Não esperou Garcia Vaz por mais nada; deu por despachado o requerimento de Vasco, a opção dos juizes por feita, e tomando nas mãos o estendarte da cidade, que estava a um canto da sala, deu, sem nenhuma cerimônia, um salto para cima da mesa da vereação, e pondo-se em pé sobre ela, três vezes o volteou no ar, bradando em alto brado:
— Pela santa Virgem, nossa padroeira, por el-rei nosso único senhor e defensor... E pelo nosso capitão! viva, viva, viva!
E entregou o estendarte a Vasco. O povo gritou viva! E saiu de rondão pela casa fora, atroando os ares com suas aclamações.
E assim foi passado o bil de indenidade sobre a revolta. E assim passam todos
os que querem passar: o caso está que ela tenha força, a revolta.
Vasco montou a cavalo com o estendarte na mão. Os padres conscritos
mirraram-se, cada um para sua trapeira, como é de uso. E a bernarda,
triunfante neste primeiro re-
contro, ganhou força e consciência de seu poder; e com grande
entusiasmo se encaminhou para os paços do bispo, tripudiando e
saltando, deitando suas loas, e cantando seus hinos, sem esquecer, de quando
em quando, o bordão obrigado dos “morras e passa fora cães”,
jaculatórias dirigidas ao estimável almudeiro, cuja popularidade
não decrescia jamais, nem esquecia por coisa nenhuma.
Antes porém que as forças populares se tivessem apossado do estendarte da comuna, e que, mais fortes agora com esse paládio, e com a presunção de legalidade que nele tinham, marchassem avante contra seu natural senhor e não menos natural inimigo, já este se tinha apercebido para a defesa. Todas as portas do palácio e da catedral estavam fechadas, e pareciam desafiar, com suas grossas barras de ferro, seus poderosos trancões de carvalho, tudo quanto não fosse artilharia... E não a tinham ainda os reis, a artilharia; quanto mais os povos! As ameias da Sé estavam coroadas de besteiros, de archeiros; e assim mesmo as do acastelado palácio. O silêncio, a ordem, a disciplina, poder imenso com o qual os poucos resistem, e vencem quase sempre, aos muitos, reinava nos precintos episcopais. O prelado em pessoa, arrojadas as longas vestes pontifícias, e meio armado já, como quem esperava combater, dava tranquilamente as ordens, provia a tudo, e mostrava a alacridade serena do homem forte, que forte se sente em seu direito e na sua força, e que espera pausadamente o ataque para castigar com justa severidade os que se lhe atrevem.
Tal parecia no gesto, no ademã e nas palavras, o antigo cavaleiro de Afonso IV. Mas era esse em verdade o estado de seu ânimo? Batia com efeito tranquilo, sob a couraça militar, aquele inquieto e altivo coração que debaixo da cimarra de púrpura não sossegava jamais? Oh! Não.
Seriam remorsos das tiranias e exações com que vexava duramente os pobres vassalos, entregando-os, de pura e despiedosa indiferença, ao cruel governo de um truão carniceiro?... Não, por certo. E já o disse: o Evangelho de que era ministro, não o compreendia nem o sentia; das leis sociais, outras não sabia senão a suprema: que o senhor manda e o vassalo obedece. O que era, era um pressentimento confuso, um terror indefinido, um agouro vago — tardio às vezes, mas infalível verdugo dos maus — que se tinha apossado de seu coração.
Sem se temer dos sublevados, seguro de que haveria a melhor deles e de sua desmandada arrogância, dizia-lhe todavia não sei quê no fundo da alma que aquela noite lhe havia de ser fatal, e que um grande castigo ia cair sobre ele. Mas por quê? Aninhas, bem a tinha feito roubar... — E era guapa moça Aninhas, e valia a pena! — mas que mal lhe tinha ele feito? Violenta não a queria... E se realmente ela era... Ela fosse... Virtuosa, vamos, virtuosa... Pois deixá-la. Que se vá para o arco acender a alâmpada da sua Santa e bom proveito lhe faça! — Mas tem muito tempo para isso. Entregá-la a essa canalha da arraia-miúda... Ou grossa que seja... Que por ai anda a gritar, que falta ao respeito a seu senhor natural, que lhe vem à porta dar morras a seus oficiais, vivas a el-rei — e este é o desacato que mais o pica em sua vaidade e orgulho feudal — isso não! Isso é o que ele nunca fará. Já não por senhor que é, nem pela púrpura de príncipe que veste, senão só pelo pundonor de simples cavaleiro lhe há de resistir. Há de lhe resistir à canalha, e a el-rei que se encanalhe com eles.
Mas ai!... Aquela mulher de há tantos anos, a filha do seu benfeitor, aquela que ele covardemente injuriou, perdeu... E toda uma família assassinou... Essa, oh! essa mulher é que ele vê agora presente a seus olhos... Ester, Ester! — Mas já não é a Ester debulhada em lágrimas, sumida no opróbrio; é uma Judite inspirada, brandindo na mão o cutelo vingador e prestes a decepar com ele a orgulhosa cabeça de Holofernes. E junto dessa visão terrível, essoutra figura, mal distinta ao princípio, mais clara pouco e pouco, agora clara de todo... Quem é? Vasco! Vasco, o jovem estudante, o seu predileto, a coisa única neste mundo que ele jamais amou!... Como, por quê? que faz Me aí? Que significa ele ai nessa visão?
O que significa, homem desnaturado e perdido? Lembra-te!...
Mas ele não se lembra: o seu coração não tem memória; e o seu espírito se confunde nesse disparatado sonho de acordado, vendo a risonha, a petulante figura do seu Vasco surgir na mesma evocação com o terrível fantasma daquela mulher de vinganças.
Quimeras! desvarios de um pesadelo... É sacudi-lo e despertar. — Mas onde está Vasco todavia? Não voltou ainda... E é tão noite já! E o povo nesses tumultos! E se Me cai nas mãos dos populares? Esse é real e palpável perigo... Que fará? — Fr. João não veio; os criados, que foram por ele, voltaram sem resposta nem recado, porque todas as portarias dos conventos estão fechadas. São uma canalha estes frades, franciscos e dominicos, e eles todos que se querem fazer neutrais na pendência, e temem de se malquistar com os burgueses! — Se Vasco lá estará ao menos no convento? Ai estava ele seguro, e seria uma fortuna...
Tornou a chamar oficiais e criados; e de perguntas em perguntas se veio a aclarar, pelo estribeiro a quem o mancebo tinha entregado o alazão junto ao arco de Sant’Ana, que ele desde a tarde voltara à cidade e que entrara logo para casa de Martim Rodrigues.
— Que vai ele fazer a casa do juiz? — perguntou o bispo admirado.
— Que vai fazer? Mestre Martim tem uma filha discreta e formosa que...
— Pois Vasco? Oh! eu lhe porei o remédio. Que vá já alguém a casa de mestre Martim, e que...
— Senhor, o paço está todo cercado: não há porta nem postigo por onde se possa já sair.
— Os besteiros que joguem rijo sobre eles da torre de menagem, e que ao mesmo tempo rompam da porta quatro homens de lança bem montados; que se abram caminho, e que vão saber...
Um clarão repentino que iluminou os ares, um estampido tremendo de vozes, misturado com o furibundo repicar dos arames dos insurgidos, lhe atalhou subitamente a fala, e o fez correr à janela, com o alcaide-mor, com todos quantos ali estavam. O que viram era para assustar. O próprio bispo estremeceu, os demais desanimaram. As duas principais portas do palácio, minadas surdamente por um fogo pertinaz e lento que até ali tinham tido encoberto, e que seria alimentado com carvão talvez, para não fazer chama, estavam já abrasadas. Deram-lhe de repente os golpes de muitos vaivéns, e os velhos pranchões de carvalho se desfaziam num granizo miúdo de centelhas, que punha medo ver saltar e chispar pelos ares.
Mas não foi senão de um momento o sobressalto do bispo; o tremor que lhe sacudiu os membros vinha mais dos pensamentos que o tinham estado agitando no espírito; o perigo retemperou-lhe nervos e alma.
— Ah! sim? — disse ele com um sorriso amargo, mas sereno o rosto, e frio na cólera que o endurecia já. — Ah! sim? Pois agora o veremos.
Atirou com o barrete, cobriu o morrião, e empunhando a espada deitou, sem mais proferir, para as escadarias do palácio.
Ao vê-lo assim, com os olhos ardentes, cãs as barbas, a cruz ao peito, a espada na mão, diríeis que é São Tiago remetendo aos mouros... Não é porém o apóstolo, senão o indigno sucessor dos apóstolos que vai terçando o ferro contra os de Cristo: é o mau pastor que investe com o seu rebanho para o degolar.
O alcaide-mor e seus oficiais desembainharam as espadas e seguiram; os homens d’armas, o resto dos archeiros que não tinham desertado, a guarnição toda do castelo, e digamos assim, toda a casa militar do bispo, que era numerosa, acorreu a seu senhor. Desceram de rondão as escadas, e no átrio para onde davam as portas ameaçadas, tomaram posição e ordenança de guerra.
O prelado cavaleiro, à frente de seu batalhão d’Elite, parecia reviver de sua vida antiga, saudar alegre os perigos da peleja, a turbulenta ebriedade dos combates em que fora criado.
Mas só nos olhos, só no palpitar violento dos seios estava toda a excitação. Mudos, quedos, fixos, ele e todos os seus, a vista cravada nas portas que chamejavam e tremiam, provavam que a sua coragem era refletida e segura, aguardando assim tranquilos o momento decisivo e supremo.
Não tardou ele muito. Uma das portas caiu em mil pedaços ardentes, centelhando em faíscas... E os sitiantes de levantar um tremendo clamor de — ‘Vitória, vitória!” que atroou toda a cidade.
No mesmo instante, por entre a chuva de brasido que ainda caía, por cima dos montes de carvão escaldando que rechiavam na umidade do chão, rompeu sem mais ordem, cega, louca e amouca de seu furor e entusiasmo, uma imensa massa de povo, que, ao som dos vivas e dos morras, entrou pelo átrio densa, confusa, apertada e empuxada das muito maiores massas que atrás e atrás vinham sem solução de continuidade... E vinham e vinham, e de seu próprio peso se precipitavam, abatendo e prostrando quanto se lhes punha de diante.
Mas não era nem a fúria deste oceano para romper assim os diques de ferro sobre que foi rebentar suas ondas. Gente toda mal armada, sem comando nem disciplina, deram consigo aturdidos contra o bem disposto batalhão dos episcopais que ali não contavam achar; nem o viram, de cegos e estonteados que vinham. Tudo se foi cravar pelos peitos nas lanças e alabardas que os esperavam firmes; ou caíram por fendidos dos tremendos talhos de espada que lhes assentava o bispo, e dos que seus oficiais repartiam sem poupança... nem piedade.
Quase toda a primeira testa da revolta ali ficou morta ou moribunda, e assando meia viva nos carvões abrasados que juncavam a entrada do pátio.
Os gritos, as maldições, as blasfêmias... As chamas que ardiam e crepitavam... Os olhos do bispo que flamejavam, e luziam mesmo entre o fogo como os de Lúcifer... Pêro Cão que ria o seu riso de demônio... Tudo dava àquela cena ferocíssima o aspecto de uma cena de inferno.
A torrente popular parou, e oscilou com um movimento quase retrógrado, como tronco de serpente quando lhe de.cepam a cabeça.
_ Afasta, afasta! que, em socorro já não, mas a vingar a sua vanguarda de amoucos, ai vem avançando mais, mais regular e pausada, outra sorte de batalha e de combatentes.
Esta não grita desatinada, nem se desordena gritando; mas o seu brado de guerra é tremendo e solene!
— Virgem santa, sede por nós! Vingai os nossos irmãos! E um homem a cavalo vinha no meio da hoste e volteava o estendarte que trazia... E o estendarte era o da Virgem padroeira da cidade.
À voz de — Cerra, cerra! por Santa Maria e por sua terra! Investiram como leões furiosos. Mas é fúria que traz regra e comando; e entre eles e os do bispo trava a peleja mais igual — não menos sanguinolenta. De ambos os lados caiam, de ambos os lados corria o sangue. Dos populares era mais todavia, porque entre eles só vinham bem armados os archeiros trânsfugas. Assim os episcopais tinham grande vantagem sobre os da comuna.
Ia-se dissipando o fumo que ao principio envolvia tudo, e os golpes eram mais certeiros e fatais... Começava a ceder o povo... Quando o seu jovem capitão, solevando o estendarte na esquerda e brandindo a espada com a direita:
— Amigos, — bradou — que é isto? A eles por nossa honra e pela liberdade da nossa terra!
A este brado, ao som desta voz, os populares alentaram, e entrou a desordem e a confusão nas fileiras inimigas, porque o seu chefe caiu de repente como ferido de golpe mortal no coração.
Tomaram-no em braços, levaram-no para a retaguarda; e enquanto o alcaide-mor, com alguns de mais ânimo, defendia, sem grande custo, a vanguarda, outros carregavam com o bispo — que já nem respirava quase — pelas escadarias acima do palácio.
Todos julgaram o bispo mortalmente ferido, o combate esfriou, parecia não haver já por que pelejar. A sorte das armas declarava-se pelos populares; mas esses mesmos estavam espantados da vitória, não sabiam que fazer dela, e começavam a ter medo, a ter “horror ao vácuo” de seu triunfo.
Assustaram-se porém antes de tempo: o caso era estranho e de pasmar; mas o bispo não morria, e nem levemente estava ferido; foi uma vertigem que o derrubou. Tornou a si transtornado, demudado, aflito; e com duas grossas lágrimas nos olhos, os braços alçados, e ele em pé sobre os degraus da escada, bradou de uma voz de agonia tão dolorosa que partia os corações:
— Vasco, Vasco!... És tu, Vasco?... Tu!
Vasco ficou imóvel, suspenso; e o bispo, arrojando a espada, que nem o desmaio lhe fizera soltar da mão:
— A mim! — clamou:— a mim, Vasco! A mim só os teus golpes. Aqui tens desarmado este peito; fere...
E desprendia a couraça, e rasgava a túnica de púrpura que debaixo trazia, e expunha nua aos imprecados golpes a forte arca do peito que lhe batia audivelmente, e em que se lhe ouriçavam como espinhos os pêlos grisalhos, longos e bastos que a povoavam.
O inesperado do caso, a estranhez daquelas palavras acabou de suspender as iras dos combatentes. Todos pasmaram, todos ficaram atônitos e cortados.
O clarão do incêndio dava luz sanguínea e abrasada a esse tremendo quadro de guerra civil. Todo o horror, todo o palpitante interesse da terrível cena se exaltou.
Vasco, o pobre Vasco não pôde mais ser senhor seu, sentiu que lhe fugia a luz dos olhos: por um derradeiro esforço do ânimo — vencido já do coração — ainda apertou com a esquerda sobre o peito a bandeira da cidade; mas os estribos faltaram-lhe dos pés, a espada caiu-lhe da outra mão, as rédeas foram sobre o pescoço do cavalo, a cabeça inclinou-se-lhe... e, se não fora que o generoso alazão estacou logo dos quatro pés, como se ali se fundira em bronze — ao menor movimento que fizera o cavalo em terra estava o cavaleiro.
Isto porém ninguém no percebeu, só os penetrantes olhos do bispo viram o que sucedia... Desatinado, começou a gritar:
— Acudam-lhe, acudam-lhe! cesse o combate, deixem tudo o mais, e acudam-lhe! Salvem-no. E nem mais um golpe! Salvem-no. Eu farei tudo o que quiserdes, boa gente. Sim, eu tratarei com ele, com Vasco, pois que esse é o vosso chefe... Bem, bem! assim, amigos, assim. Apeai-o com jeito. O cavalo é um nobre animal, não mexe com um pêlo do corpo. Parece o meu alazão... E é ele! Como foi isto? Não importa. Não o larguem, que não está firme nos pés ainda. Desabrochem-lhe o peito das armas. Criança! Esta criança com um peito de ferro! Meu Deus!...
E assim se ia fazendo tudo como o bispo dizia; e nas duas hostes quase confundidas mandava ele só. Tal poder tem a voz do coração, e tais estranhezas tem a guerra civil!
Mas já o nosso chefe popular estava em si, recobrado de animo e de corpo: firmando-se na lança da sua bandeira, deu alguns passos para o bispo, que o estava contemplando com admiração e lhe sorria de puro gosto; inclinou-se com reverência, e em tom grave, modesto, mas firme, lhe falou assim:
— Senhor, eu sou uma criança, é verdade; mas Deus serve-se dos pequenos contra os grandes, para os combater muitas vezes, e para os admoestar não poucas. Que a minha voz fraca e humilde chegue ao vosso coração e o embrandeça...
— Sempre, sempre vem ao meu coração a tua voz! — clamou o bispo interrompendo-o e estendendo-lhe os braços. — Mas... — e aqui se retraiu como picado subitamente de um áspide. — Mas que queres tu? Que fazes aqui tu? A que vieste? Que armas, que bandeiras, que discursos são estes?
—Esta bandeira, senhor, não a conheceis? É a da Santa Virgem, protetora da nossa cidade, defensora dos nossos direitos e liberdades. E eu...
— E tu?
—Eu sou o escolhido por esta boa gente para...
— Para quê?
— Para vos dizer em seu nome que eles não podem suportar mais esse jugo de escravidão em que os tendes, com que os deixais governar por homens tão indignos de vossa confiança, como de reger um povo cristão, livre, fiel e honrado.
Os olhos do prelado começaram a faiscar; o rosto, inda agora pálido com o susto de ver morto ou ferido o seu Vasco, ia-se-lhe inflamando de ira, principiava a tingir-lho o orgulho do seu mal-assombrado roxo-terra. Mordeu os lábios para se conter, e sorrindo com amarga ironia:
— E esse honrado, esse fiel povo vem armado de todas as armas requerer por sua justiça? Hasteou em tuas mãos a bandeira da Virgem da paz... E sem mais declaração de guerra, deita fogo ao meu palácio, arromba as portas, entra queimando e devastando na própria morada de seu senhor... Vasco, tu és uma criança com efeito, e a tua inocência te desculpa. Deixa essa gente que te iludiu, vem comigo, que eu...
— Uma criança sou; mas deu-me Deus razão inteira para ver donde está a justiça e o direito. Senhor, vós sabeis a causa fatal do alvorôto desta manhã... O povo, indignado mas respeitoso, veio com seus juizes à frente, veio a vossos pés pedir justiça e reparação. Prometeram-lha mas não lha cumpriram. Os vossos ministros riram das súplicas do povo, intimidaram os seus juizes e magistrados, e mofaram da indignação pública porque nos julgaram fracos, porque supuseram extinto, evaporado o fogo de palha das iras populares. Então o povo armou-se, ordenou suas fileiras, escolheu chefes que o não abandonassem, e agora... já não pede...
— Que faz então?
Vasco engoliu como em seco um som que lhe vinha mal formado do peito; mas tomando outra vez o fôlego e respirando largamente, disse com voz solene:
— Exige.
— Ah!... E a ti te escolheram por chefe, a ti para capitão dos rebeldes amotinados?
— A mim, senhor, escolheram-me para chefe do povo... Rebeldes ou leais, vós nos fareis.
— E que pretende de mim o povo?
— O que lhe tendes jurado, o que em bom e santo direito lhe deveis: castigo e desagravo pelo passado, cumprimento de seus foros pelo futuro. Que separeis de vós a má gente que vos rodeia, e que chameis os honrados de quem o povo confia.
— E se eu, quaisquer que sejam esses agravos, verdadeiros ou sonhados, entender que não devo pactuar com os meus vassalos sublevados, e exigir — exigir também eu por minha parte, que, primeiro que tudo, deponham as armas da rebelião?
— Não as deporão. Estão escarmentados, senhor; a sua boa fé tem sido escarnecida. A todas as promessas lhe têm faltado, e por cada desagravo prometido, têm vindo os vexames aos centos. Se a sua última razão são as armas, é porque lhe não deixaram outra. Culpai a quem lhe tirou todas as mais.
— E que farão, que querem fazer por fim com essas armas? Não as tenho eu também? Não os posso combater e destruir?
— Maior calamidade, senhor: Deus será juiz entre nós, e a vitória decidirá da pendência. Mas em todo o caso, eles retirarão de vós seu preito e vassalagem, deixarão de ser homens vossos, e se darão a el-rei, e o tomarão por senhor natural...
— El-rei! Ah! el-rei!... Aqui andam artes suas: bem o vejo. Não ousava tanto essa gente se não tivessem as costas quentes com ele. Bem: eu pensarei, e... Que se chamem os juizes. E virás tu com eles... Vireis vós com eles, senhor capitão. Daqui a uma hora, em pública audiência na nossa catedral, ouviremos dos agravos do povo, e veremos de concertar o que for razão. Senhor alcaide-mor, a suspensão de armas está proclamada. Que me guardem porém estas portas. As da Sé vão abrir-se: que entre o povo para lá e aí me achará para ouvi-lo. Os juizes da cidade, o meu vigário, todos os de minha corte e desembargo que sejam chamados. E tu, Vasco... Não, tu virás comigo agora.
E tomando pela mão o estudante, subiu com éle as largas
escadas do palácio.
Iam a meio já, quando Vasco foi conhecido do povo, e uma
voz se levantou dentre as turbas:
— Traição, traição! querem-nos tirar o nosso chefe!
— Não consentimos, não consentimos — responderam outras vozes.
— Não, não! — clamaram todos.
—Que nos entreguem arreféns, — disse um mais precatado e doutor. — Sem isso não vai.
— Queremos arreféns.
— Venha Pêro Cão.
— Para o enforcarmos antes de tudo.
— Morra Pêro Cão.
— Morra!
E já recrudescia de novo a sanha popular, e os episcopais se preparavam para a defesa. Os dois chefes das facções contrárias, que amigavelmente subiam as escadas em sinal de paz, e em penhor das recém-nadas esperanças de concórdia,
pararam, e não ousaram subir nem descer.
Assustou-se Rui Vaz, que tinha os seus planos, e não queria transtornado aquele principio de concerto. Por uma dessas inspirações que tantas vezes salvam a pátria com uma caturrice, o ex-archeiro destampou numa grande gargalhada e disse:
— Quem é o grandessíssimo traidor de bufão que veio com esse estupido alvitre? Nem Pêro Cão, nem outros que tais cães como ele são arreféns que se peçam. Um cabelo da cabeça do nosso capitão vale mais que todas as gargantas deles. E as gargantas deles, para que as queremos nós se não for para os nós da corda?... e iça!
Desatou tudo a rir.
— Bem dito! — exclamou um caldeireiro poeta que adorava o consoante e idolatrava o calimburgo. — Bem ditol
Para que os queremos nós,
Senão para dar-lhe os nós
Que lhe machuquem a noz
Da garganta excomungada?
Para mais nada, mais nada.
Consigno o importante documento deste memorável improviso nas duradouras páginas da minha crônica, porque ilustra um grave ponto de história literária; a saber: que não é invenção da moderna escola poética, segundo ela bazofia, este insartar de consoantes como ave-marias num terço — “pérolas num fio”, dizia Hafiz, e os orientais todos, há mil anos. — Não, senhor, é muito antigo, já no décimo quarto século se usava, e antes. Verdade seja que os insartadores eram menos, e o zunzum não cansava tanto — portanto.
Deste precioso documento se vê também quanto é antigo e popular entre nós o uso do “calimburgo’: palavra que facilmente adoto apesar de gafa de mau francês; mas antes isso, antes naturalizá-la mesmo assim doentia, e dar-lhe terminação portuguesa, acordando-a de boamente a nossos modos e aos sons habituais de nossa língua, do que dizer pretensiosa e espevitadamente: calembourg! som inóspito, difícil, que ressalta híbrido e ríspido, no meio de nossas palavras redondas e cheias, como um guincho dissonante que repugna.
Calimburgo foi — e não me tornem a dizer calembourg! — calimburgo foi o de Rui Vaz, o que poetizou e desenvolveu depois o Tirteu caldeireiro, e que tanto deu no goto à multidão — como sempre sucede em os ela entendendo... o que nem sempre lhe sucede.
Riu-se o povo: e quando o povo ri, bem vai ela.
Rui Vaz jogou no chorrilho e continuou:
—Arreféns por arreféns, que nos dêem o Arrifana: e bem lhe quadra o nome, Fr. João da Arrifana, venha esse de arreféns.
Outra gargalhada aprovadora que deu o povo, e outro documento de que a aliteração não é exclusivamente saxônia, como pretendem os amigos ingleses, antes mui usada e querida dos nossos, e que está em seus instintos poéticos, não menos do que o toante ou assonante, o consoante e o calimburgo.
— Pois venha Fr. João — clamaram — Fr. João queremos. Venha o Arrifana de arreféns.
— De arreféns o Arrifana!
Venceu a chacota, serenaram as turbas outra vez; o bispo assentiu, e foram buscar a Fr. João, que bem relutante deixou o asilo de seu convento. Mas não havia remédio: mandava o senhor e mandava o povo; a neutralidade era impossível.
Solenemente foi proclamado o armistício; e o prelado, com o chefe dos insurgidos, com poucos mais de uma e de outra facção, subiu enfim o último lance das escadas e entrou no palácio.
Dava neste ponto meia-noite; Garcia Vaz, que ficara para conter e suster os populares, inquieto e cuidadoso chamou por seu irmão e lhe perguntou com ansiedade:
— Ouviste que é meia-noite?
— Ouvi, sim; e então?
— Então, vem ele ou não vem? Se não vem, isto acaba mal. Povo é povo: em o demorando com qualquer pretexto, em lhe fazendo passar mal uma noite, começa a esfriar-lhe a cólera; e quem fica nos cornos do touro somos nós.
— Mais medo tenho eu que lhe ela ferva demais, e que entrem por ai a fazer desatinos que el-rei desaprove e castigue depois, e que nós tenhamos de pagar também. Até agora tudo vai de maravilha; e se o mantemos assim mais uma hora...
— Mas ele, ele? EIe é que não sei...
— Ele!... Ele já cá está.
— Que dizes! É possível!
— Fui eu em pessoa, com o arcediago e com a bruxa de Caia — aquela velha que sabe tudo, e que conhece quantos alçapões, quantas covas e cavernas há no castelo e na cidade — fui eu com eles ambos abrir-lhe o postigo secreto que dá nos subterrâneos do paço, e que também vai à capela da Senhora da Silva na Sé. Lá está...
— Só está? Que perigo!
— Só: pois é homem ele que tenha medo? E quem se lhe há de atrever?
— Quem? Qualquer desses rufiães que há nesta maldita casa, e que o não conhecem pela maior parte.
— Não tem dúvida. É homem para mais: deixa-o. E além disso, Paio Guterres lá sabe onde o embrechou nos esconderijos da Sé. Ninguém o verá, e ele verá tudo, e se deixará ver quando for tempo. Sossega: isto vai de vencida, e nós havemos de ser...
— O que, Rui?
— Que sei eu, Garcia? Mais alguma coisa havemos de ser. Depois de tantos trabalhos...
— Não sei, não sei. A gente mete-se nelas, e o lucro. - -
— É para os que vêm depois... Assim tem sido sempre, e creio que assim há de ser sempre. Veremos.
— Homem, mas isso não tira que a gente que tem razão.
— E justiça.
— Pois então adiantei E Deus será conosco.
Era passante já da meia-noite quando das altas torres da Sé começou a reboar lenta, grave e compassada a tremenda voz de seu grande sino, que só em mui raras ocasiões se tange e sempre anuncia grande festa, grande pranto, ou muito extraordinário acontecimento público.
Quanto na terra havia que não tivesse entrado no alvoroto, acudiu agora ao chamamento do bronze sagrado que parecia dizer a toda a cidade: “Vinde, vinde todos, e grandes coisas vereis”.
Com efeito, dentro em pouco tempo revoltosos e pacíficos, armados e desarmados, toda a população do Porto se concentrava no largo da Sé, nas ruas, vielas e passagens circunvizinhas. A noite era bela mas sem lua, e as altas janelas, as estreitas frestas da catedral começavam a mostrar as variegadas cores de seus vidros com as luzes que dentro se acendiam e que ia debuxando, aqui um santo mitrado com o seu báculo na mão, lã a cabeça de um serafim entre duas asas, além uma passagem da Bíblia, acolá uma legenda do Fios Sanctorum. Não tardou a voz do órgão a juntar-se a estes anúncios de grande e não esperada solenidade, preludiando nas cordas corais, e correndo por todas as escalas com seus magníficos e impressivos efeitos.
Logo, abrindo-se as portas de par em par, uma torrente de luz rompeu dos sagrados precintos, e inundou todo o largo apinhado de gente. E a multidão rompeu pela igreja dentro, derramando-se pela imensa capacidade de suas vastas naves, atulhando-a, sem deixar senão a capela-mor e o coro, porque Iho defendiam os altos cancelos que do corpo da igreja os separavam.
Magnífico era o espetáculo; e ele só per si, prescindindo do interesse da grande questão popular que ia debater-se, bastaria para atrair as turbas. Os cônegos com suas murças ocupavam as cadeiras capitulares; o bispo, trocada a armadura profana pela púrpura sagrada, a mitra em vez do morião, e no lugar da espada o báculo de ouro, parecia um antigo e homérico “pastor de povos” que deixou no campo os seus atavios de guerra, e reveste no templo as infulas sacramentais para ministrar no altar do seu deus.
Mas o seu deus é o Deus da paz e da misericórdia, que as próprias mãos inocentes as manda lavar primeiro, antes que circundem seu altar os que a ele chegam. Como receberá ele das mãos ensanguentadas desse mau pontífice o holocausto incruento que só é permitido oferecer-lhe com o coração mondado de toda a soberba, contrito, humilhado e nu de todo o mau pensamento?
Aí estava de porém, esse bispo em toda a pompa do principado e da púrpura, sentado cru seu trono, rodeado de seus clérigos e de seus oficiais, de seus ministros eclesiásticos e civis — à direita o arcediago de seu báculo, à esquerda o alcaide-mor de seu castelo — porque ele era senhor e apóstolo, carniceiro e pastor do mesmo rebanho: anomalia repugnante das idades bárbaras que tanto esplendor deu à Igreja, tanta luz tirou à Fé!
Sobre o altar-mor, que decorava um painel bizantino representando a Virgem padroeira da nossa cidade, estava aberto um grande livro dourado, resplendente de iluminuras, e com suas letras góticas enredadas de brilhantes arabescos. Eram os Evangelhos. E o livro estava encostado a uma almofada de brocado de ouro.
No baixo do coro, junto aos cancelos, sentados em tamboretes rasos, os juizes e vereadores da cidade, os desembargadores da mitra, o arcediago de Oliveira como vigário que era; e distinto entre todos o nosso Vasco, sem largar o pendão da cidade que nobremente e com dignidade conservava na mão. À esquerda uma banca, sobre ela os implementos de escrever, e junto dela com a pena na mão e o ouvido alerta, o escrivão da cidade, o que hoje diríamos escrivão da câmara.
Todos calavam, todos aguardavam em solene silêncio a abertura daquela grave e pomposa conferência em que se ia decidir se a segunda cidade do reino, a mais livre e independente pelo caráter e propensões de seus habitantes, tinha de continuar a ser feudo do seu bispo e do seu cabido, ou havia de recobrar os foros de cidade livre e real que a doação de D.Teresa lhe tinha feito perder, e que a dureza do domínio eclesiástico lhe fazia desejar cada vez mais.
O povo, a quem a majestade das cerimônias católicas impunha respeito e comedimento, ao ver o seu bispo ali rodeado dos prestígios do culto, sentia acalmar-se-lhe a cólera e despeito com que inda agora investira o castelo de seu senhor. Pêro Cão, não estava presente; Vasco o chefe por eles escolhido, Paio Guterres o eclesiástico deles respeitado e querido, ambos ali eram, sentados naquele conclave em que se ia tratar de seus negócios. Sossegavam e esperavam: meto caminho andado para desencruar as mais duras paixões.
O aspecto mesmo do prelado não tinha já aquele ar de sobranceria provocante, não respirava aquele habitual desdém e desapegado desprezo que mais desafiava a malquerença pública. Suas barbas pareciam mais alvas e venerandas, seu rosto mais profundado das rugas, seus olhos com menos lume e mais embrandecidos, todo o ademã de sua pessoa menos ereto e soberbo, mais descaído, mais simpático enfim, e mais para se ver num homem colocado no fastígio das honras eclesiásticas,
O bispo tinha a cabeça um tanto inclinada sobre o peito, mas os olhos fixos num ponto único de onde os não arredava: era no comissário popular, no elegante e jovem tribuno, que solenemente sentado com o seu pendão na esquerda, e a direita gravemente colocada no peito, semelhava a estátua do santo campeão de Inglaterra que Portugal depois adotou por seu, quando o ódio a Castela fez exonerar a Dom Santiago do antigo cargo de padroeiro deste reino, que ele sempre reunira ao de Castela e depois ao padroado geral das Espanhas, e de que nunca pensou ver-se esbulhado o bom do santo.
Não tirava os olhos dele, e parecia não os ter, olhos nem atenção para mais nada, o bispo, senão para aquele mancebo.
Durou o silêncio, durou a expectação bastante tempo; e começava a sentir-se urna ondulação de impaciência correr pelo auditório, quando Paio Guterres, atento ao que passava, e temeroso de que alguma imprudência não viesse quebrar aquelas esperanças tão bem agouradas de paz, levantou-se, chegou ao meio do coro, ajoelhou e curvou-se profundamente ao retábulo da Virgem, depois tornou-se a erguer, e inclinando-se ao prelado, fazendo vênia a um lado e outro dos capitulares, volveu-se direito ao trono episcopal e disse: