— De sobra conheço a vida para me haver enganado. Jamais conseguirás ser feliz, caminhando deste modo e vivendo no meio da escória que te cerca. Não serão os Regos e os Melos Rosas que te conduzirão ao bom caminho! Estás na idade em que todo o moço decide do seu destino... Se não mudares de conduta, se te não resolveres a trabalhar, se te não fizeres homem de bem, se não tratares enfim de aceitar a responsabilidade da tua vida — virás a ser fatalmente um desgraçado! O fato de haveres nascido rico, não te dispensa dos teus deveres de homem e de cidadão, aumenta ao contrário a tua responsabilidade, porque não tens sequer a desculpa da miséria.
— Acredita, Gaspar, que as cousas mudarão!...
— Receio que não mudem, ou que mudem para pior. O que te afianço é que já representas aos meus olhos um papel bem digno de lástima!... És indecentemente explorado por meia dúzia de cavalheiros de indústria, que se dizem teus amigos. Aquele Melo Rosa é um gatuno!
— Gaspar, peço-te que moderes um pouco a tua exacerbação!...
—Não! não tenciono moderá-la. Disse que cumpria um dever, e é com a consciência dele que procedo neste instante! Não é a própria severidade que me faz esbravear contra aqueles vadios, é o amor que te voto é a compaixão que me inspiras! Tu, meu filho, não tens prática alguma da vida, nem sequer te foi dada pela sorte a inestimável faculdade de precisares trabalhar para viver. Onde queres formar o teu caráter?... Aqui, nesta casa tresandando a desordem e a loucura?! Ao menos, se me aparecesses, para que eu te guiasse com os meus conselhos... mas tu te escondes de mim e tens medo das minhas palavras! Enquanto estás aqui, encerrado no calor voluptuoso deste latíbulo, enquanto passa a vida à fralda de uma mulher, os rapazes de tua idade formam lá fora uma geração forte e trabalhadora; enquanto te amoleces com o perfume dos cabelos de Ambrosina e com o champanha da tua adega, eles, os moços de tua idade invadem o jornal, o livro, a tribuna e a vida pública! Por que não acompanhas a onda do teu tempo? Concordo que ames Ambrosina e que por ela sejas amado, mas isso não é razão para que não cumpras com teus deveres. Esta vida, que aqui levas aos seus pés, sem dignidade e sem consciência, só vos poderá conduzir ao desprezo social; a ti pela libertinagem, a ela pela prostituição!
Gabriel, fulminado pelas últimas palavras do padrasto, sentiu subir-lhe o sangue às faces, e esqueceu-se por um instante do respeito que lhe votava. Veio-lhe à boca uma injúria; mas, antes de a proferir, já Ambrosina, que tudo escutara do outro quarto, havia de improviso se colocado entre os dois, cravando no médico um olhar hostil e exclamando com voz firme:
— Basta, senhor! Foi sempre do meu costume respeitar os cabelos brancos de quem quer que seja, vejo agora, porém, que eles, escondem às vezes uma cabeça leviana e malévola! é bem triste o papel que o senhor escolheu... Introduzir-se na casa alheia para semear a discórdia entre os que vivem felizes e tranqüilos, será tudo, menos um ato digno! Sei que me vai responder que lhe tirei o seu bebê, o seu tutu... Mas, com os diabos! antes o levem por uma vez! Ai o tem! Amo-o não nego, amo-o bastante; mas prefiro privar-me dele a ter de prestar contas de meus atos à sua ama seca! Não estou com a corda no pescoço! ainda tenho uma casa para morar, e não faltará quem me queira!
— Não digas isso, que me afliges! exclamou Gabriel, procurando segurar-lhe as mãos.
— Deixe-me! repontou ela com um arranco. Sempre pensei que você fosse outra espécie de homem; no fim de contas, não passa de um maricas! Acabam de insultar-me nas suas barbas, e você não acha uma palavra para me dasafrontar! Não posso ter confiança em uma pessoa que não reconhece a responsabilidade de seus atos. Agora sou eu quem faz questão de sair desta casa; não posso ficar em lugar, onde estou sujeita a ser insultada covardemente pelo primeiro indivíduo que chega! Hoje foi este, amanhã será outro e, no fim de pouco tempo, serão todos os seus amigos. Nada! prefiro viver com minha mãe, ou talvez com um meu amante, se encontrar um homem que souber ser homem!
— Ambrosina!... suplicou Gabriel.
— Cale-se! não suponha que me enternece com as suas lamúrias... Confesso que lhe tenho amor, mas sou muito capaz de mudar-me hoje mesmo. Já agora, meu amigo, tanto me faz Pedro, como Paulo! Mau foi dar o primeiro passo; afinal, o senhor não é meu marido, e, amante por amante, tanto me faz o segundo como o terceiro!
— Ouviste? observou Gaspar.
— Para que dizes o que não sentes?... insistiu Gabriel, procurando acalmar Ambrosina pela meiguice. Para que te hás de fazer inconveniente e má, quando o não és?... Sabes perfeitamente quais são os laços que me unem ao Gaspar; sabes até onde vai a afeição que ele me vota e...
— Não sei, nem quero saber disso! interrompeu ela. Já disse o que tinha a dizer! Aqui não fico!
E voltando-se para o interior da casa.
— Leonie!
Veio a criada.
— Veja meus objetos e minha roupa; reuna tudo! mudo-me hoje mesmo para a casa de minha mãe!
— Retire-se gritou Gabriel à criada, e acrescentou para Ambrosina: — Tu não irás! Aqui mando eu!
— Manda? A quem? exclamou ela. Qual é aqui o seu escravo? Ora, moço, outro ofício! Se julga que recebo ordens de alguém, está enganado; sou muito senhora deste narizinho, entende! Se me der na cabeça ir já não será você, nem toda a sua geração, que me farão deixa de ir! Era também o que faltava! que, além de tudo, estivesse eu às ordens do Nhonhô... Não! por semelhante preço, prefiro roer o pão duro da casa de minha mãe!
— Mas, aqui quem pretende dar-te ordens? observou Gabriel, chegando-se para ela. Sabes perfeitamente que, da porta pra dentro, és tu a senhora desta casa. Exijo que fiques, não porque te governe, mas porque te amo. Estás encolerizada, bem vejo, e quero-te evitar dares um passo, que sem dúvida lamentarias mais tarde.
— Pois se não sou nesta casa uma figura de papelão, preciso pôr imediatamente este sujeito daqui pra fora!
Gaspar olhou para ela, e sorriu com sarcasmo.
— Vê! exclamou Ambrosina furiosa; escarnece de mim!...
— Ora, Ambrosina! respondeu Gabriel; para que me hás de colocar nesta posição?... Não vês logo que não posso despedir meu padrasto?...
— Deixa-te disso...
— Ou ele ou eu! Escolha!
— Não! insistiu Gabriel; nem ele será despedido nem tu irás... Vocês vão imediatamente fazer as pazes, se são meus amigos...
— Perdão! interveio Gaspar. Eu agora é que só te aceito sem ela! Escolhe entre nós dois!
Gabriel olhou agoniadamente para Ambrosina, depois para o padrasto, e afinal atirou-se a uma cadeira, escondendo o rosto nas mãos.
— Sabem o que mais?! exclamou a rapariga. Não estou para aturá-los!
E dirigiu-se para alcova.
Gabriel precipitou-se sobre ela.
— Meu amor! Escuta!
— Bem! disse Gaspar, tomando o chapéu; nesse caso, sou eu quem se retira...
— Meu amigo! exclamou Gabriel, segurando-lhe o braço.
— Acabemos com isto! gritou Ambrosina. Não me dou bem com estas cenas! Solta-me!
— Os próprios fatos se encarregarão de dar-me a resposta, resumiu Gaspar, conseguindo ganhar a porta da sala. Resolve só por ti o que entenderes! Adeus.
E voltando para Ambrosina:
— Minha senhora, quando de novo precisar de meus serviços médicos, estarei às ordens...
— Obrigada, respondeu ela, com um riso de ironia. E quando Gaspar havia desaparecido, deliberou consigo: "Caro me hás de pagar!"
Depois colou a boca contra a de Gabriel, e exclamou num estremeção de volúpia:
Não me receberás mais este tipo!... não é verdade, meu queridinho?...
Gaspar esperou em vão por alguma carta, algum recado, qualquer palavra que viesse da parte de Gabriel. Decididamente, Ambrosina havia triunfado; entre o padrasto e o amante, Gabriel escolhera a última.
E o que havia nisso de extraordinário?... considerava o Médico Misterioso. Agora, o que convinha fazer com urgência era livrar o pobre rapaz, fosse lá como fosse, das garras de Ambrosina, porque Gaspar muito se enganava, ou ali estava uma mulher com todos os elementos para levar aquele às últimas degradações.
Gabriel com efeito ia absorvendo, nos braços da amante, o vírus traiçoeiro da ociosidade. Um aborrecimento profundo começava a corromper-lhe o caráter e a dispensar-lhe a energia; às vezes se quedava ele longas horas a olhar abstratamente para o mesmo ponto, sem coragem para cousa alguma, e só um afago mais violento de Ambrosina o fazia então voltar a si.
Mas estes mesmos se iam relaxando, à proporção que a convivência estabelecia entre os dois a inevitável saciedade. Gabriel, na vida que levava, só conhecia ricos ignorantes ou homens indiferentes aos gozos do espírito. O mundo dos artistas, dos intelectuais, o meio em que cada um vive de uma idéia e caminha firmando-se em um nome, conquistado pelos esforços de todos os instantes; esse meio não o conhecia ele, e o frêmito das vitórias do trabalho só lhe chegava aos ouvidos, como a longínqua música de uma batalha de estrangeiros.
Ambrosina, não obstante, insistia na sua idéia de dar uma festa. O Rêgo e o Melo Rosa encarregaram-se de encomendar o jantar e tratar da decoração da casa. Ela escolheu um rico vestido de seda cor de creme, com o qual faria as honras da recepção; Gabriel distribuiu alguns convites, e, às cinco horas da tarde do dia marcado, principiaram a chegar os comensais.
Genoveva fora de véspera para ajudar nos arranjos da cozinha, e Alfredo apareceu logo que pôde largar o trabalho.
Exibiu o restaurado viúvo uma fatiota de brim branco, cujo apurado da goma dizia eloqüentemente os desvelos amorosos da sua nova companheira. Estava muito melhor de fisionomia e andava vivo e escorreito. De perfil, notava-se-lhe até um discreto princípio de abdômen.
O Melo chegou com um amigo, ao qual apresentou ao dono da casa, dizendo cousas mui agradáveis a seu respeito; e o Reguinho apareceu por último, de carro, e acompanhado por uma rapariga loura, de olhos pintados.
Esta circunstância não agradou muito a Gabriel, mas, como Ambrosina não via no fato intenção de maldade, e porque a rapariga tinha um todo acanhado e parecia portar-se com respeito, ele sacudiu os ombros e resignou-se. Além disso, não havia muito onde escolher, porque de onze convidados apenas aqueles se apresentaram. Um fiasco!
A filha do comendador, dissimulando o desapontamento, tocou antes da mesa o seu repertório de piano; e recitou uns versos, que lhe oferecera o Melo. Gabriel fazia servir os aperitivos e conversava vagamente com os convivas.
Às seis horas, acenderam-se os candeeiros de gás, e os convidados tomaram à mesa os seus componentes lugares. Principiou o jantar.
Notava-se constrangimento geral. Ambrosina, todavia, desfazia-se em obséquios e pedia que não tivessem cerimônia. Alfredo cercava Genoveva de solicitudes, falando-lhe de vez em quando ao ouvido. O Melo chamava-lhe a rir "Casal de pombinhos" e outras cousas que à matronaça não faziam bom cabelo, a julgar pelas suas olhadelas, repreensivas e cheias de conveniência, atiradas contra aquele.
Desenvolvia-se o jantar, e o acanhamento ia desaparecendo à proporção que as garrafas se esvaziavam. Ambrosina recuperava o bom humor e comia já com apetite. Alfredo elogiava o vinho e atochava-se de leitão assado.
— É o que se leva deste mundo! observou-lhe o Melo regaladamente.
E o tempo corria. Repetiam-se os pratos e os copos; iam-se animando as fisionomias, e o vinho dava afinal à reunião uma caráter ruidoso e alegre. A própria rapariga do Rêgo, a princípio tão esquerda, arriscava já uma ou outra frase com pretensões a pilhéria.
— O caso é ela enxugar um pouco! explicava o Rêgo; e prometia que lá para o fim do jantar estaria soberba.
— O senhor confunde-me... respondeu a infeliz, abaixando maliciosamente os olhos e procurando ter graça.
Gabriel queixava-se de que faltava ali muita gente; dos seus convites só quatro vingaram.
Nestas ocasiões é que se conheciam amigos! sentenciou o Melo.
Ambrosina pedia a Gabriel que se não mortificasse e, passando-lhe o braço na cintura, deu-lhe um beijo na orelha.
Veio a sobremesa. Estourou o champanha, e o jantar esquentou logo.
O Rêgo ergueu-se para um brinde.
— Meus senhores! disse ele; bebamos à saúde de um jovem que, por suas virtudes e por seu talento, muito merece de nosso respeito e de nossa consideração... Bebamos à saúde daquele que hoje nos reúne nesta casa, ao som dos alegres estampidos da viúva Clicôt!
— Estampidos da viúva? Livra! bradou o Melo.
— Ao dr. Gabriel! exclamaram muitas vozes.
Todos corresponderam, e Gabriel levantou-se de taça em punho, para agradecer o brinde e o comparecimento dos seus convidados.
Ouviu-se então uma infernal gritaria de "Hup! Hup! Hurra!" e os copos se chocaram entre gargalhadas e exclamações de prazer. Já falavam todos ao mesmo tempo, e o tal companheiro do Melo, até aí silencioso, abriu a fazer discursos com tal fúria, que não havia meio de o conter.
Alfredo servia Genoveva de vinhos e oferecia-lhe várias guloseimas, que ela em geral recusava, abaixando os olhos, cheia de decoro, mas esfogueada.
Entretanto, ia-se fazendo por toda a mesa um rumor de desordem. Já ninguém se entendia. Interrompiam uns aos outros, sem a menor cerimônia; ouvia-se no meio do barulho a voz excitada do Melo, a dirigir um brinde à Ambrosina, em que lhe chamava "Anjo de amor e proibido fruto do Paraíso".
Ambrosina ria-se muito, a pender a cabeça para trás; levantou-se e foi ter com o autor do brinde para lho agradecer. O Meio apertou-lhe o braço num arremesso de ternura.
Gabriel mandou abrir mais. champanha, e o companheiro do Melo continuava, terrível a fazer discursos. Brindou à Mocidade, ao Amor, à República e ao Prazer. A rapariga do Rêgo havia encostado no ombro deste a cabeça, e deixou-se afinal cair no colo do amante, desfazendo o penteado.
— Já ia ficando boa!... afirmava o Rêgo, a piscar o ôlho.
Alfredo e Genoveva conversavam intimamente, invernados na sua obscura ternura.
Ninguém prestava mais atenção ao que faziam os outros. Ambrosina declarava sentir-se bem. As garrafas substituíam-se quase sem intervalo, e as vozes recrudesciam de animação.
O amigo do Melo calara-se afinal, vencido por uma comoção que lhe arrancava lágrimas e soluços. Gabriel com a voz arrastada e os olhos mortos, oferecia charutos à sociedade.
Dissolveu-se a mesa. Serviu-se o café e vieram os licores. Os convidados espalharam-se pela casa. Ambrosina lembrou um passeio ao luar, no jardim; ninguém acedeu, ela, porém, deu o braço ao Melo, e com este ganhou alegremente a chácara.
Os dois, ao chegarem a um caramanchão, que havia ao fundo, estreitaram aos beijos, caindo sobre um banco, nos braços um do outro.
Ela, não obstante, negava-se, mas sem forças para se defender, e rindo.
O Melo arfava, a segurar as lunetas e tartamudeando palavras de amor. De repente ergueu-se, olhando para os lados. Sentira passos ali perto! Ia jurar que alguém. os espreitava!...
— Não é nada... dizia Ambrosina, com os olhos cerrados e os lábios soltos.
E puxava-o pelas abas do fraque.
O Melo tornou a cair sobre o banco.
Alguém com efeito os havia espreitado. Os passos ouvidos pelo rapaz eram do Médico Misterioso que, depois de espiar lá de fora por algum tempo a festa de Gabriel, seguira com a vista Ambrosina quando esta ganhou a chácara com o Melo; depois penetrara sorrateiramente no jardim, fora até ao caramanchão e, tendo observado o que aí se passava, dirigiu-se para a sala de jantar.
Entretanto, a festa degenerada em orgia, arrastava-se já entre bocejos. Gabriel, negligentemente estendido numa preguiçosa, fumava, a olhar abstrato para a rapariga do Rêgo, nesse momento muito empenhada em descolchetar o seu espartilho, depois de ter desfeito de um dos sapatos; enquanto o seu extraordinário amante, ainda na sala de jantar, preparava em uma saladeira um formidável ponche, e mortecia a luz dos bicos de gás para dar mais realce às lívidas chamas do álcool. Alfredo queixava-se à Genoveva de que havia comido demais, e estava às voltas com a sua dispepsia. A boa mulher dava-lhe a beber água de melissa. E ouvia-se a voz arrastada de Gabriel, chamando com insistência por Ambrosina.
Gaspar, de braços cruzados ao fundo da sala, olhava para todos eles, com um ar sombrio. Só Genoveva dera com a sua presença, e desde então lhe acompanhava o movimento dos olhos.
Gaspar atravessou a sala e foi bater no ombro do enteado. Gabriel voltou a si e o encarou atônito.
— Avia-te! segredou o médico; temos que sair daqui imediatamente!
— Para onde?..
— Para o diabo, mas avia-te!
Gabriel levantou-se, cambaleando.
— Para onde me queres levar?...
— Em caminho conversaremos. Anda dai!
E Gaspar segurou-o pelos braços, na esperança de aproveitar o estado de quase inconsciência de Gabriel.
— E Ambrosina?.. perguntou este.
— Virá depois.
— Não! Eu só irei com ela!
— Ela não pode vir!
— Por quê?...
— Porque não!
— Então, larga-me!
— Gabriel, atende ao teu único amigo! Repara que estás cercado de vergonhas! Olha que é a perdição que se respira aqui!
— Se Ambrosina merecesse tal dedicação, vá! porém, ela, desgraçado, zomba de ti! engana-te com outro!
— Mentes, miserável!
— Não sei! deixa-me!
— Nada de bulha, e ouve o que te digo... Prometes acompanhar-me, se eu te provar a infidelidade de Ambrosina?...
— Prometo!
— Pois vem cá. Não faças rumor com os pés... atravessemos este corredor... Bem! agora passemos por este lado do jardim... Espera; reprime um pouco a respiração e abafa os teus passos... Agora entremos nesta alameda... Aí! Olha por entre estes galhos... O que vês?
A própria embriaguez e a sombra das folhas não permitiram logo a Gabriel reconhecer a amante nos braços de Melo Rosa; mas, pela voz dos dois e pelo que diziam, certificou-se num relance de que era traído e precipitou-se com fúria sobre eles, exclamando como um louco:
— Infames! Infames!
Gaspar, porém, senhoreou-se vigorosamente do enteado, enquanto Ambrosina e o Melo corriam pelo jardim.
— Larga-me! bradava Gabriel, procurando escapar das mãos do padrasto; larga-me, ou enlouqueço!
— Não! daqui sairemos juntos. Nem voltarás lá dentro; nada tens que fazer nesse covil de miseráveis! Saiamos pelo portão do jardim, amanhã mesmo partiremos para o Rio de Janeiro!
— Deixa-me! deixa-me! insistia Gabriel.
Melo Rosa conseguiu ganhar a rua e fugir, justamente quando o amante iludido lograva escapar dos braços do amigo.
Esta cena levantou grande rumor, pondo em sobressalto os que estavam na casa. Mas na ocasião em que Gabriel se dispunha a perseguir o Melo Rosa, ouviu-se um bramido terrível e em seguida um grito de Ambrosina:
— O louco!
Com efeito, era Leonardo que surgia. Há dois dias fugira do hospital e vagava foragido pelas ruas do arrabalde, até que o acaso lhe fizera dar com a casa da mulher.
Genoveva tivera tempo de fechar a porta da sala, mas o doido, com um empurrão, metera-se dentro, produzindo formidável estrondo.
O amigo do Melo, que dormia num canapé, acordou sobressaltado e corria à toa pelos quartos. Alfredo, tiritando de susto, ganhou um canto da sala de jantar e escondeu-se. A sujeita do Rego, a suster as saias, gritava que a tirassem daquele inferno, e Genoveva, tratando de fugir, puxara do seio um rosário e rezava atrapalhadamente as orações que lhe vinham à boca.
Ambrosina, entretanto, ao reconhecer a figura terrível do marido, correra para o jardim, mas, dando aí com Gaspar e Gabriel, voltara estonteada, exclamando, a abraçar-se com a mãe:
— Salve-me! Salve-me! Todos eles me querem matar! Salve-me, por amor de Deus!
Leonardo havia parado no meio da casa, imóvel, tinha na mão o trinchante que apanhara da mesa.
A figura, o gesto, a voz, tudo nele era horrível. Cobria-lhe a cabeça e a cara uma porção emaranhada de cabelos secos e negros. O olhar luzia-lhe com cintilações vermelhas, e as suas narinas pareciam procurar a carniça pelo faro.
A casa converteu-se em um inferno de exclamações. De todos os lados gritos, pragas e ameaças.
Entretanto, o doido percebeu Ambrosina na sala de jantar, e soltou uma gargalhada.
— Até que afinal te encontro! berrou ele.
A mísera olhou em torno de si e reparou, trêmula, que a sala estava fechada e quase às escuras.
O doido correu para ela, empunhando a faca.
Ambrosina ia perder os sentidos, mas notou que a porta da dispensa, que dava para a sala de jantar, estava aberta, e a esperança de alcançá-la reanimou-a, porque seria fácil embastilhar-se lá dentro, deslocando uma prateleira volante que aí existia logo à entrada.
Leonardo avançava, brandindo a faca; entre ele e a mulher havia, porém, a mesa de jantar, e os dois começaram a correr em torno desta como fazem as crianças, quando brincam o "Tempo será".
Leonardo galgara a mesa aos saltos, lançando por terra cadeiras e garrafas. Aterrava vê-lo pular daquele modo, grunhindo como um torturado. Mas, se ele tinha a agilidade do tigre tinha a perseguida a destreza da camurça e, a um pulo de Leonardo, Ambrosina opunha uma pirueta, que a tirava do seu alcance.
Assim levaram algum tempo. Todavia, a desgraçada não podia resistir por muito mais: o suor corria-lhe de todo o corpo; as pernas vergavam-se-lhe de cansaço; a vertiginosa gravitação em torno da mesa fazia-lhe redemoinhar a cabeça num delírio apoplético. Sentia ânsias enormes, e ofegante, trêmula, miserável, toda ferida nos cacos de vidro espalhados pelo chão, ia lançar-se suplicante e vencida aos pés do doido, quando se abriu de repente uma das portas da sala, e Gaspar, junto com Gabriel, apareceram de relance.
— Olá! He! gritou o médico.
Leonardo voltou-se para eles, e Ambrosina teve ensejo de galgar a entrada da dispensa.
Já era tempo!
Os dois, vendo-a livre do perigo, tornaram a fechar logo a porta, com intenção de deixar o doido preso. Só então o Médico Misterioso reparou que os convidados haviam todos desaparecido, e, como para ele se tratava unicamente de fugir com o enteado, a este arrastou consigo pelo jardim e levou-o para o carro que o esperava ao portão da chácara.
Toca pra casa! disse ao cocheiro.
Gabriel, pelo caminho, protestava na impotência do seu estado:
— Mas, repara, Gaspar, que Ambrosina pode morrer na situação em que a deixamos... E um assassinato o que vamos cometer!...
— A dispensa não tem saída?
— Tem uma janela, mas a desgraçada talvez não chegue até lá!... Eu já não a amo e nenhum interesse tenho de possuí-1a mas é de meu dever não consentir que ela morra em minha casa!
— Jorge, apeia-te; dá-me o teu capote, o teu chapéu, e o teu chicote.
— É.
O cocheiro obedeceu, e Gaspar, aproximando mais a boca ao ouvido dele, acrescentou ainda algumas palavras.
— É só o que manda, patrão? perguntou Jorge depois de ouvir o que lhe segredara o médico.
— Sim, mas desejo que te saias desta vez tão bem como das outras...
— Podes ficar descansado.
— Estás armado?
— Sim senhor, e tenho a minha lanterna.
— Então, vai.
E o cocheiro tornou a pé pelo caminho feito.
Gaspar atirou o capote nos ombros, enterrou o chapéu na cabeça, empunhou o chicote e galgou a boléia.
O carro desapareceu na estrada.
Deixemo-lo seguir para a casa do Médico Misterioso, e voltemos à sala de jantar de Gabriel.
Ambrosina, mal ganhou a dispensa, atravancou precipitadamente a porta e deixou-se cair prostrada no chão. Só depois de vomitar duas ou três vezes, é que de novo se viu senhora completa dos seus movimentos e do seu espírito.
A primeira idéia que então lhe acudiu foi a de fugir para a rua; não tinha confiança naquele abrigo. Trepou logo pelas prateleiras, e ganhou a pequena janela, que dava sobre o jardim.
A noite estava silenciosa e um tanto úmida. Ambrosina só ouvia o rumor produzido pelo marido na sala de jantar.
— Com certeza ele não sairá de lá, enquanto houver ao seu alcance um objeto inteiro... pensou, montando-se no parapeito da janela; depois, dependurou-se deste pelas mãos e deixou-se escorregar para fora.
Caiu assentada na relva, e só então reparou no deplorável estado em que se achava.
E foi suja, rota, ensangüentada, sem chapéu, que atravessou a chácara.
Ao passar pela frente da casa, pareceu-lhe ouvir gritos pedindo socorro.
Querem ver que ainda há alguém lá dentro às voltas com o doido?... considerou ela.
— Ora, adeus! disse de si para si; quem quer que seja, que se arranje, como eu me arranjei!
E seguiu para a rua.
O bairro estava deserto. Ambrosina não tinha dinheiro consigo e nem mesmo sabia para onde ir. A casa de sua mãe era tão longe!... ficava no Engenho Novo, e ela achava-se ali em Laranjeiras!...
Além disso, sentia-se fatigadíssima; os pés ardiam-lhe, como se fossem calçados de sinapismos. E tão enxovalhada! Onde diabo iria ela abrigar-se! a quem se apresentaria naquele estado!
E coxeando, gemendo, a encostar-se pelas paredes, seguia tristemente para o lado da cidade.
Veremos depois o destino que teve a desgraçada.
Por enquanto, voltemos ainda uma vez à sala de jantar de Gabriel, porque, com efeito, alguém lá ficou abandonado em apuros.
Era o pobre do Alfredo; eram dele os gritos que pediam socorro.
Na terrível ocasião em que surgira Leonardo, o magro amante de Genoveva, aproveitando a exigüidade do seu corpo, conseguiu meter-se entre o guarda-louça e a parede, no canto de que falamos, certo de que ninguém daria com ele semelhante esconderijo.
Havia de ser, realmente, muito difícil em descobri-lo, aí; mas o louco, quando Ambrosina se encerrou na dispensa e Gaspar fechou de novo a porta da sala, foi surpreendido por certo ruído inominável que partia do canto do guarda-louça. Precipitou-se para lá e, aguçando os olhos, lobrigou ao fundo da toca a lívida figura de Alfredo, cujos queixos batiam como castanholas.
O louco soltou um rugido dos seus, acompanhado de uma feroz gargalhada de satisfação, e desistiu do intento de perseguir à mulher, para se atirar sobre a nova presa.
Alfredo não caiu por terra, fulminado de terror, só porque o guarda-louça e a parede o entalavam pelos ombros. Fechou os olhos e, cedendo a um rebate mais forte dos intestinos, resignou-se à morte, procurando conciliar uma idéia religiosa.
Médico Misterioso, ao chegar defronte de casa, apeou-se da boléia, abriu a porta, chamou o criado e recomendou-lhe que recolhesse o carro à cocheira.
Eram dez horas da noite, e o tempo, até aí de urna transparência admirável, começava a fazer-se cor de chumbo.
Gabriel, atirado nas almofadas do carro, dormia profundamente. O padrasto tomou-o nos ombros, e carregou com ele para o quarto.
O rapaz não dava acordo de si. Gaspar estendeu-o na cama, e ficou algum tempo a olhá-lo, com uma expressão de profunda tristeza. Depois, sacudiu a cabeça resignadamente, e deu-lhe um beijo na fronte.
— Pobre criança!... dizia consigo o médico; para que haverias tu de encontrar, logo na entrada do caminho, aquela mulher perversa e egoísta?... Antes fosses pobre e desprotegido!... estarias trabalhando para ganhar a vida, e o suor que te corresse do rosto não seria este suor úmido e orgíaco, que agora te enregela. Antes fosses bem pobre! Compreenderias talvez a necessidade de cultivar a tua inteligência, que esperdiças, como esperdiças o teu dinheiro... Amaldiçoada fortuna, que a ambos nos desgraçou!
E Gaspar, enxugando as lágrimas, principiou a mudar a roupa do enteado, com a solicitude de uma mãe extremosa. Descalçou-o, e procurou chamar-lhe o sangue a sola dos pés; arrumou-lhe na testa um lenço borrifado com algumas gotas de amoníaco, e, depois de agasalhá-lo bem, fechou a porta do quarto, passou ao escritório e assentou-se à sua mesa de trabalho com um livro defronte de si.
Gabriel, ao abrir os olhos no dia seguinte, o primeiro pensamento que formulou foi todo para Ambrosina. Os acontecimentos da véspera apareciam-lhe agora no espírito como reminiscências de fatos revistos através das camadas nebulosas do tempo.
Muitos lhe tinham fugido inteiramente da memória, de envolta com os vapores da embriaguez; outros permaneciam no momento de acordarmos. A sinistra figura de Leonardo desenhava-se de um modo fantástico; aquele espectro hirsuto e desvairado, lançando em torno de si olhares de fera e empunhando uma faca, parecia um produto de pesadelo. E Gabriel, com a imaginação, via Ambrosina crivada de feridas, a debater-se e a pedir socorro nas garras do louco, que a arrastava pelos cabelos e começava a devorar-lhe o corpo a dentadas, como havia tentado na horrível noite do casamento.
Gabriel, sacudido por essas idéias, sentia as fontes estalarem de febre.
Mas, entre todas as duvidosas reminiscências da véspera, se destacava um fato, gravado a fogo, era a cena do caramanchão. Esse não tinha sombras esfumadas, nem contornos duvidosos; estava ali, nu e cru, em toda a brutal nitidez da realidade.
Não havia para onde fugir! Era uma afronta verdadeira e positiva, que reclamava dos brios de Gabriel decisão pronta e enérgica.
Com que tristeza, com que dor, com que sacrifício d’alma, não teve o desgraçado de chegar a esta conclusão inevitável: — Abandonar por uma vez Ambrosina?!... empurrar com o pé tudo o que ele até aí mais amara, mais loucamente estremecera! fugir daquilo que lhe enchera os sonhos de esperanças, destruir o castelo das suas ilusões, amaldiçoar o seu ídolo e calcar o próprio coração debaixo dos pés, como quem esmaga um imundo verme! Mas assim era preciso! Era inevitável! O que poderia ele esperar daquela mulher, no caso que lhe faltasse coragem para repeli-la? Não lhe teria já porventura consagrado toda a sua existência? não havia feito, por amor de semelhante ingrata, todos os sacrifícios de sentimento e de caráter, que se podem exigir de um homem? E qual fora a paga de tudo isso? — Uma vileza, uma infâmia, a mais torpe das traições — a traição do amor!
Oh! Era indispensável fugir-lhe para sempre! nunca mais a ver! nunca mais a amar!
E, com esta resolução, todo o seu ser se abalava num calafrio de morte.
Mas que diabólica fascinação exerce sobre mim aquela mulher, considerava o mísero; para que eu, mesmo no auge de meu desespero e do meu ódio, sinta por ela todo o arrebatamento do amor e toda a humilhante agonia do desejo? Que sobrenatural poder me obriga a querê-la sempre, mesmo com a consciência dolorosa da sua infâmia e com a convicção degradante da minha covardia? Inferno! Conhecer o mal, sem ânimo para fugir dele!... mas não! Custe o que custar, doa o que doer, hei de esquecê-la! hei de desprezá-la!
Mas dentro, em revolta, lhe bradava o sangue:
— Atende! atende, desgraçado! não te lembras que, para deixares por uma vez Ambrosina, terás de abdicar de todos os deslumbramentos do seu amor? Deixá-la, quer dizer nunca mais sentir o doce contacto daqueles braços esculturais; deixá-la, é perder o gosto saboroso daqueles beijos quentes e vermelhos; é nunca mais adormecer ao calor daquela divina carne e ao aroma daquele cabelo negro! Queres deixá-la, miserável? deixa-a, mas engatilha ao mesmo tempo o teu revólver, porque não resistirás ao desespero de perdê-la! E, enquanto estiveres lá debaixo da terra, no pavoroso degredo do teu aniquilamento, ela, cá fora, feliz e radiante, será cortejada por uma aluvião desenfreada de apaixonados!
Gabriel estremeceu, sacudiu a cabeça, procurando enxotar os pensamentos, como quem enxota um bando de corvos, e saltou da cama.
Defronte dele ergueu-se o padrasto.
— Então?... disse este. Estás disposto a partir?
— Quando quiseres... respondeu Gabriel, abaixando os olhos.
— Iremos pelo primeiro paquete que sair para a Europa.
E Gaspar afastou-se, para tratar da viagem.
Entretanto, na véspera desse dia, enquanto aqueles dois fugiam pela noite a toda a disparada da casa de Ambrosina, esta, depois de alguns passos pela rua de Laranjeiras, encostara-se prostrada às grades de uma chácara.
Não sentia coragem para caminhar, tal era o seu estado. Tinha a cabeça oprimida por um estranho peso que a obrigava a fechar de vez em quando os olhos. As pernas negavam-se a sustentá-la e os seus pés sangravam; todo o corpo lhe pedia repouso, mas não se animava ela a sentar-se no batente de alguma porta, receosa de ceder ao cansaço e adormecer na rua. Olhava então aflitivamente para a estrada, e a desesperança de qualquer recurso, que tirasse daquela situação, arrancava-lhe lágrimas de desespero.
Quando passava alguém, a infeliz escondia o rosto, envergonhada.