Foi dessa forma que Filomena logrou conciliar os ganhos de dançarina requestada com as suas intransigências de mulher honesta e com os eternos desvarios de seu temperamento romântico, fazendo sempre do amor do marido um instrumento de sua fantasia, transformando-o e disfarçando-o sob as singularidades de seus caprichos, dando-lhe atrações que ele por si não tinha, e sem as quais ela não o poderia suportar.
As ternuras do Borges só lhe alcançavam o coração depois de filtradas por uma rede de sobressaltos; essa rede era para aquele amor o que uma flauta é para o sopro - o meio de o transformar em notas harmoniosas e comovedoras.
Queria todos os beijos do esposo, sim! contanto que não viessem naturalmente, sem obstáculos a vencer ou conveniências a guardar. Era preciso que houvesse necessidade de escondê-los de alguém, de obtê-los com sacrifício de alguma coisa; era preciso enganar, fingir, despertar suspeitas, levantar desconfianças, promover comentários.
Não consentia por isso que o Borges se denunciasse a quem quer que não fosse ela. Exigia que o marido só deixasse de ser aquele selvagem repulsivo e terrível, quando estivesse ao seu lado, em completa intimidade de alcova. Essa mistificação tornava-se indispensável para a ventura de Filomena.
O botocudo intrigava muita gente: - Seria crível que uma mulher, tão formosa e tão lúcida, tivesse por marido aquela besta do Alto Amazonas?... O monstro seria de fato seu amante, ou ela o conservaria como uma simples réclame?...
E os comentários reproduziam-se entre os freqüentadores do Cirque d'hiver à proporção que Filomena ia se tornando conhecida e sendo cada vez mais desejada e menos condescendente.
Em alguns passeios de distração que fez aos arredores de Paris, quase sempre escoltada por uma corte de adoradores, o Borges, que não queria acompanhada de selvagem, tinha de segui-la a certa distância, usando de todos os expedientes para não ser descoberto e para que não suspeitassem de leve que ele ia à pista da brasileira.
Estava nisto empenhada a sua honra, isto é, a honra do marido de Filomena.
Que lida, que trabalho, que tortura, para gozar com ela nessas ocasiões alguns momentos de felicidade! Era preciso recorrer aos mais engenhosos estratagemas; tinha de saltar muros, às vezes servir-se da chaminé, introduzir-se-lhe no quarto, por alta noite, a tripetrepe, quando não fosse pressentido por nenhum dos apaixonados da sua mulher, que estavam todos de orelha em pé, à espera do primeiro escândalo.
E tudo isso o torturava abertamente. - Maldita fosse a hora em que ele se fez botocudo! em que ele se meteu na casca daquele bicho.
* * *
Entretanto, o nome da original e formosa brasileira derramava-se por Paris invadindo as redações das folhas, os salões, os ateliers, os boulevards, os cafés, as corridas, os foyers de todos os teatros, as mansardas das tristes costureiras e o quinto andar dos magros estudantes.
Atribuíram-lhe anedotas, inventaram-lhe legendas, fizeram-lhe canções e trolets, publicaram-lhe a biografia em pequenas revistas teatrais.
E o mundo inteiro viu-a, admirou-a, em caricatura, em fotografias, em cromos, em caixinhas de fósforos, em bustos de gesso, em nervoso grevíns de terre culte. E por toda a parte a pareceram chapéus, fazendas, penteados à Filomena Borges. Seu nome serviu de título a casas de negócios; suas toillettes serviram de modelo; suas frases foram repetidas, publicadas, decoradas. traduzidas em todas as línguas.
Quando ela terminou a longa excursão que fez pelo norte da Europa, possuía em dinheiro e em jóias mais que o necessário para viver tranqüilamente o resto de sua vida.
Por outro lado, o Borges, que ao sair de Paris abandonara finalmente o incômodo papel de botocudo e retomara o seu titulo de barão de Itassu, rogava-lhe com instância que deixasse o diabo do teatro e fosse por uma vez descansar com ele a um cantinho feliz da pátria - a Paquetá, por exemplo, a Paquetá de que ele tinha as mais vivas saudades!
- Havia perto de dez anos que vagabundeavam por esse mundo de Cristo. Era mais que tempo de regressarem! Ele estava farto de nunca ser aquilo que era, de nunca desfrutar em paz a felicidade que lhe pertencia de direito!... Para que ir mais longe?... Achavam-se ricos pela segunda vez; tinham já experimentado todas as comoções; haviam percorrido já toda a escala da vida humana - riram-se com os felizes, choraram com os desgraçados - sofreram e gozaram; tiveram o que há de bom e o que há de mau, tiveram tudo! Para que continuar?!
A baronesa, porém, sorria desdenhosamente às palavras do marido:
- Ela voltaria à pátria, sim, estava disposta a voltar, mas havia de ser precedida de réclames e anúncios retumbantes! Queria entrar no Brasil com ruído, levantando a poeira da capital em peso, sobressaltando a população, desencaxilhando-a de seus eixos, perturbando a vida burguesa dessa aldeola, que tinha i suprema honra de lhe haver dado o berço!
- Não iria trabalhar do mesmo feitio que trabalhara em Paris nos circos e vaudevilles, ou como trabalhara em S. Paulo, numa barraca de saltimbancos; nunca mais vestiria a sua pitoresca fantasia de penas e tecidos de palha; não seria a indígena que tantos corações fez pulsar, mas em compensação havia de ser a "Exma. Sra. Baronesa de Itassu". Enorme cauda de veludo! jóias deslumbrantes! luvas até o ombro!
E só se dignaria de cantar algumas notas em concertos muito escolhidos, na melhor sociedade; ou então, lá uma vez por outra para quebrar o seu tédio de mulher célebre e obrigar o Rio de Janeiro a ir ajoelhar-se-lhe aos pés, mostrar-se-ia condescendentemente no teatro Pedro II, entre o que houvesse de mais fino na roda dos artistas. Tinha certeza de que seu nome, enxertado num programa de espetáculo, esse nome que os parisienses decoraram, seria o bastante para encabrestar a população da corte e traze-la de rastros aos degraus de seu trono.
E queria o Borges que ela fosse descansar a Paquetá!...
- Mas, santo Deus! estaria nas suas mãos porventura sumir-se por uma vez, desaparecer, fugir?!... Isso vinha a ser pior que a morte, vinha a ser o aniquilamento em vida!
Do que havia experimentado até ali, do que havia sentido, do que sofrera, do que gozara - nada a satisfizera completamente! Ainda lhe faltava qualquer coisa! No seu coração ainda existiam fibras intactas, que precisavam vibrar!
- Ai, ai, ai! gemeu o Borges, levando as mãos à cabeça. - Valha-me Jesus Cristo! que ainda temos fibras para vibrar! Ainda não é desta vez que sossego?
- E para que sossegar?! interrompeu Filomena. - Que significa o repouso? Pensarás que eu hoje seria capaz de resignar-me à morbidez estúpida de uma existência sem idéias nem aspirações? Pensarás que eu consentirei em abandonarmos a vida pública, sem que te hajas celebrizado ao menos uma vez, sem que tenhas conquistado um nome digno de mim e digno de teu mérito?!...
- Hem?! Como é lá isto?!... exclamou o Borges com um salto. Pois tencionas fazer ainda de mim uma celebridade? Contas que eu venha a ser um "grande homem"?!
- Certamente! certamente! Ao contrário não valeria a pena gastarmos tanto tempo e tanto esforço em preparar o teu espírito!
- Ora essa! De sorte que até agora... eu nada mais fiz que preparar-me?...
- Para conquistar uma posição eminente, concluiu a mulher. Foi nessa esperança que te dediquei a minha vida e o meu amor!...
- Mas Filoquinha de minhalma! eu não disponho de aptidões para isso!... Bem vês que até hoje tenho feito por ti tudo que está nas minhas mãos... Como, porém, hei de ser aquilo para que me faltam certos conhecimentos e uma certa dose de talento?!...
- Isso é o que pensas, e a modéstia com que te julgas é mais uma prova de tua competência! O verdadeiro mérito é sempre assim!
- Mas eu dou-te a minha palavra de honra em como não tenho o menor talento! Acredita que é esta a pura verdade! Sinto perfeitamente que não serei jamais um "grande homem"!
- Se sentisses o contrário, é que nunca o poderias ser!
- Ora, que desgraça a minha!... considerou o Borges de si para si. - Ora, que eu não consiga entrar um momento nos seus eixos, sem ter de contrariar minha mulher! De que havia agora de se lembrar - querer que eu seja um "grande homem". Eu, que não sirvo para essas coisas! eu, que abomino a popularidade, o escândalo, o ruído! eu, que já me impacientava de a ver tão conhecida, e suspirava todos os dias por sair desta inferneira!
- Não! disse ele em voz alta. Não! Tem paciência! Isso é impossível! Pede o que quiseres, mas não exijas de mim uma coisa de que eu não disponho!
- Entretanto, assim é preciso, respondeu Filomena, a não ser que estejas resolvido a destruir num segundo a única esperança que me resta!...
- Mas a questão é que a gente não é "grande homem" quando quer!... Ora essa! replicou o Borges.
- E muito menos quando não quer! volveu a outra. - Não exijo de ti mais do que um pouco de boa vontade; o resto fica por minha conta!
- De boa vontade?!
- Sim, de resolução. Contento-me com isso!
- Mas se tenho toda a certeza de que esse esforço será baldado!... Eu bem me conheço, minha mulher!...
- Seja ou não seja baldado, ele é necessário para a minha felicidade e para a segurança do amor que te dedico! Agora, se entendes que não vale a pena...
- Eu não disse semelhante coisa!... Valha-me Deus! Teu amor está acima de tudo, e creio já ter dado provas disso. Mas, deixa que te diga, com franqueza: eu, isto aqui entre nós, eu nem sei em que consiste o tal esforço de que me falas; não sei os passos que é preciso dar; não sei como a gente se faz célebre ou o que melhor queres que eu seja!
- Não é tão difícil como te parece à primeira vista. - Se o Brasil estivesse em guerra, sentarias praça quanto antes e dentro em pouco tempo poderia alcançar um posto elevado. Farias uma bela carreira nas armas!
- Deus me livro!
- Mas, continuou Filomena - desgraçadamente estamos numa paz absoluta, e, por conseguinte, só nos resta a política.
- A política?...
- Sim, visto que nas artes ou nas ciências já não poderás fazer nada. Agora é escolher uma causa política e caminhar desassombradamente!
- Uma causa?!
- Sim, uma idéia, um princípio patriótico, qualquer coisa que esteja articulada aos atuais interesses do Brasil! Descoberta a tua idéia, não tens mais que defende-la; então escreverás, escreverás sem cessar; publicarás tudo que te vier à cabeça a respeito de tua causa; darás por paus e por pedras; falarás de tudo e de todos, até que sejas um homem perfeitamente conhecido, e o imperador te chame para junto de seu trono. Uma vez ao lado de meu padrinho, só não obterás o que não quiseres. Entendes tu?
Borges apertou os beiços. E, sacudindo a cabeça:
- É difícil!
- Que difícil o que! retrucou a mulher. - Difícil era conquistar o meu coração e a minha confiança, e conquistaste-os! Não queiras parar em meio do caminho; conquista também o meu entusiasmo e a minha admiração. Faze-te grande! Faze-te célebre! coloca-te ao meu lado! Sobe à minha altura! acompanha-me no vôo!
- Veremos, veremos... prometeu o marido vagamente. - Hei de fazer a diligência!
Se fosse coisa que estivesse em suas mãos, a mulher nem precisava pôr tanto na carta! Mas que diabo! Aquela história de descobrir uma causa para defender; o fato de ter de publicar artigos sobre artigos; falar de tudo e de todos; isso é que lhe fazia confusão e dava-lhe volta ao miolo; mas, enfim, estava disposto a empregar a diligência. - Já agora, seria o que Deus quisesse!...
E nessa disposição acompanhou de novo a mulher para o Rio de Janeiro.
Filomena não se enganara quanto à previsão do entusiasmo que havia de causar no Rio de Janeiro. Bastou constar que vinha aí a famosa cancionista, tão apreciada de Paris, para que toda a cidade se mostrasse tomada de uma loucura instantânea.
E desde então até a sua chegada foi ela a ordem do dia; não se falava noutra coisa. Esperavam-se contando os minutos; um sussurro uníssono de elogios evolava-se da opinião pública, sem que ninguém pudesse explicar a causa de semelhante alacridade.
Afinal, chegou.
Que frenesi! Todos queriam ser o primeiro a vê-la. O cais Pharoux parecia diminuir sob a multidão que o coalhava. Viam-se enormes grupos, esparsos, por aqui e por ali, galgando a muralha, invadindo as lanchas e os escaleres. Nas ruas faziam-se comentários a respeito da baronesa de Itassu; os jornais pregavam na parede notícias a respeito dela; vendia-se o seu retrato em todas as proporções; inventavam-se biografias.
Uns afirmavam que Filomena Borges era um modelo de virtudes; outros que era uma grande velhaca. Este jurava que a vira já muito por baixo, num hotel; aquele dizia que ela fora sempre riquíssima, e que só trabalhava em público por amor à arte. Aqui afiançavam havê-la visto, em tal época dançar uma habanera em casa de tal figurão; logo, ali, negavam: - Que não! que essa Filomena era outra, falecida havia já coisa de cinco anos, e que esta, a nova, a do teatro, não tinha absolutamente nada de comum com a outra, com a tal Filomena, cujos bailes, por tão luxuosos e originais, ainda se conservavam na memória de toda a gente!
E as discussões reproduziam-se, cada qual mais disparatada.
Entretanto, no meio desse borborinho que se fazia no cais, dois homens, depois de se abalroarem, soltaram exclamações de reconhecimento.
- Olá! Você também por aqui, Sr. Barroso?...
- É verdade. Como vai o amigo Guterres?
Guterres ia bem, muito agradecido, mas sempre apoquentado. O outro, ao contrário, dizia-se feliz. Graças a Deus continuava às mil maravilhas com a sua cara mulherzinha e com o seu pequerrucho. Ah! a mulher e o filho eram a sua preocupação, eram o seu enlevo!
- O senhor é quem goza esta vida! considerou o outro.
- É. Deus louvado não tenho de que me queixar!... sustentou o Barroso. Sou feliz, não nego! Coube-me por sorte uma esposa que é um anjo, um verdadeiro anjo de bondade! Também, meu amigo, olhe que lhe pago na mesma moeda... trato-a como vocemecê não imagina!
- Mas faço uma idéia! faço uma idéia!... respondeu o Guterres, cheio de acordo.
E mudando de tom e chegando-se mais perto do outro:
- Ora, diga-me cá uma coisa, seu Barroso; tire-me de uma dúvida: - Quem vem a ser esta Filomena Borges?... Dir-se-ia a mulher do João Touro!...
- Pelo menos, o nome é o mesmo e foi justamente essa dúvida o que me trouxe por cá!
- O nome e o título! acudiu o outro, que ela se anuncia como baronesa de Itassu. Afianço-lhe, porque vi!
- Então não é outra com certeza! disse o Barroso - e se duvido, quero que me rachem de meio a meio!
- Ora o diabo!
- Nem era de esperar outra coisa de semelhante doida! Uma sujeita toda cheia de caprichos e de fantasias!
- Mas, tornou o Guterres, como consente aquele homem que a mulher levante um espalhafato desta ordem?... Isto até faz desconfiar!
- Pois então você não sabe que o Borges sempre foi um barão pela mulher?... Ela faz dele o que bem entende!
- Sim, mas segundo me consta, o João Touro não saiu lá muito recheado aqui do Rio!... considerou o Guterres.
- Recheado saiu ele, mas foi de dívidas!...
- E então?...
O Barroso Ia responder, mas Interrompeu-se:
- Olhe! Aí chegam eles! São os mesmos - é a Filomena e o pancada do marido!
- Ora, para que havia de dar aquele maluco!... exclamou Guterres, considerando o casal que o outro lhe mostrava.
- E como vêm tão esquisitos! Parecem dois estrangeiros! Ora o Borges!
* * *
Filomena, com efeito, vinha tão a européia pelo braço do marido, que não parecia a mesma.
E como estava formosa! como estava cada vez mais linda!
A quantidade de curiosos que os cercavam era tão grande, que os dois mal podiam caminhar.
Nunca o entusiasmo brutal do povo chegou àquele auge. As ruas, por onde seguia a desejada bailarina, ficavam completamente cheias. As janelas transbordavam. De todos os lados, choviam versos; duas sociedades filarmônicas acudiram com a pancadaria de sua música. Um verdadeiro delírio!
Começaram a surgir as ovações.
Do dia seguinte à chegada em diante, Filomena Borges transformou-se no alvo de mil protestos de amor, de presentes e oferecimentos, propostas de todos os sentidos. Os apaixonados calam-lhe em redor aos bandos, como pássaros prostrados pelo calor.
E a sedutora, sem desenganar a nenhum deles, nem lhes dar mais nada além de vagas esperanças, governava com o macio e delicioso cabresto de seus sorrisos e de seus olhares de ternura, toda aquela imensa matilha de namorados.
Na primeira noite em que ela se mostrou no Pedro II, o teatro foi pequeno para a concorrência que havia. As senhas atingiram o valor de jóias. Viam-se casacas nas torrinhas. E todos aplaudiam, todos se entusiasmavam, não pela arte, nem pelo talento de Filomena, mas pelo gracioso de seus gestos, pela originalidade de sua beleza, pelo satanismo de sua faceirice, que iam maravilhosamente com os requebros dos tangos e das modinhas.
- Não há francesa! Não há nada que se compare a isto!... dizia-se.
Um mandarim, que por esse tempo estava no Rio de Janeiro, encarregado de uma comissão diplomática, mandou-lhe no dia seguinte ao primeiro espetáculo, por quatro dos seus criados de rabicho, uma bela urna de sândalo, incrustada de ouro e repleta de coisas preciosas, entre as quais havia um bilhete de papel de arroz, escrito a pincel, que no melhor francês, punha à disposição de Filomena os sete aposentos que ocupava o chim no Hotel dos Estrangeiros.
Logo em seguida, um lord viajante, cuja fragata havia três semanas estava ancorada no porto do Rio de Janeiro, apresentou-se-lhe em casa, oferecendo-lhe um dote de meio milhão de libras esterlinas, se ela quisesse abandonar o marido e acompanhar o sedutor à Inglaterra, onde casariam sob a religião protestante.
E, como esses, outros, e mais outros oferecimentos vinham amontoar-se-lhe defronte dos olhos; e- ela sempre meiga, sempre amável, nunca dizia que "não" e também nunca dizia que "sim", justamente como em pequena lhe ensinara a velha D. Clementina.
O Borges, coitado! é que já não podia agüentar com aquele demônio de vida.
Quando não era o teatro, eram as visitas, os jornalistas, as repetidas festas - um jamais acabar de maçadas! é certo que já não pisava no palco, mas em compensação as suas lides de empresário, de caixa e de gerente, absorviam-lhe todos os instantes. Tinha de atender para a direita e para a esquerda, pagar contas, contratar empregados, administrar o serviço do teatro, escriturar a receita dos espetáculos - um inferno de preocupações.
E quando afinal, pela manhã, ganhava a cama, moído e prostrado, lá estava a mulher para perguntar-lhe pela "idéia", para perguntar-lhe como iam "as suas ambições políticas". Se o Borges havia já deliberado alguma coisa a esse respeito; se aprontara o seu primeiro artigo para a imprensa. - que fizera, afinal, depois que estavam na corte.
- Matar-me! É o que tenho feito! respondia o infeliz, gemendo no seu cansaço. - Esta vida dá-me cabo da pele! Não sirvo para isto!... Como queres tu que eu pense, que eu escreva, se não tenho um momento de repouso, se todas as minhas horas são poucas para o tal teatro?!
- Entretanto, é mister que te resolvas a principiar!... Não podes de forma alguma permanecer no estado em que te achas!...
- Sim, sim, resmungava o Borges, entre bocejos. - Hei de dar um jeito...
- Tenho uma idéia! exclamou a mulher de uma dessas vezes - tenho uma excelente idéia! - Está a chegar o verão; iremos passá-lo em Petrópolis e, durante esse tempo de completo repouso, tu farás o que já combinamos. Hein? que tal te parece?
- Bom, parece-me bom, respondeu o infeliz, mais animado com a idéia daquele descanso. - Irei para Petrópolis, irei de muito boa vontade, mas hás de afiançar primeiro que não voltaremos antes do inverno e que durante todo esse tempo nem sequer pensaremos em teatro!
- Podes ficar descansado! prometeu a mulher.
O Guterres, apesar daquela conversa com o Barroso, foi um dos primeiros que, à chegada do Borges, o procurou.
Apresentou-se muito comovido, disposto a perdoar generosamente as afrontas - que recebera do amigo.
E, desde essa visita, não lhe deixou mais a casa. Jantava lá quase todos os dias e à noite era infalível no teatro.
Borges apenas conseguiu suportá-lo, mas Filomena tinha-o em certa estima. Guterres não se cansava de elogiá-la; ao lado dela só falava nos sucessos extraordinários que a formosa bailarina obtinha todas as noites. E a vaidosa experimentava certo gostinho em sentir a seus pés aquele constante incensador, aquele louvaminheiro incansável, que a glorificava sempre no mesmo diapasão, como uma caixa de música que não precisasse de corda, mas que só tivesse uma peça.
Todavia, o Guterres, pronto sempre a obsequiar lá a seu modo, fazia-se muito solícito com o Borges, dava-lhe conselhos, mostrava-se interessado por ele. Passava os dias no teatro, querendo ajudá-lo em tudo e não fazendo coisa alguma; assentando-se familiarmente ao lado do bilheteiro, examinando a receita e a despesa, interrogando os trabalhadores, consultando os músicos, tomando contas às costureiras, repreendendo os que conversavam em voz alta nos ensaios, apaixonando-se nas discussões a respeito de Filomena ou do Borges, pedindo desculpas aos espectadores que porventura ficavam mal acomodados na platéia, e indo e vindo, da caixa para os corredores, a fiscalizar, a saber como corria o negócio.
Quem o visse ali, tão inquieto, tão empenhado, tão comprometido com aquele serviço, ficava supondo que o Guterres tinha parte na empresa.
Quando ele se referia ao Borges, dizia sempre: "O João, o nosso amigo João". Mas se estivesse presente algum estranho, acrescentava logo, com respeito, como para justificar aquela amizade: "O Barão de Itassú"!
Borges no fim de contas já não o achava tão ruim, e aos poucos o ia admitindo nos seus particulares. Um dia de mais expansão, chegou a falar-lhe muito em segredo, nos projetos políticos, que ultimamente o preocupavam.
- Não é coisa minha! disse, justificando-se. - São histórias lá de minha mulher! Deu-lhe p'r'aí. Acha que devo meter-me na política!...
O outro recebeu a notícia com um acolhimento cheio de assombro.
- E por que não?!
- Achas então que a coisa é exeqüível? perguntou o Borges.
- Mas certamente! Dessa massa é que eles se fazem! Nas condições em que estás e dispondo da influência de tua mulher, seria um crime até não cuidares do futuro! O]há...
E chegando-se misteriosamente ao ouvido do outro: - Eu estou aqui para te ajudar' Depressa!
Mas o Borges não podia descansar; as palavras do Guterres inspiravam-lhe muito pouca confiança, continuava a ver nele o mesmo preguiçoso vulgar, o mesmo "pobre diabo", o mesmo parasita incorrigível.
- Então é certo que vais para Petrópolís?... perguntou-lhe o amigo na véspera da viagem...
- É, respondeu o marido de Filomena; - sigo amanhã.
- Diabo, antes fosses mais tarde! não me convinha sair daqui sem acabar o mês...
- Mas que necessidade tens tu de sair?... ponderou o Borges, temendo que o outro lhe quisesse duplicar as despesas do passeio.
- Pois eu havia lá de consentir que partisses sem levar um amigo em tua companhia!...
- Não, não! não te incomodes por minha causa! apressou-se a dizer o Borges. Agradeço-te do fundo do coração a boa vontade; mas acredita que não há a menor necessidade de...
- Ora, deixa-te dessas coisas! Queres romper cedo comigo, João?... Bem sei que és escrupuloso, que tens receio de me importunares, aceitando estes pequenos obséquios; eu, porém, julgo-me no dever de cumpri-los, mesmo contra o que disseres.
- Mas, filho, dou-te a minha palavra de honra, que fico muito mais agradecido se não fores! oh!
- E eu dou-te também a minha palavra que, nem a tiro, conseguirás que eu mude de resolução!
- Nesse caso ê birra! exclamou o Borges, sem poder disfarçar a impaciência.
- Será o que tu quiseres! bradou o teimoso. - Mas eu considero do meu dever não te deixar ir só!
E com orgulho:
- Não! Que não sou desses amigos que só aparecem pelo bom tempo!... Não senhor!... Sei que vais doente, cansado, prostrado... sei que hás de precisar de um bom amigo ao pé de ti, que te dê coragem, que te anime! Sei que levas projetos de escrever artigos políticos, de lutar, de resistir, e sei que te faltarão as forças para tanto! E pensares que eu seria capaz de te deixar ir só. Oh! não te mereço semelhante injustiça! Eu supunha, João, que fizesses de mim um melhor juízo!...
- Ora essa!...
- Não! não! Seria cometer a mais revoltante indignidade, se eu não te acompanhasse!...
Borges ainda protestou, não, porém, com o mesmo ardor; as palavras do amigo a respeito dos tais projetos políticos o interessaram sobremaneira. O Guterres gozava de certa fama de homem fino, perspicaz e muito inteligente. Verdade é que seria difícil citar-lhe as obras; Borges não se lembrava de haver posto os olhos em alguma coisa escrita por ele; nunca lhe descobrira o menor trabalho de imprensa, mas, por várias vezes ouvira conversar a respeito do talento do Guterres: - "Se não fosse tão preguiçoso, diziam, seria a nossa primeira pena!".
- Bem podia ser que o demônio do homem entendesse deveras do riscado e viesse a prestar-lhe muito bons serviços!... Em tricas de política, pelo menos, ninguém lhe podia negar competência.
Borges ainda se lembrava perfeitamente das formidáveis discussões, em que o vira por inúmeras vezes empenhado com os grandes da matéria. - Ora, se assim era, valia a pena abrir mão de umas certas coisas e aceitar abertamente o auxílio que lhe oferecia o tipo!...
- O diabo seriam as despesas!
Borges já não era o mesmo algibeiras rotas em questões de dinheiro: depois das suas adversidades, ficara econômico e desconfiado. - Mas enfim! ora adeus!... Quem precisa tem que puxar pela bolsa!
E resolveu agüentar a carga.
Era ainda no tempo das pitorescas diligências, e Filomena, que nunca tinha ido a Petrópolis, ficou maravilhada com o passeio.
Principalmente a subida da serra, com a sua estrada muito branca, em ziguezague, que serpeia e se arrasta por sobre ela, à semelhança de uma cobra fantástica de marfim, causou-lhe arrebatamentos vertiginosos.
Vales e montanhas, píncaros e despenhadeiros, tudo surgia amplamente defronte de seus olhos, banhado de tons cerúleos, num multicor ideal, vaporoso e fugitivo. As roxas grimpas da serrania alcandoravam-se por entre flocos transparentes de neblina, que se iam rasgando as primeiras irradiações do sol, como trêmulas cambraias sopradas pelo vento.
E pouco a pouco descortinavam-se as planícies afogadas num oceano compacto de verdura, e logo depois enormes penhascos debruçados sobre elas, como gigantes adormecidos de pé, e lá em baixo, ao fundo, muito ao longe, acentuava-se a baía entre nuvens de cordilheiras, que se acumulavam a perder de vista, formando largos horizontes cor de pérola.
- Esplêndido! balbuciou Filomena, com a boca meio aberta, os olhos iluminados de inspirações, o seio ofegante, as narinas sôfregas e dilatadas. - Esplendido!
E com os olhos ia-se-lhe a alma por aquela imensidade deslumbrante, precipitando-se de plano em plano, derramando-se até ao fundo misterioso dos vales ou voando aos alcantis que se perdiam no céu.
Nada do que vira pelo mundo inteiro a comovera tanto, nada lhe afetara tão poderosamente a sua fina sensibilidade de artista; nada lhe penetrara tão fundo a alma apaixonada e contemplativa.
Entretanto, o Borges, defronte dela, assentado ao lado do Guterres, discutia com este os seus projetos políticos.
- Agora só o que me falta é a "idéia"! disse o barão ao ouvido do outro.
- Idéia? de quê? .. perguntou o Guterres, sem compreender. A idéia, homem, a Causa que eu tenha de abraçar, de defender! Sim! é preciso decidir-me por alguma!
O amigo olhou multo sério para ele:
- Tu ainda não tens partido?!
E depois de um gesto negativo do outro:
- Mas isso é ouro sobre azul! Não sabes a fortuna que possuís! O Imperador dá a vida pelos homens nessas condições!
- Achas, hem!...
- Tenho certeza! Mas, vem cá, o partido conservador é o único que te convém, é o único que te pode oferecer algumas vantagens! Homem, sempre é melhor estar com o poder... não acredites que os liberais levantem tão cedo a cabeça! E, se levantarem, melhor! porque nesse caso colocar-te-ás na oposição, ficas na brecha! terás a luta, terás a reação às tuas ordens! Só o que te falta é a prática, são as relações políticas. - Isso obterás rapidamente, juro-te eu, que conheço essa gente como a palma de minhas mãos!...
- Enfim, não te faltam os elementos! ... segredou depois uma pausa, piscando o olho e fazendo com os dedos sinal de dinheiro.
- Não é tanto como supões! respondeu o Borges.
E, assim conversando, chegaram à estação do desembarque, onde, segundo o costume, havia já uma confusão de curiosos, e onde já estavam os empregados dos hotéis, que vinham com os seus carros à pesca de hóspedes.
De todos os grupos se exalava um cheiro penetrante de luxo e de riqueza.
Borges entregou a bagagem a um moço do hotel Bragança, deu-lhe o bilhete da carga que chegaria mais tarde, e, com a mulher e mais o Guterres, tomou o carro que lhe competia, e os três seguiram alegremente, devorados de apetite.
* * *
Petrópolis produziu no Borges uma impressão inteiramente contrária à que produziu em Filomena.
Para esta a transformada fazenda do Sr. D. Pedro II apareceu como um paraíso da elegância, colocado entre rochedos; adorável com as suas pequenas ruas encentradas pelo rio e contornadas de arvoredos, formando, vistas a certa distância, belos canteiros de verdura, onde a magnólia, a camélia, o cravo, a açucena e a rosa disputam a primazia em número e beleza.
A acumulação dos jardins, a riqueza das flores, a pureza do céu, a frescura do ar, prontamente impressionaram o seu espírito, sempre voltado ao pitoresco, ao recreativo, ao Ideal. Além disso, as criancinhas louras, descalças, caminhando em bando para a escola, as criadas alemãs, de olhos azuis, a boca vermelha e a pele branca, faziam-na esquecer, por instantes, o africano e repulsivo aspecto geral das cidades do Brasil, e imaginar-se num canto feliz da lendária e melancólica Germânia.
E no Borges as primeiras impressões foram justamente o contrário de tudo isso. Espirito prático, e por demais ferrenho, não se cegou logo pelas aparências do mimalho de Sua Majestade e tratou de julgar Petrópolis friamente, com todo o peso do seu bom senso grosseiro e burguês.
O que ele notou, em primeiro lugar, foi o engano em que ali viviam todos, supondo luzir com o reflexo que vinha do monarca; quando aliás Sua Majestade, astro sem brilho próprio, não podia emprestá-lo a quem quer que fosse.
Enquanto a mulher se extasiava defronte dos jardins, das fontes e dos rios, ele, o Borges, notava que Petrópolis, com os seus decrépitos laudêmios, com as suas sesmarias, as suas enfiteuses, os seus canons, os seus foros territoriais, continuava a ser uma fazenda, uma feitoria do imperador, e que era bastante tocar em qualquer coisa, que lá estivesse, para se sentir logo a dois passos, o olho vigilante e repreensivo do proprietário, do dono.
Por toda a parte, em tudo, o mesmo prestígio do "Senhor". A mesma impertinência do "Amo".
- Bela rua! exclamou o barão, considerando a rua D. Afonso, depois de percorrer as ruas do Imperador e da Princesa Januária.
- É, exato! responderam-lhe - o Imperador acha-a bonita!...
- Não morro de amores pela cerveja que aqui se fabrica, disse ele doutra vez.
- Não! contradisseram-lhe, esta cerveja é magnífica - o Imperador gosta!...
E assim era, sempre que o Borges fazia qualquer pergunta ou pedia qualquer informação. As idéias, as frases giravam sempre sobre o mesmo parafuso - o Imperador. Era ele sempre o ponto da partida, o termo de comparação, a base, o princípio, o fim, o meio.
- Ora bolas! exclamou o Borges, afinal já importunado com aquele servilismo. - Para qualquer lado, que me vire, dou sempre com o mesmo espantalho! Sebo! No fim de contas que diabo tenho eu com o tal Imperador? Não estou aqui por obséquio, não estou na casa de ninguém; estou num hotel, a tanto por dia! Ora essa! pago com o meu dinheiro!
O Guterres então contrapunha argumentos cheios de prudência e reflexão. - O amigo fazia mal em pronunciar-se daquele modo! Não era isso que mais convinha aos seus projetos políticos! Que diabo! Não custava coisa alguma guardar umas tantas conveniências!...
- Estou vendo é que mando para o inferno a tal idéia de minha mulher e musco-me daqui quanto antes! - Ah! meu Paquetá! meu Paquetá!
Não sabia porque, mas sentia-se muito contra a vontade na tal cidadezinha! Faziam-lhe mal aos nervos aquela elegância convencional, aquele falso luxo, aquela preocupação de "parecer rico", que notava em quantos iam passar ali o verão.
- Súcia de pulhas! resumia o bom homem, fazendo uma careta de tédio.
E experimentava arrepios de indignação quando, à tarde, num alvoroço postiço, reuniam-se à porta do Bragança grupos casquilhos de damas e cavalheiros, macaqueando uma aristocracia que não tinham, fazendo uma existência fina e superior, que mal conheciam de tradição. Por debaixo daquelas roupas à inglesa, daquelas rendas e daquelas sedas; por debaixo daqueles movimentos largos de fidalguia endinheirada, o Borges lobrigava o brasileirinho, ou o portuguesão, meticuloso, ruim, amigo da intriguinha, reparador dos defeitos alheios e cheio de vícios.
Os phaetons, as berlindas, os landaus, as cestinhas puxadas a dois e três tiros de cavalos, as corridas à marcha inglesa pelas ruas, a conversa ruidosa dos falsos elegantes, a febre de gastar dinheiro inutilmente, enfim tudo que não tinha o cunho do hábito e o caráter de coisa adquirida insensivelmente com a educação, com o berço, tudo isso se lhe afigurava tacanho, ridículo, insuportável.
E por toda a parte e em todos os objetos, nas casas de negócio, nos costumes, nas toilettes, na linguagem, nas relações, nos amores, em tudo descobriu o mesmo fingimento, a mesma mentira, a mesma preocupação de mostrar uma grandeza que não havia.
Isto, quanto a mim, classificou ele finalmente, em confidência com o Guterres - cheira-me assim a mulata forra com pretensões a cocotte.
E o Borges, aquele paz vobis, aquele homem que não sabia quais eram os passos necessários para entrar na política, resolveu ao fundo do seu bom senso burguês que Petrópolis não passava de uma cidadezinha dissolvente, cara, preciosa, que se alimentava do calor enervante de um sol no ocaso, um sol, ou antes um parélio, que ia desaparecendo lentamente para nunca mais voltar.
E profetizou, o toleirão?. que, dentro de vinte anos Petrópolis deixaria de existir ou transformar-se-ia, completamente, numa dessas muitas cidadelas do prazer e do vício como Mônaco ou Monte Cano, alimentadas pelo jogo, pagando o "barato" ao governo e servindo exclusivamente aos libertinos do bom tom.
Entretanto, todo esse conjunto de coisas, que, observadas a olhos nus, repugnavam ao paladar simples do burguês, apareciam a Filomena radiantes e encantadoras, vistas através do prisma fantástico de sua imaginação.
Para Filomena, Petrópolis continuava a ser o "tépido retiro das almas delicadas, a fina corte do espírito e da elegância". Uma espécie de ninho artístico, feito de ramos e folhas naturais, porém borrifado de leve com algumas gotas de ylang-ylang.
Os mesmos elementos, que levantavam a antipatia do marido, para ela serviam de bom pasto aos seus gostos e caprichos. O prestigio do monarca, por exemplo, longe de lhe ser desafeiçoado, constituía um dos pontos que mais a interessavam. E, se nisto havia ainda qualquer coisa a desejar, era justamente não ser mais completo, mais cavalheiresco, mas ao sabor da Idade média.
Queria D. Pedro no seu castelo feudal, mais moço e mais bonito, amando os combates encarniçados e as mulheres formosas; devoto e libertino a um tempo; supersticioso e malvado; indomável e forte defronte dos esquadrões inimigos, suplicante e humilde aos pés de uma dama fraca e delicada.
Não o desejava de casaca e chapéu alto, porém, de gorro emplumado e gibão de veludo, todo ele resplandecente de ouro nas suas bordaduras preciosas. Preferia-o de longos cabe-los da cor do sol, a barba dividida ao meio do queixo, o nariz firme e audacioso, como o dos antigos heróis da Grécia.
A gorda figura do Imperador, com o seu abdômen saliente, as suas pernas finas, a testa abaulada, os olhos vulgares, causavam-lhe um desgosto profundo. Não lhe podia perdoar aquele aspecto de bom velho, aquele ar pacato, aquela proverbial honestidade, aquela expressão moleirona de homem linfático e turgido pela vida sedentária. A voz branda e fanhosa, o ar giboso de Sua Majestade avultavam no espirito de Filomena como o mais grave atentado que se pudesse opor às magnificências da coroa.
- Não é um rei! dizia ela consigo, cheia de indignação.
- Não é um rei, é um pai de família, um fazendeiro rico, um tipo comum!...
Mas para que se afligir com essas pequenas misérias do mundo, se ali estava a sua bela imaginação, pronta sempre a torcer e dissimular os fatos que a realidade lhe grupava brutalmente em torno da existência?!
E, com o auxílio dessa fiel companheira, tudo se lhe afigurou entretecido de ouro e azul. Petrópolis converteu-se defronte de seus olhos nos domínios de um belo infante apaixonado, que vivia a bater nas suas terras o javali bravio.
E Filomena, soltando as rédeas de sua indomável fantasia, transpunha-se aos tempos medievos e sonhava as clássicas manhãs de caça, em que os reis, cercados de uma corte luzidia e fugace, partiam galhardamente para o campo, ao agreste som de retorcidas trompas de metal.
E formosas damas, pálidas na vertigem do galope, deslizavam nos seus palafréns cobertos de pedrarias, o amazona desfraldado aos ventos. E fidalgos poderosos, e pajens, lindos como arcanjos, e donzéis de falcão ao dedo, e ligeiros batedores, e nuvens ululantes de cães que se precipitavam em matilhas; tudo, tudo perpassava vertiginosamente defronte de seus olhos, num rebrilhar fantasmagórico de opulências.
* * *
Por isso, ao entardecer dos dias quentes, quando as cigarras estridulam nas matas e a natureza se recolhe na concentração mística e voluptuosa da sesta, Filomena furtava-se de todas as vistas e saía a bordejar silenciosamente os largos misteriosos da cidade ou a deixar-se perder pela alfombra embalsamada dos caminhos de bambus.
Em um desses passeios, encontrou-se com o monarca. Ele caminhava em direção contrária à dela, inteiramente desacompanhado.
Viu-a, fitou-a rapidamente, fez-lhe um gracioso cumprimento, e lá se foi por diante, muito sombrio, com a cabeça enterrada nos ombros, as mãos cruzadas atrás, os olhos presos na terra.
Filomena havia parado e ficou alguns instantes a contemplá-lo. Depois fez um gesto de impaciência com a boca, sacudiu as espáduas e continuou o seu passeio.