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Mattos Malta ou Matta - Aluísio de Azevedo

 

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(Romance ao correr da pena)

De um cavalheiro cujo nome ocultamos, não só a seu pedido, como porque seria imprudente e talvez mesmo perigoso revelá-lo, recebemos uma importantíssima carta, a que damos publicidade porque o seu assunto se prende intimamente à gravíssima questão - Castro Malta.

É possível, provável mesmo, que das obsequiosas informações desse cavalheiro resultem novos elementos de convicção que auxiliem o desfecho dessa questão, concorrendo para descobrir esse tenebroso mistério, que tanto se empenha a Policia em ocultar.

Ao nosso amável informante pedimos desculpa de havermos publicado integralmente a sua carta e que nos remeta sem detença quaisquer informações novas, que porventura venha a colher.

Eis a carta:

Sr. Redator dA Semana.

Posto que apenas ligeiros laços de cortesia liguem as nossas relações, tomo a liberdade de dirigir-me a V. Sª. porque entendo ser esse o melhor caminho para chegar aos fins a que desejo chegar.

Trata-se de merecer de V. Sª. um obséquio, cuja realização, que não lhe custará grande sacrifício, trará no entanto para este seu criado vantagens incalculáveis, e mais ainda como que o gozo do cumprimento de um dever.

O meu desejo é que V. Sª. dê na sua esperançosa Folha uma notícia, uma simples notícia, a respeito de certo fato, insignificante na aparência, mas em verdade de um grande alcance social e político. E, para que V. Sª. possa dar tal notícia com toda a segurança, preciso é que eu fale de outros fatos, sobre os quais não daria pa­lavra, se imprevistas circunstâncias não me obrigassem a símilhante coisa.

Em primeiro lugar, Sr. Redator, convém lembrar-lhe que eu sou casado; que, se não tenho filhos é por­que morreu o único que me chegou a nascer; e que até hoje tenho desempenhado com toda a retidão e todo o zelo o modesto emprego que conquistei a concurso na Secretaria em que ainda ontem tive o prazer de encontrar V. Sª., pedindo informações a respeito de certa autoridade, envolvida na grande questão que neste momento preocupa a população inteira desta vastíssima cidade - a questão Malta.

Além do que fica dito, é público e notório que não sou homem de escândalos, que não me embriago, nem ando com francesas e que, em todo o princípio do mês, logo ao receber o meu ordenado, pago pontualmente aos meus fornecedores, e guardo o resto do dinheiro para as despesas de bondes e de outras coisas que não admitem crédito.

Vê, pois, V. Sª. que sou homem de bons costumes, que vivo às claras, como se costuma dizer, e que, por conseguinte. se me acho metido numa questão suspeita e de todo o ponto transcendental, é simplesmente porque assim o quiseram outros, sem que eu, dou-lhe a minha palavra de honra, tenha de modo algum contribuído para isso.

Sr. Redator, disse-lhe já que sou casado, mas ainda não acrescentei que, há coisa de ano a esta parte, sou o mais desgraçado dos maridos. Há um ano que me entrou pela primeira vez no cérebro o demônio da desconfiança a respeito das virtudes de minha mulher, e desde então a esta data não consigo um momento de repouso.

Imagine V. Sª. que eu, uma tarde, por sinal que era sábado, entrando em casa um pouco mais cedo do que de costume, encontrei minha mulher escondida debaixo da escada, entre uma barrica vazia e um colchão que servia às vezes para algum amigo que porventura pernoitasse conosco.

Perguntei-lhe que fazia ali; ela, em vez de responder, abriu a chorar, e escondeu o rosto.

Já bastante intrigado com a brincadeira, puxo-a pelo braço e observo o lugar deixado por ela, a ver se descobria a explicação daquele fato estranho.

A princípio nada encontrei, além da barrica vazia e do colchão; mas empurrando este com o pé, dei com um número da Gazeta de Noticias, para o qual não te­ria atentado, se minha mulher não soltara um grito, justamente na ocasião em que eu o tomara com avidez.

Eu, porém, sem lhe dar tempo a arrancar-me das mãos a folha, ganho o meu quarto de carreira, fecho-me por dentro, dando duas voltas à fechadura.

Era isso mesmo todavia o que desejava e o que conseguira a espertalhona, porque, segundo fui mais tarde informado, ela, em bem não me viu fugir com a Gazeta, tornou logo ao ponto em que a encontrei e, rebuscando com a mão por detrás da barrica, daí sacou um objeto e com ele fugiu para o porão da casa.

Esse objeto, vim depois a descobrir, era um pequeno cofre de madeira preta com embutidos de metal amarelo, contendo o quê ainda não sei.

Minha mulher, em seguida a esse fato, principiou a não me querer encarar de frente e a evitar comigo a menor troca de palavras. Enterrava-se no quarto das seis às seis, e, se eu a outra qualquer hora tentava chamá-la a mim, escondia a cabeça nos travesseiros e punha-se a soluçar, que era uma coisa por demais.

Aborrecido, triste, completamente desarticulado dos meus hábitos, deixava-me então ficar pelos cantos, a cismar, a enfiar cachimbadas, sempre em busca de descobrir a ponta daquele mistério, que já me tirava regularmente o sono e o apetite.

E minha mulher - nada de desembuchar. A princípio lancei mão da violência. ameacei-a com os punhos cerrados, falei no meu revólver de seis tiros, depois - empreguei meios brandos. fiz-me terno, pedi, choraminguei, em seguida - recorri à astúcia. armei ciladas, fiz planos, espiei pelas fechaduras, andei na ponta dos pés, apalpei as trevas e procurei agarrar um gesto dos seus, um sorriso, ou uma dessas palavras indiscretas que às vezes nos escapam na inconsciência do sonho. Mas tudo isso foi inútil; tudo isso foi trabalho perdido.

Cresciam as dúvidas e com elas o meu padecer e as minhas tristezas.

Então, meu consolo único era um papagaio que ela trouxera quando nos casamos. Mas, ai!, esse mesmo, desde que a dona se enterrara no quarto, estava quase tão triste como eu e não queria dar à língua, nem à mão de Deus Padre.

Afinal, um dia, quando, de furioso que estava, ate já me dispunha a torcer-lhe o pescoço, o pobre bicho encrespou as penas da nuca, fechou voluptuosamente os olhos, abriu de leve as asas e disse, como quem sus­pira:

- "João Alves!"

Eu voltei-me para ele o mais ligeiro que é possível:

- Hein?! Como?! Fala, fala, minha rosa! Peço-te por amor de Deus que fales! Vamos! Quem passa, meu loiro?...

Mas o maldito abaixou a cabeça, e calou o bico por uma vez.

Entretanto, aquelas duas palavras que lhe escaparam, aquele nome, eram já um indício, uma descoberta, um ponto de partida. Se o papagaio as pronunciara tão bem, era sem dúvida porque de muito se havia familiarizado com elas.

Ora, eu nunca levara a casa nenhum João Alves; pela vizinhança também não me constava que houvesse gente com esse nome... de quem pois o ouvira o papagaio?...

Esta era a minha questão; este era o meu ponto de partida.

Mas, que noites, Sr. Redator! que noites passei eu a pensar naquelas duas palavras!... Quantas e quantas suspeitas não me passaram pela mente. Ah! Só pode compreender o peso de uma dúvida dessa ordem quem como eu a carregou nos ombros por tantos dias.

"João Alves! João Alpes!" Estas duas palavrinhas cosiam-me os miolos, como se uma fosse a agulha e a outra o fio!

Uma noite surpreendi me defronte de minha mulher, a berrar-lhe contra o rosto.

- Tu me hás de dizer quem é o João Alves! ou eu te beberei até a última gota de sangue!

Minha mulher soltou um grito e caiu de costas na cama, sem sentidos. Corri à despensa em busca do vinagre; mas, de atrapalhado que estava, demoro-me um pouco a encontrar o galheteiro e, quando volto ao quarto, já não achei ninguém.

Percorro toda a casa, revisto os móveis, os cantos, o quintal, o porão - nada! A pérfida havia se escapado pela porta da cozinha.

Si, fui à venda pedir informações; indago pela vizinhança, e só no dia seguinte descubro que a miserável fugira com um tal João Alves que há muito a convidava para isso.

-Ah! O papagaio tinha razão!

Armei-me, passei a noite a fariscar-lhes a pista. Pela manhã, depois de quebrar a cabeça em procurá-los, vim a saber que os infames estavam refugiados a dous passos de minha casa, numa hospedaria que ficava ao canto da rua.

Corri para lá espumando de raiva, meti ombros à porta, entrei; mas os fugitivos já lá não estavam e deles só havia um vestígio importante. Foi um cartão de visita que o amante de minha mulher deixara ficar por esquecimento.

Pois bem, Sr. Redator, nesse cartão estava escrito "Castro Matta". E estes dous novos nomes, ligados aos que pronunciara o papagaio, aproximam-se singularmente do nome por extenso daquele célebre homem que hoje os jornais com tanto afinco procuram descobrir. E agora, custe o que custar hei de desencava-lo; não porque me interessem as questões públicas, mas porque esse João Alves de Castro Matta há de sofrer pelo que me fez.

É isso, Sr. Redator, o que por ora lhe tenho a comunicar e do que, peço, faça uma pequena notícia, escondendo os pontos mais privados desta carta. E, se V. Sª. quiser ligar o seu esforço ao meu, havemos de dizer ao público o que foi feito do Malta ou Matta, porque, segundo as últimas informações que colhi e que amanhã lhe enviarei, cada vez mais se justificam as minhas suspeitas sobre a identidade do grande patife.

Pelo que eu lhe for dizendo, verá V.Sª. que estou a par de tudo e que os mais culpados nesta questão não são os que mereceram as maiores acusações da imprensa.

Consola-me a idéia de que, vingando a minha honra ultrajada, vou igualmente prestar um grande serviço à justiça e ao Direito.

Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1884.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. Obrº.

* * *

Novas Revelações

Segunda Carta

Sr. Redator dA Semana.

Não sei se lhe agradeça o seu procedimento com a minha carta ou se lho censure; o que afianço é que ele me surpreendeu deveras e, se não me magoou, também não me produziu grandes impressões de gosto.

Esperava que V.Sª., atendendo ao meu justo pedido, se limitasse a extrair, de tudo que lhe enviei, uma pequena notícia e, quando vi a minha carta publicada na sua íntegra e, quando tive ocasião de ver a sensação que ela produziu sobre o público desta Capital, confesso-lhe, Sr. Redator, tive sérios receios de haver cometido uma leviandade.

Porque, cumpre declarar, eu não tenho o hábito de me articular diretamente com as massas populares, e sempre que me vejo alvo de atenções gerais, apodera-se de mim um tal constrangimento e uma tal ansiedade, que chego a ficar doente.

Entretanto, V.Sª. teve a prudência de ocultar o meu nome e o de outras pessoas que citei, e isso já é pa­ra mim não pequena animação.

Nem sei qual seria a minha conduta, se V.Sª. não tomasse tão delicada resolução. E, já que as coisas seguiram esse caminho, estou disposto a não retroceder, e declarar pra frente tudo que me constar a respeito do assunto.

Como lhe disse na minha primeira correspondência, apenas o que me ficou da investigação da hospedaria foi um cartão de visita onde se lia o nome de Castro Matta.

Pois bem, Sr. Redator, armado desse documento, saí a tomar informações no quarteirão inteiro e vim a saber por um homem do ganho que este próprio levara para a ponte das Barcas Ferry um baú de folha com as iniciais J. A. C. M.

Peço-lhe informações sobre o dono ou dona dessa bagagem, e ele me respondeu que a pessoa que lha entregara era um homem alto, magro, de cabelos pretos e barba à inglesa, vestido com certa elegância, de polainas e chapéu alto, mas que não podia afiançar se ele era ou não o verdadeiro dono da bagagem ou simplesmente um encarregado dela, visto que o sujeito, a cada passo que dava, dizia com um gesto de impaciência. - "Que maçada! Que maçada!"

E o carregador declarou mais que, indo a tomar uma caixa de chapéu de senhora que o sujeito tinha sobre a mala, ele a defendeu com certo interesse e disse que não se incomodasse com a caixa, que ele mesmo a levaria e que, ao metê-la debaixo do braço, acrescenta­ra:

- Não! desta não me separo por coisa alguma!

- E ele não te disse como se chamava? - perguntei ao homem do ganho.

- Saiba vossemecê que não senhor; mas quando cheguei à estação, encontrei-o de braço com uma senhora, que lhe dava o tratamento de "Seu Joãozinho".

Estas duas palavras fizeram-me pulsar o coração com maior força.

- E essa senhora, que estava com ele - interroguei de novo -, essa senhora que espécie de gente mos­trava ser? Qual era o seu tipo? Era baixa, gorda, ou magra e alta?

- Nem muito baixa, nem muito gorda. assim pelo feitio daquela madama que ali vem.

E o ganhador apontou com o seu velho chapéu de lebre para uma Francesa que se encaminhava para o nosso lado e que era justamente da estatura de minha mulher.

- E era morena? - perguntei em crescente sobressalto.

- Nem por isso; mas era... era moreninha e com umas faces rosadas que faziam gosto. Lembra-me ainda que, numa ocasião em que o sujeito lhe disse alguma coisa ao ouvido, ela soltou uma risada muito gostosa e eu vi então uns dentes mais alvos que esse peito de sua camisa.

Corri instintivamente os olhos pela minha camisa e lembrei-me da brancura sedutora dos dentes de minha mulher.

- E como estava vestida? - inquiritei de novo.

- Homem! Disso não me lembro!...

- Diabo! - praguejei.

- Ah! agora me recordo! Estava toda de preto e tinha um chapéu de palha escura que lhe escondia os olhos.

- Os olhos? E de que cor eram eles?

- Não lhe posso dizer, patrão, porque o chapéu não deixava...

- "É a mesma, não tem que ver!" - pensei, lembrando-me de um chapéu que dois meses antes eu havia comprado para minha mulher na Notre Dame.

E, metendo uma nota de dez tostões na mão do homem, acrescentei.

- Ora diga-me cá! não reparou se a sujeita tinha algum sestro?

- Sestro?

- Sim! Pergunto se ela não tinha o costume de fazer alguma coisa particular com as feições ou com alguma parte do corpo.

- Parte do corpo?

- Quer dizer, se ela não tinha algum cacoete.

- Que diabo vem a ser isso?

- Mau! Agora é você que me interroga! Pergunto-lhe, homem de Deus, se a sujeita não piscava com os olhos, não mexia com a boca ou não sacudia os ombros.

- Mexia, patrão, sacudia e piscava.

- Tudo a um tempo?!

- A um tempo, como?

- Bem, já vejo que não arranjamos mais nada. Adeus, obrigado.

- Ah! É verdade - disse o homem, voltando a ter comigo -, ela, patrão, todas as vezes que falava, lambia os cantos da boca...

- Lambia os cantos da boca?! Ah!

Já não podia haver dúvida! Era ela! Era minha mulher! Era Margarida.

Quando voltei a mim da última revelação do carregador, este já não estava em minha presença, ao passo que a Francesa, que lhe servira de comparação para me dar idéia do tamanho da sujeita, permanecia ao meu lado e observava-me de um modo estranho.

Eu, porém, não me sentia disposto a prestar-lhe atenção e corri a tomar o bonde das Barcas Ferry.

Eram cinco e meia; ainda tinha tempo talvez de encontrá-los nas ruas de Niterói. Entrei na estação como um louco, procurando descobrir em todas as pessoas, em todas as coisas um indício que me pudesse elucidar naquela conjuntura.

Nada! nada!

Fui para bordo, assentei-me ao canto de um banco no tombadilho, e confesso que nunca achei que as Barcas Ferry caminhavam tão devagar. Sentia ímpetos de atirar-me ao mar; uma vontade dolorosa de chorar estrangulava-me a garganta. Não podia estar quieto, ergui-me, dei algumas voltai pelo tombadilho e afinal desci.

Imagine, Sr. Redator, qual não foi a minha surpresa quando, na primeira fisionomia que meus olhos descobriram, reconheci a mesma Francesa que servira de comparação ao homem do ganho.

"Será talvez uma coincidência..." pensei, e resolvi não mais cuidar disso.

Mas a Francesa se havia levantado e, vindo ter comigo, disse em meia-língua.

- Se quiser saber o que foi feito deles, acompanhe-me, quando chegarmos.

Quis pedir mais algumas explicações, mas a Francesa, como se a coisa não fosse com ela, afastou-se e re­tomou na barca o lugar que havia abandonado e a leitura de um livro que tinha interrompido.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. Ven.or

* * *

Novas Revelações

Terceira Carta

Mal a barca abicou na ponte da estação de Niterói, saltei de um pulo, só cuidando seguir a misteriosa Francesa que me havia prometido informações sobre o casal fugitivo.

Mas, qual não foi a minha decepção, quando, volvendo em torno os olhos ávidos, não encontrei a estrela em que baseara as minhas melhores esperanças.

Ela havia desaparecido, como por feitiço, visto que, apesar das pesquisas que empreguei,. não lhe descobri sequer o rastro.

- "Estaria se divertindo à minha custa?"- perguntei aos meus botões, que, naturalmente para me serem agradáveis, não quiseram opinar comigo.

- Bem! - deliberei: - Não pensemos nisto!

E fui cuidar de obter novas informações. Dirigi-me logo para o buffet próximo à ponte e perguntei a um criado que servia a um canto da sala um grupo de rapazes, se ele tinha visto saltar um sujeito de suíças, polainas, chapéu branco, de braço dado a uma dama vestida de preto, com um chapéu de palha.

O criado olhou para mim, coçou o queixo e resmungou:

- Homem! Eu lhe digo... Saltar, saltaram, até mais de um par, o negócio porém é que não reparei se algum deles era esse de que fala o senhor...

- E uma Francesa que chegou justamente nesta barca? - perguntei. - Uma Francesa de estatura regular, cabelos loiros e vestido de ramagens. Também não saberá dar-me notícias dela?...

Mal acabei de proferir estas palavras, um dos rapazes do grupo ergueu-se de improviso e, estacando defronte de mim, e ferrando-me um olhar muito atrevido, interrogou-me:

- Que deseja o senhor dessa Francesa?

Confesso que não encontrei logo o que responder a similhante tipo. Ele, porém, acrescentou:

- Vamos! Estou às suas ordens! Os negócios dessa senhora tratam-se comigo.

- O senhor é seu marido?

- Não tenho que lhe dar explicações. Sou da Francesa o que bem entendo ou quero ser! Apenas não admito que nenhum sujeito, seja lá quem for, tenha com ela qualquer negócio particular!

- Pois então, dê-lhe lembranças! - repliquei eu, voltando-me vivamente e muito disposto a dar às de vila-diogo.

O tipo não me deixou tempo para isso e cortou-me o caminho, indo postar-se à saída do buffet. Os outros rapazes seus companheiros, que eram em número de quatro, haviam-se erguido já e estavam incorporados ao meu adversário.

- O senhor não me sairá das unhas enquanto não explicar o que deseja da mulher que procura!

E, voltando-se para um dos companheiros:

- É uma questão a respeito da Jeannite! Sempre ela! Sempre as mesmas maçadas por causa daquela sirigaita!

Os rapazes, que se haviam levantado por último, olharam-me então de alto a baixo e depois puseram-se todos a observar os pés, e a chuparem os competentes charutos, muito sérios e muito tranqüilos.

A questão ia estoirar definitivamente por parte do meu provocador, quando este soltou um formidável "Ah!" e então vimos todos assomar à porta do buffet a causadora de todo aquele alvoroço.

Fez-se um grande silêncio, no meio do qual a Jeannite atravessou a sala, foi ao encontro do meu formidável agressor e, depois de apontar para mim, lhe disse com a voz firme e resoluta:

- Este senhor não me conhece ainda, encontrei-o na barca e prometi que lhe daria informações a respeito de um casal que fugiu aqui para Niterói.

- A parte feminina desse casal é minha mulher! - disse eu, corando levemente.

- Já sei - respondeu a Francesa.

- Seria um casal que saltou na barca das cinco? - interrogou o encarregado dos negócios da Jeannite. - Um casal muito unidinho, cujo homem trazia debaixo do braço uma caixa de chapéu de senhora?

- É esse justamente! - exclamei com um vislumbre.

- Cale-se! - volveu a Francesa em voz baixa ao meu ouvido. - Eu me encarrego de tudo, descanse!

- Pois esse casal, meu caro senhor - continuou o da agressão -, esse casal seguiu para os lados de São Gonçalo. É só o que lhe posso dizer a respeito.

- Obrigado! - respondi; e fiz menção de sair.

- Olhe! - acrescentou a Francesa - não seja precipitado. Tome o bonde do Barreto e...

Neste ponto ela abaixou a voz disfarçando e concluiu com esta frase:

- Às oito horas na Rua do Imperador, nº ***.

- Para quê?

- Aí encontrará todas as informações.

O sujeito que se dizia encarregado de seus negócios, já então apresentando um ar inteiramente oposto ao que tomara no princípio da questão, encaminhou-se humildemente para a recém-chegada e, de chapéu na mão, balbuciou com um sorriso de caixeiro:

- Eu não tive a menor intenção de contrariar-te, Lelé!

- Cale-se! - exclamou ela com desprezo, e em seguida piscou para o meu lado o seu olho esquerdo, e saiu do buffet ainda mais senhora de si do que entrara.

Saí também, mas, para não deixar alguma sombra de suspeita no espírito dos rapazes, tomei direção contrária à da Francesa e cheguei até a sair por uma outra porta.

O tal encarregado dos negócios dela falara-me em São Gonçalo; tinha eu, pois, de meter-me no bonde de Sant ‘Ana.

Quando ia a fazer isso, sou detido por um homem de meia-idade, gordo e de óculos, que me disse, falando-me à orelha:

- Não vá a São Gonçalo, seria perder o seu tempo; se quiser ouvir um bom conselho, siga os rastros da Francesa que veio com o senhor na barca. Só ela, só a Jeannite lhe poderá dirigir os passos com segurança. Em todo o caso, se V. Sª. não quiser dar ouvidos às minhas palavras, acredite ao menos que não deve tomar o bonde de Sant’Ana e sim o do Barreto, porque este o aproximará mais facilmente daqueles que procura.

Dizendo isto, o homem recuou dous passos e, escondendo o rosto numa capa rio-grandense que trazia, desapareceu nas sombras de uma casa em construção que nos ficava ao lado.

Fiquei parado no meio da rua, sem saber que partido tomar. Cada informação das que lograra apanhar, longe de me elucidar o espírito, mais tenebroso mo havia deixado.

Afinal, entre tudo isso, só a Francesa falara claro e decisivamente.

Puxei do relógio, consultei as horas, eram sete.

- Bem! - deliberei. - Às oito estarei na Rua do Imperador nº. ***.

Segui.

Não gastei muito tempo a chegar ao ponto da entrevista e, a dous passos da casa indicada, o mesmo sujeito gordo de há pouco aproximou-se de mim e, levando o indicador aos lábios, fez-me sinal que o acompanhasse.

Tive vontade de hesitar, mas, chegado como estava àquele ponto da intriga, deixei-me levar.

Daí a poucos instantes era eu introduzido numa pequena alcova cor-de-rosa, iluminada por um único bico de gás.

Mal entrei, senti correr um reposteiro que havia por detrás de uma cama e então vi surgir, como num sonho, a misteriosa Francesa.

Ela caminhou para mim, sorrindo, e, logo que me leve ao alcance de suas mãos, passou-me os braços em volta do pescoço e exclamou entre beijos:

- És meu!

- Perdão! - disse eu. - Perdão! Agora, tenha paciência, mas não me pertenço a mim mesmo, quanto mais a V.Exª. Não tenho um minuto a perder! Preciso encontrar o amante de minha mulher!

- O Castro Matta? - perguntou a Francesa, sem me largar das unhas.

- Sim! O Castro Matta!

- Descansa! - volveu ela. - O amante de tua mulher está seguro e muito bem seguro! Dei já todas as providências para isso...

- Como assim?

- Lê.

E eu li uma portaria da Policia, declarando que o meu homem fora recolhido ao xadrez na véspera, isto é -no dia 16 do mês de novembro.

- Quê? Pois ele está no xadrez?

- Juro-te que está, e não quero ser quem sou, se daqui a três dias o detrator de tua honra não estiver recolhido à Casa de Detenção.

- Em todo o caso, é preciso que eu vá no seu encalço.

- Não! - exclamou a mulher. - Não sairás daqui, senão amanhã, depois do meio-dia.

- Ora esta! - gaguejei, atirando-me sobre um divã - só me faltava mais isto!

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.­or

***

Novas Revelações

Quarta Carta

Sr. Redator.

Recebi a sua estimável cartinha, na qual declara V. Sª. os justos motivos pelos quais não deu publicidade às últimas comunicações que lhe fiz, reservando-as para mais tarde, visto que não seria de bom aviso expô-las tão precipitadamente.

Verdade é que tais revelações tanto podiam aparecer agora, como mais tarde, encarando-as pelo lado do interesse que elas tenham porventura nesta questão.

Entretanto vou prosseguir, tomando o fio das revelações justamente no ponto em que as deixamos.

Quando saí da casa de Jeannite, isto é, dous dias e meio depois de ter entrado, já o meu homem, segundo o que dissera aquela, devia estar recolhido à Casa de Detenção.

A Francesa deu-me uma fotografia dele, um retrato que o tratante havia três meses antes tirado em casa do Emilio Rouede, quando esse pintor de marinhas ainda se dava a trabalhos fotográficos.

Esse retrato estava em tudo de acordo com as informações que eu conseguira apanhar a respeito do Castro Matta.

Senhor de mais esse belo auxílio, dirigi-me para a Casa de Correção, onde felizmente tenho nada menos do que três amigos; pedi-lhes notícias do Matta e um deles me respondeu que o meu homem havia seguido na véspera para a Santa Casa de Misericórdia.

- Para a Santa Casa? -perguntei surpreso.

- Sim - disse-me o amigo. - Foi tratar-se de uma congestão hepática.

- Mas, como assim? - tornei a perguntar. - Ele parecia vender saúde e, segundo o que acabou de dizer aquele senhor (apontei para um outro dos amigos), o homem foi preso por ter sido pilhado a fazer desordens na Praça da Constituição.

- Esse ponto agora é que eu não lhe posso esclarecer - volveu o meu informante. - Apenas lhe digo que o Castro Matta não é lá grande coisa debaixo do ponto de vista da seriedade e da boa conduta.

O meu amigo e informante gostava em extremo de armar a frase com uma certa pompa de linguagem; sinto até não poder reproduzi-las mais fielmente, porque algumas delas são bem boas.

Mas não é disso que se trata agora, e não podemos perder tempo com similhante coisa.

- Então o sujeito, o tal Matta, é homem de maus costumes, hein? - perguntei ao amigo.

- Chi! - fez ele - nem lhe digo nada! Sem ir muito longe, ainda na véspera da desordem que ele fez na Praça da Constituição, foi visto a passear em Niterói com uma sujeita da vida airada, uma sujeitinha vestida de preto e com um grande chapéu de palha, que lhe escondia quase todo o rosto.

Imagine, Sr. Redator, a impressão que estas palavras me causaram, a mim que reconheci naquele vestido preto e naquele chapéu de palha a mulher a quem para sempre havia ligado meu nome e meu futuro.

Mal sabia eu quando te comprava na Notre Dame, pobre chapéu de palha!, que terias ocasião de entrar tão diretamente nas minhas dores e nos meus sobressaltos de marido atraiçoado!

Desconsolado, aflito e naturalmente com uma cara d’asno, ia a deixar a Detenção para tomar o caminho da Santa Casa da Misericórdia, quando um dos meus três amigos chamou-me de parte e disse-me:

- Tu me mereces toda a confiança e vou falar-te com franqueza. O Malta...

- Malta ou Matta?

- O Malta - sustentou ele -, o Castro Malta.

- Mas não é o Malta que eu procuro, é o Matta.

- É tudo uma e a mesma cousa. Digo-te mais: o sujeito não é só Matta e Malta, é também Mattos.

- Hein?

- É o que te digo. O velhaco usa e abusa desses três apelidos, conforme a situação e conforme o plano de suas velhacadas. É Malta quando quer comprar a crédito qualquer cousa; é Mattos quando se mete em desordens e arruaças e só é Matta nas aventuras amorosas.

- Então é o mesmo - disse eu. - É justamente por causa de uma questão amorosa que eu ando em busca do tratante.

- Aposto que se trata da Jeannite!

- Da Jeannite? Uma Francesa, de cabelos loiros?

- Isso! É a amante dele.

- Dele quem?

- Do Matta, Malta ou Mattos.

- Que me dizes, homem?

- Pois não. Olha, vou mostrar-te uma carta que ainda hoje ela me escreveu.

E o meu amigo, tirando do bolso uma folha de papel, marca pequena, leu pouco mais ou menos o seguinte, entre outras cousas, as quais não prestei a mesma atenção.

"Aquele miserável pagou-me tudo, vinguei-me dele (o miserável era o Matta); logo que tive as provas da sua traição, procurei o marido da mulher com quem ele me traía, obriguei-o a vir a minha casa, prendi-o, fingi-me apaixonada por ele e vinguei-me durante sessenta horas."

Eu soltei um suspiro; - que me estaria ainda reservado?!

O amigo, depois de guardar a carta, acrescentou:

- Foi ela, a Jeannite quem arranjou a prisão do maroto...

- Pois a Jeannite tem essa influência na Polícia?

- Então não sabes do que há, homem de Deus?

Eu confessei que não sabia, e o amigo passou então a fazer-me a delicada revelação que na minha última carta expus a V. Sª. e que V. Sª. resolveu guardar para mais tarde.

- Mas enfim - disse eu ao meu obsequioso informante -, disseste que ias me falar com franqueza a respeito do tal Matta e ainda não declaraste o que é feito dele.

- O que é feito dele? Eis justamente o que te vou dizer em confiança...

E depois de observar se n~o nos escutavam:

O Malta não foi para a Misericórdia!

Não foi? Mas então onde está ele?

Está aqui, escondido. Temos ordem superior para não consentir que ele se comunique com pessoa nenhuma e para declarar que ele foi para a Misericórdia. Amanhã hás de ver isso justamente nas notas policiais.

De sorte que o homem está aqui? - perguntei ainda.

Está - disse o amigo. - E estará por muito tempo!

E a mulher com quem o viram a passear em Niterói? Sabes porventura me dizer que fim levou?

Também cá está e tem de responder a processo por crime de roubo.

Roubo?! E presa?! Oh!

Admiras-te de quê?!

Desgraçado! essa mulher é minha...

Tua, quê?

... esposa!

Oh! Desculpa! Eu não sabia...

E é permitido ir ter com ela?

Pois não. Acompanha-me.

E dizendo isto, o meu amigo tomou a direção do lugar onde se achavam os presos. Acompanhei-o.

Ao chegarmos à célula em que se achava a amante do Malta, senti que o suor me caía em bagos pela fronte; uma vertigem me escondeu por instantes a luz dos olhos, quis avançar e as pernas afrouxaram-se-me a tal ponto que o amigo amparou-me nos seus braços e excla­mou:

Então, fulano! Que é isso? Nada de fraquezas! Sê homem, meu amigo!

Eu concentrei todas as minhas forças e respondi:

Estou às tuas ordens! Vamos!

O amigo empurrou a porta e eu soltei um grito de surpresa e de indignação.

Imagine V. Sª. quem havia eu de encontrar ali, em vez de minha mulher, como esperava? Imagine quem, Sr. Redator: - minha sogra.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

***

Novas Revelações

Quinta Carta

Sr. Redator.

Antes de mais nada, antes de lhe dar conta dos fatos extraordinários que se vão seguir, seja-me permitido dizer duas palavras a respeito de minha sogra, dessa megera, a quem o acaso, por desgraça, fez mãe da mulher com quem casei.

Dona Leonarda dos Prazeres é uma velhusca de quarenta e tantos anos que não parece ter mais de trinta e poucos. Forte, bem conservada e lépida, diz até muita gente que ela mete mais vista do que a filha, com quem aliás se parece muito.

Dona Leonarda é viúva e foi casada quatro vezes. (Margarida nasceu do seu primeiro matrimônio.) Teve por maridos os seguintes homens: um ferrador, um açougueiro, um jornalista e um farmacêutico.

Consta que todos eles acabaram meio idiotas notando-se que dous deram cabo da vida, um suicidando-se a tiro e o outro a veneno.

Dona Leonarda herdou do último de seus maridos, o farmacêutico, uma casinha de porta e janela, cinco apólices da dívida pública e a farmácia. Comeu tudo isso dentro de um ano e passou a viver à minha custa, Eu que não estava disposto a aturá-la em casa, arranjei-lhe uma pensão com os parentes ricos do defunto farmacêutico e tratei de nunca mais saber notícias dela.

Isto foi, haverá coisa de quatro anos, e, depois de todo esse tempo, é que a fui encontrar pela primeira vez ali, na Casa de Correção e presa como ladra, segundo a informação do meu amigo.

Entrei na célula e, sem mais comentários, exigi de minha sogra a explicação de tudo aquilo. Ela fechou os olhos e meneou a cabeça negativamente.

- Não quer falar? - perguntei eu.

Ela tornou a dizer que não, com a cabeça.

- É a sua última resposta?

Ela sacudiu a cabeça afirmativamente.

- Mas a senhora não sabe o que me trouxe aqui?

Ela levantou os ombros, com indiferença.

- Não sabe que se trata de sua filha?

Ela repetiu o movimento dos ombros.

- Saberá ao menos dizer-me o que foi feito dela?

A velha esticou o beiço inferior com um jeito expressivo, que dizia - "Não sei".

Cada vez mais furioso, pedi ao amigo que me levasse à presença de Castro Matta.

- Não posso - respondeu ele. - Tenho ordem para não o mostrar a ninguém.

Ao sair da Casa de Detenção, um dos outros amigos, aquele justamente que me havia afiançado que o Matta estava recolhido à Misericórdia, segredou-me já na rua.

- Vou agora à Misericórdia, a serviço; se quiseres ver o homem, vem comigo.

Aceitei o convite e, imagine-se qual foi a minha nova surpresa, quando, penetrando o meu amigo na enfermaria, tornou ao meu lado e disse-me ao ouvido:

- Já não encontras um homem, encontras um cadáver.

E, avançando alguns passos, foi ter a uma cama, onde se via um grande vulto humano coberto por um lençol velho.

O meu amigo levantou a coberta por uma das pontas e acrescentou.

- Vê!

Eu puxei do bolso a fotografia que me dera a Jeannite e confrontei-a com o cadáver.

Não podia haver dúvida.

Era o mesmo, sem tirar nem pôr.

E a graça é que a fotografia estava perfeitamente de acordo com as primeiras informações que no ponto das Barcas me dera o carregador, "magro, cabelo preto, barba à inglesa", e [pela] elegância é de supor que usasse polainas e chapéu alto.

Detive-me defronte daquele cadáver, a fazer algumas considerações a respeito dele.

"Ali estava para sempre inanimado o homem que minha mulher preferiu a mim e por quem trocou a sua tranqüilidade, o seu futuro e a sua honra! E fossem lá compreender as mulheres! Por que razão aquele tipo de barbas inglesas, aquele desordeiro vulgar e de más entranhas sem dúvida, havia de merecer mais do que eu?... Por quê? Por ser bruto? Não! Por ter mais talento? Não creio... Ele não seria capaz de escrever estas cartas... Por ser mais honesto? Impossível! Por que seria então? Ainda se fosse rico, mas qual, segundo informações que me deram mais tarde, só lhe encontraram nas algibeiras dous níqueis de tostão, uma caixa de fósforos, algumas cartas de namoro, algumas contas, um pente e três cigarros. Por que pois teria minha mulher o preferido a mim?

"Ah! Quem poderá explicar esses mistérios e essas aberrações do coração feminino! Quantas vezes essas insensatas não largam de mão o ouro verdadeiro para se lançarem sobre o mais ordinário dos metais!..."

Fazia eu tais considerações, quando o meu bom amigo tocou-me no ombro.

- Então! - disse ele - queres agora ficar aí, de­fronte desse corpo?

- A que horas é o enterro? - perguntei.

- Deve ser daqui a uma hora. Às quatro.

- Pois eu espero. Quero acompanhá-lo até ao cemitério, quero vê-lo descer à sepultura, cair-lhe sobre o peito a terra e a cal, e só depois disso respirarei com franqueza.

- Então, adeus - disse-me o amigo. Deixo-te, que ainda tenho que fazer.

- Adeus. Obrigado.

O amigo saiu e eu fiquei ao lado do defunto. Esta­a disposto a não abandoná-lo um só instante.

"Depois do enterro ou talvez amanhã" - re­solvi comigo - "tratarei de continuar nas minhas pesquisas. Minha sogra não quer falar, mas eu hei de descobrir onde se esconde a filha!... Em último caso vou ter com a Jeannite e peço-lhe novas informações."

Mas, apesar de ter ali, defronte dos olhos, aquele cadáver, que era a confirmação silenciosa da fotografia e das afirmações do sujeito que o vira com minha mulher, as palavras do meu outro amigo não me deixaram a cabeça!

"Está aqui na Casa de Correção escondido; temos ordem superior para não consentir que ele se comunique com pessoa nenhuma e para declarar que ele foi pa­ra a Misericórdia. Amanhã hás de ver isso mesmo nas notas policiais..."

E como se poderia explicar o engano tão grosseiro [em] que se achara o meu outro amigo? Como explicar igualmente a prisão de minha sogra? Onde estaria a minha mulher?

Eram essas interrogações que se erguiam dentro de meu cérebro, quando vi chegar um homem, acompanhado por dous serventes, o qual apontou para o cadáver, e disse.

- Carroça com ele!

- Perdão - intervim eu, chegando-me para o sujeito. - Saberá dizer-me, caro senhor, de quem é este cadáver?

- Do Malta.

- Tem certeza que é Malta?

- Malta ou Mattos... - respondeu o sujeito. - Também não sei com certeza. Se não me engano é Castro. Castro Malta ou Castro Matta. Pelo nome não se perca!

"Não se perca! Mal sabia o desgraçado o que ha­via de sucede"; considerei comigo e, tornando ao sujeito, perguntei-lhe se não sabia que espécie de homem fora esse Malta ou Mattos.

- Uma espécie de vagabundo!

- Mas não tinha profissão?

- Qual! Vivia da jogatina.

"Ora essa!" - considerei eu. - "O Castro Matta de que me falaram os vizinhos, quando eu saí a procurar minha mulher, era encadernador, e constou-me que empregado em uma das melhores livrarias da Corte."

Cada vez mais intrigado, fiz ainda algumas perguntas ao sujeito e, vendo que não obtinha melhores esclarecimentos, despedi-me dele e dispus-me a acompanhar o enterro.

Eram cinco horas da tarde quando saiu o corpo da Santa Casa da Misericórdia, dentro de um carro negro, onde se via uma cruz pintada de branco. Tomei um tilbury e acompanhei-o sem dar a entender que o fazia.

A carroça tomou a direção do Cemitério de São Francisco Xavier; eu atrás.

Ia triste, como se acompanhasse o enterro de um parente ou de um amigo; sentia até vontade de chorar, quando o meu tilbury deslizou surdamente pela areia do Campo.

E a carrocinha negra, miserável, lá ia na frente puxada por um burro. De vez em quando, nas curvas do caminho, eu a perdia de vista, mas daí a pouco divisava de novo o chapéu alto do gato-pingado* e, então, fechava os olhos para o não ver.

* Gato-pingado era indivíduo que acompanhava enterro a pé e com tocha na mão.

Que estranho mal-estar se apoderava de mim à proporção que me aproximava do cemitério! Afigurava-se-me um crime o que eu fazia naquele momento. Ia perseguindo um cadáver, rondando-o como se receasse vê-lo fugir no meio da viagem.

Puxei do bolso a fotografia e quase me faltou a coragem para encará-la. O retrato sorria, parecia sorrir de mim. Por instantes, afigurou-se-me que os traços de sua fisionomia se acentuaram para sorrir com mais vontade; depois parecia que se fecharam na triste expressão que eu vira na cara do defunto.

Tornei a guardar a fotografia, e só então reparei que o tilbury já estava parado há alguns minutos, defronte do portão do cemitério.

Entrei sempre atrás da carroça e fiquei meio contrariado, quando o guarda declarou que já não eram horas de enterrar

O corpo foi depositado na capela. Era tal a insistência com que eu o acompanhava que passei por parente do morto. O meu cocheiro chegou mesmo a lançar me um olhar de consolação.

Ia a sair, mas hesitei. Despedi o tilbury e pus-me a passear em volta da capela, onde podia por entre as grades ver o cadáver deitado ao comprido sobre uma mesa de pedra.

Não sei por que eu me demorava ali, mas sei que me sentia atraído misteriosamente para aquele corpo.

Não podia lhe tirar a vista de cima. Olhei em torno de mim, estava só, o guarda se havia afastado, quando um grito me escapou dos lábios.

Pareceu-me ter visto o cadáver virar a cabeça de um para outro lado.

"Estou sonhando!..." disse comigo, mas resolvi observar, ainda que fosse preciso esconder-me no cemitério.

Pela seguinte carta verá V.Sª. que não era um sonho.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

* * *

Novas Revelações

Sexta Carta

Sr. Redator.

Como lhe disse à semana passada, não era um sonho o que eu via na capela do Cemitério de São Francis­co Xavier.

O corpo havia mexido com a cabeça e repetira pouco depois o movimento como quem se debate na agonia de um pesadelo.

Quis gritar e chamar por alguém, mas não pude, faltou-me a voz, e fiquei chumbado à grade da capela, sem conseguir fazer um movimento.

Entretanto, a noite avultava rapidamente e quase que se não podia distinguir nada para dentro das grades. A lua, que não costuma faltar às cenas desta ordem, já lá estava no céu num transbordamento de luzes prateadas, que melhor faziam destacar as casuarinas e as pedras brancas dos mausoléus.

Um rumor surdo, gemebundo, levantava-se tristemente do chão e de tal forma se casava às sombras da noite, que parecia sair de dentro delas; dir-se-ia que a treva sussurrava derramando-se pelo vale, como uma enorme legião de espectros.

Com o luar não há claro-escuro; e essa divisão rápida da luz e da treva sempre me produziu no espírito os mais imprevistos e pavorosos efeitos.

Não sei por quê, mas eu, que sou um homem de verdadeira coragem, quando estou ao sol, tremo e fujo de tudo debaixo da mefistofélica influência da lua.

E, de mais a mais, num cemitério. - Calcule-se.

Aos meus olhos as campas se transformavam todas em grandes fantasmas saídos das sepulturas; os ciprestes eram frenéticos gigantes que conspiravam, debruçando-se uns sobre os outros, para se falarem em segredo, e logo depois se apartarem horrorizados com o que ouviam.

Imagine-se!

Ah! Nem sei como ainda me podia ter nas pernas! O suor escorria-me por dentro do colarinho; o sangue espolinhava-se-me no coração, a cabeça andava-me à ro­da, a arder.

E, cousa esquisita, quanto mais me ardia a cabeça, tanto mais frios sentia eu os pés e as mãos.

Um frio incômodo, que parecia penetrar na carne em forma de agulhas em brasa.

E esse frio foi se estendendo pelas pernas e pelos braços, até se apoderar da minha região intestinal. Então, como se me apertassem o ventre com um cinturão de aço, comecei a sentir cólicas e vontade de vomitar; faltava-me o ar nos pulmões e o peito parecia querer abrir-se para fora em duas folhas, como uma janela.

Entretanto, o corpo de Castro Matta acabava de erguer-se a meio sobre a mesa de mármore e circunvagava em torno de si os olhos espavoridos e cheios de inconsciência.

Com um supremo esforço fiz um movimento para fugir; ele deu por mim, levantou o braço descarnado e começou a chamar-me silenciosamente.

Depois ergueu-se de todo, lançou fora da mesa as pernas e saltou no chão, arrastando a mortalha que lhe haviam prendido ao pescoço.

E com o solene caminhar das figuras fantásticas de Goya, aproximou-se das grades em que eu estava.

O sangue agitou-se dentro de mim com mais força, o cinturão de aço parecia disposto a cortar-me de meio a meio pelo ventre, e os braços e as pernas principiavam-me a tremer convulsivamente.

Mais dous passos e estaria cara a cara com o maldito ressuscitado; nisto, porem. senti baterem-me de leve no ombro. Volto me - defronte de meus olhos estava um vulto de homem.

Era alto, magro, de cabelos pretos e barba à inglesa.

- Eu sou Castro Malta! - disse-me ele, batendo no peito com energia.

Mas, nesse instante a porta da capela abriu-se e o outro apareceu terrivelmente embrulhado na sua mortalha.

- Ah! - disse o segundo Castro, recuando de braços abertos, e logo em seguida caiu para trás, sem sentidos.

No entanto, o da mortalha se aproximou de mim e pediu-me que não me assustasse. como o outro, e fizesse o obséquio de dizer se eu era o guarda do cemitério.

- Não senhor - respondi -, sou um simples parente de um morto que se enterrou hoje.

- Ah! - exclamou o ressuscitado. - É parente de um colega meu, logo posso contar com o senhor!

E o ladrão dizendo isto nem parecia que tinha morrido na véspera e que por um triz estivera para ser metido dentro da terra.

"Muito forte deve ser o espírito deste sujeito" - pensei eu, a vê-lo sorrir defronte de mim, como se nada lhe houvesse acontecido de extraordinário.

Não me pude conter e perguntei-lhe se havia ficado impressionado com o que lhe sucedera.

- Não - disse-me ele muito naturalmente. - E até estimei a minha suposta morte. Daqui a pouco lhe direi a razão por quê. Se o senhor está resolvido a dar-me hospitalidade por esta noite, eu lhe contarei a minha história e verá o amigo que, nem só não devo estar triste em ter ressuscitado, como também não deveria ficar se tivesse morrido deveras.

- Bem - respondi. - Levá-lo-ei comigo para casa, tenho interesse igualmente em conversar com o senhor.

Interrompemos, porém, a conversa, para cuidar do sujeito que perdera os sentidos. O da mortalha abaixou-se, apalpou-lhe a testa e os pulsos, e exclamou depois:

- Ora esta!

- Que é? - interroguei.

- Pois você acredita? Este homem não se lembrou de morrer?...

- Morreu?

- Ora! Creio que até já fede! Este já não gustará mais farinha!

E voltando-se de todo para mim:

- Isto é o que se chama fortuna! A minha saída do cemitério, depois de estar inscrito nos livros dos mortos, iria talvez produzir grandes revoluções no outro mundo! Assim deixo alguém no meu lugar!

- Vai deixar esse homem no seu lugar?

- Certamente, e eu seria um asno se não aproveitasse a boa vontade com que o pobre rapaz morreu! Vou trocar o meu lugar com o dele. Eu era defunto e tinha uma mortalha: ele um vivo e tinha roupa. relógio e talvez dinheiro. Trocamos. Ele fica sobre a minha mesa de pedra e eu vou para a mesa do restaurant que o esperava. Já vê que não sou tão caipora, principalmente se atendermos para o fato de que o meu protetor tem a minha estatura e que o seu chapéu me serve.

Dizendo isto, o ressuscitado colocara na cabeça o chapéu do outro, que apanhara do chão e, agora, de cartola e amortalhado como estava. tinha alguma cousa de cômico e de horrível.

A graça é que eu, desde que me pus a confronta-los, achava os igualmente parecidos com a fotografia que me dera a Jeannite.

- Bem! tratemos de trocar as fatiotas - acrescentou o ressuscitado, despindo o outro.

E, daí a uma hora, o novo Castro Malta, competentemente amortalhado, ficava estendido sobre a mesa da capela; ao passo que o outro saia do cemitério pelo meu braço e dizia-me em ar de graça, consultando as algibeira:

- Relógio, corrente de ouro, cinqüenta e tantos mil-réis em dinheiro e livre, livre como as asas. Mas de tudo isso o que eu herdei de melhor daquele santo morto, foi este objeto!

E mostrou me um cartão que tirara da carteira.

- Um cartão de visita?

- Sim. De hoje em diante já não existo para os meus credores e para os meus inimigos. Morri! Este que aqui vai pelo seu braço, chama se...

E lendo o cartão:

- João Alves Castro Malta.

E acrescentou, fazendo parar um carro que passava:

- Durante a viagem lhe contarei tudo.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

***

Novas Revelações

Sétima Carta

Sr. Redator:

Vou tentar reproduzir aqui, com a maior fidelidade que me for possível, o significativo diálogo que se travou entre mim e o extraordinário ressuscitado, depois que deixamos o cemitério e nos metemos dentro do carro.

- Em primeiro lugar - disse-me ele - vou contar-lhe com toda a franqueza a minha história, sem o que não poderia o senhor capacitar-se de que não sou precisamente um doudo: Nasci na cidade de Campinas, e, segundo me consta, meu pai, a quem não tive o gosto de conhecer, era um sujeito honrado e de bons costumes, o que aliás não lhe impediu de sucumbir a uma indigestão de lagostas, justamente quando minha mãe estava em vésperas de dar-me ao mundo. A morte de meu pobre pai precipitou um pouco este vulgaríssimo fenômeno fisiológico, obrigando minha desgraçada mãe a pagar com a própria existência o meu direito de fazer parte dessa cousa que se chama humanidade e a um lugar neste mesquinho inferno que se chama o mundo. Por conseguinte, apenas com um dia de vida já recebia eu os primeiros couces da fortuna, achando-me completamente desamparado e sem ter ao menos uma teta que me garantisse a subsistência. Foi então que um pobre cocheiro se compadeceu de mim e carregou-me para casa. O cocheiro era casado e sua mulher entregava-se ao modesto e honrado mister de criar bodes e cabras. Foi uma cabra a única ama-de-leite que eu conheci, e tal amor tomei desde então a esse benfazejo animal, que ainda hoje, quando por acaso o encontro na rua ou em qualquer parte, a vontade que tenho é de ferrar-lhe um abraço.

- Nada mais justo... - considerei eu.

- Mas - continuou o narrador - a desdita não quis que o meu protetor levasse ao cabo a obra de caridade que me estava reservada e fê-lo sucumbir, pouco depois da mulher e quando eu ainda não tinha mais do que cinco anos de idade.

"Passei então para as mãos de um tipo, o melhor dos que tenho conhecido no mundo, e que foi ao mesmo tempo o meu salvador e a minha perdição."

- A sua perdição?

" - Sim. Eu me explico: Pedro Melindroso, o homem que substituiu ao meu lado o cocheiro, era um filósofo, cujas teorias abstratas e metafísicas entraram muito profundamente pelo vasto terreno da loucura.

" Foi justamente por isso que ele me recolheu. Um dia viu-me chorando abraçado à cabra que me amamentara e escondeu-se para me espreitar.

" Eu, que me supunha a sós com a minha doce companheira de infância, exclamava deveras comovido à orelha do bicho: "Bebé! Bebé! (era este o tratamento que eu lhe dava) minha querida Bebé, não imaginas quanto te quero bem e quanto gosto mais de ti do que de todo o mundo!"

" O filósofo, saindo do seu esconderijo, veio ter comigo e perguntou-me se era verdade o que ouvira de minha boca.

" Eu, meio perturbado com a presença dele, respondi que sim e que não trocaria a minha querida Bebé por ninguém.

" - Quem é seu pai? - perguntou-me ele depois.

" - Não cheguei a conhecê-lo - respondi

" - E sua mãe?

" - Morreu quando me pôs no mundo.

" - E com quem você vive agora?

" - Com ninguém.

" - Você não tem casa?

" - Não.

" - Onde dorme?

" - Quase sempre no curral do Zé Coxo.

" - Onde come?

" - Onde encontro o que comer. E quando não encontro, peço.

" - E quando não lhe dão?

" - Roubo.

" - E não se vexa de roubar?

" - Não, porque não faço por maldade semelhante cousa, mas sim por não haver outro remédio.

" - E por que você não se mata?

" - Porque não quero.

" - E que espera você da vida?

" - Nada, não sei.

" - Quer vir comigo. para minha casa?

" - Vou, se me deixar levar Bebé.

" - Pois então acompanhe-me com ela.

" Desde esse dia principiei a ter de novo uma cama, um talher certo à mesa do filósofo e roupa lavada e engomada.

" - Você quer ser uma besta ou um homem instruído? - perguntou-me o Melindroso, meses depois de me haver tomado à sua conta. - Mas, desde já o previno de uma cousa - acrescentou ele. - Eu não admito meio-termo em questões de ilustração. Você no caso que não queira ser uma besta, há de ser um sábio. Escolha.

" - Quero ser um sábio.

" - Mas, veja bem, rapaz. Para ser um sábio é necessário que você tenha talento, paciência e coragem. Consulte o seu espírito e veja se pode contar com essas três qualidades.

" - Posso, sim senhor.

" - Tu tens talento? - volveu o filósofo, passando a tratar- me por tu, o que nele significava bom humor.

" - Tenho.

" - Pois então responde ao que te vou perguntar.

" - Pronto.

" - Que farias tu a um cão que te mordesse?

" - Dava-lhe com uma pedra.

" - E a um que te lambesse os pés?

" - Nada.

" - Bem. Vejamos agora se tens coragem. Dá-me um soco.

" Eu não esperei segunda ordem e ferrei-lhe um murro na barriga.

" - Bom - disse o filósofo. - Estou satisfeito e, quanto às provas de paciência reservo-as para mais tarde. Amanhã principiarás a estudar comigo. E daqui a alguns anos saberás tudo que é dado alcançar ao* conhecimento humano.

* No original, o.

" No dia seguinte o meu protetor começou a ensinar- me simultaneamente as seguintes matérias. Gramática Portuguesa, Francesa, Latina e Grega; Aritmética, Geografia, Física e Astronômica, Música, Desenho e Ginástica.

" É inútil dizer que de tudo isso só me ficara na cabeça uma confusão diabólica, o que aliás não desanimara o meu singularíssimo professor, nem o fazia retirar de mim a progressiva confiança que eu lhe inspirava.

" E todos os dias apresentava-me um novo livro e dizia-me:

" - Lê isto! É bastante que leias; não procures compreender, procura decorar. A cabeça é como a terra, não tem necessidade de conhecer a semente que recebe no seio; a natureza se encarregará de cumprir com os seus deveres. A tua inteligência é a natureza e os livros que te dou são a semente. Decora-os e mais tarde a planta brotará, sem que tu próprio descubras a razão por quê.

" Eu obedecia. Dos meus seis anos até aos vinte e um, li nada menos do que dez mil volumes de diversos assuntos.

" Meu professor nada me ensinava a fundo, nem consentia que eu me inclinasse para nenhuma especialidade.

" - Não - dizia-me ele -, um verdadeiro sábio não deve ter especialidade. Tu deves saber um pouco de tudo e quase nada de todas as cousas. É preciso que entendas tanto de Teologia como de Botânica, como de Arquitetura, como da Arte Culinária, como de Economia Política, como de Literatura e do resto. Quero que a tua inteligência se derrame em torno de ti, pelo universo e não que ela se encanalize pelo tubo de uma especialidade.

" Prefiro a extensão à profundeza; prefiro o estudo da humanidade ao estudo do homem; prefiro o estudo do homem ao estudo de um órgão ou de um osso; prefiro o estudo de um osso ao estudo particular de uma molécula, e prefiro o estudo de uma molécula ao de um átomo ou à especialidade de não estudar cousa nenhuma.

" - Vês? - prosseguiu ele - é a isto que nos conduz a especialidade - a zero. A especialidade é o meio de ir apertando as cousas até reduzi-las a nada. Ser especialista e não ser cousa alguma vem a dar na mesma, porque nada adianta conhecer um elo de uma cadeia, quando a gente não conhece a cadeia inteira. Nada adianta conhecer a folha de uma árvore, quando não se conhece a árvore. Depois que saibas tudo sinteticamente, dar-te-ei licença para os teus estudos concretos; antes não, não admito que te demores defronte de nenhuma ciência particular.

" Este sistema educativo do meu singular protetor, que nesse tempo eu supunha um sábio e que depois verifiquei não passar de um louco, esse sistema fez com que eu aos vinte e dous anos, quando me achei de novo abandonado no mundo, não encontrasse meios de ganhar a vida.

" Entendia de tudo e nada sabia ao certo. Tentei todas as profissões, experimentei-me em todas as carreiras - nada. Sabia Medicina e não podia curar; sabia Direito não podia advogar; Engenharia e não era engenheiro; Pintura e não era pintor; Arquitetura e não era construtor; enfim entendia de tudo e não era nada.

" Então fiz-me boêmio e filósofo; principiei a aceitar a vida como esta se apresentasse, sem me preocupar com o dia seguinte."

- Foi nessas condições - acrescentou ele - que conheci uma velhusca, viúva de um farmacêutico, chamada Leonarda.

- Aquela que estava presa? - perguntei.

- Justamente.

"Minha sogra" - disse eu comigo; e dispus-me a continuar a ouvir o ressuscitado, cujas revelações foram-se-me tornando cada vez mais interessantes, como verá V. Sª. pela outra carta que lhe hei de mandar para a futura Semana.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

***

Novas Revelações Oitava Carta

Sr. Redator:

Chegado que fui a casa, em companhia do ressuscitado, disse a este que entrasse, acendi duas velas, ofereci-lhe uma cadeira e dispunha-me a ouvir com toda a atenção o fio de sua narrativa, quando ele me observou que estava a cair de fome e precisava refazer as forças com duas ou três costeletas antes de principiar de novo o diálogo.

" Isso agora é que é o diabo!" - disse eu comigo, lembrando-me de que, depois que minha mulher abandonara aquela casa, nunca mais se acendera o fogão.

O ressuscitado, como se adivinhasse o meu pensamento, lembrou que fôssemos cear a um restaurante.

- Não - respondi eu -, é melhor ficarmos aqui. Temos de conversar longamente e precisamos para isso de toda a liberdade. Eu me encarrego de arranjar o que comer, é um instante! Fique o amigo à minha espera; não me demorarei muito.

E, antes que ele apresentasse alguma objeção, saí gritando-lhe:

- Até logo.

- Veja se não se demora, hein? Tenho o estômago a gemer.

Saí de casa, meti-me no carro que havíamos deixado à porta, e fui comprar, ao primeiro hotel que encontrei, o necessário para uma ceia.

- Trouxe vinho? - perguntou-me o hóspede, logo que me viu voltar.

- Trouxe.

- Quantas garrafas?

- Duas.

- É pouco.

- Pouco?

- Decerto. Uma garrafa de vinho não chega para nada!...

- Mas eu trouxe duas...

- Uma não se conta!

- Não compreendo!

- São teorias do meu educador. E desculpe não entrar por enquanto em maiores explicações, porque já não me posso ter de fraqueza.

Dizendo isto, o meu singular hóspede havia já desembrulhado a cesta dos comestíveis, e tirava de dentro o conteúdo, exclamando a cada peça:

- Bravo! Um frango assado! - Um pedaço de roast-beef, esplêndido! - Ostras de forno, magnífico!

- Queijo de Minas, soberbo! - Pastéis de camarão, divino! - Uma lingüiça, ótimo!

- Creio que chega - disse eu.

- Pelo menos remedeia - afiançou o ressuscitado, atirando para longe o chapéu e cravando os dentes no frango. - O amigo algum dia já passou meia semana sem comer? - perguntou-me ele.

- Não me lembro.

- Pois aqui está quem já atravessou uma semana inteira, sem meter para a boca um grão de arroz. Tenho curtido muito boa fome nesta heróica Cidade de São Sebastião. Aqui onde me vê, conheço todas ai delícias da miséria!

- Ninguém o diria, atendendo para esse bom humor de que dispõe o amigo.

- Ah! Mas é que eu encaro o mundo de um ponto de vista muito filosófico. Não me preocupo absolutamente com a vida, nem com a morte. Que m‘importa a mim que as cousas corram deste ou daquele modo? Que m‘importa que chova ou que faça frio? Acaso desejo conservar a existência?

- O senhor é um homem singular!...

- Não, sou apenas um indiferente, sou uma sombra! Sei que nada valemos, sei que tudo isto que nos cerca desaparecerá dentro de certo tempo, sei que nós todos vivemos para cumprir uma lei indefectível da natureza, e deixo-me por conseguinte governar como um verdadeiro instrumento. Não tenho vontades, não tenho querer. Aceito a vida, aceito os fatos, sejam eles quais forem, sem lhes perguntar donde vieram, que significam ou qual o fim a que se destinam. Que diabo me pode suceder com este sistema? - A morte? - Puff! estou me ninando para ela! - O descrédito? Mas que diabo vem a ser isso? Não aspiro posição alguma na sociedade, não pretendo nada de meus semelhantes; vivo, porque assim o determinaram os mistérios da criação; não me mato, porque seria uma maçada, e deixo correrem as cousas como elas bem entendam!

- Mas a sua filosofia não o impedirá de sofrer física e moralmente, quando for acometido por alguma dor...

- Dor?

- Então, também nega a dor?

- Decerto. Sofrem apenas os que desejam sofrer.

Ora essa! Então se eu lhe pisar o melhor calo, o senhor não dá por isso?

- Pode ser que sinta a pressão do seu pé sobre o dedo em que se acha o calo, mas juro-lhe que não experimentarei com isso impressão mais agradável ou desagradável do que se me dessem um beijo.

- Então por que exigiu o senhor que eu fosse bus­car isso com que está se regalando? Se a fome não o incomodava, para que satisfazê-la?

- Porque ela assim o quer; isso não é comigo, é com o meu estomago, que funciona por conta própria, sem me consultar absolutamente. Apenas o que eu faço é auxiliá-lo, emprestando-lhe outros membros e outros órgão. Por exemplo.

E tomou um pastel de sobre a mesa:

- O estomago deseja este pastel, para quê - não sei, nem quero saber, mas precisa dele e reclama-o. Eu, que faço? Agarro no pastel. levo-o à boca...

E, mastigando:

- Mastigo-o... Engulo-o e agora cada um que se arranje!

- E se o senhor não tivesse o pastel à mão?

- Teria outra coisa. Se não fosse hoje, amanhã ou depois ou daqui a oito dias. Com a diferença, porém, que daqui a oito dias, se não me aparecesse um pastel, ou cousa semelhante, lançar-me-ia às orelhas do primeiro cidadão que me passasse ao alcance dos dentes.

- Bem - observei, já farto de ouvir as extravagantes teorias do meu ressuscitado. - Deixemos por ora a sua filosofia e vamos tratar do que nos interessa.

- A mim nada interessa - atalhou ele.

- Perdão, mas não se trata só do senhor.

- Sim, mas eu só trato de mim...

- Pois faça o favor de abrir uma exceção nos seus costumes e responda às perguntas que lhe vou fazer.

- Ah! Isso não me incomoda e até me diverte. Quer conversar, não é verdade? Pois converse pr’aí, gosto muito de falar, porque falar é uma coisa excelente, não demanda nenhum esforço, não demanda dinheiro, nem paciência, nem energia, nem instrução. A gente abre a boca e deixa que a palavra saia, assim como agora. Vê? Eu não faço o menor esforço para dizer tudo isto... Tenho o estômago cheio, a cabeça um pouco atordoada pelo que já falta de vinho nessas garrafas; ninguém conta com a minha vida ou com a minha morte; posso, por conseguinte, levar aqui a falar deste modo, enquanto houver o que arder nos castiçais e enquanto o sono usar dos seus direitos de não* fazer-me adormecer.

* No original, e,

- Bem - disse eu -, mas o que eu desejo não é ouvi-lo falar e sim ouvir certos esclarecimentos que me são necessários. Diga-me, por exemplo, como chegou o senhor a travar as suas relações com a viúva do farmacêutico.

- Pois não! Uma noite, não sei que horas eram nem que dia da semana, achei-me cansado e morto de fome. Tinha caminhado por muitas ruas e não encontrava uma casa aberta. Afinal, dobrando para um largo, vi luz numa casinha de duas janelas. Fui até lá, bati. Perguntaram-me o que queria. - "Quero falar ao dono ou dona da casa." Apareceu uma velhusca. - "Quem é? - Sou eu! Faça o favor de abrir! - Que de­seja? - Comer!" Iam-me fechar a porta na cara, mas não dei tempo para isso, e penetrei na casa. - Não se assuste!’’ - disse à velha, que parecia tremer de medo. - "Não se assuste, não lhe farei o menor mal". E, vendo que a mesa estava servida com um resto de ceia. assentei-me e comecei a comer com o mesmo apetite com que devorei o frango de ainda há pouco. Depois tomei uma garrafa e enxuguei-a. Feito o que, abri uma porta, que dava para uma alcova, e estendi-me sobre uma boa cama que encontrei.

- E a velhusca?

- A velhusca a principio quis ir chamar a Polícia, mas, à vista do meu sangue-frio e talvez do ar pacífico de minha fisionomia, contentou-se em acompanhar-me os movimentos e afinal até já me achava graça. Dormi lá essa noite, dormi perfeitamente e, como, no dia seguinte, a velhusca me deu almoço, deixei-me ficar até que as pernas me pediram exercício. Fui então passear, mas logo que me senti cansado, voltei à casa da velhusca, e assim fui fazendo até que ela já não podia estar por muito tempo separada de mim, e já pagava as cousas de que eu ia precisando e já me dava dinheiro, charutos, garrafas de cerveja e balas.

- Depois?

- Depois começou a aconselhar-me que trabalhasse...

- E o senhor?

- Eu contei-lhe a minha história, falei-lhe no Melindroso e disse que não tinha elementos para ganhar a vida e que estava disposto a ir passando à mercê do acaso, até que um bonde ou uma febre de mau caráter se lembrasse de levar-me ao cemitério.

- Mas o fato da sua prisão?

- Ah! Vou contar-lhe tudo pelo miúdo.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

***

Novas Revelações

Nona Carta

Sr. Redator:

O singular homem, que eu tinha defronte dos olhos, narrou-me do seguinte modo o fato da sua prisão em companhia de minha sogra.

- Um ano depois que eu me relacionara com essa velhusca sublime, cuja forma o protetor acaso, ou Providência, escolhera para vir ao meu socorro, achei-me com ela, a Providência, passeando no pequeno jardim que existe defronte da Estação de Pedro II, quando um carregador me perguntou que fazíamos ali.

" - Creio que vou tomar um cálix de vermouth - respondi eu. - Porquê?

" - Nada - resmungou o carregador. - É cá uma coisa!

" E afastou-se.

" Poucos minutos depois, saboreava o meu vermouth ao lado da velha Providência, quando um urbano* se aproximou de nós e perguntou como eu me chamava.

* Urbano: soldado da Policia.

" - João Alberto Castro Matta - disse eu.

" - E esta senhora? - interrogou o urbano.

" - Dona Leonarda da Conceição Meloso.

" - Pois queiram acompanhar-nos.

" - Para quê?

" - Saberá na Estação.

" A velhusca ao receber esta ordem perdeu os sentidos e eu, que não me alterei, pus-me a rir nas barbas do urbano.

" - Você está se rindo de mim? - perguntou-me este.

" - Assim o creio - afirmei, soltando uma gargalhada.

" O urbano puxou pelo refle e ia dardejá-lo sobre a minha cabeça, quando de um salto lhe tomei a arma das mãos, arrojei-a para longe e investindo de cabeçadas contra o agressor, fi-lo cair dentro de um tanque do jardim.

" Em seguida, despejei o meu cálice de vermouth sobre a testa de Dona Leonarda, chamei um carro, meti-me com ela dentro e mandei tocar para casa.

" Mas o conflito com o urbano havia atraído muita gente e em breve era o meu carro escoltado por uma porção de soldados. De sorte que, ao chegarmos, eu e a minha velhusca, à Rua da Misericórdia, um morcego* abriu-me violentamente a portinhola da sege e intimou-me a que me rendesse no mesmo instante à prisão.

* Morcego: guarda-noturno.

" - Bem respondi -, irei. Tanto se me dá ser preso, como não ser. Mas, peço-lhes que me deixem ao menos acompanhar primeiro esta senhora a sua casa.

" - Nada! - bradou um sujeito, com ares de autoridade, o qual acabava de surgir defronte de mim: - Nada! Sua cúmplice irá também. Sigam!

" E, gritando para um praça: - Não os larguem e levem-nos quanto antes à Estação.

" Fomos os dous conduzidos à presença de uma nova autoridade, e, ato contínuo, mandaram-nos para a Casa de Correção, onde nos engaiolaram em células separadas.

"Eis aí, como fui preso. Depois sobreveio-me uma espécie de desfalecimento nervoso, do qual só tornei a mim na capela do Cemitério, naquela triste situação que já o amigo conhece perfeitamente."

Sr. Redator, à vista desta declaração do ressuscitado, concluí que a Jeannite, dando as providências para que o amante e mais a sua miserável cúmplice fossem apanhados pela Polícia, tinha motivado esse ridículo engano.

Calculei que, em vez da filha, tivessem prendido a mãe e, em vez do amante de minha mulher, tivessem prendido o amante de minha sogra.

E assim foi. Notando-se, porém, que a terrível Jeannite tanta gente pôs na pista dos perseguidos e tantas providências deu para os apanhar, que, na ocasião em que um Castro Malta era recolhido à Casa de Detenção com uma mulher, outro já lá estava com outra.

Os empregados da Casa, segundo deduzo do que lhes ouvi no dia do singular enterro, não se achavam muito a par da verdade e, tanto assim, que uns me diziam que o Castro Matta ou Malta havia seguido moribundo para a Santa Casa da Misericórdia, e outros afirmavam que o legítimo Castro Malta estava engaiolado na Detenção.

Perplexo com as novas revelações do ressuscitado, deliberei esclarecer por uma vez os acontecimentos e, no dia seguinte à minha conversa com ele, atirei-me de novo para a Casa de Correção.

- Então? - Perguntei ao empregado que já me havia fornecido as primeiras informações - que noticias me dá o senhor do Castro Malta?

- O Castro Malta - respondeu-me o empregado - enterrou-se hoje pela manhã no Cemitério de São Francisco Xavier. A prisão desse vagabundo, a quem Deus haja, motivou também a injusta prisão de um inocente que, ontem mesmo, mal se verificou o engano, foi posto em liberdade com uma rapariga que o acompanhava; ficando uma velhusca que viera com o que faleceu.

- Bonito! - disse eu. Os senhores podem limpar as mãos à parede!

- Porquê?

- Porque fizeram asneira! Porque soltaram o legítimo Castro Malta e a legítima cúmplice do Castro, e ficaram aí com uma pobre desmiolada, que nada tem com o negócio!

- Como?! Explique-se!

- Ora! Fizeram-na bonita! A mulher que os senhores soltaram é minha esposa, é a legítima amante do legitimo Castro Malta; a outra, coitada! é minha sogra, uma douda, cujo crime único foi meter-se com um boêmio que a estas horas deve ainda estar deitado em minha cama, a digerir uma ceia que lhe dei ontem.

- Perdão! - volveu o empregado policial. - Perdão! O senhor não pode ter em casa o amante da velhusca que ainda cá está presa, porque esse desgraçado foi daqui muito mal para a Misericórdia, morreu, e enterrou-se hoje pela manhã.

- Engana-se, quem se enterrou foi o verdadeiro Castro Malta, o amante de minha mulher, aquele que fora para aqui recolhido com uma rapariga morena, de olhos pretos e cabelos lisos, isto é, com minha esposa! Ora essa!

- Pois eu lhe vou mostrar o que prova que o homem da velhusca morreu e está enterrado na sepultura nº.... Ora espere! Posso até lhe dizer o número da sepultura...

- É inútil - observei. - É inútil. Sei donde parte o seu engano e receio, tentando esclarecê-lo, tornar mais embrulhada toda esta história.

- Não! Se há novos enganos, convém pô-los a limpo. Fale, fale por quem é, meu amigo.

- Pois então saiba que o sujeito, que foi na qualidade de defunto para o Cemitério de São Francisco, não era um cadáver.

- Como assim?

- Estava perfeitamente vivo.

- Impossível! Pois se ele foi enterrado hoje, às nove horas da manhã, e aqui estão os documentos.

- Não foi a ele que enterraram. Foi ao outro.

- Que outro?

- O tal Castro Malta, aquele que um dia antes fora solto com a mulher que o acompanhava.

- Mas, como?

- Muito facilmente.

E eu contei ao empregado da Casa de Correção o que assisti no cemitério.

- Jesus! - exclamou ele depois. - Que trapalhada, minha Nossa Senhora! Que trapalhada! Como diabo agora poderemos sair desta?...

- É exato! - confirmei. - O negócio está malparado!

- Quer saber de uma cousa? - acrescentou o empregado. Faça-me um obséquio - não toque nisto a pessoa alguma. Finja que não sabe de nada! Se não se der uma palavra sobre o caso, ninguém descobrirá a verdade e a história cairá no esquecimento! Que importa um Castro Malta de menos ou de mais? Se não está enterrado o verdadeiro, foi alguém enterrado por ele. Tanto valem seis como meia dúzia! Ao passo que, se formos a mexer nessa embrulhada, a cousa pode complicar-se cada vez mais e redundar em prejuízo de todos nós. Promete que não dará uma palavra sobre isso?

- Prometo.

- Bem. Nesse caso vou falar ao Chefe para pôr na rua a velhusca, e fica terminada a questão.

Coitado! Mal sabia ele que então é que ela, a questão, ia deveras principiar!

Minha sogra, logo que se pilhou solta, jurou que havia de vingar-se daquela maldita Polícia, que, sem mais nem menos, lhe arrancara dos braços o homem amado e, segundo ela supunha, mandaram-no para a Misericórdia e daí para o cemitério - morto.

- Ah! Isto não há de ficar assim! - bradava Dona Leonarda, quando me encontrou por acaso na rua. - Isto não há de ficar assim! Pois então prende-se a gente deste modo, e deste modo se dá cabo de um homem! A quem me hei de dirigir sei eu! Tenho alguns conhecidos na imprensa, graças a Deus! E meu compadre Quintino há de mostrar-lhes de quantos paus se faz uma canoa! Hão de ver o bom e o bonito! Súcia de trapalhões!

E, como verificará V.Sª. pela seguinte carta, não era debalde que o demônio da velha dizia aquilo.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

***

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