E os velhos professores tiveram, em sobressalto, de afrontar o seu reumatismo, e precipitarem-se estremunhados aos competentes uniformes de grande gala, para receber a suposta visita de Sua Majestade.
Foi por entre a formatura em peso da veneranda corporação da Escola, que D. Felipe, esbodegado e sorridente, atravessou para a prisão.
Calcule-se daí o efeito de semelhante escândalo, e por ele quanto se não chocaria o circunspecto Monarca.
Agora, de volta à Corte, D. Felipe vira uma vez Ambrosina às pernadas com um pobre cançoneta, naquele mesmo famoso teatrinho onde se engendrara pretexto a referida anedota histórica, e logo correu à caixa para se fazer apresentar à festejada exibicionista de belas formas, procurando incontinenti requestá-la de assalto.
Ora, a D. Felipe não dava o Brasil mais do que um conto de réis por mês, casa, trens, criados e cavalos; mas, como sabiam todos os mercadores do Rio de Janeiro que as contas do pândego príncipe, por maiores e absurdas, eram sempre, mais cedo ou mais tarde, liquidadas pelo erário imperial, nem só não lhe regateavam crédito, como ainda procuravam espertalhonamente meter-lhe pela cara tudo aquilo que pudessem.
Ambrosina tinha disso perfeita ciência, e rejubilava por conseguinte com a sua heráldica conquista.
Sua Alteza, ao cabo de alguns meses, propôs, tomá-la para si exclusivamente, com a condição, porém, de que a amante não havia de pôr os formosos pés em tábuas de ribalta, nem dar trela a guardas-marinhas, enquanto estivesse em companhia dele.
Ela aceitou, arroubada de contentamento. E foi essa a fase mais brilhante do seu efêmero fastígio; foi como vai ver o leitor, o momento apogístico da sua venusta glória, o delicioso instante da embriaguez de Safo, mas também o Leucale fatal, donde havia de rolar a Condessa Vésper ao abismo comum das mercadorias de amor.
D. Felipe pôs-lhe casa em Botafogo, mandou, por inspiração própria e segundo desenho seu, aparelhar o brasão de armas da Condessa Vésper — uma grande estrela de prata em campo azul-celeste, cortado em diagonal por duas ordens de lágrimas vermelhas; em cima a coroa condal, e por baixo do escudo um ramo de camélias brancas e deu-lhe lacaios de libré agaloada, tomando do brasão as duas cores carmim e prata; e deu-lhe jóias, e deu-lhe rendas tão preciosas que valiam ainda mais que as jóias, e vinhos tais, que valiam mais que as rendas.
Vésper tocara ao seu zênite, à fúlgida culminância que precede ao fatal declínio.
Pouco, muito pouco tempo durou o plenivênio de sua glória, apenas um ano, mas nesse fugaz instante gozou ela todas as delícias das voluntariedades; foi por um momento de sua vida o centro planetário, em torno do qual todos os prazeres livres e todos os vícios caros do Rio de Janeiro bailaram ébrios de gozo. Os principescos salões de sua casa converteram-se, não só no quartel general de todas as prodigalidades elegantes, de todas as gentis libertinagens de um outro sexo, mas ainda no alegre ponto de reunião de muito dignitário de gravata lavada e de homens de real merecimento libertário, artístico e científico. Nas suas esplêndidas noitadas, de ceia permanente, em que o champanha corria a jorros e a orquestra só emudecia ao clarear da aurora; em que as bancas de lansquenet, de bacará e de trente e quarente, se sucediam, deslocando centenas de contos de reis, viram-se, ao lado das vulneráveis divas de colo nu, altas patentes de mar e terra, poderosos conselheiros da Corte, velhos senadores cobertos de condecorações; formidáveis banqueiros, cujos sorrisos de lábios secos valiam ouro, capitalistas donos da Praça, e titulares que dariam para uma coleção completa, desde o bisonho comendador de grau mínimo na Maçonaria, até o rebarbativo Conde, grau 33, com chácara em arrabalde e o nome imposto pela Câmara Municipal à rua em que ele habitava.
E ela, ao lado do seu príncipe, cercada de admirações de ricos e de protegidos pobres, sentia-se plenamente feliz, gozava essa felicidade, tão ambicionada e tão rara, que só experimentam os privilegiados da fortuna, os eleitos da sorte; a felicidade de chegar ao fim proposto, de cumprir o seu destino na terra, de tocar com as mãos e com os lábios o ideal sonhado durante a vida.
Nesse ano de plenitude, Ambrosina chegou a ser uma irresistível potência, cujo valimento se estendia escandalosamente até aos degraus do Trono. Quantas vezes não foi ela, às horas escusadas do pôr do dia, visitada e adulada por estranhos de boa cotação na sociedade, que lhe iam solicitar a graça de uma recomendação para os magnatas do poder? Quantas vezes não recebeu, com frios gestos de rainha, a clandestina visita de alguma pobre senhora, que entre risonhas e envergonhadas lágrimas, lhe suplicava uma palavra de interesse pela promoção do marido ou pela nomeação do filho? Quantos casamentos de dinheiro, e quantos casamentos de amor, e quantos adultérios, e quantas reconciliações conjugais, não dependeram dela? Quantos destinos não lhe foram parar às felinas mãos, para destas receber a nova direção que lhes quisesse imprimir a soberana fantasia da loureira?
De tão senhora da fortuna, e de tão satisfeita consigo mesma, chegou Ambrosina a revelar belas alterações no temperamento e no gênio. Era difícil surpreender-lhe então um gesto de mau humor ou de má vontade; dera ao contrário para mostrar-se indulgente e branda com os inferiores, compassiva e humanitária para com os humildes e fracos, cheia de um espetaculoso interesse pelas vítimas de qualquer notável desastre. Acudiam-lhe agora, àqueles mesmos lábios a cujo sopro vidas de vinte anos se apagaram, doces sorrisos de meiga afabilidade para os pálidos necessitados, que de longe se arrastavam até à fímbria de seus vestidos em súplica de piedosos. Quem sabe lá o que não sairia ainda de semelhante demônio, se aquele plenário ano se prolongasse indeterminadamente!... Mas, um dia fatídico para ela! o seu áulico amante lhe divisou por entre os ondulantes e fartos cabelos da nuca, os primeiros fios brancos, e lhe pressentiu através dos beijos as primeiras rugas da velhice.
Dois meses depois, D. Felipe desaparecia do Rio de Janeiro, sem se despedir da sua companheira de vícios, e ainda por cima lhe alçando mão de algumas das melhores jóias que ele próprio lhe havia dado.
E a roda da fortuna começou a desandar vertiginosamente para a Condessa Vésper.
Tão lenta e folgada fora a ascensão, quão rápida e pungente era agora a descida. O atrevido fausto em que a deixara instalada o fugitivo príncipe, os dispendiosos hábitos que lhe ensinara, e o exigente meio que lhe dera, mais lhe agravavam a situação e lhe precipitavam o fatal soçobro. Pouco depois da deserção de D. Felipe, já o largo crédito que se havia aberto em torno dela, se fechava com um golpe cicatrizado.
Ambrosina, viu aflita desmoronar-se debaixo de seus pés, como por alçapões de teatro, todo o rebrilhante e cenográfico pedestal em que num momento se julgou soberana; e compreendeu, ai dela! que isso acontecia, não porque só um príncipe D. Felipe a pudesse manter naquelas alturas, mas porque a sua época passara, porque outras mulheres, mais moças e mais novas, lhe empolgavam, entre vitoriosas gargalhadas, o chocalheiro e leve cetro da libertinagem fluminense.
Vésper descambava e amortecia à luz de novas estrelas.
O próprio Alcazar, onde campeara ela no Rio de Janeiro os seus decisivos triunfos de mulher formosa e pública, caía também de moda, e só era já freqüentado por uma velhada quieta e conservadora, metodicamente pagodista. E pouco sobreviveu ele ao desmaio da sua última estréia de primeira grandeza depois de agonizar por alguns meses, repetindo velhas e estafadas canções dos seus tempos felizes, entregou a alma ao diabo, quase juntamente com o esperto Arnaud, cuja vida parecia identificada com a do endemoninhado teatrinho.
De repente, viu-se Ambrosina cercada de uma negra nuvem de meirinhos e credores de dentes refilados, que lhe fariscavam rendas e alfaias, jóias e baixelas, móveis, carros e cavalos, sem que tudo isso lhe desse não obstante para pagar em juízo a metade do que devia a executada.
Dentre os meirinhos, um, que se mostrava diretamente interessado por ela, procurou falar-lhe em particular.
Ambrosina agarrou-se a ele, como o náufrago à primeira mão que se lhe estende; mas, ao encará-lo de perto, e ao reconhecê-lo afinal, teve um instintivo retraimento de surpresa e de repugnância.
Céus! o meirinho era o Melo Rosa, o seu primitivo cúmplice!
Mas que estranha cara tinha agora o trampolineiro! parecia raspada a caco de telha! o diabo do homem estava escamoso, descabelado e cor de brasa; não dava absolutamente idéia do que fora quinze anos antes! Que sinistro mal o poria naquele repulsivo estado?
— Não se deixe ficar aqui... É pior! segredou ele a Ambrosina, arrastando-a para um canto escuro. Trate quanto antes de apanhar o que de melhor puder carregar dentro das malas, e negue-se a futuras intimações... O escrivão ainda não chegou... Se não fizer o que lhe digo, estes cães lhe arrancarão a camisa do corpo! Mas mexa-se sem perda de um segundo! Daqui a pouco a casa estará interdita!
— Mas para onde hei de ir?...
— Tome este cartão. É de um chalé da rua dos Arcos... Lá encontrará quartos com pensão, ou sem pensão. Boa gente! Diga que vai em meu nome — eu agora me chamo Melo Júnior.
A Condessa Vésper aceitou o alvitre do seu ex-ofício transformado em beleguim, e lá foi, com um nome suposto, dar consigo ao latíbulo por aquele inculcado.
Era uma casa de ar muito tranqüilo, mas suspeito, de um luxo encardido e mofado em que as capas dos sofás e das cadeiras acolchoadas serviam, não para as resguardar do pó, mas para esconder aos olhos dos hóspedes os ultrajes do tempo e do uso. Por toda a parte cortinas, tapetes, biombos, quadros e mesinhas, tudo, porém, repuído e amolambado.
Pelo esvaziamento das portas mal cerradas, lobrigavam-se vultos brancos de mulheres em penteador, arrastando chinelas de veludo e fumando cigarros. E pelos corredores sentia-se um cheiro impertinente da cozinha de hotel.
Ambrosina, ao tomar pé nos seus novos aposentos, desatou a chorar, e foi com o coração desfeito em amargura que a reformada loureira essa noite se recolheu à cama, depois de haver jantado no Dori, para se não encontrar com o Melo Rosa, que ficara de ir ter com ela ao pôr do sol.
Mas, no dia seguinte, logo pela manhã, ao correr os olhos pelo primeiro jornal que lhe caiu nas mãos, teve uma grande alegria: na lista dos passageiros do Rio da Prata estava o nome de Gabriel.
— Que felicidade! exclamou ela, secando o vestígio das lágrimas com um sorriso.
E correu à escrivaninha, onde de um fôlego minutou uma extensa carta, que terminava deste modo:
"Venha Gabriel; não é por capricho de amor que lhe faço este pedido, mas porque me dói e me pesa na consciência todo o mal que lhe causei. Quero que me perdoe de viva voz, ou de viva voz me castigue, lançando-me ao rosto todos os insultos da sua maldição. Não me revoltarei! anátema ou perdão, hei de receber o que vier de seus lábios, como divino orvalho para esta minha pobre alma requeimada pela agonia. Se soubesse como estou mudada, como é outro o meu coração, e outro o meu espírito... Se me vir de perto, e se me ouvir por um instante, juro que terá dó de mim! Não lhe peço amor, não! sei perfeitamente qual É o alcance de todo o mal que lhe fiz; quero porém, desafogar-me dos remorsos que me devoram, quero beijar-lhe os pés depois de ser por eles batida, como um vil animal que lhe pertença; quero chorar das suas pancadas e das suas injúrias, para não chorar de vergonha e de arrependimento. Venha! É só isto que lhe suplico. Lembre-se de que ninguém, além do Senhor, resta no mundo, dos que deveras me amaram; venha ver-me neste penitencial retiro em que definho sob o obscuro nome de Elvira Branco. Será uma esmola, um serviço piedoso levado à cabeceira de uma desgraçada, que não tem ânimo de largar o mundo sem ouvir, pela última vez, a palavra do único homem que amou. Venha! seja digno do seu coração! — Ambrosina.. — Rua dos Arcos, n.o 90, primeiro andar, quarto n.o 5".
Gabriel leu esta carta sem tirar o charuto da boca, e foi, menos levado pelo reflexo do seu maldito amor, do que pela traidora curiosidade do coração, que o relapso pecador decidiu aceder à invocação da sua primeira amante.
Iria ver Ambrosina... por que não? Negar-se, ou deixar aquela humilde súplica sem resposta, seria mostrar-se receoso de um encontro, e dar por demais importância ao que em verdade já lhe não merecia nenhuma. E, caso ainda houvesse nele vestígios de saudade da estúpida paixão que lhe estragara a vida, semelhante visita os destruiria sem dúvida uma vez por todas, pois a desgraçada, se afinal se havia resignado a um obscuro arrependimento, era seguro por ver-se completamente batida e já sem cotação no mercado do prazer.
Iria ver de perto esse destroço de inimigo, e contemplar, em plena paz, os restos da desmantelada fortaleza, em que ele se chorou prisioneiro durante a melhor parte da sua mocidade.
— Sim, deve estar acabada! deduzia ele, a calcular o tempo decorrido desde que os dois se conheceram. E não é sem razão! Andará pelos quarenta anos ou perto disso... Ora, eu, que sou mais moço, já tenho cabelos brancos e rugas até na alma, ela o que não terá?...
E foi calmo, positivo, cheio de um ar prático da vida, que Gabriel entrou na precária sala de Ambrosina.
Ela apareceu-lhe toda de luto, arrastando uma grande e magoada contrição.
Não tinha consigo um jóia; traje e penteado eram de um simplicidade calculada e artística. Nenhuma tinta no rosto, nenhum artificial perfume nos cabelos. Os braços cobertos por um filó negro; na garganta, pálida e nua, um pequenino crucifixo de marfim pendente de um cordel de seda.
Como ainda está bonita!... Foi o primeiro pensamento de Gabriel, assim que a viu.
E, meio condoído pelo ar triste e resignado da ex-amante, disse-lhe em tom quase cerimonioso:
— Vê que não fiz ouvidos de mercador ao seu convite... Aqui me tem...
— Obrigada! muito obrigada! respondeu ela comovida e suspirosa, indo beijar-lhe a mão.
— Dou-lhe os meus parabéns por dois motivos, volveu o rapaz; porque está muito bem conservada e porque me parece inteiramente convertida...
— Aceito o cumprimento pela segunda das razões, mas não pela primeira... balbuciou Ambrosina, fazendo a visita tomar assento a seu lado num divã rasteiro; convertida, isso estou eu... Ah, se estou! quanto a bem conservada... não sei, nem me interessa saber. Ainda ontem, num dos meus momentos de íntima revolta contra mim mesma, estive quase, por desespero, a despojar-me dos cabelos... Imagine!
— Que loucura!..
— Loucuras foi o que eu fiz noutro tempo... e daria agora, acredite! todo o meu sangue, para me resgatar de qualquer delas!
— Como mudou, hein?
— Oh, sim, felizmente! Muito, porém, tenho sofrido e muito tenho chorado! Reconheço, entretanto, que, no fundo, não sou tão má; posso até dizer que nasci para a abnegação e para o sacrifício. Mas, não sei que revessa estrela me persegue, que maldição me acompanha desde o berço, para que eu, em toda a minha desgraçada vida, deixasse sempre atrás de mim um rastro de vítimas e uma esteira de gemidos angustiosos. Desejei vê-lo de novo, Gabriel, porque ao Senhor devo a parte melhor, mais doce e menos impura, do meu triste destino, o único instante de minha existência em que não me julguei de toda indigna de amar a Deus; chamei-o para lhe pedir que me perdoe e, se lhe merecer compaixão a dor suprema da mais perdida das perdidas, que a esta ampare sempre com a sua generosidade de homem de bem, para que não tenha ela de recorrer dê novo à prostituição, como único meio de vida que lhe resta.
E Ambrosina, cujos suspiros lhe transbordavam por entre as palavras, começou a chorar desafogadamente.
Gabriel, por simples instinto de piedade, deixou que a desgraçada lhe pousasse a cabeça sobre o colo; mas, ao encará-la rosto a rosto, ao sentir nas suas barbas as quentes lágrimas que ela vertia, e a respirar-lhe o fêmeo e ferino cheiro daquelas mesmas carnes e daqueles mesmos cabelos, em que outrora se lhe prendera cativa para sempre a alma enamorada, todo o seu passado, toda a sua louca paixão, lhe acordou por dentro num arranco de desenfreado desejo, no qual ele a chamou inteira para o corpo, cingindo-a nervosamente nos braços e devorando-lhe os lábios com beijos ardentes, doidos, famintos, enquanto da garganta lhe rebentavam velhos soluços há tempo reprimidos e esmagados.
— Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! exclamaram ambos, rolando-se abraçados.
E ferraram-se de novo.
Foram habitar num retiro da Tijuca, para além da Raiz da Serra, numa velha chácara emboscada de mangueiras, entre quedas e sussurros d’água.
Ambrosina parecia completamente transformada. Saía todos os domingos pela manhã, a ouvir missa numa capela próxima à casa, ia sempre de negro, com um véu sobre o rosto. Fazia-se agora muito religiosa, muito amiga de festas de igreja e de dar esmolas aos mendigos devotos.
Sonhava-se já uma santa!
Mas queria mesa farta, e em certos dias o seu jantar era um banquete, a que só faltavam os convivas. Passava em demorada revista as hortas e os galinheiros da chácara, parava a contemplar o chiqueiro dos porcos, o curral das ovelhas, a vaca de leite e os cavalos de serviço. A sua criadagem aumentava todos os dias.
Gabriel, ocioso e apático, deixava-se ir ficando ao lado dela, não em verdade pelo gosto que lhe desse a companhia da amante, mas pela previsão do mal que lhe traria a sua ausência, à imitação desses pobres operários das minas de mercúrio, que já não podem cá fora suportar o ar inalterado; e precisam, para manter o equilíbrio da vida, volver a respirar o veneno com que por muito anos viciaram o organismo.
Vinham-lhe às vezes tão negras e profundas crises de tédio, que Ambrosina, temendo, com o suicídio do companheiro, perder aquela farta aposentadoria, não se desgarrava dele rondando-lhe os gestos e as intenções.
Todavia foi ela, e não Gabriel, quem rompeu com semelhante vida patriarcal. Não suporta por muito tempo a estabilidade doméstica o mastim que nasceu para a vagabundagem das ruas.
Uma vez, o rapaz, percebeu-lhe lágrimas, inquiriu, entre bocejos, sobre o que a punha nesse estado.
Ela, por única resposta, deixou-se-lhe cair nos braços com uma explosão de soluços.
— Sou uma desgraçada! Sou a peste! exclamou.
— A que vem isso, filha?
— Pois não é assim? Tudo o que me cerca há de murchar e fenecer? todos os que se chegam para mim hão de fatalmente cair nessa tristeza e nesse desânimo em que te vejo mergulhado, receosa de que sucumbas de tédio?... Oh! estou farta de ver sofrer em torno do meu azar! É demais! Qual foi o meu grande crime, para que de mim pobre amaldiçoada dos céus! nunca partisse um elemento de alegria sã e de sincero riso?! Quero ser boa e simples, quero ser como tantas outras mulheres que fazem a felicidade dos que as amam, mas já não me animo sequer a desejar o bem dos meus semelhantes, porque meu coração foi formado pela lama dos infernos. Maldita seja a hora em que eu nasci! maldita a estrela que me abriu os olhos! Quanto invejo essas pobres velhas, que chegam pacificamente ao fim de uma longa e uniforme existência, cercadas de netos e abençoadas por uma geração inteira! Quanto invejo os que partem deste mundo, sem deixar atrás de si um só eco de rugir de ódio ou de gargalhar de escárnio!
E voltando para Gabriel, disse-lhe numa agonia crescente:
— Vai! Foge de mim. Evita-me! És moço; vai gozar em paz, vai viver! Casa-te, constitui família, faze-te amado por uma mulher digna de ti! Meus carinhos te secam o sangue, meus beijos te umedecem a inteligência! Foge-me, querido! Amo-te muito, para consentir que te associes à minha estrela!
— Onde diabo queres tu chegar com tudo isso. Não te compreendo!
— Quero arrancar-te deste degredo!
— Mas, filha, não foste tu própria quem escolheu isto aqui para morarmos?...
— Sim, porque não previa as conseqüências; agora porém, receio perder-te... Esta solidão está a matar-te lentamente, eu sofro por te ver nesse estado... Não! não ! É preciso salvar-te!
— Qual! por mim, não! por mim não te incomodes. Em toda a parte me aborreço do mesmo modo... O mal vem de mim e não do lugar em que me acho... Se é só por isso, põe o coração à larga, e não te preocupes com os enfados de uma mudança.
— Mas é que eu própria começo a sucumbir de tédio!
— Ah! isso agora é outra cousa. Compreendo! Sentes falta do ruído da cidade. O corpo pede-te pândega. Já me tardava, confesso-te!
— E é exato. Esta existência calma, entre cascatas e mangueiras, em vez de acalmar-me os nervos, tem a propriedade de irritá-los... Não nasci para isto! No fim de contas, o mais digno e honesto é submeter-se cada qual ao seu temperamento e deixar-se de hipocrisias; mais vale a franca jovialidade do que uma austeridade fingida e falsa. Sinto-me bem disposta como nunca; amo e sou amada — quero viver! quero gozar, em plena expansão de alegria o resto de minha mocidade ao lado do meu amante. Venham de novo as ceias, os vinhos, os delírios do jogo e das madrugadas de prazer! Sou de novo a Condessa Vésper!
Gabriel sacudiu os ombros, enjoado.
— Faze o que entenderes, disse ele; mas talvez te arrependas...
— É difícil... Pois se isto já é um arrependimento de arrependimento!... Não! Não! Preciso sair daqui. Vou fatalmente! Se me não acompanhares, irei só.
Daí a dias, mudavam-se para a cidade, tomando na Praia da Lapa, em frente ao mar, um sobradinho de três janelas, que era um brinco. E a Condessa Vésper começou a reaparecer nos teatros e nas corridas, ao lado do seu taciturno amante.
Apesar de já inteiramente fora do calendário das mulheres de alto bordo, fizeram-se logo comentários de todo o gênero a seu respeito. Uns, naturalmente por espírito de contradição, achavam que ela agora estava ainda mais bela; outros, sistematicamente pessimistas, pretendiam que a sazonada ex-estrela do Alcazar, já não valia dois caracóis. E atribuíam-lhe uma grande regeneração por amor, falava-se, por aqui e por ali, ora de uma formidável paixão, que esteve a dar com ela num convento de freiras, ora de uma moléstia, não menos terrível, que por pouco não lhe deixara os ossos a descoberto. E citavam com pasmo as toilettes sérias de Ambrosina, as suas jóias, e as suas novas maneiras de pecadora impenitente e consagrada.
O seu porte era agora de uma rainha viúva e silenciosamente devassa.
Mas, por este tempo, a liquidação forçada do Banco Mauá, onde Gabriel tinha todos os seus bens, rebentou como uma bomba, espalhando escandalosamente a ruína e a miséria no meio de centenares de acionistas, que de seus depósitos apenas percebiam o cheiro do estouro.
Ambrosina sentiu fugir-lhe a alma. Abraçou-se ao amante num transporte de heróica solidariedade na desgraça, e durante muitos dias viveram os dois, quase que exclusivamente, para ler, por entre um dueto de suspiros e soluços secos, os boletins, as notícias, e os ardentes comentários da imprensa sobre a tremenda bancarrota. Maria Antonieta com certeza não se mostrara em público mais altivamente resignada, quando perdeu o seu trono, nem tivera, ao lado de Luiz XVI, mais lindas palavras de dor, e lágrimas mais eloqüentes, do que as de Ambrosina aos pés de seu amante arruinado.
Mas, nos primeiros intervalos dessa ideal agonia, foi logo cuidando a loureira de arranjar quem junto dela pudesse substituir Gabriel, porque, a este, coitado! faltava absolutamente aptidão para de qualquer modo ganhar a própria vida, quanto mais ainda a de uma companheira de má boca e hábitos epicuristas.
A cousa, porém, não seria assim tão fácil!... Onde diabo iria ela descobrir de pronto um outro Gabriel; isto é, um homem que a visse ainda hoje pelo mesmo prisma de vinte anos passados?... Devia ser difícil! A infeliz já não tinha de beleza mais do que um saldo em ligeiras frações; a gordura começava a dissolver-lhe de todo a helênica pureza do contorno; e os seus famosos cabelos, que, ao descer da Tijuca, dera ela em tingir de louro, ganhavam agora uns tons fulos em que tresandava fraudulento cheiro de preparação química.
Foi nessas circunstâncias que resolveu ir buscar à porta de um dos seus mais antigos e ferrenhos admiradores, por quem não obstante sentira sempre instintiva e profunda repugnância, um tal Moreira, por alcunha "O Arrocha", dono de uma casa de jogo das mais fortes do Rio, e com cavalos de corrida. Homem efetivamente desagradável, ordinário e popular, de um cinismo arrogante e ruidoso, corpo duro, cabelo à escovinha, cara raspada e vermelha com pintalgações furunculosas.
Andava sempre com as algibeiras inchadas de contos de réis, para bancar a roleta ou o dado, na primeira ocasião que se oferecesse nas tavolagens dos colegas.
Ambrosina tinha-lhe profundo asco, apesar da justa fama que o cercava de muito pichoso na escolha da roupa íntima, e de bom gastador com mulheres; seria assim! ela, porém, não o podia ver nas suas invariáveis calças brancas, casaco sem colete, a camisa carregada de brilhantes, o farol ao dedo e o charutão ao canto da boca; todo ele a arrotar descarada audácia, asseio caro, estômago farto e próspera luxúria.
O fraco do Arrocha pela Condessa Vésper não era simples questão de apetite sensual, entrava aí em alta dose um grande fundo de especulação malandra. Como bom conhecedor, o patoteiro farejava em Ambrosina um belo auxiliar para as pantomimices da banca, e queria fazer dela o braço direito da sua casa de jogo. E, quanto ao mais... ora adeus! — madurinha estava a fazenda, isto estava! mas, que diabo! aquilo era mulher para instruir a quem a ouvisse, e devia saber do ofício, que nem a própria Chica Polca!
E uma noite, quando Gabriel voltava de certa viagem a São Paulo, aonde fora ver se conseguia receber algum dinheiro do que tinha por lá deixado de empréstimo sem garantia, encontrou todo fechado, deserto e quase inteiramente vazio, o sobradinho da Praia da Lapa.
Ambrosina havia arribado para os braços do Arrocha, depois de fazer leilão dos móveis e obras de luxo e de arte da sua última instalação deixando apenas ao esbulhado amante o que rigorosamente constituía objeto de uso exclusivo dele.
Gabriel ficou quase que reduzido à roupa do corpo e ao dinheiro do bolso.
Tão exausto de ânimo e tão vencido pela decepção, vinha o mísero despojado ao chegar a casa que não teve ele uma lágrima, nem um gesto de revolta para aquela nova perfídia da sua velha traidora; chegou até a sorrir dando de ombros, sem indagar saber o que escapar ao despojo, nem o que ela porventura lhe deixara escrito a título de desculpa ou de justificação.
Tornou à rua, e lá se fez para os lados da cidade rebocado pelo seu próprio desânimo, a procura de uma parelha de aluguel, que o ajudasse a arrastar a carga daquela pesada noite.
Foi afinal dar aos lábios de uma rapariga, que acabava de fazer a sua aparição no baixo mercado dos beijos fluminenses. Chamava-se Eva Rosa, mas o seu verdadeiro nome o leitor conhece, como conhece à dona; era a nossa Estela dos olhos bonitos, a quem um dia sonhara o malogrado Gustavo fazer senhora.
Depois de percorrer a regimental escala que vai desde a criadinha festejada pelo amo até à mesquinha amante acumulativa das funções de criada e cozinheira, surgira afinal a infeliz, oficialmente, à tona do impudor de porta franca, fazendo das janelas do hotel Ravaux trampolim para o grande salto na larga piscina da devassidão carioca.
Gabriel deixou-se ficar muitos dias ao lado dela, ouvindo os pormenores da história dos negros amores de Gustavo com Ambrosina; e, enquanto procurava ele aturdir o coração nos braços dessa quinhoeira de infortúnio, vítima também da Condessa Vésper, reaparecia no Rio de Janeiro, sinistramente velho e prostrado, o Médico Misterioso, que sentira agravar-se longe da pátria o seu mau estado de saúde com a terrível notícia da quebra do Banco Mauá.
O que, logo ao chegar à Corte, lhe constou de positivo a respeito da fraudulenta liquidação desse estabelecimento de crédito, em que todos no Brasil depositavam a melhor boa-fé e a qual Gabriel, como o próprio Gaspar, haviam confiado os seus haveres, ferrou com ele de cama, e por pouco não o matou de vez.
Mandou então chamar com urgência o enteado, a quem, em vão, já tinha por várias vezes escrito do estrangeiro.
Gabriel resistiu a princípio, mas afinal cedeu. E os dois amigos, ao trocarem o primeiro olhar depois de tão longa e desabrida ausência, sentiram-se igualmente comovidos.
O enfermeiro afastou-se do quarto a um gesto do enfermo.
— Não podia morrer sem falar contigo... disse este a Gabriel; porque não era só pelo meu interesse que o precisava fazer... Apesar de não haveres nunca respondido às minhas cartas, é minha segura convicção que já chegaste afinal a compreender quanto foste injusto para comigo, e quão pouco merecia eu ser por ti odiado e abandonado...
— Não falemos nisso... murmurou Gabriel, de olhos baixos.
— Ah, sim! deves estar a estas horas plenamente senhor da verdade a tal respeito, a não ser que aquela maldita mulher, uma vez de novo ao teu lado, achasse meios ainda de tirar, a seu favor, novo partido de uma situação, falsa na aparência, que a nós dois ridiculamente incompatibilizava... Agora, porém, que acabas de ser, tão de surpresa, defraudado pelo Banco Mauá no que restava do teu belo patrimônio, terás, meu filho, ocasião de conhecer definitivamente o vil diabo por quem me desprezaste.. . É esperares mais um pouco, e hás de ver confirmado o que te digo! Não te dou muitos dias para que Ambrosina te fuja para os braços de outro, se encontrar quem a receba!
— Já encontrou...
— Abandonou-te já?
— Já.
— Ainda bem, meu pobre Gabriel! Ao quer que seja, aproveita a desgraça! Respiro, apesar de que semelhante felicidade tire a sua razão da tua própria ruína. De hoje em diante, tens que traçar um novo programa para a tua vida... É preciso que nunca te esqueças de que já não és rico.
Gabriel soltou um gemido.
— É verdade... disse entredentes; pensei eu, pobre de mim! que não pudesse ser mais desgraçado do que me supunha. Enganei-me! a miséria veio completar a obra. Sou um miserável!
— Não! e és muito menos desgraçado do que foste; apenas, convém que acordes por uma vez dos teus pesadelos. Era por isso, principalmente, que eu não queria morrer sem falar contigo, sem te deixar de pé na vida... e de olhos bem abertos... E como a morte é traidora e anda por aqui junto, não devemos perder tempo... Escuta, meu filho; antes, porém, de mais nada, olha, toma esta chave, e com ela tira daquele cofrezito de ferro uma volumosa carteira que lá está.
Gabriel obedeceu. Cumpria as ordens do padrasto com a solene submissão que se deve ao enfermos desenganados.
— Para que é isto?... perguntou ele agitando na mão a carteira que sacara do cofre.
— É para te ser restituído... explicou o enfermo, virgulando as palavras com uma tosse seca; aí dentro encontrarás, em bilhetes esterlinos, o principal e os juros dos cinqüenta contos de réis, que te tomei, contando já que havias de chegar à completa pobreza...
Gabriel arfava de comoção.
— Do que sobrar, prosseguiu o outro, e com o produto do que porventura aqui encontrarem depois de minha morte, farás o meu enterro e um última esmola aos meus doentes pobres. Espero não te esqueças de que tanto maior será a esmola, quanto mais modesto for o enterro, e de que não te ficará bem lesar aqueles desgraçados de quem era eu o único amigo... Quando te pedi o que agora te restituo, sabia que mais cedo ou mais tarde, cairias na miséria, mas, confesso, não a fazia tão certa... estava, como todos, bem longe de prever a quebra do Banco Mauá. Era a minha intenção deixar por algum tempo amargasses bem a necessidade, para poderes depois tomar o real sabor da vida, e dar então a esse último punhado de dinheiro o seu verdadeiro valor; a morte, porém, não me deixa tempo para tanto, e tenho de confiar ao te próprio critério o que esperava eu da ação benéfica dos fatos. E é isto só o que agora me preocupa...
Gabriel não pôde por mais tempo reprimir a sua comoção.
— Meu bom amigo! exclamou, lançando-se nos braços do padrasto.
— Sim! só o teu futuro me dá cuidado... É a única preocupação que levo comigo para fora da vida.
— Não se mortifique por minha causa!
— Oh! Sinto perfeitamente que me cabe grande parte na responsabilidade da tua desgraça... Amei-te demasiadamente... fiz de ti um ídolo, quando devia ter feito simplesmente um filho... Fui um visionário! Errei! Perdoa-me!
E, como Gabriel com um gesto lhe exprobasse falar tanto, Gaspar abaixou a voz, e acrescentou sucumbido:
— Ah! bem caro paguei o bem que te não fiz! bem caro paguei o meu tributo à delirante época em que decorreu a minha mocidade! Desgraçados que fomos! desgraçados que fomos!
E as lágrimas do velho romântico correram-lhe pelas barbas brancas.
— Oh! sossegue por amor de Deus! suplicava o rapaz; concentre todo o seu pensamento na boa ação que acaba de praticar comigo, salvando-me da miséria; e console-se com a idéia da gratidão que neste instante me invade a alma, para nunca mais a abandonar! Creia-me, meu pai, ligado piedosamente ao seu amor e sinceramente contrito dos meus erros!
— Obrigado, meu filho...
E o moribundo deixou pender a pálida cabeça sobre os travesseiros, inundada por uma auréola de extrema lucidez, em que se pressentia já o alvorecer de uma outra vida.
Foi arquejante, e talvez meio em presa ao supremo delírio, que ele mais tarde volveu a falar, levando ao peito descarnado a mão de Gabriel que entre as suas apertava.
— Segue à risca o que te vou dizer... balbuciou com os olhos imóveis: não olhes para trás de nós, não pares a contemplar no teu caminho a sinistra sombra que fomos... Vê! a luz vem de frente! não te voltes contra a luz, que a noite é doce, mas intrigante e traiçoeira... Em nome de tua mãe, meu filho, não mergulhes de novo na vasa em que acabas de naufragar! Nunca mais leves o teu corpo à boca, sem teres ganho o teu dia; não ponhas teu corpo com o de uma mulher, a quem não possas defender em qualquer terreno; não doures a tua vaidade com o ouro que não ganhaste com as tuas próprias mãos, porque só esse orgulha a quem o gasta. Faze da necessidade, alheia ou própria, a senhora arbitral do teu dinheiro; nunca o sonegues quando ela o reclamar, nem jamais o gastes sem que dele justifique ela a aplicação. E trabalha, e poupa; poupa principalmente nas quantas pequenas, que as grandes por si mesmas estão guardadas; trabalha, seja em que for... o trabalho é o senhor dos homens livres, é o único senhor, a cuja dependência nos tornamos independentes; não suponhas que te humilhas a homens quando te curves diante do trabalho, não tenhas escrúpulo nem vexame de exercer qualquer ocupação subalterna, faze-te soldado, soldado raso, e, quando o dever te reclamar, leva ao ponto mais arriscado e mais glorioso, essa desgraçada vida, que expões sem glória a cada instante nos braços das perdidas e nas távolas dos bêbados. Desconfia de ti próprio, sempre que não fores necessário a alguém; se não prestares para os outros, menos prestarás para ti mesmo... O coração, meu filho, só tem janelas para fora; se quiseres ser feliz, deixa que por elas te entre no íntimo a felicidade alheia... E... e... ama...
Mas a voz perdia-se-lhe na garganta, e os seus olhos, sempre imóveis a pouco se embaciavam.
Vinham-lhe ainda, todavia, aos lábios quase tão imóveis como os olhos, entre palavras de amor, o nome de Violante, o nome do pai, e o de Gabriel, e o de Virgínia, e o de Ana e de Eugênia.
O enteado, de joelhos ao lado do leito, colocou o rosto sobre uma das mãos do agonizante, abafando com elas os seus próprios soluços encharcados de pranto.
Gaspar arquejava.
Pouco depois apareceu o colega que o assistia, e disse em particular a Gabriel que o padrasto não deitaria a noite inteira.
Morreu com efeito às duas da madrugada.
O enterro, no dia seguinte, teve um grande acompanhamento, mas só de pobres; gente de sociedade quase nenhuma compareceu. O Reguinho, entretanto, se mostrou na comitiva, já grisalho e enrugado, sempre, porém, com o mesmo ar de filho-família irresponsável de todo, e sempre a mentir a pretexto de tudo.
A velhinha Benedita, essa não faltou, coitada! Toda curvadinha sobre o seu bordão, a cabecinha a tremer, e o queixo a amanducar em seco, lá foi ela se arrastando até ao cemitério de São João Batista, para rezar bem rezadinho um rosário sobre a sepultura de seu benfeitor, a quem Deus Nosso Senhor tivesse em santa guarda, com as alminhas do Paraíso, pelo muito que ele em vida fizera pelos desgraçados.
Com a prisão do Arrocha, que a justiça acabava de condenar a dois anos de cadeia por crime inafiançável, depois de haver a polícia lhe dado busca na casa de jogo e apreendido o que lá encontrara, viu-se Ambrosina obrigada a voltar de novo a atividade prostibular, mas agora, não já como vagabunda ovelha, e sim como abelha mestra de quatro raparigas, entre as quais Eva Rosa era a de melhor cotação.
E Gabriel, que a despeito dos conselhos "in extremis" do padrasto, fora pouco a pouco, com a última aragem da fortuna, recaindo na primitiva prodigalidade, um belo dia, quando deu por si, depois de uma noite de dissipação em que adormeceu inconscientemente nos braços de Estela, acordou, sem mesmo saber como, nos da sua velha amante, e entre bocejos de apatia se deixou quedar.
Já não tinha, porém o relapso, ao lado de Ambrosina, vislumbres dos arroubos da sua paixão de outrora; amava-a de cara fechada, como traga um bêbado a indispensável dose de aguardente, que lhe exige o vício.
Mas, ainda assim, existiram juntos quase um ano, ao fundo de um policromo hotelzinho de gente de teatro, por cima do recém-criado Casino da rua do Espírito Santo, que se propunha substituir o Alcazar de saudosa memória popular. E durante esse tempo, valha a verdade, nada de notável ocorreu entre eles, a não ser o próprio fato que de novo os desuniu — um doido capricho de Ambrosina por um hércules francês, que se exibia todas as noites no Círculo do Lavradio; homem belo e brutal, com músculos de bronze, a cujo áspero peso gemia a outonada loureira, sentindo esmagarem-se-lhe as dormentes gelatinas em que se lhe havia derretido pelo corpo o palpitante e branco mármore do passado.
A desgraçada o idolatrava, sem a si própria explicar a razão por que. Ele comia-lhe o dinheiro que lhe fariscava nas meias, e batia-lhe com os pés; ela, entre soluços de mulher adorada, dizia-lhe abjeções, cuspia-lhe nas barbas, mas ia, lacrimejante de amor, rebuscá-lo ao fundo das bodegas, para lhe pedir perdão e lhe suplicar que não estivesse a matá-la de ciúmes.
O francês levou-a a esfocinhar nas últimas degradações da crápula rasteira, enquanto teve de partir para Buenos Aires com a companhia de funâmbulos a que pertencia, esgueirou-se à sorrelfa, receando que o seu crampon lhe estorvasse a saída.
Ambrosina reparou então que o miserável, ainda pior do que fez D. Felipe, lhe carregara com os poucos objetos de valor imediato que lhe restavam, e tratou logo de arranjar meios de encostar-se de novo a Gabriel.
Este porém, já de frouxos recursos poderia dispor por esse tempo; achava-se quase completamente esgotado em todos os sentidos. Dera ultimamente para beber e jogar por vício, equilibrando a existência pelas alternativas da roleta e do álcool. Tornava-se desleixado em extremo, e até desbriado.
Ambrosina conseguiu empolgá-lo de novo, e agora mais do que nunca fazia dele o que bem queria, insultava-o constantemente, e lhe não abria a porta, quando o desgraçado fora de horas lhe chegava ébrio e sem dinheiro.
— Vá dormir na estação de polícia, que isto aqui não é lugar de vagabundos! exclamava ela, pondo a cabeça entre as folhas da janela.
E, se insistia, despejava-lhe o balde das águas servidas.
Mas, nem assim, o pobre diabo a deixava de vez.
Uma ocasião afinal, largos meses depois do último aferramento dos dois, Ambrosina, passando de manhã cedo pela rua do Ouvidor, para ir ao Mercado regatear as compras do almoço, viu em uma das vitrinas do Farani, um belo e rico broche de brilhantes.
Eram apenas duas pedras, muito fundas, porém, e muito limpas. Ao lado um cartão com letras de ouro dizia que a jóia custava quatro contos de réis.
— Ah! meu tempo!... suspirou a filha do comendador Moscoso, a fitar, enamorada e triste, as duas sedutoras gemas.
E, depois de muito as contemplar em platônico desejo, soltou um novo e mais fundo suspiro, e lá se foi seguindo o seu caminho, mal amanhada e bamba, levando cravada na alma uma agonia que toda por dentro a encharcava de fel.
Ao mercado, inteiramente fora dos seus hábitos de lambareira, fez as compras nesse dia sem se demorar na escolha das vitualhas e sem desfranzir o rosto, passando alheada e torva por entre a pilhas do legumes viçosos e peixes cor de prata que espalhavam no ar o quente aroma das hortas e o frio olor das maresias; e não se deteve um só instante, como costumava, a olhar gulosamente para os montões de frutas frescas e caças despojadas, ou para as relumbrantes serpentes de chouriços e salpicões banhados de gordura, em que das outras vezes deixava a alma pendurada pelos olhos.
É que os dois belos brilhantes não lhe saíam da imaginação.
Chegou a casa possuída de uma raiva dolorosa e surda, uma como íntima revolta contra a certeza do seu aniquilamento, a dura certeza de que ela, nunca mais seria ninguém.
Chorou, chorou muito, arrepelou-se, e pensou em morrer.
— Mas por que não hei de eu possuir aqueles brilhantes?! exclamou a miserável a sós com a sua agonia, entre arquejos desabridos. Sim, hão de ser meus! Ainda há nesta carne fibras da Condessa Vésper !
E quando o amante lhe apareceu à tarde, disse-lhe ela secamente:
— Ó Gabriel! tens ainda algum dinheiro em depósito?
— Quase nada, filha; por quê?
— Porque preciso que me compres um broche de brilhantes que vi no Farani; um de duas lindas pedras, levemente azuladas, e engastadas num simples alfinete de ouro. Custa quatro contos...
— Estás bêbeda!
— Parece-te? Pois fica então sabendo que não tornarás a pôr os pés neste quarto, se não trouxeres os brilhantes contigo!
— Vai dormir! Isso passa!
À noite, porém, Ambrosina não lhe abriu a porta, como lha não abriu no dia seguinte, nem no outro.
Gabriel, que havia caído numa estranha tristeza, resignada e fria, foi então à casa bancária onde depositava o seu dinheiro, e perguntou de quanto ainda dispunha.
— Quatro contos e tanto, responderam-lhe.
— Passe o recibo.
— De tudo?
— Sim.
Embolsou o dinheiro, tocou para a casa do Farani.
Parou defronte do mostrador. Os dois brilhantes, as duas tentações de Ambrosina lá estavam em toda a sua refulgente glória; e o desgraçado estremeceu ao trocar com eles um rápido olhar, como se desse com efeito de surpresa com os olhos de alguém, de algum demônio, do cruel demônio que implacavelmente o perseguia desde o seu primeiro sonho de amor.
No meio de um ardente eflúvio de cintilações, feito de acesas cores em que parecia transluzir a alma fulgurante dos minerais preciosos, destacavam-se, a fitar Gabriel, as duas irrequietas pupilas de carbone vivo. Havia a granada e o rubi, com as suas luzes quentes e sangüíneas, que lembram os sorrisos do pecado; a esmeralda, matinal e alegre como a lágrima do mar gotejada dos cabelos de Afrodite, ao lado da safira, triste e sombria. como as gotas da noite; e opalas, misteriosas e sinistras em contraste com turquesas cor do céu em dias felizes, e pérolas que guardam no rijo e imaculado seio secreta: luzes do fundo do oceano, e místicas ametistas, sensuais cornalinas, topázios cheios de sol, e camafeus mais polidos e trabalhados que um verso de Virgílio. Mas a todo esse refulgir da ardente e rica pedraria, sobrelevava-se o fulgor das duas lúcidas pupilas de luz diamantina, que provocadoramente desafiavam Gabriel para um supremo desvario.
O amante de Ambrosina entrou na loja.
— Deseja alguma cousa?... perguntou-lhe o moço do balcão, a medi-lo com certo ar desconfiado.
— Aquele broche que está exposto...
— A que broche se refere o senhor?
— Ao de quatro contos, com dois brilhantes..
— É só para ver?...
— Não; é para comprar.
— Pronto!
— Separe-lhe as pedras.
— Separar-lhe as pedras?!.
— Sim; desengaste os dois brilhantes.
— O senhor dessa forma estraga a peça...
— Não faça caso; separe-as.
— Mas...
— Compreendo... Aqui tem o dinheiro.
— Pois não! É um instante!
E o caixeiro, depois de conferir e recolher o pagamento, isolou as duas belas gemas, que entregou ao comprador juntamente com os engastes e o cofre.
— Está servido, disse; quando precisar de mais jóias...
— Obrigado, resmungou Gabriel, guardando aqueles objetos no bolso do sobretudo.
E dirigiu-se então a uma casa de armas. Aí comprou um jogo de pistolas de carregar com bala pela boca. Depois pediu ao armeiro que a carregasse com pólvora seca, muniu-se de espoletas, e saiu.
Estava a cair de fome. Foi ao Mangini, meteu-se num gabinete reservado, e, enquanto esperava que lhe servissem o jantar, carregou as duas pistolas com um brilhante cada uma.
Acabada a refeição, acendeu tranqüilamente um charuto, e seguiu, sem alterar os passos, para a casa de Ambrosina.
Eram cinco horas da tarde, mas anoitecia já quando ele lá chegou, porque junho orçava pelo seu meado e viera muito nebuloso esse ano.
— Ainda?! berrou a loureira, ao ver entrar Gabriel. Não lhe disse que não voltasse sem os brilhantes?! É birra!
— E quem te diz que não te trago?...
— Hein?! interrogou ela, correndo para o amante, de braços abertos. Não estás gracejando?...
Ele mostrou o estojo.
— Meu amor! Oh! deixa ver! Dá-me! dá-me cá!
E Ambrosina beijava o infeliz, a bater palmas, a rir e a saltar numa alegria igual às dos seus melhores tempos do passado.
— Prepara então o teu colo... exigiu Gabriel. Quero-o nu, todo nu!
Ela, num gesto rápido e frenético, rasgou o corpete do vestido, patenteando os infecundos e carnudos peitos.
— Agora, bem! dá-me o teu lenço... acrescentou ele.
— Meu lenço?... Aí o tens... Para quê?...
— Espera... É uma fantasia... Deixa vendar-te os olhos...
Ambrosina submeteu-se, com arrepios de gozo, a perguntar se o broche então armava também em colar.
— Sim, respondeu o amante, empunhando as pistolas, que já tinha engatilhado. E quero que só o vejas defronte ao espelho... com os teus brilhantes no colo.
— Pronto! disse ela afinal, de olhos vendados.
Gabriel, fazendo-lhe pontaria sobre os peitos clamou:
— Aí os tens, demônio!
E disparou ao mesmo tempo as duas armas.
Ambrosina, soltando um gemido, caiu de costas, banhada em sangue.
Semanas depois, recebia Gabriel na casa de Detenção a visita da mãe do finado cocheiro Jorge. De todos os seus conhecidos, foi essa, foi a velhinha Benedita, a única pessoa que se lembrou de ir vê-lo.
E a pobre de Cristo estava cada vez mais engelhadinha, mais seca e mais curvada, e também mais agarrada à vida, sempre com um terrível medo de morrer, e sempre a terminar os seus intermináveis aranzéis com o grato provérbio: "Viva a galinha com a sua pevide!"
Foi ela a encarregada pelo assassino de Ambrosina de trazer-nos o manuscrito e a carta de que falamos no começo deste livro, e foi ela igualmente quem nos informou mais tarde de que o infeliz preso, no dia em que tinha de embarcar para Fernando de Noronha, a cumprir sentença de galés perpétuas, aparecera morto na prisão, conservando ainda cravada no peito a arma com que se arrancara do mundo, um belo punhalzinho de cabo de marfim com incrustações de ouro, entre as quais se lia o nome de Violante.
Fonte: www.biblio.com.br