que vos salvou da morte, e sua boa mãe que velou á vossa cabeceira, e que ambos morreram de pura má­goa de a perderem... Era judia, oh sim! mas um anjo, uma criatura celeste e sublime. Eu, que a conheci, que a admirei, que a amei e adorei nela a mais perfeita criatura que ainda me apareceu na terra, eu cuidei de morrer quan­do a vi perdida, arrastada por vós na infâmia e na vileza. Não morri de pesar porque me acudiu Deus. Não morri às vossas mãos quando vo-lo exprobrei com tanta veemência, naquela fatal noite da granja, porque... porque também Deus vos acudiu a vós e vos livrou de mais esse crime... E eu voltei-me a Ele, e para o santo ministério de seus altares a que me consagrei. Mas vós, senhor, para que seguistes vós a mesma vereda com tão outros fins e com tão outro pro­pósito? Oh! vós sois meu senhor, meu superior e meu pre­lado: mas perdoai-me que vos fale assim; relevai-me, que é por vós, é por honra deste altar em que ambos ministramos, eu humilde presbítero, vós príncipe da igreja e sucessor dos apóstolos, mas ambos servimos o mesmo Deus, ambos no mesmo altar tomamos em nossas mãos o seu corpo e o seu sangue... Oh, senhor, senhor, acudi, que ainda é tempo, acudi por vós, salvai-vos, e salvai-nos a todos de um grande escândalo, de uma perdição horrível. Entregai-me esta po­bre mulher, deixai-me que a vá restituir ao povo e cumprir a promessa que esta manhã lhe fiz na vossa catedral, no tem­plo do Senhor, na presença de Deus, onde tomei o seu santo nome em vão, e menti... menti por vós, por vos salvar de um desacato e acudir por vossa honra, pela do episcopado e da igreja... menti... oh! fazei que não seja inútil o meu pecado, que me eu glorie nele. Oh! que em memória da­quela infeliz que não podeis ter esquecido... Impossível... que em sua memória façais este sacrifício de vossa vaidade — que outro não pode ser. Deixai-me ir reparar o mal feito; que eu possa ir dizer a essa gente inquieta: O vosso bispo é incapaz das infâmias que lhe atribuem. Ani­nhas ai está livre e pura. Eu velei e eu velarei por ela e por sua honra.

O bispo vacilou, seus melhores instintos tomavam-no de cima. Razão, sentimento, o próprio interesse, tudo peleja­va pelo bom arcediago. Sua eloquência, toda de alma e coração, dobrou o orgulho do altivo prelado — que outras paixões não as havia a debelar ali.

— Paio Guterres, — disse ele — vós sois um virtuoso clérigo, e um honrado homem. Abracemo-nos, arcediago, e... perdoai-me.

O cônego ajoelhou sufocado em lágrimas:

— É a vossos pés, senhor, que me eu hei de prostrar; vós que tendes de perdoar-me, porque sois meu senhor e meu prelado.

CAPITULO XXX

O DITO POR NÃO DITO

O bispo estava com os braços abertos para o seu vigário; uma lágrima, esquecida há tantos anos naqueles olhos que desaprenderam de chorar, tremia-lhe entre as pálpebras se­cas e desacostumadas.

E o bom do arcediago, sem se levantar dos pés do seu su­perior, pelos joelhos o abraçava, regando-lhos do copioso pranto de sua alegria, na satisfação jubilosa de sua santa alma.

É quadro para enternecer anjos e converter demônios ver a humildade da virtude prostrada aos pés do orgulhoso criminoso, que por fim não pode mais senão deixar-se vencer e dominar por ela.

— Abraçai-me e perdoai-mel — clamava o bispo: — Oh perdoai-me! E que Deus se compadeça de mim, e por vossa intercessão me perdoe também, homem santo e virtuoso!

— Ele sim, Ele sim, — respondia o arcediago: — nós somos pecadores ambos; mas Ele vos bendirá, senhor, porque vos vencestes a vós mesmo e triunfastes de vosso maior inimigo.

Neste momento, neste próprio momento um clamor furio­so e destemperado rebentou do lado dos paços do conselho e dentre o confuso estampido das vozes se discriminaram lo­go os gritos de:

— Morra Pêro Cão!... Pêro Cão, e o cão do bispo!

— Viva el-rei D. Pedro! Viva o nosso capitão!

— Venha o nosso pendão!... O pendão da Virgem!

— Liberdade, liberdade!... Abaixo com todos estes cães?

Os braços abertos do bispo estacaram; seu corpo, que se inclinava na deferência e na compunção, ressurgiu alto e se retesou duro e firme. Esses brados refizeram de repente ne­le o “homem velho” e lhe retemperaram o coração na primi­tiva dureza de seu mau natural.

Paio Guterres caiu de bruços no chão e soluçou amarga­mente:

— Meu Deus, meu Deus! é tarde, Senhor... e a vossa ho­ra não espera por ninguém.

— Ouvis? — clamou o bispo, roxo e pálido de despeito, mas a voz segura e mordente de amarga ironia: — ouvis, se­nhor arcediago de Oliveira? São os vossos amigos. Ide pa­ra eles, bom clérigo. Tirai a máscara da santidade, arrojai a garnacha e ide tomar o chuço dos amotinados, cujo sois. Mas dirigi melhor essa canalha desatentada, porque, se os tendes mandado vir dez minutos depois, a vossa obra de traição estava feita, e essa mulher... Que a venham buscar agora, vós ou eles ... vós com vossas hipocrisias, eles com suas insolências: que eu voto a São Judas Iscariote... hão de levá-la feita em postas.

Uma gargalhada diabólica, seca, fria, uma verdadeira gar­galhada de bruxas retiniu (de entre os panos-de-rás, pare­cia) por todo o aposento.

— Ah! — disse o bispo, e correu a casa toda com os olhos turbados. E não viu ninguém.

— Onde está ela, essa maldita?

Paio Guterres levantou-se, e, os braços cruzados sobre o peito, os olhos tristemente postos no céu, não ouvia, senão em rumor vago, as desatinadas palavras do bispo- Mas quando o sentiu, depois de recobrado da primeira surpresa, ir direito onde Aninhas ainda há pouco se escondera como uma criança, toda a energia de sua alma acordou, e segu­rando-o pelas vestes pontificias, com um brado que não pa­recia ser o de sua débil voz:

— Que fazeis, homem perdido? Tremei!

O bispo tremeu com efeito, porque a voz de Paio Guterres parecia a trombeta de um anjo repetindo as cóleras do Se­nhor que o mandou à terra. O arcediago, deitando a mão às cortinas, correu-as, e patenteou aos olhos do indigno pre­lado o que era para fazer ajoelhar impios e bater nos peitos à própria incredulidade.

Cravada numa alta cruz negra e sem mais ornatos, estava a imagem do Cristo, de grandeza natural, não perfeita se­gundo a arte, mas devota e impressiva imagem que tinha não sei quê de divino e de augusto, e refletia a imensa pie­dade do Deus de misericórdias que vem morrer pelos ho­mens. Aos pés da cruz, não a Madalena arrependida que se debulha no pranto de seus remorsos, mas uma pobre criatu­ra, bela, simples, e sem pecados para os chorar, mas que transida de medo se abraça com o santo sinal da Redenção e põe sua última esperança no amparo do Salvador.

Era Aninhas que ali se acoitara, que ali acabava de dar graças a Deus por ver apiedado o seu perseguidor, que ali se encastelara agora de novo como em cidadela inexpugná­vel, quando outra vez o ouviu jurar a sua ruína:

_ Pontífice de Jesus Cristo! — bradou o arcediago: — ou­sareis arrancá-la dali?

O bispo devia de ter dentro de si naquela hora o demônio negro que ele dizia, porque tremeu como o demônio treme da cruz. Mas depressa se recobrou, e sacudindo de si a dé­bil compulsão do arcediago, assim como de sua alma todo o temor salutar de Deus:

— Basta — disse — de hipocrisias e de jogos de crianças. Esta mulher não sai daqui; e vós saí quanto antes, senhor arcediago. Assim vo-lo ordeno, eu vosso bispo e senhor vosso. Parti.

E chegando à porta que dava para as salas de fora, cha­mou alto:

— Olá, Pêro Cão!

O dogue apareceu. Mas não ria agora. Tão lívido e ver­de-negro como esta manhã, trêmulo de raiva e de susto pe­los brados que ouvia, vinha como rafeiro apedrejado che­gando-se para o dono que o chamava.

— Tirai-me daí essa mulher, e levai-a aos cárceres reserva­dos do subterrâneo. Não ao aljube: entendeis?

Pêro Cão deu um ronquido surdo de inteligência.

— Para igual sítio vos devia mandar a vós, senhor arce­diago; mas...

O clérigo inclinou-se e não respondeu mais. O bispo sem olhar para ele nem para ninguém, saiu do aposento, e to­mou para a sala de armas onde estavam muitos dos seus ho­mens e oficiais de sua casa e Estado. E Aninhas, depois de uma última fervorosa oração àquela bendita imagem que, dizia ela, a salvara, tomando a bênção de Paio Guterres, que lhe recomendou de ter bom ânimo e confiança em Deus, se-
guiu resignadamente o seu carcereiro para a profundez das masmorras episcopais.

O pobre arcediago, desanimado, aterrado, meditando sobre as calamidades que de tão perto via já cair sobre aquela casa de maldição, sacudiu suas sandálias do pó infecto que ali se calcava — desse lixo de torpezas em que tão inútilmente fora enxovalhar-se.
E levantou o pano-de-rás, e foi pela mesma escada dos sub­terrâneos... fie só, como? Quem lhe dá o fio desse la­birinto?

Alguém ali havia escondido, que o tornou pela mão e lhe disse baixo:
— Sou eu vinde.

Quem era? Seria a bruxa da seca gargalhada de inda agora? Quem era ela, que fazia ali, que lhe importava?...

A história não diz senão que a dita bruxa, ou não bruxa, levou muito diretamente o arcediago até ao seu aljube; seu porque ele era, como já disse, o penitenciário e o viagário do bispado. Dali sairam logo os dois: mas para onde foram não se sabe... por agora ao menos.

Deixá-los ir; e vamos nós ver o que fazia no entanto a revolta.

XXXI

“SENATUS POPULUSQUE PORTUCALLENSIS”

Não longe das feudais torres da Sé e de seus paços, esta­vam, como tantas vezes temos indicado, os do conselho: aí desde manhã a vereação se tinha reunido no que hoje diría­mos “sessão permanente”. O estado agitado da população, o receio de a ver romper de novo em aberta revolta, conser­vava ali reunidos, vigilantes e consultando da salvação da pátria, os veneráveis membros do senado portucalense.

Ao reverso, porém, do senado de Roma, este é que tinha abandonado a plebe e feito o seu Aventino no monte da Sé. E por mais penas, nem lhe apareceu um Valério Publícola que soubesse salvar a pátria com um conto da carochinha, restabelecer com um apólogo a harmonia entre os poderes do Estado. E quando aparecesse, tinha de lhe suar o topete ao Publícola tripeiro para arranjar uma história que fosse bem o reverso daqueloutra; pois não eram agora os braços e as pernas que recusavam trabalhar para o ventre; senão que trabalhar e muito trabalhar queriam, mas por sua con­ta e risco, e sem lhes importar, em coisa alguma, com a sua municipal e senatória barriga, porquanto era ela barriga quem os tinha abandonado, deixando a bernarda à solta nas ruas, e indo-se fechar e barricadar eles senadores nos pa­ços do conselho.

Estavam porém ali; e consultando e deliberando estavam. Mas o resultado de todas as suas consultações e deliberações tinha sido aquele tão legítimo, tão clássico e proverbial por­tuguês de: AMANHÃ VEREMOS.

Assente e aceite este grande ultimatum da política portu­guesa, que mais há que fazer? Os ministros adormecem nos seus gabinetes dourados, os senadores nas suas curuis de marfim, e os próprio tribunos — quando os há — roncam nos seus escanos de pinho, porque tudo está dito e tudo está feito. Boas noites, amada pátria, e até amanhã.

Muitas vezes chega a dita manhã, o ministro almoça, me­te-se na sege de aluguel, vai para a sua secretaria mui tran­quilamente, seguido do seu lictor posterior, que choita mi­nisterialmente no rocim oficial detrás do currículo excelen­tíssimo, — chega ao Terreiro do Paço e acha a bernarda acampada ali com outros ministros já feitos, que lhe tiram a pasta de baixo do braço, e lhe dão dois pontapés no tra­seiro — sem lhe acudir nem o lictor do chimplim, porque imediatamente o abandonou e se foi postar detrás da outra sege de aluguel do outro ministro.

O senador, como ordinariamente vai a pé, sempre encon­tra no caminho alguma alma benfazeja que lhe diga: “Es­conda-se, olhe que o prendem”. E ele some-se na trapeira, e apela para o seu fiel amanhã, que lhe é muitas vezes in­fidelíssimo, e não chega tão cedo.

Quanto ao tribuno, esse resta-lhe acusar os outros de traidores e de patetas, e ir tramar outra revolução para a tornar a perder.

­Amanhã, santo amanhã de Portugal, que bons sonos dei­xas dormir à gente! Que nos importa a nós que as outras nações andem porque aproveitam o dia de hoje, se nós, por ti, dormimos e somos felizes como uns lazarones sem cuidados!

O senado portuense estava pois firme nestes bons prin­cípios. E demais, como durante a procissão das ladainhas. e muitas horas depois ainda, a revolução cochichava somen­te pelas esquinas, pelas tendas e pelas tabernas, não gritava nem fazia ressoar os anárquicos arames dos terríveis caldei­reiros, naturalmente se tinha ido aquietando a solicitude dos padres conscritos, e adormecendo a sua vigilância.

Referem até alguns cronistas, porém somente como boato a que se não pode dar crédito implícito, que sentindo-se exaus­tos de deliberar — e o deliberar é verdade que exaure —quando foi ali pela tarde, tinham mandado vir da próxima bodega um alentado prato de saborosas tripas, e que em honra da invicta cidade o tinham alojado todo em seus capacíssimos abdômens, diluindo a espessa e glutinosa decocção em sendos pichéis de vinho maduro. O que de tal modo acabou de serenar em seus ânimos os cuidados da re­pública, que, inclinando as veneráveis frentes sobre a banca da vereação, ou recostando para trás as respeitáveis nucas ao espaldar das curuis, unanimemente e sem discrepância de um só voto....adormeceram.

Reinava a santa paz — e se afinavam em deliciosa harmo­nia os compassados roncos dos nossos padres conscritos. Des­de o assoviado falsete de Rubini, até ao baixo azabumba­do da Lablache, todos os sons ali se ouviam e se harmoni­zavam em melodia e consonância.

Ingrato povo! E como tivestes ânimo, gente soez e ma­landrina, filhos desnaturados e mal-nascidos, para vir, com estes berreiros e matinadas, acordar vossos paternais repre­sentantes de um sono tão bem-aventurado e patriótico?

Estavam eles porventura tecendo alguma reste de postu­ras, como hoje se tecem restes de leis, para vos avexar e es­magar? Estavam eles votando sem escrúpulo nem exame, nem remorso, alguns milhões de contos de indenizações pa­ra as pagardes vós e as repartirem eles? Estavam talvez dan­do votos de confiança aos almotacés para vos cardarem a seu talante?

Não, oh! não. Os pais da pátria dormiam, os pais da pátria ressonavam; e os únicos momentos em que a pátria folga, é quando os seus caros papás ressonam.

Dormiam os nossos conscritos o sono da inocência tran­quila e da gula satisfeita, quando subitamente caiu sobre o Capitólio tripeiro a trovoada de vivas e de morras com que o assaltou a plebe insurgida.

Despertaram temulentos e ansiosos. Se algum Breno ga­lego os virá assassinar em suas poltronas, que não eram de marfim por certo, mas de seguro e pátrio castanho? Morre­-se porém no castanho como no marfim: e morrer, de todos os modos, deitado, sentado ou em pé, é sempre secante.

Se será o povo levantado outra vez? Mas o povo estava tão quieto inda agora, e parecia descansar tanto na vigi­lância dos seus magistrados! E eles tinham em discussão, estavam em decocção nas suas meditabundas cabeças, uns planos tão maravilhosos de salvar a pátria!

Não pode ser o povo; ou se é ele, não é contra funcioná­rios tão dignos e tão benquistos que há de estar levantado.

Serenou-os um pouco esta reflexão; e enfim o menos me­droso dentre eles, o nosso Martim Rodrigues resolveu as­somar-se á janela a ver o que era.

Começava a fechar-se a noite, e os muitos magarefes que acudiam ao tumulto, tinham acendido seus clássicos foga­réus, — uns como cestos de arcos de ferro, seguros na ponta de uma lança, e cheios de estopas breadas a que punham lume, e ardiam de uma luz feia e vermelhuça. Muitos des­tes fogaréus rodeavam o asqueroso pendão da revolta; e mui­tos outros volteavam entre as massas do povo, como línguas de fogo infernal que lhes andavam inspirando seu descom­passado ardor.

Com este quadro deram os olhos do nosso magistrado. Seus ouvidos estavam surdos do vozear confuso; mas uma voz forte se levantou por cima de todas e bradou distintamente:

— Leva rumor, e ouçam o nosso capitão que vai falar. Vasco rompeu com o cavalo para ao pé das casas do con­selho, e dirigindo-se ao vulto bem visível do atribulado se­nador, disse:

— Em nome do povo vos requeiro; mandai abrir as por­tas dessa casa, senhores juizes e vereadores, porque nós que­remos entrar. E que se tanja o sino da cidade, porque va­mos deliberar sobre coisas do bem comum que a todos nos importam.

Já os colegas de Martim Rodrigues estavam todos atrás dele para ouvir, sem serem vistos; e todos a uma lhe disse­ram com a voz e com o gesto:

— Respondei-lhe que sim, que sim que já se abre a porta, e o sino se tangerá.

Assim o disse Martim; e Vasco lhe tornou logo:

— Muito bem: melhor é.

— Quando não! ... — começaram algumas vozes a rosnar: — ia tudo com seiscentos mil...

— Silêncio! — bradou Vasco num tom que atalha sempre estes sintomas de anarquia descabelada, quando o brado sai de uma boca respeitada e não suspeita.

Aquietou-se tudo, a porta abriu-se de par em par, o sino da cidade começou a dobrar; e o povo contente de ver san­cionada, ou mais exatamente, regularizada com este formu­lário legal, a desordenada obra de sua insurreição, foi en­trando para a sala das conferências enquanto coube; e aguar­dou tranquilo, tanto os de fora como os de dentro, que se seguisse o ritual usado em iguais circunstâncias, que lhe fos­se proposta devidamente e em forma a questão que iam re­solver — que já estava resolvida, mas que eles ali e por aqueles trâmites queriam ver passar.

XXXII

BIL DE INDENIDADE

Entremos nós, amigo leitor, para a galeria, vamos assistir a esta grande sessão. Já que a urna severa fez dura justiça a nosso pouco mérito e nos não deu nesse augusto recinto onde pousar legalmente nosso assento, — e que nós, escru­pulosos pasteleiros legalistas, não vamos com as turbas con­quistá-lo à força viva, e constituir-nos a nós mesmos em cúria, vamos, leitor benévolo, vamos modestamente para a galeria. Goza-se mais, e no ponto de vista artístico, é muito melhor função.

Não quero dizer nisto que acho melhor direito ao que se mete, por cabala e tranquibérnia, onde o não chamam nem virtudes, nem talentos, nem serviços, nem a confiança pública; digo só que nem de um nem de outro direito quero usar eu, e que os tenho ambos por tortos.

Cá estamos na galeria: vejamos.

Ao topo da larga mesa onde inda há pouco fumava a su­culenta merenda dos nossos magistrados, estava Martim Ro­drigues, o mais velho e o mais respeitável deles. Seguiam os

outros à direita e à esquerda. Vasco, os dois irmãos Rui Vaz e Garcia Vaz, com mais alguns dos principais dentre o povo, tomaram assento entre eles. O resto ficou para aquém da teia. A turbamulta estendida pela antecâmara, pelas escadas, pelo portal, e pelas ruas circunvizinhas. comunica­va, como dizem os teólogos, pela intenção, com os que cele­bravam no interior do santuário municipal.

Sossegado o primeiro arruído, e instalada, segundo hoje dizemos, a assembléia, Vasco, sem esperar mais formalidades, tomou a palavra:

— Senhores juizes, vereadores e homens-bons da nossa terra, aqui tendes o honrado povo que vos escolheu para o julgardes e guiardes, e que ao som de campa tangida, se­gundo nossos estilos e foral, aqui foi chamado, e entrou a deliberar e a tratar convosco, de um negócio e fazenda gra­ve que a todos nos importa, e sôbre o qual estamos também todos resolvidos que hoje se lhe há de pôr têrmo e acaba­mento, como cumpre.

— Sim, hoje, hoje! — bradou a multidão.

— Silêncio, amigos! Estas coisas querem tratadas mansa­mente. Sossegai.

Pasmado estava Martim Rodrigues, pasmado Gil Eanes, pasmados todos os colegas da vereação com verem a Vasco, o estudantinho, o protegido do bispo, alçado em orador do povo, em seu tribuno. E mais pasmavam eles ainda de ver um rapazola, sem autoridade nem substância, exercer tão eficaz império sobre a multidão. Não sabiam que entender nem que pensar. E depois de cochicharem entre si breves momentos, Martim Rodrigues, na sua qualidade de presi­dente, de juiz ou vereador mais velho, segundo melhor quei­ram chamar-lhe, disse gravemente, e cobrindo com o acento autoritativo da palavra o tremor nervoso que o agitava:

_ Pois sois vós, senhor Vasco, o orador escolhido deste bom povo... Conforme vemos...

_ É sim, - bradaram algumas vozes: — para tudo lhe demos poder, e por tudo o que ele ajustar estamos.

_ Assim nos praz — responderam todos.

_ Pois que assim é, — continuou mestre Martim — dizei-vos, senhor Vasco, de sua justiça, e proponde vosso caso para que venhamos no que melhor for.

Tomadas as oratórias precauções de tossir e de se pôr em conveniente atitude, Vasco recorreu por todo o seu saber, que se limitava a algumas reminiscências de Salústio ou de Cícero. Acudiu-lhe o Quousque tandem, estafado exórdio de muito orador noviço, e invertendo-o, para se dar algum ar de originalidade, como tantos fazem, começou assim:

— Assaz têm abusado da nossa paciência, ó juizes, os Ca­tilinas desta mal-estreada terra. As opressões e os flagícios crescem de dia para dia. A nossa substância é devorada, os nossos direitos são calcados aos pés, o foral de São Jorge é uma letra morta, uma carta vã e falsa, de que estão rotos os selos. Nossas mulheres e nossas filhas são roubadas. Os traficantes franceses e flamengos fogem do nosso porto e vão enriquecer de seu tráfico o Burgo-novo da outra banda. Falta-nos o sal para as nossas pescarias...

_ É verdade que falta o sal, está pela hora da morte o sal! — interrompeu a multidão, excitada no ponto mais do­loroso de seus agravos. Um gesto impaciente de Vasco os conteve, O orador continuou:

_ A autoridade pública está toda concentrada no indigno almudeiro, um que é tirado da escória mais vil e soez, que nem da nossa terra, é dessa gente de ganhar que nas co­marcas do Sul do reino chamam ratinhos...

Hilaridade geral. E faltam os apoiados nas notas taqui­gráficas, porque se não usavam ainda então: estávamos, bem vêem, muito atrasados.

— Que antes fosse ele rato que só roesse, e não o cão enrai­vecido e danado que nos morde e dilacera! Nomeando Pêro Cão, tenho dito tudo; recordando-vos o desacato desta noite passada, cometido em casa do nosso comunal e amigo, Afon­so de Campanhã, não tenho mais que recordar-vos. A hon­ra da nossa cidade está empenhada, pedem-nos desafronta a sua glória, os seus interesses, a sua salvação. É preciso que o foral seja uma verdade. Estamos resolvidos a tirarmos do preito e vassalagem de um senhor que nos não ampara nem cata nossos privilégios. De el-rei queremos ser, e de ninguém mais, esta é a nossa proposta; ouviremos agora vosso conselho.

— Bem, bem! Assim é — bradou o povo todo: — A el-rei queremos por senhor, e a ninguém mais.

Burgueses daquele bom tempo inocente, em que tendeiro nem especieiro não sonhava ainda com os baronatos, os vis­condados e as grã-cruzes — nem com a mão ensebada de pesar manteiga aspirava a tomar a pasta de secretário, ou a assentar a nádega lustrosa da calça de couro no veludo das cadeiras do conselho de estado — burgueses legítimos ainda, como eram aqueles pobres pançudos senadores da nossa ter­ra — é evidente que no fundo de suas entranhas — ou, para dar mais cor local à frase, no fundo de suas tripas — achavam eco de simpatia aquelas altaneiras e democráticas palavras do mancebo. Democráticas, porque nessas eras feudais a de­mocracia e a coroa tinham os mesmos interesses, a sua causa era comum.

Estou pensando... E não se arrepiem os meus amigos li­berais!... Que pelo jeito que as coisas hoje levam, antes de muito, o povo terá outra vez de estreitar mais fortemente a sua aliança com a monarquia, para se defender do oniabsor­vente despotismo dos senhores das burras, dos alcaides-mores dos bancos e de todo este feudalismo agiota, que é a fatal lepra da democracia, que a rói e a carcome, e que não vejo forças nem meios — na democracia só — para os combater. As vagas teorias do socialismo, os sonhos do comunismo não me parecem provar senão a impotência da forma contra o poder da matéria.

Olharam uns para os outros os conscritos padres, e cada um viu nos olhos do outro que seus íntimos sentimentos e opinões estavam de acôrdo.

— Sim! — lhes dizia o coração — é justo.

— Não... — sugeria a pança — é arriscado.

E nesta luta de pança e coração os eleitos defensores dos interesses públicos, coitados! viam-se parvos. “A igreja é tão poderosa... Senhores toda a demanda vencem ao ca­bo... Valha-nos Deus! E a pança pesava, pesava... Que ela pesa mais que o coração, a maldita.

Gil Eanes, uma espécie de europeu daqueles tempos e da­quele senado, conhecido pelo maior maçador da cidade in­victa, e por possuir no mais alto grau a difícil arte de moer palavras em seco, sem lhes espremer o mais leve chorume de sentido, Gil Eanes, costumado a triunfar de puro cansa­co, em muitas casos difíceis, estafando, moendo, adormecen­do e fazendo fugir o seu auditório, Gil Eanes entendeu que naqueles apertos só ele. Entendeu bem; e tomando vênia do presidente, assim começou:

— Não posso nem pretendo, honrados juizes e meus bons comunais, não pretendo nem posso, nem tenho intenção ou possibilidade de negar e de pôr em dúvida que a proposta ou proposição do benemérito orador que acaba de falar se­ria daquelas que, dadas as condições, e admitida a possibili­dade e conveniência das circunstâncias, era talvez, e porven­tura se apresentaria de um modo, e por tal dedução de cau­sas e efeitos, que eu poderia, e todos nós de comum acordo estaríamos dispostos e inclinados a que, admitidos os prin­cípios que são a base e fundamento essencial de toda a dou­trina, consultada somente a suprema, a supina consideração das razões abstratas, e tais que o entendimento, a norma, a lei geral das mais elementares regras da boa administração e da reta congruência dos elementos mais vitais — ou antes daqueles que progridem por certa e invariável marcha desde o seu ponto de partida até o mais culminante; e bem assim firmados naqueles dados estatísticos por mim colhidos e que foram elaborados pela confrontação dos fatos — e os fatos são tudo na ciência! — Ciência que eu posso dizer com al­guma vaidade, que peço me seja permitida, tenho levado desde o caos em que a achei, até outro caos... Quero dizer até onde são os limites confinantes da racionalidade bem en­tendida; pois se não pode negar que entre os dois máximos perigos do ser e do não ser — como daqui a alguns séculos tem de dizer um grande poeta inglês: To be, or not to be; o que então há de significar traduzido em romance:

Ou ser capitão-mor ou não ser nada...

“E citando estas futuras trovas, eu homem de alta ciência que desprezo trovadores e juglares, sacrifico às musas como Sócrates... O conselho sabe quem é Sócrates e quem são as musas; mas quando não soubesse, bastaria dizer-lho eu...”

O efeito narcótico desta eloquência admirável começava a manifestar-se na assembléia dos paços do conselho do Pôr­to pelo mesmo modo que, tantas vezes depois, vimos e senti­mos nos paços de São Bento em Lisboa. Os vereadores ca­beceavam todos; Vasco sentia um pesadelo mortal que o oprimia e atormentava como num mau sonho de febre; os mais exaltados chefes da multidão bocejavam atrozmente. E ali se acabaria toda a disputa, como acabou aquela briga dos borrachos,

Porque em vez de brigar, adormeceram...

Mas os irmãos Vaz, que se estavam abrindo, um para o ou­tro, cada boca de orelha a orelha que faria espanto à de Sa­cavém, assustados de ver tudo cabeceando e bocejando, e o orador sem a mais remota idéia de sair de seu labirinto de palavras, e surdir com alguma coisa que se entendesse —disseram entre si:

— Isto não pode ser; este sandeu de Gil Eanes está mofan­do de nós... E é tarde, e nós temos que fazer.

— Abaixo o palavreadol — gritou Garcia Vaz.

— Abaixo! — respondeu a assembléia despertando.

— Fora com ele! — bradou tudo; e se repetiu, de eco em eco, pelas escadas, pelas ruas e vielas dos arredores que atu­lhava a multidão, e por onde se tinha estendido o choque elétrico de torpor que partia do admirável foco de eloquên­cia do nosso orador insigne.

— Ouçam, senhores! — bradou ele desesperado e desapon­tado — ouçam-me, porque eu tenho direito a ser ouvido, eu devo ser ouvido...

— Abaixo!

— Ouçam, que vou dizer maravilhas.

— Fora, fora o impostor!

E tal foi a reação contra a pesadez da magnetizadora elo­quência do digno membro, que a vozeria não cessava. Gil Eanes somente se via gesticular furioso e despeitado; mas os palavrões, não conseguiu que lhe ouvissem nem mais um.

Sentou-se... Fatigado, como sempre, da luta; mas conten­te, como sempre, de si. Ralhou e protestou à sua vontade, falando com os infelizes que lhe ficavam ao pé; mas o tumul­to cessou. E Vasco, levantando a voz, disse:

— Nós estamos resolvidos. E agora, se os nossos juizes querem vir à nossa frente, que venham: é o seu lugar. Se­não, nós iremos por nós. Que nos dêem o estendarte da nos­sa cidade, o estendarte da Virgem, porque o queremos levar de guião diante de nós, e por balsão da nossa empresa.

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