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O ARCO DE SANTANA

Não esperou Garcia Vaz por mais nada; deu por despa­chado o requerimento de Vasco, a opção dos juizes por feita, e tomando nas mãos o estendarte da cidade, que estava a um canto da sala, deu, sem nenhuma cerimônia, um salto para cima da mesa da vereação, e pondo-se em pé sobre ela, três vezes o volteou no ar, bradando em alto brado:

— Pela santa Virgem, nossa padroeira, por el-rei nosso úni­co senhor e defensor... E pelo nosso capitão! viva, viva, viva!

E entregou o estendarte a Vasco. O povo gritou viva! E saiu de rondão pela casa fora, atroando os ares com suas aclamações.

E assim foi passado o bil de indenidade sobre a revolta. E assim passam todos os que querem passar: o caso está que ela tenha força, a revolta.
Vasco montou a cavalo com o estendarte na mão. Os pa­dres conscritos mirraram-se, cada um para sua trapeira, co­mo é de uso. E a bernarda, triunfante neste primeiro re­-
contro, ganhou força e consciência de seu poder; e com gran­de entusiasmo se encaminhou para os paços do bispo, tri­pudiando e saltando, deitando suas loas, e cantando seus hinos, sem esquecer, de quando em quando, o bordão obri­gado dos “morras e passa fora cães”, jaculatórias dirigidas ao estimável almudeiro, cuja popularidade não decrescia ja­mais, nem esquecia por coisa nenhuma.

CAPITULO XXXIII

GUERRA CIVIL

Antes porém que as forças populares se tivessem apossado do estendarte da comuna, e que, mais fortes agora com esse paládio, e com a presunção de legalidade que nele tinham, marchassem avante contra seu natural senhor e não menos natural inimigo, já este se tinha apercebido para a defesa. Todas as portas do palácio e da catedral estavam fechadas, e pareciam desafiar, com suas grossas barras de ferro, seus poderosos trancões de carvalho, tudo quanto não fosse arti­lharia... E não a tinham ainda os reis, a artilharia; quan­to mais os povos! As ameias da Sé estavam coroadas de bes­teiros, de archeiros; e assim mesmo as do acastelado palácio. O silêncio, a ordem, a disciplina, poder imenso com o qual os poucos resistem, e vencem quase sempre, aos muitos, rei­nava nos precintos episcopais. O prelado em pessoa, arro­jadas as longas vestes pontifícias, e meio armado já, como quem esperava combater, dava tranquilamente as ordens, provia a tudo, e mostrava a alacridade serena do homem forte, que forte se sente em seu direito e na sua força, e que espera pausadamente o ataque para castigar com justa se­veridade os que se lhe atrevem.

Tal parecia no gesto, no ademã e nas palavras, o antigo cavaleiro de Afonso IV. Mas era esse em verdade o estado de seu ânimo? Batia com efeito tranquilo, sob a couraça militar, aquele inquieto e altivo coração que debaixo da cimarra de púrpura não sossegava jamais? Oh! Não.

Seriam remorsos das tiranias e exações com que vexava duramente os pobres vassalos, entregando-os, de pura e des­piedosa indiferença, ao cruel governo de um truão carnicei­ro?... Não, por certo. E já o disse: o Evangelho de que era ministro, não o compreendia nem o sentia; das leis so­ciais, outras não sabia senão a suprema: que o senhor manda e o vassalo obedece. O que era, era um pressentimento confuso, um terror indefinido, um agouro vago — tardio às vezes, mas infalível verdugo dos maus — que se tinha apos­sado de seu coração.

Sem se temer dos sublevados, seguro de que haveria a me­lhor deles e de sua desmandada arrogância, dizia-lhe todavia não sei quê no fundo da alma que aquela noite lhe havia de ser fatal, e que um grande castigo ia cair sobre ele. Mas por quê? Aninhas, bem a tinha feito roubar... — E era guapa moça Aninhas, e valia a pena! — mas que mal lhe tinha ele feito? Violenta não a queria... E se realmente ela era... Ela fosse... Virtuosa, vamos, virtuosa... Pois deixá-la. Que se vá para o arco acender a alâmpada da sua Santa e bom proveito lhe faça! — Mas tem muito tem­po para isso. Entregá-la a essa canalha da arraia-miúda... Ou grossa que seja... Que por ai anda a gritar, que falta ao respeito a seu senhor natural, que lhe vem à porta dar morras a seus oficiais, vivas a el-rei — e este é o desacato que mais o pica em sua vaidade e orgulho feudal — isso não! Isso é o que ele nunca fará. Já não por senhor que é, nem pela púrpura de príncipe que veste, senão só pelo pundonor de simples cavaleiro lhe há de resistir. Há de lhe resistir à canalha, e a el-rei que se encanalhe com eles.

Mas ai!... Aquela mulher de há tantos anos, a filha do seu benfeitor, aquela que ele covardemente injuriou, per­deu... E toda uma família assassinou... Essa, oh! essa mu­lher é que ele vê agora presente a seus olhos... Ester, Es­ter! — Mas já não é a Ester debulhada em lágrimas, sumida no opróbrio; é uma Judite inspirada, brandindo na mão o cutelo vingador e prestes a decepar com ele a orgulhosa ca­beça de Holofernes. E junto dessa visão terrível, essoutra figura, mal distinta ao princípio, mais clara pouco e pou­co, agora clara de todo... Quem é? Vasco! Vasco, o jovem estudante, o seu predileto, a coisa única neste mundo que ele jamais amou!... Como, por quê? que faz Me aí? Que significa ele ai nessa visão?

O que significa, homem desnaturado e perdido? Lem­bra-te!...

Mas ele não se lembra: o seu coração não tem memória; e o seu espírito se confunde nesse disparatado sonho de acordado, vendo a risonha, a petulante figura do seu Vasco surgir na mesma evocação com o terrível fantasma daquela mulher de vinganças.

Quimeras! desvarios de um pesadelo... É sacudi-lo e despertar. — Mas onde está Vasco todavia? Não voltou ain­da... E é tão noite já! E o povo nesses tumultos! E se Me cai nas mãos dos populares? Esse é real e palpável pe­rigo... Que fará? — Fr. João não veio; os criados, que fo­ram por ele, voltaram sem resposta nem recado, porque todas as portarias dos conventos estão fechadas. São uma ca­nalha estes frades, franciscos e dominicos, e eles todos que se querem fazer neutrais na pendência, e temem de se mal­quistar com os burgueses! — Se Vasco lá estará ao menos no convento? Ai estava ele seguro, e seria uma fortuna...

Tornou a chamar oficiais e criados; e de perguntas em per­guntas se veio a aclarar, pelo estribeiro a quem o mancebo tinha entregado o alazão junto ao arco de Sant’Ana, que ele desde a tarde voltara à cidade e que entrara logo para casa de Martim Rodrigues.

— Que vai ele fazer a casa do juiz? — perguntou o bispo admirado.

— Que vai fazer? Mestre Martim tem uma filha discreta e formosa que...

— Pois Vasco? Oh! eu lhe porei o remédio. Que vá já alguém a casa de mestre Martim, e que...

— Senhor, o paço está todo cercado: não há porta nem postigo por onde se possa já sair.

— Os besteiros que joguem rijo sobre eles da torre de menagem, e que ao mesmo tempo rompam da porta quatro homens de lança bem montados; que se abram caminho, e que vão saber...

Um clarão repentino que iluminou os ares, um estampido tremendo de vozes, misturado com o furibundo repicar dos arames dos insurgidos, lhe atalhou subitamente a fala, e o fez correr à janela, com o alcaide-mor, com todos quantos ali estavam. O que viram era para assustar. O próprio bispo estremeceu, os demais desanimaram. As duas princi­pais portas do palácio, minadas surdamente por um fogo pertinaz e lento que até ali tinham tido encoberto, e que seria alimentado com carvão talvez, para não fazer chama, estavam já abrasadas. Deram-lhe de repente os golpes de muitos vaivéns, e os velhos pranchões de carvalho se des­faziam num granizo miúdo de centelhas, que punha medo ver saltar e chispar pelos ares.

Mas não foi senão de um momento o sobressalto do bispo; o tremor que lhe sacudiu os membros vinha mais dos pensa­mentos que o tinham estado agitando no espírito; o perigo retemperou-lhe nervos e alma.

— Ah! sim? — disse ele com um sorriso amargo, mas se­reno o rosto, e frio na cólera que o endurecia já. — Ah! sim? Pois agora o veremos.

Atirou com o barrete, cobriu o morrião, e empunhando a espada deitou, sem mais proferir, para as escadarias do pa­lácio.

Ao vê-lo assim, com os olhos ardentes, cãs as barbas, a cruz ao peito, a espada na mão, diríeis que é São Tiago re­metendo aos mouros... Não é porém o apóstolo, senão o indigno sucessor dos apóstolos que vai terçando o ferro con­tra os de Cristo: é o mau pastor que investe com o seu re­banho para o degolar.

O alcaide-mor e seus oficiais desembainharam as espadas e seguiram; os homens d’armas, o resto dos archeiros que não tinham desertado, a guarnição toda do castelo, e digamos as­sim, toda a casa militar do bispo, que era numerosa, acorreu a seu senhor. Desceram de rondão as escadas, e no átrio para onde davam as portas ameaçadas, tomaram posição e ordenança de guerra.

O prelado cavaleiro, à frente de seu batalhão d’Elite, pa­recia reviver de sua vida antiga, saudar alegre os perigos da peleja, a turbulenta ebriedade dos combates em que fora criado.

Mas só nos olhos, só no palpitar violento dos seios estava toda a excitação. Mudos, quedos, fixos, ele e todos os seus, a vista cravada nas portas que chamejavam e tremiam, pro­vavam que a sua coragem era refletida e segura, aguardando assim tranquilos o momento decisivo e supremo.

Não tardou ele muito. Uma das portas caiu em mil pe­daços ardentes, centelhando em faíscas... E os sitiantes de levantar um tremendo clamor de — ‘Vitória, vitória!” que atroou toda a cidade.

No mesmo instante, por entre a chuva de brasido que ain­da caía, por cima dos montes de carvão escaldando que re­chiavam na umidade do chão, rompeu sem mais ordem, ce­ga, louca e amouca de seu furor e entusiasmo, uma imensa massa de povo, que, ao som dos vivas e dos morras, entrou pelo átrio densa, confusa, apertada e empuxada das muito maiores massas que atrás e atrás vinham sem solução de con­tinuidade... E vinham e vinham, e de seu próprio peso se precipitavam, abatendo e prostrando quanto se lhes punha de diante.

Mas não era nem a fúria deste oceano para romper assim os diques de ferro sobre que foi rebentar suas ondas. Gente toda mal armada, sem comando nem disciplina, deram con­sigo aturdidos contra o bem disposto batalhão dos episcopais que ali não contavam achar; nem o viram, de cegos e eston­teados que vinham. Tudo se foi cravar pelos peitos nas lan­ças e alabardas que os esperavam firmes; ou caíram por fen­didos dos tremendos talhos de espada que lhes assentava o bispo, e dos que seus oficiais repartiam sem poupança... nem piedade.

Quase toda a primeira testa da revolta ali ficou morta ou moribunda, e assando meia viva nos carvões abrasados que juncavam a entrada do pátio.

Os gritos, as maldições, as blasfêmias... As chamas que ar­diam e crepitavam... Os olhos do bispo que flamejavam, e luziam mesmo entre o fogo como os de Lúcifer... Pêro Cão que ria o seu riso de demônio... Tudo dava àquela cena ferocíssima o aspecto de uma cena de inferno.

A torrente popular parou, e oscilou com um movimento quase retrógrado, como tronco de serpente quando lhe de­.cepam a cabeça.

_ Afasta, afasta! que, em socorro já não, mas a vingar a sua vanguarda de amoucos, ai vem avançando mais, mais regu­lar e pausada, outra sorte de batalha e de combatentes.

Esta não grita desatinada, nem se desordena gritando; mas o seu brado de guerra é tremendo e solene!

— Virgem santa, sede por nós! Vingai os nossos irmãos! E um homem a cavalo vinha no meio da hoste e volteava o estendarte que trazia... E o estendarte era o da Virgem padroeira da cidade.

À voz de — Cerra, cerra! por Santa Maria e por sua terra! Investiram como leões furiosos. Mas é fúria que traz regra e comando; e entre eles e os do bispo trava a peleja mais igual — não menos sanguinolenta. De ambos os lados caiam, de ambos os lados corria o sangue. Dos populares era mais todavia, porque entre eles só vinham bem armados os ar­cheiros trânsfugas. Assim os episcopais tinham grande van­tagem sobre os da comuna.

Ia-se dissipando o fumo que ao principio envolvia tudo, e os golpes eram mais certeiros e fatais... Começava a ceder o povo... Quando o seu jovem capitão, solevando o esten­darte na esquerda e brandindo a espada com a direita:

— Amigos, — bradou — que é isto? A eles por nossa hon­ra e pela liberdade da nossa terra!

A este brado, ao som desta voz, os populares alentaram, e entrou a desordem e a confusão nas fileiras inimigas, porque o seu chefe caiu de repente como ferido de golpe mortal no coração.

Tomaram-no em braços, levaram-no para a retaguarda; e enquanto o alcaide-mor, com alguns de mais ânimo, defen­dia, sem grande custo, a vanguarda, outros carregavam com o bispo — que já nem respirava quase — pelas escadarias acima do palácio.

CAPITULO XXXIV

ARMISTICIO

Todos julgaram o bispo mortalmente ferido, o combate esfriou, parecia não haver já por que pelejar. A sorte das armas declarava-se pelos populares; mas esses mesmos esta­vam espantados da vitória, não sabiam que fazer dela, e co­meçavam a ter medo, a ter “horror ao vácuo” de seu triunfo.

Assustaram-se porém antes de tempo: o caso era estranho e de pasmar; mas o bispo não morria, e nem levemente esta­va ferido; foi uma vertigem que o derrubou. Tornou a si transtornado, demudado, aflito; e com duas grossas lágri­mas nos olhos, os braços alçados, e ele em pé sobre os de­graus da escada, bradou de uma voz de agonia tão dolorosa que partia os corações:

— Vasco, Vasco!... És tu, Vasco?... Tu!

Vasco ficou imóvel, suspenso; e o bispo, arrojando a es­pada, que nem o desmaio lhe fizera soltar da mão:

— A mim! — clamou:— a mim, Vasco! A mim só os teus golpes. Aqui tens desarmado este peito; fere...

E desprendia a couraça, e rasgava a túnica de púrpura que debaixo trazia, e expunha nua aos imprecados golpes a forte arca do peito que lhe batia audivelmente, e em que se lhe ouriçavam como espinhos os pêlos grisalhos, longos e bastos que a povoavam.

O inesperado do caso, a estranhez daquelas palavras aca­bou de suspender as iras dos combatentes. Todos pasma­ram, todos ficaram atônitos e cortados.

O clarão do incêndio dava luz sanguínea e abrasada a esse tremendo quadro de guerra civil. Todo o horror, todo o palpitante interesse da terrível cena se exaltou.

Vasco, o pobre Vasco não pôde mais ser senhor seu, sen­tiu que lhe fugia a luz dos olhos: por um derradeiro esforço do ânimo — vencido já do coração — ainda apertou com a esquerda sobre o peito a bandeira da cidade; mas os estri­bos faltaram-lhe dos pés, a espada caiu-lhe da outra mão, as rédeas foram sobre o pescoço do cavalo, a cabeça inclinou-se­-lhe... e, se não fora que o generoso alazão estacou logo dos quatro pés, como se ali se fundira em bronze — ao menor movimento que fizera o cavalo em terra estava o cavaleiro.

Isto porém ninguém no percebeu, só os penetrantes olhos do bispo viram o que sucedia... Desatinado, começou a gritar:

— Acudam-lhe, acudam-lhe! cesse o combate, deixem tudo o mais, e acudam-lhe! Salvem-no. E nem mais um golpe! Salvem-no. Eu farei tudo o que quiserdes, boa gente. Sim, eu tratarei com ele, com Vasco, pois que esse é o vosso che­fe... Bem, bem! assim, amigos, assim. Apeai-o com jeito. O cavalo é um nobre animal, não mexe com um pêlo do corpo. Parece o meu alazão... E é ele! Como foi isto? Não importa. Não o larguem, que não está firme nos pés ainda. Desabrochem-lhe o peito das armas. Criança! Es­ta criança com um peito de ferro! Meu Deus!...

E assim se ia fazendo tudo como o bispo dizia; e nas duas hostes quase confundidas mandava ele só. Tal poder tem a voz do coração, e tais estranhezas tem a guerra civil!

Mas já o nosso chefe popular estava em si, recobrado de animo e de corpo: firmando-se na lança da sua bandeira, deu alguns passos para o bispo, que o estava contemplando com admiração e lhe sorria de puro gosto; inclinou-se com reverência, e em tom grave, modesto, mas firme, lhe falou assim:

— Senhor, eu sou uma criança, é verdade; mas Deus serve-se dos pequenos contra os grandes, para os combater muitas vezes, e para os admoestar não poucas. Que a minha voz fraca e humilde chegue ao vosso coração e o embrandeça...

— Sempre, sempre vem ao meu coração a tua voz! — cla­mou o bispo interrompendo-o e estendendo-lhe os braços. — Mas... — e aqui se retraiu como picado subitamente de um áspide. — Mas que queres tu? Que fazes aqui tu? A que vieste? Que armas, que bandeiras, que discursos são estes?

—Esta bandeira, senhor, não a conheceis? É a da Santa Virgem, protetora da nossa cidade, defensora dos nossos di­reitos e liberdades. E eu...

— E tu?

—Eu sou o escolhido por esta boa gente para...

— Para quê?

— Para vos dizer em seu nome que eles não podem su­portar mais esse jugo de escravidão em que os tendes, com que os deixais governar por homens tão indignos de vossa confiança, como de reger um povo cristão, livre, fiel e hon­rado.

Os olhos do prelado começaram a faiscar; o rosto, inda agora pálido com o susto de ver morto ou ferido o seu Vasco, ia-se-lhe inflamando de ira, principiava a tingir-lho o orgu­lho do seu mal-assombrado roxo-terra. Mordeu os lábios para se conter, e sorrindo com amarga ironia:

— E esse honrado, esse fiel povo vem armado de todas as armas requerer por sua justiça? Hasteou em tuas mãos a bandeira da Virgem da paz... E sem mais declaração de guerra, deita fogo ao meu palácio, arromba as portas, entra queimando e devastando na própria morada de seu se­nhor... Vasco, tu és uma criança com efeito, e a tua ino­cência te desculpa. Deixa essa gente que te iludiu, vem comigo, que eu...

— Uma criança sou; mas deu-me Deus razão inteira para ver donde está a justiça e o direito. Senhor, vós sabeis a causa fatal do alvorôto desta manhã... O povo, indigna­do mas respeitoso, veio com seus juizes à frente, veio a vos­sos pés pedir justiça e reparação. Prometeram-lha mas não lha cumpriram. Os vossos ministros riram das súplicas do povo, intimidaram os seus juizes e magistrados, e mofaram da indignação pública porque nos julgaram fracos, porque supuseram extinto, evaporado o fogo de palha das iras po­pulares. Então o povo armou-se, ordenou suas fileiras, es­colheu chefes que o não abandonassem, e agora... já não pede...

— Que faz então?

Vasco engoliu como em seco um som que lhe vinha mal formado do peito; mas tomando outra vez o fôlego e respi­rando largamente, disse com voz solene:

— Exige.

— Ah!... E a ti te escolheram por chefe, a ti para ca­pitão dos rebeldes amotinados?

— A mim, senhor, escolheram-me para chefe do povo... Rebeldes ou leais, vós nos fareis.

— E que pretende de mim o povo?

— O que lhe tendes jurado, o que em bom e santo direito lhe deveis: castigo e desagravo pelo passado, cumprimento de seus foros pelo futuro. Que separeis de vós a má gente que vos rodeia, e que chameis os honrados de quem o povo confia.

— E se eu, quaisquer que sejam esses agravos, verdadeiros ou sonhados, entender que não devo pactuar com os meus vassalos sublevados, e exigir — exigir também eu por mi­nha parte, que, primeiro que tudo, deponham as armas da rebelião?

— Não as deporão. Estão escarmentados, senhor; a sua boa fé tem sido escarnecida. A todas as promessas lhe têm faltado, e por cada desagravo prometido, têm vindo os ve­xames aos centos. Se a sua última razão são as armas, é porque lhe não deixaram outra. Culpai a quem lhe tirou todas as mais.

— E que farão, que querem fazer por fim com essas ar­mas? Não as tenho eu também? Não os posso combater e destruir?

— Maior calamidade, senhor: Deus será juiz entre nós, e a vitória decidirá da pendência. Mas em todo o caso, eles retirarão de vós seu preito e vassalagem, deixarão de ser homens vossos, e se darão a el-rei, e o tomarão por senhor natural...

— El-rei! Ah! el-rei!... Aqui andam artes suas: bem o vejo. Não ousava tanto essa gente se não tivessem as costas quentes com ele. Bem: eu pensarei, e... Que se chamem os juizes. E virás tu com eles... Vireis vós com eles, se­nhor capitão. Daqui a uma hora, em pública audiência na nossa catedral, ouviremos dos agravos do povo, e veremos de concertar o que for razão. Senhor alcaide-mor, a suspensão de armas está proclamada. Que me guardem porém estas portas. As da Sé vão abrir-se: que entre o povo para lá e aí me achará para ouvi-lo. Os juizes da cidade, o meu vi­gário, todos os de minha corte e desembargo que sejam cha­mados. E tu, Vasco... Não, tu virás comigo agora.

E tomando pela mão o estudante, subiu com éle as largas

escadas do palácio.

Iam a meio já, quando Vasco foi conhecido do povo, e uma

voz se levantou dentre as turbas:

— Traição, traição! querem-nos tirar o nosso chefe!

— Não consentimos, não consentimos — responderam ou­tras vozes.

— Não, não! — clamaram todos.

—Que nos entreguem arreféns, — disse um mais preca­tado e doutor. — Sem isso não vai.

— Queremos arreféns.

— Venha Pêro Cão.

— Para o enforcarmos antes de tudo.

— Morra Pêro Cão.

— Morra!

E já recrudescia de novo a sanha popular, e os episcopais se preparavam para a defesa. Os dois chefes das facções contrárias, que amigavelmente subiam as escadas em sinal de paz, e em penhor das recém-nadas esperanças de concórdia,

pararam, e não ousaram subir nem descer.

Assustou-se Rui Vaz, que tinha os seus planos, e não queria transtornado aquele principio de concerto. Por uma dessas inspirações que tantas vezes salvam a pátria com uma ca­turrice, o ex-archeiro destampou numa grande gargalhada e disse:

— Quem é o grandessíssimo traidor de bufão que veio com esse estupido alvitre? Nem Pêro Cão, nem outros que tais cães como ele são arreféns que se peçam. Um cabelo da ca­beça do nosso capitão vale mais que todas as gargantas deles. E as gargantas deles, para que as queremos nós se não for para os nós da corda?... e iça!

Desatou tudo a rir.

— Bem dito! — exclamou um caldeireiro poeta que adora­va o consoante e idolatrava o calimburgo. — Bem ditol

Para que os queremos nós,

Senão para dar-lhe os nós

Que lhe machuquem a noz

Da garganta excomungada?

Para mais nada, mais nada.

Consigno o importante documento deste memorável improviso nas duradouras páginas da minha crônica, porque ilustra um grave ponto de história literária; a saber: que não é invenção da moderna escola poética, segundo ela ba­zofia, este insartar de consoantes como ave-marias num ter­ço — “pérolas num fio”, dizia Hafiz, e os orientais todos, há mil anos. — Não, senhor, é muito antigo, já no décimo quarto século se usava, e antes. Verdade seja que os insar­tadores eram menos, e o zunzum não cansava tanto — por­tanto.

Deste precioso documento se vê também quanto é antigo e popular entre nós o uso do “calimburgo’: palavra que fa­cilmente adoto apesar de gafa de mau francês; mas antes is­so, antes naturalizá-la mesmo assim doentia, e dar-lhe ter­minação portuguesa, acordando-a de boamente a nossos mo­dos e aos sons habituais de nossa língua, do que dizer pre­tensiosa e espevitadamente: calembourg! som inóspito, difí­cil, que ressalta híbrido e ríspido, no meio de nossas palavras redondas e cheias, como um guincho dissonante que re­pugna.

Calimburgo foi — e não me tornem a dizer calembourg! — calimburgo foi o de Rui Vaz, o que poetizou e desenvol­veu depois o Tirteu caldeireiro, e que tanto deu no goto à multidão — como sempre sucede em os ela entendendo... o que nem sempre lhe sucede.

Riu-se o povo: e quando o povo ri, bem vai ela.

Rui Vaz jogou no chorrilho e continuou:

—Arreféns por arreféns, que nos dêem o Arrifana: e bem lhe quadra o nome, Fr. João da Arrifana, venha esse de ar­reféns.

Outra gargalhada aprovadora que deu o povo, e outro documento de que a aliteração não é exclusivamente saxônia, como pretendem os amigos ingleses, antes mui usada e querida dos nossos, e que está em seus instintos poéticos, não menos do que o toante ou assonante, o consoante e o calim­burgo.

— Pois venha Fr. João — clamaram — Fr. João queremos. Venha o Arrifana de arreféns.

— De arreféns o Arrifana!

Venceu a chacota, serenaram as turbas outra vez; o bispo assentiu, e foram buscar a Fr. João, que bem relutante dei­xou o asilo de seu convento. Mas não havia remédio: man­dava o senhor e mandava o povo; a neutralidade era impos­sível.

Solenemente foi proclamado o armistício; e o prelado, com o chefe dos insurgidos, com poucos mais de uma e de outra facção, subiu enfim o último lance das escadas e en­trou no palácio.

Dava neste ponto meia-noite; Garcia Vaz, que ficara para conter e suster os populares, inquieto e cuidadoso chamou por seu irmão e lhe perguntou com ansiedade:

— Ouviste que é meia-noite?

— Ouvi, sim; e então?

— Então, vem ele ou não vem? Se não vem, isto acaba mal. Povo é povo: em o demorando com qualquer pretex­to, em lhe fazendo passar mal uma noite, começa a esfriar-lhe a cólera; e quem fica nos cornos do touro somos nós.

— Mais medo tenho eu que lhe ela ferva demais, e que entrem por ai a fazer desatinos que el-rei desaprove e casti­gue depois, e que nós tenhamos de pagar também. Até ago­ra tudo vai de maravilha; e se o mantemos assim mais uma hora...

— Mas ele, ele? EIe é que não sei...

— Ele!... Ele já cá está.

— Que dizes! É possível!

— Fui eu em pessoa, com o arcediago e com a bruxa de Caia — aquela velha que sabe tudo, e que conhece quantos alçapões, quantas covas e cavernas há no castelo e na cidade — fui eu com eles ambos abrir-lhe o postigo secreto que dá nos subterrâneos do paço, e que também vai à capela da Se­nhora da Silva na Sé. Lá está...

— Só está? Que perigo!

— Só: pois é homem ele que tenha medo? E quem se lhe há de atrever?

— Quem? Qualquer desses rufiães que há nesta maldita casa, e que o não conhecem pela maior parte.

— Não tem dúvida. É homem para mais: deixa-o. E além disso, Paio Guterres lá sabe onde o embrechou nos esconderijos da Sé. Ninguém o verá, e ele verá tudo, e se deixará ver quando for tempo. Sossega: isto vai de vencida, e nós havemos de ser...

— O que, Rui?

— Que sei eu, Garcia? Mais alguma coisa havemos de ser. Depois de tantos trabalhos...

— Não sei, não sei. A gente mete-se nelas, e o lucro. - -

— É para os que vêm depois... Assim tem sido sempre, e creio que assim há de ser sempre. Veremos.

— Homem, mas isso não tira que a gente que tem razão.

— E justiça.

— Pois então adiantei E Deus será conosco.

XXXV

ESTA ABERTA A SESSÃO

Era passante já da meia-noite quando das altas torres da Sé começou a reboar lenta, grave e compassada a tremenda voz de seu grande sino, que só em mui raras ocasiões se tange e sempre anuncia grande festa, grande pranto, ou muito extraordinário acontecimento público.

Quanto na terra havia que não tivesse entrado no alvo­roto, acudiu agora ao chamamento do bronze sagrado que parecia dizer a toda a cidade: “Vinde, vinde todos, e gran­des coisas vereis”.

Com efeito, dentro em pouco tempo revoltosos e pacífi­cos, armados e desarmados, toda a população do Porto se concentrava no largo da Sé, nas ruas, vielas e passagens circunvizinhas. A noite era bela mas sem lua, e as altas jane­las, as estreitas frestas da catedral começavam a mostrar as variegadas cores de seus vidros com as luzes que dentro se acendiam e que ia debuxando, aqui um santo mitrado com o seu báculo na mão, lã a cabeça de um serafim entre duas asas, além uma passagem da Bíblia, acolá uma legenda do Fios Sanctorum. Não tardou a voz do órgão a juntar-se a estes anúncios de grande e não esperada solenidade, prelu­diando nas cordas corais, e correndo por todas as escalas com seus magníficos e impressivos efeitos.

Logo, abrindo-se as portas de par em par, uma torrente de luz rompeu dos sagrados precintos, e inundou todo o largo apinhado de gente. E a multidão rompeu pela igreja den­tro, derramando-se pela imensa capacidade de suas vastas naves, atulhando-a, sem deixar senão a capela-mor e o coro, porque Iho defendiam os altos cancelos que do corpo da igreja os separavam.

Magnífico era o espetáculo; e ele só per si, prescindindo do interesse da grande questão popular que ia debater-se, bastaria para atrair as turbas. Os cônegos com suas murças ocupavam as cadeiras capitulares; o bispo, trocada a arma­dura profana pela púrpura sagrada, a mitra em vez do morião, e no lugar da espada o báculo de ouro, parecia um antigo e homérico “pastor de povos” que deixou no campo os seus atavios de guerra, e reveste no templo as infulas sacra­mentais para ministrar no altar do seu deus.

Mas o seu deus é o Deus da paz e da misericórdia, que as próprias mãos inocentes as manda lavar primeiro, antes que circundem seu altar os que a ele chegam. Como receberá ele das mãos ensanguentadas desse mau pontífice o holo­causto incruento que só é permitido oferecer-lhe com o co­ração mondado de toda a soberba, contrito, humilhado e nu de todo o mau pensamento?

Aí estava de porém, esse bispo em toda a pompa do prin­cipado e da púrpura, sentado cru seu trono, rodeado de seus clérigos e de seus oficiais, de seus ministros eclesiásticos e civis — à direita o arcediago de seu báculo, à esquerda o al­caide-mor de seu castelo — porque ele era senhor e apóstolo, carniceiro e pastor do mesmo rebanho: anomalia repugnante das idades bárbaras que tanto esplendor deu à Igreja, tanta luz tirou à Fé!

Sobre o altar-mor, que decorava um painel bizantino re­presentando a Virgem padroeira da nossa cidade, estava aber­to um grande livro dourado, resplendente de iluminuras, e com suas letras góticas enredadas de brilhantes arabescos. Eram os Evangelhos. E o livro estava encostado a uma al­mofada de brocado de ouro.

No baixo do coro, junto aos cancelos, sentados em tambo­retes rasos, os juizes e vereadores da cidade, os desembarga­dores da mitra, o arcediago de Oliveira como vigário que era; e distinto entre todos o nosso Vasco, sem largar o pen­dão da cidade que nobremente e com dignidade conservava na mão. À esquerda uma banca, sobre ela os implementos de escrever, e junto dela com a pena na mão e o ouvido alerta, o escrivão da cidade, o que hoje diríamos escrivão da câmara.

Todos calavam, todos aguardavam em solene silêncio a abertura daquela grave e pomposa conferência em que se ia decidir se a segunda cidade do reino, a mais livre e indepen­dente pelo caráter e propensões de seus habitantes, tinha de continuar a ser feudo do seu bispo e do seu cabido, ou havia de recobrar os foros de cidade livre e real que a doação de D.Teresa lhe tinha feito perder, e que a dureza do domínio eclesiástico lhe fazia desejar cada vez mais.

O povo, a quem a majestade das cerimônias católicas im­punha respeito e comedimento, ao ver o seu bispo ali rodea­do dos prestígios do culto, sentia acalmar-se-lhe a cólera e despeito com que inda agora investira o castelo de seu se­nhor. Pêro Cão, não estava presente; Vasco o chefe por eles escolhido, Paio Guterres o eclesiástico deles respeitado e querido, ambos ali eram, sentados naquele conclave em que se ia tratar de seus negócios. Sossegavam e esperavam: meto caminho andado para desencruar as mais duras paixões.

O aspecto mesmo do prelado não tinha já aquele ar de so­branceria provocante, não respirava aquele habitual desdém e desapegado desprezo que mais desafiava a malquerença pública. Suas barbas pareciam mais alvas e venerandas, seu rosto mais profundado das rugas, seus olhos com menos lu­me e mais embrandecidos, todo o ademã de sua pessoa me­nos ereto e soberbo, mais descaído, mais simpático enfim, e mais para se ver num homem colocado no fastígio das hon­ras eclesiásticas,

O bispo tinha a cabeça um tanto inclinada sobre o peito, mas os olhos fixos num ponto único de onde os não arre­dava: era no comissário popular, no elegante e jovem tri­buno, que solenemente sentado com o seu pendão na esquerda, e a direita gravemente colocada no peito, semelhava a estátua do santo campeão de Inglaterra que Portugal depois adotou por seu, quando o ódio a Castela fez exonerar a Dom Santiago do antigo cargo de padroeiro deste reino, que ele sempre reunira ao de Castela e depois ao padroado geral das Espanhas, e de que nunca pensou ver-se esbulhado o bom do santo.

Não tirava os olhos dele, e parecia não os ter, olhos nem atenção para mais nada, o bispo, senão para aquele mancebo.

Durou o silêncio, durou a expectação bastante tempo; e começava a sentir-se urna ondulação de impaciência correr pelo auditório, quando Paio Guterres, atento ao que passava, e temeroso de que alguma imprudência não viesse quebrar aquelas esperanças tão bem agouradas de paz, levantou-se, chegou ao meio do coro, ajoelhou e curvou-se profunda­mente ao retábulo da Virgem, depois tornou-se a erguer, e inclinando-se ao prelado, fazendo vênia a um lado e outro dos capitulares, volveu-se direito ao trono episcopal e disse:

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