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FILOMENA BORGES

aluísio de azevedo

XX

VOLTA-SE A DANÇA

Naturalmente, o monarca falou a alguém do seu ligeiro encontro com a afilhada, porque esta, se até então conseguira em Petrópolis furtar-se um pouco ao borborinho das salas, daí em diante não foi mais senhora de si.

Viu-se logo cercada de manifestações, querida, reclamada a todos os instantes, servindo de alvo a todas as atenções, discutida, invejada, luzindo e ofuscando com a sua beleza, com os seus gostos, com o seu espírito e com o seu nome, que se impunha aos ouvidos de toda gente, alta ou baixa, como o título de uma canção popular.

Organizaram-se concertos, inventaram-se meios de a ouvir, de a ter perto, de a obsequiar. Os seus gostos foram imitados, as suas toilettes decretaram a moda da estação, as suas frases mais insignificantes converteram-se em apótemas.

- Isto vai mal!... considerava todavia o Borges, vendo que os seus horizontes, em vez de se acalmarem de todo, mais e mais se perturbavam. - Isto vai muito mal!... muito mal! Desde que cheguei a este inferninho de cidade, ainda não tive um momento de verdadeiro descanso, e já pressinto aliás que as coisas vão tomando um caráter ameaçador! Confesso que não estou nada satisfeito!

- Não sou dessa opinião, contrapôs o Guterres. - Entendo que o negócio caminha às mil maravilhas! Nós, o que precisamos é não dormir com o trabalho!

- Ó homem! exclamou o outro. - Pois você acha que temos trabalhado pouco? Você acha que é pouco o que temos feito?! Ainda não abandonei a pena senão para comer e dormir algumas horas!

- É pouco! é quase nada!

- É um artigo!

E com efeito, os quatro dias que tinham de Petrópolis foram devorados na confecção de um artigo político, uma espécie de autobiografia a jeito de programa ao mesmo tempo, peça original e divertida, na qual criticava o autor a lamentável situação econômica do Brasil, censurando e lamentando certas coisas, aplaudindo outras com entusiasmo, fazendo-se muito patriótico e empenhado na salvação desse "pais esplêndido, destinado por Deus a um grande destino, mas infelizmente vítima todos os dias do egoísmo e do desamor daqueles que, se compreendessem os seus deveres, deviam ser os primeiros a defendê-lo e honrá-lo perante o século dezenove e não procurar precipitá-lo no aviltamento e na vergonha".

O Borges tomara no hotel um gabinete especial para esses trabalhos. E a sua mesa, coberta de tiras de papel, cheia de livros abertos, coalhada de jornais, não parecia ter quatro dias naquele serviço; parecia ter vinte anos.

E ele, todo vergado sobre a pasta, a olhar carrancudo, a ponta da língua a brincar fora da boca, como a cabeça de um boneco de engonço, enchia e reenchia centenas de tiras, caprichando na letra, recorrendo aos dicionários, consultando o código, manuseando jornais velhos e lendo em voz alta .0 que ficava escrito, declamando enfaticamente as frases que lhe pareciam de mais efeito.

O Guterres nunca escrevia, apenas ditava; ora repimpado na cadeira de balanço, o copo de cerveja ao lado, a cabeça envergada para trás, a fisionomia cheia de preocupação, os olhos quase fechados, espiando atentamente por entre os dedos que ensarilhava no ar, defronte do rosto.

Ou então passeava pelo quarto, fitando o soalho, as mãos nas algibeiras das calças, o charuto fumegando a um canto da boca. E só se alterava para fazer uma visita ao copo ou dar uma vista d'olhos ao que escrevia o Borges.

Às vezes, depois de correr uma olhadela pelo trabalho tomava em silêncio a pena das mãos do outro, emendava alguma palavra mal escrita, largava de novo a pena sobre a mesa e prosseguia no seu passeio.

"Patriota e defensor acérrimo da Carta Constitucional"... bradava ele, destacadamente, acentuando a frase com um movimento de braço: "sempre tive por único objeto de meus esforços a prosperidade e a glória de meu país!" Escreva!

O Borges escrevia.

"No meu livro sobre o Oriente" (É bom falar nisso!) "escrito de colaboração com minha mulher, a Exma. Sra. baronesa de Itassu, e que muito breve verá a luz da publicidade, hei de provar o que há pouco avancei!".

E depois de dar ao Borges o tempo de escrever:

"Na política espanhola, na qual tive a honra de tomar parte durante as últimas revoluções do Cantonalismo..."

- Mas, filho, eu não tomei parte nisto! protestou o Borges, largando a pena e limpando o suor da testa. - O que se passou foi só aquilo que te contei! Para que havemos nós de dizer uma coisa que não é verdade?!...

- Cala a boca, homem de Deus!

- Não! Hás de convir que...

- Mau! Se você conta escrever só a verdade, esta bem servido nas suas pretensões! É melhor então cuidar de outra coisa!

O Borges coçou a cabeça, sem responder...

- Em política, meu amigo, disse o outro - verdadeiro é só aquilo que nos convém. Que diabo há de então você dizer, no caso que esteja resolvido a alegar em seu favor somente os seus serviços reais prestados à política?... Sim! Queres saber o que foi que você já fez por este ou por aquele partido! Se há qualquer coisa, diga, porque, olhe! não me conta!

O Borges olhou para ele, sempre a coçar a cabeça.

- Por conseguinte deixe-se de histórias, e escreva! Escreva, que o resto fica por minha conta!

Dai há pouco, suscitou a mesma questão a respeito de D. Luís de Portugal. O Guterres queria que o amigo desse a entender no seu artigo que havia em Paris gozado "a estima e a confiança do bom e afável Duque do Porto".

- Não! Essa agora é que não passa! reagiu o Borges energicamente. - Ainda com o Cantonalismo - vá! porque enfim o basbaque do estalajadeiro, tomou-me por um correligionário; mas com o D. Luís valha-me Deus! a coisa é muito diversa! Homem, pois se ele nem mesmo chegou a trocar uma palavra comigo, que até supunha que eu não entendesse o português!... Eu estava de botocudo!...

- Mas é a mesma coisa, João! Você não entende disto! Faça o que lhe digo e deixe-se de escrúpulos sem razão de ser!

Afinal entraram em acordo, e o primeiro artigo ficou pronto. O Guterres iria levá-lo pessoalmente ao Jornal do Commércio.

- Ah! soprou o Borges, atirando-se a uma cadeira. - Deste estou livre!

Mas foi logo interrompido pela mulher, que lhe vinha dar parte que no dia seguinte, antes de principiar o baile do Cassino, organizado no próprio hotel Bragança, onde havia um teatrinho, ela dançaria um de seus tangos e cantaria uma de suas modas para fazer a vontade ao padrinho.

- Está tudo perdido! calculou o Borges, empalidecendo.

- Adeus sossego! O diabo é dançar a primeira vez!

E o pobre homem tinha razão. A noticia de que Filomena ia dançar levantou entusiasmo. Petrópolis assanhou-se; o hotel Bragança encheu-se de curiosos; por toda a cidade só se falava na baronesa de Itassu; todos queriam ajudar nos preparativos da festa; foi preciso fechar o salão do baile para conseguir-se fazer alguma coisa. O Borges viu-se atrapalhado.

No dia da função, às sete horas da noite, já se não podia transitar na rua do Imperador. De todos os lados acudia gente; os carros grupavam-se em todo o comprimento do rio. Uma curiosidade febril agitava os corações.

E quando, acesos os candeeiros de querosene, organizada a platéia, distribuídos os lugares, o monarca já instalado com o seu seminário, ergueu-se o pequeno pano do teatrinho e Filomena principiou a dançar o tango, o entusiasmo difundiu-se de tal modo, que foi preciso empregar todos os meios para contê-lo.

Era a primeira vez que o salão do frio e sisudo Cassino experimentava uma febre daquela ordem.

Terminado o ato, o Imperador dignou-se cumprimentar pessoalmente a formosa artista e prometeu que dançaria com ela uma quadrilha francesa.

Este ato foi aplaudido em geral, como um rasgo de verdadeira justiça.

Afastaram-se logo as cadeiras e os bancos da platéia, desembaraçando-se o salão para a dança e, daí a pouco a linda baronesa de Itassu, em grande uniforme de baile, era a soberana daquela festa. O padrinho dirigiu-lhe por várias vezes a palavra e disse-lhe que simpatizava muito com o barão e que mais tarde havia de dar provas dessa simpatia.

Espalhou-se logo o boato de que o imperador estava deveras apaixonado pela irresistível afilhada e que esta lhe correspondia de um modo escandaloso.

Verdade é que, depois do primeiro baile, não se passava um dia em Petrópolis, sem que D. Pedro tivesse ocasião de se encontrar com ela; e, quando havia dança, o bom príncipe não lhe dispensava a sua quadrilhazinha e os seus dois dedos de palestra.

- Belo monarca! Belo monarca! dizia o Guterres. E ainda havia por aí toleirões que falavam em república e revolução! Onde iriam encontrar um chefe mais lhano, mais condescendente, mais generoso, mais democrata que aquele?... um verdadeiro amigo de seu povo!

- E fazia-se muito dele, muito amigo da monarquia, muito pronto a defendê-la. Se, em sua presença, alguém se animava a falar no suposto namoro de Filomena com o padrinho, Guterres respondia logo, fazendo voz de choro e cara de lamúria:

- Não, coitado! é uma injustiça! O pobre homem não pode se divertir um instante!... Ah! também vocês de tudo querem armar escândalo'.

O Borges é que não se conformava com a brincadeira, se bem que a mulher empregasse todos os meios para convencê-lo de que tais sobressaltos não tinham o menor fundamento.

Mas não era só por causa disso que ele se apoquentava - é que a despeito do esforço que fazia o infeliz para evitar as convivências ruidosas e resignar-se à maçadora companhia do Guterres, não conseguia fugir às constantes visitas de cerimônia, e a sua vida ia-se tornando cada vez mais cheia de etiquetas e mortificações.

- Já vejo que é mesmo sorte minha!... resmungava ele. - E eu que supunha vir encontrar aqui, neste inferno de intrigas, um momento de repouso!...

A presença do imperador, a sua conversa constrangedora, virgulada de gestos incompreensíveis, era de tudo o que mais o amofinava. Borges, por melhor vontade que empregasse, não podia entrar com as praxes estabelecidas da cortesania.

- Não nascera para aquilo!

Burguês completo, amigo sincero do povo, donde safra e onde crescera, livre por hábito e por princípio, conhecendo o governo apenas pelos seus impostos, pelas suas exigências, pelas suas opressões, era, sem nunca o ter dito, talvez até sem o saber, um inimigo natural do trono, um tipo perfeito do revolucionário moderno, um verdadeiro, um puro republicano.

Todavia, nunca se envolveu nem de leve com a política de seu país; nunca se declarou mais simpático a este ou àquele partido. Até aos quarenta anos cedera os seus votos ao primeiro amigo que o mendigasse, sempre indiferente aos atos do governo, aos negócios do estado, chegando até a evitá-los instintivamente, como uma mulher honesta evita por impulso natural o contato de certas pessoas.

Amava os homens pela pureza do caráter e não pela cor do partido ou pela posição social. Se a mulher não o tivesse obrigado a comprar um título, não seria ele de certo quem se havia de lembrar de semelhante patacoada.

Desde pequeno habituado ao trabalho livre, sem jamais precisar do governo, a quem sempre considerou um parasita importuno, educado por um pai da mesma forma trabalhador e independente, Borges nunca se lembrou de pôr a sua consciência em leilão, nunca precisou dobrar aquela grossa cabeça de plebeu às conveniências desta ou daquela idéia. Além disso, quando se viu sem recursos de vida e abandonado na mais dura miséria, tudo, nesse momento, lhe teria passado pelo cérebro, menos a lembrança de que possuía uma pátria, para a segurança da qual tinha ele contribuído, durante muitos anos, com o seu esforço e com a sua coragem.

De sorte que, lançado agora bruscamente, por um capricho da mulher, aos pés de um soberano, que, até ai, era para ele simplesmente um princípio, que a gente aceita, para não se dar ao trabalho de dizer a razão por que não aceita, atirado assim de improviso aos degraus de um trono, que nada de comum podia ter com ele, um trono de que ele nada podia esperar por motu próprio, o Borges sentiu-se como esmagado por uma desgraça que o humilhava, sentia-se coagido, preso, inutilizado, e, cada vez mais, furioso de sua vida.

Entretanto, obedecia à fatalidade das circunstâncias que o arremessavam àquela posição falsa e constrangedora.

Ia tudo suportando, sem ânimo de reagir: fazia-se cortesão a pouco e pouco, habituava-se ao sorriso do Paço; acompanhava os outros na adulação e no servilismo; até que, de repente, sem esperar por isso, recebeu como um augusto favor ou talvez como recompensa do seu aviltamento, a nomeação de "superintendente dos trabalhos privados do Paço", com um bonito ordenado, casa, comida, roupa lavada e engomada.

A mulher atirou-se-lhe ao pescoço: - Bravo! bravo, meu amor! Principias maravilhosamente!

- Mas eu, em consciência, não devo aceitar este cargo... objetou o Borges muito atrapalhado. - Eu não entendo nada disto! Não sei o que é ser superintendente, não sei quais sejam as atribuições desse lugar! Não sei finalmente o que tenho de dar em troca do ordenado que me oferecem!

Feriu-se uma tremenda discussão entre os dois.

- Está bom, está bom! disse afinal a baronesa. - Acho que deves guardar essas discussões para quando estivermos em casa - neste hotel ouve-se tudo o que se diz um pouco mais alto!

Borges calou-se, mas, receoso de fazer algum disparate, saiu à procura do Guterres. - Precisava desabafar! Arre!

- Não dês com o pé na fortuna' disse-lhe o amigo. - Que diabo queres tu então, homem de Deus?!...

- Eu sei cá o que quero! Quero fazer a vontade a Filomena, mas isso, já se vê, sem me colocar na crítica situação em que me acho! Eu lá sei p'ra que lado fica o serviço de que me querem encarregar!...

- E que necessidade tens tu de entender disso?... Acaso alguém te reclama habilitações?... Alguém te pede competência?... Porventura os mais que são nomeados para os outros cargos apresentam-se aptos para desempenhá-los?... Ora, por amor de Deus! Estás na aldeia, e não vês as casas? Quem sabe se pretendes reformar os costumes!... Quem sabe se queres ser a palmatória do mundo!...

- Nada disso me convence de que devo aceitar um cargo, sem ter habilitações para exercê-lo!

- Mas, João, vem cá, repara que estás no Brasil e lembra-te de que aqui os empregos de confiança do governo, sejam eles de que gênero for, nada tem que ver com as aptidões individuais de quem os vai desempenhar! Que diabo! Não vês aí todos os dias ministros da guerra, que não conhecem patavina do militarismo? Não vês que os ministros da agricultura não sabem para que lado fica a lavoura; que o ministro do império, a cargo de quem está a instrução pública, já faz muito quando sabe ler e escrever corretamente?... Não vês que o ministro da fazenda não pesca nada de economia política; que o da pasta de estrangeiros não entende coisa alguma de política internacional? E assim o da marinha! e assim todos eles! e assim todo o mundo! Oh!

Essas razões, longe de convencerem o Borges, mais lhe irritavam os nervos.

- Não! bradou ele, furioso. Não! Não posso, não devo aceitar semelhante cargo! seria uma velhacaria! Não quero!

- Bem diz o provérbio que Deus dá nozes a quem não tem dentes! sentenciou o outro. - Ah! se fosse eu o nomeado; havia de te mostrar que...

- Queres tu ficar com o emprego?!... perguntou o barão, limpando o rosto, que se inundava o suor.

- Ora! Se fosse possível, que dúvida!...

- Vais ver se é ou não possível!

E nesse mesmo dia, o Borges, logo que pilhou o Imperador, foi-se atravessando defronte dele e dizendo abertamente que não podia aceitar o cargo de superintendente, mas que designava o Guterres para o substituir.

- É um pouco difícil de contentar seu marido! observou D. Pedro a Filomena, quando se encontrou com ela.

- Não sabia que era tão exigente!

- Exigente?!... perguntou a baronesa.

- Não se dá por satisfeito com o cargo que lhe ofereci. E, no entanto, agora é quase impossível dar-lhe coisa melhor!...

Filomena surpreendeu-se muito agradavelmente com essas palavras do monarca: - Pois seria possível que o Borges já fizesse daquilo?... Ah! Não julgava que o marido fosse capaz de um rasgo de ambição!

- Bravo! bravo! aplaudiu ela consigo. E tratou logo de confirmar a opinião do esposo. - No fim de contas, ele não deixa de ter alguma razão, coitado! Vossa Majestade há de concordar que o tal cargo é muito insignificante para um homem de aspirações e de talento! Superintendente! Ora, que vale isso!

Bom! bom! Já sei! já sei o que devo fazer enquanto não lhe arranjo melhor emprego! Vou trocar-lhe o título por outro, por um título brasileiro e mais alto - vou fazê-lo visconde! Não ficará ele satisfeito?!

Filomena apressou-se a beijar a mão de seu augusto padrinho: - Oh! Vossa Majestade é magnânimo!

- Engana-se! Não sou: - faço-me, para dar-lhe o exemplo disse o monarca piscando o seu olho azul do lado esquerdo.

Mas teve logo de disfarçar, porque alguém se aproximava.

XXI

TORNIQUETES

Foram inúteis todos os novos esforços do Borges para recusar o cargo. Teve de entrar logo em exercício de suas funções.

Ora a minha vida! lamentava ele, sozinho, a espacear pela quinta do Imperador. Ter de entrar na carreira pública depois dos cinqüenta anos de idade! Esta só a mim sucede!

Sua Majestade não tardou a puxá-lo bem para junto de si fazê-lo dos do seu peito. E, com enorme espanto do Borges, chegava a consultá-lo em questões completamente estranhas ao pobre homem. Ás vezes, pedia-lhe conselhos.

- Homem, majestade!... para falar com franqueza, eu...

- Já sei, já sei! Não lhe é simpático o negócio! Eu também sou quase desse parecer...

Perdão, perdão! não é isso!... mas é que...

E o Borges, a contragosto, ia pesando nas coisas do Estado, ia-se articulando às engrenagens do governo, ia-se deixando invadir secretamente por todas as sutilezas da política.

Eu, jurava ele com os seus botões - eu, quando menos o esperarem, fujo! desapareço por uma vez, e ninguém saberá para onde fui! Posso lá com semelhante modo de vida!

Não obstante, quatro meses depois disso, a condessa de Itassu era já o melhor empenho para o Sr. D. Pedro de Alcântara. Pretendente que se apadrinhasse com ela podia ter a certeza de obter o que desejasse.

De suas mãozinhas aristocráticas saíram nomeações importantíssimas, licenças escandalosas, remoções, transferências, acessos de empregos, privilégios de companhias, concessões de engenhos centrais. Muita questão importante se resolveu com um simples sorriso.

Quando regressaram de Petrópolis foram habitar em S. Cristóvão, perto do palácio de sua Majestade. O monarca não queria o visconde de Itassu muito longe de si.

A casa deste transformou-se logo em um centro político. Aí, todas as noites se reuniam as figuras mais volumosas dos poderes públicos; aí se discutiam as mais graves questões do Estado; formavam-se e destruíam-se gabinetes; criavam-se e resolviam-se crises, conforme o capricho de Filomena.

- Ora, dá-se por isso?... Será crível que eu nunca mais obtenha um momento de repouso?... pensava o Borges.

Com efeito, sua pobre vida jamais esteve tão cheia de preocupações e tão carregada de responsabilidade. Quando o desgraçado saía do quarto, depois de uma noite mal dormida, já uma enorme selva o esperava, transbordante de jornais de cartas, requerimentos, ofícios, comunicados e o diabo, cujo expediente era preciso aviar e fazer subir quanto antes ao conhecimento de seu augusto amo.

Depois, tinha audiências; negócios inteiramente fora de sua competência vinham-lhe suplicar um parecer, pedir um auxílio.

Que luta!

Mas, além de tudo isso, era preciso atender aos colegas, aos amigos, aos políticos em atividade, que o procuravam todos os dias. De certo, era preciso constantemente envergar à farda, suportar as exigências do cargo, acompanhar o monarca, comparecer aos atos solenes da corte ou às reuniões particulares dos ministros.

E o Borges em vão se arrepelava, se maldizia e se punha fora de si.

Filomena, ao contrário, à semelhança de certas plantas caprichosas, que só vingam bem nos abrasados e altaneiros píncaros do rochedo, cada vez mais e mais se identificava às exigências do seu novo meio.

E protegia o marido à sombra de seus conselhos, amparava-o, conduzia-o, emprestando-lhe um lugar no, ginete de suas ambições e cedendo-lhe liberalmente todas as armas do seu espírito e toda a força da sua vontade.

O Imperador não disfarçava o bom conceito em que tinha a opinião do experimentado e sensato visconde de Itassu.

- É um homem de peso... dizia. - Não tem fulgurações de talento, mas sobra-lhe o tino! Homem de gabinete!

O Borges, o modesto e inofensivo Borges, viu então circularem ao redor de si os mais lisonjeiros comentários a respeito de qualidades, que ele nunca desconfiara que possuía. Viu atribuírem-lhe competência, das quais ele podia jurar que não dispunha; viu darem-lhe a paternidade de fatos de grande tática política, dos quais só chegara ao conhecimento pelas notícias do "Diário Oficial".

Mas, em compensação, os jornais ilustrados, os órgãos republicanos e algumas folhas diárias surgiam pejados de sátiras, de pilhérias e de caricaturas contra ele, a mulher e o monarca.

Deram-lhe alcunhas ridículas, inventaram-lhe biografias vergonhosos, crivaram-no de triolets insultuosos. Afirmou-se que Filomena Borges era de fato a imperatriz do Brasil; que ela, se não reinava sobre a nação, reinava sobre o monarca; que Sua Majestade, tomado de amores, deixava fazer de si o que bem quisesse a viscondessinha de Itassu, e que esta, abusando da posição, pintava o diabo com o pobre país, erguia e desmanchava gabinetes, com o mesmo capricho com que armava e desfazia os seus penteados e... os do marido.

Borges não sabia resistir a tais diatribes; ficava a ponto perder a cabeça quando as lia; mas, em vez de revoltar-se contra a própria fraqueza, atirava sua indignação sobre os inimigos do Estado, ao passo que a este ia se prendendo cada vez mais.

- Não dês a menor importância! acudiu o Guterres. - Deixa ladrar a inveja!

- Mas que necessidade tenho eu de ouvir diariamente esses desaforos?...

- É uma questão de hábito, filho! Bem se vê que ainda não estás calejado nesta coisa! Pois querias fazer posição sem ouvir descomposturas?... Serias aqui o primeiro! - Quem tem mérito, tem inimigos! Mais tarde, quando os jornais já não disserem nada a teu respeito, hás de sentir até a falta desses mesmos desaforos que hoje te mortificam!

Mas o visconde, em vez de habituar-se ao que diziam dele, ia se enterrando progressivamente no azedume e no tédio; deixava-se tomar de um desespero irritativo e constante assanhava-se já por qualquer coisa, andava sempre de cara fechada, tinha palavras duras e gestos desabridos3 até com o próprio Imperador.

O Imperador!...

Pobre homem! bem longe estava ele de merecer as acusações que lhe faziam a respeito da afilhada!

Que estivesse impressionado pela gentil criatura, pode ser; mas é que o diabrete arranjava as coisas de tal jeito; que o bom monarca não conseguia ir além de seus desejos, se é que os tinha.

Por mais esforços que empregasse, se os empregava, a viscondessinha fugia-lhe por entre os dedos, com desculpas banais, como por exemplo a da circunstância de ser sua afilhada, deixando o coração do soberano ainda mais abrasado e ansioso, o que é possível, porque desgraçadamente os imperadores são feitos da mesma carne fraca e tilitante de que se formam as outras criaturas suscetíveis ao amor.

Por esse tempo, era o Borges indigitado para exercer fora do país um importante cargo diplomático, que acabava de vagar.

- Não é que este homem embirrou deveras comigo?!'.. exclamou ele, quando lhe chegou aos ouvidos tal notícia.. - Agora quer me fazer ministro plenipotenciário lá por onde o diabo perdeu o cachimbo! Ora, os meus pecados!

Filomena preferia ficar na corte, mas declarou logo que, se o marido aceitasse o cargo, ela o acompanharia, fosse lá para onde fosse.

Cassou-se imediatamente a nomeação do visconde, e, à noite, quando este teve ocasião de ver o amo, notou-lhe na fisionomia um certo ar de má vontade.

Lá se ia por água abaixo o prestígio do Borges e mais da mulher.

XXII

DISSOLVEM-SE AS ÚLTIMAS ILUSÕES

Todo o empenho de Filomena Borges, todo o seu sonho dourado, era ver o marido no poder, à frente de um ministério; ordenanças atrás do carro, casaca resplandescente de galões amarelos, chapéu armado, espada à cinta e comenda ao peito.

Queria vê-lo ministro! Ministro, ainda que fosse por pouco tempo! - por uma semana, por um dia ao menos!

- Mas meu amor, dizia-lhe o esposo com a voz suplicante - teu marido já não pode com semelhante vida! Hei de fatalmente arriar a carga; estou exausto, estou seco, sem uma pitada de miolo! - mais uma semana - estouro! levo o diabo!

- Oh! Por amor de Deus não desanimes! exclamava a viscondessa, lançando-se-lhe nos braços. - Concentra todas as tuas forças e luta mais um instante! Juro-te, meu amigo, que, mal te vejas ministro, eu te acompanharei para onde quiseres e farei tudo o que me ordenares! Não penses em abandonar covardamente o posto de honra, agora que à custa de sacrifícios, conseguimos vencer a parte mais difícil da ladeira! Ânimo, visconde de Itassu! Não cedas o terreno aos teus adversários, que nos cobrem de ultrajes e calúnias! Não queiras realizar o que eles nos profetizaram! Se me tens amor, se me adoras, visconde, se te merece alguma coisa o muito que te quero e a forma imaculada pela qual tenho até hoje conduzido o teu nome, não faças uma fugida vergonhosa' Não queiras ser o meu algoz, porque eu não saberia resistir a tanta humilhação!

- É o diabo!... respondeu o Borges, coçando a cabeça. É o diabo! Se tudo isso dependesse só de minha vontade, já cá não estaria quem falou! Mas a questão é que eu já não sei a quantas ando!... já não tenho cara para mostrar a todos esses homens, que confiam no meu valor e que esperam de mim o que eu nunca esperei! - É o diabo! Não calculas o quanto me pesa esta responsabilidade; não imaginas com que impaciência desejo atirar para longe as cangalhas que me puseram nas costas, e fugir, contigo para um canto obscuro, onde não haja preocupações políticas, compromissos, artigos a responder, e onde não tenhamos que amargar as descomposturas da imprensa e as cuspalhadas dos inimigos! Ah, meu Paquetá! meu belo e tranqüilo Paquetá, como te desejo, como te ambiciono!...

- Não! Nós não nos enterraremos em Paquetá, não nos condenaremos ao ostracismo, sem que tenhamos triunfado dos nossos esforços! Hás de governar! Juro-te eu! Hás de ser grande e poderoso!

Mas, ai! a linda ambiciosa contava dispor ainda do único elemento com que lhe era dado realizar tudo isso - a proteção do padrinho. Não desconfiava ainda, a visionária! que já não tinha às suas ordens essa vontade maravilhosa; que tudo determina no Brasil. E, ao reconhecer os primeiros sintomas de sua impotência, teve ímpetos de estrangular-se.

Todavia procurou iludir-se. Não desanimou logo e, a despeito dos protestos do marido, que parecia cada vez mais aflito, reuniu todo o seu empenho em um último esforço, a ver se conseguia reatar o sonho, sem ter de poluir o seu contrato de fidelidade conjugal.

- Lutaremos! Lutaremos! bradava ela, a sacudir o marido violentamente. - As principais influências conservadoras estão conosco! Havemos de vencer ou morreremos juntos, esmagados pelo mesmo destino!

O Borges tomou fôlego, depois de uma reviravolta que lhe deu a mulher, e declarou que entendia muito mais acertado irem eles acabar os seus dias tranqüilamente em um canto obscuro e feliz.

- Pensa em quanto é tempo, meu amor! dizia o pobre homem. Resolve-te quanto antes, porque, para falar com. franqueza, desconfio que as coisas não vão boas; creio que teremos novidade lá por cima! E, assim por assim, é muito melhor que a bomba rebente quando já estivermos longe! Que te parece?...

Filomena não respondeu às considerações do marido e jurou que estava "disposta a lutar até ao último momento".

* * *

Mas um fato inevitável, e talvez precipitado justamente pelo soberano, veio tolher-lhe as asas logo no começo do vôo, e decidir a derrota de Filomena: - declarou-se no ministério conservador a memorável crise que produziu a situação de 5 de Janeiro de 78.

O velho partido estalou nas raízes, estremeceu todo, rangeu e afinal caiu por terra, como um carvalho secular, esmagando de uma só vez a caterva de políticos que dormiam à sombra dele.

Foi um charivari furioso.

O Rio de Janeiro despertou sobressaltado com o baque formidável do poder. Mil existências desarticularam-se de seus eixos, mil interesses feneceram; mil esperanças espocaram, para dar lugar a outras tantas, que surgiram... Os liberais atiraram-se a campo, assanhados, famintos, depois de um jejum de dez anos. E um redemoinho vertiginoso formou-se em volta do trono, arrancando pela raiz todas as plantas mal seguras ao fundo limoso daquele oceano de egoísmos.

E tudo veio à superfície d'água; velhas misérias abafadas ressurgiam. E os corpos que boiavam depois do cataclismo, chocaram-se uns contra os outros, a lutarem, a morderem-se, a engalfinharem-se, num supremo desespero de náufragos.

O Borges nunca experimentara um dia tão levado dos diabos; viu-se tonto, perdido, naquele labirinto de paixões políticas e conveniências particulares; labirinto de que ele não conhecia o norte, nem o sul, nem lugar de entrada, nem o lugar da saída. O Imperador virou-lhe as costas à primeira pergunta; o Guterres desapareceu, sem lhe deixar ao menos duas palavras que o animassem.

Todavia exigiam dele a explicação de fatos cuja existência o pobre homem até ignorava; responsabilizavam-no por outros completamente alheios à sua competência; fizeram dele um bode expiatório; envolveram-no em uma rede de intrigas; reduziram-no a peteca e atiraram-no de mão em mão crivado de pilhérias, de dichotes, de rabos de palha, inutilizado, cheio de ridículo, cuspido por todas as bocas da publicidade.

Safa! safa! bufava o desgraçado, quando afinal se viu em caminho de casa.

- Vão todos para o diabo que os carregue, súcia de bandidos! Agora, haja o que houver, não os aturo nem mais um instante! Minha mulher que tenha paciência, mas em coisas que cheire a política, nunca mais meterei o bedelho! Nada! hei de ver-me livre daquele inferno e ainda me parecerá um sonho!

Só à noite conseguiu chegar ao lado de Filomena, já tarde e caindo de fome, porque nesse dia nem lhe deram tempo para comer.

Encontrou-a toda vergada sobre a secretária, a cabeça entre as mãos, os cabelos despenteados e soltos ao ombro.

- Então, hem?!... Que me dizes tu à brincadeira?.. exclamou ele, indo ter com a mulher.

- Peço-te que não me dês uma palavra a respeito da situação política! respondeu Filomena, erguendo-se muito triste

* * *

E a partir dai deixou-se tomar de uma grande melancolia,

Foi preciso chamar um médico logo ao amanhecer do dia seguinte. Filomena sentia-se mal, vieram-lhe irritações nervosas, derramamento de bílis, e depois febre, acompanhada de delírios.

Assim levou três dias, sem obter melhoras de espécie alguma.

Durante esse tempo, Borges penou e labutou mais do que em toda a sua trabalhosa existência. Andava num torniquete incessante das secretarias para S. Cristóvão, de S. Cristóvão para casa, arranjando a sua demissão e ao mesmo tempo servindo de enfermeiro à esposa.

Uma dobadoura infernal! Faltava-lhe cabeça para tanta coisa. Já não podia suportar as perguntas que lhe faziam sobre os trabalhos do paço, fugia-lhe a paciência, dava respostas atravessadas, queria brigar, esbordoar os que lhe exigiam explicações, praguejava, insultava e pedia por amor de Deus que o despachassem quanto antes, que o pusessem na rua.

Afinal, convencidos de que o pobre diabo sofria de demência e talvez também porque já estivessem fartos de rir e de o aturar, deram-lhe com a demissão, e ele, sem perda de tempo, correu para junto da enferma, disposto a não pensar noutra coisa que não fosse restituir-lhe a saúde, a força, a alegria, que eram igualmente a sua alegria e a sua força.

Chegou à casa caindo de fadiga. A mulher estava tão fraca, abatida, que não parecia a mesma.

Ele ajoelhou-se a seus pés, tomou-lhe uma das mãos entre as suas e cobriu-a de beijos.

A doente agradeceu-lhe com um sorriso triste.

- Como te sentes? ... perguntou ele. Estás melhorzinha, não é verdade?

Filomena respondeu que sim com a cabeça.

- Isso nada vale!... Diz o médico que ficarás boa, logo que mudes de ar. Agora mesmo venho de estar com ele; amanha tratarei da viagem.

E, chegando-se mais para a esposa, principiou com multa ternura a dizer os seus projetos:

- Seguiriam juntos e mais o Urso para um lugar que escolhessem no campo. - Paquetá, por exemplo, "Paquetá, que ele não via há quanto tempo!... e da qual sentia tamanhas saudades!..."

- Ah! que bom! uma existência calma e despreocupada nessa querida ilha, onde ele nascera e passara os primeiros anos! Teriam a sua casinha, muito bem arranjada, sempre multo limpa, muito bem ventilada; teriam o seu pomar, o seu jardim, de que eles próprios se encarregariam para matar o tempo; teriam uma vaca de leite, algumas cabras, carneiros, porcos, um pequeno tanque, onde os marrecos e patos tomassem banho, muita criação de galinhas e pombos, pombos a perder de vista. A casa seria à beira-mar, teriam o seu botezinho para a pesca e para os passeios à tarde pela costa ou até a ilhota de Brocoió!...

- Que gosto em ter a gente à mesa as frutas que viu crescer no seu quintal!... dizia o Borges comovido. Que prazer em passar os dias a cuidar do que é seu, consertando, indireitando, plantando, regando, colhendo. Demais, ali não tens que fazer etiquetas; podes andar por toda a ilha com o teu vestidinho de chita, o teu chapéu de palha, o cabelo à vontade, que ninguém repara nisso!

E entusiasmando-se progressivamente com aquela expectativa de felicidade tranqüila:

- Isso que sentes agora nada vale... Hás de ver como ficas esperta logo que estivermos em nossa casinha de Paquetá!... E que passeios não havemos de fazer ao ar livre, pela praia, nas manhãs de sol ou nas noites de luar!... Havemos de ter pequenas reuniões de amigos; tu tocarás o teu piano, cantarás, enquanto eu estiver cuidando da chácara!...

- Oh! como havemos de ser felizes! como havemos de ser felizes! exclamava o bom homem, já transportado mentalmente à sua terra, e sentindo-se em pleno gozo daquela doce existência que ele tanto ambicionava.

Filomena ouvia-o em silêncio, a olhar imóvel, a boca levemente arqueada pelo esforço que ela fazia para sorrir às palavras carinhosas do marido.

- Mas não fiques triste desse modo, que me matas... suplicava ele, com a voz trêmula e os olhos embaciados. - Espalha essas mágoas, que são a causa única de tua moléstia, minha querida Filomena! Se não quiseres vir para a roça, como aconselhou o médico, se Paquetá não te agrada, dize então o que te apetece, o que te serve... bem sabes que todo o meu empenho é só fazer-te a vontade, é só ver-te feliz e satisfeita, minha santa, minha querida mulherzinha!

- Não, meu amigo, não! Eu irei para onde quiseres; tenho obrigação de acompanhar-te... respondeu Filomena em voz baixa, fazendo esforços para conter as lágrimas.

XXIII

PAQUETÁ

Borges não descansou mais um instante, sem ter arranjado o necessário para abandonar a cidade.

Obteve uma casa em Paquetá; comprou tudo que lhe pareceu mais ao gosto da mulher, pois que esta se obstinava a guardar silêncio, e não se pronunciava por coisa alguma, como se tudo lhe fosse indiferente.

- Faze o que entenderes..- respondia ela, sem abrir os olhos. Quanto fizeres será bem feito. Tudo me agradará.

- Mas não fiques desse modo!... pedia o esposo afagando-a.

Ela sorria tristemente e não dava mais palavra.

Partiram na manhã seguinte para Paquetá.

Havia um belo sol. Toda a natureza palpitava às carícias da luz; um panorama radiante desenrolava-se em torno da poltrona, onde Filomena se sumia entre grandes almofadas.

Os horizontes iam fugindo e azulando; as águas da baía estendiam-se a perder de vista, refletindo nas suas lâminas de prata as pequenas ilhas verdejantes que surgiam de todos os lados. E a serra dos órgãos aparecia ao longe, apunhalando o céu com as suas pontas cor de aço, enquanto as nebulosas cordilheiras derramavam-se-lhe aos pés, formando grupos de nuvens paralisadas.

Filomena, entretanto, parecia indiferente a esses mesmos esplendores que dantes a arrebatavam.

Embalde o marido fazia por chamá-la às antigas impressões; embalde procurava despertar-lhe na alma o extinto entusiasmo: - Filomena, muito abatida, os olhos mortos, as mãos esquecidas sobre o regaço, queixava-se ficar no seu entorpecimento doentio.

Já não era a mesma Filomena de dois meses atrás. Seu sorriso agora era triste e cansado; sua cabecinha redonda e outrora esperta como a cabeça de uma rola, caía-lhe sobre o peito em uma prostração de luto e viuvez.

O resto da viagem correu fúnebre.

Ao chegarem à casa, Filomena não se mostrou interessada por coisa alguma; entrava ali como se entrasse para um hospital; a criada, que encontrou às suas ordens, pareceu-lhe uma irmã de caridade. Em vão o marido pedia a sua opinião sobre o que tinha preparado para recebê-la ou sobre a beleza natural do lugar, a esplêndida vista que se desfrutava deste ou daquele ponto.

Filomena sacudia os ombros, sem uma palavra; o Urso em vão lhe farejava os pés, à espera de uma carícia.

Veio o almoço. Borges, para chamar a mulher ao bom humor, lembrava tudo que lhe parecia ter graça: e inventava anedotas, recorria a todos os meios de distraí-la, fazendo-se pilhérico, fingindo-se alegre, procurando reconstruir as mesmas fisionomias, os mesmos movimentos ridículos, com os quais ele, dantes, sem querer, fazia-a rebentar de riso. - Engasgava-se com o vinho, tossia, fingia-se parvo, imbecilizava-se propositadamente.

Mas tudo era baldado. E o infeliz, sentindo acudirem-lhe as lágrimas, fugia, abafando os soluços com as mãos, para que a mulher os não percebesse.

* * *

E no entanto, a melancolia de Filomena avultava de instante a instante, como uma nuvem que se espalha no céu. E tudo se foi tornando sombrio, carregado, trevoso, até que a última réstia de azul desapareceu totalmente.

Então, a. enferma deixou-se ficar de cama, sem querer ouvir falar de coisa alguma desta vida, nem querer suportar outra companhia que não fosse a do marido.

Ele, só andava na ponta dos pés, só falando em segredo, tresnoitado, aflito, como louco, servindo a um tempo de enfermeiro e de criado. Não queria que ninguém se aproximasse do quarto da mulher, com receio de incomodá-la. Ela não podia ouvir a menor bulha; o mais leve som de passos eqüivalia marteladas na cabeça.

E o Borges, em meias, com pisadas de ladrão, o ar sobressaltado, não ficava quieto num lugar, andava por toda a casa, evitando o que pudesse contrariar a doente. E quando se punha ao lado dela, seguia-lhe os movimentos da pálida fisionomia, como um cão ao lado do senhor, pronto a lançar-se de carreira para a direita ou para a esquerda, conforme o decrete o olhar do dono.

- Ó minha Filomena! minha querida companheira, dizia em segredo, sem poder distrair as lágrimas que lhe transbordavam dos olhos. - Que tens?... que sentes... Que te falta? Dize! fala, minha vida! Pode ser que isso te faça bem!... Desabafa, ordena - eu sou o teu escravo, estou aqui para te obedecer! Vamos, por quem és! dize o que queres!...

Filomena desviou o rosto vagarosamente, pedindo ao marido, com um gesto, que se afastasse, e dois grossos fios luminosos principiaram a lhe correr pela nublada palidez do rosto. Depois, no fim de alguns minutos, como se ganhasse alívio com aquele choro, fechou os olhos e adormeceu tranqüilamente. Borges, encostado à porta do quarto, vigiou todo esse sono, que durou mais de cinco horas.

Só se animou a entrar, quando a sentiu novamente acordada.

Eram seis da tarde: de uma tarde melancólica de Julho.

Ouvia-se grunhir lá fora, o vento nos flabelados ramos das palmeiras, e o mar estrebuxava em soluços pela extensão da costa.

No aposento da enferma crescia o silêncio escuro das igrejas. Tudo era triste e concentrado; ao longe, vozes de crianças rezavam em coro a Ave-Maria.

Borges parou defronte do leito da mulher.

Viu-a toda branca, destacando-se do claro-escuro dos lençóis como uma figura de cera. Mas a fisionomia dela repousava numa expressão de inefável doçura.

Aproximou-se lentamente, sonâmbulo, e foi ajoelhar-se aos pés daquela imagem adorada; tomou-lhe uma das mãos, que pendia fora da cama.

- Meu amigo, disse Filomena com dificuldade, derramando sobre o marido um suplicante olhar de extrema ternura, como se lhe quisesse pedir perdão. - Meu bom amigo, sinto que morro, e só me punge a idéia do bem que não te fiz e do muito que merecias!...

- Ó minha querida! não penses nessas coisas!... - Espalha essas idéias de morte!...

Filomena meneou a cabeça.

- Não, não! disse-lhe o marido, tomando-a nos braços. - Tu não morrerás! Havemos de viver ainda muito! - felizes! - eternamente unidos como dois pombos! Eu continuarei a ser o teu escravo, o teu amante, o teu fiel companheiro; tudo aquilo que entenderes! Voltarei alegre para onde quiseres! Tornaremos à agitação da corte, à febre das paixões; principiarei de novo a minha vida! Saltimbanco, touriste, superintendente, jornalista, homem célebre, serei tudo de novo, contanto que tu vivas, meu amor, minha felicidade! Contanto que não te deixes assassinar por essa tristeza, que te abafa a existência, ó minha vida! ó minha doce esposa!

E o Borges, tomado de um desespero febril, estorcia-se ao lado da cama, desfazendo-se em lágrimas.

- Obrigada! muito obrigada, meu generoso e honrado amigo! De tal modo te habituaste às minhas quimeras e à minha loucura, que não podes acreditar que eu tenha um momento lúcido antes de morrer.

- Não! não! não penses em morrer, minha querida!

Filomena, em resposta passou os braços em volta do pescoço do marido e repousou a cabeça no colo dele.

- Só tu és bom!... dizia arquejando - só tu mereces todas as bênçãos do céu!... Como eu te adoro e como eu te amo, meu...

Não pôde acabar. E, depois de uma breve aflição, retesou as pernas e os braços, exalando, num estremecimento geral, o último suspiro.

- Filomena! Filomena! bradou o esposo, sem a largar das mãos, mas afastando-a rapidamente a toda a distância dos braços e encarando-a desvairado e sôfrego: - Fala! fala! Dize por amor de Deus que não estás morta!

Ela, porém, em vez de responder, deixou pender a cabeça para um dos lados e, assim, ficou na sua imobilidade de cadáver.

Borges ainda a encarou em silêncio, arquejante. Depois, sacudiu-a toda, com impaciência; chegou repetidas vezes ao seu rosto esfogueado o lábio frio da morta, para ver se lhe descobria um último sopro de vida. E, afinal, soltando um bramido formidável, repeliu-a de súbito e atirou-se ao chão, a espolinhar-se, a rolar por todo o quarto, entre gargalhadas de louco.

* * *

Entretanto, lá fora continuava o surdo marulhar das vagas; zumbia ainda o vento nos palmares; e as crianças, no seu coro de arcanjos, pediam à Virgem Santíssima que as amparasse neste vale de lágrimas.

* * *

Dias depois, no modesto cemitério de Paquetá, à sombra de um velho cajueiro, via-se uma pobre sepultura, em cuja lápide dois nomes se entrelaçavam com o mesmo apelido. E defronte, estático e silencioso, como uma esfinge de mármore negro, um enorme cão velho e trôpego, fitava-a, deitado, sobre a relva.

FIM

Fonte: www.biblio.com.br

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