Seguiram para S. Paulo, quase sem recursos, levando as jóias na algibeira e, todavia, satisfeitos, cheios de esperança, orgulhosos daquela situação extraordinária, que os unia mais, que os identificava e como que os tinha abraçados e enlelados pela mesma desgraça, cosidos dentro da mesma mortalha.
Hospedaram-se no Grande Hotel, fazendo uma existência difícil, vivendo de expedientes, empenhando diamantes, jogando.
Foi então que se manifestaram em Filomena os primeiros sintomas de gravidez, e este fato, que noutro tempo teria causado a felicidade do pobre Borges, agora representava nada menos que um novo obstáculo a vencer.
Ah! O bom homem fazia esforços supremos para não deixar transparecer o quanto sofria com aquele viver tão contrário ao seu gênio! Mostrava-se forte, resignado, seguro numa fé que não existia, falando a cada instante de fortunas imprevistas, sonhando acasos de grande felicidade que, de um momento para outro, lhe restituísse a sua antiga posição.
Mas passavam-se os dias, e a fortuna sempre esquiva. Embalde furava o Borges por todos os lados, à procura de trabalho, à procura de emprego. Ninguém o queria.
Vinham-lhe então grandes desânimos, que o desgraçado já não podia esconder da mulher. Às vezes, até, depois de um dia de inútil campanha em busca de serviço, ou quando, em vez de ganhar, perdia tudo ao jogo, ou quando se gastava pelos cafés e pelas ruas, cansando-se na convivência dos vadios, tinha acessos de desespero. Entrava em casa brutalmente aniquilado, dando com a cabeça pelas paredes, blasfemando, pedindo em berros a morte e atirando-se tragicamente ao chão, lívido e arquejante.
Oh! mas como Filomena o amava nesses momentos! Com que transporte o recebia no colo, beijando-lhe os olhos em chama, afagando-lhe os cabelos empastados de suor, ameigando-lhe o grosso bigode conspurcado de cerveja e nicotina.
Estranha existência a dessas duas criaturas, que a natureza fez tão diversas. tão contrárias, mas que o acaso lançou no mesmo destino. abraçadas a uma só onda, sofrendo e gozando promiscuamente, sem nunca poderem determinar onde principiava a dor, onde terminava o gozo.
A mesma coisa, que a um fazia padecer, dava ao outro transportes de alegria. Daí esse equilíbrio da lágrima e do riso, que era a fonte de toda a sua coragem e de toda a sua força. Não podia sucumbir nunca, porque um deles estava sempre de pé para amparar o companheiro, quando este porventura vacilasse.
E assim se passaram meses, sem que o Borges conseguis-se arranjar meios seguros de vida. Entretanto, os recursos iam decrescendo; o circulo apertava-se em torno deles, à medida que se desenvolvia a gravidez de Filomena.
Tiveram que deixar o primeiro hotel por um outro mais modesto, depois este por outro, até que afinal, sempre fustigados por uma terrível adversidade, refugiaram-se numa hospedaria de terceira ordem, no largo de S. Bento.
Era uma casa térrea, mal frequentada, abafadiça, tresandando a cocheira.
Quando o Borges se apresentou com a mulher, os quartos estavam quase todos ocupados por uma companhia de saltimbancos, que trabalhava daí a dois passos, todas as noites, em uma barraca armada no largo. Um inferno de cães e macacos sábios!
De vez em quando uma briga. Então vinha a polícia: dava-se bordoada, fazia-se muita bulha; mas tudo, no fim de contas, acabava em boa paz.
Imagine-se agora como viveria o Borges nesse meio; ao passo que Filomena, longe de acompanhar o ressentimento do marido, descobria em tudo aquilo um sedutor aspecto de aventura e de boêmia, inteiramente novo para a sua fantasia. Aquela miserável espelunca, habitada por gente de circo, mascates e engraxadores, vista pelo prisma de sua loucura, tomou as dimensões românticas de um antro misterioso a Eugênia Sue.
Não obstante, o implacável circulo mais e mais se contraia em torno deles; as pequenas necessidades de todos os dias multiplicavam-se, trazendo cada uma a sua gota de fel, como uma praga de insetos venenosos. A necessidade principiava a transpirar o seu fétido horrendo, que a todos revolta e afugenta; enquanto que a inimizade, a desconsideração, a antipatia, o ódio, o desprezo vinham-se chegando para eles, como um bando de corvos ao cheiro da carniça.
O dono da casa, ao ver o Borges, fazia já uma careta de raiva; a lavadeira de Filomena escrevia-lhe bilhetes grosseiros, exigindo o pagamento de seu trabalho, e todos, todos os que os cercavam, tinham para eles palavras duras, olhares maus, gestos de desconfiança ou sorrisos de desprezo.
Então, o Borges, pela primeira vez, compreendeu que a pureza de seu caráter e a bondade de seu coração não eram dotes naturais, mas uma simples resultante das circunstâncias felizes de sua vida.
- Ah! dinheiro! dinheiro! pensou ele, tu és o único que nos dás o direito de sermos bons, generosos e abençoados pelos nossos semelhantes. Tu és o único que conquistas a simpatia e o respeito do mundo inteiro! Tudo me perdoavam - a estupidez, a brutalidade, a doçura, a fraqueza, até os crimes, se os cometesse; só não me perdoara já te não possuir. Ó meu chorado companheiro de tanto tempo! Que importa que do nosso dinheiro não participe ninguém? Que importa que ele só preste ao egoísta que o possui; que importa? O dono será sempre "um homem honesto!" Terá quem o defenda, quem o elogie, quem o ame, quem o proteja, quem lhe ofereça e dê aquilo que ele não pede e do que não precisa. "Não ter onde cair morto". Isto é que ninguém perdoa! Furta, mata, prostitui-te; mas, se deres à tua mãe o dinheiro que furtaste, serás "um bom filho"; se deres à tua mulher o fruto de tua prostituição serás "um bom marido"; se o deres à tua amante, serás "um fidalgo, um excelente cavalheiro, um homem de bem". E todos te abençoarão! Terás em redor de ti o acatamento, o sorriso, a lisonja, porque és, ou porque podes ser "bom". Porque o teu dinheiro vale pelo destino que há de ter e não pela procedência que teve!
Depois de semelhantes considerações, o Borges sentiu um profundo rancor pelo gênero humano e uma pesada indiferença pelo bom cumprimento do dever.
- Ilusão! tudo ilusão!... dizia ele, a sacudir a cabeça, sem se lembrar de que no meio de toda essa tempestade, o seu amor conjugal, aquilo que ele mais estimava no mundo, havia-se enfolhado e frutescido.
Mas o maldito círculo está prestes a esmagá-los.
Vendeu-se a última jóia; esgotou-se o último recurso.
Filomena, entretanto, não se mostrava aflita; não amaldiçoava o marido e, quando o via entrar da rua com a barba por fazer, a roupa esgarçada, os sapatos rotos, a camisa cheia de pó e de suor, e a cara transformada por um desespero supremo; ela, igualmente transfigurada, cheia de prenhez e mau trato, descarnada, sem cor, caía-lhe nos braços freneticamente, louca, ressuscitando-lhe, com os seus beijos de fogo, todas as feras adormecidas do amor.
Um belo dia, acordaram sem um real. O dono da casa negou-se logo a fornecer comida, enquanto não pagassem o que já deviam.
- Ao menos hoje! disse-lhe o Borges, tomando-o de parte. - não quero nada para mim, é só para ela, para minha mulher!... coitada! Ainda se não estivesse naquele estado... mas, assim a menor contrariedade pode lhe ser fatal! Tenha paciência!... o senhor receberá depois tudo o que ficarmos a dever!...
- É o diabo!... resmungou o estalajadeiro. - É o diabo! os gêneros não me vem de graça para casa!...
- Mas também eu não estou lhe pedindo que nos dê de graça! Ora essa! Apenas quero que espere um instante mais pelo pagamento!
- E qual é a garantia que tenho eu disto?! interrogou o locandeiro, picado já pelo tom em que lhe falava o hóspede.
- Eu não sei se o senhor pagará ou não!
- Ó homem! bradou o Borges. - Não hei de carregar minha mulher naquele estado, sem ter ainda para onde ir! Descanse, que hoje mesmo hei de dar um jeito às coisas!
- Pois dê primeiro o tal jeito, que eu cá estou para o servir do que quiser...
- Mas você não vê que ela não pode ficar sem comer até que eu volte?!...
O estalajadeiro sacudiu os ombros.
- Você não vê que isto é um caso sério?!... tornou o Borges.
- Nada tenho com isso, respondeu aquele.
- Mas você não vê que é uma questão de vida?! Você quer matá-la?!
- Que a leve o diabo!
- Maroto! exclamou o Borges, perdendo de todo a paciência e erguendo o estalajadeiro pela braguilha. Nem mais uma palavra. tratante! se não queres ficar em pedaços!
O homenzinho, à volta do passeio aéreo que deu, estava já disposto à atender às reclamações do Borges.
- Uf! gemeu ele, quando se pilhou no chão. - Olha que o senhor também é de um gênio! Safa! não se lhe pode dizer nada!... Toma logo o pião à unha! Pois eu era lá capaz de maltratar uma senhora, que se acha em um estado tão melindroso!...
- E maltrate, para ver o que lhe sucede! berrou o Borges, mostrando-lhe o pulso fechado. - Experimente que verá o bom e o bonito!
E saiu furioso, a praguejar.
- Ladrão! rosnou o outro, quando o calculou já na rua - o que tu merecias era uma facada nesse bandulho, grandíssimo sem-vergonha!
E, passando enfurecido pela porta do quarto de Filomena, acrescentou de modo a ser ouvido por ela:
- Diabos dos cafres! Arranjam galinhas chocas e querem que os mais as sustentem! Vão roubar para o inferno! Súcia de vagabundos!
Filomena, que estava de cama, porque nesse dia amanhecera mais incomodada, ergueu-se lívida e lançou-se instintivamente para a porta.
- É contigo mesmo, peste de uma bruxa! replicou o locandeiro, cuspindo sobre ela um olhar insolente.
- Canalha! gritou Filomena, correndo ao fundo do quarto para tomar o chicote. Mas, em meio do caminho, parou, levando com um gemido as mãos ao ventre.
- Ai! gritou ela, e deixou-se cair aos pés da cama, desfeita em sangue. Tinha abortado.
Uma acrobata americana, sua vizinha, que lhe ouvira o grito, acudiu logo em seu socorro.
* * *
Por esse tempo o Borges vagava de rua em rua, Inquieto, tonto, à procura de um conhecido, de alguém, de qualquer dinheiro, com que pudesse tapar a boca do maldito usurário.
Mas as horas Iam-se e vinham, sem trazer em nenhum de seus sessenta minutos uma só moeda de vinte réis... E, contudo não podia voltar à casa com as mãos vazias. Era preciso obter dinheiro, fosse como fosse - tratava-se da segurança de Filomena!
Deram quatro horas - nada; deram cinco - nada; nada! seis - ainda a mesma coisa!
Borges deixou-se cair exausto sobre um banco do Passeio Público. Ai! Como se sentia fatigado e como lhe doía todo o corpo! Palmilhara a cidade desde pela manhã, sem comer nem descansar, alimentando-se apenas com o fel de seus desgostos.
Começava a fazer-se noite. A hora melancólica do crepúsculo ainda mais lhe ensombrava o coração.
Sentia necessidade de morrer, desertar do mundo, lançar fora aquela existência, que lhe pesava sobre os ombros.
Escondeu o rosto nas mãos, fechou os olhos, e um torpor voluptuoso o foi invadindo a pouco e pouco.
Achou-se como num sonho; a realidade esbatia-se em torno de seus sentimentos amodorrados, espalhando-se até o pleno domínio da fantasia.
E toda a sua vida principiou então a lhe deslizar pelo espírito, como um interminável cordão de espectros, que se precipitavam vertiginosamente. Viu-se de todos os efeitos e em todas as idades; desde antes de se conhecer, até uma época que ainda não conhecia; desde a primeira infância, até a completa decrepitude.
Viu-se em Paquetá, descalço, em mangas de camisa, a cabeça ao sol; depois, ao serviço do pai, ajudando-o no trabalho, fazendo cobranças no fim do mês, perseguindo os maus pagadores; depois, homem sério, já estabelecido, de calças brancas, paletó de alpaca, chapéu do Chile; depois, de casaca, luvas de pelica, à espera da noiva; viu-se, no dia seguinte ao casamento, enfronhado no seu rodaque de brim, ajoelhado aos pés de Filomena; viu-se fumando o seu primeiro charuto e bebendo o seu primeiro trago de vinho; viu-se de barba raspada, bigode retorcido, fraque à moda; de espanhol, a raptar a esposa; de albornoz, a percorrer o Egito; de túnica, a passear na Índia; de touriste, a bordo dos paquetes; de chicard1 a dirigir o cotillon; viu-se de todos os modos; viu-se reduzido a boêmio, empenhando jóias; mendigo, a sentir fome, e afinal sonhou-se velho, arrastando-se pelas ruas, a pedir uma esmola por amor de Deus.
E toda essa variada coleção de tipos, todos esses Borges, giravam e rodopiavam de mãos dadas uns aos outros, saltando, esperneando, fazendo caretas, em torno de uma mulher esplêndida, coberta de diamantes, que se torcia de riso com uma taça na mão, a transbordar de champanhe, e olhava para todos eles, atirando a cada um, simultaneamente, frases de amor e de ironia, beijos e muchochos, suspiros e reviretes.
Foi surpreendido nesse ponto da vertigem por dois grossos pulsos que lhe batiam no ombro. Borges acordou sobressaltado; porém, mal voltou a si, um grito de prazer escapou-lhe dos lábios.
Defronte dele estava o Urso, a fitá-lo, de orelha em pé, a sacudir a cauda.
- Meu amigo! meu verdadeiro amigo! exclamou o pobre homem abraçando-se ao cão, enquanto lhe corriam dos olhos as mais verdadeiras lágrimas de ternura.
Urso respondia a lamber-lhe as mãos, a farejá-lo todo, a grunhir.
- Bom e fiel amigo, acrescentou o Borges, sem se fartar de contemplá-lo. Bem se vê que não és um homem! Injusto fui eu em não contar contigo na miséria, apesar de te haver abandonado no tempo da minha ventura! Mas que te hei de dar agora, fiel camarada; eu, que nada tenho para mim?!... Em todo caso, sinto-me mais forte! Vamos lá - havemos de viver!
E, dizendo isto, levantou-se, passou ainda uma vez a mão na cabeça do Urso e seguiu na direção do hotel. Talvez tenha fome!... pensava ele. Mas é impossível que eu não descubra alguma coisa para lhe dar.
* * *
 porta da estalagem, quando o Borges se aproximou com o Urso, estava o empresário da companhia de saltimbancos, de pernas cruzadas, a fumar cachimbo.
Era um italiano calvo, muito magro, alto, de grandes barbas negras, chamava-se Bela.
- Bom animal para um circo! pensou ele, atentando no Urso; se o tivessem ensinado valeria quanto pesa!
E os olhos do funâmbulo cresceram sobre o cão.
- Quer dez mil réis pelo bicho? perguntou, tocando no ombro do Borges.
Este fitou o italiano, sem responder.
- Dou-lhe quinze.
- Não, respondeu o outro secamente, penetrando já na estalagem.
- Vinte.
- Não! não! disse o Borges, fugindo a uma idéia que lhe acabava de atravessar o pensamento. - Não! seria infame!
- Pois se quiser vinte, é meu; mais não dou! gritou ainda da porta o empresário.
Borges já não o podia ouvir, porque a acrobata americana vinha de lhe comunicar o estado de Filomena.
Correu ao quarto da mulher. Encontrou-a estendida no leito, a gemer, a voltar-se incessantemente de um lado para outro.
- Que é isto?! perguntou ele, desvairado.
E, mal disseram a causa do acidente, precipitou-se, como louco, para a sala de jantar. O estalajadeiro, assim que o viu, calculou o risco que corria, e tratou de fugir; mas só teve tempo de se esconder dentro de um armário despratelado, que jazia a um canto da sala.
Este jogo de cena fez alguma bulha e atraiu todos os de casa. Quiseram logo impedir que o Borges se aproximasse do armário.
Vão esforço. João Touro, com o primeiro arranco, lançou por terra os que o tentavam segurar e atirou-se contra o armário.
Não se deu ao trabalho de abri-lo, abarcou-se sobre o peito, ergueu-o, e, depois de sacudi-lo duas ou três vezes, arremessou-o pela sala, varando tudo que estava no caminho.
Um clamor estrepitoso rebentou em volta dele. No meio do barulho, ouviam-se os gritos do estalajadeiro, o ladrar do Urso, que acompanhava aos saltos os movimentos do amo e, de todos os lados, um coro terrível de exclamações cheias de assombro, de raiva e de terror.
Mas os que ficaram machucados logo ao primeiro encontro acudiam já contra o Borges, armados de cadeira; a companhia em peso, tomando as dores pelo dono da casa, não tardou igualmente a lançar-se sobre ele, e, em menos de dois segundos, travou-se o mais formidável sarilho.
Foi uma coisa horrorosa!
O Borges, fora de si, ia agarrando o que lhe caía nas mãos e arremessando para frente. Voaram mesas, cadeiras, estantes, aparadores, garrafas, tudo!
A sala, em breve, ficou completamente vazia, e ele, só ele, passeava de um para outro lado, rugindo e fungando como um verdadeiro touro.
- Foi o empresário da companhia, o Belo, o primeiro que se animou a voltar à sala... Mas não trazia aspecto de briga; ao contrário, aproximou-se do Borges com toda a calma, e disse-lhe em voz baixa:
- Tenho uma proposta a fazer-lhe...
- Que é?! gritou o marido de Filomena.
- Contratá-lo para a minha companhia. O senhor, com a força de que dispõe e com o seu Urso, pode fazer chicanas. Dou-lhe duzentos mil réis por mês. Aceita?
- Aceito, respondeu o Borges, sem vacilar. Mas com a condição de que o senhor pagará imediatamente o que devo nesta casa.
- Está dito, respondeu o italiano. É só fecharmos o contrato; isso faz-se num instante.
E o estalajadeiro, uma vez embolsado, declarou que retirava o que dissera pela manhã, e pediu que lhe perdoassem o mal que havia causado e afiançou que sua casa e os seus serviços estavam sempre às ordens de Borges.
Este tratou logo de pôr a esposa ao corrente do passo que acabava de dar.
- Magnífico! exclamou ela. Oh! magnífico! Contanto que o italiano esteja disposto a me arranjar igualmente um lugar na sua companhia.
- Hem?! Um lugar... um lugar para ti? Estás gracejando com certeza!...
- Juro-te que não. E desde já te previno de que só nesse caso consentirei que cumpras o teu contrato!
- Mas, meu amor, aquilo não te pode convir... do que iria te encarregar numa companhia de acrobatas?! É preciso ver a coisa por este lado!
- Ora! E o meu talento coreográfico, e a minha voz de contralto, a minha beleza, e o meu espírito, não valem tanto como a tua força e o teu cão?!
No dia seguinte, Filomena estava também contratada. Esperariam apenas que se restabelecesse completamente para metê-la em serviço.
- Diabo era se iam encontrar na platéia algum velho conhecido dos bons tempos!... Ainda se fosse eu só!... pensava o Borges. Mas a questão é minha mulher!
O empresário cortou essa dificuldade lembrando que Filomena, para não ser conhecida, podia muito bem se disfarçar em índia, pondo uma cabeleira e pintando-se de cabocla, e que o Borges, ainda com mais facilidade podia caracterizar-se de inglês. - Um pouco de vermelhão, um par de suíças ruivas, e aí teriam o mais legítimo e completo atleta deste mundo! Quanto ao Urso - pouco seria necessário para reduzi-lo a um urso verdadeiro.
Ficou tudo combinado.
Borges lutaria com a sua fera e com os homens que se apresentassem; faria exercícios de força, suspenderia barras de ferro, carregaria e dispararia uma peça ao ombro, jogaria enormes balas de cinco arrobas, etc... etc... Filomena dançaria vários passos difíceis e cantaria os seus tangos e as suas cançonetas.
Convinha é que ela se restabelecesse quanto antes, para poder abandonar aquela maldita estalagem e cuidar dos primeiros ensaios. Felizmente a cura foi rápida e, graças aos novos recursos, de que dispunham, Filomena, a primitiva, a formosa, a deslumbrante Filomena Borges, surgiu da cama ainda mais bela, mais petulante, como se a idéia de farandulagem que a esperava lhe fizesse ressaltar os encantos, ajuntando-lhes uma nota diabólica de desordem e de boêmia.
O empresário esfregava as mãos de contente, quando a viu no dia da mudança. Ou ele muito se enganava, ou aquela mulherzinha ia fazer uma revolução no público!
Principiaram os ensaios, logo depois que saíram da estalagem. Filomena, as primeiras tentativas, revelou uma tal habilidade para a sua nova profissão, que o Bela ficou deveras encantado.
Ninguém seria capaz de dançar e cantar um tango brasileiro com mais graça nem com mais originalidade.
Em corpo algum de mulher diziam tão bem as penas sensuais da tanga, as axorcas orientais e o emplumado e pitoresco cocar indígena.
- Achei a sorte grande, não há dúvida! considerava o Bela com os seus botões.
É que, além de Filomena, o Borges enchia-lhe as medidas. A luta deste com o Urso faria furor! O cão efetivamente, depois de certos arranjos no focinho, nas patas e na cauda, não deixava, nem de leve, suspeitar a sua modesta procedência.
Espalharam-se logo por todas as esquinas imensos cartazes, anunciando os "dois célebres artistas, que acabavam de chegar de Paris, contratados para o Pavilhão Chinês".
Pavilhão Chinês era o circo de Bela.
"- Grande sucesso do dia! A linda Vênus Americana, o invencível Hércules Inglês e o indomável e terrível Urso Negro"...
Acompanhava esses nomes um pomposo programa de espetáculo, onde vinham as mais provocadoras considerações a respeito daquelas três celebridades.
Apesar, porém, de tudo isso e das bandeiras e luminárias com que o Bela enfeitou seu pavilhão, a estréia dos novos artistas não foi muito concorrida. Mas, da segunda noite em diante, a formosura irresistível de Filomena principiou a atrair extraordinária concorrência.
Não tardou a rebentar em toda a cidade um entusiasmo apoplético por aquela Vênus cor de amêndoa, que parecia ter furtado às serpentes do Brasil o segredo de suas curvas sensuais, quando ao som dos lundus e das habaneras, quebrava e retorcia o corpo, como numa agonia de amor.
A Faculdade de Direito em peso não abandonou mais as galerias do Pavilhão Chinês: os jornais acadêmicos apareceram repletos de artigos, crônicas, versos, o diabo! a respeito de Filomena. E o povo, o grosso povo, acudia de todos os lados, a um mil réis por cabeça.
Ah! mas Filomena tinha um corpo admirável e excepcionalmente correto. Ela não punha espartilhos e, com uma simples camisa de meia cosida à pele, principiava a sapatear, a torcer-se toda aos gemidos das habaneras, fazendo e desfazendo as curvas magnéticas dos rins, expondo corajosamente a pureza grega de sua cintura elástica e vibrante, como se a alma de uma danseuse da Grande ópera tivesse tido a fantasia de encarnar-se num dos velhos mármores do Partenon.
Era um delírio, quando a banda de música rompia o tango, e Filomena, vestida de índia, saltava ao meio do circo, a jogar o corpo para a direita e para a esquerda, ora num pé, ora no outro, os braços no ar, a cabeça bamba, a boca a sorrir, os olhos a requebrarem-se.
- Bravo! Bravo a Vênus! Quebra! gritavam de todos os cantos.
E choviam flores. E os chapéus, os lenços e as bengalas juncavam o tapete que ela pisava.
* * *
Por outro lado, o Hércules Inglês ia conquistando as simpatias do público. A sua melhor sorte era a que ele executava com o bom Urso: "a vida pelo combate ou a luta terrível do homem com a fera", segundo diziam os anúncios.
Consistia no seguinte:
Seis homens arrastavam para o meio do circo uma enorme gaiola de grossos varões de ferro, pousado sobre quatro rodas, na qual vinha o pobre animal, arvorado em fera e preparado de modo a iludir os mais espertos.
Logo depois, com as suas suíças ruivas, as suas faces cor de sangue, aparecia o Borges, vestido de guerreiro romano, cheio de escamas e cintilante de lantejoulas: na cabeça um grande capacete de folha de Flandres e na mão uma pequena vara de ponta encarnada.
A terrível fera, ao ver surgir o domador, começava a agitar-se, a espolinhar-se como sequiosa de sangue.
Ouviam-se então por todo o circo uns rugidos medonhos e atroadores, que Bela, escondido debaixo da gaiola, soltava com o auxílio de uma trombeta de sua invenção.
Todos emudeciam. E, entre o resfolegar ansiado do público, caminhava o domador a passos firmes para a jaula. Abria a portinhola, entrava, e de carreira ia lançar-se ao monstro, que se erguia logo nas pernas de trás e roncava com mais força.
Principiava a luta.
Por vezes caía o homem, quase vencido, mas de pronto se levantava e de novo investia contra o formidável adversário, até conseguir domá-lo, segurando-lhe o pescoço com uma das mãos e paralizando-lhe com os pés o movimento das pernas.
Nisto, de todas as curvas da barraca, rompiam os aplausos. E, dentre a enorme gritaria, só se destacava uma palavra, que era repetida por mil bocas:
- Basta! Basta! Basta!
E o Hércules, inalterável e frio como se tivesse plena consciência de seu valor, saía da jaula, fechava bem a cancela, cumprimentava o público e recolhia-se modestamente ao interior do circo.
Quando porventura aparecia alguém que quisesse lutar, ele nunca se negava; e, quando não aparecia, era o Bela que desfrutava essa honra, deixando-se vencer no fim de um quarto de hora, e retirando-se depois para os fundos do barracão debaixo de uma tremenda vaia do público.
* * *
O fato é que, dentro de pouco tempo o empresário levantou a cabeça, graças aos seus novos artistas, que eram já considerados os primeiros da troupe. Mas, se quis conservá-los, e conseguir que eles o acompanhassem numa excursão pelas outras províncias, teve que lhes dobrar o ordenado, oferecendo-lhes depois novas vantagens, e, afinal, associá-los à empresa.
Borges e a mulher faziam progressos admiráveis. Depois de percorrerem Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas, achavam-se possuidores de alguns contos de réis e podiam, como desejava o marido, abandonar a vida de saltimbancos e abraçar uma carreira menos repugnante.
Mas, no coração romanesco e aventureiro de Filomena, o prazer do aplauso, o gozo da nomeada, encontraram terreno propício e haviam já cravado bem fundo as suas raízes.
Entretanto, a vaidade de artista festejada pedia-lhe horizontes mais largos e conquistas mais nobres. Agora toda sua ambição era ligar o seu verdadeiro nome, o. seu nome de batismo, às glórias que conquistava em público.
Não hesitou em separar-se do Bela, contratar por sua conta novos artistas, formar um novo plano de trabalho e, com o seu vasto repertório de lundus, tangos e modinhas brasileiras, que ela colecionara pelas províncias, e, com as vestimentas indígenas, que trouxera do Amazonas, levantou ferro para as repúblicas vizinhas.
Mau grado os conselhos de Borges, que ardia por um momento de descanso, percorreu-as de Patagônia a Venezuela. Seguiu depois para a América do Norte, onde, durante um ano, ganhou rios de dinheiro, e por fim, aguilhoada pela idéia de aparecer na Europa, despediu todo o pessoal e, apenas acompanhada pelo marido e pelo Urso, levantou a proa sobre Paris.
O Borges, a despeito de sua constante revolta com o destino, nunca estacionou um momento.
Aprendeu a executar os jogos malabares, exercícios no trapézio, ginástica sobre o cavalo, mágicas e prestidigitação.
De Hércules Inglês passou a equilibrista japonês, fazendo-se anunciar com o nome de Tchím-Chim-Fu. E trabalhava vestido de seda amarela, uma grande mitra encarnada, um leque na mão, todo cheio de mesuras e saltinhos, sem que ninguém pudesse suspeitar que aquelas pantomímices escondiam um coração puro e singelo, talhado para o amor da família, para a dignidade do lar doméstico e para os exemplos da honra e da perseverança no trabalho.
E promiscuamente foi tudo quanto se pode ser dentro de um circo, desde o palhaço vulgar, de cabeleira ponteaguda e cor de fogo, a cara empastada de alvaiade, até o empresário de casaca e luva, que dirige os trabalhos e manobra os cavalos, de chicote em punho e comenda ao peito.
Mas em Paris faria de selvagem. Estudou bem um botocudo e escolheu o pseudônimo de Bu-ru-cu-lu-lu, que, com certeza, iria produzir muito boa impressão nos anúncios.
A mulher conservaria as suas roupas indígenas, mas não havia de pintar mais o rosto, nem esconderia o nome, seria limpa e claramente: "Filomena Borges - A Brasileira".
O Urso é que ficara de melhor partido - ia deixar a cena e recolher-se à sua primitiva e sossegada posição de animal doméstico. Já não era sem tempo, coitado! O pobre cão estava velho e sentia fugirem-lhe progressivamente as faculdades.
Estrearam no Cirque d'hiver.
Que sucesso! Os parisienses cansados de boa música e fartos de artistas célebres; os parisienses desiludidos, esgotados, blasés, ainda tiveram fibra para um arrepio novo, quando ouviram os chorados da Bahia e as modinhas do Pará, gemidos em português por aquela deliciosa filha dos trópicos, que não precisava de espartilhos e peitos de borracha para dizer na linguagem clássica e singela das curvas carnais toda a velha sensualidade paradisíaca.
O Borges, na sua humilde qualidade de botocudo, não tinha mais que afetar grande selvageria e deixar-se expor com os seus botoques nos beiços e nas orelhas, como um bicho perigoso e raro. Foi esse o meio único que descobriu o pobre homem para não se fatigar em extremo, pois várias vezes teve de sair de seu sossego e ameaçar com as suas flechas de ubá e com os seus guinchos atroadores os gommeux embeiçados pela mulher.
Ingleses silenciosos e tradicionais excêntricos, russos viajantes, príncipes de várias partes do mundo, vinham Cirque d'hiver atirar o coração e a bolsa aos pés da formosa brasileira. Filomena, porém, não era mulher que sucumbisse a tais seduções e, já com a tática que apanhara nos teatros, já com os conselhos que em pequena recebera de D. Clementina, sabia pilhar de seus adoradores tudo que entendesse sem lhes dar em troca mais que os seus famosos olhares de ternura e os seus belos sorrisos de esperança. Só nas ocasiões supremas é que o terrível botocudo se mostrava, armado, de tamarana, uirupara e esgaravatana, e, tal gritaria e tais ameaças punha em jogo, que ninguém levaria a sua intrepidez a ponto de avançar.
Não obstante, ele às vezes ficava sobressaltado e receoso.
- Não acho muito prudente que te exponhas deste modo, meu amor! dizia em segredo à mulher - podes vir a cair em algum laço... Conhecemos muito pouco esta cidade, e os parisienses, minha vida, gozam a esse respeito de uma fama terrível!... Quanto a mim, acho que o melhor seria deixarmos por uma vez esta maldita vida de teatro e irmos descansai a um canto sossegado e feliz da nossa terra!... O que já possuímos, com alguma economia, chegar-nos-á perfeitamente para o resto da existência, e, confesso-te, minha santa, desde que me casei, não faço outra coisa senão suspirar por um momentozinho de repouso!...
Filomena sorriu.
- Ora, queira Deus que te não venhas a arrepender!... acrescentou o Borges. Tenho pressentimentos horríveis com esta cidade infernal!
- Descansa, meu bom amigo, respondeu a esposa. São de todo infundados os teus receios! Descansa, eu sei o que faço; não me há de suceder coisa alguma!
- Hum, hum!... resmungou o botocudo, sacudindo a cabeça. Não sei que te diga!... Olha, esse tal duque louro, por exemplo, esse que te mandou ontem aquele diamante negro, não me passa da garganta! É de todos o que mais me incomoda! Não sei que diabo acho na cara de semelhante homem!
* * *
Nesta noite, já no teatro, quando ela se preparava para entrar em cena e o marido metia no pescoço o seu barulbento aiucará. feito de búzios e dentes de animais ferozes, foram surpreendidos por uma voz que, da porta do camarim, dizia no melhor português:
- É permitido cumprimentar a formosa brasileira?...
- Pois não! respondeu esta, ordenando à criada que fizesse entrar a visita na pequena sala próxima.
E, quando apareceu, já pronta: - Oh! o duque!... Não sabia que V. Ex. falava português, e com tanta perfeição!
- Pois se eu sou português...
Ah! fez ela, considerando o tipo louro que tinha diante de si.
Dir-se-ia um alemão. Era baixo e gordo, vermelho, bigode e barba à Cavaignac, cabelos de um amarelo frio e seco.
- Não falemos nisso, interrompeu ele - tratemos de outra qualquer coisa!... De seu esplêndido país, por exemplo.
- O Sr. duque conhece o Brasil?...
- Não. Nunca fui ao Brasil, mas tenho lá muitos parentes e amigos.
Parentes! Na corte ou nas províncias?
- Na corte.
- Ah! Então devo conhecer algum deles. Eu sou filha da corte.
- É inútil insistirmos: não conhece com certeza... é uma família de estrangeiros...
- Ah! balbuciou Filomena, tornando-se mais cortês, porque havia já suspeitado quem vinha a ser aquela incógnita visita. - É ele, com certeza... pensou de si para si.
Mas, nesse momento, o Borges acabava de entrar na pequena sala e, no seu papel de botocudo, foi assentar-se a um canto, sem mais cerimônias.
- Tomo a liberdade de apresentar-lhe meu marido, disse Filomena, mostrando-o ao duque.
O selvagem monologou alguns sons guturais e sem sentido e encarou a visita, franzindo as sobrancelhas.
- Ainda não conseguiu familiarizar-se com as línguas estranhas, explicou Filomena.
E percebendo no duque um gesto de contrariedade:
- Pode conversar à vontade em português; Bu-ru-cu-lu-lu não entenderá uma palavra do que ouvir. Só eu posso fazer-me compreender por ele, graças ao pouco que sei do tupi.
- Mas como foi a senhora, tão bonita e tão delicada, descobrir esse monstro para seu marido?... quis saber o fidalgo.
- Devo-lhe a vida!... respondeu Filomena. - Se não fosse esse bravo indígena, teria sido devorada pelos seus compatriotas numa lamentável excursão que fiz ao Alto Amazonas...
- Ah! E sabe o que o levou a salvá-la?
- O amor, creio eu. Este pobre monstro viu-me de longe entre os seus companheiros, correu-me aos pés, ajoelhou-se, em seguida tomou a minha defesa, matou os que me queriam fazer mal, carregou comigo para um lugar seguro, e desde este instante me segue como um cão. É de supor que me tomasse por alguma divindade!... Pelo menos, assim me leva a crer o respeito religioso que ele me tributa!
- Ah!
- De resto, não tem absoluta consciência do que faz - é uma espécie de bicho! Não sabe a razão por que aparece em público; não compreende nada do que o cerca. Uma ocasião, perguntei-lhe, por curiosidade, que efeito lhe produzia Paris, e, pela resposta que deu, concluí que o tolo se supõe numa existência de além túmulo, julga-se no paraíso de sua religião.
- Como assim? perguntou o duque intrigado.
Filomena apressou-se a explicar:
- É que, na ocasião de defender-me de seus companheiros, Bu-ru-cu-lu-lu ficou muito ferido e, ao chegar a Manaus, acometeram-lhe febres tão fortes, que o fizeram delirar três dias consecutivos. Pois bem, o toleirão imagina que sucumbiu à moléstia e que voou logo às mansões siderais, onde eu represento para ele a veneranda encarnação do poder altíssimo e da suprema divindade!
- De sorte que ele se julga já falecido?... perguntou o duque com interesse.
- Em plena bem-aventurança eterna. Julga-se como alma do outro mundo. Paris, que é o édem terrestre dos estrangeiros, para ele, coitado! é nada menos que o paraíso celeste!
- É singular!
- Singular e extremamente cômodo para mim, prosseguiu a brasileira, gozando do efeito que as suas palavras produziam na visita. - Imagine o Sr. Duque que o fato de meu marido se julgar morto faz que ele me tenha comigo a menor exigência e se submeta humildemente ao que eu lhe ordene. Entretanto, é o meu guarda, é a minha defesa: quando o sinto ao meu lado, não tenho que recear qualquer agressão, venha ela de um leão das salas ou de um leão das florestas!
- É muito singular! repisou o duque, reconsiderando com um ar de pasmo a grossa e taciturna figura do Borges, acocorado ao canto da sala. Sim, senhora! Está garantida!
- Ah! perfeitamente garantida! Já vê o Sr. Duque que eu não poderia encontrar melhor marido em parte alguma do mundo!
- Ele então não consente que lhe toquem sequer com o - dedo?... perguntou o louro, fazendo um ar de desgosto.
Experimente! disse Filomena, faça que me vai prender o braço.
O duque estendeu a sua mão calçada de luva da Escócia e fingiu que ia tocar no carnudo braço da artista.
O Borges ergueu-se logo e, movendo lentamente a cabeça para os lados, com movimentos de urso velho, principiou a rondar em torno dos dois, farejando.
- E se eu me arriscasse a dar-lhe um abraço?... perguntou o duque.
- Deus o defenda! Nem é bom pensar nisso! Bu-ru-cu-lu-lu seria capaz de estrangulá-lo no mesmo instante! Não queira experimentar, que eu não respondo pelas conseqüências.
- E não havia meio de estar um momento em sua companhia sem a presença desta alimaria?!
- Pode haver, mas é muito arriscado! Ele tem um faro mais sutil que o de qualquer cão de caça!... Iria descobrir-me no inferno, se no inferno eu me escondesse!
- E por que não se desfaz a senhora de semelhante bruto?! No fim de contas, deve ser aborrecido suportar eternamente este orangotango.
- Se lhe estou dizendo, Sr. Duque, que o demônio do bicho tem faro!
- Era fazer presente dele ao museu zootécnico de França, em nome do Imperador de seu país, que é um sábio. E com isso a senhora ainda prestaria um relevante serviço à biologia. Se quiser eu encarrego-me de o remeter à comissão que recebe os donativos.
- Não! disse Filomena, por ora não. Mais tarde pode ser que aceite o seu oferecimento.
- Pois, quando quiser, estou às suas ordens, acrescentou a ilustre visita, erguendo-se e tomando a mão de Filomena para depor um beijo.
Mas o Borges afastou-se da mulher, metendo-se entre os dois grosseiramente.
- Este animal não me deixa pôr o pé em ramo verde! pensou o fidalgo, saindo contrariado, depois de cortejar a brasileira.
Borges acompanhou-o até fora da porta e, ao voltar para junto da mulher, disse-lhe esta:
- Conheces?
- Quem? Este tipo? Não!
- Oh! o D. Luís, homem!
- Que D. Luís?
- O D. Luís, de Portugal.
- Ora essa!
- Pois é ele
- Queira Deus que estas brincadeiras não te venham a dar na cabeça!... observou o botocudo.
- Deixa-te de receios, meu selvagem - e vem daí, que já deu o segundo sinal para principiar o espetáculo!