Não pôde dormir o pouco que lhe restava da madrugada, e, mal surgiam no horizonte os primeiros raios do dia, já o Borges estava de pé.
- Cecília! gritou ele, vendo passar a criada por defronte da porta do seu quarto. Espere aí, que tenho o que lhe dizer.
A criada fez um gesto de surpresa, vendo o marido de sua ama tão sobressaltado.
- Você é uma boa rapariga! principiou ele. É fiel, bem procedida e diligente!...
Cecília olhou-o espantada.
- Eu sempre tive boas intenções a seu respeito, continuou o Borges. Minha mulher está satisfeitíssima com o seu serviço!
- São bondades... balbuciou a rapariga, abaixando os olhos.
- Não! A verdade diz-se!... Sou-lhe grato, sou! Para que negar?... e fique sabendo que hei de ajudá-la no seu casamento!...
A fisionomia da criada iluminou-se, e, sem dizer palavra, ela pôs-se a torcer e destorcer o seu avental de algodão.
- Sei das suas intenções com o Roberto, e estimo que se casem. Pode contar com o enxoval!
Cecília quis beijar-lhe a mão.
- Não tem que agradecer. Olhe! guarde isto para comprar um vestido novo.
E o Borges meteu-lhe nos dedos uma nota de vinte mil réis.
- Oh! meu rico amo! exclamou ela com os olhos úmidos de comoção - como vocemecê é bom! Eu e mais o Roberto havemos de lhe agradecer por toda a vida!
- Bem, bem! disse o Borges, mas preciso que você me preste um serviço, um pequeno serviço...
Cecília adiantou-se mais, cheia de solicitude.
- É quase nada!
E abaixando a voz depois de olhar cautelosamente para os lados:
- Desejo penetrar hoje no quarto de minha mulher.
A criada recuou estupefata. Agora o seu rico amo lhe parecia simplesmente doido. Que diabo queria dizer aquilo?!...
O Borges compreendeu o espanto da rapariga e disfarçou:
- Sim; sim! Não era uma simples questão de lá ir!... Isso seria o menos. Puf!
- Então? animou-se a perguntar Cecília.
Mas é que eu queria entrar sem que minha mulher contasse comigo, percebe?...
A criada fez-se vermelha.
- Vosmecê então desconfia de minha ama?! Que aleive, meu Deus! Uma injustiça assim! Desconfiar de uma senhora que é mesmo um anjo! Uma senhora que...
- Não! não é isso, filha! Quem lhe falou aqui em desconfiança?! Ninguém desconfia de sua ama. Está a tomar o pião à unha! - ninguém conhece melhor minha mulher do que eu!
- Ah! respirou a criada, credo! até me deu uma coisa na boca do estômago!
- Está claro que sua ama, nesse sentido, é o beijinho das esposas! Não tenho que me queixar, graças a Deus! Mas eu queria lá ir, sem que ela me esperasse; percebe? É uma fantasia como outra qualquer!... Vocemecê nem tem que se comprometer com isso... Ela, no fim de contas, é minha mulher, que diabo!
- Meu amo quer que eu lhe arranje a chave do quarto?...
- Qual! Isso não adianta nada! Ela tem um ferrolho, fechadinho por dentro.
- É exato, é! disse a criada, lembrando-se de já ter visto o tal ferrolho.
- Pois aí é que bate o ponto! Trata-se de arranjar os modos de abri-lo por dentro, sem que ela o saiba, compreende?
A criada ficou a pensar. Mas para que exigia o amo semelhante coisa?... A senhora podia ficar massada e voltar-se contra ela!...
- Não tenha receio! disse o Borges. Eu respondo por tudo! Valha-me Deus! não é nenhum crime querer um homem entrar no quarto da sua mulher!...
- Vocemecê então promete?...
- Que a não deixo ficar mal? Ora! nem tem que saber!...
- Não e isso... digo: ajudar-me no meu...
- No seu casamento?... Pode ir descansada, contanto que arranje o que lhe disse.
Ficou assentado que Cecília nessa noite se esconderia no quarto da senhora, e, quando esta já estivesse dormindo, abriria cautelosamente o tal ferrolho, que ela, por cautela, untaria previamente com azeite. E se a criada guardasse bem o segredo de tudo isso, nem só teria o seu enxoval prometido, como ainda havia de chimpar um par de brincos à moda.
- Mas veja lá agora se vai dar com a língua nos dentes!...
Foram as últimas palavras de Borges.
A criada saiu dali para ir ter com o Roberto.
- Esta noite não te posso aparecer senão mais tarde, disse-lhe ao vê-lo. Tenho que ficar no quarto da senhora.
- Há alguma novidade?
- Não! É cá uma coisa. É cá um negócio com o patrão! - E ria-se. - Eu não te posso dizer mais nada!...
- Olé! Então, é coisa de segredo?...
- Estou a dizer que é, homem!
- Segredo! Você tem segredos com o patrão?!
- Mau, que me tomas o pássaro no ar! Eu nada tenho com o patrão! Tenho é de ficar no quarto da senhora!
Roberto mordeu a ponta do bigode:
- Tu premeditas alguma, raio de uma peste! Já! dessem bucha p'r'aí, se não queres que eu te faça falar por outro modo!
- Mas é, que eu não te posso dizer nada! Só o que te afianço, é que as coisas vão mudar de figura! Não tens mais razão de demorar o nosso casamento; o amo cai com o enxoval e ainda com uma ajuda de custas! Hem? que te parece?
- Parece que tudo isso me cheira a patifaria! Donde saiu agora essa bondade do patrão?!
E vendo que a criada não respondia:
- Não tencionas desembuchar, criatura?!
- É que se dou com a língua nos dentes, vai tudo por água a baixo!
- Ora, deixa-te de tolices e conta lá o que houve! Bem sabes que entre nós não há segredos!
- E antes houvesse! Mal fiz eu em permitir umas certas coisas antes do casamento!... Se não fosse isso, você com certeza não me trataria desse modo, e já teria me levado à Igreja!
O Roberto sacudiu os ombros.
- É! fez Cecília, muito queixosa. Até aqui toda a dificuldade era o enxoval; venho dizer-lhe que o patrão se encarrega disso, e você, em lugar de despachar-se por uma vez, ainda me dá muxoxos e põe-se a desconfiar de mim! Tola fui eu em ir atrás de cantigas! Diabo do traste!
- Deixa-te tu de cantigas e vamos ao que interessa!... Despeja p'r'aí o que houve!
- Não despejo nada! Você não me merece coisa alguma, é um velhaco; enquanto eu me fiz tesa, não lhe faltaram maneiras; agora é isto que se vê!...
E começou a chorar:
- É preciso não possuir um bocado de consciência para enganar desta forma uma pobre rapariga, que nunca teve pecha que lhe botassem.
- Guarda as lamúrias para outra ocasião, filha!
- Pois se é como eu digo!... Ingrato! Se eu não o quisesse tanto, não estava agora aqui me arreliando!
- Deixa-te de asneiras... fez o criado, passando-lhe por condescendência a mão na cabeça. Não te podes queixar - eu também gosto de ti!
- Sim, sim: mas o casamento não ata nem desata! dizia ela, soluçando.
- Ora! E que teríamos lucrado nós em nos termos já casado?...
- Que teríamos lucrado! Olha o disparate! Você talvez não lucrasse nada, mas eu?! Penso nisso todos os dias! Até estou mais magra! Lembrar-me só de que você é muito capaz de deixar-me neste estado... dá-me venetas de acabar com a vida!
- Não digas asneiras, toleirona! O que tem de ser teu, às mãos te chegará!
E depois de beijá-la, sem carinho:
- Mas vamos lá. Conta o que houve entre vocês, tu e o basbaque do patrão!...
- Prometes guardar segredo?... perguntou Cecília, fazendo por esticar as carícias do noivo!
- Ora!
- Então, lá vai! O patrão quer entrar, sem ser esperado, no quarto da patroa!
- Com que fim?!
- Sei cá! Diz ele que é uma fantasia como outra qualquer!...
- Mas daí?... Que diabo tens tu a ver com isso?...
- Pois aí é que bate o ponto. A patroa fecha-se por dentro; eu fico escondida no quarto para abrir a porta ao marido! Creio que aquilo é arrufo entre os dois!
Roberto coçou a parte inferior do queixo:
- Hun-hun! resmungando. Não sei, não sei! Queira Deus que essa história não te de na cabeça!... Olha que não se encontram duas casas como esta!... Isto aqui, filha, vale mais que o céu!...
- Ora o que! fez a criada. - Não é crime introduzir um marido no quarto de sua mulher!... Aquilo foi arrufo com certeza; ela não quer dar o braço a torcer; mas eu que a conheço, sei que não lhe vou cair em desagrado; ao contrário - verás como me agradece!
- Isso é lá entre vocês, mulheres, que se entendem! Em todo o caso, é bom pensares antes no que vai fazer!
- Deixa correr o barco por minha conta!
* * *
Entretanto, o Borges, à proporção que a noite se aproximava, sentia o coração pulsar-lhe com mais força. Ah! desta vez, sem dúvida, iam acabar os seus tormentos. Aquele novo plano não poderia falhar!
Namorado algum, dos mais ardentes, palpitou com tanta febre no antegozo de uma aventura. Nunca uma alma apaixonada ansiou tanto pela entrevista de seu ideal; nunca os segundos foram contados com tanta impaciência; nunca o momento supremo da ventura foi atraído com tanta sofreguidão.
Borges, assim que viu a casa completamente recolhida, tratou de tirar as botas e subiu pé ante pé ao segundo andar.
Não se pode conceber o sobressalto em que ia o pobre homem; tremiam-lhe as pernas; a cabeça andava-lhe à roda; o sangue afluía ao coração, que parecia querer saltar-lhe pela boca.
- Filomena já devia ter pegado no sono, ou pelo menos estar adormecendo.
Esperou mais um instante. Nada, porém, de aparecer a criada!
Decorreu mais algum tempo - um quarto de hora, uma hora talvez; ele não o podia determinar: sua impaciência fazia parecer uma noite inteira, uma eternidade.
- Oh! Como o torturava aquela tardança!
E Cecília nada de aparecer; Borges principiava a desesperar. Haveria alguma novidade... Ela teria ido contar tudo à senhora? pensou o namorado, rangendo os dentes e fechando os punhos!
- Se me traíste, miserável, verás o que te sucede! Verás o que te sucede!
Mas um rumor quase imperceptível veio nesse instante do lado do quarto de Filomena; a porta abriu-se muito de mansinho, e a criada saiu cautelosamente, às apalpadelas, como se não quisesse tocar com os pés no chão.
- Está dormindo?... perguntou-lhe o Borges em segredo, indo ter com ela.
- Está respondeu Cecília no mesmo tom. Pode entrar. Mas veja se me vai comprometer...
- Descansa. Aí tens para os teus alfinetes...
Deu-lhe mais dinheiro.
A rapariga afastou-se, pensando no pobre noivo, o Roberto, que àquelas horas já devia estar farto de esperá-la; e o Borges, cheio de mil cautelas, penetrou no quarto perfumado e virginal de sua esposa.
Uma dúvida claridade de lamparina aquarelava meias sombras vagas e transparentes em torno do leito, onde Filomena se aninhava entre nuvens de linho branco. Ouvia-se um respirar tranqüilo e cadenciado, que vinha da cama.
Quando o marido sentou o primeiro pé no tapete da alcova, a mulher estremeceu, encolhendo-se toda com um suspiro.
Borges retraiu-se maquinalmente, e procurou esconder-se atrás do reposteiro da porta; mas o arfar ansiado de seu peito denunciou-o.
Filomena virou-se em um novo arrepio, e, depois de algum silêncio, perguntou com a voz alterada:
- Quem está ai?...
Borges não tugiu nem mugiu.
- Quem está aí? Não ouve?! tornou ela, erguendo a cabeça e fitando a porta.
O marido viu-a levantar a meio, desembaraçar um braço dos lençóis e procurar tateando alguma coisa na gavetinha do velador; ele, porém, não respondeu, e apenas se traiu por um estalo seco das juntas do joelho.
- Quem está aí, fale, com os diabos, se não quer receber uma bala nos miolos!
E engatilhou um revólver, fazendo pontaria ao reposteiro.
- Sou eu! disse o Borges, correndo para ela. - Não dispares! É teu marido!
Filomena, ao senti-lo perto da cama, repeliu a arma e, embrulhando-se no lençol, saltou pelo lado contrário, prestes a fugir.
- Não sairás! gritou o esposo, cortando-lhe a passagem.
- É então uma violência?! perguntou a mulher.
- Seja o que for, mas não me escaparás desta vez!
- Socorro! gritou ela. Socor...
Não pôde continuar, porque o marido tomara-a nos braços e abafava-lhe com os beijos a voz.
Filomena debatia-se violentamente; afinal, soltou um grito desesperado, e caiu sem sentidos.
- Ora, mais esta!... resmungou o Borges, depondo a mulher sobre um divã. Filomena! Filomena! Então?! Que é isso?!
Ela não respondia.
- Ora senhores! - Ó Filoquinha! Anda! Volta a ti!
Filoquinha estrebuchava. Borges correu à procura de sais. Acudiram os criados. Cecília, aflita, andava de um para outro lado, sem saber que fizesse, a olhar espavorida para o amo, como quem olha para um bandido.
No entanto, o pobre esposo não saía de ao pé da mulher. Só no fim de meia hora, esta voltou a si, olhando estranhamente para os lados e a passar a mão repetidas vezes pela fronte.
- Ah! exclamou, dando com o marido. E escondeu o rosto, gritando entre soluços - que estava perdida, desonrada, chamando-se infeliz, pedindo a morte.
- Mas, meu amor, dizia-lhe o marido. Lembra-te de que sou teu esposo! Lembra-te de que não estou cometendo um crime!
- Deixa-me! Deixa-me! respondia Filomena desorientada, em soluços. - Fuja! Retire-se! Já! Não quero que o vejam aqui! Vá! Vá-se embora! Siga esta mesma noite para longe! Saia do Rio de Janeiro! do Brasil! da América! Saia, se não quer que eu lhe de cabo da vida! Infame! Sedutor!
E chorava, desesperada, como se lhe tivesse sucedido uma grande desgraça O marido dizia-lhe palavras de ternura, animando-a; ela, porém, não se queria conformar com a situação, e soluçava cada vez mais fortemente.
O Borges, afinal, também se pôs a chorar. O dia veio encontrá-los numa orgia de lágrimas.
- Aí tem a minha bela vida de casado!... dizia ele entre dentes, na ocasião de abandonar a alcova de sua mulher. Esta, ainda em cima, o queria ver pelas costas!... Que vida a sua! Que vida, santo Deus!
Retirou-se para o seu quarto, desesperado, e atirou-se à cama, sem se despir, soluçando, escondendo o rosto entre os travesseiros.
Ia a pegar no sono, quando foi surpreendido por alguém, que chorava e gritava desesperadamente ao seu lado.
* * *
Era Cecília, que acabava de entrar no quarto, dizendo a berros que o Borges havia causado a sua desgraça; que a senhora pusera-a no olho da rua e que ela, pobre de si! desse momento em diante não tinha onde cair morta! Que o patrão fora a causa única de tudo aquilo! Que, infeliz que era! ia separar-se do Roberto, do homem destinado a ser seu marido e a quem dera por conta o seu coração e a sua ternura! E que agora...
Uma explosão de soluços sufocou-a.
- Sou muito desgraçada! berrava. - Sou muito desgraçada!
Ora, não me amoles tu também! gritou o Borges, erguendo-se da cama.
- Mas é que a senhora me despediu!
- Pois que a despedisse. Vão todos para o diabo! Eu também estou despedido e não me queixo! Arre!
- Mas a questão é que, se eu me for embora, o Roberto será muito capaz de...
- Pois o Roberto que se vá também! Está despedido! Sou eu que o ponho na rua!
Roberto, que escutava tudo isso atrás da porta, entrou por sua vez no quarto e correu ao patrão, implorando-lhe piedade. - Que seria uma revoltante injustiça pô-lo na rua! Ele! que cumpria tão bem com os seus deveres! Ele! que, por amor dos amos, era capaz de ir às profundas do inferno! - Oh! Uma coisa assim até bradava aos céus!
E cada um dos criados agarrou-se a um dos braços do Borges, e principiaram ambos a choramingar, implorando-lhe compaixão por tudo que ele mais amasse nesta vida.
- Olhem que vocês me estão fazendo um berreiro nos ouvidos! bradou o amo, querendo arrancar-se daquela posição.
- Arre! Pois tenho também de aturar este par de galhetas?! Vão para o diabo! Deixem-me! Deixem-me! Súcia de doidos!
E o Borges de um salto agarrou o chapéu, enterrou-o na cabeça, e ganhou em três pernadas a porta da rua.
- Safa! Safa! dizia ele a marche marche pela calçada. - Que inferno! Isto lá é vida!
E assim andou até às dez horas pela cidade; tonto, sem destino. furioso, a abalroar com todo o mundo, a dar encontrões nas quitandeiras, e meter os pés no que encontrava, a praguejar, a promover barulhos.
Num restaurante, onde entrou para almoçar, à primeira réplica do servente, atirou-lhe com o sifão e fez voar a mesa diante de si com um soco. Um sujeito, que a recebeu pelas pernas, desafrontou-se, arremetendo contra o Borges o prato que tinha mais à mão.
Levantou-se grande desordem, e a coisa teria acabado na polícia, se o marido de Filomena, depois de lançar uma nota de cem mil réis ao dono do hotel, não distribuísse vários ponta-pés para os lados e não ganhasse a rua, levando na sua frente todos os obstáculos que se lhe antepunham.
Chegou à casa ao meio-dia, esbaforido, aniquilado, sem querer a presença de ninguém, disposto a fechar-se no quarto e deixar que aquela maldita vida girasse em torno dele, como bem entendesse.
Mas o aspecto revolucionado de seu "lar doméstico" o surpreendeu logo à entrada. Tudo estava em reviravolta. Cecília e Roberto arrastavam malas, despejavam a roupa dos gavetões da cômoda, empacotavam objetos de uso, acumulavam trouxas.
- Que é isto? perguntou o Borges.
- A senhora deu-nos ordem de preparar o necessário para uma viagem...
- Viagem de quem?!
- Nossa não é, com certeza, porque nós já estamos despedidos
- Quem vai viajar?! Desembuchem, com os diabos!
- A senhora, naturalmente; pelo menos esta roupa é dela.
Borges subiu ao segundo andar; encontrou a mulher muito tranqüila, sentada no divã, a ler.
- A senhora tenha a bondade de explicar que desordem é aquela lá em baixo? Que significam aquelas malas, aqueles preparativos de viagem?!
- O que vê. Trata-se justamente de uma viagem.
- Viagem de quem?
- Minha. Vou, uma vez que o senhor não quis ir. Juntos é que não ficaremos por coisa alguma! Não me quero arriscar a uma segunda agressão! Não posso ficar numa casa, onde não tenho a menor garantia, onde nem o meu quarto de dormir é respeitado!
- Mas a senhora esquece-se de que é minha esposa? A senhora não vê logo que eu não a deixo sair assim, sem mais nem menos?...
Filomena ergueu-se em silêncio, sacudiu os ombros e retirou-se da sala.
O Borges acompanhou-a.
- Filomena! disse ele.
- Que é?
- A senhora não tencionará acabar com essas coisas por uma vez?...
- Que coisas?
- Esses caprichos! Então está sempre resolvida a fazer a viagem?
- Estou.
- Pois nesse caso irei também! Acompanhá-la-ei ainda que seja para o inferno. Roberto! ó Roberto do diabo! Corre! arranja-me uma mala!
- Bem! Nesse caso não irei, disse Filomena, fechando o livro, que tinha entre as mãos.
- É então um propósito firme de contrariar-me em tudo?! perguntou o marido, trêmulo de raiva.
- O senhor é que está nesse propósito! Parece que anda inventando meios e modos de mortificar-me! É bastante que eu mostre gosto em qualquer coisa para o senhor fazer logo justamente o contrário! Isso prova que o senhor não me ama! Que o senhor não deseja ter uma esposa; deseja éter uma mulher às suas ordens! Animal! Bruto! Estúpido!
E, possuída de um violento sobressalto de nervos, atirou-se de bruços no divã a soluçar, a morder-se.
Borges correu para junto dela; tomou-a nos braços, fê-la encostar a cabeça no seu colo, e, com muita ternura, os olhos úmidos, começou a acarinhá-la, a dizer-lhe todas as meiguices que lhe inspirava o amor.
- Oh! Mas para que havia de se mortificar daquela forma?... Para que se maltratar assim? para que nodoar com os dentes aquelas mãozinhas tão formosas?... O fato da véspera não justificava semelhante desespero! Se algum dos dois devia estar ressentido, era ele de certo, porque...
- Não! Não! Tu procedeste como um selvagem!,.. Tu foste violento! Tu foste brutal!
- Porque te adoro, minha vida!
- E juras que me amas?! Juras que não conheces outro ideal, outra preocupação, que não seja eu?! Juras que serás capaz de todos os sacrifícios por minha causa?!
- Ainda o duvidas?!
- Bem! Iremos juntos nesse caso; faremos os dois a viagem!...
- Sim, mas não é bonito, nem há razão para sairmos tão precipitadamente!
- Mau! Já principias tu com as objeções do costume!... Dessa forma não teremos nada feito!
- Mas, vem cá, minha santa, é que não há a menor necessidade de irmos como dois criminosos, que fogem à justiça! Para que havemos de nos sujeitar a umas certas coisas, quando, graças a Deus, não nos faltam recursos para termos todas as comodidades?...
- Oh! Eu mesmo faço muito caso das comodidades!...
- Sim, mas hás de confessar que...
- Ah! meu amigo! se tens medo de sair de teus hábitos, o melhor é desistirmos da viagem! Quem quer estar a gosto fica em casa!...
- Não é isso! não é isso! Já não está quem falou! Oh! Tu também te espinhas por qualquer coisa!...
- Pois então, nem mais uma palavra sobre o assunto, e, no primeiro vapor que sair para a Europa...
- Estamos de partida!
- Ora muito bem!
Não obstante, o Borges ainda não se podia considerar feliz. A mulher, depois da cena da alcova, tornou-se mais esquiva; enquanto que a paixão dele, como se recebesse um novo impulso, recrudescia de um modo fantástico. Mas continuava a ser o seu amante platônico, o seu namorado, disputando um sorriso, um olhar de ternura, à custa de enormes sacrifícios.
Durante os dias que precederam à viagem, o mísero não fez outra coisa além de procurar meios engenhosos de seduzir a esposa. Certo de que a violência não produzia bons resultados, tentou captá-la com presentes de grande valor; punha, a todo momento, à disposição dela, jóias caríssimas, cortes de seda do que havia de melhor. Depois, desiludido também por esse lado, lançou mão de outros recursos - tentou fasciná-la com a grandeza, falou-lhe em belas posições sociais, falou no seu título, que não devia demorar muito; mas, ainda assim, nada conseguiu: o maldito ferrolho estava, inabalável e frio, como uma lei da natureza.
Ele, porém, em vez de sucumbir, redobrava de coragem. Procurou afinar os seus gostos pelos dela; fazia-se triste, propenso às melancolias e aos êxtases; apertava muito a roupa ao corpo para figurar mais magro: fingia-se poeta - roubava os versos dos almanaques, torcendo-lhes os nomes e às vezes o sentido, versos que ele copiava pacientemente durante a madrugada e que deixava, como esquecidos, no seu escritório, sobre a pasta, molhados de pingos d'água, que representavam lágrimas arrancadas do coração. Outras vezes. quando a via de bom humor, fazia-se muito estouvado, cheio de rapaziadas, risonho, com fumaças de estroinice fidalga.
- Creio que agora se decide o negócio!... pensava ele esfregando as mãos - desta vez parece que vai.
Efetivamente, se tudo isso não conseguia logo a abolição do tal ferrolho, não deixava, entretanto, de modificar as reservas de Filomena e de faze-la mais dócil e mais chegada ao esposo. Mostrava-se agora muito agradecida às finezas que dele recebia; mostrava-se amável e prometedora; ao jantar, tocavam os pés por debaixo da mesa; tinham apertos de mão ligeiros e assustados, beijinhos furtados e longos idílios ao luar, nos bancos do jardim ou debruçados no balcão da mesma janela.
- A bordo é que eu te quero pilhar!... dizia o Borges de si para si, mentalizando planos de ataque. - A bordo é que serão elas!
E tratou de realizar a viagem. A casa ficaria entregue aos criados.
Dias depois embarcavam num paquete francês, que seguia para Lisboa.
- Ora até que afinal!... considerou ele, quando viu a mulher já instalada no beliche. - Ora até que afinal estou livre do maldito...
E, de fato, pelo seu ar condescendente, por sua linguagem doce e pelas maneiras de tratar agora o esposo, Filomena parecia muito pouco disposta a morrer de saudades pelo ferrolho.
* * *
Mal, porém, começou a caminhar o paquete, que um terrível enjôo apoderou-se do pobre marido apaixonado e o prostrou no fundo de seu beliche, inútil e arquejante.
Filomena não lhe perdoou semelhante coisa. Enjoar!... enjoar em sua companhia! Oh! o Borges acabava de perder todo o prestígio que ultimamente havia conquistado!
- Mas não é culpa minha! lembrou ele, sem ânimo para erguer a cabeça.
- Reagisse! Tivesse mais domínio sobre si! Os espíritos fortes governam a matéria! Enjoar! Oh! Shocking!
E só acalmou um pouco a sua indignação, lembrando-se de que D. Juan, de Byron, enjoara também na primeira viagem que empreendeu. Todavia, em Lisboa, foram ocupar aposentos separados no Hotel de Bragança.
Apenas se demorariam o tempo necessário para tratar do título e seguiriam logo caminho de Espanha, porque Filomena declarou que aquela cidade lhe fazia mal aos nervos.
Todo o seu ideal era a Itália; sonhava-a através das descrições que lhe depararam centenas de romances. Queria Nápoles, com o clássico Vesúvio em plena erupção, o seu golfo lendário, o seu famoso céu azul, estrelado de pombos.
Exigia Veneza. Veneza com todos os seus acessórios pitorescos - as suas serenatas em gôndola, o seu palácio dos Doges, os seus romances debaixo de velhas e melancólicas abóbadas, consagradas pelos séculos. Reclamava excursões ao Lido, às ilhas decantadas da Laguna, a S. Lázaro dos Armênios, a Murano, a Torcelo. Queria saturar-se bem da "filha gentil do Adriático", mergulhar nas sombras azuis de seus canais, onde rebrilham de espaço a espaço as competentes lanternas dos gondoleiros; não morreria sem passar algumas horas de concentração mística e deliciosa sob a melancólica ponte dos Suspiros. - Oh! a ponte dos Suspiros!
Depois, Gênova, "cidade de mármore!", com a sua acumulação de palácios célebres, seus jardins silenciosos, suas colinas fortificadas! - Oh! a Itália, a Itália era então toda a sua ambição, todo o seu viver!
E deixaram-se os dois seguir o itinerário comum das viagens à Europa. Atravessaram a Espanha, a ruidosa França, percorreram a Suíça, "a livre Helvécia", como poeticamente a classificou Filomena, e, afinal, depois de uma semana de Mônaco, onde ela teve a fantasia de ver o marido perder dinheiro ao jogo, acharam-se em caminho de Nice, da qual, mediante nove horas de mar, passaram-se a Gênova.
Chegaram às oito da manhã, quando um sol esplêndido punha em relevo as magnificências da cidade de mármore. Filomena, porém, estava sequiosa de Nápoles e, como seu vaporzinho seguia para aí, mal deu um passeio em terra, tornou a embarcar com o esposo.
- Oh! Nápoles! Nápoles, dizia ela, entusiasmada, ao chegar à famosa cidade. Como desejava eu viver e morrer sob o teu sol dourado, passando os dias e as noites a contemplar o teu céu azul, o teu golfo da cor do teu céu!... E ter perto de mim, ao alcance de meus olhos, Capri, Ischia e o Vesúvio, e essa extensa costa, que vai de Portici a Castellamare e aos belos penhascos de Sorrento! Ó Nápoles!
O Borges escutava essas e outras declamações com um profundo silencio de respeito. - Sim senhor! Não fazia a mulher tão entendida em geografia!... pensava ele, ensoberbecendo-se.
Não obstante, a romântica senhora sofreu uma triste decepção ao saltar na desejada cidade. Não era o seu Nápoles que tinha defronte dos olhos; não o reconhecia; faltava-lhe fosse o que fosse - um certo pitoresco, um certo encanto, que ela, por mais que procurasse, não encontrava ali.
- Não! decididamente não era aquele o Nápoles de seus sonhos! O que ela via defronte de si era uma população agitada e desordeira, que a acotovelava grosseiramente, obrigando-a a segurar-se ao braço do marido, o qual, por mais de uma vez, esteve a cair com os encontrões que recebia de todos os lados.
- Safa! gritou o Borges, tonto. - Assim nem a praia do Peixe!
Sobre o cais e nas longas ruas agitadas, que vão a Chiaja, a Santa Luzia, à rua de Toledo, ao Forte de Sant’Elmo - o mesmo formigar, o mesmo borborinho impertinente e grosseiro.
E que confusão de pescadores, camponeses, frades, mercadores, garotos nus e lazarones de todos os feitios e de todas as cores.
- Isto parece uma cidade de doidos! observou Filomena ao marido - isto nunca foi Nápoles.
E aquela multidão irrequieta parecia justamente um bando enorme de doidos, que iam e vinham em vertigens, empurrando-se uns aos outros, metendo-se pelas pernas dos estrangeiros, invadindo-lhes a bolsa e as algibeiras com olhares de ganância, e, às vezes, com os dedos. Vendedores d'água, de frutas e de peixe, passavam a gritar como perdidos; burros carregados de legumes seguiam a trote, chocalhando guizos barulhentos; transeuntes de todos os matizes sociais, conversavam e gesticulavam agitadamente. E carruagens a galope cortavam as ruas, em várias direções, num estardalhaço febril de matracas, ferragens e campainhas. E tudo, até as casas, as árvores e as pedras da rua, pareciam gritar, mover-se, espolinhar-se num frenesi estrepitoso, sem tréguas.
Filomena declarou que estava roubada!
- Qual! Pois aquilo era lá um Nápoles! Impossível! Bem longe estava de ser o Nápoles que ela queria - o seu rico Nápoles! - Aquele era um Nápoles de segunda mão! Um Nápoles pulha! Antes não tivesse lá ido! Mil vezes antes!
Que lhe mostrassem as belas cenas napolitanas, que ela vira em pequena nas litografias coloridas! Que lhe apontassem os bem conhecidos e muito pitorescos pescadores napolitanos, com as suas Calezoni, a perna nua, a faixa e o gorro vermelho, e o amuleto ao pescoço.
A excursão ao Vesúvio, como um passeio que fez à Torre d'el Greco, impressionou-a mediocremente. No Vesúvio não viu erupção de espécie alguma; não percebeu vestígios de salteadores. - A Calábria desacreditou-se para ela. Nada encontrou de tudo aquilo que reclamava a sua terrível sede de comoções
- Experimenta a tal Pompéia! aconselhou o marido, incomodado por vê-la contrariada. Pode ser que te dês bem... E lembrou também Herculanum, de cujo nome não se recordava.
- Qual Pompéia, nem qual histórias! respondeu a mulher furiosa contra os seus poetas e romancistas. Canalhas! Súcia de empulhadores!
E, muito indignada, abandonou Nápoles, para tomar a direção de Veneza, à qual sua imaginação insistia em agarrar-se como a um recurso extremo.
Mas a bela filha do Adriático, a pátria do amor e do arrepio, a sede da comoção e da poesia, a cidade dos palácios de abóbadas mouriscas a terra, enfim, das patrícias apaixonadas, também não correspondeu à expectativa de Filomena.
Lá estava a ponte triangular do Rialto; o cais dos Escravos; as cúpulas de S. Marcos; os indispensáveis pombos; as ramalheteiras, que vendem flores aos estrangeiros; os oficiosos cicerones; os gondoleiros, encapotados como monges, que passeiam tristemente por baixo das pontes; lá estava tudo isso de que constavam as notas de Filomena, mas, valha-me Deus! - nada a satisfazia, nada a saciava, nada correspondia ao que ela julgara encontrar, nada realizava o que anteviera nos seus sonhos cheios de impaciência e de sobressalto.
Passearam em carruagem de Burgano a Leco, sobre as margens do lago de Como; foram depois a Menaggio, na margem oposta, e daí partiram resolutamente para a calma Suíça, fartos de Itália, cujos nomes de grandes e pequenas cidades, aqueles mesmos que dantes arrebatavam Filomena e lhe punham no espírito uma nostalgia doce e melancólica, já nem ao menos tinham para ela a mesma sonoridade de então. Livurnia, Cività-Vechia, Chija, Bellinzona, Ischia, Gaeta, nada, nada possuía já o primitivo encanto!
E um grande vácuo abriu-se nas suas aspirações; um de seus sonhos acabava de esfacelar-se como uma nuvem dissolvida pelo vento. E Filomena, desde que se convenceu de que, se quisesse a comoção e a aventura, tinha de prepará-las por suas próprias mãos, caiu num estado sombrio de atonia e desânimo.
O Borges, sobressaltado com essas tristezas, procurava cercá-la de mil cuidados, fazia-se meigo, muito seu camarada, seu amigo, adivinhando-lhe as vontades, correndo ao encontro de seus caprichos.
- Que tens tu, meu anjo, minha vida? Fala! Conta-me tudo.
Ela, em vez de responder, atirava-se-lhe nos braços e escondia entre soluços o rosto no peito dele.
Mas, uma noite, achavam-se então em Sevilha - sultana do Guadalquivir - como lhe chamava Filomena, sempre fecunda nas suas paráfrases poéticas; Borges, familiarizado já com os gostos românticos da mulher, resolveu pôr de parte uns certos escrúpulos e assaltar-lhe o quarto pela janela.
- Era impossível que Filomena resistisse ao encanto de uma violência tão pitoresca!...
Moravam em Triana, num modesto e confortável hotelzinho. A caprichosa, segundo o louvável costume, exigira que o marido alugasse dois quartos bem separados, e não teve grande empenho em declarar-se casada; ao Borges, por outro lado, também não convinha dizer a verdade, receioso de que esta o tornasse ridículo aos olhos de todos, como havia já sucedido em várias partes.
O terno marido, depois de bem estudar o seu plano de ataque, tratou de realizá-lo. Vestiu-se como os do povo, arranjou uma escada e, logo que só ouviu em todo o quarteirão a voz longínqua dos serenos, meteu mãos à obra.
E, com certeza, teria obtido o melhor êxito, se alguém, que o vira tentando penetrar de um modo tão suspeito no hotel, não fosse denunciar o fato aos tais serenos, que sem demora acudiram armados de suas lanternas e de seus chusos.
Houve escândalo; reuniu gente, e o Borges escapou de ser catrafilado, graças à lógica de sua algibeira, que conseguiu provar ao honesto estalajadeiro a conveniência de arranjar-lhe em menos de dois minutos um esconderijo no próprio hotel.
Por esse tempo, Filomena, tendo chamado em vão pelo marido, e talvez até desconfiando ser ele o autor do malogrado assalto, exigia do oficial de ronda (estavam em épocas revolucionárias) que lhe deparasse um lugar decente, onde uma estrangeira honesta ficasse ao abrigo do primeiro malfeitor, que lhe quisesse entrar pela janela.
O oficial tinha família e pôs a sua casa à disposição da queixosa, até que o juiz designasse, com as devidas formalidades, o sítio onde ela devia ser depositada judicialmente.
O fato ganhou logo circulação no bairro e, à falta de esclarecimentos verdadeiros, Inventou-se toda sorte de legendas. Uns juravam que Filomena não era mulher e sim um grande sonso que namoriscava a esposa do oficial e usara daquele expediente para ir ter com ela; outros afiançavam que a tal estrangeira era pura e simplesmente uma cocotte, sequiosa por chamar sobre si a atenção do público; outros lhe atribuíam intenções políticas. Este notara que ela trazia no corpo as mais belas jóias do mundo, que lhe vira nas orelhas e no colo brilhantes de um tamanho fabuloso; aquele protestava que nunca ouvira uma voz tão estranha e todavia tão melodiosa como a dela; outro dava a sua palavra de honra em como a tal sujeitinha era de uma formosura e de uma graça, que nem as virgenes de Murilo.
Porém a opinião mais seguida rezava que a encantadora e misteriosa estrangeira era nada menos do que a filha de rico negociante português, de cuja companhia desertara por não querer casar com um fidalgo velho e debochado que o pai lhe impunha. Pelo menos era esta a versão que mais se compadecia com o que noticiavam a esse respeito os jornais do dia seguinte:
"GRANDE ATENTADO CRIMINAL, dizia um. A noche a las doce poco más o menos um malhechor de los muchos que infelizmente ínfestan esta hermosa ciudad, intentó introducirse por la ventana de una de nuestras mas acreditadas fondas, com ei fin perverso de raptar una joven extrangera que ali residia esperando su anciano padre, hidalgo portuguez, cuyo nombre nos abstenemos de publicar por motivos fáciles de comprender.
La belia nifia, que casi fue víctima de tanta atrocidad, hallase, a su ruego, depositada em casa dei oficial Sr. D. José Nuflez, hasta que eI competente juez decida de su destino.
Debido aí delicado estado de natural sobre-excitacion nerviosa, la seflorita aludida aun no ha podido explicar los pormenores dei crimen dei cual fue objeto.
El malvado desapareció, pero la policia emplea todos los medios para alcarzarlo y cremos que sus esfuerzos no seran defraudados.
A medida que nos lheguem nuevos pormenores los transmitiremos a nuestros lectores."
Outros jornais iam mais longe. Um chegou a fazer engenhosas considerações sobre o fato estranho de se achar "desacompanhada num hotel já por si suspeito (o dono do hotel era federalista e o jornal apoiava o governo) uma senhora tão distinta, tão bem tratada e com todas as aparências de donzela! Não estaria aí a ponta de algum importante enigma político?... Em épocas de revolução é preciso desconfiar de tudo e de todos".
Estas notícias excitaram a curiosidade geral. Não faltou quem deixasse de enxergar no misterioso homem da escada um malhechor ordinario - como diziam algumas folhas, e atribuir-lhe fins de grande alcance político.
O dono do hotel foi um desses, e, como bom cantonalista que era, não lhe podia passar despercebido que o seu misterioso hóspede usava um lenço de seda encarnada, uma gravata ainda mais encarnada que o lenço; não podia deixar de notar que nas caixinhas de fósforos do seu protegido encontrara sempre o retrato de alguns dos chefes dos cantões - encontrou o retrato do general Contreras, o de Antonio Galvez e de Duarte e o de Rafael Grulíleu.
- Não há dúvida! pensou ele. Não há dúvida que o homem é dos nossos!
E o fino estalajadeiro, considerando o modo despejado pelo qual o seu correligionário gastava ouro, notando a riqueza de suas bagagens e atentando para o incógnito em que se fechara esse homem, estrangeiro sem dúvida, mas estrangeiro amigo e respeitável, não vacilou em descobrir nele um vulto importante da causa federal, e resolveu pôr-se discretamente ao seu serviço.
- Talvez, quem sabe?... considerou o cantonalista com os seus botões. - Mais tarde, quando subirem os nossos homens, isto até me venha a render um lugar importante na política!
E foi logo ter com o Borges.
- Cidadão! disse-lhe resolutamente. Escusa negar; sei que tenho a honra de refugiar em minha casa um dos cantonalistas mais distintos do mundo!...
Borges recuou de boca aberta.
- Descanse! volveu o outro em tom de mistério. Pode ficar tranqüilo! Não tem de que temer aqui - eu sou seu correligionário.
- Mas, senhor! ... ia a protestar o Borges.
- Nem quero que me diga quais são as suas intenções - as intenções de um cantonalista são sempre as melhores!
O que eu desejo é saber em que lhe posso ser útil! Tenha confiança em mim e fale com franqueza.
E o estalajadeiro, sacando do bolso um barrete frígio, que ele possuía para as ocasiões de levantamento, meteu-o na cabeça e perfilou-se defronte do Borges.
- Bem vejo, bem vejo!... respondeu este, compreendendo a situação e hesitando, na qualidade de homem sério, se devia ou não aproveitá-la em seu favor. Bem vejo, mas...
E franziu o sobrolho. - Era o diabo! Aquilo não lhe podia ficar bem!...
- Compreendo! tornou o outro, guardando o barrete e fazendo um gesto de arrependimento. Fui indiscreto!...
- Certamente! confirmou o Borges. Imagine se, em meu lugar, estivesse aqui um inimigo!...
- Este federal é chefe com certeza de algum cantão! disse consigo o estalajadeiro. E sabe Deus qual não será a importância de sua presença por estas alturas!...
- Em todo caso... acrescentou o Borges, tomando uma resolução, não me despeço de seus favores, talvez precise deles.
E chegando-se por sua vez ao ouvido do outro, em tom de segredo:
- Preciso fazer chegar uma carta às mãos daquela senhora que...
- Já sei; de quem se trata, interrompeu o estalajadeiro. Trata-se da fidalguinha portuguesa. Bem tinha eu cá um pressentimento!... Preparai o amigo a carta, que eu a farei chegar ao seu destino, custe o que custar! E vou daqui ver mais cinco companheiros, tão bons como eu, com os quais podemos contar para a vida e para a morte!
- Obrigado, respondeu o Borges, pondo-se a jeito de escrever.
E logo que terminou a carta, chamou o seu correligionário, e entregou-lha juntamente com algumas libras esterlinas.
O cantonalista repeliu energicamente o dinheiro, dizendo frases de abnegação heróica. E, com tão boa vontade se pôs em ação, de tal modo providenciou as coisas, que pouco depois uma correspondência cerrada se estabelecia entre o Borges e a mulher.
Eram belas cartas de amor, escritas com entusiasmo de parte a parte. O marido, nas frases mais poéticas que conseguiu arranjar, suplicava à esposa que desistisse do abrigo em que se achava e fosse ter com ele ao hotel, para fugirem juntos daquela maldita cidade, que só lhes trazia canseiras e dissabores.
Filomena, porém, exigia um rapto. Estava disposta a acompanhar o marido, mas não queria ir ao encontro dele, queria que ele a fosse buscar.
"É inútil insistires", terminava a visionária, em seguida a uma exposição minuciosa do que o Borges tinha a fazer para alcançá-la.
"Se me amas, como dizes, prova-mo, arrancando-me daqui violentamente. O verdadeiro amor não conhece dificuldades! Não encontra obstáculos quando se precipita em torrentes vertiginosas de um coração apaixonado! Vem! Vem conquistar-me à força de intrepidez e coragem, vem disputar-me com o risco de tua vida e eu serei tua, eu viverei para beijar os grilhões com que me prenderes ao teu destino! Tua, F."
O Borges ficou irresoluto, coçou a cabeça, passeou longas horas com as mãos cruzadas atrás. - Faltava-lhe mais essa, resmungou furioso: - ter de perpetrar um rapto! Eu! - Diabo leve tal viagem e mais quem me meteu na cabeça a idéia de casar! Ah! que se não fosse a esperança de que as coisas não durarão neste belo gosto por muito tempo, eu... eu nem sei o que faria!...
Mas, afinal, impaciente por sair do seu esconderijo, farto daquela situação que o tornava ridículo aos seus próprios olhos, deliberou fazer a vontade à mulher. - Já agora seria o que Deus quisesse!...