Três meses depois, a Escola Politécnica e a Escola de Medicina apresentavam o quente aspecto de uma sedição. - Amâncio fora absolvido. Os estudantes formigavam assanhados como se acabassem de ganhar uma vitória. O nome do nortista era repetido com transporte; um grupo enorme de rapazes, capitaneado pelo Paiva Rocha e pelo Simões, aguardava o colega à saída do júri, para o conduzir em triunfo ao Hotel Paris , onde havia à sua espera um almoço e a banda de músicos alemães. Fora muito extenso o último júri, quarenta horas seguidas; a defesa de Amâncio principiou à meia - noite e acabou às seis da manhã. O advogado, que "estava feliz como nunca", ainda aproveitou engenhosamente essa circunstância para afestoar o remate de seu pomposo discurso ;"Não queria que o rei dos astros se envergonhasse com aquele nojento espetáculo de pequenas misérias! Não queria que o sol tivesse de corar defronte de semelhante tolina! Pedia que se varressem de pronto as consciências; que se descarregassem os espíritos, para que limpamente recebessem a esplêndida visita da aurora! - Aí chegava o dia! Aí chegava a luz, enxotando os fantasmas tenebrosos da noite e precipitando-os em debandada pelo espaço!" " Pois bem! Pois bem, meus senhores! Se ainda permanece nos vossos espíritos alguma sombra, alguma dúvida, alguma opinião vacilante sobre a inocência daquele pobre mancebo...( e mostrava Amâncio com um gesto supremo) - que essa dúvida se apague! Que essa opinião vacilante se resolva na luz que nos assalta! Que essa última sombra se retire espavorida de envolta com as últimas sombras da noite que foge!" - Bravo! Bravo! Apoiado! Muito bem! E, no conflito da luz fresca, que entrava pelas janelas do edifício, com a luz vermelha do gás que amortecia, as palavras retumbantes do orador tomavam uma expressão de trágica solenidade. E os rostos lívidos e tresnoitados iam se esbatendo nas sombras da sala, como pálidas manchas brancas que se dissolvem.
Ninguém saíra antes de terminar a defesa; um empenho nervoso os prendia ali; as palavras do advogado eram aplaudidas com febre; - todos queriam a absolvição de Amâncio. Às nove horas da manhã a cidade parecia ter enlouquecido. Interrompeu-se o trabalho; os empregados públicos demoravam-se na rua; os cafés enchiam-se com a gente que vinhas do júri. À porta das redações dos jornais não se podia passar com o povo que se aglomerava para ler as derradeiras notícias do processo, pregadas na parede à última hora. Por toda a parte discutia-se a brilhante defesa de Amâncio de Vasconcelos: "Estivera magnífica! - Surpreendente! - Uma verdadeira obra- prima! Uma glória para o advogado Fulano! "Repetiam-se frases inteiras do imenso discurso; faziam-se comparações "Maître Lachaud não e sairia melhor!" A Rua dos Ourives estava quase intransitável com a multidão que se precipitava freneticamente para ver sair o absolvido. Á porta do júri, o tal grupo de estudantes capitaneado pelo Paiva, esperava-0 formando alas ruidosas. Tudo era impaciência e sofreguidão. Afinal, apareceu o homem. Vinha muito pálido e um pouco mais magro. Ouviu-se então um rugido formidável que se prolongava por toda a rua. Os chapéus agitaram-se no ar. - Viva Amâncio de Vasconcelos! - Vivô! repetiram os colegas. - Morram os locandeiros - Morram os piratas! Amâncio passava de braço a braço, afagado. Beijado, querido, como uma mulher formosa. Mas o Paiva e Simões apoderaram-se dele, e, seguidos pelo enorme grupo de estudantes, puseram-se a caminho para o hotel, entre as contínuas exclamações de entusuasmo, que rompiam de todos os pontos. Entraram na Rua do Ouvidor. {Por onde passava o bando alegre dos rapazes, um rumor ardente, ancho de vida, enchia a rua num delírio de vozes confundidas. As portas das casa comerciais atulhavam-se de gente; pelas janelas os dentistas, das costureiras e dos hotéis, surgiam com o mesmo alvoroço, cabeças femininas de todas as graduações: - senhoras que andavam em compras, raparigas que estavam no trabalho, professoras de piano, atrizes, cocotes; e, em todas igual sorriso de pasmo, olhares incendiados, bocas entreabertas a balbuciar o nome de Amâncio. Baraços de carne branca apontavam para ele num tilintar nervoso de braceletes. - É aquele! Diziam. - Aquele moreno, de cabelo crespo, que ali vai! - Mamãe! mamãe! Gritavam doutro lado, - venha ver o moço rico que saiu hoje da prisão! E flores desfolhadas choviam-lhe sobre a cabeça, e os lenços de renda borboleteavam e iam cair-lhe aos pés, como uma provocação, e olhares de amor entornavam-se das janelas entre o ruidoso e pitoresco catassol das mulheres em grupo. E Amâncio, tonto de prazer, caminhava no meio dos amigos, abraçado a um grande ramo de flores naturais, que um preto lhe acabava de entregar e em cuja larga fita pendente via-se o nome dele em letras de ouro. Era uma lembrança de Hortênsia. E o bando crescia sempre. O Largo de São Francisco já estava cheio e ainda a Rua do Ouvidor não se tinha esvaziado. Ao passar pela Escola Politécnica, ouviram-se estalar foguetes e os vivas a Amâncio e à Liberdade reproduziram-se com mais veemência. Os músicos alemães responderam da porta do hotel com a Marselhesa. - A vertigem chegou então ao seu cúmulo, inflamada pela vibração corajosa dos instrumentos de metal. A Rua do Teatro, o Rocio e todos os becos e travessas circunvizinhas já se achavam tolhidas de povo; as janelas do Hotel Paris destacavam-se embandeiradas e cheias de gente, como nos dias de carnaval. E aquela festa, ali, no coração da cidade, tomava um largo caráter de manifestação pública. Já ninguém se entendia com o estardalhaço das vozes, da música e dos foguetes. Amâncio, carregado em triunfo nos ombros dos colegas, entrou no hotel ao som do grande hino, chorando de emoção e agitando freneticamente o seu velho chapéu de feltro, desabado e boêmio. Francesas de cabelo amarelo desciam com espalhafato ao primeiro andar do Paris , para ver de perto o "tipo da ordem do dia", o belo moço de que todo o Rio de Janeiro se ocupava naquele momento, - o herói daquele romance de amor que havia meses apressava tantos espíritos e sobressaltava tantos corações. Ele, que até ali parecia sufocado e não dera palavra, como que despertou às primeiras notas da Marselhesa recobrou de súbito a sua equatorial verbosidade de brasileiro nortista; acenderam-se-lhe repentinamente as faces;
os olhos luziram-lhe como duas jóias, e a sua voz era já segura e vibrante quando ao teto voaram as primeiras rolhas de champanha. E, de pé, dominando a extensas mesa coberta de iguarias, - a taça erguida ao alto, o corpo torcido em uma posição teatral, desencadeou o seu verbo apaixonado e brilhante.
* * *
Entretanto, a essas horas, Coqueiro se dirigia tristemente para casa. As mão cruzadas atrás, a cabeça baixa, as sobrancelhas franzidas, com o ar trágico de um herói vencido. Vira e ouvira tudo! Oculto num botequim, vira passar o bando fogoso dos colegas que festejavam o amante de sua irmã; ouvira os "morra ao locandeiro! Ao pirata!" ouvira as galhofas, os risos de escárnio, que lhe atiravam como a um inimigo de guerra. E uma raiva negra, um desespero surdo e profundo entraram-lhe no corpo, que nem um bando de corvos, para lhe comer a carniça do coração. Um duro desgosto pela vida o levava a pensar na morte, revoltado contar o mundo , contra a sociedade, contra sua família, contra a hora em que nascera. - Maldito fosse tudo isso! Malditos seus pais! Sua pátria! Sua convicções! Malditas as leis todas que regiam aquela miserável existência! Chegou lívido, sombrio, com os lábios a tremer na sua comoção mortífera. Um silencio fúnebre enchia a casa; dir-se-ia que acabava de sair dali um enterro. Amélia chorava fechada no quarto e Mme. Brizard, estendida na preguiçosa, tinha a cabeça entre as mãos e meditava soturnamente. Sobre a mesa o almoço há que horas esfriava, esquecido e às moscas. É que já sabiam do terrível desfecho do júri: - Amâncio estava livre, senhor de si por uma vez! Podendo ir para a província quando bem quisesse, porque, além de tudo, nem o dinheiro lhe faltava!... - E eles que ali ficassem, a roer um chifre! - sem recursos, e obrigados a ocupar aquela casa, que era o preço de sua desonra comum. - Mas , o culpado foste tu e só tu! Berrou de supetão Mme. Brizard, erguendo-se da cadeira com um movimento de cólera. - Se me tivesses ouvido, não ficarias agora com essa cara de asno. "Que tudo quer, tudo perde!" Foi bem feito! Foi muito bem feito, para que, de hoje em diante, prestes mais atenção ao que te digo! - Agora- pega-lhe com trapos quentes! O marido deixou cair a cabeça sobre o peito e quedou-se a fitar o chão. Mme. Brizard, depois de voltear agitada pela sala acrescentou: - Se fosses o único a sofrer as conseqüências de tuas cabeçadas, vá! Mas é que nós todos temos de as agüentar! agora só quero ver como te arranjas! Onde vais tu descobrir dinheiro para sustentar a casa! É preciso ser muito cavalo, para ter a fortuna nas mãos e atirá-la pela janela fora! Agora é que eu quero ver! Anda! Vai arranjar hóspedes! Vê se descobres um novo Amâncio! ou quem sabe se contas viver do que der o cortiço da Rua do Resende?! Fizeste-a bonita; os outros que amarguem!.. Calou-se por um instante, arquejando, mas repinchou logo: - Olha! Por estes três meses já podes avaliar o que não será o resto! - Não há mais um punhado de farinha em casa; a companhia já ontem nos cortou o gás, porque não lhe pagamos o trimestre vencido; o último criado que nos restava foi-se há mais de quatro semanas, dizendo aí o diabo; só nos fresta a mucamas, que é aquele estafermo que sabemos; o Eiras reclama todos os dias o tratamento de Nini! - E tu!...tu! - sem um emprego, sem um rendimento, sem nada! - Então?! ( E pôs as mãos nas cadeiras, com um riso abominável de ironia. ) Então?! Estamos ou não estamos arranjadinhos?!...O que te afianço é que não me sinto nada disposta a tornar a inferno da existência que curti na Rua do Resende! Vê lá como te arranjas! Coqueiro fugiu para o quarto, sem responder à mulher. "Tinha medo de fazer um despropósito.! "- Que miséria de vida, a sua! Refletia ele. - Nem ao menos a própria família o consolava! Por toda a parte a mesma perseguição, o mesmo ódio, a mesma luta! - Que seria de si?! Que fim poderia ter tudo aquilo?! Onde iria cavar dinheiro para manter os seus?! - E as custas do processo, e as despesas que fizera?! - O alferes e o homem da venda exigiam o pagamento do que depuseram contra Amâncio, a quem mal conheciam de vista; aquele o ameaçava com um escândalo, se Coqueiro não lhe "cuspisse pr'ali os cobres ";o outro o abocanhava pela vizinhança, fazendo acreditar que o devedor era, nem só um caloteiro, como um bêbado! E não havia dinheiro para nenhuma dessas coisas! - Um inferno! Um verdadeiro inferno! - Os moradores da Rua do Resende há que tempos que não pingavam vintém; - O Damião estava já pelos cabelos para arriar a carga: "Não podia mais aturar semelhante corja!" dizia e contava até que um dos inquilinos lhe tentara chegar a roupa ao pêlo por questões de aluguéis.
E o Coqueiro viu arrastar-se todo aquele mau dia na mesma inferneira. À noite, foi preciso acender velas em substituição do gás suprimido. Amélia não comera desde a véspera e queixava-se agora de muitas dores de cabeça, náuseas, tonturas de febre e um fastio mortal; apareciam-lhe por todo o corpo0 pequenas manchas roxas. Mme. Brizard só abria a boca para fazer novas recriminações e praguejar; na sua cólera chegara alguns tabefes ao filho, e este rabujava a um canto, embesourado e casmurro. - Antes morresse! Antes, mil vezes antes! Repisava o Coqueiro, sentindo-se esmagar debaixo daquele desmoronamento. - Que faria agora de uma irmã prostituída, e de uma mulher desesperada?!... E as horas arrastavam-se pesadas como cadeias de ferro. A casa mal esclarecida tinha uma tristeza lúgubre de igreja deserta. Afinal, Mme. Brizard foi para a cama com o filho, Amélia parecia mais tranqüila; só o Coqueiro velava, só ele, com o seu desespero a triturá-lo por dentro. Não podia sossegar um minuto - era deixar-se ir consumindo pelo sofrimento., até que a dor cansasse de doer e os tais bichos negros do coração lhe comessem o último bocado de carniça. Sentia, porém, uma espécie de volúpia pungente em reler as cartas anônimas que lhe enviaram durante o dia; encolerizava-se com isso, mas não podia deixar de as ler, como quem não resiste a tocar numa parte dorida do corpo. Três, nada menos do que três cartas anônimas, e cada qual a mais insultuosa e mais perversa; não lhe poupavam coisa alguma: - a vergonha real da situação, o ridículo que havia de o acompanhar para sempre, a ojeriza que o público lhe votava espontaneamente; tudo lá estava; tudo vinha descrito com uma minuciosidade cruel, e com pequeninas considerações ultrajantes, com o terrível cuidado de quem se vinga. E, para o efeito ser mis completo, falavam intencionalmente, com entusiasmo, nas conquistas e nas simpatias do outro, do querido, do "feliz"! Não se esqueciam da menor circunstância lisonjeira para Amâncio: - o modo pelo qual o receberam ao sair da prisão - os vivas, - as flores desfolhadas sobre ele, - os oferecimentos, - as declarações de amor, - os ramilhetes que lhe deram, - os brindes; tudo, tudo fora metido ali, para ferir, para danar, para moer. Reconheceu logo quer uma das cartas era de Lúcia; as outras deviam ser de seus próprios colegas ou, quem sabe?...de algum velho inimigo já esquecido por ele!- Tanta gente saíra despeitada da sua casa de pensão!...Ser credor é ser algoz!...exigir pagamento de uma conta a quem não tem dinheiro é exigir a sua inimizade eterna! Além disso, com os seu modos secos e retraídos, ele sempre fora tão pouco estimado na academia!...não tinha, como o "prosa" do Amâncio, gênio para agradar a todo o mundo; não tinha as lábias do outro: não sabia fazer" discursatas e falações"a propósito de tudo!...Era um infeliz, que todos evitavam - um leproso! um lazeiro! E a dor, sem se resolver nas lágrimas que lhe faltavam, encaroçava-se-lhe por dentro, numa grande aflição. - Agora, como se apresntar nas aulas?!...Com que cara suportar o riso sarcástico dos colegas?!...Como resistir à curiosidade brutal do público que o esperava impaciente por cuspir-lhe no rosto?!...Como passar debaixo daquelas mesmas janelas que despejaram flores à cabeça de Amâncio?!...- Amâncio! o homem que dormiu com sua irmã!... E, maquinalmente foi à secretária e tirou o velho revólver que fora do pai. Que estranhas recordações à vista daquela arma! Daquela arma que na sua infância o fizera chorar tantas e tantas vezes!...Belos tempos que não voltam!... E contemplava distraído os bonitos do revólver - os arabescos de prata e madrepérolas com o brasão do velho Lourenço Coqueiro em ouro. Rica peça! Artística, bem trabalhada; não se lhe enxergava sinal de ferrugem, nem desarranjo nas molas. - Também, que havia nisso para admirar se o dono tinha por ela uma espécie de fetichismo e andava sempre a bruni-la e a azeitá-la! Q Era o único objeto que lhe falava ainda das extintas grandezas do pai: Quantas vezes ele não ouvira o pobre velho cavaquear sobre as alegorias daquele rico brasão!...E quantas vezes, a tremer de medo, não o vira descarregar aquela mesma arma contra uma laranja que um escravo segurava com a mão erguida! - Ah! bem que se recordava de tudo isso!...Parecia-lhe ouvir ainda gritar o pai, quando lhe metia à força o revólver entre os dedos. "Não! Isso agora hás de ter paciência! Tu, ao menos, ficarás sabendo dar um tiro!" E todavia, não fiquei sabendo...balbuciou o filho de Lourenço, a experimentar nos lábios o contacto frio do cano de aço. - Não fiquei sabendo dar um tiro, que, se o soubesse, acabaria aqui mesmo com esta vida estúpida e misserável!... S eu tivesse ânimo...pensou ele, estremecido com a idéia da morte - amanhã encontravam o meu cadáveres e não ficariam naturalmente fazendo de mim um juízo tão triste e tão ridículo! - Talvez até chegassem a amaldiçoar o outro e erguessem em volta de meu nome uma legenda respeitosa e compassiva... Foi à gaveta, havia lá algumas balas, carregou a arma.
- Não há dúvida, é a melhor coisa que eu poderias fazer...reconsiderava Coqueiro, imóvel, a olhar indeciso para o revólver que tinha na mão. Mas era bastante chegá-lo contra a boca ou contra um dos ouvidos, para que os seus dedos logo se paralisassem e para que um arrepio muito agudo lhe corresse pela espinha dorsal. Faltava-lhe a coragem. Duas vezes ergueu-o à altura da cabeça, duas vezes o desviou, com as mãos trêmulas e o corpo entalado numa agonia insuportável. - É horrível! Resmungava ele. - É horrível! Ia principiar de novo as tentativas, quando da rua uma forte matinada lhe prendeu a atenção. Um grupo se aproximava, entre cantarolas e algazarras de risos. Eram dez ou doze dos últimos convivas de Amâncio; haviam passado todo o dia e grande parte da noite a folgazar no Paris; muitos, como o autor da pândega, lá ficaram prostrados pela bebida, mas aqueles tiveram a fantasia de um passeio matinal ao Jardim Botânico e meteram-se barulhosamente no bonde. Já no Largo do Machado, um deles, um, que de há muito trazia o Coqueiro atravessado na garganta , lembrou que seria mais divertido apearem-se ali e seguirem a Rua das Laranjeira. "A casa do velhaco era a alguns passos - bem lhe podiam cantar uma serenata debaixo das janelas!" A idéia foi bem acolhida, e a ruidosa farândola despejou-se pelo caminho das Laranjeiras numa hilaridade pletórica de bêbados. Só pararam defronte da porta de João Coqueiro. Através das vidraças e das cortinas de uma das janelas, viram transparecer dubiamente a trêmula morte - cor de uma luz avermelhada. - Estás dormindo, ó Joãozinho dos camarões?! Berrou cambaleando o que tivera a idéia daquela romaria. - Dorme, dorme! É assim que fazem os sem - vergonhas de tua espécie!- vendem a irmã e põem-se a descansar no colchão que lhe deixou o amante! Seguiu-se um estrupido de gritos e risos: - Fora! Fora! - Fiau, fiau! - Larga essa casa que não é tua, gritou aquele. - É da outra! Ganhou-a com o suor de seu rosto! - Sai, parasita! - Sai! Sai! E espocavam gargalhadas no grupo, e os guinchos sibilantes iam até o fim da rua :- Fora! - Fora! - Fiau - Sai, cão! - Deixa a casa, que não é tua !- Fora! - Fora o cáften! - Fiau! Os vizinhos chegavam às janelas, vozeando furiosos contra semelhante berraria. - É o que sucede a quem mora perto de um João Coqueiro! Bradou um da turma. - Quem mora junto ao chiqueiro sente o fedor da lama! Gritou um segundo. - Queixe-se à Câmara Municipal! Acudiu outro. E formidável matacão foi de encontro à vidraça iluminada do chalé de Amélia. Um dos vizinhos apitou e outro despediu um jarro de água sobre os desordeiros Ouvi-se logo o estardalhaço impetuoso dos gritos, das descomposturas e do crepitar dos vidros que se partiam sob um chuveiro de pedras. - Morra! - Morra o infame! bramia a malta , já de carreira para o Largo do Machado. - Morra o cáften!
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João Coqueiro presenciara tudo aquilo, grudado a um canto da janela, mordendo os nós da mão, os olhos injetados, o sangue a saltar-lhe nas veias. - Oh! Era demais, pensava ele desesperado. - Era demais tanta injúria! - Se Amâncio estivesse ali, naquela ocasião, por Deus que o estrangulava! Abriu a janela. O dia repontava já, mas enevoado e triste. Não havia azul; céu e horizontes formavam uma só pasta cor de pérola, onde vultos cinzentos se esfumavam.
O homem da venda abria também as sus portas. Coqueiro cumprimentou-o, ele respondeu com um risinho insolente, acompanhado de pigarro. Uma caleça rodejava lentamente ao largo da rua, o cocheiro vergado sobre as rédeas, o seu casquete sumido na gola do capotão. Coqueiro fez-lhe sinal que esperasse, embrulhou-se no sobretudo, enterrou o chapéu na cabeça, meteu o revólver no bolso e saiu. - Hotel Paris! Disse ao da boléia, atirando-se no fundo da carruagem. O cocheiro endireitou-se sobre a almofada, espichou o pescoço, sacudiu as rédeas e os animais dispararam, assoprando grossamente contra o ar frio da manhã.
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Coqueiro enfiou pela escadaria do hotel. Estava tudo deserto e silencioso; apenas, no salão principal, viam-se um preto velho e um caixeiro desdormido que, entre bocejos, se dispunha a principiar a limpeza da casa. Dir-se-ia que ali passara um exército de bêbados. Por toda a parte vinho derramado, copos partidos, cacos de garrafa e destroços do vasilhame que servira à mesa; o oleado do chão escorregava com uma crusta gordurosa de restos de comida e vômito pezinhado; um espelho ficara em fanicos e um aquário desabara, fazendo-se pedaços e alagando o pavimento, onde peixinhos dourados e vermelhos jaziam, uns mortos e outros ainda estrebuchando. O preto, de gatinhas, em manga de camisa e calças arregambiadas , procurava desencardir o sobrado com um esfregão de coco, que ia embeber ao canto da sala numa tina cheia d' água; enquanto o caixeiro, a jogar o corpo, muito esbodegado, erguia o que estava pelo chão e empilhava as cadeiras sobre as mesinhas de mármore, ao comprido das paredes. - Onde é o quarto do Amâncio? perguntou-lhe João Coqueiro. - Amâncio?...repetiu aquele, emperrando no meio da sala para fitar o interlocutor com um olhar morto de sono! - Ah! bocejou. - O tal moço do pagode de ontem?... Coqueiro sacudiu a cabeça perpendicularmente. - É cá, no número dois, mas escusa bater, que ele aí não está. Ficou lá em cima, no onze, com a Janete. E, voltando ao serviço: - Se não é coisa de pressa, o melhor seria procurá-lo mais logo...Deve de estar agora ferrado no sono, que levou na pândega até as quatro e meia!... Coqueiro voltou-lhe as costas e dirigiu-se para o segundo andar. Bateu à porta no n.º 11. Ninguém respondeu. Tornou a bater. Bateu de novo. - Qui est là!...perguntou na rouquidão do estremunhamento uma voz de mulher. - Preciso falar a esse rapaz que aí está, o Amâncio! Ouviu-se um farfalhar de panos, chinelas arrastaram, e em seguida a porta abriu-se cautelosamente, mostrando pela fisga um rosto gordo, de olhos azuis. - Qui est là... Mas o Coqueiro, em vez de responder, afastou a porta com um murro e atirou-se para dentro do quarto; ao passo que a Jeanete, esfandogada de medo, desgalgava em fralda o escadarão que ia ter ao primeiro andar. Amâncio, em uma cama muito cortinada e muito larga, dormia profundamente, de barriga para o ar, pernas abertas e braços atirados sobre a desordem das colchas e dos lençóis. No chão, ao lado do escarrador, um travesseiro caído, e em torno, por todo o desarranjo da alcova, roupas espalhadas. O Coqueiro olhou um instante para ele, sem pestanejar; depois, sacou tranqüilamente o revólver da algibeira e deu-lhe um tiro à queima - roupa. Amâncio soltou um ai. A segunda bala já o não pilhou, mas o irmão de Amélia, abstrato, pateta, continuava a disparar os outros tiros até que a arma lhe caiu das mãos. Nisto, como se acordasse de uma vertigem, saiu a correr tropeçando em tudo. No primeiro andara um polícia lançou-lhe as garras aos cós das calças e o foi conduzindo à sua frente, sem lhe dizer palavra. Entretanto, Amâncio despertou com um novo gemido e levou ao peito as mãos que se ensoparam no sangue da ferida. Olhou em torno, à procura de alguém; mas o quarto estava abandonado.
Então, fechou novamente os olhos estremecendo, esticou o corpo - e uma palavra doce esvoaçou-lhe nos lábios entreabertos, coimo um fraco e lamentoso apelo de criança: - Mamãe!.. E morreu.
Começou logo a reunir povo na porta do hotel. Faziam-se grupos; os repórteres andavam num torniquete; via-se o Piloto por toda a parte, irrequieto, farisqueiro; e o fato ia ganhando circulação, com uma rapidez elétrica. Pânico sobressalto quebrava violentamente a plácida monotonia da Corte; mulheres de toda a espécie e de todas as idades empenhavam-se com a mesma febre na sorte dramática do infeliz estudante, e o Coqueiro, alado pela transcendência de seu crime, principiava a realçar no espírito público, sob a irradiação simpática e brilhante de sua corajosa desafronta. Às dez horas da manhã já se não podia entra facilmente no necrotério, para onde fora, sem perda de tempo, conduzido o cadáver de Amâncio, entre um cortejo imenso de curiosos. Choviam as interpretações, os comentários sobre o fato; todos queriam dar esclarecimentos, explicar os pontos mais obscuros do grande sucesso. "A bala atravessara-lhe as regiões torácicas e fora cravar-se num osso da espinha", afirmava um homem alto, elegante, de cabelos brancos, cujo ar empantufado prendia a atenção dos mais. Esse homem, que alguns tomavam por um médico, outros por qualquer autoridade policial; outros por um jornalista, outros por um dos professores da faculdade, onde estudava o defunto, não era senão o Lambertosa - o ilustre - gentleman da casa de pensão da Mme. Brizard. E, sempre distinto, sempre viajado, pronto sempre a explicar as coisas cientificamente, agitava a bengala afagando a barriga bem abotoada, e de pernas abertas, pescoço duro, ia estadeando a sua "grande intimidade" com o célebre morto; citando fatos, contando magníficas anedotas que se deram entre os dois. Ah! Era um moço de invejável talento! - Boa memória, compreensão fácil e gosto cultivado. Para a retórica ainda não vi outro...Não, minto - em Londres, em Londres, confesso que encontrei um outro nessas condições!... E punha-se a falar de Londres, e passava depois à França, à Itália, à Europa inteira, e chegaria até aos pólos, se alguém quisesse acompanhá-lo na viagem. Muitos outros dos antigos inquilinos de Mme. Brizard também apareceram no necrotério. Lá esteve a pálida Lúcia, cheia de melancolia, a fitar o cadáver, em silêncio, com os seus belos olhos alterados pelo abuso das lunetas. Agora morava ela com o seu Pereira em Niterói, numa casa de pensão de um italiano, educador de cães e macacos. Era a terceira que percorria depois da da Rua do Resende. Lá esteve, de passagem, o Fontes, com as suas amostras de renda debaixo do braço; lá esteve o triste Paula Mendes, para fazer a vontade à mulher, que exigira ver a "vítima daquele grande cão!'; lá esteve o Dr. Tavares que parecia tomar cada vez mais interesse no "escandaloso assassínio". E, quem diria? Até lá esteve o esquisitão do Campelo que muito dificilmente se abalava com as questões alheias. Por toda a cidade só se pensava no "crime do Hotel Paris"; os jornais saíam carregados de notícias e artigos sobre ele, esgotavam-se as edições da defesa e da acusação de Amâncio; vendia-se na rua o retrato deste em todas as posições, feitios e tamanhos; moribundo, em vida, na escola, no passeio. E tudo ia direito para os álbuns, para as paredes e para as coleções de raridades. Hortênsia, quando lhe constou o terrível desfecho daquele episódio que, na sua fantasia romântica, tomava as proporções de um poema, caiu sem sentidos e ficou prostrada na cama por uma febre violenta. Durante esse tempo, o marido procurava na prisão o assassino para lhe oferece os seus serviços e pôr à disposição dele o dinheiro de que precisasse. "Coqueiro podia ficar tranqüilo - nada lhe havia de faltar à família, nem mesmo a pensão de Nini." E foi em pessoa dar as providências para o enterro do outro.
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O funeral atingiu dimensões gigantescas; parecia que se tratava das morte de um grande benemérito das Pátria.
Por influência do advogado de Amâncio, que era político e bem relacionado, compareceram muitos figurões e até alguns homens do poder. Houve senadores, ministros em vigor, titulares de vários matizes, altos funcionários públicos, artistas de nome, doutores de toda a espécie, clubes de todas as ordens, ordens de todas as devoções, jornalistas, negociantes, empresários, capitalistas e estudantes; estudantes que era uma coisa por demais. A cidade inteira abalou-se, demoveu-se, para deixar passar aquela estranha procissão de um magro cadáver de vinte anos. Veio muita gente dos arrabaldes. De todos os cantos do Rio de Janeiro acudia povo e mais povo a ver o enterro. As ruas, os largos, por onde ele ia, ficavam acogulados de gente; os garotos grimpavam-se aos muros, escalavam as árvores, subiam às grades das chácaras; as janelas regurgitavam, como num domingo de festa. O caixão foi carregado a pulso , coberto de coroas; no cemitério ninguém se podia mexer com a multidão que afluía. Um delírio! E no dia seguinte, descrições e mais descrições jornalísticas; necrológios, artigos fúnebres, notícias biográficas e poesias dedicadas à "triste morte daquelas vinte primaveras". E, o que é mais raro, o fato não caiu logo no esquecimento , porque aí estava o novo processo do assassino para lhe entreter o calor, à feição de um banho-maria. Continuavam, pois, as notícias jurídicas; Coqueiro ia se popularizando, ia conquistando opiniões e simpatias; ia aos pouco se instalando no lugar vago pelo desaparecimento do outro. Mitos colegas se voltavam já a favor dele; até o Simões - até o Paiva! O Paiva, sim! que agora , completamente restaurado com as roupas herdadas de Amâncio , deixava-se ver a miúdo nos pontos mais concorridos da cidade e, entre as palestras dos amigos, mostrava-se todo propenso a justificar o ato do irmão de Amélia. - Não!, dizia ele, quando lhe tocavam nesse ponto - não! O Coqueiro andou bem!...Eu, se tivesse uma irmã, fosse ela quem fosse , faria o mesmo naturalmente!...
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Entretanto, pouco depois do enterro, no meio do burburinho de passageiros chegando no vapor do Norte, uma senhora já idosa, coberta de luto, saltava no cais Pharoux. Vinha acompanhada por uma mulata, que trazia constantemente os braços cruzados em sinal de respeito, e por um velho gordo e bem vestido, cujas maneiras faziam adivinhar que ele ali não passava de um simples companheiro de viagem. Como se já tivessem resolvido no escaler o que deviam fazer logo que saltassem, o velho, mal se viu em terra, chamou por um carroceiro, deu a este a sua bagagem com o competente endereço, fez sinal à mulata que seguisse a carroça e, depois de ajudar a senhora a sair do bote, perguntou, solicitamente, se ela queria tomar um carro. A senhora, muito inquieta, respondeu que preferia ir a pé,, e os dois, de braço dado, puseram-se a andar na direção da Rua Direita. Essa senhora era D. Ângela. O Campos já lhe havia escrito, comunicando a prisão do filho. A princípio, não se achou com ânimo de falar nisso à pobre mãe; mas seus escrúpulos fugiram totalmente, desde que lhe chegou às mãos aquela terrível denúncia do Coqueiro. Ângela não esperava pelo golpe e ficou a ponto de perder a cabeça. "Como?! Seria crível?...Seu filho, seu querido filho na prisão, com um processo às costas e sem ter quem lhe valesse!...Ó Santo Deus! Santo Deus! Que isso era demais para um pobre coração de mãe! - Que mal teria ela feito para merecer tão grande castigo?!" E resolveu seguir para a Corte, imediatamente, no mesmo vapor. Sentia-se corajosa, capaz de todas as lutas, de todas as violências, para salvar seu filho. Esqueceu-se s de seus achaques, do estado melindroso de seu peito, para só cuidar dele; só pensar nessas criatura idolatrada que valia mais, no fanatismo de seu afeto, do que todas as grandezas da terra, todos os esplendores do mundo e todas a potências do céu. - Oh! Haviam de restituir-lhe o filho!...Estava resolvida a atirar-se aos pés dos juizes, das autoridades, do Imperador, se preciso fosse, para resgatá-lo! _Não era possível que só encontrasse corações to duros, que resistissem a tanta lágrima, a tamanha dor e a tamanho desespero! No primeiro paquete achava-se abordo, apenas seguida de uma escrava que, entre as suas, lhe merecia mais confiança.
Mas, agora, pelo braço de um estranho que a não desamparava por mera delicadeza, ou talvez por compaixão; agora, no grosseiro tumulto do cais, estremunhada no meio daquela gente desconhecida - a infeliz sentia-se fraquear. Não sabia que fazer, - se ir em busca do Campos ou correr à toa por aquelas ruas, a gritar pelo filho, a reclamá-lo daquele mundo indiferente que formigava em torno de sua perplexidade. E, por mais que se quisesse fingir forte, uma aflição crescia-lhe dentro e tomava-lhe a garganta. Tremiam-lhe as pernas e os olhos marejavam-se-lhe de lágrimas. - Mas V. Ex.ª não disse que seu filho morava nas Laranjeiras?...perguntou o velho, compreendendo a perturbação de Ângela. - Sim, foi para aí que ele me mandou dirigir as cartas...Tenho até aqui comigo o número da casa, mas, depois disso, já recebi a tal notícia da prisão , e... - Bem, interrompeu o outro - o mais certo é irmos até lá. - Se não encontrarmos o rapaz, havemos de achar alguém que nos dê informações. É mais um instante! Eu ainda posso acompanhá-la ;não tenho pressa; o melhor, porém, seria tomarmos um carro. - Não, não! respondeu a senhora, sempre inquieta, a olhar para todos os lados, como se esperasse, por um acaso feliz, descobrir Amâncio , de um momento para outro. Estavam já na Rua Direita. Ela, de repente, estacou e pôs-se a fitar a vidraça de um armarinho. - Algum conhecido? Perguntou o velho. - Não. É que estes chapéus...tenha a bondade de ver se consegue ler aquele nome...eu, talvez me enganasse... O velho leu distintamente"` Amâncio de Vasconcelos". - É o título! Disse. - Eles agora batizam as mercadorias com os nomes que estão na moda. Algum tenor! - É singular!...balbuciou a senhora. - Por quê? - É esse justamente o nome de meu filho. - Oh! não há só uma Maria no mundo!... Mas D. Ângela fugira-lhe outra vez do braço para correr a uma nova vidraça. Eram agora bengalas e gravatas "à Amâncio de Vasconcelos" que lhe prendiam a atenção. Acabavam de entrar na Rua do Ouvidor. - Vê?...interrogou ela, muito preocupada e procurando esconder a comoção. - Ainda! - Ah! fez o companheiro, já impaciente. - V. Ex.ª vai encontrar o mesmo nome por toda parte. - É o costume! Olhe! Se me não engano, lá está o retrato do tal Amâncio! Tenha a bondade de ver! D. Ângela aproximou-se do retrato, correndo, e soltou logo uma exclamação: - Mas é ele! O meu Amâncio! E começou a rir e a chorar muito perturbada. O velho, meio comovido e meio vexado com aquela expansão em plena Rua do Ouvidor, principiava talvez a arrepender-se de ter sido tão cavalheiro Ângela, quando esta, que estivera até aí a percorrer, como uma doida, outros mostradores, arrancou do peito um formidável grito e caiu de bruços na calçada. Tinha visto seu filho, representado na mesa do necrotério , com o tronco nu, o corpo em sangue. E por debaixo, em, letras garrafais: Amâncio de Vasconcelos, assassinado por João Coqueiro no Hotel Paris, em tantos de tal."
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br