Teresa fechou os olhos para não ver esse doloroso espetáculo. A vida real entrava-lhe na imaginação como um jato de água fria. Ainda na véspera, ela se persuadira que ia por uma vez desprezar tudo aquilo; que nunca mais veria tal vizinho passar a horas certas para a sua repartição; que não ouviria tal piano de casa próxima tocar certa e determinada música; que não suportaria mais a voz da preta que de manhã passava impreterivelmente na rua a apregoar frutas; julgara que nunca mais daria com os olhos no vizinho da frente, um taverneiro barrigudo, de perninhas curtas e barbas debaixo do queixo; persuadira-se enfim que se havia por uma vez libertado de todas aquelas misérias positivas, que a constrangiam, que a matavam de vergonha e de tédio.
As próprias casas da vizinhança, a má pintura das tabuletas, o desenho de um boi impassível na parede de um açougue que ficava defronte, as desgraçadas alegorias da taverna da esquina, o farmacêutico pequenino, magro, amarelo, que vinha todas as tardes assentar-se debaixo de um flamboyant fronteiro à farmácia; tudo isso a enjoava, tudo isso lhe produzia efeitos insuportáveis.
A malograda fuga com o Portela havia sorrido ao espírito de Teresa mais pelo lado do imprevisto, do desconhecido, do aventuroso, do que mesmo pelo amor que ela lhe pudesse ter.
Desejara aquela fuga como um doente deseja mudar de um lugar para obter novos ares; outro qualquer moço, igualmente vigoroso e bem disposto, é natural que produzisse nela iguais efeitos.
A sua imaginação precisava de atividade dramática, como seu corpo precisava de atividade sexual.
Mas, as decepções da véspera faziam-na por um instante esquecer tudo isso, para só pensar na possibilidade de restituir-se de novo ao lar doméstico.
— Ah! se Deus me tivesse deixado uma de minhas filhas... dizia ela consigo, a subir muito apressada a pequena escada de pedra que conduzia da chácara para o jardim; não estaria eu agora com certeza a sofrer deste modo: haveria de sentir-me escudada por ela e pelo meu amor de mãe...
Rosa veio ao seu encontro e, sem lhe dar uma palavra, sem fazer um gesto de espanto, abriu com pressa a porta da cozinha que dava para o jardim, e fê-la passar, empurrando-a familiarmente pelas costas.
— Entre aí para o meu quarto, ordenou a criada. Eu já lhe venho dizer quando deve subir.
Espere um pouco! E Rosa, apanhando as saias, ganhou a primeira escada e desapareceu.
Teresa ficou só, à espera, com o chapéu na cabeça, a capa nas costas, imóvel, como se estivesse muito empenhada em observar os objetos que tinha defronte dos olhos. E, sem querer, começou a calcular o efeito da sua aparição ao lado do marido; via-se toda confusa a fazer-lhe festinhas, a consolá-lo do que havia sucedido, a adulá-lo. E, ainda sem querer, começou a considerar como devia entrar, se depressa ou vagarosamente; se devia deixar embaixo o chapéu e apresentar-se inalterável, como se não houvesse a menor novidade; ou se deveria entrar com espalhafato, fingindo indignação por qualquer coisa; se devia não dar palavra ao marido e esperar que tudo voltasse por si mesmo aos seus eixos, ou se devia lançar-se-lhe aos pés e pedir-lhe perdão com palavras ardentes, com soluços e gestos teatrais.
Mas antes de chegar a qualquer conclusão, já a criada voltava a dizer-lhe apressadamente da porta: — Agora! Agora! Passe agora. Ande! Não há ninguém na varanda! Suba e vá para o seu quarto! Teresa cumpriu aquela ordem, como se a recebesse de um superior.
— Ligeiro! gritou-lhe Rosa, assim que ela atravessou a cozinha e ganhou a escada. E logo que a viu desaparecer, espocou uma risada surda e soltou entre dentes uma exclamação injuriosa.
Depois, muito satisfeita com aquele episódio que humilhava a senhora, entrou no seu quarto, donde acabava de sair Teresa, e principiou por desfastio a arrumar os objetos sobre os móveis e a cantar em voz alta, com desembaraço, uma chula sua favorita.
Quando saiu do quarto, disse “Ai, ai!” e subiu a escada lentamente, com maneiras de dona de casa.
Teresa não apareceu à mesa, almoçou nos seus aposentos, esperando que Olímpia deixasse a cabeceira do pai, para então apresentar-se ela.
Mal, porém, havia feito a refeição, soaram duas pancadinhas à porta. A leviana retraiu-se.
— Sou eu, abra, disse de fora uma voz amiga.
Era Olímpia.
Teresa corou; a outra, porém, passando-lhe um braço na cintura, beijou-a na face.
A madrasta estranhou muito aquela inesperada amabilidade. A enteada fora sempre muito seca para com ela; e a sua surpresa cresceu, quando a filha do marido começou a declarar que estava muito aflita, receando que mãezinha não voltasse, e que desejava ser a primeira a dar ao pai a boa notícia da sua chegada.
— Não! disse Teresa; ele deve estar muito zangado comigo... o melhor é esperarmos que...
— Qual! eu obtenho de papai o que bem quero... Hei de falar-lhe por tal modo a seu respeito, mãezinha, que ele nem só a receberá de braços abertos, como ainda me ficará reconhecido.
— Não; é melhor esperar. Talvez que a minha presença agora lhe faça mal...
— Nesse caso vou consultar primeiro o Dr. Roberto! lembrou a outra com um repente de menina esperta.
— Está doida! Meter nisto um estranho?!...
Mas Olímpia afiançava que havia de arranjar tudo. E, com crescente surpresa da outra mostrava-se cada vez mais interessada pela madrasta. Não parecia a mesma; aquela falta ridícula e censurável de Teresa, longe de lhe produzir indignações, como era de esperar, despertava nela estranhas simpatias e inexplicáveis condolências.
Entretanto, Olímpia fazia tudo isso sem compreender bem por quê. Teresa ganhava a seus olhos certa auréola de poesia e sofrimento; a sua penosa situação dava-lhe, aos olhos da romântica menina, uns tons sedutores de heroína de romance; sem prever a pobre criança que, toda essa desordem moral e toda essa desorganização doméstica, haviam fatalmente de influir na sua própria educação e determinar, mais tarde, os lamentáveis sucessos de que já o leitor tem notícia desde as primeiras cenas da Avenida Estrela.
Nenhuma lição é tão poderosa como a do exemplo. Filtra-se ela pelo nosso espírito sem que o sintamos; e ela nos invade, nos conquista, nos possui totalmente, sem que possamos determinar ao certo qual foi o fato, o acontecimento que em nós estabeleceu este ou aquele sintoma, esta ou aquela inclinação, sem que possamos dizer o que foi que nos trouxe tal vício, tal idiossincrasia, tal propensão boa ou má. Tudo mais, que aprendemos de ouvido ou que aprendemos nos livros, se evapora com o tempo e desaparece; só essas lições, que nos entraram pelos olhos e nos espalharam na alma as suas raízes, só essas conservaremos por toda a vida e levaremos conosco para a sepultura.
Teresa, sem que ela fosse responsável por isso, não por maldade, mas unicamente em conseqüência das circunstâncias especiais do seu temperamento, da sua má educação e da desproporção de sua idade com a do marido, havia fatalmente de ser um elemento de corrupção ao lado de Olímpia.
A filha do comendador beijou ainda uma vez a madrasta, e saiu, com destino ao quarto do pai. Ia sondar em que disposição de espírito se achava ele para receber a mulher.
O pobre homem permanecia estendido na cama. Tinha os olhos cerrados, mas não dormia, porque os abriu logo que a filha pisou na alcova com o seu andar sutil de ave impúbere.
XXV O MARIDO DE OLÍMPIA O comendador levantou-se da moléstia pelos braços da filha e da esposa. Olímpia havia triunfado: o pobre doente consentira em receber de novo a leviana. Mas, ah! nunca mais lhe dispensou a mesma ternura dos outros tempos; tratava-a agora com cerimoniosa indiferença, quase com desprezo; apenas a suportava por condescendência à filha que, desde logo, se convertera na sua única preocupação e no seu único afeto. Não gostava até que lhe falassem da mulher, poucas vezes a via e, quando se encontravam juntos à mesa, não trocavam entre si sequer um olhar.
Ela, entretanto, muito se transformara depois da partida do cúmplice. Já não ostentava os mesmos gostos e as mesmas inclinações; parecia indiferente às festas e aos passeios; não caprichava na escolha das roupas e saía poucas vezes de casa. Vivia triste, concentrada; estava muito mais magra, porém aparentemente resignada. Ninguém lhe ouvia uma queixa contra o marido; agora ao contrário, parecia procurar descobrir-lhe as intenções, as mais pequeninas vontades, para correr a satisfazê-las; adivinhava-lhe os desejos, armava-lhe boas surpresas e mostrava-se para com ele de uma solicitude e de uma amabilidade de que nunca dera exemplo em outras épocas.
Mas o comendador afetava não atentar para isso; recebia os obséquios que vinham da mulher com a mesma indiferença com que ouvira falar de qualquer assunto que absolutamente lhe não dissesse respeito. Não a contrariava, não desdizia, não a aconselhava, se ela quisesse sair, que saísse; se quisesse ficar em casa, que ficasse; se quisesse morrer, que morresse! Para ele era tudo a mesma coisa; contanto que lhe deixassem a sua querida, a sua adorada Olímpia.
Para esta, sim, tinha o comendador bons sorrisos, palavras afetuosas e rasgos de amizade.
Sempre que entrava em casa perguntava logo por ela e nunca saía sem receber um beijo dos seus lábios finos e perfumados.
Assim se passaram seis meses.
Um dia Olímpia comunicou-lhe que a madrasta estava doente.
— Sim? resmungou o pai. E continuou a falar do assunto de que tratava.
— Oh! disse a menina. Há dois dias!... Pois papai não vê que ela não tem vindo à mesa?...
— Não reparei, afirmou o velho secamente.
— E por que não lhe vai fazer uma visita?... perguntou Olímpia, ameigando-o. Ela havia de estimar tanto, coitada!...
— Sim, sim, eu hei de lá ir, prometeu ele para contentar a filha.
Mas três dias se passaram depois da promessa, sem que o comendador aparecesse no quarto da mulher.
— Antes me castigasse de outro modo! disse esta à enteada em continuação a uma conversa.
Nunca pensei que teu pai fosse tão pacificamente mau! Estou arrependida de ter aqui voltado, crê! Olímpia não se animou a objetar uma palavra em defesa do comendador.
— Sei que mereço censura, acrescentou a enferma, com a voz fraca e infeliz; sei que cometi uma grande falta, mas a minha conduta de então para cá devia obter o seu perdão. Ele vê perfeitamente que estou bem arrependida, por que então nesse caso não me trata de outro modo?... Oh! eu me sinto triste com a idéia da sua vingança, e, todavia, precisava agora, mais que nunca, de desvelos e de amparo... Estou doente, sinto que estou muito mal, por que pois ele me não vem ver?... por que não me vem dar duas palavras de piedade?... Isso não seria também tão grande sacrifício... seria uma simples obra de misericórdia...
E, depois de fitar por algum tempo um mesmo ponto, com as mãos entre as de Olímpia, disse-lhe sem transição: — Nunca te cases senão com um homem de idade proporcionada à tua... Não cometas nunca semelhante leviandade! Por melhor que seja o teu caráter, por mais perfeito que seja o teu coração, por mais senhora que fores do teu temperamento, dos teus desejos e das tuas aspirações, nunca darás uma esposa perfeita, se ao teu casamento não presidirem, o amor em primeiro lugar, depois a harmonia completa de idades, de espírito, de bens e de educação. Não calculas o inferno em que vive uma mulher moça casada com um velho! Não é simplesmente o fato de lhe não dar o marido o amor de que ela precisa para viver, mas também a desgraçada circunstância de que esse casamento a inutiliza de todo para o amor de qualquer outro homem! Olímpia ouvia as palavras da madrasta com os olhos muito abertos e a fisionomia transbordante de curiosidade. Era a primeira vez que Teresa se queixava do comendador e deixava transparecer francamente o azedume dos seus desgostos.
— O amante, prosseguiu a madrasta, também não satisfaz, porque não nos pode dar o que constitui a nossa melhor felicidade em questões de amor. O marido velho está em uma extremidade, o amante está na outra; não podem atingir ao meio termo, o centro calmo de um amor legítimo, digno e completo, que é onde encontramos a verdadeira ventura, o gozo plácido e duradouro da existência. Só um marido moço, amigo, com o seu destino ligado ao nosso, a sua dignidade entrelaçada com a nossa dignidade, pode colocar-se nesse meio termo ideal. É preciso que os dois caminhem de mãos dadas para a velhice, unidos, seguros; o seu amor deve ir custodiado, como um perfume sutil e precioso que se pode derramar pelo caminho. E isso só se consegue com o casamento proporcionado. Ao contrário, no melhor da viagem, um deixará o outro no meio da estrada. O amante não pode sequer compreender o valor dessa afeição solidária, útil e sem transportes; ele nada arrisca, nada compromete no seu amor, para desejar conservá-lo puro e digno. A idéia de que o marido consiga agradar à mulher com as suas ternuras, é o bastante para levá-lo a imaginar meios e modos de suplantar o rival e, como o jogador que arrisca sobre a mesa os capitais alheios, comete o que o marido nunca teria ânimo de fazer. O que vier é lucro! Por outro lado, as circunstâncias que o trazem afastado da amante, lhe facultam acumular por um mês, dois, e às vezes por mais tempo, a porção de ternura que o marido vai diariamente dispensando à mulher em doses pequenas; de sorte que, na ocasião de se apresentar, gasta brilhantemente, em uma só entrevista, tudo o que o outro consome durante um prazo longo. As mulheres, em geral, deixam-se iludir com isso e supõem o amante muito mais amoroso que o marido; não se lembram, as desmioladas, que só o fogo lento é suscetível de duração. O amante tem chama periódica como os vulcões; o marido conserva constantemente aceso o modesto braseiro do lar, o lume da sua casa.
Teresa acrescentou depois: — Não te cases com um velho, minha querida Olímpia; mas, se porventura vier a suceder-te tamanha desgraça, nunca procures remediar esse mal com o mal muito maior de adotares um amante. O homem que é capaz de aceitar semelhante papel, não é digno da nossa menor estima, porque o fato de ser amante de uma mulher casada já é prova irrecusável de deslealdade e de falta de caráter...
Nisto foi interrompida pelo Dr. Roberto que vinha visitá-la.
O médico achou-a mais abatida e gravemente pior, segundo o que disse depois Olímpia.
O comendador recebeu essa notícia sem lhe dar a menor importância. E quando, à noite, Olímpia insistiu com ele para que fosse fazer uma visita à Teresa, o velho respondeu asperamente que não, esquecendo-se por um instante do modo carinhoso por que costumava tratar a filha.
Dois dias depois o Dr. Roberto declarou que Teresa precisava mudar de ares; e a enferma mudou-se para um hotel que se acabava de abrir no morro da santa de seu nome. Foi só; o marido não a quis acompanhar.
Olímpia iria ter com ela de vez em quando.
O comendador mostrava-se cada vez mais diferente; todavia não pôde esconder o abalo que lhe causou a figura transformada da mulher, quando a viu aparecer, pelo braço de Olímpia e de uma escrava, para tomar o carro.
Ele não a teria reconhecido em outro lugar. Estava completamente desfeita; os olhos mortos, a pele de uma palidez cadavérica, o ar cansado e aflito, os cabelos embaraçados e ressequidos pela febre. Não podia quase andar, arrastava os pés inchados, e gemia, a tomar respiração com muita dificuldade.
Ao passar perto do marido, ela o cumprimentou, procurando dificilmente transformar a expressão agoniada do rosto em um sorriso de amabilidade, mas teve logo de cortar o sorriso com um gemido doloroso.
O comendador avançou automaticamente dois passos e procurou ajudá-la.
— Não se incomode! murmurou ela. Eu vou bem!...
E continuou a manquejar, gemendo ofegante.
Nessa ocasião chegava um caixeiro da casa do Figueiredo, que o comendador mandara pedir para acompanhar Teresa ao hotel.
Era o João Rosa; teria nesse tempo uns catorze ou quinze anos. Já denunciava porém o que havia de ser para o futuro; cintilava-lhe nos olhos de criança a cobiça adquirida em contacto com os companheiros de trabalho. Era amarelo, seco, com a cabeça grande demais para o corpo, a boca apertada, o nariz grosso, o cabelo cortado à escovinha, unhas e dentes sujos. Passava por muito esperto e aproveitável: os patrões gostavam dele.
— Acompanhe essa senhora ao lugar aí indicado, disse-lhe o comendador, passando-lhe um cartão com o número e o nome do hotel.
E acrescentou-lhe em voz baixa, de modo que a mulher o não ouvisse: — Demore-se um pouco às ordens dela; pergunte-lhe se precisa de alguma coisa e, dado este caso, comunique-me o que for. Não despeça o carro; se houver qualquer novidade, meta-se nele e venha logo falar comigo. Tome lá para alguma despesa imprevista.
Entregou-lhe uma nota de cinqüenta mil réis.
João Rosa guardou o dinheiro e despediu-se do comendador com uma mesura humilde.
— Viva! respondeu este; e recolheu-se ao quarto, inalteravelmente, como sempre, teso, limpo, bem penteado.
Mas, depois de fechar a porta por dentro, assentou-se à secretária, fincou os cotovelos na mesa, segurou a cabeça com ambas as mãos, e começou a chorar.
Jacó passeava de um para o outro lado na sala de espera. Estava preocupado. Ouvia-se sobre o tapete o som discreto dos seus grandes sapatos de bezerro, muito engraxados e quase sem salto.
Um gemido mais forte, fizera-o correr para junto dele.
Jacó era o único que havia compreendido bem a perturbação do comendador. Para ele o amo não podia dissimular a mais passageira impressão, o velho criado adivinhava-lhe os pensamentos, lia-lhe no rosto tudo o que se passava naquele coração amargurado e cheio de rugas.
Teresa chegou muito fatigada ao hotel, uma enfermeira de contrato trouxe-lhe um caldo e fêla recolher-se à cama.
— Que horas são?... perguntou a doente, com ar de fastio.
— Deram duas agora mesmo.
— Bem. Dê-me aquele livro de capa encarnada. Esse que tem uma cruz em cima.
Justamente! — A senhora precisa ainda de mim para alguma coisa?... perguntou o João Rosa, de quem Teresa já se havia esquecido.
— Ah! disse ela. Se voltar lá em casa, diga a Olímpia que apareça o mais depressa possível.
— Sim, senhora.
— Adeus. Obrigado.
O comendador não aparecera à mesa de jantar, e à noite pouco conversou com a filha.
O pobre velho sofria.
Criaram-se então duas existências bem diversas, mas igualmente duras e desconfortadas; a do comendador ao lado da filha, e a de Teresa à mercê dos cuidados mercenários de um hoteleiro.
A esposa faz muita falta ao homem em qualquer situação da vida, mas essa falta só toma um caráter verdadeiramente perigoso e lamentável, quando o homem tem uma filha. E principalmente se a filha for da idade de Olímpia e, como esta, tiver um caráter impressionável e romanesco.
Os pequeninos serviços domésticos, os cuidados do lar, os desvelos para com o dono da casa, os quais exercidos por uma esposa, feitos de mulher a marido, são destinados a prendê-los de parte a parte, a identificá-los cada vez mais e a torná-los indispensáveis um para o outro; tudo isso que, entre um casal, significa virtude e garantia de felicidade, uma vez arrancado das mãos da esposa, para ser confiado às de uma filha, se converte em elemento de efeitos diametralmente opostos.
O que servia para chamar a consciência da mulher aos seus deveres, só serve, no outro caso, para desencaminhar a delicada ingenuidade da filha, chegando até a lhe desvirtuar o pudor.
O comendador Ferreira, à semelhança de muitos pais, viúvos ou separados da mulher, entregou à filha a direção da sua casa.
Foi então que ela viu pela primeira vez o homem a quem veio a esposar: o caixa da casa Paulo Cordeiro, o tal Gonçalves, vítima de Pedro Ruivo no roubo dos vinte contos; homem forte, trabalhador, econômico, senhor de boas economias e apenas com trinta e tantos anos de idade.
Olímpia o encontrou em casa de um velho amigo do pai, um conselheiro dessa época. O Gonçalves ficou logo muito impressionado por ela; Olímpia tocou e cantou. No dia seguinte ele fez uma visita ao comendador. No primeiro domingo voltou e aceitou o convite para jantar. Daí a quinze dias pediu a moça em casamento.
A filha do comendador consentia, sem repugnância, mas também sem o menor entusiasmo.
O comendador estava no mesmo caso, permitia por não ter outro remédio; o Dr. Roberto havia declarado que Olímpia, se não tratasse logo de casar, podia vir a padecer muito dos nervos, e então seria mais difícil combater a moléstia.
Todavia esse casamento estava destinado a transformar a casa do comendador e o caráter de Olímpia.
Gonçalves iria morar com o sogro, fazendo assim a vontade ao comendador, que não queria separar-se da filha por coisa alguma deste mundo.
Maior que fosse a família, havia lugar de sobra no preventivo casarão de Botafogo.
O velho, sobre estar muito agarrado ao seu canto, vivia ultimamente aborrecido e enfermiço.
A própria filha, de algum tempo àquela parte, não parecia tomar pelo pai o mesmo afetuoso interesse com que dantes lhe arrimava os dissabores e as desilusões. Andava distraída; não tinha as alegrias da sua idade, fugia das amigas, poucas vezes saía de casa, e mesmo assim quase sempre para visitar Teresa. Só os romances franceses e, às vezes, o piano, conseguiam prendê-la por mais algum tempo. Não lhe falassem em festas, passeios e ajuntamentos.
O comendador chamou sobre ela a atenção do Dr. Roberto. Esse declarou que tudo aquilo desapareceria com o casamento.
Foi essa, como já vimos, a única razão que moveu aquele a consentir na união de Olímpia com o Gonçalves. Não é que desdenhasse das qualidades do pretendente, mas o Gonçalves estava longe de ser o ideal que o comendador sonhava para genro. Preferia um homem mais distinto, mais cultivado no trato e nas coisas do espírito; mais brilhante, em suma. E Gonçalves era ao contrário um sujeito modesto e chão; homem de bom senso, mas de ambições estreitas. O que o puxava mais insistentemente para Olímpia, não foi a beleza da rapariga, que ela nessa ocasião até estava quase feia; nem também o dote, porque Gonçalves não seria capaz de casar por especulação, mas foi justamente aquela indiferença pela vida exterior, aquele desquerer das coisas ruidosas que ele, à primeira vista, descobriu logo na filha do comendador.
Pobre homem! como se havia enganado! O que supunha congênito e natural em Olímpia, não passava de uma crise, de um estado mórbido, que desapareceria prontamente com o matrimônio.
Para qualquer outro seria isso um motivo de felicidade, para ele era um transtorno.
Com efeito, pouco depois do casamento, a menina insociável e bisonha foi desaparecendo, e Olímpia, a verdadeira Olímpia, a mulher formosa, de ombros torneados e peito colombino, surgia entre os braços do marido.
Nela tudo se transformou, como por encanto: a pele fez branca e macia; encheu-se o colo e encorparam-se-lhe os braços; as linhas dos quadris serpentearam com mais arrojo; os olhos esparsaram-se, rociados de ternura, e a boca desabrochou em belos sorrisos ao toque dos primeiros beijos sensuais.
E, se por um lado o corpo se aformoseava, por outro o espírito se desapertava e distendia.
Quatro meses depois de casada, Olímpia principiou a sentir-se atrair para as salas, seus encantos pediam a admiração e o aplauso dos homens de bom gosto; precisava de aparecer, precisava de luzir.
Reclamou jornais de moda, freqüentou as modistas do tom, exigiu um cabeleireiro, comprou jóias, tomou carruagem, escolheu cavalos, e dentro em pouco foi ela a ordem do dia na rua do Ouvidor e nos salões de Botafogo.
Os folhetins do Otaviano Rosa, no Correio Mercantil falavam de Olímpia; descreviam-lhe a toilette, endeusavam-lhe as graças. Suas frases foram repetidas, seus gostos imitados.
O comendador não se podia furtar à influência de todas as transformações e com o que essas refletiam. Era com orgulho que agora acompanhava ele a filha ao Cassino, ao Lírico e à Campesina.
Já ninguém o via triste e apoquentado. Os alegres hábitos do outro tempo foram ressurgindo simultaneamente. À casa retornou o ar feliz que havia perdido. Bastou que Olímpia se casasse, se fizesse verdadeira dona de casa, para encontrar facilidade em governar os criados, em dirigir tudo o que estava sujeito à sua vontade. Os fornecedores deixaram de roubar, os fâmulos já não esbanjavam como dantes, a chácara voltou ao que era primitivamente. Tudo endireitou, tudo entrou nos eixos. Reapareceram as visitas, iluminaram-se as salas, distribuíram-se chávenas de chá, desarrolharam-se garrafas de vinho caro.
O único descontente era Gonçalves; aquela mulher, que a todos deslumbrava com os seus encantos pessoais, aquela adorável Olímpia de quem se falava com tanto entusiasmo por toda a parte, não lhe convinha a ele para esposa.
Não era essa a mulher que havia sonhado.
Imaginara ter descoberto na singela filha do comendador uma companheira sossegada e amiga do lar; quando de repente lhe surgiu aquela doidejana, a reclamar sedas, carruagens, bailes, e o diabo a quatro! — Fui lesado! dizia ele consigo, plenamente arrependido do casamento. Se adivinhasse semelhante coisa, nunca a teria tomado para mulher!... Mas também quem poderia desconfiar que em tal songamonga estivesse escondida a Olímpia de hoje?...
E o pior é que o pobre Gonçalves não tinha ânimo de contrariar a esposa. Esta o arrastava para Petrópolis, para Nova Friburgo; obrigava-o a perder noites, a bocejar, assentado em uma cadeira na sala de jogo, enquanto ela dançava pelo braço dos melhores valsistas do tempo.
— Isso não pode continuar assim!... resmungava o pobre homem, entre bocejos. Pois eu tenho lá jeito para essas cousas...
Além disso era um gastar sem conta. Ora, ele que se casara justamente para metodizar a vida e ver se conseguia assegurar o futuro com algum pecúlio, não podia suportar de cara alegre semelhantes imposições de Olímpia. Para deixá-la sozinha, também era o diabo; havia tantos olhos assestados sobre ela; havia tanta cobiça a lhe farejar aqueles ombros nus, que o marido não se animava a arredar pé.
— Antes me ficasse ela feiazita e magra como era dantes... suspirava o infeliz; ao menos não gostaria tanto de aparecer!...
E, apesar de ninguém até aí ter ousado arriscar a menor palavra contra o procedimento de Olímpia, o triste marido sentia zelos cruéis apertarem-lhe silenciosamente o coração.
Um dia, não mais se pôde ter, e procurou o comendador para desabafar.
— Não é possível, seu Ferreira! dizia ele muito desgostoso; não é possível continuarem as coisas como vão!... Eu não me casei para perder as noites em pagodes e andar por aí em correrias altas!... Não sou nenhum nababo! não posso com semelhante vida! E passeava agitado pelo gabinete do sogro.
— Mas que quer você, homem de Deus?!...
— Quero endireitar a minha vida! está aí o que eu quero! Pois meu sogro acha que não tenho razão para estar aborrecido?!...
— Mas que é que lhe falta?! — Falta-me a paciência para andar todas as noites de casaca, a fazer mesuras pelas salas e a aturar massadas consecutivas. Sua filha, ao que parece, não desejava um marido; desejava ter um pajem, um criado às ordens dos seus caprichos!... Ora, eu estou lá disposto a semelhante coisa! — Você fala de boca cheia, meu genro, respondeu o comendador, a sacudir a cabeça. Sabe lá você a mulher que tem!... Renda graças a Deus, meu amigo, porque principio a acreditar que você nunca a mereceu.
— Antes mesmo nunca a tivesse merecido! Dou-lhe a minha palavra de honra que preferia isso! O outro mordeu os beiços e conteve a impaciência.
— É melhor pararmos aqui, disse ele; nada lucramos em estar a trocar palavras. O senhor, meu genro, me falará quando estiver mais tranqüilo!...
— Já não tenho momentos de tranqüilidade! exclamou desabridamente o Gonçalves. Apre! preciso desabafar! Há cinco meses que estou cheio até aqui! (E mostrava a garganta com a mão aberta). Ou entramos em um acordo ou vai cada um para seu lado! Safa! Não posso mais! — Pois então vá plantar batatas! gritou o comendador, perdendo de todo a paciência. Quer fazer reclamações, faça-as à sua mulher. Que diabo! — Ela faz mesmo muito caso do que lhe digo!...
— Pois então queixe-se de si próprio, meu caro senhor! Quando o marido não se sente com forças para governar a mulher, não pode exigir que o sogro a governe! O que lhe afianço é haver por aí muito homem casado que não se queixa como o senhor, tendo muito mais razão para isso! Você ao menos não pode dizer que sua mulher o ilude!...
— Sei cá! respondeu o marido de Olímpia, sacudindo os ombros.
— Hein?! exclamou o comendador, furioso. Não sabe?! Pois o senhor se atreve a duvidar da conduta de minha filha?... Insolente! bradou o velho, trêmulo de cólera. Não sei onde estou que...
Olímpia estava nessa ocasião a passeio. Quando voltou, soube logo da contenda entre o pai e o marido.
— O senhor foi então queixar-se de mim a meu pai?!... perguntou ela a Gonçalves quando o viu.
— Não! é que a senhora...
— Não seja idiota! bradou-lhe a mulher, franzindo o nariz. Quando quiser pode-se ir embora! — E sou muito capaz de o fazer!... Não sei o que parece andar agora uma criatura a correr seca e meca, para ver danças e ouvir tocar piano!...
— Eu é que não estou para aturá-lo! Tenha a bondade de me não aborrecer! disse Olímpia friamente e recolheu-se ao quarto, sem querer ouvir a réplica do marido.
Jacó assistia a toda esta cena, encostado ao aparador com uma toalha no braço.
— Não te parece que eu tenho razão, Jacó?... perguntou-lhe Gonçalves, aproximando-se dele.
— Não me envolva nessas histórias... respondeu o velho doméstico, fugindo por sua vez para outro lado.
Gonçalves cruzou os braços e sacudiu a cabeça sozinho, no meio da sala.
— Então?! que me dizem a isto?! exclamou ele.
XXVI CAÇA AOS DOCUMENTOS E, desde então, não se passava um dia em que não houvesse alguma nova rezinga entre o casal; mas o marido, por muito que protestasse contra os costumes da mulher, nada conseguira. O comendador tomou abertamente o partido da filha e principiou a tratar o genro com frieza.
— Logo vi que este homem não poderia convir a Olímpia, dizia e repetia ele consigo.
Grande parvo! em vez de agradecer a Deus o presente que lhe fez, ainda tem o desplante de lamentar-se! Idiota.
E, quando se achava a sós com a filha e vinha a pêlo falarem de Gonçalves, repisava o comendador com o seu ar aprumado: — Não faças caso, minha flor! diverte-te, brinca, dança à vontade, que és moça! Brilha, minha Olímpia; brilha, que és bonita, espirituosa e rica! Deixa falar o tolo de teu marido; ele o que tem é ciúmes! Não faças caso! Preza o teu nome, defende a tua reputação, cumpre com os teus deveres de senhora honesta, mas continua a ofuscar! Mata de inveja essas presumidas que estão todos os dias a descobrir defeitos em ti! E o velho sentia-se cada vez mais satisfeito com ela. Para ele não havia em todo o mundo outro ente tão completo, tão belo, tão agradável como a filha. Olímpia, depois que mudara de gênio e que se alindara de corpo, era o seu enlevo e a sua vaidade. Quando a via, decotada no rico vestido de seda, a chamar a atenção de todos, a jogar com muita graça o leque, a responder sorrindo às palavras que choviam da direita e da esquerda, o feliz pai ficava embevecido, a acompanhar- lhe com a fisionomia os menores gestos e os mais ligeiros movimentos.
— E queria o senhor meu genro que este mimo de graças não aparecesse nas salas e ficasse em casa, talvez a jogar a bisca! Tinha que ver...
Por essa época sofreu o comendador um novo desgosto: a morte de seu filho, que estava já nos estudos em S. Paulo.
Este fato alterou de alguma forma, e por algum tempo, a vida da família, servindo de paliativo aos desgostos de Gonçalves. Mas, acabado o luto, Olímpia cingiu de novo o seu diadema e reapareceu nas salas.
O pobre homem já não podia suportar semelhante existência. Era preciso que a esposa se decidisse por uma vez a mudar de vida, ou ele pediria a sua demissão de marido.
Olímpia declarou que não estava disposta a alterar de forma alguma os seus hábitos. Se ela, com as suas fantasias, obrigasse o marido a sacrifícios e privações, muito bem! seria a primeira a fugir da sociedade exigente e a submeter-se a uma vida proporcionada à estreiteza dos seus recursos; mas não! o marido nem precisava tocar nos bens que trouxera: Olímpia era rica, tinha muito com que sustentar o seu luxo e os seus caprichos; Gonçalves, por conseguinte, que deixasse de ser egoísta e não a estivesse contrariando daquele modo, porque isso podia ter lamentáveis conseqüências...
Gonçalves opunha carradas de razão: dizia que se casara para viver com a mulher e não para proporcionar mais um bom par aos dançadores de valsa; que era homem sossegado, amigo dos seus cômodos, gostando de passar os domingos na sua chácara, e que não se achava disposto, por conseguinte, a andar por aí, num torniquete, de casaca, a cochilar, que nem o Imperador; que estava já muito farto de bailes, de jantares e de teatros líricos; que as tais ceias fora de horas, os sorvetes, os ponches, que o obrigavam a ingerir todas as noites, lhe punham o estômago em petições de miséria e lhe haviam de dar com os ossos no Caju, se ele não mudasse quanto antes de regime; e, afinal, quando por mais nada fosse, era porque ele não podia admitir que uma senhora casada tivesse adoradores, e ouvisse galanteios, e se deixasse, nas tais danças, abraçar por uns pelintras que ele nem sequer conhecia; como também não podia tolerar que o nome de sua mulher andasse por aí, de boca em boca, de jornal em jornal, tratado por tu, como se ela fosse alguma dançarina ou alguma cômica! Não! Gonçalves não estava por nenhuma dessas coisas e, se a mulher não pretendesse mudar de sistema de vida, que lhe falasse então com toda a franqueza, porque nesse caso quem disparava era ele! Olímpia não respondeu uma só palavra e deixou que o marido ainda acrescentasse muitas outras queixas. À noite encarregou o pai de tratar da separação, se é que Gonçalves estava com efeito a isso disposto; mas, caso estivesse, ficasse ele desde logo prevenido de uma coisa, e era que, em nenhuma hipótese, voltaria ela a fazer pazes com o marido. Gonçalves, portanto, que meditasse antes de dar o grande passo. Quanto a ela não alteraria, de forma alguma, o seu modo de viver! Daí a três dias estavam separados.
Sabe já o leitor o que se seguiu ao rompimento: Olímpia principiou a emagrecer, foi ficando triste e perdendo, pouco a pouco, o gosto pelas festas ruidosas e pelos prazeres opulentos. Ficou nervosa, doente, aborrecida, e dentro de seis meses desertou totalmente da sociedade.
O comendador embalde procurou persuadi-la de voltar aos seus hábitos primitivos; embalde lhe falou do triunfo que outras obtinham já na ausência dela; embalde a cercou de objetos da moda, jornais de figurinos, programas de concertos, camarotes de teatros e provocações de todo o gênero.
Olímpia não se moveu, e em menos de dois anos ninguém mais lhe citava o nome.
Todavia, os seus incômodos recrudesciam; o nervoso tomava proporções muito sérias; o monstro histérico escancarava as fauces.
O Dr. Roberto, como também já sabe o leitor, aconselhou viagens, falou em banhos de mar, lembrou passeios ao campo, mas disse positivamente que o verdadeiro remédio para Olímpia seria fazer, quanto antes, as pazes com o marido.
Não fez. E mais dois anos decorreram, até o dia em que a vimos subir, pelo braço do pai, a escadaria do Papá Falconnet.
Pela confrontação das cenas da Avenida Estrela, com as cenas igualmente mal esboçadas deste capítulo, pode o leitor sem dificuldade calcular os progressos que fez nesses dois anos a moléstia de Olímpia.
Mas saltemos por sobre isso e vamos revê-la no momento em que a deixamos ao lado de Gregório.
Antes, porém, cumpre explicar o que foi feito de Teresa. O Dr. Roberto fazia-lhe de vez em quando uma visita. Achou-a sempre pior; propensa a sofrer das faculdades mentais. Teresa derase ultimamente à devoção e estava muito amiga de rezas e de igrejas. Olímpia já não encontrava nela a mesma amiga e a mesma conselheira; a pobre doente parecia agora estúpida e mostrava-se desconfiada, de mau humor, às vezes impertinente e grosseira.
Rosa, aquela criada que na época dos amores de Portela, lhe protegia as escapulas, fora substituída ao lado dela por tia Agueda.
A infeliz pouco se demorou no hotel; queria um lugar mais obscuro e mais modesto; transferiu-se para Cascadura. O marido mandava-lhe lá, todos os meses, uma pensão de cem mil réis. Estava feia, sumamente feia; a febre crestara-lhe a pele, empobrecera-lhe o cabelo e desfeiara-lhe as feições. Não dava já idéia do que fora; magra, encanecida, meio calva, com os olhos sem expressão, a boca desadornada de sorrisos, o pescoço bambo, as costas arqueadas, parecia mais uma freira velha, comida pelos rigores da vida monástica, do que uma simples devota de trinta e oito anos.
Não saía de casa, senão para ir à igreja. Ninguém a via à janela; apenas, em algumas noites de luar, a custo lobrigavam o seu vulto magro, vestido de chita preta, a passear como um espectro por entre as pobres árvores do seu quintal. Duas vezes fora acometida por crises nervosas, que a deixaram prostrada durante muito tempo com todos os sintomas da loucura.
E o comendador recomendava sempre ao Dr. Roberto que a não deixasse de ver de quando em quando, e pedia-lhe constantemente notícias dela.
— Vai naquilo mesmo... dizia o médico. Dali para pior... coitada! — Mas pode viver?... perguntava o velho, com os olhos iluminados por um sinistro brilho de vingança.
— Ah! lá viver pode, e até muito; mas o que não conseguirá é restabelecer-se totalmente.
Está perdida! — Bem! dizia o velho consigo; minha vingança será completa... Aquele miserável há de casar-se com ela logo que eu feche os olhos! Uma tarde, passeava a mísera, como sempre triste, por entre as solitárias plantas do seu quintal quando um vulto de homem parou às grades do portão.
— Saberá dizer-me onde mora por aqui uma senhora chamada Teresa?... perguntou o sujeito, apoiando-se aos varais da grade.
Pelo seu todo fatigado via-se logo que de vinha de longe, a fazer até ali a mesma pergunta pelas outras casas daquela rua.
Teresa aproximou-se lentamente sem responder; mas, ao chegar perto da grade, soltou um grito e exclamou: — Luiz! — Meu nome?!... disse o outro muito surpreso.
E sem ter tempo de procurar reconhecer a lastimosa figura que tinha defronte dos olhos, transpôs o portão, para amparar Teresa, prestes a cair desfalecida.
— Já me não conheces?... perguntou ela com um tom de profunda tristeza, logo que pôde falar. É natural! Eu já não sou a mesma.
— Esta voz!... Será possível?! balbuciou Portela, sem querer acreditar no que via. E ficou a olhar, muito aflito, para a pobre mulher.
— Está aqui o que resta daquela tua Teresa dos outros tempos, tão fresca e tão bonita! explicou ela. E acrescentou com os olhos cheios d’água e a voz muito alterada pela comoção: — Contigo, meu Luiz, tudo fugiu! já nada resta do que fui... Estes olhos já não falam de amor; estes lábios esqueceram o riso; este colo não provoca em mais ninguém desejos desenfreados... Depois que tu partiste, nunca mais tive um momento de ventura; tudo se converteu em remorso. Cheguei a amaldiçoar o nosso amor; cheguei a duvidar se a memória dele me causava saudade ou me causava tédio... Principiei a tomar aborrecimento por tudo; meu marido apunhalava-me todos os dias com a sua indiferença e com o seu desprezo... E o meu sofrimento foi crescendo, crescendo, até me reduzir a isto que aqui vês! Portela escutava, sem desviar os olhos. Tudo aquilo produzia nele uma grande tristeza e um grande constrangimento. Como era possível conceber semelhante transformação?... Como, em doze anos, se podiam extinguir tanta formosura e tanta graça?... Oh! é terrível, pensava ele, vermos assim de perto os destroços de uma felicidade que, um dia, passou por nós e nos encheu a vida com todos os brilhos da paixão e do amor. Amor? não! instinto. Um pouco de carne palpitante, cabelos, sangue, dentes, olhos, tudo isso disposto de certo modo, ordenado com certo encanto, eis quanto basta para nos enlouquecer, para nos arrastar a todas as loucuras e a todas as degradações! Entretanto, ali estava aquela mesma mulher que o fizera delirar um dia!... Como a nossa matéria é fraca ou como a natureza é hábil! Como esta sabia impor as suas leis de reprodução e da vida! E queriam os homens do rigor e da austeridade que se pudesse fugir despoticamente a todas essas armadilhas tão finamente preparadas, tão sabiamente urdidas debaixo de nossos pés!...
E, depois destas considerações, uma tristeza profunda, um aborrecimento doloroso, negro, úmido, entrou-lhe no coração e começou a inchar lá dentro como um sapo entalado num cano de esgoto.
O coração daquele homem era com efeito um cano de esgoto, por onde lhe desfilavam todas as imundícies da alma. Não se teria demorado de um instante ao lado de Teresa, se não precisasse dela para alguma coisa que diretamente o interessava. O triste espetáculo daquela ruína revoltava o seu egoísmo; Portela sentia-se impaciente por conseguir o que desejava da mulher do comendador e pôr-se a caminho para longe, para bem longe, onde não chegasse o inquietante cheiro daquela desgraça e daquela miséria. Sentia-se tão apressado que não esperou pelo fim das divagações de Teresa; interrompeu-a, declarando francamente que ia ali levado pela necessidade de alcançar das mãos do comendador um papel assinado por ele.
— Que papel? perguntou a mísera.
— Pois não te lembras que deixei um documento em poder de teu marido, declarando os obséquios que recebi dele, as relações que tive contigo, aquele projeto de envenená-lo e ainda outras coisas de que já não me recordo?!...
Essas tais coisas de que ele já se não recordava, não lhe fazia conta declarar quais fossem, porque implicava diretamente com o futuro de Teresa.
— Mas afinal, perguntou ela, que desejas de mim?...
— Desejo em primeiro lugar saber se esse papel não está em teu poder, respondeu ele.
— Pois se eu até ignorava da existência de semelhante coisa...
— Bem, pois então o que eu desejo é que o obtenhas de teu marido, que o subtraias a todo o transe do lugar em que está. Preciso apoderar-me desse documento! Não poderei dar um passo aqui no Rio de Janeiro, enquanto ele existir nas mãos do comendador...
— Mas eu não vou à casa do Ferreira. Além disso...
— Bom. Nesse caso, adeus.
— Já te queres ir?... perguntou Teresa.
— Desculpa; tenho alguma pressa. Eu te aparecerei mais vezes.
— Espera ao menos que venha tia Agueda para fazer café...
— Não! não! Tenho de estar cedo na cidade. Adeus! — Visto isso, adeus. Olha, espera! vou dar-te uma flor; leva-a para te lembrares de mim...
E foi buscar ao oratório uma rosa, que murchava aos pés de um santo.
— Está benta! disse ela.
Portela sentia-se cada vez mais impaciente. Na ocasião de sair, já no corredor, voltou-se e deu com Teresa a fazer-lhe momices por detrás dele. Só então desconfiou que a desgraçada sofria de qualquer desarranjo cerebral.
Pôs-se a caminho com vontade. Iria dali à casa de um conhecido; talvez lhe desse este informações a respeito do comendador e lhe fizesse encontrar alguém capaz de subtrair os documentos de que ele tanto precisava.
Portela, nas suas viagens, arranjara algumas economias e vinha estabelecer-se na Corte com um sócio bastante endinheirado. Tinha em vista um casamento; o futuro sorria-lhe como nunca auspicioso: fora com Leão Vermelho mais feliz do que contava. O compadre facilitou-lhe os meios pecuniários para especular em compras de vinho no Porto, e recolheu-se, sequioso de descanso, à sua província natal, onde tencionava acabar a existência.
Com este, pouco mais temos que ver. Quanto ao Portela, podemos afiançar que andou com lisura nas suas especulações e que se despediu limpamente do protetor, retirando-se com um forte carregamento de vinhos para o Brasil, em cuja capital pretendia agora estabelecer uma casa especial daquele gênero.
O bom desempenho de suas transações granjeara-lhe crédito na península, de sorte que, com muita facilidade e pouco capital, poderia sortir o seu estabelecimento, sem encontrar competidor no Rio de Janeiro.
Por esse tempo contava ele uns trinta e tantos anos, e sentia-se vigorosamente disposto a fazer carreira. Estava moço e fortalecido de esperanças. Com os elementos materiais de que dispunha, podia ir muito longe; sonhava já com a comenda. O diabo era aquele documento em poder do marido de Teresa!... Se o demônio do velho saísse dos seus cuidados e mandasse publicá-lo no Jornal do Comércio, Portela estaria perdido. O comendador, apesar de retirado da vida ativa, gozava de muito crédito na praça e era sumamente considerado pelos negociantes de mais peso; qualquer acusação que viesse dele teria, fatalmente, um curso vertiginoso entre os seus colegas.
Convinha, por conseguinte, que Portela, antes de assentar os alicerces das suas especulações no Rio de Janeiro, tratasse prontamente de desarmar o inimigo, sob pena de mais tarde ser precipitado no chão no melhor do vôo. Mas de que modo havia ele de alcançar semelhante coisa?... A questão era tão delicada que, sem dúvida, daria volta ao espírito mais audacioso e mais fino.
Principiou a sondar, de longe, o comendador.
— O homem, pensou de, talvez já se não lembrasse do passado, nem dos seus planos de vingança. Mas qual! Portela conhecia perfeitamente o gênio rancoroso do seu antigo patrão, para se não iludir por esse lado. O único expediente a tomar era apoderar-se do tal documento, fosse como fosse, custasse o que custasse! Em todo caso, nada disso o incomodaria tanto, se Portela não tivesse em vista mudar de estado, casando-se com uma rapariga de bons recursos, que encontrou em casa de D. Januária, quando aí foi visitar a afilhada, pela primeira vez, depois da sua volta.
Para esse projeto de casamento é que o comendador se tornava verdadeiramente perigoso, porque Portela, na obrigação que assinou, se comprometia, sob palavra de honra, a tomar conta de Teresa e a casar-se com ela, logo que o marido falecesse.
Ora, incontestavelmente, havia em tudo isto uma grande dose de tolice. Não se poderia obrigar um homem a casar, assim sem mais nem mais, só porque, em certa época, declarou por escrito que o faria. Mas o fato é que a sua assinatura lá estava, naturalmente reconhecida já pelo tabelião, e, se o maldito papel aparecesse pela morte do comendador, ligado ao importante testamento deste, podia, pelo menos, cobri-lo de ridículo, e dificultar-lhe a carreira, chamando sobre ele as suspeitas e a desconfiança de pessoas, para as quais lhe convinha passar por homem de vida imaculada.
— Maldito fosse o momento em que se lembrou de requestar a mulher do comendador! Antes tivesse quebrado uma perna na ocasião em que se aproximou dela pela primeira vez! Em tais circunstâncias, visitava uma ocasião D. Januária, quando um rapaz magrinho, feio, de vinte e tantos anos, se aproximou dele tratando-o pelo nome.
Portela recordava-se de ter visto já aquela cara, mas não conseguia determinar onde e quando.
— Não se lembra do João Rosa?... perguntou-lhe o rapaz. Aquele que quando o senhor estava em casa do comendador, só chamava o “João Cabeça”?!...
E riu.
— Ah! exclamou Portela. É isso mesmo! Ora senhores! como você mudou! está um homem.
Barbado!...
E depois de medir por algum tempo a pequena estatura de João Rosa, perguntou-lhe com amigável interesse: — Então, que se faz agora?...
— Continuo lá! disse o outro, armando uma careta.
— Ainda está lá?... insistiu Portela, admirado, mas possuído já da idéia de aplicar o João Rosa aos seus projetos.
— Ainda, resmungou o outro.
— Interessado na casa?...
— Qual. Já perdi as esperanças disso. O Figueiredo não me tem querido proteger. Um moço, que entrou muito depois de eu lá estar, faz parte há um ano da sociedade e eu ainda continuo como empregado...
— Você casou-se?...
— Não. Estou ainda solteiro.
— Ah! quem sabe se você tem as suas pretensões cá por casa de D. Januária!...
— Não. Dou-me com ela há muito tempo, mas não passa disso.
— Pois, seu João Rosa, eu vou estabelecer-me aqui no Rio com uma casa de vinhos. Tome o cartão. Se você quiser, apareça por lá, talvez tenhamos o que conversar. Olhe, amanhã à noite, você está ocupado? — Não.
— Nesse caso vá amanhã...
— Pois bem.
No dia seguinte os dois encontraram-se de novo. Falaram muito sobre o passado. João Rosa fez referências aos escândalos de Teresa.
O Portela, sacudiu os ombros com desdém.
— Não! replicou o outro, o senhor andava nesse tempo muito mordido por ela...
— Tolices! — Coitada! Está feia, magra ao último ponto, descabelada, meio idiota...
— Sim?... disse, Portela, fingindo ignorar essas coisas.
— Se o senhor a visse não reconheceria!...
— Coitada. Era muito doida aquela rapariga!...
— Era da pele do diabo, acrescentou o João Rosa, com o ar de quem tem opinião segura sobre o fato.
Desde então principiaram a encontrar-se com mais freqüência. João Rosa passeava alguns domingos com o Portela e patenteava-lhe, nessas ocasiões, como uma submissão de dependência e amizade. Tinha muito em conta o que lhe dizia o amigo e seguia à risca os conselhos que dele recebia.
João Rosa deu a Portela notícias completas a respeito da casa do comendador; falou do casamento de Olímpia com o Gonçalves; disse a vida desordenada que os dois levaram durante quatro anos; contou os pormenores da separação dos cônjuges; circunstanciou as mudanças de gênio que fizera Olímpia depois do rompimento, os desgostos do velho, a proposta de reconciliação apresentada por Gonçalves, a recusa da mulher, e enfim as tristezas e o recolhimento em que esta por último vivia.
— E o Jacó?... que fim levou? quis saber o Portela.
— Lá está! no mesmo! Não faz a menor mudança! — O Jacó!... reconsiderou aquele, com um ar cheio de recordações. E disse depois: Deve estar bem velho! — Mas forte... Parece muito mais moço que o comendador! — E este? Sempre o mesmo, hein? — Sempre. Eu vou lá duas vezes por semana fazer-lhe a escrita. Pouca coisa! — Ah! você é quem faz agora a escrita do comendador?!...
— Sim, por quê? — Por nada...
E Portela ficou a pensar.
Na primeira ocasião em que esteve de novo com o João Rosa, abriu-se francamente com este a respeito do famoso documento que estava em poder do comendador.
— Você sabe o que são estas coisas!... disse em confidência muito amigável. Eu estou no comércio... Aquele velho é muito capaz de cortar-me a carreira... Ele é rancoroso!...
— Oh!... fez o outro, estalando os dedos.
— Por conseguinte, se você me conseguisse arranjar esses papéis... eu saberia recompensar o seu trabalho...
— Não sei, homem! Eles devem estar muito bem guardados! em todo o caso...
— Ora, na sua posição ser-lhe-á muito fácil de os descobrir; e o comendador, quando der pela falta deles, não acreditará que você os tenha subtraído, porque aquilo não representa nenhum valor. Para que diabo podia você precisar de papéis velhos?... Não são documentos de dívida; não representam dinheiro, nem objeto de preço!... O mais que o velhote poderia supor, é que alguém os tivesse inutilizado sem saber do que se tratava.
— Isso é verdade...
— E eu lhe daria um conto de réis, se você me arranjasse o que lhe digo. É preciso notar: com o documento assinado por mim, deve estar uma carta, também minha, dirigida a Teresa, e um frasquinho de vidro com um líquido transparente. Arranja-me isso e dou-lhe um conto de réis.
Depois, como para ambos convém guardar o segredo, a coisa ficará só entre nos. Hein? Servelhe?...
— Eu vou ver se encontro...
— Você, querendo, acha...
— Pode ser.
E, quando os dois se separaram, já estavam perfeitamente combinados.
XXVII O BEIJO Coincidiram com a chegada do Portela ao Rio de janeiro os primeiros sintomas nervosos que se apoderaram de Olímpia, pouco depois do rompimento dos laços conjugais. O comendador, preocupado com os incômodos da filha, não pensava em outra coisa. Passeios, distrações, romances, tudo lembrava ele para distrair a enferma. Ora em Petrópolis, ora em Teresópolis, ora em Barbacena, andaram os dois, perto de dois anos, em inútil e constante peregrinar.
Isso explica a razão por que Portela não foi logo, desde a sua chegada, perseguido pelo comendador. Não havia tempo para cuidar da vingança; o velho andava arredado de casa, esquecido de si e só cuidoso da sua adorada Olímpia.
Entretanto, Portela, que compreendera perfeitamente a situação, tratou de não perder tempo e firmar na Corte os seus alicerces, de modo a poder mais tarde resistir aos golpes do marido de Teresa, quando este porventura o quisesse derrocar. Uma vez firmado em terreno sólido, não tinha que recear do inimigo, e quase que podia de antemão contar com a vitória.
Nesta convicção se estabeleceu e abriu a trabalhar com a fúria de quem foge de um grande perigo. Todo o seu empenho era granjear simpatias, ganhar posição e juntar dinheiro. Tudo isso conseguiu ele em muito pouco tempo. Portela não esperdiçava um segundo, acumulava quase todo o trabalho do seu armazém, fazia a correspondência, a escrita e a venda ao balcão. Dentro de um ano estava a sua casa já perfeitamente acreditada; o comércio dos vinhos desenvolvia-se com um impulso prodigioso. Portela aumentou então o pessoal, alargou o armazém, e de novo foi a Portugal. Quatro meses depois era de volta, com um novo carregamento e novas especulações.
Antes de chegar o terceiro ano de seu comércio no Rio de Janeiro, já lhe havia pingado da pátria sobre a gola do casaco a vermelha tetéia por que de tanto suspirava.
Portela definitivamente era um homem feliz. O documento em poder do outro, longe de o prejudicar, servira, como vemos, para lhe incutir no ânimo resolução e coragem. Dois anos depois o Sr. comendador Portela gozava das melhores simpatias, estava já arranjadinho de fortuna, e olhava de frente para um futuro de causar inveja.
Não tardaria a abrir-se em torno dele as boas relações, os bons sorrisos, as boas rodas fluminenses. No Rio de Janeiro, com uma casa de negócio, uma casaca e uma comenda, vai-se a toda parte e percorre-se familiarmente toda a escala social, desde os bailes da Princesa, até às bacanais das irmandades carnavalescas.
E o certo é que o demônio do Portela tinha um tipo que se apresentava maravilhosamente às suas aspirações. Ninguém daria melhor um comendador. Desde que lhe chegou o título, principiou a transformar-se. Caminhava agora mais teso, empinava a cabeça, esticava as pernas e dilatava os lábios nesse risinho discreto e malicioso dos ricaços condecorados. Uma vez raspado o bigode, talhada a suíça e desfalcados pela calva os cabelos da cabeça, terá logo o leitor defronte dos olhos aquele legítimo comendador, com quem tão boas relações travou no primeiro capítulo deste romance.
Mas, como já temos o comendador Ferreira, seja-nos permitido continuar a tratar o segundo simplesmente pelo nome. Continuará a ser “O Portela”.
Quando o Portela chegou ao Rio, justamente ao tempo em que se via o comendador atrapalhado com a moléstia da filha, João Rosa, ficou exclusivamente encarregado dos negócios do pai de Olímpia. Não podia pois desejar melhor ocasião para cumprir o que prometera ao amigo: a casa estava toda em suas mãos; ninguém o surpreenderia enquanto desse a busca.
João Rosa por conseguinte começou a procurar os tais documentos com toda a calma e toda segurança; e, com tanto jeito e minuciosidade mexeu e remexeu nas gavetas e nos segredos do patrão, que, em vez de achar o objeto procurado, achou coisa muito melhor; achou um pequeno cofre de ferro, que jazia cuidadosamente oculto num esconderijo, feito de propósito para isso na parede, por detrás da burra.
O cofre pesava e tinha um segredo na fechadura. João Rosa não descansou enquanto o não abriu.
Estava cheio de libras esterlinas. Ninguém sabia a procedência desse dinheiro, nem o destino que o comendador lhe tencionava dar. Não constava dele em nenhum dos livros de sua escrituração e em nenhuma das notas esparsas.
João Rosa teve uma tentação diabólica. O comendador só mais tarde poderia dar por falta do cofre, e aquele dinheiro representava perfeitamente a independência do caixeiro. Lembrou-se de tomar passagem no primeiro vapor e fugir do Brasil com o seu tesouro, mas reconsiderou: Para que fugir?... Aquele dinheiro estava por tal forma bem escondido, que o comendador não poderia imaginar que alguém desse por ele... e daí, quem sabia lá se o próprio comendador tinha ciência de semelhante coisa?... se aquele belo segredo não existia ali antes dele tomar conta da casa?...
De qualquer forma, concluiu o velhaco: não era preciso fugir; tudo se poderia arranjar limpamente, sem espalhafatos de viagens.
E adotadas estas reflexões, João Rosa procurou o Figueiredo, pediu a sua conta e deu-se por despedido. Só lhe faltava pôr em dia o exíguo trabalho que estava a seu cargo e esperar pelo comendador, para se despedir deste também por sua vez.
Portela, sempre que o via, lhe perguntava logo pelo resultado daquilo que os dois haviam combinado entre si. O outro se desculpava; não descobria os tais documentos, mas que Portela podia ficar descansado, que, se estivessem eles em casa do comendador, lhe haviam de chegar às mãos.
Dias depois o encontrou por acaso. Esteve quase a fazer que o não via, tão pouca importância ligava ele agora a semelhante bagatela. Mas uma súbita idéia de especulação, fê-lo apoderar-se dos documentos e guardá-los cuidadosamente consigo.
O comendador chegou nesse dia, sem ser esperado. Vinha aflito; a filha estava pior, o Dr.
Roberto acompanhava-os, prevendo qualquer capricho da moléstia. Receava a paralisia, o idiotismo e até a morte.
João Rosa declarou que não podia continuar ao serviço do comendador, disse que já não estava em casa do Figueiredo e precisava tratar-se dos pulmões em Barbacena. O velho aborreceu- se muito com isso. Pois o caixeiro queria abandoná-lo naquela situação? O Dr. Roberto entendia que o João Rosa não tinha necessidade de partir com tanta pressa. Mas o rapaz insistiu, queixou-se de que estava muito mal, tossiu, disse que já expectorava sangue, e dois dias depois recebeu o saldo que lhe tocava e entregou em dia o trabalho ao seu substituto.
Constou-lhe no dia seguinte que o comendador ia chamá-lo ainda para pedir algumas explicações sobre o trabalho; João Rosa, a quem não convinha entrar em mais esclarecimentos, apressou a viagem e partiu na primeira madrugada, sem ter entregue os papéis a Portela, a quem escreveu um bilhete com as seguintes palavras: “Pode ficar tranqüilo; acha-se tudo em meu poder. Em breve estarão com o senhor”. Portela não se satisfez com isso e foi ao encontro de João Rosa. Já não o alcançou e retrocedeu para a Corte porque tinha de fazer a viagem de que falamos.
Decorreu um ano, Olímpia não tinha melhoras, o comendador continuava sobressaltado.
João Rosa voltou cautelosamente à capital, hospedou-se no Hotel do Caboclo e tratou logo de procurar Portela.
Encontraram-se na rua e seguiram juntos para o Passeio Público, porque aí conversariam mais à vontade.
O que se segue já o leitor sabe. Pedro Ruivo, que fingia dormir em um banco do Passeio, ouviu a conversa dos dois e empregou meios e modos de furtar os documentos do Portela; depois foi dar consigo na Avenida Estrela, donde afinal saiu, ameaçado e perseguido, para se esconder na gruta com o fruto do seu roubo.
Pois bem; acompanhemos o gatuno e vejamos o que fez de dos papéis. Pedro Ruivo, logo que retomou o cofre na gruta, ganhou o mato e desapareceu por entre as folhas, como a ligeira cotia, quando sente perto de si algum rumor estranho.
É preciso observar que a gruta do Rio Comprido se estende por todo o sopé do monte e abre várias gargantas, oferecendo diversos caminhos, uns mais curtos e às vezes mais difíceis, outros longos e naturalmente mais pitorescos e agradáveis.
Olímpia, Gregório e Augusto, naquele passeio que descrevemos, foram pelo caminho mais comprido e pitoresco, e penetraram na gruta justamente pelo lugar onde esta principia. Pedro Ruivo ao contrário, chegou lá pelo caminho mais curto e entrou por uma das gargantas laterais, que abrem obscuramente para as bordas da floresta.
O gatuno, uma vez senhor do seu cofre, atravessou obliquamente a gruta e embrenhou-se no mato pelo lado oposto àquele por onde havia entrado. Fazia um belo luar, mas a vegetação enredava-se por tal forma, que os raios da lua muito a espaço se coavam por entre a mole balsâmica da folhagem. Entreteciam-se os cipós e as parasitas, formando cortinas de verdura e como fechando aos forasteiros a passagem da mata.
Se a viagem era difícil, também era perigosa, porque as cobras descem à noite dos seus covis, arrastando-se pelo morro à procura do que comer e beber.
Mas Pedro Ruivo, aguilhoado pelo medo, varava o mato que nem uma anta assustada.
Atravessou o morro e, depois de caminhar três horas seguidas, achou-se em um pântano sombreado de árvores. Palhoças esparsas branquejavam aqui e ali por entre o silêncio melancólico da noite. Percebia-se a vizinhança de algum arrabalde pelo longínquo barulho de cães, que ladravam à lua.
Pedro Ruivo continuou a andar. Estava em Catumbi. Em breve o paredão comprido do cemitério começou a estender-se diante de seus olhos como, uma mortalha que se desdobra. O bairro modorrava deserto. Ouvia-se ao longe a cansada música de uma festa, e um burro inválido passeava silenciosamente pela estrada, a manquejar da perna.
O gatuno continuou a andar na direção do Campo de Santana. Não se arreceava da polícia, porque já a conhecia de perto. Em certa altura da Cidade Nova parou defronte de uma casa, em cuja porta brilhava um miserável farol de folha com a seguinte inscrição “Hospedaria do Gato”.
Pedro Ruivo tirou do bolso um pouco de dinheiro, que escamoteara do quarto de Gregório, e pôs-se a contá-lo.
— Chega, disse ele consigo. E bateu à porta da hospedaria.
Veio abrir um homem magro e macilento, com a camisa por fora das ceroulas e uma lanterna na mão.
— Ó Estica! Como vai essa força? — Vai se rolando, e você? — Mais morto que vivo! Ainda há lugar por aí? — Sim, mas você já deve duas dormidas e sabe que...
— Ó, seu vinagre! Eu não lhe disse que queria fiado! — Também não é preciso zangar-se... Suba! Pedro Ruivo caminhou na frente, enquanto o Estica fechava a porta, e estendia depois a lanterna para iluminar a escada.
— Isto por cá está preto como o padre! gritou Pedro Ruivo, já em cima, dando um encontrão.
— Espere lá, criatura! Não faça barulho que pode acordar os hóspedes! Daí a pouco se introduziam os dois por um estreito corredor formado de tapumes de madeira.
E depois de uns trinta passos, chegaram ao quarto que o estalajadeiro destinava ao Ruivo.
— Pronto! disse o homem, pousando a lanterna no chão e procurando matar uma pulga que sentiu na perna.
Pedro Ruivo tirou do bolso uma nota de dez tostões e passou-a ao outro, dizendo-lhe que pagasse as três dormidas e lhe trouxesse parati. Em seguida assentou-se na espécie de cama que havia no quarto e colocou ao lado de si o cofre.
O Estica, que se tinha afastado, voltou com um pequeno copo de aguardente e entregou-o ao Ruivo.
— O troco? reclamou este.
— Que troco?...
Seis tostões do que eu devia, trezentos réis de hoje, três vinténs de parati; ainda tenho quarenta réis. Venha! — Você sabe que depois da meia-noite o parati é um tostão!...
— Ladrões como ratos! resmungou Pedro Ruivo, tirando do bolso um pedaço de vela, que acendeu na lanterna do hospedeiro.
— Boa noite! disse este, afastando-se.
Pedro Ruivo fechou a porta, acendeu o cachimbo e grudou a vela no chão com alguns pingos da mesma.
O quarto teria doze palmos sobre seis de largura. A cama, único objeto que lá se achava, além de um moringue esborcinado, era de ferro e sem lençóis.
Ruivo assentou-se no chão, abriu o cofre e, depois de beber um gole de aguardente, começou a examinar-lhe minuciosamente o conteúdo. Encontrou a declaração assinada pelo Portela, a carta em que este remetia o veneno à amante, e mais uma fotografia de cada um dos criminosos, completamente emolduradas.
— Ora! disse o gatuno quando se convenceu de que mais nada havia. Para tão pouca coisa não era preciso uma caixa deste tamanho! (E passou a ler com dificuldade os papéis, tendo examinado minuciosamente os retratos).
— Este deve ser daquele sujeito gordo do Passeio Público, considerou ele, procurando mentalmente comparar a fotografia do Portela com o original. E acrescentou, passando a examinar a de Teresa: — Esta outra não conheço, mas deve ser gente graúda, a julgar pele luxo com que está vestida! Enfim, haveríamos de ver quanto tudo isto poderá dar!...
Em seguida, tirou um cordão do bolso e com ele fez um só pacote dos papéis e dos retratos.
— Amanhã temos tempo para tratar disso!...
E meteu o pacote na algibeira do paletó, do qual fez uma rodilha e improvisou um travesseiro; em seguida deitou-se e adormeceu logo, porque estava muito cansado.
Só daí a três dias conseguiu encontrar-se com o Portela. Este, que já vivia desesperado com o sumiço dos documentos, e supunha que João Rosa pretendia especular com eles, ficou muito satisfeito com as primeiras palavras do Ruivo.
— Está tudo aqui! disse o gatuno, mostrando o pacote. Se quiser fazer negócio, é questão decidida!...
— Eu dou-lhe uma boa gorjeta...
— De quanto? perguntou o gatuno.
— Deixe estar que por isso não havemos de brigar...
E apresentou uma nota de cem mil réis.
— O que é lá isso!... Um conto dava o senhor ao outro! — Pois você imaginou que eu seria capaz de lhe dar um conto de réis? — Foi o senhor mesmo quem marcou o preço, lá no Passeio Público.
— Sim, mas isso era para descontar o que me deve aquele sujeito. Com você o caso muda de figura. Tenho de pagar em dinheiro! — Pois eu só entrego os papéis por um conto de réis.
— Não! dessa forma não quero.
— Bom, nesse caso farei deles o que bem entender. Já sei quem nos há de comprar...
— Não seja tolo, porque esses papéis não têm valor para mais ninguém.
— Paciência! Ficarão comigo. Eu também gosto de fotografias...
— Quer duzentos mil réis? — Nem quatrocentos.
— Pois então faça o que entender! — Adeus, disse Ruivo, afastando-se.
— Olhe! volveu o outro. Dou-lhe quinhentos...
— Não vai nada! respondeu o Ruivo. Quer dar o conto ou não quer? — Ora, vá pentear monos! exclamou Portela certo de que o gatuno havia de voltar, quando se convencesse de que não alcançaria maior pagamento.
Mas Pedro Ruivo não voltou, e Portela, que por essa época havia tomado a seu serviço o Talha-certo, encarregou a este tratante de alcançar os papéis das mãos do súcio.
— Nem é preciso dar-lhe nada! afirmou o capanga com ar de quem confia muito em si. Pode ficar descansado, patrão, que os papéis hão de aqui chegar, quer aquele bisborria queira, quer não queira! A coisa, porém, não era assim tão fácil. Talha-certo não conseguiu, como supunha, alcançar imediatamente os papéis do poder de Pedro Ruivo. E Portela, poucos dias depois, ao passar pela rua dos Ourives, teve que esconder-se no primeiro corredor, porque o gatuno, logo que o viu principiou a gritar-lhe com as mãos nas cadeiras: — Então, comendador, seu capanga está encarregado de arrancar-me os seus documentos, hein?! Quer ver se pilha a coisa sem puxar pela bolsa! Está enganado, meu amigo, ou o senhor cai com o cobre, ou tudo aquilo vai publicadinho no jornal. É escolher! E, desde então, o Pedro Ruivo se converteu para o negociante de vinhos em uma sombra perseguidora. Portela já estava resolvido a dar-lhe o conto de réis, ou mais, contanto que se visse livre dele por uma vez; porém, temia agora entrar em qualquer ajuste, porque o maldito se punha aí a gritar e a fazer escândalos.
Talha-certo ofereceu-se ainda para o despachar com uma boa navalhada.
— Isso é pior! respondeu o Portela; você não lhe dava cabo da pele e o homem afinal ficava mais assanhado! Além do que não me convém assassinar pessoa alguma... O melhor é dar-lhe o dinheiro e ficarmos livres por uma vez dessa massada.
E assim resolveram. Talha-certo começou a procurar Pedro Ruivo; mas este não aparecia.
Ninguém sabia dar notícias dele.
Pedro Ruivo não era encontrado na capital pelo simples fato de haver partido poucos dias antes para S. Paulo, à sombra de um fazendeiro de boa-fé, que se deixou comover pelas lábias do velhaco. O aventureiro ainda possuía o talento de impressionar, quando estava de maré para jogar com a fisionomia. O Portela é que não podia ficar tranqüilo, enquanto não estivesse senhor dos documentos, e recomendava sem cessar ao seu capanga que se não descuidasse nas pesquisas.
Mas deixemos tudo isso de parte. Tenha a bondade o leitor de unir os pés, encolher os braços, dobrar ligeiramente as pernas e dar ao corpo o impulso necessário para um novo salto.
Vamos pular por cima dos episódios, que medeiam desde as cenas da Avenida Estrela até àquela crítica situação em que deixamos Gregório ao lado de Olímpia no pequenino chalé da Tijuca.
Não precisa empregar o leitor toda a sua força de músculos, porque o salto, se comporta muitas cenas, não abrange todavia muito tempo.
Pronto! Estamos novamente em casa do comendador Ferreira. O Dr. Roberto segue viagem para o norte. Olímpia parecia já consolada da morte de Scott, e o velho Jacó acompanha fielmente aos amos.
São sete horas da tarde. O sol mergulhou no horizonte, ensangüentando o céu. A natureza envolve-se no crepúsculo da noite para adormecer. O canto da cigarra vai amortecendo, à proporção que recrudesce no fundo dos vales o coaxar das rãs.
Na rua acendem-se os lampiões, os bondes passam de um quarto em um quarto de hora, e um piano da vizinhança soluça o Spirito gentil da Favorita.
Penetramos no gabinete, onde deixamos Gregório, assentado aos pés de Olímpia. Ela acaba de erguer-se e de afastar-se, abandonando o pobre rapaz estarrecido de pasmo sob a impressão daquela terrível frase: “Você é um idiota!” O álbum, que es dois folheavam, jaz estatelado no chão. Gregório permanecia estático no seu tamborete, e olha com espanto para a cortina da porta, que ainda treme com o repelão que lhe deu Olímpia ao sair.
O comendador, que acabava de fazer a sua sesta, aparecia então na sala de jantar. A filha correra para ele, alvoroçada, passara-lhe os braços em volta do pescoço, e dera-lhe um beijo na face.
O velho, meio perturbado pela efusão daquela carícia brusca, ia pedir explicação dela, quando a rapariga lhe cortou a palavra, perguntando em que dia saía o primeiro paquete para a Europa.
— Hein?! o primeiro paquete?! Queres viajar?! — Quero; quando sai o primeiro vapor? — Não sei ao certo; talvez só no princípio do mês que vem...
— Não me serve! Quero antes. Que viagem há por estes dias? — Mas que resolução é essa?...
— Ó meu Deus! Sempre os mesmos espantos! Pois o médico, e o senhor mesmo, não têm aconselhado constantemente que faça viagens?!...
— Sim, mas tu mostravas uma tal repugnância!...
— Mas já não mostro, ora essa! — Bem. Vamos tratar disso...
— Então seguimos no primeiro vapor que sair! — Para onde?! perguntou o pai, assustado.
— Seja lá para onde for... O destino do primeiro que sair! — Isso é loucura! — Pois então seja! Não viajo! Acabou-se! E Olímpia afastou-se para o seu quarto, de mau humor.
O velho foi encontrar-se com Gregório na sala de visitas. Jacó acabava de acender o gás.
Depois dos cumprimentos, o comendador, que vinha ainda impressionado pelas palavras da filha, principiou logo a falar sobre o projeto da viagem.
— Ah! D. Olímpia quer viajar?... perguntou Gregório.
— Quer, e é sangria desatada; quer meter-se no primeiro vapor que sair!...
— E a causa dessa resolução? — Ora! a causa! nervos! Tudo aquilo são os nervos que estão trabalhando. Eu só peço a Deus que me dê paciência, ao menos até vê-la completamente restabelecida.
E o paciente velho, depois de dar uma volta pela sala, acrescentou com um gesto de contrariedade: — E logo agora é que não está aí o Dr. Roberto. Ao menos se o Dermeval aparecesse!...
— O comendador o que resolveu? — Eu, já se sabe, faço-lhe a vontade. O doutor disse que a não contrariasse!...
— Então sempre seguem no primeiro vapor?...
— Não sei se no primeiro, mas se Olímpia não mudar de resolução, iremos quanto antes. É o diabo, porque eu até precisava estar aqui por este tempo à testa de umas tantas coisas; além de que muito me custa deixar a casa assim ao desamparo, como aliás ela se acha desde que Olímpia caiu doente.
E, depois de urna pausa em que ambos ficaram a pensar, o comendador acrescentou: — Homem, o senhor é que podia vir conosco!...
— Eu, exclamou o rapaz. É impossível! Posso lá viajar!...
— Não! isso até lhe seria muito útil... O senhor está em excelente idade de conhecer a Europa. Olhe, para não ir com as mãos abanando, eu o encarregaria da minha correspondência, pagando-lhe o trabalho. Então? Que tal lhe parece a idéia?...
— Não, não é possível, respondeu Gregório, perturbado. Tenho muito desejo de visitar a Europa, mas não nessas condições...
— É que o senhor nunca encontrará ocasião melhor.
— Sim, mas...
— O senhor não tem aqui família que o prenda; seu emprego não depende do governo; que, pois, o poderia impedir de fazer-nos companhia?...
— Não há dúvida, balbuciava Gregório, sem ânimo de resistir; mas é que não sei se farei bem em aceitar o seu convite...
— Ora, deixe-se de histórias, Gregório! eu conto com o senhor! Não me diga que não! — Mas...
— Não admito razões! Sei que será para seu bem! — Ora esta!... disse consigo Gregório, logo que se afastou o comendador. Isto não é o demônio? Pois eu a fugir do perigo, e o próprio pai a empurrar-me cada vez mais ao lado da filha!...
E, tendo refletido por alguns instantes, resolveu aceitar a situação.
— Vou! concluiu ele; aconteça o que acontecer! Aquela mulher não me tornará a chamar idiota! Mas daí a pouco, quando se servia o chá, o comendador disse à filha: — Sabe, sinhazinha? O Gregório vai conosco.
— Hein? perguntou ela, apertando os olhos. Conosco para onde? — Ora essa! Já te não lembras? replicou o velho, rindo. Pois não estamos com uma viagem projetada? — Ah! já nem pensava em semelhante coisa. E, se fôssemos, eu não consentiria que esse senhor se incomodasse em acompanhar-nos...
— Oh! minha senhora, disse Gregório levantando-se; eu teria o maior prazer em...
— Sim, mas eu, repito, é que não consentiria! E, quando ela ficou só com o pai, lhe perguntou logo que idéia extravagante era aquela de convidar um estranho para a viagem.
— Estranho é o que estás dizendo, menina? É a primeira vez que te vejo falar assim desse pobre moço. Tu te mostravas tão amiga dele; ficavas tão satisfeita quando ele te aparecia; sempre achavas bem escolhidos os livros, os jornais e as gravuras que ele te ofertava, e agora chamas extravagância convidá-lo para nos fazer companhia! Pensei até que, convidando-o te fosse eu muito agradável; além de que, eu e o Jacó nem sempre poderíamos em viagem estar ao teu lado, conversar contigo, e o Gregório coitado, parecia-me excelente para isso; mas, uma vez que já não pensas em viajar, nem precisamos estar aqui a falar ainda em semelhante coisa!...
— Não. Eu estou disposta a fazer a viagem; ainda há pouco disse aquilo para não ter de declarar francamente que não aceitava a companhia de Gregório.
— Isso agora é que é o diabo! resmungou o comendador; já convidei o rapaz, ele não queria ir; insisti, afinal aceitou. Ora, com que cara vou eu dizer-lhe que fica o dito por não dito?! que diabo de desculpa lhe posso eu dar?! — Pois então não dê desculpa nenhuma! não se fará a viagem! — Mas tu tens alguma razão de queixa do Gregório?...
— Eu não tenho razão de queixa de ninguém! — Mas então por que não queres que ele vá, minha filha? Se a tua viagem é um pretexto de distração, que mal faz mais um companheiro? — Temos outra! disse ela. Pode o senhor provar quantas vezes quiser que será melhor levarmos o Gregório em nossa companhia, eu entendo que não e declaro que não estou disposta a ser contrariada! — Está bom, não te zangues, minha filha, Gregório não irá conosco! Eu retirarei o convite que fiz.
No dia seguinte, com efeito, o comendador remeteu ao moço uma carta muito atenciosa, dizendo que havia pensado bem no sacrifício que exigira dele e estava agora resolvido a não o aceitar.
Gregório compreendeu tudo, mas dissimulou. À noite apareceu em casa do comendador e Olímpia o recebeu friamente. Durante o serão não lhe dirigiu a caprichosa uma só vez a palavra.
O rapaz voltou dessa visita muito contrariado e triste.
Não pôde dormir; a imagem de Olímpia não lhe saía da cabeça.
— Sou mesmo um idiota! repetia ele, a voltar-se de um para outro lado da cama. Sou um idiota! ela tem toda a razão! Pois se a desejo, se a adoro e se me não posso fazer seu marido, por que a repeli tão asnaticamente? No dia imediato apresentou-se de novo em casa do comendador, às mesmas horas do célebre episódio do álbum. O velho, como então, fazia a sua sesta; Olímpia passava os olhos por um livro, assentada no jardim, debaixo de um caramanchão.
Gregório entrou sem ser sentido, encaminhou-se para ela, pé ante pé, e, quando a teve ao seu alcance, deu um salto para a frente e surpreendeu-a com um beijo na boca.
Pela noite desse mesmo dia, quando Gregório se retirou da casa do comendador, Olímpia disse ao pai que já estava resolvida a consentir na viagem em companhia do rapaz.
— Então para que me obrigaste a destruir o meu convite?... Ora aí está uma dessas coisas com que deveras me aborreço! — Mudei de resolução! respondeu Olímpia, sem erguer os olhos.
— Tanto pior para ti, replicou o pai, porque agora o passo está dado! Eu não hei de voltar atrás ainda uma vez! Havia de parecer caçoada; além do que, ele com certeza não aceitaria!...
— Encarrego-me eu do convite, disse Olímpia, sem se perturbar.
— Estou pressentindo é que acabarás por me fazeres ridículo aos olhos daquele moço.
No dia seguinte estavam de mudança para Botafogo. A viagem ficara resolvida para a primeira quarta-feira. Iriam para Lisboa em um paquete francês que havia de sair nesse dia.
Não fizeram itinerário. Demorar-se-iam em cada lugar o tempo que lhes apetecesse. Se Olímpia aproveitasse com a viagem, eles seguiriam adiante, iriam a Paris, talvez chegassem à Inglaterra. Não sabiam ainda se teriam de demorar meses ou anos.
A casa de Botafogo ficara em uma grande desordem. Durante os poucos dias que precediam à viagem, o comendador não podia descansar um instante. Era preciso ordenar seus negócios, escrever cartas para a direita e para a esquerda, passar procurações, fechar o testamento e deixá-lo em poder do Figueiredo.
Quatro dias era muito pouco tempo para tanta coisa. Mas o velho não descansava.
Olímpia parecia reanimada com os sobressaltos daquela viagem. Vivia alegre, esperta, falava com vivacidade, preparava-se com muito interesse, consultava os guias de viajantes, estudava mapas da Europa, discutia sobre as roupas que mais convinha levar. À mesa não se tratava doutra coisa; imaginavam-se peripécias, calculavam-se os episódios que haveriam de surgir quando se afastassem do Brasil.
Dois dias antes da saída do vapor, o comendador passara a manhã todo ocupado no seu gabinete. Interrompeu o trabalho para almoçar, porém mal sorveu o último gole de chá, recolheuse de novo, fechando a porta sobre si, depois de recomendar que o não interrompessem.
Gregório ficou à mesa com Olímpia. Não disseram palavras por alguns segundos, mas quedaram-se a olhar um para o outro, embevecidos, enamorados.
— Tu gostas muito de mim?... murmurou ele afinal, segurando-lhe uma das mãos.
— Se gosto!... respondeu ela, ameigando os olhos.
Mas tiveram logo de mudar de atitude, porque o copeiro apareceu para levantar a mesa.
Olímpia propôs que se passassem para a sala de trabalho. Gregório acompanhou-a.
— Sabes de uma coisa? segredou-lhe a filha do comendador, assim que se viu a sós com ele.
Tu ainda és muito tolo!...
— Por quê? perguntou Gregório, tomando-a pela cintura.
— Por muitas coisas... respondeu ela, com a voz alterada... Às vezes tenho receio do futuro! Tu és muito criança!...
— Que tem isso, se te adoro, minha Olímpia? — Tenho medo das conseqüências! Quando me lembro do modo austero pelo qual eu própria acusava as mulheres levianas... fico envergonhada, acredita! — Não penses nisso!...
— Não posso deixar de pensar. É tão bonito uma mulher conservar-se honesta!...
— Não penses nisso, repetiu Gregório, procurando chamá-la ao amor.
Olímpia ia abandonar-se, quando um barulho surdo, de corpo que cai no soalho, a sobressaltou.
— Que é isto?! exclamou ela, correndo para a porta, trêmula.
Jacó e os outros servos haviam já acudido ao estranho ruído. O choque partira do quarto do comendador. Jacó começou a bater na porta do gabinete. Ninguém respondia.
— Que sucedeu a meu pai?! gritou Olímpia, já muito pálida, sem poder dar mais um passo, porque o corpo lhe tremia todo.
Ouviram-se então uns roncos guturais dentro do gabinete.
— Ai! gritou Olímpia, perdendo os sentidos e estrebuchando.
Gregório apoderou-se dela, enquanto os criados arrombavam a porta do quarto do comendador.
Encontraram-no estendido no chão, roxo, com os olhos no branco, a boca aberta, a língua inchada, e os membros contraídos. A burra estava afastada do seu lugar, via-se o segredo da parede aberto e vazio. Sobre a mesa papéis revoltos. O quarto em desordem, denunciava que pouco antes houvera ali a busca desesperada de qualquer objeto.
XXVIII PERPÉTUAS, VIOLETAS E CAMÉLIAS A casa ficou logo numa grande atrapalhação. Olímpia foi conduzida em gritos para o seu quarto. Dois criados correram a chamar o primeiro médico que encontrassem, e Jacó ajoelhou-se soluçando ao lado do amo.
Ninguém mais se entendia. Figueiredo, que fora prevenido da catástrofe, apresentou-se esbaforido, a perguntar o que sucedera naquela casa. Ninguém sabia explicar o que era.
Chegou afinal o médico. O comendador passou carregado para a alcova, e o seu ex-sócio, com o bom senso prático de que dispunha, tratou logo, inalteravelmente, de vedar a quem quer que fosse a entrada no gabinete.
Mais tarde apareceram outros facultativos e começaram logo a chegar visitas de amizade.
Olímpia ficou prostrada de febre; as crises repetiam-se-lhe quase sem intermitência. O Dr.
Dermeval não lhe abandonava a cabeceira.
O comendador expirara à meia-noite, depois de esgotados todos os recursos da medicina; e, como não pudessem contar com a filha, que continuava sem dar acordo de si, o subdelegado da freguesia, acompanhado de competente escrivão, mandou proceder à aposição dos selos nas portas do gabinete em que se achava o incompleto testamento do morto.
Só dois dias depois, quando alcançaram cinco testemunhas, a mesma autoridade tornou a abrir as portas, para se formar o testamento nuncupativo.
Olímpia por esse tempo havia sido conduzida já para a casa do Figueiredo. Não lhe disseram que o pai deixara de existir.
O enterro saiu às cinco horas da tarde do dia imediato ao falecimento do comendador. Foi muito concorrido. O comércio abalou-se; os carros formaram uma serpente negra, que se estendia por toda a praia de Botafogo. Um poeta da época, amigo de algum dos caixeiros do Figueiredo, recitou uma poesia, de que se falou depois, entre negociantes, com muito agrado, e o Jornal do Comércio publicou, na sua parte ineditorial, um artigo sério a respeito do falecido, pondo-lhe em relevo as qualidades práticas, as suas virtudes de pai de família e os serviços que ele em vida prestara ao Brasil, como sócio benemérito de várias instituições filantrópicas.
O testamento do comendador Ferreira causou muita impressão; era um testamento original.
O pobre homem fora surpreendido pela morte, justamente na ocasião em que reunia os seus papéis e formulava as suas disposições. Encontraram um aglomerado de notas e declarações.
Havia várias referências. O falecido deserdava a mulher, porque se casara com escritura de separação perpétua de bens. Referia-se o testador a uma declaração de Luiz Portela, a qual não apareceu no lugar indicado; havia também uma referência acerca de certo cofre de ferro, contendo cinco mil libras esterlinas, que o falecido legava à sua filha Olímpia. O cofre não apareceu igualmente.
Deram-se logo as providências para se proceder a inquérito no empregado que se encarregara da escrita do comendador e no pessoal da casa. João Rosa estava ausente.
Constava ainda, nas disposições do morto, de um legado de vinte contos destinados ao advogado que se quisesse encarregar de proceder contra Portela. E, no caso que esse dinheiro não pudesse ter semelhante aplicação, deveria reverter, no fim de dez anos, em benefício do Gabinete Português de Leitura. Isso mesmo dizia o falecido em uma carta dirigida à redação do Jornal do Comércio.
O mais eram disposições sobre bens móveis e imóveis.
Portela achou muito prudente ir à Europa buscar um novo sortimento de vinhos. Mas um amigo seu, entendido em tricas do foro, afiançou-lhe que as declarações do comendador não faziam fé perante a lei.
— Portela que estivesse descansado: não lhe poderia suceder por aí violência alguma.
O homem, porém, não se tranqüilizou com isso, e deu de velas para Portugal. O que ele temia não era precisamente ter de cumprir com as determinações do defunto; mas era cair no ridículo e desmoralizar-se aos olhos da mulher a quem pretendia para esposa: aquela agregada da casa de D. Januária, de quem vamos agora tornar a falar.
Chamava-se Matilde.
Não conhecera os pais. O tutor havia três anos, quando ela tinha quinze, retirou-a do colégio para a confiar aos cuidados da velha Januária.
Esse tutor era um velho farmacêutico, que enriquecera a curar feridas de mau caráter a cinco mil réis por cabeça. Homem de inalterável economia e de uma saúde inquebrantável. Poucas pessoas, raríssimas, o conheceram mais moço. Há vinte anos era aquilo mesmo que se via agora.
Cabelos curtos, grisalhos, cara toda raspada, boca seca, dentes magníficos, ombros largos, pouca barriga e pouca estatura. Enviuvara aos quarenta anos para nunca mais casar. Agora tinha setenta. A esposa não lhe deixara filhos, mas ele arranjara dois naturais, um dos quais trabalhava em sua companhia na farmácia; o outro nunca tomara caminho, caíra na vagabundagem e era de vez em quando recolhido à estação de polícia, bêbedo.
O velho chegara-lhe ao pêlo por várias vezes uma bengala de cana da Índia, que trazia sempre consigo. Mas da última o peralta ganhara a rua, gritando ao pai que, em vez de lhe abrir feridas nas costelas, melhor seria que as fosse fechar aos fregueses! E nunca mais apareceu.
O farmacêutico também não queria ouvir falar em semelhante biltre: “Que o leve o diabo!” resmungava ele, quando alguém lhe levava notícias do filho. “O governo é que há muito tempo lhe devia ter pregado o côvado e meio de cano às costas. Para não ser ruim! Peste de um vadio!” O farmacêutico era muito excêntrico, era um tipão: não tirava da cabeça o seu grande chapéu de pêlo de seda, cuidadosamente alisado. Às seis horas da manhã já estava de pé ao balcão da botica, a curar feridas, a despachar receitas, a misturar ungüentos e embolar pílulas; às nove horas subia para almoçar, e mal terminado o almoço, voltava ao trabalho, sem nunca descobrir a cabeça. O jantar era justamente a mesma coisa que o almoço, com a diferença das horas. De resto não ia a teatros, não visitava ninguém que estivesse de saúde, e o tiro das nove da noite já o encontrava dormindo, não de chapéu, mas de barrete de algodão; o outro, o seu companheiro de todo o dia, o chapéu, esse descansava então ao lado da cama, dentro de uma caixa de couro.
Era muito popular, muito conhecido, se bem que pouco estimado. Contavam dele algumas anedotas engraçadas e pequeninos fatos de grande miséria.
As circunstâncias que fizeram dele tutor de Matilde, não podem interessar a ninguém. A rapariga era filha de um sujeito, outrora seu caixeiro, e que lhe pedira na hora da sua morte tomasse conta da pequenita. Como o agonizante deixava para aí fortuna superior a quatrocentos contos, o farmacêutico encarregou-se da tutoria, chegando-se mais tarde a dizer até, pela boca pequena, que ele especulava com os bens da órfã.
Contos largos! O certo é que Moreira, tal se chamava o farmacêutico, por mais de uma vez dera aos demônios semelhante massada, e jurara, sem tirar o chapéu da cabeça, que nunca mais cairia na esparrela de se fazer tutor de ninguém! “Nem de meu próprio pai, que se apresentasse!” bradava ele cheio de indignação.
Entretanto Matilde bem pouco lhe poderia dar que fazer, porque era de seu natural não exigente e sumamente dócil.
Nada tinha ela de bonita, nem de espirituosa, mas dispunha de um todo simpático e bondoso.
Não atraía pelos encantos, mas encantava pela simplicidade dos seus gostos, pela doçura da sua voz e pela docilidade do seu gênio.
O áureo cheiro do dote dava-lhe a muitos olhos certo prestígio, e puxava sobre ela as vistas cubiçosas de uma matilha de galfarros. Mas de todos os pretendentes era Portela o que até aí parecia preferido, tanto pela abastada rapariga, como por D. Januária, cuja opinião não devia ser para desprezar em semelhante assunto.
D. Januária gozava para o Moreira, e para muita gente, imaculada reputação de honesta. Em sua longa e pobre viuvez ninguém achara jamais com que lhe enodoar a pureza dos costumes e a austeridade da conduta.
Ser honesta ao lado de um marido moço, e forte, e de cujas mãos caíam nas da mulher os recursos necessários para manter confortável e decentemente a vida, muito pouco será; mas ser honesta, quando é preciso tirar da agulha e do ferro de engomar os meios de subsistência; ser honesta aos vinte anos, quando temos a bolsa pobre e o sangue rico; quando o armário está vazio, mas a imaginação cheia; quando a cozinha está gelada, mas o coração encandecido; ser honesta com os cabelos pretos, a tez limpa e fresca, os olhos brilhantes e formosos; ser honesta quando se tem todos os dentes e não se tem o que comer; quando se tem um colo branco e macio e não se tem com que o resguardar — isso é muito, isso é extraordinário! Januária foi assim. Enviuvou pouco depois de casar e, aos vinte anos, em plena mocidade, na primavera dos seus encantos, quando lhe verdejavam e floresciam as esperanças no coração, ela resistiu a todas as vozes sedutoras, que lhe suspiravam e gemiam em torno dos ouvidos, como se a alma apaixonada de Tenório andasse errante pelo espaço, a cantar eternamente os seus amores egoístas.
Ofereceram-lhe sedas, jóias; falaram-lhe em carruagens; mostraram-lhe, da miserável janela da sua mansarda, o mundo feliz que lá embaixo se embriagava de prazer. E o marulhar daquele oceano de gozos, e o crepitar dos risos e dos beijos, e o ruído quente dos almoços no campo, pelas manhãs de verão, à sombra das mangueiras ou ao sussurrar das cascatas da Tijuca; nada venceu conquistá-la.
Embalde o champanha transbordou das taças o seu aljôfar inebriante; embalde Offenbach atirou aos ares as notas endemoninhadas das suas partituras; embalde os carnavais, os vaudevilles, os hotéis, os circos e as corridas estridularam por toda a parte, chamando à loucura, ao prazer, ao riso! A pobre viúva fechou-se a tudo isso e continuou a aviar encomendas de costura, ao lado de uma velha patativa, que possuía do tempo do marido.
Foi nesse tempo que conheceu o farmacêutico. Januária, quando escassearam as encomendas de costura, desfiava linho usado, para vender o fio nos hospitais e nas casas de caridade. Moreira era um dos seus bons fregueses. Já por essa época explorava ele, com muito sucesso, as feridas do próximo.
Era moço então — teria trinta e cinco anos; não sabemos se já gozava da singular mania do chapéu, mas podemos afirmar que foi ele um dos primeiros demônios dos que tentaram desviar a formosa e ríspida viúva da perfumada e santa obscuridade em que vivia.
A princípio, o farmacêutico, cujos negócios da botica iam já perfeitamente encaminhados, supôs a coisa muito fácil de resolver e declarou francamente a Januária as intenções que mantinha a seu respeito.
— A senhora deve ter uma casita melhor e mais guarnecida do que está, disse ele, com o aspecto desinteressado e superior de quem gosta de fazer o bem pelo bem; deve igualmente passar melhor de boca e poder contar com certas comodidades e certos arranjos domésticos.
Roupa, por exemplo: a senhora quase que não tem o que vestir! O querosene estraga-lhe a vista; e este trabalho, tão puxado, pode vir a dar-lhe com os ossos no cemitério! Deve a gente trabalhar para viver e não para matar-se! A senhora puxa demais pelas forças, abusa do trabalho; é impossível que isso não lhe venha a fazer mal!...
— Que remédio!... respondeu ela, com um gesto de resignação; as costuras dão agora tão pouca coisa!...
— Mas para que só conta com as costuras?... A senhora precisava de alguém que a ajudasse; algum rapaz decente e de bons costumes que a protegesse...
— De que modo? perguntou ela, talvez compreendendo já a intenção do farmacêutico.
— Ora, de que modo! Há tantos modo de proteger uma pessoa!...
— É por isso mesmo que eu pergunto qual deles é...
— Que modo há de ser?... ligando-se à senhora... Diga-me uma coisa: se lhe aparecesse um rapaz nessas condições e que estivesse disposto a fazer o que eu disse, a senhora não o aceitaria? — Ah! se ele fosse boa criatura e caso se agradasse de mim... não digo que não... mas qual! interrompeu ela com um sorriso triste e ao mesmo tempo gracioso; quem hoje escolhe uma viúva pobre como eu?...
— Quem?! exclamou o Moreira esquentando-se. Um rapaz que eu cá sei!...
— O senhor está gracejando!... observou ela.
— Por Deus que falo a sério! — E esse rapaz quem é? — A senhora o conhece...
— Pode ser, mas eu conheço tanta gente!...
— Ele não está longe daqui...
— Não entendo...
— Um pobre farmacêutico, chamado Moreira; não é rico, nem tem dotes físicos, mas passa por boa pessoa...
— O senhor?! perguntou ela, franzindo as sobrancelhas.
— Sim, minha querida Januária, respondeu ele procurando segurar-lhe uma das mãos. Há muito tempo que estou doido por dizer-te isto, mas...
— Mas como, se o senhor é casado?! — E que tem isso?... Acaso, por ser casado, não posso tomar conta de uma mulher a quem ame?...
A viúva afastou-se tranqüilamente, sem um gesto de indignação, e, quando chegou à entrada do seu quarto, voltou-se e disse ao Moreira com toda a calma: — O senhor pode retirar-se e tenha a bondade de não voltar aqui, porque não o receberei.
Diga a sua mulher que o vestido de fustão está pronto, e que me desculpe não lhe aparecer mais em casa para ir buscar as outras encomendas.
E fechou-se no quarto.
O farmacêutico ficou a olhar um instante para a porta fechada.
— Ora esta! disse ele afinal e ganhou a rua, aborrecido com aquela decepção, mas instintivamente penetrado de respeito pelo caráter da viúva; o que aliás não impediu que, daí por diante, nem só não lhe desse mais trabalho e não lhe comprasse o fio, como também ainda se empenhasse com alguns seus conhecidos para que fizessem outro tanto.
O resultado foi que a viúva, ao fim de pouco tempo, se achava a braços com um milhão de dificuldades e via, aflita, chegar o momento terrível em que fosse preciso um pedaço de pão para matar a fome, e não houvesse.
Então resolveu alugar-se como criada em casa de alguma respeitável família. Apareceu-lhe arranjo. Era uma gente que morava para além do Campo de Santana, nesse tempo ainda muito pouco concorrido.
A princípio custou-lhe bastante afazer-se ao seu novo estado, mas o desejo de viver honestamente, a necessidade ingênita de conservar-se virtuosa, triunfaram de todos os obstáculos, e Januária conseguiu passar alguns anos a servir sem nunca relaxar os seus princípios de peregrina austeridade.
Quando lhe principiaram a secar as faces, e os lábios começaram a empobrecer de frescura e rubor, foi solicitada por D. Henriqueta dos Santos (aquela com quem se casou Leão Vermelho) para ajudá-la no serviço da sua casa de pensão.
Só a morte da mãe de Clorinda conseguiu separá-las. As duas, como já sabe o leitor, se tinham feito muito amigas. Januária possuía o segredo de viver bem com uma pessoa do seu sexo, o que aliás é muito raro entre mulheres. Era muito condescente asseada, ativa, amiga de servir e agradar. Ninguém lhe ouvia uma frase de cólera, ninguém lhe surpreendia um momento de mau humor. O sorriso parecia fazer parte intrínseca de seus lábios; seus olhos eram doces e transparentes como os olhos de uma criança. Naquela fisionomia calma e cheia de bondade, não havia ressaibo de ressentimento ou de ódio; nela tudo respirava resignação e paciência. As necessidades mortificadoras da sua triste vida não lograram azedar-lhe o sangue e derramar-lhe bílis no coração.
Como não seria bom o homem que nascesse dessa mulher. Como não seria feliz a criatura que fosse em pequenina aquecida nas asas daquele anjo! E ela, que possuía todas as sutilezas da ternura, todos os mistérios do amor legítimo e fecundo; ela, que parecia ter vindo à terra só para cumprir um destino de sacrifícios e de abnegação; ela, como não saberia ser mãe! como não saberia dar-se toda ao entezinho querido que lhe saísse das entranhas! Entretanto Januária nunca desfrutou essa ventura; e quando nasceu Clorinda, ela deu à filha da amiga, à sua afilhadinha, todo o farto tesouro de ternura maternal que lhe enchia o coração.
Não precisa o leitor de que lhe lembremos os sucessos determinados pelo casamento de Leão Vermelho, e sabe decerto, tão bem como nós, que, depois da morte de Henriqueta, a pequenina Clorinda ficou entregue aos cuidados da madrinha, enquanto o desventurado pai fugia para a pátria, desesperado e perseguido.
Foi pouco depois disso que o farmacêutico, já então viúvo e adiantado em anos, vendo-se na contingência de retirar Matilde do colégio e confiá-la a alguma senhora verdadeiramente honesta, se lembrou de procurar a velha Januária e lhe pedir que tomasse conta da abastada órfã.
D. Januária aceitou; o que mais tarde abriu lugar ao namoro de Portela com Matilde.
Mas, deixemos por hora tudo isso de mão, para darmos conta final dos outros personagens que foram ficando abandonados pelo caminho, e irmos encontrar-nos de novo com Olímpia e espreitar a posição que, ao lado dela, toma o nosso Gregório.
À filha do comendador muito custou consolar-se da perda do pai. O Dr. Dermeval viu-se em sérias dificuldades para a erguer do estado de abatimento em que ficara.
Olímpia transformou-se durante os quinze dias que sucederam à morte do comendador; fezse muito abatida, muito mais magra e mais nervosa. Eram precisos mil cuidados para evitar-lhe as crises. Em algumas rodas dizia-se até que a mulher do Gonçalves não estava muito boa da cabeça. Isso, porém, não tinha fundamento algum; o que ela estava era sumamente hipocondríaca, profundamente aborrecida e desconsolada.
Gregório ficou desapontado com semelhantes transformações; supunha ele que, depois da morte do comendador, Olímpia lhe pertenceria mais exclusivamente; que desapareceriam os sobressaltos, os riscos, as torturas de todo o instante. E não se lembrava o inexperto de que é precisamente desses pequeninos casos, excitantes e provocativos, dessas galantes contrariedades, desses passageiros obstáculos, que se alimentam os amores, cujas raízes grassam mais pela fantasia do que pelo coração.
Olímpia, logo que se sentiu independente, logo que pôde estar à vontade com o amante todas as vezes que lhe apetecia, começou a enfraquecer de interesse por ele, a possuir-se de fastio por aquele amor que ia amornecendo e caindo a pouco e pouco na vulgaridade das coisas fáceis e obscuras.
E, quanto mais Olímpia se retraía, mais se empenhava Gregório em chamá-la ao seu afeto; já procurando lembrar-lhe os sonhos venturosos do passado, já provocando, com artifício, novas situações armadas ao sabor do espírito romanesco do amante. Tudo, porém, era debalde. Olímpia não se mostrava menos enfastiada e parecia suportar o rapaz apenas por condescendência.
Um belo dia Gregório apareceu pouco antes do que era de costume.
— Ah! é você?... disse ela com o ar fatigado.
— Sei que não devia vir, respondeu ele, da porta, sem largar o chapéu; já não sou desejado...
E depois de observar o efeito que produziu a sua frase em Olímpia, acrescentou, pondo uma expressão de queixa nas palavras: — Agora chego sempre cedo demais!... Reconheço que só posso ser agradável pela ausência!...
A caprichosa não respondeu, e ficou a olhar demoradamente para as unhas da mão direita.
Houve um silêncio de alguns segundos.
Gregório afinal aproximou-se dela e passou-lhe um braço na cintura.
— Para que me tratas deste modo? perguntou ele. Que fiz eu para merecer tamanha indiferença... Por que me fazes padecer tanto, Olímpia?... Sabes perfeitamente que és a única consolação que me resta na vida! a minha única ventura, minha única...
Ela o interrompeu para lhe perguntar onde se encontraria um jardineiro que se quisesse encarregar da chácara, porque o preto velho que lhe fazia esse serviço, dera ultimamente para beber e estava insuportável; ainda na véspera se apresentara tão embriagado que, na ocasião de entrar no jardim, fora de encontro a um belo jarro de louça vidrada e lançara-o por terra.
Olímpia não se podia conformar com semelhante perda! O seu querido jarro fazia imensa falta na chácara! Ela o estimava muito! Fora um presente do Porto, de um amigo de seu pai.
Aqueles jarros ali estavam havia anos; era preciso que viesse a lesma do jardineiro para reduzir um deles a cacos! — Bruto! resumiu ela, empenhada na sua indignação! Quebrar um objeto que eu prezava tanto!...
As palavras da filha do comendador caíram sobre Gregório como um jato de água fria dentro de uma caldeira a ferver. Ele empalideceu de raiva ou talvez de vergonha, e fez um movimento brusco para sair.
— Já vai? perguntou a rapariga, com um ar entre delicado e indiferente.
— Decerto! respondeu Gregório; que fico eu fazendo aqui?...
— Então não se esqueça do que lhe disse; e, se puder descobrir um jarro parecido com o que ficou na chácara, tenha a bondade de comprá-lo. Olhe, o melhor é ir lá abaixo vê-lo antes de sair.
Venha comigo; faço muito empenho nisto! Venha! E largou da sala, a encaminhar-se para a chácara.
Gregório prometeu ir em outra ocasião; naquele momento estava com pressa.
Olímpia dispunha-se a insistir no seu pedido quando a criada apareceu, muito esbaforida, dizendo que o Guterres acabava de expirar.
— Coitado! Já!? perguntou a senhora, com o ar de quem esperava por aquela notícia. E voltando-se para Gregório: — É um vizinho aí defronte. Estava muito mal. Há quinze dias que penava!...
— Ah! balbuciou Gregório.
— Bom homem. Muito sossegado, muito agarrado à mulher. Ele esteve aqui, dizem, por ocasião da morte de papai e ofereceu-se para ajudar no que fosse necessário.
E depois de uma pausa, acrescentou: — A Júlia, coitada! deve estar muito aflita... É a mulher, explicou ela, em resposta a um gesto de Gregório. Bela moça, muito dada, muito amiga de obsequiar. Já esteve aqui duas vezes.
Eu vou fazer-lhe companhia esta noite...
— Talvez isso não lhe faça bem!... observou Gregório.
— Ora! desdenhou Olímpia. Já não estou doente; além de que, tenho obrigação de ir. Ela se mostrou sempre tão minha amiga!... Está a mandar-me constantemente lembrançazinhas de amizade. Vou mostrar-lhe um açafate de papel, com o retrato dela. Deu-mo na semana passada.
Quer ver?...
Gregório disse que sim por comprazer.
Olímpia foi buscar o açafate. O retrato, em fotografia, estava no fundo, entre uma cercadura de papel bordado.
— Eu conheço esta mulher! disse Gregório logo que olhou para o retrato. Esta é a Júlia Guterres! — Ah! já a conhecia? — Já. Uma atriz...
— É exato, ela foi do teatro; mas o marido não quis que continuasse. Você algum dia a viu representar? — Não.
Gregório saiu afinal, resolvido a não tornar ao lado de Olímpia.
Uma semana depois, recebeu dela uma carta. Pedia-lhe que aparecesse. “Ele estava um ingrato; também isso não admirava, porque, segundo o que Olímpia ouvira dizer, Gregório não perdia uma noite do Alcazar, e andava apaixonado por uma francesa. Ela sabia de bonitas coisas a seu respeito!” Falou em certa orgia no Hotel Paris. A carta terminava pedindo ao rapaz que fosse domingo jantar com Olímpia. A viúva Guterres estaria presente e desejava conhecê-lo.
Gregório leu cinco ou seis vezes aquelas palavras.
— Devia ou não devia ir?...
Não foi. Mandou um bilhete, pedindo desculpas, e não apareceu.
Um mês depois, nova carta. Era mais extensa e mais recriminatória; Olímpia queixava-se amargamente do proceder de Gregório e pedia-lhe ternamente que a fosse ver. Ele ainda desta vez não foi.
Entretanto Gregório principiava a ganhar reputação de estroina. Um dos seus companheiros da pândega era o padre Beleza; padre ainda moço e levado da breca. À noite metia-se em roupas seculares, escondia a coroa e atirava-se para o Alcazar, onde floresciam nesse belo tempo as pernas da Aimé. O Beleza era quase sempre cabeça de motim e jogava capoeira como os mais entendidos da matéria. Contavam dele façanhas terríveis. O bispo não conseguia corrigi-lo.
Olímpia escreveu ainda duas cartas a Gregório, sem ter melhor êxito que das primeiras. Na última jurara que, se ele não lhe aparecesse nesses dias, nunca mais lhe daria uma palavra.
Foi então, isto é, seis meses depois do rompimento de Gregório com Olímpia, que o padre Beleza o convidou para uma festa.
Era o batizado da filhinha de uma das suas comadres.
O rapaz aceitou e foi, sem prever que esse passo tinha de representar um importante papel na sua vida.
Só depois de lá estar, soube que a madrinha da criança se chamava Júlia Guterres.
XXIX O BATIZADO A casa da festança era em Catumbi, pouco adiante do lugar até onde mais tarde havia de chegar a linha de bondes.
Um casarão antigo e abafadiço, com janelas de peito e dois degraus de cantaria à porta da rua.
Para se chegar lá, subia-se uma pequena ladeira à esquerda, enquanto se deixava à direita um correr de casas, que lá se iam estendendo, até confinarem com o pardacento e melancólico muro do cemitério de S. Francisco de Paulo.
Seriam quatro horas da tarde quando os dois se apearam do carro que os conduzia. O padre Beleza deu o braço a Gregório e seguiram.
— É ali! disse ele, apontando para o casarão. O outro olhou indiferentemente na direção indicada pelo companheiro.
O tempo estava duvidoso; parecia vir chuva. O céu cor de pérola, apenas em alguns pontos mais vizinhos do horizonte abria rasgões de uma claridade desbotada e brancacenta.
Os montes de Santa Teresa, atufados na verdura felpuda e trêmula, enchiam-se de sombra.
Palmeiras, destacadas e solitárias, abriam para o céu, aqui e ali, as suas estrelas irrequietas e murmurosas. Toda a natureza se ressentia de um triste aspecto de recolhimento; só os carrapateiros quebravam a uniformidade melancólica da verdura com o seu verde Paris, cru e alegre. Em vários lugares, por entre o relvejar do capim, aparecia a custo uma nesga de terra avermelhada, cor de carne em conserva. Mais para o sopé dos montes, casinhas, pintadas de claro, apareciam no sombrio das matas com os ângulos das suas fachadas de madeira.
Não havia raios de sol, nem sombras projetadas no chão. As montanhas desenhavam minuciosamente no fundo plúmbeo do céu o seu contorno acidentado e guarnecido de árvores.
Gregório e o companheiro acabavam de entrar na casa de batizado.
Veio recebê-los à porta um sujeito gordo e muito alto, cheio de vermelhidão, olhos claros, azulíssimos, cara raspada, pouco cabelo na cabeça e o pouco que havia quase todo branco. Esse sujeito tocava trompa nas orquestras de teatros e, pelo entrudo, trabalhava de enderecista para as sociedades carnavalescas. Era homem popular, prezava-se da estima de algumas pessoas de gravata lavada, mas não desdenhava a amizade dos colegas.
— Olá! olá! Viva o nosso reverendo padre Beleza! exclamou ele. E puxou familiarmente o padre para o corredor, enquanto esse lhe apresentava Gregório. Vão subindo! vão subindo! Aqui não se faz cerimônias! Estejam em sua casa! A troça está toda na dança lá em cima... Vão entrando! Ouvia-se com efeito barulho de música.
Gregório, ao chegar à sala, sentiu-se constrangido. Não conhecia aquele meio. Nunca havia penetrado em casa de uma família de artistas brasileiros; ignorava da existência desse gênero de pessoas, incontestavelmente dignas, mas entre as quais a pilhéria decotada tem bom curso, a dança toma um caráter assombroso de cancã, e as mulheres discutiam simultaneamente sobre tudo, desde os assuntos mais familiares e mais castos até às últimas extravagâncias da meretriz que estiver na moda.
Ninguém todavia fala tanto em conveniências, e ninguém se esforça tanto para cumprir com os rigores da hospitalidade. As pequenas obrigações da cortesia, nessas casas, tomam às vezes as proporções de verdadeiros suplícios — obrigam-nos a comer e a beber sobre posse. Não nos consentem rejeitar nada do que nos oferecem. Há uma febre terrível de obsequiar.
Gregório todavia passara quase despercebido, porque um acontecimento prendia a atenção dos que não dançavam. Era a chegada do pequenino, que acabavam de batizar, e mais a dos padrinhos e dos convidados que o acompanharam à igreja. Havia reboliço por toda a casa.
Em torno do bebê forma-se um grupo enorme de homens e mulheres, sôfregos por fazerem festinhas ao pequenino herói da festa. Este toscanejava babando-se, a resmungar, fatigado pela cerimônia do batizado.
Daí a pouco chamaram em gritos para a mesa.
Houve então um rumor ainda mais alegre, e as pilhérias da ocasião choveram de todos os lados.
Entretanto, Gregório era nesse momento apresentado à dona da casa pelo padre, com exagerados rasgos de cortesia.
Sobre a mesa enorme, que se havia arranjado especialmente para aquela ocasião e que parecia entalada na estreiteza da sala, destacavam-se as grandes peças de forno. Via-se o leitão inteiro com os dentes à mostra e os olhos substituídos por azeitonas, ao lado o peru empertigava o peito recheado; tortas, do tamanho da aba do chapéu do padre Beleza, recamavam a branca toalha de fustão. As garrafas cintilavam alegremente; liam-se vistosos rótulos de Bordeaux, Porto e descobriam-se garrafas de vinho branco, cheias de Colares e vinho virgem. As compoteiras de doce de caju, abacaxi, e laranja, jaziam meio escondidas nos tinhorões dos grandes jarros de porcelana. Os quartos de carneiro, as galinhas assadas e os pastelões esperavam resignadamente a hora do ataque. Um cheiro farto e gorduroso de comida enchia o ambiente.
A dona da casa disse em voz alta a Gregório que se fosse assentando à mesa. Ali não havia cerimônia! Ela, como quase todos os atores antigos, tinha o costume de falar sempre em voz alta.
Gregório assentou-se.
As mulheres olharam logo para ele com interesse. O seu pequeno rosto branco embelezado de frescura e de mocidade, sobressaía ali, como uma coisa rara e bem trabalhada. O rapaz fazia esforços supremos envergonhado da natural distinção das suas maneiras.
Os convidados não cabiam todos à mesa; Gregório ergueu-se duas vezes para oferecer o seu lugar, mas de ambas o obrigaram a ficar assentado, empurrando-o pelos ombros. Sentia-se ele cada vez mais constrangido no meio daquela gente mesclada e ruidosa; fusão de família e boêmia, argamassa de sorrisos discretos, olhares pundonorosos, gestos cheios de escrúpulo e amplos movimentos de caixa de teatro misturados com frases de botequim e pilhérias de sociedade carnavalesca.
Luzia Pereira, a dona da casa, apesar de idosa, ainda mostrava ter sido bonitona na sua época.
Fora atriz por muitos anos, enviuvara de um ator do tempo de João Caetano e vivera sempre entre gente de teatro. Era em geral estimada como mulher honesta e querida por muitas famílias do Rio de Janeiro.
A gordura desformara-lhe um pouco os membros e a fazia parecer mais baixa e menos elegante; mas os olhos brilhavam ainda com o fulgor dos outros tempos, e os lábios conservavam o fino sorriso espiritual, com que ela arrebatara as platéias de 1840.
Luzia Pereira era tia legítima da nossa bem conhecida Júlia Guterres, que representava uma das principais figuras do batizado.
A atmosfera tornava-se mais e mais abafada. O calor, anunciativo da tempestade que se formava lá fora, quase que não consentia no agrupamento dos comensais naquela sala estreita e coagida pelo teto. Das janelas, abertas sobre o quintal, não entrava o menor sopro de ar novo; as luzes do petróleo agravavam a situação.
Gregório desfazia-se em finezas com Júlia Guterres, que lhe ficara ao lado direito, mas impacientava-se por sair daquele forno.
Principiaram a comer. Não havia método no jantar; algumas pessoas iam logo se servindo dos assados antes de tudo; outras tomavam à sopa os vinhos da sobremesa. Mas todos os copos se esvaziavam alegremente. Foi preciso fechar as janelas porque começavam a cair as primeiras gotas do aguaceiro, que lá fora trovejava já sobre as montanhas.
Redobrou então o calor. Um sujeito gordo erguera-se, pedindo que o acompanhassem em um brinde a uma pessoa, que se achava presente, muito distinta e digna de todas as considerações.
Fez-se logo um respeitoso silêncio, e o orador declarou que se referia a D. Luzia Pereira.
Seguiu-se uma enfiada de elogios, e os hurras rebentaram de todos os lados.
Desde então os brindes apareciam sem intervalo. Os comensais erguiam-se a dar vivas, e estendiam o braços, oferecendo os copos aos vizinhos, para tocar.
Ainda não estava terminado o jantar, quando Gregório pediu licença e se retirou ofegante para a sala de visitas.
A chuva percutia com força nas vidraças e no telhado. O rapaz assentou-se no canapé e ficou a olhar para as fotografias suspensas da parede.
Lá estava o João Caetano, o Martinho, o Costa, e outros contemporâneos. Por um álbum, que Gregório se pôs a folhear, via-se que era enorme a família da Luzia Pereira. Algumas filhas e netos estavam presentes à festa.
Terminada a primeira mesa, assentaram-se os que ainda não haviam jantado, e a sala, onde estava Gregório, encheu-se logo de pessoas a palitarem os dentes.
Em uma alcova contígua, dez rapazes preparavam estantes de músicas e acendiam velas.
Pouco depois, cada um desses dez tocavam o seu instrumento de sopro, e um grande barulho metálico, ensurdecedor, encheu totalmente a sala, impedindo qualquer conversa.
Era uma polca, composta por um dos músicos e oferecida ao pequeno que se batizara naquele dia.
Gregório foi obrigado a dançar, escolheu Júlia Guterres. Ela deixara-se conduzir com certo desprendimento gracioso. Era louca pela dança.
Quando acabou a música, houve uma carga de vivas ao autor, vivas ao batizado, vivas à dona casa. Abriram-se garrafas de cerveja nacional, e os copos espalharam-se por todos os convidados.
Gregório sentia-se ir agitando pouco a pouco: tudo aquilo começava a perturbá-lo; a música, o ar quente, os perfumes de Júlia, produziam-lhe vertigens e chamavam-lhe o sangue à cabeça. O padre Beleza não tinha um momento de descanso, ria, saltava, gritava fazendo troças, pregando caçoadas às velhas, abraçando as mulheres, pisando de propósito os homens e rebolando na dança. Todos lhe achavam graça.
Entretanto Júlia, depois que dançou a segunda vez com Gregório, lhe pediu que não reparasse naquela desordem: as festas em casa da tia eram sempre assim... Não havia meio de obter certa seriedade! Ela ia ali, porque a tia era o único parente a que estimava deveras no mundo, mas fazia com isso um verdadeiro sacrifício; aquilo era uma gente levada do diabo! Em seguida começaram a falar a respeito de Olímpia, a princípio por meias palavras, depois abertamente. A viúva sabia muita coisa que lhe contara a vizinha.
— Gregório não havia procedido bem...
— A culpa foi só ela, justificou-se o rapaz; Olímpia se quisesse teria feito de mim um escravo! Eu não pensava em mais nada que não fosse nela...
— E ainda hoje, observou a outra, pelo entusiasmo com que diz isso, percebe-se que...
— Qual! respondeu ele, sacudindo os ombros. Está tudo acabado! — Ela, porém, ainda o estima muito!...
— Não sei! É verdade que a mulher só ama quando o homem amado a despreza...
— Isso são histórias! contradisse Júlia. O senhor, se não gosta mais dela, é porque gosta de outra!...
— Juro-lhe que não! afirmou vivamente Gregório, lançando sobre a viúva um olhar que era já um programa.
Ela havia compreendido perfeitamente o efeito que produzia no rapaz, e não procurou destruí-lo. As mulheres têm sempre um gostinho muito particular em possuir um homem amado pelas outras.
Quando, às seis horas da manhã, dissolvia-se a festa, e cada um procurava às tontas o seu chapéu e a sua bengala, Júlia e Gregório invadiram um pequeno quarto que ficava ao lado da varanda e, na febre de achar os chapéus, seguraram duas vezes por engano as mãos um do outro e, por estar o quarto ainda escuro, cremos que os seus lábios também se esbarraram.
Gregório saiu palpitante de esperanças.
O diabo era a vizinhança de Olímpia e o fato de freqüentar esta a casa da viúva. Oh! mas tudo se haveria de arranjar. Gregório estava muito satisfeito com a sua nova conquista: notava em Júlia certa graça desdenhosa e satânica, um modo petulante de dizer liberdades, uma semcerimônia peculiar às atrizes, uma espécie de encantadora malignidade, que a filha do comendador nunca possuíra.
E já no dia seguinte principiou ele a formar o seu plano de batalha. Fez-lhe uma visita, mas a viúva, muito ao contrário do que esperava o assaltante, recebeu-o friamente e não insistiu para que se demorasse.
Foi a primeira esporada. Gregório saltou. Depois da faísca, a explosão seria fatal.
Principiou a persegui-la por toda a parte, a escrever-lhe cartas apaixonadas, a pedir-lhe ternura por amor de Deus.
Nesse tempo morava ele em Santa Teresa.
Uma noite, mal havia chegado à casa, quando sentiu parar à porta uma carruagem e logo em seguida alguém que subia apressadamente a escada.
Era Olímpia. Gregório a reconheceu imediatamente e fê-la entrar.
Vinha ofegante, pálida de raiva, com a fisionomia endurecida por qualquer grande contrariedade.
Era a primeira vez que se animava a tanto; nunca havia penetrado em casa de um rapaz. De sorte que, logo depois dos primeiros passos, toda a energia que ela trazia engatilhada para fulminar o pérfido amante, rebentou em soluços.
Gregório correu a socorrê-la; foi repelido com um murro.
— Deixa-me! exclamou ela. E tirou da algibeira uma das ultimas cartas dirigidas por ele à viúva.
— Você é um infame! Gregório estava perplexo e achava tudo aquilo muito estranho. Havia já seis meses que ele se não entendia com Olímpia. Ela, da última vez em que estiveram juntos, tratara-o mal... Que diabo queria então tudo aquilo dizer??... Porventura era ele casado para ter de dar contas dos seus atos!? Se escrevia cartas era porque assim o entendia! Ora essa! Olímpia não teve uma palavra para lhe opor. Gregório nunca a tratara daquele modo. Até aí sempre lhe dispensara delicadeza e consideração.
— A senhora é que fez muito mal em vir cá! disse ele, passeando agitado pelo quarto. Não sei o que a autoriza a supor que ainda existe alguma coisa entre nós dois! — Tem razão! respondeu Olímpia, afastando-se, na esperança de que ele a chamasse.
Mas Gregório contentou-se em fazer um gesto de despedida.
Ela, assim que se convenceu de que o amante não a ia buscar, voltou sorrindo humildemente.
Já não chorava, nem parecia contrariada.
Quando chegou junto de Gregório, atirou-se-lhe nos braços e principiou a soluçar com a cabeça pousada no colo do rapaz.
Ele, comovido, beijou-a na face.
As pazes estavam feitas.
XXX ÚLTIMO CAPÍTULO Eis aí como decorreu a inútil mocidade de Gregório até aos vinte e dois anos. Mais um passo e chegaremos ao ponto em que principia este pobre romance e onde justamente há de ele acabar; quer dizer, refluiremos à cena do malogrado casamento de Clorinda.
Durante esse rápido ano, que liga o primeiro capítulo ao último, sucederam-se poucos mas palpitantes acontecimentos, que justificam muitas outras cenas.
Nesse pequeno espaço de tempo, Olímpia sofreu, por amor de Gregório, todos os martírios que nos podem influir nos ciúmes. Quanto mais ele se esquivava, tanto mais atraída ela se sentia.
Olímpia estava na idade em que o amor toma o caráter de moléstia; na idade em que a mulher é capaz de todas as loucuras pelo objeto amado; em que ela é capaz de todos os sacrifícios, de todas as abnegações, menos a de consentir que o herói dos seus sonhos a despreze por outra. E foi isso justamente o que fez Gregório, desde aquela cena absurda de cócegas no pitoresco chalezinho de Júlia Guterres.
Como já sabe o leitor, a viúva, logo que perdeu o marido, tratou de recolher os bens que lhe ficaram, e retirou-se para a Tijuca, onde nós e a polícia, a encontramos, quando se tratava de descobrir esclarecimentos a respeito de Gregório; da mesma forma, não ignora o leitor qual foi a direção que tomaram os novos amores do inconstante rapaz, e como chegou ele a armar casamento com Clorinda.
Pois bem; tratemos de esclarecer o que falta e apressemos o passo, para chegarmos, quanto antes, aos resultados das cenas dos primeiros capítulos.
Olímpia não pôde disfarçar por muito tempo o seu martírio, e a dor dos ciúmes transformouse para ela em cruel enfermidade, acelerando o embranquecer do cabelo, o enrugar da tez e o desbotamento das faces. Quando o Dr. Roberto voltou do norte, o que proporcionou a Gregório o seu primeiro encontro com a bela Clorinda, quase que não a reconheceu e declarou que muito pouco lhe daria de vida.
Gregório correu então para junto dela, mas a sua presença não conseguiu espantar a morte, que estendia já sobre a infeliz a sombra negra de suas asas.
Ele, por sua parte, não levava o coração ainda cativo dos amores da viúva, mas já suavemente impregnado pela nova afeição que lhe inspirara a filha de Leão Vermelho.
Estava outro: não era o mesmo folgazão das correrias com o padre Beleza; ao contrário, convertido e civilizado, forcejava agora por vencer as últimas ondas da mocidade, e abrigar-se enfim no casamento, cujas praias via branquejarem além, iluminadas por um doce luar de tranqüila ventura.
Olímpia faleceu numa noite de inverno, depois de grande agonia. O Dr. Roberto não lhe abandonara durante muitos dias a cabeceira, e o Figueiredo mandara dois de seus empregados para ajudarem nos trabalhos do enterro.
Gregório chorava ao lado do cadáver. Nunca se persuadiu que sentisse tanto aquela morte.
Olímpia entrara na sua vida como um incidente fantástico e romanesco no meio de um livro de apontamentos banais; arrependia-se agora de não ter sido com ela melhor, mais generoso, mais grato; sentia remorso de não a ter amado um pouco mais! E, para fugir a essas idéias aborrecidas, chamava egoisticamente em seu socorro a imagem adorada de Clorinda. Ah! esta era o futuro, a esperança de felicidade, era a aurora do dia seguinte.
E só a lembrança destas novas claridades lhe secava os últimos orvalhos daquela noite que fugia, perdendo-se nas sombras inalteráveis do passado.
De todos, enfim, quem parecia mais sentido com tudo aquilo era o velho Jacó. O pobre homem viu, em torno de si, caírem, a pouco e pouco, as árvores queridas, a cuja sombra abrigava a fraqueza da sua velhice.
Gregório ofereceu-lhe a casa e insistiu com ele para que fosse fazer-lhe companhia. Jacó aceitou, e por isso o vimos figurar no interrogatório policial logo no começo do romance Em breve, Gregório não tinha outra idéia que não fosse a da sua querida noiva, e Júlia Guterres principiava a curtir os mesmos tormentos por que passara Olímpia.
Se as mulheres, e principalmente aquelas que já se despiram das primeiras ilusões, soubessem quanto é perigoso amar deveras um rapaz que ainda não pagou todos os tributos da mocidade, não se deixariam tão facilmente prender aos efêmeros transportes de um namorado de vinte anos.
O coração nessa idade está ainda muito verde para arder. É preciso que o tempo e as lentas decepções da vida o ressequem, sem o que não pegará fogo.
E dizem os irrefletidos que o coração dos velhos é que é frio. Que injustiça! ninguém ama com tanto ardor, ninguém se apaixona com tanto entusiasmo! Parece até que o homem, à proporção que envelhece, vai refugiando no coração todo o calor que lhe foge do resto do corpo.
À proporção que lhe caem os dentes, que lhe deserta o cabelo, que se lhe entorpecem as pernas e se lhe tornam mais e mais trêmulas as mãos, tanto mais o coração se enrija e fortifica, para conservar inalterável e firme o seu derradeiro amor. Desaparece o olfato, apagam-se os olhos, somem-se o tato e o paladar, e o coração cada vez mais sente, mais deseja e mais vê! Por que estranho ódio teria a natureza formado assim o coração do homem? Se lhe rouba do corpo as forças, os sentidos, as faculdades, se lhe toma os dentes, o sangue dos lábios e a frescura dos cabelos; se o torna feio, velho, insuportável, para que lhe deixa então o coração a pulsar cada vez com mais veemência e a pedir um amor que ninguém lhe dá?! Júlia Guterres não se lembrara de fazer considerações destas, ao abrir os braços a Gregório, e depois teve com sacrifício de impor ao seu coração que se calasse, quando soube pela primeira vez que o desleal amante estava de casamento justo com Clorinda.
Corriam as coisas neste ponto, quando se realizou aquela conversa entre Portela e o seu capanga Talha-certo, ao saberem da reaparição de Pedro Ruivo.
O gatuno havia-se arranjado lá por S. Paulo com o tal fazendeiro de boa-fé, a quem se agrarrara com tamanho afinco, que a pobre vítima, para se ver livre dele, tratou de empregá-lo na casa Paulo Cordeiro, na qualidade de pregador de rótulos.
Mas Portela é que não ficou muito tranqüilo desde que o viu, e recomendou ao seu Talhacerto que lhe não perdesse a pista.
Talha-certo tratou imediatamente de procurar Tubarão e pedir o seu auxílio, porque Pedro Ruivo da primeira vez conseguira escapar-lhe das unhas. E o leitor já sabe o ajuste que houve entre aqueles dois no café da Menina do Bandolim, onde ficaram de encontrar-se no dia seguinte para realizarem a terrível incumbência de Portela.
Tubarão acompanhara o flâmulo deste, pelo simples fato de tratar-se do Ruivo; ele não era homem que se prestasse a fazer mal a quem quer que fosse, se o coração não se envolvesse nisso.
Talha-certo sabia perfeitamente da velha rixa que havia entre os dois e, desde o seu malogrado bote contra o Ruivo, tratara de preparar o ânimo do outro para a primeira vez que viesse a precisar do seu auxílio.
Chegara afinal o momento, e Tubarão cedera.
Vejamos agora como se saíram eles dessa empresa.
Pedro Ruivo parecia regenerado depois que se arranjara na fábrica. Trabalhava pontualmente e recolhia-se para dormir a hora certa. Morava com um companheiro num cortiço perto do Campo de Santana. E nos primeiros tempos, tão enfronhado viveu no serviço, que Portela ignorava completamente a sua presença no Rio de Janeiro.
O velhaco, entretanto, meditava novos planos de ladroeira; queria angariar a simpatia e a confiança dos superiores, para fazer com mais certeza a sua pontaria, quando porventura se apresentasse uma boa ocasião.
Essa ocasião apareceu. O caixa da casa, aquele Gonçalves, viúvo de Olímpia, teve uma vez de demorar consigo uma quantia superior, vinte contos de réis. Pedro Ruivo não o perdeu mais de vista, e preparou-se.
Se fosse necessário, o caixa seria assassinado. Mas assim não sucedeu, porque o gatuno encontrou ensejo de achar-se a sós com o dinheiro. Entrou pelos fundos da casa e penetrou engenhosamente no gabinete do caixa, tendo para isso preparado de antemão os fechos de uma das janelas que davam para esse lado.
Uma vez senhor do dinheiro, tratou de ganhar a rua e de encaminhar-se para o seu cortiço.
Mal porém teria feito alguns cinqüenta passos, quando um homem lhe saiu ao encontro e lhe arremessou uma formidável cabeçada contra o ventre. Era Talha-certo.
Pedro Ruivo perdeu o equilíbrio e caiu de costas.
O outro, trepando nele, lhe perguntou pelos documentos de Portela. O agredido, em vez de responder, soltou um grito e segurou com ambas as mãos o peito, como se quisesse defender alguma coisa que aí trouxesse escondida.
Talha-certo, conduzido por esse movimento espontâneo, imaginou que ali estivessem os papéis que procurava, e intimidou o Ruivo a que se deixasse revistar. O Ruivo resistiu.
Talha-certo chamou então o marinheiro em seu auxílio e, depois de vendarem a boca do Ruivo, dispuseram-se a revistar-lhe o peito.
O Ruivo debatia-se furiosamente.
— Tratante! gritou-lhe Tubarão; dá-me por bem esses papéis, se não quiseres ficar aqui mesmo reduzido a postas! Ruivo, em vez de responder, arrancou-se das mãos de Talha-certo e sacou do bolso uma navalha.
Talha-certo, porém, havia de um salto avançado para ele, e cortara-lhe a garganta com uma navalhada. O Ruivo rosnou por baixo da venda que tinha na boca e, depois de tentar em vão segurar-se nas pernas, caiu de borco sobre a calçada.
O assassino revistou-lhe o peito; mas, em vez dos documentos do comendador Portela, encontrou os contos de réis, que a sua vítima havia pouco antes roubado.
— Como vinha o ladrão carregado! disse o Talha-certo, sacudindo de alegria pela descoberta que acabava de fazer.
— E os documentos?... perguntou Tubarão.
— Não estão naturalmente com ele, mas temos aqui coisa melhor: Um dinheirão! O maroto havia feito hoje uma linda colheita! — Então tudo isso é dinheiro? perguntou o Tubarão, admirado por sua vez.
— Em magníficas notas do tesouro! respondeu o Talha-certo.
— Então foi algum roubo... não te parece?...
— Sei cá; o que te afianço é que isto não nos fará peso nas algibeiras...
— Não sou dessa opinião! resmungou o seu cúmplice. Dinheiro roubado pesa sempre, quando menos na consciência! — Ora! replicou o Talha-certo, depois de acabar a revista das algibeiras do Ruivo, e tratando de afastar-se com o dinheiro para longe. Quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão! — Estás enganado! gritou-lhe o outro. Quem rouba a ladrão, fica ladrão como ele! Esse dinheiro será entregue ao dono, quer queiras, quer não queiras! — Essa agora tinha graça!... considerou o outro. Era melhor que fôssemos nós daqui direitinhos entregar-nos à polícia.
— Podemos fazê-lo chegar às mãos do dono, sem que se saiba donde ele procede...
— Nesse caso, restituirás tu a tua parte. Vamos dividi-lo; cada um dará o destino que quiser aquilo que lhe tocar.
— Não! contradisse o Tubarão. Havemos de entregá-lo todo ao dono! — Isso agora já passa à birra, replicou Talha-certo, impacientando-se. Que você faça fúrias com o que é seu, vá lá, mas com o que é dos outros!..
— Aqui não há meu, nem teu! nós não temos direito a ficar com aquilo que não ganhamos, nem tampouco nos deram! — Mas que achamos! replicou ainda Talha-certo. Em todo o caso, vamos a casa dividir o cobre, e você da sua parte fará o que quiser... A minha pertence-me! — Não! Tu me vais passar todo o dinheiro. Eu me encarregarei de restitui-lo ao dono.
— Ora veja se tenho algum T na testa! — Eu é que te afianço que o dinheiro se há de restituir! Vamos! em teu poder não ficará ele! Talha-certo, vendo que não conseguiria nada pela arrogância, resolveu comover o companheiro.
— Então, que é isso, Tubarão?... Que mania de escrúpulo é essa de tua parte com um velhaco daquela ordem? Olha! quem o mau poupa nas mãos lhe morre...
— Não se trata agora disso! replicou Tubarão: não se trata de dar cabo de nenhum mau; trata-se é de entregar um valor que nos não pertence. Enquanto querias uma ajuda para despachar aquele maroto, pronto! e não me arrependo disso; mas lá para roubar é que não me presto! Ou tu me entregas o dinheiro, ou eu te denuncio à polícia. Escolhe! — Ora, deixa-te disso, pediu ainda o outro, procurando torcer o caráter do marinheiro.
— Já te disse o que tinha a dizer! volveu este. Ou entregas o cobre, ou vai tudo ao ouvido do Dr. Ludgero. Eu cá não sirvo de capa a ladroeiras! Não sou santo, mas nunca estas mãos se sujaram com o alheio! E Tubarão, com ar firme de homem resoluto, ia forçar o companheiro a que lhe entregasse o roubo, quando este, recuando na ação destra da capoeiragem, acometeu contra de, procurando abrir-lhe o pescoço com a navalha.
Mas Tubarão desviou-se prontamente, e a lâmina, mudando de direção, entranhou-se-lhe pelo pequeno peitoral do lado direito.
Talha-certo recuou com um novo salto e de novo investiu contra o companheiro, ferindo-o então no braço, porque o rijo marujo, apesar do sangue que lhe saltava da ferida, ainda se agüentava bem nas pernas e ainda se defendia, tentando apoderar-se do facínora.
Este deitou a correr, Tubarão tentou persegui-lo, mas a vista principiou a escurecer-lhe, as pernas a lhe fraquejarem, e com muito custo conseguiu de chegar onde morava pobremente com um seu velho companheiro do mar.
O companheiro não estava em casa. Tubarão recolheu-se à cama e perdeu de todo os sentidos. Só os recuperou muito depois, quando a febre principiou a ceder. O médico, que o companheiro de casa fora buscar, recomendara que o não obrigassem a falar e não lhe dessem a beber senão os medicamentos receitados.
Entretanto, sabe já o leitor o caminho que, durante esse tempo, tomaram as coisas concernentes ao assassínio do Pedro Ruivo e ao roubo perpetrado na casa Paulo Cordeiro. A polícia continuava a trabalhar, mas trabalhava muito reservadamente e quase sem resultado algum.
De Gregório ninguém dava notícias.
Nestas circunstâncias, chegaram as coisas ao ponto em que as deixamos, quando a desventurosa Clorinda se recolheu à casa de Júlia Guterres, onde a pobre velha Januária conseguia escapar ao peso dos seus sofrimentos.
Como vimos, a penetrante viúva foi a única que suspeitou das intenções de João Rosa e principiou a estudar a atitude que o antipático rapaz tomava ao lado da sua hóspede.
Por então, um paquete europeu ancorava na Guanabara e uma família saltava no cais Pharoux.
Nada menos que o conde de S. Francisco, a esposa, a filha e um moço de uns vinte e cinco anos, no qual o leitor, se o visse, reconheceria logo o nosso Gregório.
Ao lado deste caminhava o Dr. Ludgero, com o ar satisfeito de quem alcança vitória.
Seguiu-se então o mais estranho e enovelado processo de que se pode gabar a justiça brasileira. Nesse tempo não se falava noutra coisa: o escândalo agitou por muitos dias a curiosidade do público e fechou todos os personagens deste romance no mesmo círculo de interesse.
O conde de S. Francisco trazia consigo, felizmente, os documentos justificativos da herança que Gregório acabava de receber do Minho. Entretanto, era necessário descobrir os verdadeiros autores do roubo e do assassínio. O processo continuava.
Apresentaram a Gregório a fotografia de Pedro Ruivo. Gregório disse francamente o que sabia da vida daquele homem, contou as aventuras da Avenida Estrela; o delegado fez vir à sua presença o Papá Falconet, o padre Almeida, o Augusto e o Afonso, mas nenhum deles adiantou o menor esclarecimento.
Estava reservado a Tubarão destruir as trevas acumuladas em torno do crime. Foi ele quem chamou a atenção da justiça sobre o comendador Portela, quem falou nos documentos deste, quem contou a intervenção de João Rosa, o motivo do ataque que sofreu Pedro Ruivo e, finalmente, o roubo cometido pelo Talha-certo, que Tubarão afirmou se achar naquele momento escondido em casa do Portela.
Talha-certo, com efeito, foi encontrado ali e conduzido imediatamente para a casa de correção. O Gonçalves reembolsou parte do dinheiro roubado; o ladrão e assassino foi condenado a galés perpétuas, e o Portela gramou quatro meses de prisão e multa correspondente, além de perder de todo a esperança de casar com Matilde, a rica pupila do boticário Moreira, a qual havia coisa de um ano deixara a casa de D. Januária, para acompanhar uma família conhecida da sua, que seguia para S. Paulo.
Bem previa Portela que os tais documentos ainda lhe haviam de dar água pela barba! O que causou grande impressão nos tribunais, foi a vida do marinheiro, contada por ele próprio, com toda a eloqüente singeleza da sua linguagem expressiva e grosseira.
Tubarão disse tudo o que sabia a respeito do seu saudoso comandante e falou em Clorinda, em Henriqueta e D. Januária. Esta circunstanciou o que havia a respeito de sua filha adotiva e relatou as particularidades da mesada, cuja suspensão coincidia com a morte de Leão Vermelho.
O conde pediu perdão a Clorinda por lhe haver tão violentamente arrancado o noivo dos braços, e disse que, daquele dia em diante, ela devia olhar para Gregório como para um irmão, pois que eram filhos do mesmo pai. Mas o marinheiro, com uma simples carta de Cecília, dirigida no Porto a Pedro Ruivo, provou que os dois moços nenhum parentesco tinham entre si e, na sua rude franqueza, patenteou a verdadeira procedência de Gregório.
Este compreendeu tudo, compreendeu que era filho do ladrão assassinado, e afastou-se do júri sumamente triste.
No dia seguinte, quando o velho Jacó, que acompanhava Gregório no palácio do conde de S.
Francisco na Tijuca, entrou de manhã no aposento do amo, encontrou-o morto e coberto de sangue. Ao lado, sobre o velador, havia uma carta dirigida ao dono da casa.
A carta explicava minuciosamente que Clorinda era a única pessoa que tinha direito a herdar os bens de Leão Vermelho.
Esta inesperada e nobre morte abalou o Rio de Janeiro. O processo havia já atraído sobre Gregório a atenção do público e ligado aos fatos românticos de sua vida a curiosidade dos homens e o voluptuoso interesse das mulheres.
Não se falou noutra coisa durante muitos dias.
Alguns meses depois do enterro, que foi deslumbrante, encontramos Teresa. Estava muito acabada, muito desfeita. Com a morte de Olímpia, que era o seu único socorro, ficou completamente ao desamparo. Andava tirando esmolas e rezava na porta das igrejas ajoelhada sobre as pedras da rua.
Às vezes viam-na dormindo nos degraus do convento da Ajuda.
Ninguém mais soube dar notícias do João Rosa, e consta que o Dr. Roberto continua a viver muito bem com a sua inalterável e moleirona esposa, que ultimamente o presenteou de uma só vez com dois pequenitos.
Júlia Guterres vendeu a Clorinda o seu chalezinho da Tijuca, e retirou-se para Niterói. Jacó acompanha a família do conde de S. Francisco, e, ao que parece ainda hoje vive.
Fonte: www.dominiopublico.gov.br