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FILOMENA BORGES

aluísio de azevedo

* * *

Entretanto, o estalajadeiro, mal teve conhecimento das intenções do seu ilustre protegido, tratou de dar as providências para o rapto.

Chegado o momento, armou os seus homens: vestiu-se de cocheiro (profissão que exercera por muito tempo), muniu-se de um par de tiros, preparou a bagagem do raptor pela maneira que mais convinha à conjuntura, isto é, reduzindo-a o melhor que pôde, e meteu-a dentro de um coche apropriado, do qual tomaria a boléia; e, depois de erguer com os outros vários brindes ao Cantonalismo, à Espanha, à Liberdade; e depois de embolsados os protestos de gratidão que o Borges lhes apresentava na forma de moedinhas de ouro, puseram-se todos a caminho da casa do oficial, dispostos a derramar a última gota de sangue em prol da gloriosa empresa que cometiam.

E quem os visse, tão formidáveis nos seus capotes de conspiradores, os colones convictamente puxados sobre a orelha, os gestos ameaçadores e trágicos, não seria capaz de supor que se tratava de raptar uma donzela, mais que ninguém senhora de seu nariz.

Filomena, ébria de prazer com a idéia de ser furtada, palpitante de comoção, fez a trouxa em segredo e retirou-se ao quarto, pretextando incômodos para dissimular os seus projetos de fuga.

À meia-noite, chegava o terrível grupo dos conspiradores, acompanhando o coche que devia conduzir o precioso fruto daquela empresa delicadíssima. Borges separou-se de seus companheiros, mudo e sombrio. E, com o passo firme, a mão armada, penetrou resolutamente no jardim da casa em que estava a mulher. Não foi difícil, porque, felizmente, o portão achava-se apenas encostado.

Ao chegar debaixo de certa janela tirou da algibeira um pequeno assobio de metal e apitou devegarinho. A janela abriu-se logo e, ao doce clarão da lua, apareceu o vulto romântico de Filomena, toda de branco, os cabelos soltos, os braços nus.

- Vamos com isto! segredou-lhe o Borges, levando as mãos à boca em forma de porta-voz.

- Trouxeste a escada?... perguntou Filomena no mesmo tom.

- Trouxe. Arreia o barbante.

- Aí vai.

- Pronto, disse o Borges, depois de amarrar a escada no cordão.

Filomena daí a pouco lançava-se nos braços do marido, a exclamar: - Fujamos, meu amor! Fujamos!

- Não grites! ralhou o sedutor. Olha que te podem ouvir!

E, com efeito, alguém abria já uma janela.

- Estamos perdidos! bradou a fugitiva.

O Borges, porém, havia já alcançado a rua com a mulher nos braços, quando o sujeito da janela berrou com uma voz de trovão:

- Ó da guarda! Ó da guarda!

Ouviu-se um estardalhaço de portas que se abrem precipitadamente fechaduras que rangem e vozes que se altercam.

Mas Filomena, trêmula e sobressaltada, achava-se já dentro do carro, ao lado do raptor, e os cavalos galopavam fustigados a valer pelo estalajadeiro.

Enquanto fugiam, os cinco cantonalistas, no meio de grande algazarra, de gritos e de apitos, simulavam uma alteração na rua, atraindo sobre si os serenos, que acudiam de vários quarteirões.

O carro, entretanto, voava pelas ruas de Triana, para os lados de Lora-del-rio. A cidade desaparecia atrás deles, vertiginosamente. Mal avistavam já o cume quadrado da Giralda, que o luar fazia sobressair no horizonte.

No fim de três horas de carreira, penetravam no campo.

- Estamos salvos! exclamou Filomena. No campo não seremos alcançados!

- Ao contrário, respondeu o estalajadeiro, o campo e menos favorável à fuga, porque temos de evitar os guardias civiles, muito mais perigosos que os serenos.

Não tardou a surgir ao longe o primeiro par de tais guardias.

- Quem vai lá?! gritou um deles.

O estalajadeiro em resposta fustigou melhor os cavalos e precipitou-se em direção contrária ao lugar donde vinha aquela voz.

- Alto! gritou o guarda campestre.

Novas e mais fortes chicotadas.

- Faça alto! gritou o outro guarda engatilhando a sua espingarda.

O estalajadeiro, que conhecia muito bem as prerrogativas da sentinela do campo na Espanha, apertou o galope de seus animais e vergou-se todo para a frente, sobre as coxas.

Uma bala veio cravar-se na traseira do carro. Em seguida outro tiro, depois outro; mas as bestas não afrouxaram e o carrinho sumiu-se por entre as sombras de um olival que nascia a algumas braças daí.

- Ânimo! gritou o intrépido cocheiro aos fugitivos. Dentro em pouco estaremos livres de perigo; trata-se apenas de ganhar a outra margem do rio!

E fustigou as bestas com energia.

Mas no fim de meia hora de galope cerrado, o estalajadeiro soltou um grito, que aterrou os companheiros. Na sua precipitação, invadira, sem dar por isso, as terras de um tal marquês de Saltilio, e agora, auxiliado pela aurora, que ia repontando, via-se no meio de uma vasta dehesa, cujos touros gozavam da fama dos mais perigosos de toda aquela redondeza.

- Ira de Dios! bradou ele, enquanto o Borges e Filomena, estarrecidos de medo, espiavam pelas portinholas.

- Que é?! perguntaram.

- É que podemos ser assaltados pelos touros! explicou o cantonalista, tratando de fugir ao perigo.

A dehesa era enorme, estendia-se até muito longe; nessa ocasião, por felicidade, os touros achavam-se entretidos para o lado contrário ao do carro, e o estalajadeiro não precisou puxar muito pelos cavalos, porque estes fariscando logo o risco que corriam, abriram a rinchar e, mau grado da fadiga, desembestaram para as bandas do campo.

Ma]ditos rinchos! Um touro acabava de despertar ao seu fragor e, encapotando a cabeça nas pernas dianteiras, corria assanhado na direção do carro.

O federal chicoteou os cavalos com toda a força e o pobre coche rodou por entre o mato como uma bala perdida.

- Anda! Anda! berrava o Borges de pé, a tocarolar as costas do cocheiro. - Olha que o diabo do bicho aí vem!

Com efeito, o touro perseguia-os na distância de uns cinqüenta passos.

- Preparem as armas! bramiu Filomena. Aqui o recurso que há é lutar.

Mal terminava essa frase, quando se sentiu decair com o marido para a direita; uma das rodas do carro estava por terra, em pedaços.

- Jesus! fez ela, agarrando-se à portinhola.

- Já aí vem o conocedor e já ouço o chocalho do cabestro. Estamos salvos!

De fato, três homens a cavalo e seguidos de um boi velho e manso, vinham com os seus cajados em punho à pista da rês que se desgarrara da dehesa. O touro logo que ouviu o chocalho, parou, sorveu o ar por alguns segundos e foi humildemente emparelhar-se ao cabestro.

- Diabos te consumam! rosnou o federal, considerando o estado de seu pobre carro e de seus pobres animais. Como hei de agora arranjar-me para a volta?!...

Felizmente já não estavam muito longe da estação de Lora, e o Borges, se não quisesse tomar aí o caminho de ferro, podia ficar em algum hotel, onde com facilidade arranjaria meios de condução para o lugar que melhor entendesse.

Mas Filomena declarou logo que não se sentia disposta, por coisa alguma, a passar a sua lua de mel enterrada num quarto de hospedaria. Não foi para isso que viera à Espanha! Queria um sítio pitoresco, ignorado, poético, silencioso... O marido que tivesse paciência; ela, porém, não descansaria antes de encontrar um lugarzinho nessas condições.

- Pois tranqüiliza-te, que, custe o que custar, havemos de descobri-lo, respondeu o Borges. Já agora, com mais um empurrão leva-se a caixa ao porão!

Durante esse diálogo, o estalajadeiro carregou pelo melhor os seus animais com a bagagem dos fugitivos. E os três, seguidos das cavalgaduras, puseram-se corajosamente a caminho, dispostos a não acampar, sem terem descoberto o tal sítio indispensável para os amores de Filomena.

VIII

ENFIM

Foram dar com os ossos a Cordova, num destroço de castelo árabe, construído à margem de um braço do Guadalquivir, ainda nos tempos do domínio muçulmano, e em cujas ruínas se aboletavam agora os pescadores do lugar e um ou outro gitano, que a fome e a fadiga trouxessem de rastros até aí.

Filomena ficou arrebatada; confessou que o lugar não podia ser melhor para uma lua de mel e resolveu instalar-se nas ruínas.

- Que?! exclamou o Borges, assustando-se. Ficar aqui?! Ficar neste covil de vagabundos?!.. - Ora, qual! A mulher com certeza estava gracejando!

- Não! disse ela, sem se alterar, não gracejo, nem admito que te queiras fazer insensível a estas magnificências do belo! Olha! Contempla estas abóbadas lascadas, tudo isto é maravilhoso! Onde mas tu descobrir um lugar mais propício aos nossos amores?...

Borges ainda tentou despersuadi-la de semelhante idéia. Opôs-lhe os mais sensatos argumentos, apresentou-lhe com todo o peso de seu bom senso os inconvenientes que os esperavam - o sol, a chuva, os mosquitos, os insetos venenosos, talvez a morte nas mãos daqueles bárbaros! Filomena que pensasse um instante, que refletisse um momento, antes de dar aquele passo! porém, nada obteve - a mulher não cedia uma polegada; e o infeliz, disfarçando o seu desgosto e auxiliado pelo cantonalista, procurou entrar em bom acordo com os pescadores.

Tudo arranjado pelo melhor que foi possível, o estalajadeiro descansou um pouco, depois embolsou a recompensa de seus trabalhos e a indenização de seus prejuízos, abraçou o suposto correligionário, jurou ainda uma vez que estaria sempre disposto a derramar a última gota de sangue pela pátria, e afinal retirou-se.

O Borges então cuidou de resignar-se às circunstâncias. Aquele capricho da mulher não poderia deitar muito longe! ... Que a deixassem lá com as suas ruínas, o primeiro pé d'água que caísse havia de ensiná-la!...

Contudo, aí ficaram três semanas, expostos ao sol e ao sereno, quase ao relento, alimentando-se sabe Deus como, e dormindo sob as velhas abóbadas lascadas e cheias de verdura. Felizmente tinham consigo alguma roupa, uma boa mala e ainda bastante dinheiro.

Foi aí, nesse canto ignorado da velha Espanha despojada, ao ciciar das brisas do Guadalquivir e à sombra murmurosa dos gigantescos loureiros e dos sicômoros, que Filomena se identificou pela primeira vez com o marido. E fê-lo sem a mais leve reserva, nem o mais ligeiro rebuço, chegando até a amá-lo com transporte, com delírio, chamando-lhe "seu raptor, seu amante!" Refugiando-se nos braços dele, cheia de ternura e de medo, unidos, sobressaltados, como dois criminosos que ardessem na chama da mesma paixão clandestina,

O bom homem não desejava melhor; "assim não fosse ela tão caprichosa"!

Filomena agora o obrigava a longos passeios por entre canaviais bravios por entre matagais de cactos, escolhendo lugares difíceis, quase intransitáveis, onde às vezes era preciso que ele a carregasse nos ombros para vadear pequenos regatos, coalhados de nenúfares, ou levá-la ao colo pelo meio de barrancos perigosos, cobertos de limo e salsas espinhosas. Outras vezes lhes sucedia perderem-se, e os dois tinham de descansar sobre a relva, sofrendo sede e fome, sempre foragidos, evitando as vistas de quem quer que fosse, como se fugissem de inimigos implacáveis.

Borges, temendo contrariá-la, submetia-se a tudo isso de cara alegre. Fingia desfrutar o mesmo encanto que ela desfrutava; fazia-se entusiasmado pela natureza, amando as águas do regato, admirando os passarinhos, correndo atrás das borboletas e deitando-se de bruços à beira do rio; o queixo na palma das mãos, a balbuciar versos; os olhos perdidos no serpentear monótono da corrente.

Mas no fundo sentia-se muito mal à vontade e extremamente contrariado. - Por que não havia sua mulher de ser como as outras?... Seria tão bom que os dois, àquela hora, estivessem gozando juntos, numa boa casa, em plena segurança e em plena dignidade do lar, a mais completa e a mais doce felicidade a que tinham direito por todos os motivos! Oh! ele, porém, amava-a tanto, tanto, que seria capaz de todos os sacrifícios para vê-la alegre e satisfeita! - Além de que, Filomena com o tempo havia de mudar de gênio!... Estava ainda muito moça, muito cheia de fantasias, porém tinha o principal, que era - boa índole e bom coração.

E ele subordinava-se, abafando os seus ressentimentos, sem um olhar de queixa, sem um gesto de desgosto, sem nunca desmentir aquele bom humor primitivo, aquela mesma condescendência delicada e simples, aquela mesma extrema amizade, leal e generosa.

Mas os caprichos de Filomena multiplicavam-se a cada momento. Era já a idéia de acompanhar os pescadores ao rio, à noite, munidos de archotes e vestidos como eles; era já a fantasia de uma caçada pela Serra-Morena, em horas de calor, ou então a mania de uma pastorada nos vales sombrios e pacíficos, acompanhando o gado, a cantarem de mãos dadas pelas ribanceiras, ou então deitados na grama, nos braços um do outro, à espera que o sol acabasse de descer no horizonte a sua escadaria de fogo.

* * *

De repente veio-lhe uma febre de viajar - viajar muito, sem destino, não pelas cidades muito conhecidas e palmilhadas cotidianamente por centenas de estrangeiros taciturnos, encapotados nos seus ulsters, de binóculo em bandolin e chapéu de sol encapado de verniz. - Não! nada disso! Queria lugares totalmente imprevistos, que ainda não tivessem sido muito decantados pelos poetas como a "sua Itália" e que lhe deparassem comoções inesperadas. - Queria os verdadeiros perigos, as fadigas dos desertos arenosos, a cólera dos simouns, o risco das florestas virgens, as jornadas por ínvios sertões desconhecidos, os horizontes eternos e as longas noites perdidas nos cumes silenciosos das montanhas, ouvindo o sanhudo sibilar dos ventos e os roncos desesperados das feras que tem fome!

O Borges sentiu um calefrio percorrer-lhe o corpo inteiro ao receber dos lábios da mulher aquela terrível sentença.

- Precisamos de uma vida mais agitada! explicou ela, vendo o gesto surpreso do marido.

- Mais agitada?!... ..... - balbuciou este.

- Sim! mais agitada! Sinto-me morrer de inanição! Basta de repouso! É preciso dar começo a uma nova existência!

O Borges esteve a perder os sentidos.

- Pois agora é que ia principiar o exercício?! pensou ele numa verdadeira vagabundagem?!... Mas então que não será ela?! - Se até aqui descansei, qual não será minha pobre vida de hoje em diante?!...

Filomena não percebeu o sobressalto do marido, porque estava já a cismar no Oriente.

Julgava-o numa desordem de impressões recebidas de Antony Rich, René Menard e principalmente de Lady Anna Brunt, cuja originalidade e cujo espírito másculo a fascinavam. Não lhe era estranho também o Dicionário Arqueológico de E. Bosc e por mais de uma vez folheara o itinerário do Dr. Emilio Isambert.

Com todo esse combustível a fumegar-lhe dentro da cabeça, via-se já dentro das muralhas venerandas de Jerusalém; sonhava o consagrado Sinai, a Abissínia, Malta, a Núbia e - o Egito.

O Egito! o longo e tortuoso Egito, cheio de passado e reslumbrante de tristeza.

Imaginava-se já de sandália e bombachas de brocado, assentada á japonesa no dorso empírico de um camelo, ao lado do Borges, que sumido no seu albornoz característico, as mãos esquecidas sobre o adequado kandyjar, e também de canelas em cruz, toscanejava orientalmente sobre o macio shedad. A imitação de sua querida Lady Brunt, sentia-se já preada por um formidável ghazú e conduzida aventurosamente ao castelo de Djot.

No dia seguinte, estavam de partida.

IX

VÔOS ALTOS

Desde então, foi um peregrinar sem tréguas.

Viram muito, atravessarem regiões inóspitas, extensões selvagens, participando de caçadas temerárias, fazendo léguas sobre elefantes, experimentando o enjôo de mil paquetes, a indiferença de mil povos diversos a monotonia das cidades desconhecidas, a dura insociabilidade dos hotéis e o tempestuoso embate de todas as paixões humanas.

E Filomena Borges tomou notas, escreveu memórias, fez apontamentos, criou gosto pelas investigações, pelo estudo; enfim, tornou-se filósofa e sentiu necessidade de compendiar em volume as impressões que recebia.

"O Egito", contava ela depois de longas considerações filosóficas, "desenrolou-se debaixo de meus pés, triste como um sudário. Ajoelhei-me com o meu companheiro (o companheiro era o Borges) defronte dos Spéus arruinados de Ibsambul e dos esborcinados templos d'Efu! Percorri os imensos labirintos subterrâneos de Silsilis, o templo d'Ombos; vi os monumentos da ilha de Philoe, contemplei a esfinge de Gizeh, surgindo da areia ardente do deserto, como um fantasma de granito, que se ergue a meio de um estranho oceano, com os olhos de pedra fitos no levante, o ar atento e concentrado de quem escuta e de quem espera! Que esperas, tu, sentinela do passado?! Monstro! que perscrutas com esse teu olhar imóvel de pedra?!"

"Minhalma", afirmava ela em ponto das memórias, "como que se dilatou ao sopro embalsamado das melancólicas lendas do Oriente. Pareceu-lhe ouvir ainda, perdidos no espaço, os últimos ecos dos coros religiosos dos sacerdotes de Horus e o cântico venerando dos escribas reais..."

Ouvisse ou não ouvisse, o fato é que, uma vez, depois da costumada excursão pelas ruínas, ela tomou de repente as mãos do marido e perguntou-lhe em segredo, com a voz trêmula de comoção:

- Meu amigo, não sentes alguns sons doces e lamentosos, que rumorejam neste vasto e profundo azul do deserto? ...

O Borges vergou a cabeça para o lado donde vinha o vento, concheou as mãos nas orelhas e, depois de escutar durante alguns minutos, disse que sim, por condescendência. - Que sim, supunha ouvir, qualquer coisa - assim como unia espécie de zunido! - Que vinha a ser isso?... perguntou ele, estimulado pelo olhar estranho da mulher.

- É, respondeu Filomena muito grave - é a alma errante do passado que chora as suas grandezas extintas, ou talvez sejam as notas derradeiras dos lamentosos salmos das adoradoras de Hathor!

- Ah!... fez o marido, fingindo interesse, mas sem compreender patavina.

* * *

E, enfronhados nas suas roupas egípcias, já iam aquelas duas almas perdidas, a jornadear dia e noite, de sol a sol, de ruína em ruína; ela em busca de comoções; ele em busca de coisa alguma, aborrecido, cansado, pedindo a Deus de instante a instante que fizesse a mulher desistir daquela terrível mania de andar a trocar as pernas, pelo mundo e fosse com ele repousar a um canto feliz e calmo de sua terra.

Contudo não se revoltava, nem lhe fugia às mais caras exigências. Na ocasião em que visitavam a quase extinta Menfis. ela mostrou desejos de que o marido chorasse defronte do colosso mutilado de Ramsés II, que jazia estendido na areia e o Borges choramingou para fazer-lhe a vontade. Quando desembarcaram no Luqzor, à margem direita de Tebas "a cidade de cem portas, decantada pelo sublime cego de Smyrna" como parafraseava ela, cheia de entusiasmo, o pobre homem já estava mais morto que vivo; Filomena, entretanto, não admitiu que se esbanjasse o precioso tempo com o repouso e exigiu que o Borges prestasse suma atenção às maravilhas que surgiam defronte de seus olhos.

- Sabes?... disse-lhe ela> atravessando com um passo solene o corpo principal do despojado templo de Luqzor - foi daqui que o solitário de Santa Helena levou o obelisco que orna hoje a praça da Concórdia, em Paris!

- Boa pedra para construção! respondeu o mestre de obras, batendo com a ponta ferrada de seu cajado no granito vermelho das velhas e consagradas esculturas de Secos. Boa pedrinha! Isto deita séculos!

Felizmente, a mulher não o ouvia, graças ao encanto melancólico daquelas relíquias, que a arrebatavam para as épocas esplendorosas de Sesostris e a faziam reconstruir mentalmente toda a extinta grandeza da margem ocidental de Tebas,

Neste dia, não houve um momento de descanso. Filomena não tinha ânimo de abandonar as ruínas, e como que as queria ver todas ao mesmo tempo. - Oh! Ó Karnak! Ó Karnak com a sua avenida de esfinges decimbradas e os monólitos gloriosos de Amenhotep III !

No fim de cinco horas de êxtases e exclamações desse gênero, o Borges cujo estômago reclamava os seus direitos disse, batendo-lhe meigamente no ombro:

- Não te apetece agora uma costelazinha com batatas?... Creio que não será mal lembrado... hein?...

- Não! disse Filomena, repreensivamente. - O que me apetece neste instante é o Medinet-Abu na outra margem do Nilo. Creio que esse prodígio de sete séculos valerá sempre mais alguma coisa que uma costeleta!...

- Oh! de certo, de certo! apressou-se a confirmar o Borges, pronto já a seguir a esposa, sem o menor vestígio de oposição.

Mas, pelo caminho, indiscretos suspiros partiam-lhe a miúdo dos lábios.

- Triste fado o meu! resmungava o pobre homem com os seus botões. - Triste fado!

E lá ia caminhando, de cabeça baixa, a puxar pelo cabresto o seu burrico e o da mulher.

* * *

O desgraçado esteve a desfalecer, quando, no fim da estafadora peregrinação pelo Egito, Filomena tratou com assombro de Babilônia, na qual, segundo vagas recordações de Herôdoto e Deodoro de Sicília, pensava encontrar panos para as mangas nas estátuas de ouro e nos palácios de Korsabad e Nemrod e nos baixos relevos e nos caracteres da escritura assíria.

Ah! só encontrou de tudo isso indícios, quase apagados - ruínas e deserto! sempre o deserto! sempre o deserto!

Veio-lhe então a idéia de recorrer à Grécia. "aí com certeza encontraria alguma coisa; pelo menos os sublimes destroços do Acropólio, do Partenon, do Agora!"

Já vejo que não é tão cedo que isto acaba!... considerou o Borges, quando a mulher lhe falou nas riquezas descobertas pelo professor Ihlismann, na Argólida.

E, custasse o que custasse, ela havia de fazer um almoço no tesouro de Atréus como fizera seu padrinho!...

- Que padrinho é esse? perguntou o Borges.

- D. Pedro II, o nosso imperador.

- Ah!...

Coitada! Mal então sabia ela a influência que o monarca estava destinado a exercer na sua vida!...

- Bem! disse o Borges, depois do passeio à Grécia. Agora, creio que basta de ruínas e que podemos voltar para o nosso canto! Ah! se soubesse, Filomena, as saudades que tenho de meu querido Paquetá!... Aquilo, sim, é que é terra! Estou aqui a ver-me debaixo de uma mangueira, contigo ao lado, depois do jantar... Que bom, meu Deus! que coisa boa1....

- Enlouqueceste?! exclamou ela. Pois nós havemos de voltar sem conhecer a Índia?!... A fanática! A terra das superstições brutais! dos faquires sobre-humanos! A Índia, com todos os seus formidáveis budas! A Índia, com o seu Both-Jattrá, essa deslumbrante festa dos carros! Oh! não! isso seria impossível!

O Borges empalideceu.

E depois da Índia, acrescentou ela por que não um pouco da Arábia, onde faremos belas peregrinações ao Nedjed, onde percorreremos aldeolas e lugarejos singulares, estudando a vida das mulheres de Hail, com o seu uso original de trazer argolas de ouro nas ventas e nas orelhas; onde teremos ocasião de apreciar os dançados das donzelas de Shakik?!... E a África?! A África então?! Esquecia-se o Borges de que a África era a única paragem do mundo, em que ainda se podiam encontrar regiões desconhecidas? E, além disso, não valeriam a pena de alguns passos as famosas cascatas de Samba-nagoshi, a aldeia de Mayolo, tão estimada pelos naturalistas?! E as caçadas dos elefantes pretos nas terras dos Aponos, e a caçada dos leões de Mogiana e dos gorilas de Olenda?!... Acaso não reconhecia o Borges a necessidade urgente de ver e experimentar todas essas coisas?!...

- Lá se vai tudo quanto Marta fiou!... disse o pobre homem, gemendo debaixo daquele bombardeamento.

Mas não reagiu. E, no fim de algum tempo; ia-se já habituando ao viver boêmio que a mulher lhe impunha. Dócil, como era, para escravizar-se aos hábitos, afez-se pouco a pouco àquele duro vagabundear, e estaria disposto a seguir Filomena ao inferno, contanto que esta nunca mais lhe fechasse o ferrolho sobre o nariz.

X

DE VOLTA A PÁTRIA

E assim se transformava completamente sem dar por isso. Não parecia o mesmo; sabia montar a cavalo, atirar várias armas, bater-se em duelo, andar em velocípede, correr no gelo, jogar o soco e a bengala e até servir-se do terrível bowie-knife de dois gumes.

E no fim de algum tempo, quem o visse à tolda de um paquete inglês, numa dessas madrugadas cor de pérola, enluvado no seu ulster de xadrezinho, o chapéu ao lado, a toalha caída sobre as costas, o bigode retorcido, monóculo no olho, binóculo a tiracolo, e tão pronto ao prazer como ao perigo, lépido, terrível, namorador; quem o visse - seria capaz de acreditar que ali estava aquele mesmo Borges, aquele pacato João Touro, que alguns anos antes atravessava as ruas comerciais do Rio de Janeiro, agenciando a vida, muito atarefado, dentro de suas calcinhas de brim mineiro?!...

Onde iria já o casto, o puro, o doce João Touro do outro tempo?...

As repetidas viagens, o atrito com as populações estranhas, a familiaridade com os costumes de mil povos diversos, a experiência das comoções transcendentes, deram-lhe grande desembaraço aos movimentos, certa elegância máscula, de trappeur, que de alguma forma dizia bem com os seus músculos atléticos. Agora tinha exclamações em todas as línguas, anedotas de toda a espécie, termos e frases de todo o mundo. E as correrias, os exercícios, os perigos, fizeram-no intrépido, aventuroso, despejado de maneiras, enérgico como um herói do romantismo.

Por outro lado, o constante entusiasmo de Filomena pelas coisas do espírito acabara por dominá-lo: ensinara-lhe a ter, ou pelo menos suportar de cara alegre certos prazeres delicados, como a música dos clássicos, a conversa sutil das senhoras de boa sociedade, os segredos da literatura, as linhas misteriosas da arquitetura, os primores de estatuária e o valor dos quadros célebres.

Ele! O Borges, aquele mesmo que, em Tebas, classificara o granito vermelho do Syena - boa pedra para construção! - Quem o diria?...

Alguns olhos femininos principiavam de voltar-se para ele com certa insistência; as mulheres descobriam-lhe já na elegância do todo e no espírito da conversa, pretextos de amor e elementos de sedução.

De volta ao Rio de Janeiro, os amigos mal o reconheceram. Acharam-no transformado em tudo; descobriram-lhe novos dotes e novos defeitos, porém estes em número muito maior que aqueles. Fizeram-lhe boas e más ausências.

O Borges, o querido Borges, que até aos quarenta anos não conhecera o gostinho de uma inimizade sequer, ficou pasmado quando, alguns dias depois de sua chegada à pátria, começou de redominhar em torno dele um enxame de maledicentes, que o intrigavam, descompunham e malqueriam, tecendo intrigas, publicando mofinas, remetendo-lhe cartas anônimas, cheias de injúrias, procurando covardemente, por todos os meios e modos, injetar-lhe o fel e a amargura no coração, como se, ofuscados pelas aparências, não pudessem admitir um tão completo exemplo de felicidade. As injúrias versavam principalmente sobre o caráter da mulher.

Então um desgosto sombrio principiou a persegui-lo; abominou a pátria - esse covil de maus e de invejosos - qualificou ele, revesando o seu tédio!

Em breve, qualquer maledicência a seu respeito, que lhe chegava aos ouvidos, punha-o num estado lastimável de irritação. E, no despenhadeiro de seu azedume, tudo foi aos poucos lhe parecendo mau e mesquinho; chegou a desconfiar da mulher; e supô-la sem amor, sem gratidão, capaz talvez de uma deslealdade; suspeitou de todos que o cercavam, detestou a sociedade, e, por não encontrar sobre quem descarregasse diretamente o seu ressentimento, bramou contra o atraso do Brasil, contra a falta de distrações, contra a ignorância geral do público, contra a incompetência dos poderes, contra toda a "podridão social enfim"!

Uma terra de bugres! dizia e repetia ele aos amigos, que o visitavam todas as noites. Uma terra de bugres! Aqui, um homem, para não morrer de tédio, para divertir-se um bocado, precisa atirar-se aos vícios, ou não sair de casa! - País de lama!

E para esquecer-se de seu desgosto, jogava.

* * *

De resto, o governo português acabava de o fazer barão de Itassu, e o Rio de Janeiro fariscava em torno de sua casa, atraído pelo som da música e pelo barulho dos pratos.

A casa! A casa, ou antes o museu do Borges, que outra coisa não era esse ninho de raridades de que se falava em toda a Corte, dessas magnificiências do luxo antigo e moderno, desses ricos objetos da arte de todos os tempos e de todas as paragens. A casa transformara-se, como o dono.

Tudo foi reformado. Exibiram-se novos trastes, novas cortinas, tapeçarias, peles, cachemiras, bronzes, faianças, cristais, porcelanas, quadros, estatuetas, aquários, álbuns, mosaicos, vasos florentinos, lustres de vermeil, espelhos venezianos talhados à bisseau, cariátides de Jean Goujon, servindo de peanhas a esculturas de Germam Pilou, e uma variedade interminável de tetéias e relíquias, que a baronesa colecionara por todo o mundo. Expuseram-se velhas cadeiras com espaldar e assento de couro de Córdova, lavrado, e tacheado de metal amare]o; leitos à Renascença de colunas retorcidas e métopes talhados em madeira fusca; jarras do Oriente, sarapintadas de hieróglifos; objetos preciosos de marfim, manufaturados na China; molduras delicadíssimas de porcelana, a Luiz XIV, representando grinaldas coloridas; consolos de brêche-antique, sustentados por delfins de olhos e barbatanas douro, luzido; sem contar as otomanas asiáticas, os divãs, os fauteuils, as etagères de xarâo, de palissandra, de ébano; enfim o que podia haver de raro, de singular, de extraordinário. Não era uma casa, era um prolongamento do Hotel Cluny. Cada objeto, cada móvel, cada peça representava uma época, um reinado, uma escola.

Mas o barão, quando ficava a sós no meio de tudo isso, sentia-se acabrunhar por uma espécie de remorso; afigurava-se lhe fugir debaixo dos pés o chão sólido e áspero do dever, para dar lugar aos tapetes felpudos e voluptuosos; parecia-lhe ouvir uma voz austera, que se levantava de tudo aquilo para o argüir e reprovar.

- Pois foi nisto que esbanjaste o teu dinheiro, João Borges?!... Foi nestas quinquilharias que enterraste essa fortuna, que teu pai, à custa de tanto sacrifício, conseguiu juntar para ti, insensato? Perdulário! ... E agora vão ver!... Tudo por que? - Porque o pedaço d'asno adora cegamente uma mulher, um demônio, a quem se entrega de corpo e alma e que faz dele o que bem entende, sem talvez lhe dedicar um pouco de afeição, pois, se dedicasse não seria a primeira a cavar-lhe deste modo a ruína!... Oh, sim! dizia o infeliz, deixando-se cair em uma de suas cadeiras preciosas. - Oh, sim! sou um miserável, mas amo-a tanto! adoro-a tão extremosamente, que ainda seria capaz de muito mais para conservá-la sempre ao meu lado!

E procurando fugir ao ferretear dessas considerações, refugiava-se no entorpecimento da embriagues, nos sobressaltos do jogo e na conversa agitada dos amigos, que o iam cardando e descodeando todas as noites.

Filomena, por outro lado, não se mostrava, apesar do titulo, completamente feliz.

- Mas que te falta ainda?... perguntou-lhe o marido, sem se poder conter, uma vez que a viu mais triste e desconsolada. - Creio que até hoje tenho cumprido à risca, e com sacrifício de nosso futuro, todos os teus desejos e todos os teus caprichos! Possuís uma casa como ambicionaste; és requestada pela melhor sociedade; ostentas um título, e tens plena certeza de que eu, teu marido, teu amante apaixonado, só vivo por ti, e para ti! Sabes perfeitamente que não há em todo o mundo, por toda a parte onde estivemos, uma única mulher, escrava ou rainha, que me fizesse esquecer um instante de ti, minha querida Filomena! E, no entanto, eu, tu! que és a minha única preocupação, o meu cativeiro, tu, nem por isso te mostras mais satisfeita e mais agradecida! Mas, com todos os demônios! Se te falta ainda alguma coisa, fala com franqueza! Exige! ordena! Mas por amor de Deus não me tortures com essas tristezas e com esses suspiros que me desesperam! Bem sabes que és tudo quanto possuo? És a minha vida! a minha felicidade! Vamos! Fala! fala! dize o que te oprime, Filomena de minhalma

- Nada! Não tenho nada! respondia a mulher com um esgar fastidioso. Quero apenas que me deixem!... Que me não apoquentem com perguntas! ...

- Tudo isso prova que nunca me amaste!... disse o Borges retraindo-se.

- AI temos outra! observou Filomena, e, depois de um novo gesto de tédio, afastou-se, resmungando - que não estava disposta àquilo!

Borges atirou-se sobre uma das tais cadeiras, e escondeu o rosto nas mãos.

- Que desgraça a sua! Que desgraça! ... pensava. Ora vissem se era possível haver um homem mais infeliz do que ele!..- Pois a despeito de tudo que fazia pela mulher, ainda não merecia amor! Mas então Filomena estaria disposta a ser sempre a mesma ingrata? ...

- Não! bradou ele, erguendo-se. Não! decididamente é preciso fazer-se forte! É preciso reagir! Talvez até seja este o meio de lhe cair em graça por uma vez!

Mas daí a duas horas, vendo que a mulher não saia do quarto, foi ter com ela.

- Então? Ainda dura a rabugem? ...

- Deixe-me! respondeu Filomena com uma voz de choro.

- Mas o que te aflige, meu amor? Fala, fala com franqueza! Não sou eu porventura o teu amiguinho, o teu confidente, o teu íntimo?... Olha, se estás aborrecida, procura meios de distrair-te; bem sei que aqui não há muito aonde ir, mas inventa! Vê se descobres alguma idéia. É verdade - tu ainda não festejaste o nosso título... aí tens! Porque não dás tu um baile, um jantar ou coisa que o valha?

Filomena abraçou o marido, balbuciando palavras de reconhecimento.

- Ainda bem! Ainda bem! disse ele, sem mais se lembrar das apoquentações. E, sentindo que a mulher animava-se-lhe aos beijos. - Assim! assim é que te quero ver sempre?

Começaram a falar, muito amigavelmente, sobre os projetos da festa. Aproximava-se o entrudo. - E se dessem um baile de máscaras?!...

Esta idéia trouxe a Filomena uma alegria convulsiva. - Um baile de máscaras! um baile de máscaras! exclamava ela fora de si. - Mas como já não me tinha eu lembrado disto?!...

E saltou ao pescoço do Borges, radiante. - Que belo! que belo! Um baile de máscaras!

Deram logo princípio aos preparativos da festa, e durante esses dias, Filomena não deixou transparecer sinal de aborrecimento. Ao contrário, muito animada, muito contente de sua vida, era ela própria quem tomava as providências para a função. - Ah! mas havia de ser uma festa sem exemplo no Brasil! Uma festa que desse que falar por muito tempo.

Todavia, Borges andava meio atrapalhado nos seus negócios, e, para não desgostar a mulher, escondia-lhe, sabe Deus com que heroísmo, certas dificuldades de dinheiro, que o principiavam a perseguir.

- Em todo o caso, Filomena teria o seu baile de máscaras!...

XI

QUAL DOS DOIS MARIDOS SERÁ O MAIS INFELIZ?

Nas vésperas do grande dia, quando o Borges andava de baixo para cima, tratando de pôr em prática as ordens da mulher, deu cara a cara com o Barroso, uma noite em que entrava no Passeio Público.

Em outra ocasião, é possível que os dois companheiros de infância nem se cumprimentassem, pois nunca mais se tinham visto depois da resinga do casamento; mas encontrados assim, de supetão, ambos colhidos de surpresa, não puderam conter o clássico- Oh! - dos momentos de circunstância, e, quando deram por si, já estavam nos braços um do outro.

Ah! eles haviam sido tão camaradas, tão parecidos nos gostos e nos costumes! usando da mesma moral e dos mesmos princípios! Durante quarenta anos tinham seguido sempre a mesma linha tesa das conveniências comerciais: - O Borges, como sabemos, transviara-se com o impulso que lhe deu Filomena; mas o Barroso, não senhor! - foi cada vez mais acentuando a sua circunspecção e enrijando os seus créditos de homem sério.

De sorte que, atirados agora um defronte do outro, em flagrante contraste - o Barroso tão grave, tão ríspido, tão Invulnerável dentro de seu paletó saco, fiel ao seu permanente chapéu alto de pelo e ao seu guarda-chuva desenrolado; - e o Borges, tão catita tão gamenho, tão moderno nos seus sapatões ingleses e na sua bengalinha de junco - não podiam fugir ao mais completo embaraço.

Sentaram-se ambos no primeiro banco, ao lado um do outro. sem uma palavra, mudos como dois frades de pedra.

Borges, no fim de alguns instantes de completo silêncio, caiu de novo nos braços do amigo e abriu a chorar copiosamente.

Não era o barão de Itassu quem chorava ali, era o João Touro, o primitivo, o bom João Touro doutros tempos, que agora reaparecia, como por encanto, à vista de um companheiro de seu doce passado, tão tranqüilo e singelo.

Chorou muito, muito, como se desabafasse naquele momento toda a acumulação de contrariedade, de desgosto e de fadigas, que se lhe foram amontoando no coração desde a primeira noite do casamento. Era um pranto velho, há muito tempo represado à falta de uma ocasião para rebentar.

O Barroso recebia no peito as lágrimas do antigo camarada, sem fazer um movimento, nem ter uma palavra para lhe dizer. Enquanto chorava o Borges, ele fazia por explicar a si mesmo como diabo se podia conciliar toda aquela lamúria com a jubilosa aparência do amigo.

- Não és então feliz com tua mulher? ... perguntou-lhe afinal.

- Adoro-a! respondeu o outro, limpando os olhos.

- Então?...

- Mas é que a minha vida de casado tem sido uma tempestade constante! Ainda não o disse a ninguém, digo-te a ti, que és o único amigo em quem deposito confiança. Ah! não imaginas! não imaginas, Barroso, o que tenho experimentado! Não calcules de que força é minha mulher... Bem me dizias tu...

- Mas por que não a pões a teu jeito, filho?

- Porque a adoro, como te disse. Porque só a idéia de lhe cair em desagrado me faz tremer! Pô-la a meu jeito - dizes tu! É que não a conheces! É que, felizmente para ti ~, nunca te deixaste arrastar por uma paixão como a minha!

E, depois de uma pausa, enquanto o outro se torcia sob aquela expansão sentimental:

- Pô-la a meu jeito!... foi ela quem me pôs ao seu! Foi ela que me torceu a seu bel-prazer!

- Ora essa! E quem te mandou consentir?

- Repito! nunca amaste, que se já o houvesse feito, não estranharias a minha fraqueza.

E, baixando a voz, disse-lhe alguma coisa no ouvido.

O Barroso fez um gesto de indignação.

- Desaforo! Não havia de ser comigo, juro-te!

- Ah! Só Deus sabe pelo que tenho passado!...

- Não! contradisse o Barroso. Não! Uma mulher dessa ordem, manda-a a gente plantar batatas!

- Impossível! Se te estou a dizer que a adoro!

O outro sacudiu os ombros:

- Não era isso o que ele supunha! Pelo que ouvira por ai, ia jurar que o Borges era o homem mais feliz do mundo!

- É o que todos julgam... tugiu o barão com tristeza.

- Pelo menos é o que leva a acreditar esse teu modo de viver, de tempos para cá! São só pagodes e mais pagodes! Eu... confesso-te - sempre estranhei!...

- Ah! gemeu o outro. Só Deus sabe quanto me custa tudo isto! Meu amigo, vês-me a cara e não me vês o coração...

- Vamos tomar alguma coisa, disse o Barroso erguendo-se do banco e seguindo na direção do botequim. Creio que agora já bebes...

- Se bebo! tartamudeou o outro, acompanhando-o. Se bebo!

E foram ambos sentar-se a uma mesinha no lugar das bebidas.

- Pois muito me contas!... prosseguiu o Barroso, enchendo os copos de cerveja.

- E ainda não te disse nada!... acrescentou o Borges, a olhar muito sério para um buraco que fazia no chão com a ponta da bengala.

E depois, encarando o amigo:

- Mas olha! Isto que não passe daqui. Imagina que pape1 faria eu, se viessem a saber que...

- Ó Borges! interrompeu o Barroso, ofendendo-se. Eu ainda sou o mesmo! Ainda sou aquele mesmo amigo para a vida e para a morte! Por que estás mudado e porque já não dás idéia do que foste, não se segue que os mais também se tenham transformado! Oh!

- Bem sei, bem sei, meu bom amigo; perdoa! E olha, vai sábado lá à casa; a mulher arranjou uma festa... leva contigo quem quiseres.

- Sempre as festas! censurou o Barroso acremente. Sempre as festas!...

- Que queres tu? Filomena obriga-me a estas coisas! Hoje, creio até que eu próprio já não poderia passar sem isso! Tudo vai do hábito!

- É imperdoável, mas irei, irei à tua casa...

E meneando a cabeça: -

- Pobre Borges! Pobre Borges!...

- Traze mais cerveja! disse este ao caixeiro, com uma voz plangente.

- Pois vais beber ainda?... observou o outro admirado.

- Quero festejar o restabelecimento de nossa amizade!

- Seja; mas eu não te posso acompanhar. Bem sabes que a minha conta é um copo...

- Sei, sei! Quantas vezes noutro tempo, assentados invariavelmente nos fundos da venda do Sampaio, não fiz caretas ao teu copinho de cerveja!... Então era eu quem se admirava de que "houvesse no mundo alguém que a bebesse por gosto..." entretanto... tu continuas a tomar a tua cervejinha todas as noites, ao passo que eu...

- Todas as noites... confirmou o Barroso. É o meu vício! Com a diferença de que agora, em vez de a tomar na casa do Sampaio, tomo-a quase sempre ao lado de minha mulher.

- É verdade! Não me lembrava que havias também casado. E como vais te dando com a vida?

- Bem! Não tenho razão de queixa! A Sabina, justiça se lhe faça, é uma excelente mulher! Bom gênio... acomoda-se com tudo... não gosta de festas!... Às vezes até é preciso que eu a obrigue a sair de casa para distrair-se um bocado, coitada!

- Sim? hein?...

- Vivemos como Deus com os anjos!...

Houve uma pausa.

- Já temos um pequeno, sabes?... acrescentou ele depois.

Borges continuou silencioso, a cabeça derreada numa taciturnidade invejosa. Só mudou de posição para esgotar o copo e tornar a enche-lo.

- Ainda?! censurou o outro.

- Que queres, homem?!...

E depois de alguns goles:

- Com que então, és feliz?... E suspirou.

- Sou, graças a Deus! sou! respondeu o Barroso estirando-se na cadeira. Lá a minha Eva não é nenhuma senhora que meta vista, lá isso não é!... Ao contrário, coitada! não serve para se haver com etiquetas e cerimônias; porém, no que se diz - arranjo de casa, doçura de gênio, tratamento do filho e mimos cá com o nhonhô... nisso não quero que haja segunda! Meiguice ali! Ela é incapaz de uma resinga! Sempre a mesma! Sempre! Além disso muito asseiada, muito amiga de arrumar e ativa, ativa que faz gesto! Ainda há pouco tempo ficamos três dias sem criada. Pois, filho! acredita que a Sabina, arregaçou as mangas, meteu-se na cozinha, agarrou-se a uma vassoura, e, tantas voltas deu, tanto virou, que a criada não fez falta! Foi preciso que eu ralhasse para a ver sossegar um instante! Não! como dona de casa não quero que haja outra!... mas também podes ver de que maneira a trato!...

- Ai. ai! suspirou o Borges. Garçon!, mais cerveja.

- Não bebas mais!, aconselhou o Barroso.

- Deixa-me!, balbuciou o outro limpando os olhos. Deixa-me!

Quando se levantaram para sair, o marido de Filomena, muito atacado dos nervos, muito excitado pela cerveja, chorava como uma criança.

Consola-te, homem! dizia o amigo, batendo-lhe no ombro. Consola-te! Mais tem Deus para dar que o diabo para tomar!

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